Presente de Grego, Entrega de Maroto (Marauders)

2 Onde a Magia Tira um Cochilo (Ou: Invasão no Círculo Polar)


Aparatar para coordenadas desconhecidas baseadas puramente em "vibrações mágicas residuais" e "confiança grifinória" não é uma ciência exata. É, na melhor das hipóteses, uma tentativa de suicídio chique.

O mundo girou, espremeu e cuspiu os quatro rapazes não com a elegância de um estalo, mas com o som úmido de quatro sacos de batatas caindo de um telhado.

Aí! — gritou Sirius, cuja aterrissagem foi amortecida pelas costelas de James.

— Saia de cima de mim, seu cachorro sarnento! — James empurrou o amigo, cuspindo um tufo de neve que tinha gosto de hortelã e ozônio.

Remus, irritantemente o único a cair de pé (embora cambaleando), sacudiu a neve das vestes com dignidade. Peter estava enterrado até o pescoço num banco de neve, apenas o nariz e as orelhas vermelhas visíveis, parecendo uma toupeira confusa.

— Estamos vivos? — perguntou Peter, a voz abafada pela neve.

— Definam "vivos" — murmurou Sirius, levantando-se e passando as mãos pelos cabelos para garantir que o penteado sobrevivera ao vácuo espacial. Ele olhou ao redor e assobiou. — Ok. Retiro o que disse. O Pontas é um gênio louco.

Eles estavam num pátio vasto, calçado com pedras de obsidiana que brilhavam sob a luz pulsante da Aurora Boreal. O céu era uma pintura viva de verdes e roxos, tão baixo que parecia possível tocá-lo com a ponta da varinha. Mas o que dominava a paisagem era A Casa.

Não era uma cabana fofa. Era uma fortaleza de madeira escura e pedra, uma mistura arquitetônica entre a Toca dos Weasley e o Castelo de Hogwarts, se ambos tivessem tomado esteroides e decidido morar na Sibéria. Havia torres tortas, chaminés que desafiavam a física e janelas de vitrais que, naquele momento, estavam escuras.

— Bem-vindos à Oficina — disse James, estufando o peito como se ele tivesse construído o lugar. — Vamos entrar. Tenho uma reclamação a fazer no SAC.

— James, espere — Remus segurou o braço dele. — Olhe para o portão.

O portão principal era maciço, feito de carvalho e ferro, com uma aldrava no formato de um rosto de leão (o que fez Sirius sorrir) que roncava. Literalmente. O portão estava dormindo. E, mais perturbador ainda: havia uma placa pendurada na maçaneta, escrita numa caligrafia elegante e antiga:

FECHADO PARA BALANÇO (E CRISE EXISTENCIAL). VOLTE NO SÉCULO QUE VEM.

— "Crise existencial"? — leu Sirius. — Ele roubou minha desculpa para não fazer o dever de Transfiguração.

— Isso é inaceitável! — James marchou até a porta. — Alohomora!

O feitiço bateu na madeira e ricocheteou, acertando Peter na testa, que caiu sentado na neve de novo.

— Proteções antigas — diagnosticou Remus, examinando a porta. — Magia de sangue, provavelmente. Ou magia rúnica nórdica. Não vamos conseguir abrir na força bruta.

— Quem disse que precisamos de força? — Sirius sorriu, aquele sorriso que geralmente terminava com McGonagall tirando cinquenta pontos da Grifinória. — Rabicho? É a sua hora de brilhar.

Cinco minutos depois, após Peter se transformar em rato, escalar uma calha congelada, entrar por uma ventilação e destrancar uma janela lateral do térreo, os Marotos estavam dentro.

O interior da Oficina do Papai Noel tinha cheiro de canela, serragem e... mofo?

— Que deprimente — comentou Sirius, a voz ecoando no salão cavernoso.

O lugar deveria estar zumbindo de atividade. Havia esteiras rolantes paradas, montanhas de brinquedos semi-acabados (cabeças de bonecas sem olhos, vassouras de brinquedo sem palha) e, o mais estranho de tudo: os elfos.

Eles não eram como os Elfos Domésticos de Hogwarts. Eram menores, usavam macacões de flanela xadrez e barbas trançadas. E estavam todos... de folga. Um grupo estava sentado em cima de uma pilha de trenzinhos de madeira, jogando Snap Explosivo. Outro estava dormindo dentro de uma casa de bonecas vitoriana.

— Com licença? — tentou Remus, educado. — Senhores Elfos?

Um elfo com um tapa-olho e um charuto (apagado) na boca olhou para eles, desinteressado.

— Fechado, garoto. O Chefe surtou. Voltem para a cama.

— Nós não somos crianças comuns! — James adiantou-se. — Eu sou James Potter, e estes são...

— Não ligo — o elfo cortou, voltando a embaralhar as cartas. — A menos que você tenha uma garrafa de Hidromel Envelhecido ou um terapeuta para o Chefe, suma daqui. Ele está no Escritório Principal. Torre Norte. Cuidado com os ursos polares de guarda. Eles não comem há três horas.

Os Marotos trocaram olhares.

— Ursos polares de guarda? — Peter guinchou.

— Provavelmente um exagero — disse Sirius, já caminhando em direção à escadaria espiral. — Vamos. Quero ver a cara do homem que ousou deixar Sirius Black sem seu presente.

A subida foi longa e cheia de objetos curiosos que "acidentalmente" caíram nos bolsos de Sirius e James (uma bola de cristal que nevava dentro, um pião que cantava ópera e um punhado de doces que faziam o comedor flutuar).

Finalmente, chegaram a uma porta dupla de madeira avermelhada no topo da torre. Não havia guardas, apenas o som abafado de música clássica bruxa (algo triste, com violoncelos) vindo de dentro.

James não bateu. Ele empurrou as portas com as duas mãos, dramaticamente.

Parem as máquinas! — gritou James. — A auditoria chegou!

A cena que os recebeu não era a de um velhinho fofo verificando listas.

O escritório era uma bagunça magnífica de pergaminhos, globos terrestres flutuantes e canecas sujas. A lareira estava apagada, o que deixava o cômodo gélido. E, sentado numa poltrona de couro puído, de costas para eles, olhando para a janela que dava para a noite eterna, estava um homem.

Ele girou a poltrona lentamente.

Não usava gorro. Seus cabelos eram brancos como a neve lá fora, longos e desgrenhados, caindo sobre ombros largos cobertos por um roupão de veludo verde-musgo (não vermelho). Ele tinha uma barba que faria Dumbledore chorar de inveja, mas estava manchada de vinho. Em uma mão, segurava um copo de cristal com um líquido âmbar; na outra, uma varinha grossa e nodosa, que parecia feita de um galho de pinheiro ancestral.

Ele olhou para os quatro adolescentes invasores com olhos azuis penetrantes, mas incrivelmente cansados.

— Grifinórios — disse o homem, a voz profunda como o estalo de uma geleira. — Tinha que ser Grifinórios. Sonserinos mandariam uma carta com veneno. Lufanos enviariam biscoitos. Corvinais estariam analisando a falha logística. Mas Grifinórios? Vocês invadem minha casa às quatro da manhã.

— Você é um bruxo! — exclamou Peter, apontando o dedo.

— E você é um animago não registrado com tendências covardes, o que é o meu ponto — o homem tomou um gole da bebida. — Sou Klaus. Nicolau. O cara dos presentes. O Santo. O bobo da corte do inverno.

— Klaus — James deu um passo à frente, tentando recuperar a autoridade. — Escute aqui. Nós respeitamos seu trabalho, sério. Mas você "desligou" o Natal. Tem crianças chorando. Tem... — ele apontou para Sirius — ...adolescentes dramáticos achando que não foram amados. Qual é o problema? O trenó quebrou? As renas estão com gripe aviária? Nós podemos consertar.

Klaus riu. Foi um som seco, sem alegria.

— Consertar? Vocês acham que isso é mecânico, garoto Potter? — Klaus levantou-se. Ele era enorme, quase um meio-gigante. Ele caminhou até uma prateleira empoeirada. — Eu faço isso há mil e duzentos anos. Eu vi impérios caírem. Eu vi a invenção da pólvora, da internet e do fidget spinner. Eu entreguei bilhões de brinquedos.

Ele se virou, os olhos faiscando com uma mágoa antiga.

— E em mil e duzentos anos... sabem o que eu ganhei?

Os Marotos ficaram em silêncio. Remus arriscou:

— Biscoitos?

Massa e açúcar! — Klaus rugiu, fazendo os globos flutuantes tremerem. — Biscoitos que engordam! Leite que me dá gases! Cenouras para as renas! Mas para mim? Para Klaus? Nada. Nunca. Ninguém nunca pensou: "Ei, o velhinho mágico talvez queira um par de meias novas. Ou um livro. Ou um abraço que não seja de um elfo bajulador".

Ele jogou o corpo de volta na poltrona, derrotado.

— Eu cansei. A magia do Natal é uma via de mão dupla, rapazes. Ela precisa de gratidão, de troca. O tanque esvaziou. Eu sou apenas um entregador glorificado de uma sociedade consumista. Este ano, o Natal está cancelado porque o Papai Noel está deprimido. E agora, se me dão licença, vou beber meu Hidromel e ouvir Celestina Warbeck choramingar no rádio. Saiam da minha propriedade.

O silêncio reinou no escritório. Sirius, pela primeira vez na vida, parecia não ter uma resposta sarcástica. Ele olhou para Klaus, sozinho naquela torre fria, e depois olhou para James.

James Potter olhou para os amigos. Ele viu a compreensão nos olhos de Remus (que entendia de solidão) e a empatia surpreendente nos olhos de Sirius (que entendia de rejeição familiar).

— Ele tem um ponto — sussurrou Sirius. — Nós somos uns ingratos. Eu nunca deixei nada pra ele além de biscoitos mordidos.

— Então não vamos sair — disse James, alto o suficiente para Klaus ouvir.

Klaus ergueu uma sobrancelha espessa.

— Eu posso transformar vocês em enfeites de árvore num estalar de dedos.

— Pode — concordou James, tirando a varinha, mas não para atacar. Ele a girou nos dedos. — Mas você está cansado. E triste. E honestamente? Você precisa de férias, Klaus. Mas o mundo precisa do Natal.

James sorriu, e aquele sorriso era o mesmo que ele usava antes de uma partida de Quadribol impossível.

— Você disse que é uma via de mão dupla. Ok. Nós vamos fazer um trato. Você senta aí, bebe seu negócio e reclama da vida. Nós? — James apontou para os Marotos. — Nós vamos entregar essa tralha toda por você.

— Vocês? — Klaus bufou. — Quatro moleques que nem terminaram os NOMs? Vocês vão morrer na primeira curva sobre o Atlântico.

— Nós somos os Marotos — disse Sirius, recuperando a arrogância, estufando o peito ao lado de James. — Nós conhecemos cada passagem secreta de Hogwarts. O mundo é só um castelo maior.

— Além disso — acrescentou Remus, com um sorriso tímido —, o James é muito bom em voar. E eu sou muito bom em logística. E o Sirius... bem, ele é bom em gritar.

— Ei! — protestou Sirius.

— Nós fazemos a entrega — James finalizou, estendendo a mão para o gigante barbudo. — E quando voltarmos, nós daremos a você o melhor Natal que você já teve. É uma promessa de Maroto. E nós nunca quebramos essas. (Exceto as de não sair da cama à noite).

Klaus olhou para a mão estendida de James. Depois para os rostos esperançosos e levemente insanos dos rapazes. Uma faísca, muito pequena, acendeu no fundo de seus olhos azuis.

— Se vocês baterem meu trenó — Klaus avisou, a voz grave —, vocês vão limpar as renas pelo resto da eternidade.

James sorriu mais largo.

— Fechado. Onde estão as chaves da carruagem?