Presente de Grego, Entrega de Maroto (Marauders)
1 A Grande Vigília da Lareira (Ou: Onde Diabos Está o Velho?)
A Torre da Grifinória estava mergulhada naquele silêncio profundo e aveludado que só a neve de Hogwarts conseguia produzir. Eram três da manhã da véspera de Natal. A lareira do Salão Comunal, agora reduzida a brasas bruxuleantes que estalavam ocasionalmente, iluminava quatro figuras amontoadas sob um forte de cobertores e embalagens de sapos de chocolate vazias.
Ou melhor, três figuras amontoadas e uma figura andando de um lado para o outro com a energia nervosa de um Furaranzinze.
— Ele não vem — declarou Sirius Black, jogando-se dramaticamente sobre o sofá de veludo vermelho, as pernas penduradas sobre o braço do móvel. Seus cabelos negros caíram sobre os olhos, compondo a imagem perfeita do tédio aristocrático. — Aceitem, rapazes. Fomos colocados na lista dos travessos. O velho sabe sobre o incidente com a Lula Gigante e o xampu de tintura rosa.
James Potter, que estava agachado perto da lareira ajustando um fio de nylon quase invisível, bufou, ajeitando os óculos tortos.
— Não seja ridículo, Almofadinhas. O Papai Noel é uma entidade mágica de benevolência infinita. Ele não liga para lulas rosas. Além disso, tecnicamente, nós melhoramos a estética do lago. — James puxou o fio, testando a tensão. — O plano é infalível. Assim que ele descer pela chaminé, o pé dele vai tocar no fio, acionando a Bomba de Bosta de efeito retardado, o que nos dará exatamente três segundos para tirar uma foto dele tossindo fumaça verde. Vai ser o cartão de natal dos Marotos do ano que vem.
Remus Lupin estava sentado no chão, encostado na poltrona, com um livro grosso de Feitiços Avançados aberto no colo, embora ele não tivesse virado uma página na última hora. Ele parecia exausto, mas resignado, como uma mãe que sabe que não adianta mandar os filhos para a cama.
— Pontas — disse Remus, com a voz rouca de sono —, você considerou a possibilidade de que o Papai Noel, sendo um bruxo ou entidade mágica superior, saiba como evitar um fio de nylon trouxa amarrado num atiçador de lareira?
— É por isso que é genial, Aluado! — James se virou, os olhos brilhando com aquela mania insana que geralmente precedia uma detenção. — Ele espera proteções mágicas. Ele espera feitiços de Homenum Revelio. Ele não espera uma armadilha física. É a beleza da simplicidade!
Peter Pettigrew, que estava cochilando abraçado a uma almofada, acordou com o grito sussurrado de James.
— Ele já chegou? — Peter perguntou, limpando um fio de baba do canto da boca e olhando para a chaminé com olhos arregalados. — Eu quero ver se ele trouxe minhas Dedosdemel.
O relógio de pêndulo no canto da sala bateu as três e meia. O som ecoou pelo salão vazio como um julgamento.
Nada. Nem um pio. Nem fuligem caindo. Nem o som de cascos no telhado.
Sirius sentou-se, a postura dramática dando lugar a uma carranca genuína. Ele olhou para a pilha de biscoitos que tinham deixado na mesinha de centro. O leite estava quente graças a um feitiço de aquecimento constante de Remus, mas a nata já estava criando uma película nojenta.
— Ok, agora é pessoal — disse Sirius. — Já passou da hora crítica. Segundo meus cálculos baseados nos fusos horários e na rotação da Terra, que eu copiei da lição de Astronomia do Aluado, ele já deveria ter passado pela Escócia há quarenta minutos.
— Talvez ele esteja atrasado — sugeriu Peter, incerto.
— O Natal não atrasa, Rabicho — retrucou James, a confiança começando a trincar. Ele puxou um pergaminho velho do bolso do pijama. — Juro solenemente que não vou fazer nada de bom.
A tinta se espalhou pelo Mapa do Maroto, revelando os corredores de Hogwarts. Filch estava patrulhando o terceiro andar com Madame Nor-r-r-a. Dumbledore estava em seu escritório, andando em círculos (o que era normal). Mas no Salão Comunal, apenas quatro pontinhos rotulados Aluado, Rabicho, Almofadinhas e Pontas. Nenhum ponto rotulado "Nicolau", "Papai Noel" ou "Velho Barbudo Invasor".
Remus fechou o livro com um baque seco. Ele se levantou e caminhou até a janela alta em arco que dava para os jardins. Ele limpou o vidro embaçado com a manga do suéter puído e olhou para fora.
— Pessoal... — A voz de Remus mudou. Não era o tom de "vocês vão se meter em encrenca". Era o tom de "algo está fundamentalmente errado".
Os outros três correram para a janela.
Lá fora, a paisagem estava congelada. Não no sentido poético de inverno, mas num sentido literal e antinatural. Os flocos de neve, que caíam suavemente desde o jantar, estavam parados no ar. Suspensos. Milhões de pontinhos brancos flutuando imóveis, como se o tempo tivesse engasgado.
A lua cheia (felizmente distante para Remus naquele mês) iluminava um mundo estático. Não havia vento. As árvores da Floresta Proibida não balançavam. A magia do ar parecia ter sido desligada da tomada.
— Isso não é normal, certo? — Peter guinchou. — A neve parou.
— A neve não parou de cair, Peter — corrigiu Sirius, a voz baixa, os olhos cinzentos fixos na anomalia. — Ela travou. Olhem. Nada se mexe.
James abriu a janela. O ar gélido entrou, mas não havia brisa. Ele estendeu a mão e tocou um floco de neve suspenso bem na frente do seu nariz. O floco não derreteu. Parecia feito de vidro.
— A Magia do Natal — sussurrou James. Ele olhou para os amigos, a expressão de travessura substituída por uma seriedade de auror. — Meu pai me disse uma vez... que o Natal tem uma assinatura mágica própria. É o que permite que as lareiras se conectem, que o tempo se distorça para as entregas... Essa estática no ar? Ela sumiu.
— É como se alguém tivesse puxado o freio de mão do feriado — completou Sirius. Ele puxou a varinha das vestes. — Accio Presentes!
Nada aconteceu.
— Você achou mesmo que ia funcionar? — Remus ergueu uma sobrancelha.
— Valia a tentativa. Mas isso prova meu ponto. A "Rede de Entregas" caiu. — Sirius virou-se para eles, um brilho perigoso voltando aos olhos. — O Papai Noel não está atrasado, James. Ele parou. O Natal foi cancelado.
Houve um segundo de silêncio horrorizado. Para quatro adolescentes de 16 e 17 anos, a ideia deveria ser ridícula. Mas eles eram Marotos. O ridículo era o combustível deles.
— Eu não aceito — disse James, firme. Ele correu para o malão dele no canto do dormitório (que eles tinham descido para a sala) e começou a revirar roupas. — Eu me recuso a viver num mundo onde não recebo minha capa de vassoura nova por incompetência logística.
— O que você vai fazer? — perguntou Remus, embora já estivesse calçando as botas. Ele conhecia James.
— Nós vamos investigar.
— James, nós estamos em Hogwarts. O Polo Norte fica, geograficamente falando, muito longe para ir a pé, e não temos permissão para sair — argumentou Remus, mas já estava pegando sua própria varinha.
— Detalhes, Aluado! — James emergiu do malão segurando algo que parecia um tecido prateado fluido. A Capa da Invisibilidade. — O rastro mágico sumiu aqui, mas deve ter deixado um eco. Se a magia parou de fluir para cá, ela deve ter recuado para a fonte.
— A fonte sendo o Polo Norte — concluiu Sirius, um sorriso lupino rasgando seu rosto. — Uma viagem de campo. Adoro.
— Mas como vamos chegar lá? — Peter perguntou, tremendo. — As renas não vêm nos buscar.
James parou, segurando a Capa. Ele olhou para Sirius. Sirius olhou para James. Uma comunicação silenciosa e aterrorizante passou entre os dois melhores amigos.
— Aparatação — disseram em uníssono.
— Vocês não têm licença! — Remus protestou, a voz subindo uma oitava. — E Hogwarts tem proteções anti-aparatação! E o Polo Norte não tem coordenadas fixas, é inplotável! Vocês vão estrunchar metade dos seus corpos na Noruega e a outra metade na Groenlândia!
— Detalhes, detalhes e mais detalhes — James dispensou com um aceno de mão. — Primeiro: saímos pelo túnel da Bruxa de Um Olho Só até a Dedosdemel. Estamos fora das proteções do castelo. Segundo: usamos o feitiço de rastreamento Vestigium que aprendemos na seção restrita para seguir o "vácuo" de magia deixado pelo Papai Noel. Terceiro: A aparatação conjunta. Se nos segurarmos, a magia de quatro bruxos deve estabilizar o salto.
— Isso é a coisa mais estúpida, imprudente e suicida que já ouvi — disse Remus. Ele suspirou profundamente, pegou um punhado de biscoitos da mesa e enfiou no bolso. — Peguem os casacos pesados. Vai estar frio lá.
James sorriu, aquele sorriso que iluminaria um estádio de Quadribol.
— Senhores — James jogou a Capa da Invisibilidade sobre os ombros de Peter e fez sinal para os outros se aproximarem. — O Papai Noel nos deu um bolo. Nós vamos até a casa dele cobrar satisfações. Rabicho, pegue o mapa. Aluado, traga o chocolate. Almofadinhas, pare de posar para a parede invisível e vamos. A Operação Resgate do Natal, ou "Operação Onde Está Meu Presente", começa agora.
Eles se espremeram sob a capa, quatro pares de pés (dois calçados, dois ainda de pantufas porque Sirius esqueceu de trocar) desaparecendo no ar. A lareira estalou uma última vez, morrendo no silêncio do salão, enquanto a porta do retrato da Mulher Gorda se abria misteriosamente para o corredor escuro e congelado.
Os Marotos estavam à solta, e o Polo Norte não sabia o que estava prestes a atingi-lo.
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