Presa
1 Capítulo Único
Notas iniciais
— Por favor, pare com isso... — As lágrimas voltavam a rolar por seu rosto inchado e vermelho, brotando incessantemente de seus olhos já debilitados de tanto sal.
— Por que deveria? — Sorria de uma maneira que deveria ser considerada sádica para tal ocasião. Foi-se aproximando devagar para não assustar a criatura chorosa que se comprimia de parede em parede do banheiro pequeno tentando fugir da louca vontade maníaca daquele de voz persuasiva. — Temos que faz isso alguma hora. E eu quero muito que seja agora.
A criaturinha soltou um grito agoniante, apertando a cabeça de cabelos emaranhados e despenteados entre as mãos. Era pequena, magrela e muito feia, mais feia ainda quando chorava. Mas nada disso importava para aquele que se aproximava. Ele tinha apenas um objetivo e tinha que cumpri-lo de forma mais eficiente possível.
— Vamos lá... — O monstro continuou com uma voz mais amável, tentando acalmar a doce, mas nem tão adorável, criança que selvagemente o observava entre a teia de fios castanhos jogados propositalmente sobre o rosto. — Abra a boca que acabará rapidamente, eu prometo.
— Você prometeu a mesma coisa da última vez. E da outra, e da outra. — Cruzou as mãos trêmulas sobre os lábios, mantendo o maxilar o mais firme e cerrado que podia. — Não quero mais isso, eu sei que vai doer, sempre dói!
— As outras vezes serviram para nos ensinar a hora certa de agir. — Ajoelhou-se — Agora tanto eu quanto você estamos mais maduros, mais treinados, estamos prontos. Abra a boca.
O aceno rápido e quase imperceptível em sinal negativo vindo daquele corpo já sem forças foi o suficiente para irritá-lo, afinal, já estavam naquilo há pelo menos três horas. Agarrou os pulsos magros (sem deixar de notar a pequena mancha mais escura que marcava um deles, a mesma que o preocupara tanto dez anos atrás), segurando-os firmes com uma mão, e com a outra sacudindo o queixo endurecido na expectativa de fazê-lo ceder.
— Abra, abra logo! Será que precisarei bater em você mais uma vez? — Mesmo que nunca batera na criança, a ameaça sempre apresentava resultados eficientes. — Vou precisar cortar os doces e todas as outras coisas gostosas?
Lamúrias chorosas ecoavam dentro dos lábios comprimidos e rachados. O (minúsculo para sua idade) indivíduo apenas abriu sua boca, supostamente obediente, para soltar uma resposta agressiva, nunca calava a maldita boca por mais que alguns minutos. Nem mesmo quando dormia.
— Não me importo! Não consigo comer de qualquer maneira mesmo!
— Então, por Deus, me deixe tirar de você!
— Não!
— Poderá comer, lamber, beber e mastigar de tudo depois.
— Vai doer muito, por bastante tempo...
— Serei delicado. Meus dedos serão tão suaves que nem irá sentir.
— Vai sangrar também. Tem gosto de feijão velho aquela coisa!
— Tamparemos o buraco com um paninho.
— Prefiro algodão.
Estamos chegando a algum lugar, finalmente, pensou o responsável e afável cuidador soltando a pressão naquela pele branquela e arranhada. Estava na família há anos, de qualquer forma. Sabia como lidar com pirralhos teimosos como aquela coisa que, por Deus, chamavam de humano.
— Sim, pode ser com algodão. Do azul.
— Jura? Juradinho? Mesmo?
— Mas é claro. — Esboçou um sorriso, desta vez de verdade. A graça de tomar a força aquilo já havia passado.
— Então eu deixo.
Esfregou o rosto, já lá meio sujo com pasta de dentes branca sabor menta, e afastou as lágrimas. Abriu sua boca e espremeu os olhos, já esperando o iminente e inadiável sacrifício. O mais velho enfiou seu polegar e indicador lá dentro, apreciando a boa limpeza que fizera. O segredo é ser rápido e indolor, repetiu para si mesmo. Respirou fundo, sentindo a criança fazer o mesmo e num rápido movimento agarrou seu futuro espólio e puxou com toda sua força.
— Já acabou? — perguntou impacientemente a criança com as palavras cortadas pelos dedos ensanguentados em sua boca. — Eca! Feijão velho!
O adulto riu, e trouxe para o mundo o molar de leite que tanto sofrera para cair. A verdade era que ao tocar o dente desprendera-se sozinho, mesmo que tenha sangrado tanto quanto os outros que foram arrancados. Após um bochecho de água morna por causa do rígido inverno e um pedacinho de algodão azul, a noite seguiu tranquilamente.
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