Prendada
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Era todas as noites o mesmo.
O ritual, mesmo que não imposto, à muito que se repetia.
A noite começava com Éponine chegando e sentando — se numa daquelas malditas cadeiras de pau. Ficava sentada até Javert terminar as suas obrigações para com a pátria e chegar em casa. Ele chegava por volta das dez e entrava sem nem olhar para ela. Tomava um banho rápido e vinha instalar — se no colchão que tinha na pequena sala, puxando — a para perto dele e pondo — lhe um livro na mão.
Era surpreendente como alguém tão rico e influente possuía apenas uma casinha tão pequena. Arrumada, porém pequena. Isso deixava Éponine intrigada.
Ele tinha dezenas de livros! Todas as noites Éponine lia um. Às vezes ficava lendo até de madrugada e outras vezes levava mais do que uma única noite para terminar a história.
Não sabia porque Javert gostava tanto que ela lê-se para ele. Tinha uma voz rouca e falha, não conhecia o significado da maioria das palavras dado o seu limitado vocabulário e conhecimento, era grossa e errava muitas vezes. Ainda assim ele nunca reclamava. Nem uma única vez. Apenas gostava de a ouvir ler para ele.
Tão jovem e tão bonita, parecia uma flor.
Tinha começado com um favor. Ela tinha ido até ele para que a ajudasse. Andava sendo perseguida por alguns homens que a queriam tocar e tirar — lhe a sua inocência.
Ele livrara — se deles. Aliás, fizera mais! Começara a convidar Éponine para comer com ele. Desde a primeira noite que lhe pedia que lê — se um pouco.
«Tinham acabado de comer uma canja de galinha que, para surpresa da morena tinha mesmo galinha.
A lenha da lareira crepitava no fogo.
– Sabes ler? — Ele perguntou gentilmente.
– Sim. — Respondeu Éponine desconfiada.
Ele levantou — se e desapareceu no interior da casa voltando com um livro nas mãos. "A Bela e o Monstro" ela pode ler na capa. Ele entregou — lho.
– Queres ler?
Ela pareceu continuar desconfiada mas mesmo assim pegou nele e começou a ler.»
Mais tarde, quando os livros se tornaram maiores ela começou a adormecer ao seu lado e ele permitia — lhe passar lá a noite, sentindo — se até feliz com isso. Quando ela acordava à muito que ele tinha ido. De vez em quando ele comprava — lhe roupas novas e surpreendia — a com um pequeno — almoço (N/a: é o mesmo que café da manhã) preparado.
Ele raramente falava com ela. E quando o fazia, nunca era sobre ele ou a sua vida. O porquê de estarem ali.
Às vezes dizia que ela era uma rapariga inteligente e bonita.
Prendada. Era esse o adjetivo que Javert utilizava para a descrever. Ela gostava de o ouvir chamar — lhe isso, ele parecia sincero quando o dizia. Mas ele também dizia que ele iria casar com alguém decente um dia.
Mas isso nunca aconteceu.
Ela começou a desejar que ele lhe tocasse. Sabia que era errado mas se ele lhe pedisse ela iria consentir.
Estava se a enganar, a criar ilusões. E quanto mais ilusões mais erros e desilusões.
Uma manhã ele foi e não voltou. Nessa noite ela ficou sozinha. E em todas as outras depois dessa.
Um dia chegou uma carta. Javert deixara — lhe a casa e todos os bens e dinheiro que possuía.
Conseguiu arranjar trabalho como professora num orfanato. Nessa altura sentiu — se agradecida àquele homem que lhe tinha dado uma casa e a possibilidade de possuir uma vida honesta. Ensinara — lhe a fazer cálculos e treinara — a na arte da leitura e da escrita, coisas que lhe possibilitaram arranjar o emprego.
Conseguiu dar uma vida a Azelma e a Gavroche, levando — os para viver com ela e pagando — lhe os estudos. Mais tarde quando ambos casaram levou alguns meninos do orfanato para viver com ela e enganar a solidão. Quando morreu deixou — lhes o mesmo que Javert lhe deixara a ela: uma vida.
Notas finais
Beijos.
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