Premonição - Sete de Setembro
1 01: Em Marcha
07 de Setembro de 2017.
Breno olhava da janela de seu quarto para as nuvens cinzas que cobriam quase toda a extensão do céu e pensava consigo mesmo se realmente devia ir à Marcha de Sete de Setembro tão esperada por seus amigos e que, provavelmente, viria a ser interrompida e arruinada pela chuva que não tardaria a cair.
— Está pronto? — Alguém o tirou dos pensamentos, chegando até a porta do seu quarto. Breno nem precisou encará-lo para reconhecer a voz sendo como a de Mitchel, seu melhor amigo.
— Para me molhar? — Breno respondeu com outra pergunta, virando-se para o colega e deixando visível sua cara de desânimo. Mit bufou. — Olha só aquelas nuvens, cara... Aposto que daqui a meia-hora não vai haver mais Marcha, apenas um bando de idiotas correndo da chuva pelas calçadas!
— "Já terminou, Jéssica"? — Mitchel ironizou e Breno revirou os olhos. — Vamos logo, tá todo mundo te esperando lá fora!
— Mas...
E antes que pudesse pensar numa desculpa, Breno viu o amigo entrar em seu quarto e sair o empurrando para fora.
— Às vezes eu acho que a minha bisa de 85 anos é mais animada que você, sabia?
*
— Isso realmente tem necessidade? O local da Marcha não fica tão longe daqui, podíamos muito bem ter ido andando! — Lisa dizia, se sentindo toda espremida no banco de trás do carro de Mit, dividindo espaço com Evelyn, Dan e André. Esse último, por sua vez, era o comilão da turma e na ocasião encontrava-se devorando uma coxinha que transbordava ketchup. Ao seu lado, Evelyn quase tinha um ataque de pânico quando as mãos sujas de ketchup de André passavam raspando seu vestido novo.
— Quer um pouco? — Ofereceu o colega com a boca cheia o restante do salgado, deixando Evelyn ver todo o conteúdo triturado entre os seus dentes. Ela segurou o vômito.
— Eu passo. A propósito, Lisa... — comentou, virando-se para a amiga do seu outro lado. — Não quer trocar de lugar comigo? Você irá ficar mais perto do seu namoradinho...
— Acho que vou aceitar para me livrar dessa mão boba do Dan, que NÃO SAI DA MINHA COXA!
— Foi mal! — O primo de Evelyn dissera, arqueando os braços. — É instinto masculino...
— "instinto masculino" seria meu soco na cara desse folgado se fizesse isso comigo! — Evelyn retrucou.
— E porque eu faria isso com você? — Dan a olhou com desinteresse. — Somos primos! Além do mais, nem te acho "pegável"...
— COMO É? Tá me chamando de feia? — Antes que o rapaz pudesse responder, sentiu as mãos da garota atingirem suas partes íntimas com brutalidade. — Tá aí o seu "pegável"!
Dan ficou a se contorcer de dor, enquanto Lisa sentia-se ainda mais espremida. Evelyn se movimentou para voltar ao seu lugar e sem querer esbarrou as costas na coxinha que André comia, fazendo um borrão vermelho no seu vestido.
— Ai meu pai! Dei toda a minha dignidade pra parcelar esse vestido e nem consigo chegar na festa com ele intacto!
Dos bancos da frente, Mitchel e Breno riam silenciosamente da confusão que acontecia na parte de trás quando Mit deparou-se com um grande congestionamento que tomava conta das ruas dali em diante e reduziu a velocidade de seu carro.
— Parece que tava certa em sugerir que viéssemos a pé, amor... — alegou para Lisa, que revirou os olhos.
— Não me diga? — ela foi sarcástica, sentindo-se como um jornal depois de prensado entre Evelyn, que não parava de mexer no vestido, e Dan, que ainda sentia dor nas partes baixas e por isso se contorcia pra todo lado.
O carro estava praticamente parado quando Mitchel suspirou, impaciente, e ligou o som para tentarem se distrair. Na rádio local, Som Mortal, tocava (Don'tFear) The Reaper, de Blue Öyster Cult.
Seasonsdon'tfearthereaper[As estações não temem o ceifador]
Nor do thewind, thesunortherain [nem o vento, o sol ou a chuva]
Andwecanbelikethey are [E nós podemos ser como eles são]
Come on baby (don'tfearthereaper) [Venha querida (Não tema o ceifador)]
[...]
Mitchel e Breno se entreolharam meio confusos. Mitchel desviou a atenção do transito mais uma vez para buscar por algo melhor na rádio, mas os canais que se sucederam foram todos tomados por estática.
Breno olhou para a estrada e viu que o carro deles quase batia na traseira de um caminhão de cerveja da Hice Pale Ale à sua frente. Rapidamente ele advertiu o colega no motorista do que estava para acontecer e Mit freou bruscamente, parando antes da colisão.
— Acho melhor irmos à pé. — sugeriu levemente em choque enquanto era fuzilado por todos os colegas no carro, que estavam assustados.
*
Nas areias da praia da cidade uma enorme multidão se encontrava rente a alguns grupos de Marcha, que se preparavam para o desfile. Alguns fogos de artifício já explodiam no céu, avisando aos atrasados de plantão que o show começaria logo.
O grupo de amigos acabava de entrar na extensão da praia, onde Lisa cessou os passos e logo se pôs a caçar com os olhos um lugar legal para que ela e os colegas pudessem acompanhar o evento sem perder nenhum acontecimento.
— Tenho que ir para o meu posto! — Dan se deu conta.
— Que posto? — Breno o encarou desentendido. — Por acaso, você agora é frentista?
— Não, mané... Vou trabalhar aqui como um dos organizadores da marcha! — explicou. — Serei responsável pelos fogos de artifício!
— Corrigindo: será responsável por vigiar a cabana onde os fogos estão guardados. — Mit disse, baixando a bola de Dan.
— Vejo vocês depois! — se despediu, pondo-se a afastar.
Lisa se voltou à Evelyn e André, que assim como ela, vasculhavam os arredores em suas buscas particulares.
— Já encontraram um bom ponto para ficarmos? — perguntou.
— "ponto pra ficarmos"? Quem liga pra isso? Tô caçando é o professor Kleber! — O tom da garota ficou todo apaixonado. — Ele disse que viria, é a minha chance de agarrá-lo bêbado e ver se ele é tudo o que aquelas piranhas dizem pelos corredores da escola...
— Você é insana, Evelyn! — Lisa reconheceu, rindo da amiga.
— No amor vale tudo, mana. Agora vou caçar meu bofe! — ela acenou com um tchau para Lisa e saiu andando pela multidão. Antes de sumir entre desconhecidos, apenas fitou a colega para terminar: — Se me vir transando por aí, tira umas fotos pra mim! Costumo sair desses eventos tão bêbada que nem me recordo das coisas que faço.
Neste instante, uma aeronave que faria parte do show de aviação da marcha passou em alta velocidade pelo céu — numa altura relativamente baixa — e assustou Breno com o som estrondoso que fez. Ele encarou Mitchel, que acompanhava o avião com os olhos.
— Será que é o Iago? — escutou a pergunta do amigo direcionada a ele.
— Pela quase tentativa de suicídio, tenho plena convicção!
Lisa logo se voltou à André.
— Ainda nada, André?
— Não, nem sinal de alguma barraca de cachorro-quente!
— Quê? Se tá caçando é comida? — questionou Lisa, estupefata.
— Lisa, uma boa vista da marcha não vai encher a minha pança! — ele rebateu, deixando os demais para buscar alguma lanchonete. A garota bufou.
Breno olhava ao redor quando viu dois funcionários uniformizados passando com um enorme tanque de propano sobre um carrinho de ferro. O moço não conseguiu ignorar o grande símbolo de inflamável que se destacava na lateral do cilindro.
— Onde vamos colocá-lo? — Um dos homens perguntou ao outro.
— Vamos deixá-lo na cabana junto aos fogos. — O outro atestou e eles logo sumiram na multidão.
De repente, o som irritante de um microfone com interferência se tornou audível. O diretor responsável pela Marcha tomou a palavra, preparando o público para o início do show. Lisa entrou em desespero após notar que nem mesmo os marchadores ela conseguia ver de onde estava. Se não se apressassem, perderiam a abertura da festa.
— Venham comigo, vi um bom lugar de observação! — Mitchel contou, saindo acompanhado pela namorada e o melhor amigo.
O trio andou aproximadamente dez metros e parou próximo da onde alguns profissionais soltavam pequenas doses de fogos de artifício. Por conta de segurava, as pessoas ficavam mais afastadas dali, mas o ponto era ótimo para acompanhar o andamento do evento: podia-se ver claramente as marchinhas passando mais abaixo, próxima à borda da praia, e também não tinha nada ocultando o caminho para a apreciação dos aviões de uma esquadrilha de fumaça do exército que mais tarde cortariam o céu.
Tambores começaram a soar, chamando toda a atenção dos espectadores para a comporta por onde passariam os marchadores. Breno estava virando-se rumo a tal quando, de relance, viu sua ex namorada acompanhando a abertura alguns metros a sua frente.
— Nina? — perguntou incrédulo, aproximando-se dela. Ao voltar a ele, a moça sorriu. Estava na companhia do seu irmão caçula, a qual mantinha atado em si por um abraço.
— Breno! Há quanto tempo! — exclamou, animada.
— Não é? Parece que não nos vemos há anos! — disse. — Como estão o senhor Omar e a dona Judite?
— Muito bem, e ainda falam que você foi o futuro noivo que eu jamais vou achar em outro homem... Eles só não sabem que você era... é... bem, você sabe...
— Ainda não contou pra eles?
— Tá louco? Se souberem que meu primeiro e único namorado até agora era um gay eu morro do coração!
— Hehe... — Breno coçou os cabelos, sem graça. — Desculpa, eu realmente não sabia que "não gostava da fruta" quando estávamos juntos...
— Bom, pelo menos te ajudei a sair do armário! — E ambos riram.
*
A alguns metros da cabana que vigiava, Dan encontrava-se aguardando pela saída da primeira patrulha quando alguém tocou em suas costas.
— Aqui! — ele se virou e viu um homem entregá-lo um latão de gasolina. — Pediram que guardasse isso na cabana. Ah, e encontre algo para tapar a boca dele porque a tampa está furada!
— Pode deixar. — O moço sorriu e o outro foi embora. Dan então bufou. — Que chatice! Nunca mais me candidato pra participar dessas porcarias! Achei que o lance aqui ia ser "seja visto como um bom samaritano trabalhador e receba muitas gatinhas", mas o tiro saiu pela culatra...
Prestes a encaminhar-se à cabana, o rapaz escutou alguém chamar o seu nome e se virou curioso para a multidão. De lá, viu os acenos de sua ex enquanto ela vinha de encontro consigo. Rapidamente, tratou de esconder o pote com a gasolina, colocando-o no chão atrás de seus pés e chutando-o para longe. O latão tombou de lado e o líquido inflamável começou a vazar pela tampa, iniciando uma trilha que seguia diretamente para a porta da cabana.
— Samara! — exclamou sorridente, vendo a ex chegar bem a sua frente e cuspir parte da fumaça do cigarro que tragava em sua cara. — O que faz aqui?
— O que VOCÊ faz aqui, afastado de todo mundo? Por acaso está aos trancos e barrancos com alguma piriguete?
— Bem que eu queria...
— O quê? Como pode fazer isso? Terminamos na semana passada! — A garota então fitou a cabana atrás de Dan. — É lá que a vadia está escondida nua? Deixa eu pôs as mãos na cara dela...
Samara jogou o resto do cigarro ao chão e saiu em disparada para o barraco e Dan, revirando os olhos, tratou de segui-la.
— Quanto mais eu rezo, mais diabo me aparece!
Sem que os dois vissem, a leve brisa de vento frio que açoitava a região começou a carregar o cigarro rumo à trilha de gasolina, que por sua vez já se encontrava no interior da cabana, contornando o tanque de propano.
*
Pré-liberando a marcha, imediatamente saíram em decolagem os quatro aviões da esquadrilha de fumaça especial do exército e tornaram-se visíveis para o público ao fim da praia. Apesar da distância, o estridente barulho que as aeronaves faziam juntas era extremamente alto e chamativo, não tinha quem os deixasse passar despercebidos.
A equipe desfilou por cima da área do evento desenhando linhas multicoloridas de fumaça no céu. Um dos pilotos até segurava uma bandeira do Brasil em uma das mãos e a balançava, enquanto usava toda a sua habilidade de voo na outra para manter-se no ar. A esquadrinha se preparou para fazer o retorno, onde daria início às suas arriscadas manobras radicais.
— Qual dos aviões é o do Iago? — Lisa perguntou a Mitchel. O casal se encontrava abraçado e estava na companhia de Breno e Nina na área onde os fogos eram soltos – e que agora haviam sido interrompidos para não causarem acidentes ao colidir com as aeronaves que sobrevoavam a região.
— O com o número 180. — esclareceu o namorado.
Breno sentiu um estranho odor de queimado surgir do nada. Preocupado, ele olhou em volta e não viu nenhum sinal de fogo próximo, nem mesmo uma churrasqueira ou barraca de frituras. Confuso, ele voltou os olhos para o céu nublado, vendo as nuvens cheias ainda mais escuras que outrora. Os aviões passaram logo acima dele, deixando-o com um incômodo frio na espinha. Algo estava errado.
Então...
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