Premonição - O Início
1 Capítulo 1 - Presente de Aniversário
Notas iniciais
Domingo – 10 de maio
Murilo assoprou a vela do seu bolo de aniversário enquanto seus amigos batiam palmas incentivando-o. A vela tremulou e se apagou deixando todos na escuridão por alguns instantes até que alguém acendesse as luzes novamente. Maria Júlia sorriu estreitando seus olhos miúdos e passou a mão em seus cabelos lisos e negros.
− Parabéns Murilo! – e deu um abraço no garoto.
Murilo franziu o cenho e a encarou com seus olhos castanhos tentando não sorrir demais e denunciar seu entusiasmo. Sua amiga Paloma tinha as mãos atrás das costas por isso tentou a arrumar a franja, de cabelos castanho-claros, com um balanço da cabeça. Seus olhos igualmente castanhos exibiam um ar travesso, fazendo o garoto perguntar:
− O que você tem aí Paloma? – então o garoto recuou um pouco – não é algum tipo de melado pra jogar em mim é?
Paloma e Maria Júlia riram assim como os outros. Sâmea cutucou sua irmã Tainy como se tivesse ouvido uma piada e falou:
− É o nosso presente, esperto!
Murilo meneou com a cabeça feliz e estendeu as mãos:
− Então deixa eu abrir meu presente!
Paloma recuou e resmungou:
− Pra quem acabou de fazer vinte anos, você está muito empolgado! – então mostrando a língua sugeriu – adivinha o que é?
Maria Júlia riu concordando, então Erick mais ao lado zombou:
− Vocês vão deixar o menino louco, olha só, ele só falta sair pulando.
Murilo tentou contar a excitação, mas não conseguia, pensando na possibilidade do presente ser aquilo que esperava tanto que fosse. Se fosse em breve ele realizaria seu sonho e iria voar pela primeira vez.
Ana Clara chegou à sala nesse momento trazendo refrigerante para todos, seu vestido florido estava sujo de brigadeiro e ela estava tão feliz quanto os outros. Murilo olhou para todos na sala para decoração singela feita pelos amigos com algumas bexigas e letras multicoloridas pela parede formando seu nome e sentia um afeto grande por eles.
Paloma decidiu, enfim, parar de brincar e entregou um envelope na mão do garoto. Ele o pegou rapidamente e abriu o envelope com uma habilidade surpreendente, e tirou de dentro o tão esperado ingresso para o Festival Aéreo. Um pequeno festival iniciado na cidade vizinha, onde haveriam dois heliportos improvisados, onde as pessoas poderiam pagar para dar uma volta nos mesmos, assim como haveriam várias barracas de comida e um pequeno parque formado de uma minimontanha-russa, um carrossel e um brinquedo formado de aviõezinhos giratórios. Também haveriam as palestras sobre voo e pilotagem. O Objetivo do festival era atrair alunos para o pequeno aeroporto recém-aberto.
Pela primeira vez na vida Murilo poderia voar e apreciar adrenalina do momento. Ele estava muito feliz, por isso abraçou Paloma e Maria Júlia que eram as mais próximas a ele naquele momento e berrou:
− Obrigado pessoal!
Erick riu:
− Os ingressos chegaram no passinho da morte, de tão lentos.
Murilo sorriu e agradeceu novamente:
− Eu mal posso esperar para ir até o festival com vocês.
Murilo olhou novamente para o ingresso:
Festival Aéreo de Tietê
SP 300 — Km 180
14/05/2015 – 18:00
Sinta-se andando no ar em nossos helicópteros
Murilo já agradecia aos amigos pela festa no fim de semana que antecedia seu aniversário, mas mal podia esperar para aquela quinta feira.
*
Segunda-Feira
Tainy passou o protetor solar por seus braços morenos e em seguida fechou o pote e o devolveu para seu amigo Renan. Os dois estavam calmamente sentados. Era o fim da tarde no supermercado e os dois, que estavam nos caixas, estavam esperando sossegadamente por algum cliente, mas magicamente o mercado parecia vazio naquele momento.
− Por que você usa protetor mesmo Renan? Você ta precisando de um bronze – Tainy zombou o amigo.
Renan revirou os dois olhos negros como besouros e coçou seu cabelo espetado e quase inteiramente loiro graças às luzes que fizera.
− Não vou nem responder Tainy. Vai morrer antes disso.
Tainy riu do garoto e então resolveu mudar de assunto enquanto prendia novamente seus cabelos encaracolados:
− Você vai querer ir no festival quinta feira? Vai ser legal, minha irmã, a Sâmea, deu a ideia e todo mundo gostou. A gente vai andar nos helicópteros e tudo mais.
Renan pareceu considerar o convite e perguntou:
− Por que deram isso de presente pro Murilo?
Tainy respondeu como se fosse óbvio:
− Porque era o que ele mais queria.
Tainy fez um movimento como se fosse se levantar de sua cadeira, mas acabou se desequilibrando e tendo que segurar na caixa registradora para não ir ao chão fazendo Renan rir dela escandalosamente.
*
Terça-Feira
Sâmea passou a broca para a mão do seu dentista que imediatamente levou-a a boca do paciente e o zunido irritante da broca encheu o ar. Sâmea devia estar habituada aquele ruído, mas naquele instante o som parecia estar irritando-a mais que o normal. Então assim que o dentista a dispensou ela retornou ao balcão de secretária, onde sua amiga Maria Júlia ficava revezando com ela.
− Aquela broca parece que vai entrar no nosso cérebro às vezes – Sâmea disse consternada.
Maria Júlia riu da amiga com um comentário:
− Como se isso fosse possível, Sâmea.
Sâmea revirou os olhos e ordenou:
− Sua vez de ajudar o Dr. Chato.
Maria sorriu da raiva da amiga e se dirigiu para dentro do consultório. Sâmea se sentou na cadeira e começou a folhear a agenda. O paciente das 8:10 era o próximo e parecia não ter chegado. Ela estava prestes a telefonar quando um garoto de cabelo curto e liso de olhos escuros entrou pela porta da sala da espera, ele era muito magro, visivelmente com pressa.
− Bom dia, Evandro – Sâmea sorriu para ele.
Ela estudara com aquele garoto durante todo o ensino médio. Ela já devia estar acostumada com seus atrasos. O garoto apenas acenou com a cabeça meio sem ar.
− Por que você não foi à festa do Murilo domingo? – Sâmea questionou preocupada.
Evandro pareceu ficar constrangido enquanto respondia:
− Desculpe, minha namorada passou mal, acabei perdendo a festa – então perguntou interessado – Ele gostou do presente?
− Claro! Ele adorou – Sâmea contou animada, então interveio acusadora – Você e seu irmão vão no festival não é?
Evandro apressou-se em responder:
− Claro! Como não iríamos? Talvez a minha namorada não vá, mas eu e o Leandro vamos sim.
Sâmea lembrou-se:
− Leandro, seu irmão, estudou com a Ana Clara não é?
Evandro confirmou.
*
Quarta-Feira
Ana Clara colocou o prato de brigadeiro ao seu lado, apagou a luz do quarto e em seguida procurou em seus arquivos seu dorama favorito. Ela pegou a colher e comeu uma porção de brigadeiro, mas acabou bufando quando um pouco escorreu da colher para sua saia azul.
Ela se levantou então sem descolar o olho do ator coreano bonitinho e prendeu seus longos cabelos castanhos e ondulados. Começou a tentar limpar a saia, mas o telefone tocou. Quando atendeu ouviu a voz do Murilo do outro lado:
− Oi Ana, sabe se já lançaram aquele filme, o “Morte no Alto”?
Ana lambeu o dedo que usava para limpar a saia então respondeu:
− Ainda não Murilo, acho que só lançam mês que vem.
*
Nilton colocou seu monitor bem a sua frente e clicou no inicializador do jogo. Um simulador de helicóptero. Seu Headset estava no volume máximo. Leandro começou a lhe dar dicas do seu lado:
− É a primeira vez que deixo você ser o piloto. Cuidado. A primeira missão é apenas decolar...
Nilton deu um puxão exagerado numa alavanca do helicóptero fazendo-o decolar e ir para frente ao mesmo tempo. Com um rangido o veículo se espatifou no chão. Uma manchete encheu o monitor: “Helicóptero falha na decolagem”.
− E você morreu... – Leandro comentou.
*
“Fico feliz que sua mãe vai trazê-la amanhã para o festival Brenda” Erick digitou no chat.
Após alguns instantes Brenda respondeu Erick:
“Sim, eu também” então acrescentou “Mal posso esperar para ficar ao lado do meu namorado lindo”.
“Vamos poder nos beijar no alto” Erick riu depois de digitar isso.
“Amanhã vamos morrer de tanto beijar” concordou Brenda.
“Bem, eu diria que hoje” Erick corrigiu “acaba de dar meia noite, é oficialmente quinta”.
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