Premonição Chronicles
18 Capítulo 17: A Casa de Cera
Notas iniciais
Tic tac. Tic tac. Tic Tac.
O relógio de parede não parava de tictaquear. Mas como ele faria isso se, do jeito que estava, Pedro não exercia nenhum poder sobre ele? Sentado naquela maca, dentro do consultório médico, ele pode refletir sobre tudo o que já tinha vivido até ali. Havia uma fenda que espalhava para seu corpo uma energia pesada sobre si, de maneira que ele não largava as sensações ruins. Elas estavam fazendo suas casas dentro dele, decidiram que ele serviria de moradia. E Pedro precisava agir, precisava desocupar o terreno, para que fosse inundado pela bonança. Todo o mal que o atingia deveria ser exterminado, mas ele precisava ser forte e resistir. Seus amigos estavam ali para tal feito... Pelo menos, alguns deles.
O universitário aguardava a chegada do médico, que saíra para buscar algum tipo especial de equipamento que o auxiliaria na execução do gesso em sua perna. Ele não esquecia a cena do incidente na escadaria de madeira da torre do cemitério, de Chemim e do enterro de Vic. As lembranças mal fadadas voltaram à tona. Enquanto sua raiva de Felipe crescia, a saudade de Vic aumentava.
O enterro da garota trouxe para ele uma vontade imensa de fazer justiça, de ir até o fim. Não só por ela, mas por todos os outros que não escaparam das armadilhas da morte. Morte vadia! Pedro exclamou em pensamento. Vai pro inferno! Como se isso bastasse. Era inútil. Ela, em si, já era uma ferramenta do inferno. E com o ódio, vinha a dor. Sua perna estava quebrada, sua mãe amparada por um cigarro do lado de fora da clínica. O plano de saúde cobriria aquela fratura, mas não a fratura em sua vida. A maldita lista, a perca de boa parte das únicas pessoas que ele tinha como amigos.
O médico entrou na saleta, com seus óculos com armações modernas e seu jaleco branco, no que estava bordado seu nome sobre o bolso no peito esquerdo, Dr. Rodrigo Menezes. Pedro baixou o olhar e tentou se focar nas luzes que entravam pelas persianas. O ambiente era agradável, se não fosse pelo desconforto causado pela perna. Doutor Menezes estava pronto para fazer os reparos e por o gesso.
– Isso vai doer um pouco. – Disse ele.
– Eu sei, já passei por isso antes. – Ele fechou os olhos e respirou fundo. – Mas dessa vez é diferente, está acontecendo muita coisa na minha vida e eu não quero perder mais nada.
O homem o olhou e moveu o calcanhar do rapaz.
A dor foi lancinante.
XXX
Pedro permanecia arrasado pela morte de Marcio. E, ao pensar no que ele poderia ter feito para salvá-lo, quando foi lá na presença de Sam e Vini, simplesmente tombou a cabeça para trás na cadeira giratória, de frente para a mesa que apoiava seu notebook. Tombar a cabeça para trás, segundo Vini, representava a total entrega à escuridão, e por mais que não fosse precisamente aquilo, Pedro tinha certeza de que a escuridão era maior que ele, assim como era maior que os esforços que eles fizeram ou viriam a fazer para acabarem de vez com aquele pesadelo.
MV voltou à sua mente num flash. O troféu em sua mão... Ele tinha conseguido. Morreu com sentimento de dever cumprido, coisa que Pedro não tinha desde que viu todos morrerem bem na sua frente, sem ter qualquer reação. Guiby, Breno, Lucas, João Victor e demais.
Eu sabia que ele era o próximo. Eu vi as pistas do que aconteceria a ele. Pela milésima vez fui impotente, enquanto a morte foi onipotente. Impotência e Onipotência... Extremos que estão tão longe de se tornarem inversos. Pelo menos, por hora. Vic era a única que havia feito Pedro lembrar a ordem específica para a lista. E ele tinha que reagir, fazer algo que pudesse conectá-lo a ela novamente. A ideia que tinha na cabeça, provavelmente não daria certo, porque ele nunca havia tentado antes, e era um pouco cético quando àquele assunto, mas preferiu arriscar. Se ele não arriscasse, aí sim, ficaria maluco. Ligou o notebook, abriu a barra de pesquisa do Google e digitou o que pretendia.
“Tabuleiro Ouija”.
XXX
Assim que a sineta acima da porta soou, Pedro encolheu os ombros e sentiu a poeira passar bem à sua frente. Passou o braço sobre a grande teia de aranha e semicerrou os cílios. Olhou em volta para o lugar, que parecia bem mais escuro, quando visto por dentro. Duas lâmpadas iluminavam o local no final dos corredores, nada além delas. A porta fechou atrás de si e ele decidiu caminhar devagar no que parecia ser uma armadilha para doenças que se aproveitavam da via nasal para quem as inalasse.
Por alguns segundos, ele tapou o nariz e a boca, não queria ficar doente com toda aquela poeira e cheiro de mofo. Vários artefatos antigos jaziam em estantes, enquanto outros permaneciam pendurados e tilintando no teto, acima da cabeça do adolescente. Um barulho repentino assustou-o, fazendo-o pisar em falso, batendo o gesso na parede e jogar seu cotovelo contra uma das estantes. A estrutura de madeira velha chacoalhou, mas parou logo em seguida. Pedro respirou, aliviado e fechou os olhos por breves três segundos, apoiando-se novamente nas muletas e imaginando não dar de cara com uma velha lunática que, provavelmente o espantaria de sua loja às pressas.
Dito e feito. A velha surgiu da sombra da última estante daquele corredor, deixando Pedro paralisado. Era claramente cega de um olho, enquanto o outro tinha um azul turquesa vidrado nele. As rugas de velhice esclareciam sua idade, que denunciavam o excedente dos setenta anos. Os cabelos grisalhos estavam exageradamente espalhados em uma cabeleira emaranhada, de onde poderia surgir algum bicho a qualquer momento.
O jovem recuou e ela se aproximou, com os braços juntos, entrelaçando os dedos.
– Olá meu jovem... – Sua voz era esganiçada. Soava como unhas pontudas deslizando sobre um quadro-negro. – O que deseja? – O piso de madeira da loja rangia à medida que ela se aproximava.
– Bom, aqui parece ser um lugar feito para quem gosta de iguarias bem específicas, – Pedro disse um pouco receoso. Continuou: – Artefatos antigos e relíquias milenares...
– Sim, bem peculiares se quer saber.
O rapaz riu torto, concordando.
– Eu não sei vou encontrar o que procuro. Bem...
– Se sua intuição lhe trouxe até mim, encontrará a solução para o teu problema.
– De certo modo, sim. O que estou procurando é algo incomum. Um tabuleiro Ouija.
Um feixe de luz pareceu surgir de uma brecha no teto. O olho cego foi iluminado de imediato, e desta vez, ele pareceu estar visualizando a face intrigada de Pedro. O universitário congelou ao ver o outro olho azul-turquesa analisar sua expressão. A velha mudou o rosto para um tom misterioso e virou as costas.
– Siga-me! – Dirigiu-se ao outro corredor.
Pedro passou por inúmeros objetos empoeirados, entre vasos, tapetes, abajures, espadas, penduricalhos e até lanças. Aquele lugar era um perigo para quem estava na lista da morte. Mas por enquanto, ele sentia-se seguro, por ser o visionário e na prática, o último da fila. Entre a caminhada de poucos segundos, enquanto seguia a velha, viu em uma das prateleiras, esculturas de gesso e cera que lhe chamaram a atenção. Aparentavam serem representações de cinco guerreiros que Pedro nunca conseguiria identificar sem formação alguma. Mas eles lhe chamaram atenção mesmo assim, pelas suas expressões tristonhas e de total acanhamento. Eles estavam com medo, deduziu. Ao lado deles, outra lança e um escudo decorado com caligrafia desconhecida.
– É o último tabuleiro. – A velha murmurou, mas Pedro estava ocupado demais, prestando atenção nas cinco esculturas de gesso. – Apesar de que faz tempo que não procuram por um desses em minha loja.
Antes de virar e entrar no corredor seguinte, Pedro ouviu um ruído. Olhou por cima do ombro e observou uma das estatuetas cair e se espatifar totalmente, quebrando em vários pedaços. Ele sentiu um arrepio na nuca.
– Aqui está. – A voz esganiçada da velha cega de um olho rasgou seus tímpanos. – E boa sorte. Muitos que se atrevem a usar essa coisa, acabam se arrependendo amargamente, pelo resto da vida.
Pedro assentiu ciente da sua decisão. Contataria Victorya por meio do Ouija.
XXX
Depois de ver Felipe correndo daquela forma, de certa forma fugindo deles, após ter salvado sua vida, deixou Pedro inconformado. Ainda não entendia e não faria questão de compreender essas atitudes tão extremistas do outro rapaz. Era difícil adentrar em qualquer mente, adivinhar reações de pessoas que você nunca manteve relações estáveis na vida. E era o caso. Pedro nunca se deu bem com Chemim, mas no momento em que soube que era a vez dele na lista, assim como com os demais, sentiu necessidade em salvá-lo. Aquele ato não traria a quebra completa da lista, mas reservaria ao garoto um tempo a mais. O que estavam conseguindo era apenas tempo.
Agora Pedro tinha certeza de que Jo era o próximo. Viu João morrer logo depois de Felipe, e agora esperava ele e Vini chegarem. Eles haviam prometido voltar para se encontrarem. Os quatro, incluindo Sam, que acompanhava o universitário até então, combinaram de se separar para recolherem o máximo de informações possíveis, que os ajudassem a se livrarem da maldição. E debateriam o que seria melhor pro grupo fazer diante da frustração de ter que assistir os outros serem cruelmente assassinados pela entidade sombria. Por um lado, um estava salvo. Espero não me arrepender do que fiz, pensou o visionário. Ele e Sam caminhavam apressados pela rua da casa de João, na intenção de chegar na residência e encontrá-lo bem, e pronto para lhes dar notícias boas.
Pedro precisou apertar apenas duas vezes a campainha do amigo, para que a porta se abrisse e revelasse uma mulher aparentemente na casa dos trinta ou quarenta. A mãe do amigo.
Sam sorriu e disparou:
– Oi, o João está em casa?
– Não, queridos. Inclusive estou bastante preocupada, porque ele saiu mais cedo com um amigo, mas até agora não chegou. Também não conheço esse amigo. – A voz dela refletia preocupação claramente. – Só sei que aquele garoto está testando minha paciência.
Os dois adolescentes se entreolharam desconfiados e assentiram.
– Muito obrigado! Nós vamos tentar ligar para ele, então. – Pedro respondeu. Caminhou com dificuldade, com Sam auxiliando-o.
– Espero que ele volte logo! – Sam retrucou, por fim.
XXX
Em casa, Pedro desistiu de ligar para João, depois da sexta tentativa consecutiva. Sempre dava fora de área de cobertura. Onde ele pode ter se metido? Tentou ligar umas duas vezes no celular de Vini, mas aconteceu o mesmo.
– De repente todo mundo resolveu desligar o celular? – Ele reclamou, exausto.
– É Tim? – Sam indagou.
– Huh?
– Tim, Pedro. A operadora. – Sam revirou os olhos.
– Oh, não é. – O jovem mais alto passou a encarar as assinaturas em seu gesso.
Uma delas era a de MV e estava borrada. As outras eram de João e Vini, ambos haviam assinado em um momento de descontração.
– Espero mesmo que o Jo esteja bem. Ele é o próximo e eu detestaria ter que ir ao funeral de mais um amigo. Eu não sei se resistiria... – A voz de Pedro ficou embargada.
– Por que essa droga toda é tão difícil? – Sam já estava de saco cheio.
– A única coisa que eu quero nesse momento é notícias daqueles dois. Que aflição! O Jo é o próximo e tudo que eu posso fazer é ficar aqui e esperar pela desgraça. Do jeito que está, capaz dele já ter sido morto.
– QUE DROGA, PEEH! – Sam ergueu-se da cadeira. – Que tipo de visionário é você? Aquele que só fica choramingando pelos cantos, ciente de que tudo ao seu redor vai desmoronar e irá agarrar as pernas e chorar num canto escuro? Vamos à luta! Porque sendo pessimistas dessa forma, não viveremos por muito tempo. É isso que você pretende? Morrer tão jovem?
– E eu tenho opção? Estou com a porra da perna quebrada, só isso já nos atrasa bastante! Além disso, parece que estou sendo um peso “morto” pra você. – Fez aspas com os dedos.
– Olha, cala a boca e deixa de drama, Peeh! Esse trem ta bem longe de ser novela mexicana. Faz mais uma tentativa de ligação, ué?!
– O que você acha que eu fiz com o celular esse tempo todo? No instagram que não era. – Pedro pega o aparelho e balança na frente do rosto de Sam.
– Com certeza não. Seria ridículo. – O baixinho bufa e cruza os braços, sentando de novo. – Agora tenta que pode funcionar.
O universitário não hesita e disca novamente o número de João. Da segunda vez, ele atende. Pedro faz um gesto de “deu certo!” para Sam que se aproxima, pedindo que ele pusesse no viva-voz. Assim o fez.
– JO? FINALMENTE! Estava tentando falar com você há horas!
– Me desculpa Peeh, mas eu tava sem sinal...
– Eu e o Sam fomos até sua casa. Sua mãe estava preocupada, ela disse que você tinha saído com um amigo, mas não sabia quem! Vocês estão bem? – Pedro atropelava as palavras. – Eu não quero assustar você, mas você precisa saber...
– Eu fui pulado Peeh. O Vini me salvou de ser atingido por uma motosserra.
A resposta fez o rapaz congelar. Ele não esperava que a hora dele já tivesse chegado, já que suas esperanças estavam quase se extinguindo. João estava vivo, a vez dele passou. Sam sorriu ao lado do universitário, ao receber a notícia.
– Estamos bem, tirando alguns ferimentos e queimaduras. Não estamos muito longe de casa. – Vine disse.
– Graças a Deus! O Felipe também foi pulado. Ainda não consegui descobrir quem é o próximo, então tomem cuidado, por favor.
– Ta okay chefe! – Vine falou e os dois que estavam no quarto sentiram o ar irônico do outro.
Desligaram simultaneamente.
Pedro tombou a cabeça para trás. Sam fez o mesmo movimento, pouquíssimos segundos depois. E os dois ficaram fitando o ventilador de teto girar e girar. Ficaram assim, em um silêncio ritmado e sepulcral, até fecharem os olhos e se imaginarem longe dos problemas.
Sam queria muito contar sobre Marina para o amigo, mas tinha receio de trazer conseqüências desagradáveis, se ele soubesse que a garota estava viva e internada na UTI do hospital central. O risco era maior que qualquer coisa. O risco tinha nome e sobrenome: Felipe Chemim.
XXX
Peeh estava imerso em um pesadelo. E ele sabia disso, havia se dado conta de que não estava no mundo real, a partir do momento em que notou que permanecia sentado numa saleta escura com o tabuleiro Ouija a sua frente. Ele poderia até cogitar a possibilidade de dar de cara com um conhecido de sua infância, que atualmente ele chamaria carinhosamente de tio. Freddy Krueger, quem tanto perturbou sua mente quando ele era apenas uma criança. Aos sete anos tinha recorrentes e assíduos pesadelos com o homem de blusão listrado e chapéu marrom. Via as marcas causadas pelo fogo que o consumiu por inteiro no galpão naquela noite em que ele foi queimado vivo pelos moradores da Elm Street, a rua eternamente amaldiçoada por ele e por seu mundo dos pesadelos cruéis.
Mas o pesadelo era outro e felizmente ele não daria de cara com Freddy e sim, com os fantasmas de outro passado, o mais recente. O passado que trouxe à tona uma lista temida em outra saga de filmes, diferente de Nitghmare On Elm Street. A lista da morte varreu mais da metade de seus amigos, se não, os únicos que tinha. Ganhara um gesso que parecia ser eterno e algumas cicatrizes internas, como a saudade deles. Procurou no tabuleiro uma forma de recordá-los e pedir ajuda. O sonho que estava tenda remetia exatamente a busca ensandecida por respostas, por saídas estratégicas da redoma de sangue que se formara ao redor deles.
Ele piscou, e de repente ouviu o som de um passo e uma perna saiu da escuridão, trazendo um braço, um tronco e revelando quem se aproximava. Era Kethellen e ela estava coberta de manchas negras na face, tórax e no resto do corpo. Pedro tremeu e viu-a estender a mão para que ele alcançasse-a, quando ele tentou fazê-lo, ela foi jogada para trás com uma descarga elétrica. Ele voltou ao seu lugar espantado. Logo em seguida, Guibson saiu das sombras e sorriu inocentemente, mais um que estendia a mão para Pedro. O jovem tentou pela segunda vez e viu Guiby ser esmagado violentamente por um objeto retangular e repleto de água, que inundou Guiby no próprio sangue, enquanto o resto de seu corpo se espalhava embaixo do tabuleiro. Peeh sentiu nojo e segurou o vômito, que estava a caminho de sua garganta.
..
Quando ficaria de pé, ouviu mais passos e duas pessoas surgiram da escuridão, fazendo com que o holofote que clareava o centro da saleta os iluminasse. Os dois indivíduos estavam de costas para ele, enquanto ouvia gemidos de prazer. Ele arriscou se aproximar de ambos, e escutou os gemidos se transformarem em gritos de horror. Tapou os ouvidos e um som metálico cortou o ar, mas nada aconteceu em seguida. Pedro permaneceu paralisado, enquanto as duas pessoas se viravam aos poucos. No momento em que ele ficou frente à frente com Breno e Lucas, seu coração pulsou mais rápido, com seu corpo recebendo uma descarga de medo e adrenalina. Pensou em gritar, mas sua voz não saiu, como em uma paralisia do sono. A cabeça estava parcialmente destruída e quase “descolando” do pescoço, sendo sustentada apenas por algumas cartilagens; o tronco de Breno estava deformado, retorcido e irreconhecível, mas ele reconheceu o garoto pela blusa, era a mesma que usava no dia do acidente com o Blue River Adventure Park. Já Lucas tinha cacos de vidros ensangüentados espalhados por todo o corpo, revestindo-o como numa armadura reflexível; o caco maior estava fincado na genitália do garoto, enquanto ele tinha uma face inexpressiva. Pedro poderia até imaginar a dor, mas não tanto quanto Lucas pudera sentir no momento de sua morte.
Vai, acorda...
Ele piscou e não havia mais ninguém, somente ele e o tabuleiro no centro da saleta. Passou a presumir quem seria o próximo a aparecer, mas ele não viu ninguém se aproximar. Porém, o som ao longe indicou quem era. O barulho do pneu derrapando, da buzina e dos ferros se retorcendo foi o primeiro sinal de que João Victor estava ali. Depois foi a labareda ardente que a saleta se tornou, enquanto Jota rastejava inteiramente chamuscado até seus pés. Pedro recuou de imediato, arregalando os olhos, sem poder gritar.
Assim que o fogo terminou de tostar Jota, ele se apagou e deu lugar à Victorya. A garota trajava um lindo vestido branco e o holofote pareceu segui-la. Ela sorria, mostrando que estava bem, melhor do que os outros quando apareceram para Pedro. Ele devolveu um sorriso maior ainda, deixando uma lágrima cair e se apressou para abraçá-la. Não se aproximou nem alguns centímetros e Vic também chorou, gritou e sua roupa ficou negra, e ela foi desaparecendo, antes mesmo das mãos dos dois se tocarem. Pedro pediu que ela voltasse, ele precisava dela, entretanto ele já estava só de novo.
Caiu de joelhos e bateu os punhos contra o tabuleiro, derrubando mais lágrimas... Até alguém tocar seu ombro. Olhou por cima dele e visualizou Emerson com um buraco profundo no olho, que jorrava bastante sangue. Ele não sorriu, permaneceu sério por breves segundos, puxando Pedro para trás logo em seguida. O universitário caiu com as costas no chão, num baque surdo e se ergueu com ligeireza, olhando em volta. Ninguém.
Acorda cara, acorda!
Peeh esperou por MV, o encontrou correndo em círculos em volta dele, gargalhando como uma criança brincalhona. Ele sabia exatamente o que aconteceria ao amigo a seguir e apenas esperou por algo atingi-lo.
Aconteceu após seu pensamento e o troféu que ele segurava decolou de volta para a escuridão, seguido pelo corpo do amigo dele, que havia deixado marcas profundas por sua perda. Assim como Vic, assim como Keth, como Lucas e os outros. Não durou cinco segundos e a escuridão foi aumentando, comprimindo o ar.
Vamos, Pedro, acorde!
Ela se aproximava rapidamente, ameaçando engoli-lo.
Acorda! Você é mais forte do que esse pesadelo!
Não enxergava mais nada e o ar lhe faltava. Seus pulmões não agüentavam mais, estavam prestes a explodir.
ACORDA PORRA!
– ACORDA PEEH! – Sam gritou, sacudindo seu ombro.
O rapaz abriu o olho espantado e suando, olhando tudo ao seu redor.
– Por quanto tempo eu dormi?
– As únicas coisas que precisa saber é que quase entrou em coma nessa cadeira, – Seu tom foi o mais sarcástico possível. Continuou: – E o Vini enviou um vídeo pra gente. Ele disse que é hiper importante.
– Mas ele e o Jo não vinham nos encontrar?
– Não mais. – Sam olhava-o preocupado.
Pedro abriu o chat e clicou no link do vídeo. Sam sentou ao seu lado, na cama.
O vídeo apareceu na tela e sem cogitar mais nada, apertou o play.
XXX
O vídeo já estava nos seus últimos segundos e quando a tela escureceu novamente, Pedro levou as mãos à cabeça, sem saber o que dizer.
– O Vini fez isso mesmo? – Sam indagou incrédulo.
– Se o conhecêssemos bem, diríamos que não.
– Mas não conhecemos. – Retrucou. – Pra ser sincero, ele sempre foi uma incógnita pra mim.
– Tudo que consigo pensar é nessa teoria... – O engessado estava com uma grande dúvida na cabeça. – Que maluca! Nunca parei pra pensar dessa forma.
– Ainda estou com um pé atrás com o que ele disse. – Sam murmurou. – Como assim, termos que nos separar pra evitar que a morte nos ataque? Isso seria suicídio!
– Até que faz sentido. Visto que Kim e Burke ou Wendy, Kevin e Julie ficaram vivos por bastante tempo, até se encontrarem novamente e morrerem juntos. O que ele disse realmente faz sentido, a morte quer espectadores, testemunhas.
– Foi por isso que ele pediu que tomássemos rumos diferentes? Que não nos encontrássemos mais? Que não tivéssemos notícias um do outro?
– Isso. – Pedro baixou o olhar, até encontrar o gesso novamente. O nome de MV borrado, as outras assinaturas intactas. – Se voltássemos a nos ligar de alguma forma, tudo viria abaixo.
– Espera aí. – Num rompante, Sam ergueu-se da cama e passou a caminhar de um lado para o outro no quarto. – Pelo que sabemos, Keth e Guibson não estavam sozinhos quando morreram? Não tinha nenhum espectador onde eles estavam no exato momento da morte.
Peeh pensou um pouco, até concluir:
– Errado. Lembra quando Vini nos contou que estava do lado de fora do apartamento e conseguiu entrar poucos segundos depois da morte dela?
– Lembro. – O outro respondeu.
– Então, é simples. A morte queria que ele visse o corpo eletrocutado. Vini foi a testemunha da morte dela. – Pedro continuou sem pestanejar, atropelando palavras. – O mesmo aconteceu com Guiby. Eu e sua mãe chegamos ao banheiro a tempo de vermos aquela caixa d’água esmagando-o. – Engoliu em seco. – Se repetiu com Breno e Lucas. Emerson foi a testemunha de um. Eu, Vic e MV, as testemunhas de outro.
– O MV... – Sam começou. – Estávamos lá quando ele morreu. Nós fomos os espectadores. – Ele estava detestando pensar aquilo, mas a teoria de Vini estava começando a fazer sentido. De repente teve um insight. – Opa! Vic não tinha nenhuma testemunha quando morreu, tinha?
– Eu não sei.
– Se for uma exceção, quer dizer que essa teoria também pode ser falha! Pode ser que a morte esteja arquitetando isso, ela quer que pensemos isso. Se nos afastarmos uns dos outros, será mais fácil pra ela levar um de cada vez. É óbvio! Você sabe bem quais são as regras fundamentais a serem seguidas em um filme de terror, para não virar lanchinho do algoz, certo?
– Sim. Uma delas é sempre permanecerem juntos. Nunca separar o grupo.
– E se esse método não funcionar? Estaremos disparando nossa guilhotina.
– Temos que tentar. – Peeh arfou, exausto de especular sobre tal teoria. – E rezarmos para que o Vini não esteja errado.
Pedro fechou a aba onde o vídeo estava e passou a encarar o gesso, o nome de um morto borrado e as outras assinaturas dos vivos intactas. Era como um sinal. Poderia soar bobo, mas tinha cara de ser um sinal bem sutil, mas típico da morte.
– Olha, não me pergunta o porquê, mas quero que assine meu gesso antes de ir.
– O quê? Nessa altura do campeonato?
– Sim. – Ele falava sério.
O mais baixo deu de ombros.
Depois de deixar a assinatura próxima dos nomes de Vinicius e João, Samuel caminhou até a saída do quarto de maneira lenta e parou, pondo sua mão na porta. Respirou fundo, antes de disparar:
– Tem mais uma coisa que eu queria te dizer, Peeh...
Pedro se endireitou na cadeira e girou-a na direção do amigo, apoiando sua perna engessada num puff preto próximo dali.
– Pode dizer.
– Eu não sei por que não contei antes. Na verdade, estou sendo imprudente até comigo. O que queria dizer é que descobri que Marina, aquela namorada do Felipe, está viva e internada na UTI do hospital central.
– O quê?! – O rapaz arregalou os olhos. – E o Chemim sabe disso?
– Ainda não. Tentei contar pra ele e tudo, mas não deu, ele não me deu ouvidos.
– Droga!
– O que foi?
– Se a Marina também saiu do Blue River antes do acidente, quer dizer que ela também está na lista. E isso é decerto péssimo, porque acrescenta mais um e a possibilidade de descobrir o próximo vai por água abaixo.
– Ela morre na sua visão?
– Esse é o problema, Sam. – O olhar de Pedro mirou no pôster pregado atrás da porta. – Eu não a vi morrer, isso não descarta a chance dela estar na lista também. Pois justamente, vi Chemim chorar sobre o corpo de uma garota na premonição e creio que seja ela. Se ela está correndo risco, preciso avisá-la! – O jovem ganhou impulso e levantou da cadeira, apoiando os braços na mesa.
– Você também está correndo o risco de tropeçar mais uma vez com aquele imbecil do Felipe. – Sam segurou um dos braços do visionário. – Além do mais, a garota está internada, e você acha mesmo que ela vai acreditar em tudo sem ter vivenciado boa parte dos acontecimentos?
– Ela namora um fã de Final Destination, quer mais do que isso?
– QUERO SIM, QUERO QUE PARE DE AGIR COMO UM TOLO! Tudo que você faz ultimamente é impensado, Peeh, e isso gera conseqüências drásticas a você! Tá vendo esse gesso aí? Foi por conta da sua irresponsabilidade, você não pensou que uma escadaria velha de madeira, caindo aos pedaços, não te renderia nenhum prejuízo? – Sam gritava. – Poxa!
– Okay! Eu não vou atrás dela, satisfeito? – Pedro bufou. – Não agora. Mas, mais cedo ou mais tarde ela vai ter que ficar ciente do perigo. Uma garota na UTI não pode vencer a morte.
– Você faz o que você quiser, amigo. Não posso te impedir de ser imprudente quando eu fui comigo mesmo.
– “Não dê sermão, se você não é exemplo”, já dizia um sábio e que adotei essa frase pra minha vida. – Ele riu torto.
– É. – Sam riu. – Então, já to indo. Vê se não faz nenhuma besteira, ta?
– Pode deixar, eu sei me virar. – Peeh fez positivo com o polegar.
– Não parece. – O outro apontou para sua perna.
– Foi um acidente, cara.
– Acidentes matam, ué. Somos a prova “viva” disso.
O mais alto deu de ombros, sorriu e disse:
– Vê se te cuida, e saiba que estamos fazendo isso pro nosso bem. Não é uma opção.
– Bem que poderia ser. – Sam disse já caminhando no corredor escuro. – Quando descobrir quem são os próximos, não hesite em me ligar, mesmo que isso nos ponha novamente em risco. Eu ainda estou descrente nessa teoria.
Pedro viu Sam olhar para trás, por cima dos ombros, e assentiu positivamente.
Vinicius, João, Felipe, Samuel e Pedro. Os cinco só precisavam se isolar uns dos outros. Ou a teoria os levaria à redenção, ou diretamente à morte.
XXX
TRÊS MESES DEPOIS…
And I'll be wearing white when I come into your kingdom
I'm as green as the ring on my little cold finger
I've never known the lovin' of a man
But it sure felt nice when he was holding my hand
There's a boy here in town says he'll love me forever
Who would have thought forever could be severed by
The sharp knife of a short life, well
I've had just enough time
O corredor do hospital estava praticamente vazio. Difícil de esperar de um lugar que costumeiramente é abarrotado de pessoas nos corredores ou de funcionários rondando o local. Havia alguma coisa estranha com o hospital do centro e mesmo que fosse feriado, ele funcionaria normalmente. Talvez fosse pelo fato de Pedro ter pouco contato com aquela ala ou por ter ido pouquíssimas vezes naquele andar, apenas para visitar Marina nos dias que decidiu vir. Era a segunda vez naquele mês que ele visitava-a e estava gostando de vê-la, porque sabia que ela estava e ficaria bem.
A recuperação dela acontecia de maneira gradativa, necessária, já que a garota perdera partes de sua memória. Partes que não a afetaria por completo, mas que deixariam fendas em sua mente, causando lapsos de memória, onde ela não reconheceria pessoas ou lembraria de momentos vividos. O presente era o que sustentava-a e deixava-a esperançosa de melhorar o mais rápido possível. O que motivava-a a seguir em frente com os tratamentos cautelosos da equipe médica do hospital central.
Marina conheceu Pedro na primeira vez que ele apareceu no hospital. Os dois conversaram no horário de visitas e ele prometeu voltar. Ela gostou de sua companhia e ansiava pelas suas demais visitas. Ele conhecia o risco de conversar e ficar tão próximo da namorada do arqui-rival, mas isso não o impediria de criar um vínculo amigável com a garota. Tudo que ela mais precisava era de um parceiro para conversar e interagir com ela, enquanto ela se recuperava do trauma, da memória e já que seu próprio namorado era incapaz de dar aquele presente a ela, Pedro não recusou a oferta de fazê-la contente ao menos nos poucos minutos que ficava ali, conversando sobre os mais diversos assuntos com ela.
A jovem não estava mais no setor de UTI’s, mas passou a ficar numa ala própria para recuperações delicadas como a dela. Qualquer erro, Marina perderia completamente a memória. Felizmente o tratamento já estava chegando ao fim, e ela retornaria à casa dos pais, onde voltaria a receber todo o amor deles, enquanto voltaria à sua vida cotidiana e normal. Pedro conseguira arrancar algumas informações dela, e já estava sabido de que Marina lembrava pouco de Felipe e também desconhecia a maioria de suas relações passadas, porém, tinha certeza de que possuía um namorado.
Pedro não tirou vantagem disso, muito pelo contrário, sempre dava palavras de apoio à garota, afirmando que ela se lembraria de tudo novamente, inclusive seus relacionamentos afetivos mais pessoais. A garota sempre confiante, sempre concordava com os incentivos, recebendo-os de braços abertos. Não via a hora de sair daquela cama e sentir o sol bater contra sua pele de novo, já que só via os raios solares entrarem pela fresta da persiana do quarto e isso era o máximo que ela teria da natureza por enquanto.
O rapaz se aproximou do vidro do leito e bateu duas vezes, chamando a atenção de Marina, sentada na cama, com um livro da saga “Percy Jackson e Os Olimpianos” no colo. Pôs um pouco da madeixa castanho-escura para trás da orelha ao ver o rapaz do outro lado do vidro e acenou para que ele entrasse. Pedro abriu a porta e entrou, sorrindo ao vê-la melhor do que nos outros dias. A porta fechou atrás de si e ele visualizou o quarto, parecia mais branco do que nos dias anteriores. Havia mais duas camas no leito, mas uma delas estava vazia e na outra, outra jovem permanecia deitada, tomando soro na veia, enquanto cochilava.
– Eu sabia que você viria! – Ela disse numa voz animada.
– Promessa é dívida, já dizia um sábio. – Pedro riu. – Ei, que óculos bonito! É novo?
Marina tocou a armação dos óculos, eram bem brilhantes e tinham uns entalhes dourados em suas “pernas”.
– É sim, você gostou? Meus pais trouxeram na visita passada deles.
– Combinou com você.
– Obrigada. – Respondeu sorrindo e colocando o livro sobre o criado-mudo logo ao lado da cama. – Tenho novidades!
– Fala logo! – O rapaz retrucou eufórico.
– Vou ganhar alta amanhã! – Desta vez, quem ficou eufórica foi ela. – O médico disse que minha bateria de exames está completa e positiva, mostra um quadro de melhoras impressionante; tenho tudo para ser liberada em vinte e quatro horas. A enfermeira também confirmou o que ele falou. Eu só preciso seguir a medicação certinha e tudo ficará bem.
– Que ótimo, Marina! – O universitário sorriu largamente. – Okay, agora é minha vez, também tenho uma novidade.
– Se você não contar, vai me matar de curiosidade. Vai, conta!
– Tenho um par de ingressos para assistir Anabelle nesse fim de semana, e olha só, não tenho ninguém pra me acompanhar. – Peeh corou.
– Eu sinceramente não sei... É... Meu namorado não vai gostar nada disso. – Ele percebeu quando Marina encolheu os ombros.
– Ah, qual é, além de inseguro ele é ciumento também? – Pedro sentou na poltrona ao lado da cama. – Considere como o convite de um amigo desamparado que não quer assistir a um filme sozinho no cinema.
– Vou pensar no se caso, moço. – Ela riu.
Pedro também mostrou um sorriso.
Ao fundo, uma música ambiente ecoava:
If I die young, bury me in satin
Lay me down on a bed of roses
Sink me in the river at dawn
Send me away with the words of a love song
The sharp knife of a short life, well
I've had just enough time
Do lado de fora do leito, Felipe tocou o vidro e viu a cena como a maior afronta de toda sua vida. Não bastava não terem contado que sua namorada estava viva, Pedro ainda estava se aproximando dela. Para Chemim, a pior coisa que ele fez em toda sua vida.
– Você vai se arrepender de ter se metido novamente no meu caminho, seu merdinha.
XXX
João aceitou a proposta de Vinicius de maneira conformada. Estava imerso em seu próprio mundo, ouvindo músicas da cantora Alex Johnson, pela qual era aficionado. Os fones em seu ouvido lhe arrancavam dos pensamentos, enquanto lançava-o ao silêncio profundo. A ideia da separação entre os sobreviventes, apontada por Vini, se concretizou de maneira satisfatória. A teoria da distância veio a calhar e João adquiriu para si, a esperança de ter dado tudo certo. Três meses haviam se passado e nenhuma notícia de que a morte tenha voltado, tudo que eles tinham que fazer era evitar encontrar os demais. Eles poderiam nunca mais se ver, entretanto, se fosse pelo bem geral, que fosse assim.
Por mais que seu corpo relaxasse e o forçasse a ficar deitado na cama, ele se sentia em polvoroso por dentro. Olhava impaciente para o relógio, aguardando a chegada de uma pessoa. De repente, sua mãe empurrou um pouco a porta e disse:
– Tem visita pra você, filho.
– Avise que já estou descendo.
Sua mãe saiu e ele se levantou da cama apressado, esbarrando na cômoda ao lado da cama e deixando o controle remoto da tevê de seu quarto cair e ligar o aparelho. A tevê mostrou na tela a última coisa que ele estava assistindo: a versão interativa de Premonição 3, o jornal da notícia de Kim e Thomas estava ali. Kimberly e Burke se encontraram por acaso, só para morrerem...
João, tira isso da sua cabeça, vocês ficarão bem. A morte não veio nesses três meses, não é agora que ela vai chegar. O rapaz desceu os degraus da escada às pressas, ansioso para falar com a visita. Ele já sabia decerto quem era.
– É bom lhe ver de novo, João. – A moça estava de pé, vestindo uma jaqueta de couro preta, um corset vermelho, uma calça justa jeans personalizada e uma bota longa preta. – Aproveitei que estava na cidade resolvendo alguns contratempos, e passei pra te visitar, como disse no telefonema. Não estou interrompendo nada, estou?
– Claro que não, Alisson! – João abriu um largo sorriso. – Aceita, sei lá, um refri?
x-x-x
DOIS DIAS DEPOIS...
Era final de tarde. O tempo estava nebuloso, carregado, anunciando um forte temporal. Pedro e Marina haviam acabado de sair do cinema. Os dois riam bastante, enquanto caminhavam por uma rua pouco movimentada. A garota repetia as reações feitas durante o filme que assistiram e ele aproveitava para debater sobre uma possível sequência de Annabelle.
– Nossa, apesar da nossa sessão ter atrasado alguns minutos, eu nunca me diverti tanto como hoje, moço. – Disse simpaticamente.
– Não me chama de moço, que fico me achando um desconhecido. Sei que não nos conhecemos tanto, mas pode me chamar apenas de Pedro ou Peeh, se por acaso se sentir a vontade. – Deu de ombros.
– Okay, Pedro.
Ambos estavam preparados para dobrar na próxima esquina e-
PUNF!
A pipoca decolou da mão do universitário, quando um garoto baixo e engravatado vindo na direção oposta esbarrou nele. O saco de pipoca espalhou-a nos pés de Marina, que deu um pulinho quando o esbarrão aconteceu. Pedro ficou sem reação, assim como o garoto de terno e gravata.
– Sam? – Pedro disse, de maneira estática. – Mas o que...
– Não se preocupe, estou atrasado para um casamento, tenho que chegar lá antes que todos. Os outros músicos me esperam. – Preparou-se para voltar a correr. – Mesmo assim, foi bom ver você, amigo.
Num súbito o temporal caiu furiosamente sobre suas cabeças. Não dava para Samuel chegar ao evento completamente encharcado. Ele, Pedro e Marina entraram na primeira porta que viram. A de um cybercafé, que ficava logo na esquina.
A garota retirou os óculos e limpou as lentes em sua blusa; Sam retirava a umidade de seu cabelo e Pedro olhou pela vidraça para o temporal ameaçador do lado de fora. Quando virou-se, notou que o cybercafé estava vazio, com exceção de dois jovens sentados de frente para o balcão. A única atendente folheava uma revista, onde um anúncio estampava a contracapa. Tratava-se de uma manipulação de fotos homenageando o aniversário do filme House Of Wax, mostrando a casa de cera, palco da maior parte dos acontecimentos do filme.
– Essa chuva tem que dar uma trégua. – Sam comentou. – Maldita hora em que o carro do violinista quebrou! – Resmungou, por fim.
Pedro sentiu um calafrio.
– Tem alguma coisa errada. – O universitário murmurou.
– Disse alguma coisa? – Sam se aproximou, quando passou direto por ele, indo na direção do balcão.
O copo de café caiu no colo do rapaz que estava sentado de frente pro balcão.
– Au! – Rapidamente ele tentou diminuir a dor causada pelo líquido quente em suas pernas, com guardanapos. – Droga!
A jovem do lado dele riu.
– O que você está fazendo aqui? – Pedro perguntou pro garoto do balcão, que logo revelou ser conhecido.
– João. – Sam disse, também chegando mais perto.
– Como o que eu estou fazendo aqui? Estava apresentando o capuccino maravilhoso desse lugar pra ela. – Acenou com a cabeça para a garota do lado. – O carro dela está na oficina, estamos esperando a chuva passar para buscá-lo.
– Alisson, prazer.
Marina foi a única que pareceu ouvir o que a jovem de jaqueta disse. Pedro e Sam estavam reunindo todas as informações obtidas até então.
– Espera, e vocês? – João estava percebendo também. – Merda, merda! – Levantou-se do banco com rapidez e ficou de frente para os três de pé. – Não me digam que imprevistos trouxeram vocês até aqui?
– A sessão do meu filme atrasou exatamente dezoito minutos. – Pedro congelou.
– O cara que me daria uma carona para uma cerimônia de casamento em que eu vou tocar, não pode passar na minha casa. O carro dele quebrou no meio do caminho e ele teve que rebocá-lo até a oficina. – O rosto de Sam transparecia medo.
– Será o mesmo que parou de repente na rua e me fez perder o controle do carro, João? – Alisson se pronunciou. – Por isso meu carro foi pra oficina.
– E por isso viemos parar aqui. – João retrucou. – Na oficina eu vi um panfleto dessa cafeteria e resolvi trazer Alisson aqui, enquanto o retrovisor e uma parte do pára-choque eram reparados.
– PORRA! AS COINCIDÊNCIAS! – Pedro levou as mãos à cabeça. – A MORTE NOS JUNTOU DE NOVO!
– Esse momento era premeditado, sempre foi! – João completou. – Isso significa que existe uma falha na teoria do Vini e ele também corre muito perigo estando longe. Tudo não passou de uma distração.
Primeiro, a dor de cabeça e num piscar de olhos, Pedro viu a cafeteria derreter numa enxurrada de um líquido fervente. Ouvia gritos e via flashes de um misturador. Um pedaço de concreto atingiu o chão, uma rajada de sangue apareceu e mais gritos agonizantes. Também viu o gesso em sua perna, outro flash rápido e além de MV, outra assinatura estava borrada.
Voltou à cafeteria da mesma maneira veloz com que teve a pequena visão.
– Ela vai agir de novo, ainda não acabou. – Peeh disse, ciente de sua visão. – E eu sei quem é o próximo.
– Quem? – Sam perguntou, extremamente desconfortável.
Bastou um olhar do visionário para ele entender que ele mesmo era o próximo da lista.
– Enfim, chegou minha hora. – Samuel parecia ter se conformado instantaneamente.
Enquanto todos estavam ocupados discutindo sobre a armadilha da morte, ninguém notou que um gás escapava de uma das saídas de ar da cafeteria. Alisson e Marina foram as primeiras a tossir; João, Sam, a balconista e Pedro tossiram logo em seguida.
– Não parece ser gás de cozinha! – João alertou.
– Muito menos lacrimogêneo! – Concluiu Sam, começando a ficar atordoado.
– Eu sei exatamente o que é isso! – Alisson se manifestou. – Não inalem essa porcaria! É gás hélio! Alguém está tentando nos matar! – A voz foi perdendo força. Logo, Alisson estava debruçada no chão.
Marina também caiu, quase batendo a cabeça na bancada. Sam agarrou a blusa de João, mas não resistiu e caiu desmaiado. A última coisa que Pedro viu foram João e Alisson desacordados bem ao seu lado, antes de apagar totalmente.
XXX
O feixe de luz sobre os olhos de Pedro o acordou. Ele via apenas o feixe, enquanto todo o resto ao seu redor estava escuro. Ao longe era audível barulho de goteiras e um pequeno zunido específico. Os olhos dele ardiam, suas pernas estavam dormentes, ele não sentia nem o gesso, deduziu que estava ali há algum tempo. Seus braços formigaram, e só então ele se deu conta de que estava amarrado a uma barra de ferro presa do chão até o teto, que não deveria ficar longe, mas seu topo era apagado pela escuridão da sala. Tinha um formato retangular e por incrível que pareça era organizada, bem arrumada, como um depósito vazio. Uma única porta era vista, na qual havia uma escritura acima dela, mas lê-la foi em vão, pois ele estava um tanto longe dela.
Fez força para tentar se desvencilhar das cordas, porém, elas foram muito bem amarradas e presas ao ferro. Outro feixe de luz surgiu na sala, e esse por sua vez, iluminou o outro lado da sala, consequentemente outra pessoa surgiu presa à barra. Era Sam e ele reclamava de dor de cabeça e tontura.
– Onde será que estamos? – Perguntou.
– Não faço a mínima ideia. – Pedro respondeu, olhando para o outro lado. Haviam duas janelas pequenas mais no alto. – Mas quem estiver por trás disso, não sairá daqui ileso.
– Até parece. Se isso for um jogo de gato e rato, com certeza não somos os gatos. – O outro via Sam procurar algum objeto perto deles que pudesse ajudar na fulga.
A única coisa que o músico observava era um objeto preto, com alguns botões, próximo da sua perna. Disse eufórico:
– Peeh, tem um gravador aqui.
Pedro virou a cabeça e inclinou-a, vendo o objeto de soslaio aos pés de Sam.
– Dois caras presos numa sala e um gravador... Eu já vi isso antes. – O universitário simulou estar forçando a mente, mas ele já tinha o complemento na ponta da língua. – Jogos Mortais.
Sam conseguiu alcançar o botão de ligar com o pé e ligou o aparelho.
“Boa noite, senhores. Vocês devem estar se perguntando como e por que vieram parar neste lugar. A única coisa que posso adiantar até aqui é que só terão as respostas para essas dúvidas quando passarem pela porta. Mas pra isso precisam se soltar das amarras no tempo determinado pelo relógio digital perto da saída, antes que a barra em que estão presos fique energizada e mate-os eletrocutados. Darei uma colher de chá. No bolso de um de vocês tem um objeto que pode ajudá-los na fuga. Até breve!”
O gravador parou.
Pedro e Sam se entreolharam assustados.
– Minha morte será assim? Eletrocutado? Nossa, a morte está sem criatividade mesmo. – Ironizou o músico.
– Vamos nos concentrar em nos soltar, certo? Deixe-me ver... – Pedro procurou em seu bolso e sentiu um objeto se mover dentro dele. Quando balançou as pernas, viu um molho com três chaves cair. – Isso não vai soltar as cordas.
– Mas isso vai. – Sam ergueu com dificuldade uma pequena serra que encontrara em seu bolso.
Ambos ouviram um bip e olharam na direção da porta. O relógio acendeu a luz vermelha e mostrou o contador. Um minuto passou a correr em contagem regressiva. O mais alto arregalou os olhos.
– Vamos rápido Sam, temos menos de cinqüenta e sete segundos!
– Estou tentando, ora! – O garoto ergueu a serrinha na direção da corda e forçou movimentos verticais, indo e voltando sobre a superfície da corda.
45 segundos.
O corte não tinha sido suficiente para arrebentar a corda, mas deixou-a mais maleável. Ele resolveu fazer movimentos típicos para se livrar do nó, e então a corda caiu. Comemorou internamente e pegou a serrinha novamente, direcionando-a cobre a corda do amigo.
– O tempo ta acabando! – Peeh estava ficando angustiado.
– Estou cortando o mais rápido que posso!
Sam já estava conseguindo. A corda arrebentava aos poucos, até que Pedro forçou e ela se partiu.
O adolescente se ergueu do chão, sentindo os pulsos doerem. Sua perna ainda estava dormente e ele viu o relógio desligar.
– Tem alguém nos observando. – Samuel apontou para um canto da sala e avistou uma câmera de segurança ligada.
– Vamos descobrir quem é. – Pedro se dirigiu até a porta, seguido do amigo. Como esperado, estava trancada. – Uma das chaves deve abri-la. – Ele testou as três, a última destrancou a porta.
Girou a maçaneta e entrou.
XXX
A porta atrás de si se fechou novamente. Os dois estavam diante de outra sala, desta vez menor e com uma cabine de vidro logo à frente. Quando as luzes se acenderam, nas paredes laterais era possível verem duas estátuas de cera em cada lado. Um pouco mais acima, outros artefatos e esculturas feitas de cera. Logo reconheceram o local como sendo o Museu de Cera da cidade, ou como chamavam comumente, Casa de Cera. Neste lugar, além de serem expostas para o público, elas são criadas em sua maioria ali, em outra ala do museu.
– O que você acha que devemos fazer agora? – Samuel indagou.
– Vamos procurar pelo gravador. Deve haver algum por aqui também. Não é isso que ele quer?
– Ele quem?
– O indivíduo por trás do nosso seqüestro.
Sam se distraiu por breves segundos e o outro foi na direção oposta.
– Achei!
O músico virou-se e viu Peeh arrancar o gravador, pendurado por um fio bem perto da cabine. Ligou:
“Vocês conseguiram passar da primeira etapa. E já que foram tão bem, responderei a maior pergunta por enquanto, o porquê de estarem aqui. E antes que possam me xingar pra valer, pode-se dizer que é por motivos bem pessoais. Tanto você, Pedro, quanto você, Samuel, causaram dor em mim. Um por ter mentido e escondido um segredo descaradamente e o outro por ter me desafiado, acima de tudo. Ninguém mexe com o que é meu!”
As luzes dentro da cabine de vidro acenderam, revelando duas silhuetas se movendo lá dentro. Os rapazes não precisaram se aproximar tanto para notarem que se tratava de João e a garota de jaqueta preta, Alisson. Eles batiam no vidro e gritavam pelo que se via. A cabine era a prova de som.
– Mas que... porra é essa? – Sam os viu desesperados.
– É ele, Sam. – Pedro murmurou. – Felipe. É ele quem está por trás do seqüestro e dessa bagunça.
– Como vocês são inteligentes. – A voz atrás deles surgiu como um trovão.
– Eu sabia que tinha dedo seu nessa porcaria, seu otário! – O universitário gritou.
– Opa! Não adianta ficar bravinho agora, porque o estrago já está feito. – Chemim disparou.
– O que quer dizer com isso? – Foi a vez de Sam perguntar.
– Eu apenas aproveitei que a morte tenha juntado boa parte dos sobreviventes novamente, para por meu plano em ação.
– Que plano?
– É óbvio, não é? Me vingar de vocês, por terem acabado com minha vida! – Você não deveria ter mentido pra mim, quando te perguntei se Marina estava viva, Sam. Foi um erro fatal não ter se arrependido e me contado.
– Mas eu tentei, seu imbecil! Você que não quis dar ouvidos!
– Cala a boca! – Gritou. – Agora é tarde demais. – A morte já está vindo, e eu sei que é o próximo.
O músico tremeu, ciente de que a morte estava mais próxima do que ele imaginava.
– E Pedro, lamento não ter te ajudado naquele dia no cemitério, quando você caiu da escada. Mas é que ver você gritando de dor, com a perna torcida, foi mais prazeroso. – E gargalhou.
– Seu... Merda! Vou acabar com você! – Peeh gritou e ameaçou socá-lo, quando Chemim tirou algo que estava escondido em suas costas.
O golpe com a madeira foi certeiro na cabeça do visionário, que desmaiou no exato instante. Sam recuou, mas arriscou investir contra Felipe, empurrando-o e fazendo-o cair num baque surdo. A madeira caiu para o lado. Chemim tentou alcançá-la, mas Sam segurou seus braços. Os dois entraram em luta corporal, enquanto o músico deferia socos contra o autor do seqüestro.
João e Alisson ainda tentavam de todas as formas arrebentarem a porta da cabine ou quebrar o vidro, mas era mais resistente.
No segundo soco, Felipe acertou uma joelhada contra o estômago de Samuel, que tombou e rolou para o lado. Chemim se levantou e caminhou em direção ao músico, que pressionava o estômago, sentindo uma dor tremenda. Felipe só precisou chutar o rosto de Sam uma única vez, para que ele desmaiasse.
XXX
Samuel foi abrindo os olhos devagar, sentindo sua cabeça doer e girar. Sua vista estava turva e ele demorou a ver completamente o que estava ao seu lado. Um grande tanque de cera quente. Um misturador estava ligado e o líquido se movia em um redemoinho amarelo fervente. Mas o que diabos está havendo? Ergueu o tronco e sentiu seu corpo dolorido. Passou a mão na têmpora e olhou para um corredor semi-iluminado e comprido que ficava disposto de frente ao tanque. Uma silhueta negra caminhava ao longe e parecia carregar alguma coisa.
De repente ele lembrou Felipe e do que ele fez na sala de exposição do museu. Com ligeireza saiu dali e se escondeu atrás de uma máquina menor. Chemim chegou arrastando Pedro pela gola da camisa, ainda desacordado, quando reparou na ausência do outro.
– Droga, ele fugiu! – Jogou Peeh no chão e olhou para todos os lados. Decidiu procurá-lo.
Sam encolheu os ombros atrás da máquina e engatinhou, vendo os pés do algoz do outro lado. Tapou a boca para sua respiração não ficar tão evidente. Com os olhos arregalados viu a sombra se mover. Mas o outro parecia saber que ele se escondia ali e apareceu num rompante.
– Aí está você!
O músico não esperou e atingiu o rosto de Felipe com uma cotovelada. Ele foi para trás com o impacto e seu corpo foi contra um painel da câmara de máquina, ligando a maioria delas, inclusive aumentando a velocidade do misturador de cera quente. Sam correu na direção de Pedro, mas Chemim agarrou seu pé no último segundo, puxando-o para trás. Sam segurou numa estrutura metálica de uma das máquinas, onde havia um outro painel, desta vez com um manto de cera quente estendido.
Felipe alcançou seus cabelos e puxou-lhes com força, arrancando um grito do músico. Ainda segurando os cabelos de Sam, Felipe lançou sua cabeça contra uma parte do metal da máquina, abrindo uma fenda profunda na testa do garoto. Sam gritava, sentindo a dor consumi-lo. Chemim não o deixou se recuperar do golpe e o segurou pela blusa, jogando-o contra a escadaria de apoio da grande máquina ao lado. Um pouco tonto Sam olhou para cima e viu uma passarela, sustentada por cabos de aço e pensou e subir.
Rapidamente ergueu a primeira perna e segurou nas barras da escada. Felipe agarrou seu pé novamente, mas Samuel chutou seu tronco, jogando-o no chão. Subiu até o topo o mais rápido que pode. Lá em cima, já na passarela, olhou para baixo e mostrou o dedo do meio para o outro, falando:
– Vai se ferrar! – E lançou um gancho segurado por um cabo, contra Felipe.
Ele desviou do objeto com maestria, fazendo com que o gancho abrisse uma brecha na máquina de trás. O líquido fervente espirrou nas costas de Chemim, e ele urrou de dor, se afastando às pressas. Dali passou a jorrar cera e se espalhar pelo piso do lugar. O músico correu pela passarela, visualizando o outro lado da câmara.
Lá embaixo, Chemim voltava para verificar como Pedro estava e não o encontrou.
– Maldito! – Gritou, olhando em volta. – Será que ninguém fica muito tempo desmaiado?
– Ei, Felipe! – Peeh chamou.
Assim que Chemim se virou, viu um palhaço lhe encarando. Arregalou os olhos e piscou várias vezes, temendo que fosse coisa da sua mente. Tinha seu tamanho e sua face era assustador. Pedro saiu de detrás da escultura de palhaço – que levara até lá — e chutou o peito do namorado de Marina; ele bateu as costas numa grade de proteção. Com dificuldade se ergueu e viu Peeh se aproximar de um terceiro painel, com três botões. Na queda, Felipe agarrou uma estaca de bronze, jogada próxima da grade e escondeu detrás de si.
– O Sam não vai morrer. Talvez, ninguém mais precise morrer. – Chemim começou. – Só temos que ganhar da morte. Ela é a inimiga em comum daqui.
– Você é mesmo um filho da mãe bem hipócrita, em, Felipe? – Peeh gargalhou. – Acha mesmo que acredito? Que vai me convencer de que não és uma ameaça? Para que ta feio, cara.
O outro riu cinicamente.
– Você tem razão... Nunca confie no inimigo! – Disse por fim, jogando a estaca de bronze no gesso de Pedro.
O universitário sentiu a perna indo para trás e se desequilibrou, caindo.
– Aqui, Chemim! – Samuel gritou, de cima da passarela.
O grito chamou a atenção dele, que virou de costas. Peeh aproveitou o momento parra contra atacar, sem saber que Felipe pressentiu o que ela faria e virou-se no último segundo, segurando seus braços. Pedro ganhou força e chutou seu joelho esquerdo. Felipe dobrou o joelho e o universitário agarrou sua nuca com força, lançando seu rosto contra o painel com cera fervente. O lado direito do rosto de Chemim foi direto no líquido.
A dor profunda arrancou um grito agonizante dele, que caiu no chão no exato segundo, se contorcendo com a cera entrando em seu tecido e corroendo cada centímetro de pele que havia ali. Urrava desesperado e aflito.
– Outra principal regra para se sobreviver em um filme de terror. Nunca largue a sua arma, você nunca sabe quando vai precisar se defender outra vez. – Por fim, chutou sua barriga e acenou para que Sam descesse da passarela.
Ao olhar para o músico, logo acima dele, Pedro viu uma enorme rachadura, que deveria ter começado nos cabos de aço. Um insight de sua pequena visão veio à tona, mostrando a ele os elementos que vira na cafeteria: o concreto caindo, o líquido fervente e a cafeteria derretendo... Cera!
– Porra, Samuel, sai daí! – Grito preocupado. – Cera, essa era a pista da sua morte!
– O quê? Não ouvi!
Pedro correu para as escadas, repetindo o mesmo e subindo os degraus ligeiramente.
– Sai logo daí Sam! O misturador vai te matar!
O músico sentiu as pernas trêmulas, bambas e não soube o que fazer. Viu as rachaduras acima de si, sem poder fazer muita coisa, quando estava por fio de cair, Pedro correu a tempo de tirá-lo do caminho dos escombros. O barulho foi ensurdecedor e fez Sam tapar os ouvidos.
O grande pedaço de concreto bateu sobre a estrutura da passarela, inclinando-a na direção do buraco. Os cabos daquela parte arrebentaram. O músico foi escorregando na direção do fim, quando Peeh segurou seu braço. Samuel o olhou como se fosse a última coisa a ver na sua vida.
– No meu enterro, você pode me dizer pra minha mãe que eu a amo? – Lágrimas rolavam pelo seu rosto inchado. – E que quero que toquem Beethoven nele?
– Não, Sam, porque você vai viver! Você não pode morrer agora! É isso que você quer? Morrer jovem? – As palavras do amigo relembraram a conversa que tiveram há três meses, quando o músico dava uma bronca nele.
Samuel não agüentou e chorou. Chorou muito, naqueles últimos segundos.
– Você me promete que fará isso? – Perguntou, sentindo sua mão escorregar.
– VOCÊ NÃO VAI MORRER! – Peeh gritou, segurando o braço de Sam com a outra mão e puxando-o de volta para o lado seguro da passarela. – E se eu for junto, os outros estarão salvos!
– O Felipe não pode viver nesse trem! Não depois de tudo! – Ainda tinha forças para gritar. – Você nunca deve morrer pelos seus amigos, Peeh. Viva por eles... – As lágrimas não paravam. Pedro também deixou que as suas se espalhassem pelo rosto machucado.
O sangue que descia pelo ferimento na cabeça de Sam parecia se permutar às lágrimas dele.
– VIVA POR ELES! – Ambos ouviram o grito vindo lá de baixo.
Ao olharem, Felipe jogou a barra de bronze na direção de Pedro. O universitário não pode fazer nada. Ao contrário do que achava, a estaca atravessou o braço de Sam e ele não pode agüentar. Soltou a mão do amigo no segundo seguinte e sentiu-se em queda livre.
O líquido fervente do tanque se aproximava cada vez mais, bem abaixo dele. E à medida que se aproximava, ele sentia-se abraçado pela morte. Os dois dançariam a sinfonia e ele não viraria nada mais que o resto de um corpo decomposto imerso na cera. Não morra por eles, viva por eles...
Quando seu corpo atingiu o líquido, pode-se ouvir um último grito abafado e logo após, a cera fervente causou bolhas terríveis que foram se alastrando por toda a extensão de seu corpo pequeno e franzino. A pele se rasgou como papel, deixando a carne e os ossos à mostra, como num show de aberrações. O corpo de Sam queimou, sua alma queimou. Tudo estava dilacerado e irreconhecível.
Foi emergindo, até desaparecer da superfície.
Peeh demorou alguns segundos para digerir a morte do amigo. Seus olhos já estavam vermelhos de tanto chorar, quando ele desceu os degraus da escada, devagar. Chemim estava no chão, escorado em uma parede, tentando se erguer. Pedro ficou estático quando viu a metade do seu rosto atingida pela cera. Estava deformada, irreconhecível, como em um freak show. Ele gemia de dor, ao mesmo tempo em que tentava tocar na grande queimadura; sua mão tremia.
– Você o matou, seu desgraçado! Só adiantou a sua morte!
– Pra ser sincero, minha intenção sempre foi adiantar a sua. – E riu cinicamente. – Ele já estava condenado mesmo. Já compramos os ingressos, agora não tem mais como voltar atrás. Temos que assistir o show até o fim.
– Vai se foder, seu bosta! – O universitário atreveu-se a empurrar a mão na queimadura grave do inimigo, agora debilitado. Ele urrou, a dor era como a de ser queimado vivo, e seu rosto realmente queimava.
Pedro virou as costas, deixando-o resmungando. O que ele não sabia era que Chemim esperava por isso e puxou o canivete do bolso, pulando nas costas de Pedro, que tentou se desvencilhar, mas sentiu o objeto cravar em seu braço.
De repente, duas flechas foram lançadas contra Felipe. A primeira atingiu seu ombro, a segunda, sua coxa. Ele caiu de bruços, chorando. Peeh virou-se e avistou Alisson parada no fim do corredor, apontado um arco. Ao seu lado, João segurava a aljava e Marina também estava com os dois, assustada. O universitário poderia cogitar como eles saíram da cabine, encontraram Marina ou arrumaram um arco e flechas, mas o que importava para ele era sorrir e perceber que estavam todos bem.
Todos, com exceção de Sam.
Descanse em paz, Sammy...
Subitamente dois painéis explodiram ao mesmo tempo e logo o fogo se espalhou pela cera e em volta dos tanques.
– Essa porra vai explodir! – João alarmou.
Alisson segurou a mão de Marina e as duas correram para o salão de exposições. João se aproximou de Pedro e o ajudou a fugir.
Show me what it's like
To be the last one standing
And teach me wrong from right
And I'll show you what I can be
Say it for me
Say it to me
And I'll leave this life behind me
Say it if it's worth saving me
Heaven's gates won't open up for me
With these broken wings I'm fallin'
And all I see is you
These city walls ain't got no love for me
I'm on the ledge of the eighteenth story
And oh I scream for you
Come please I'm callin'
And all I need from you
Hurry I'm fallin'
I'm fallin'
Eles não tinham ideia de onde seria a saída. Porém, como uma luz no fim do túnel, alguém abriu uma porta e a luz da lua iluminou a saída. Eles não sabiam que poderia ter feito isso, mas viram a silhueta da pessoa que abrira o portão do paraíso, da salvação.
Entraram seis e só saíram quatro.
XXX
Alisson e Marina foram as primeiras a passarem pelo portão. Pedro e João logo em seguida, com o primeiro sendo carregado pelo segundo.
– Onde está o baixinho? – Alisson perguntou.
Pedro olhou para o chão, desconsolado. Jo percebeu o movimento e deitou a cabeça do amigo em seu ombro.
– Eu sinto muito pelo seu amigo. – Marina murmurou.
Pedro sentiu pena da garota, por se relacionar com uma ser feito Felipe. Ao menos se ela tivesse esquecido-se dele...
Atrás deles os fundos do museu explodiram. A espessa fumaça surgiu logo depois.
– Mas quem abriu a porta para sairmos? – Alisson soltou num rompante.
Houve um silêncio sepulcral, antes de uma voz se manifestar e quebrá-lo:
– Fui eu. – A voz apertou o coração de Pedro e João. Eles sabiam de quem se tratava. – Me agradeçam depois. Não temos muito tempo até que Vinícius e Pedro morram também.
– Ela conhece o Vinícius? – Alisson indagou para João.
– Ela não só o conhece bem, como é sua namorada. Como você... Como está aqui? Seu enterro aconteceu, estava morta. – Foi Pedro quem respondeu.
– É. Bem que eu queria estar morta, mas agora tenho um motivo à mais pra continuar vivendo. – O que ela disse arrancou a surpresa de todos ali presentes. Pedro e João já estavam descrente só pela presença dela.
– Ma-mas, como nos achou? Do que ce ta falando? – João perguntou incrédulo.
– Além de namorada, agora sou mãe do filho dele. – Ela retrucou. – Nosso filho pode quebrar a lista, no momento é tudo o que nos resta. Nossa única ponte entre nós e a tão sonhada quebra da lista.
Alisson permaneceu em silêncio, apenas encarando-a e digerindo tudo o que aquela moça dizia.
Kethellen passou a mão na barriga carinhosamente.
– Kevin é o nome dele. A mistura de nossos nomes, o fruto do nosso amor vai nos livrar de todo este mal.
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