Notas iniciais
Escrito por João R.

Uma semana...

Havia passado apenas uma semana. João não saíra de sua casa desde o acidente, nem mesmo para o velório de suas amigas. Não conseguiria olhar para os familiares delas.

Ele se lembrava de quando os pais delas haviam chegado ao parque, no dia do acidente. Os pais de Bacon ficaram em choque, sem entender por que isso estava acontecendo com eles, enquanto a mãe de Lais perdera as forças e se encontrava ajoelhada no chão, chorando até não conseguir mais. Sem palavras para confortarem eles, ou para confortarem a si mesmo, ele apenas encarava a cena, lágrimas escorrendo de seus olhos e a culpa tomando conta de sua mente. Por que não havia sido capaz de salvá-las?

No dia do velório, sua escolha causou muita surpresa. Seu celular estava lotado de mensagens e chamadas não atendidas. Ele estava se afastando de seus amigos, não conseguia conversar com ninguém. Mal conseguia falar com sigo mesmo, em sua mente.

Encarava a tela do computador com um olhar vazio. A única coisa que conseguia fazer direito nos últimos dias era isso, sentar em frente ao computador e ouvir música. Não comia muito e dormia menos ainda. Parecia que toda vez que fechava seus olhos, via a imagem angustiante de suas amigas, cobertas em sangue e sem vida.

E ele sabia que aquela imagem o assombraria até a sua morte. Talvez, afinal, isso não seja muito tempo...

***

Guiby realmente odiava não ter o que fazer ou com quem conversar, mas vem se sentindo um pouco fora da realidade desde o acidente. Não sabia se devia acreditar que realmente estava na lista da morte ou se era tudo apenas uma coincidência.

Por sorte, Danielle tinha um plano para salvar ele de toda essa crise. Ela era a namorada de Guiby, eles namoram há um ano, mas uma chance de emprego apareceu para Danielle e ela não podia recusar, então estavam passando seus últimos momentos juntos.

Danielle ligou para ele no início da noite marcando um filme para o dia seguinte. Os dois conversaram por algum tempo e então Guiby foi dormir, ansioso pelo que o aguardava no dia seguinte.

Apesar de estar cada vez mais próximo do fim, ele queria poder aproveitar cada segundo que ainda tinha com Danielle.

***

No meio da seleção aleatória, “Lost Time Memory” de um projeto japonês chamado Kagerou, começou a tocar. João caiu em lágrimas novamente.

YearsrunbyandI'm living withyourshadow

Feeling morelonelyeverydaythatgoesby

I sitalone as I drawawaythoughts in mymind

Lais conseguira convencer ele de ouvir todas as músicas e assistir aos vídeos... Cada vez que se lembrava de algo se sentia mais fraco e inútil.

A time machineturningbacktothedaywouldbenice

A ironia doía mais que a culpa. Parecia que o universo estava se alimentando de toda a desgraça, rindo, e o fazendo passar por tudo novamente.

Though I knowthat I amnevertoseeyouagain

Ele continuava perdido em seus pensamentos. A possibilidade de a história do filme realmente estar acontecendo não estava importando, estava preso demais num passado um tanto recente.

Don'twonderwhy, wanna die, wanna die

Grabbingmyownhand, cursing it tohell as I satthere

Not a thing I can do,might as well

Live it upwhileI'm still aliveandI'mbreathing

No dia após o acidente, Peeh tinha ligado para ele, perguntando se estava bem... Será que a resposta não era óbvia?

À essa altura ele nem mesmo sabia se seus amigos ainda estavam vivos. Se a história fosse realmente se repetir, nada indicava que já não era sua hora.

Cryin’togod, a boy, no stronger

And in thosedayshestood, no falter

A summersmile I won'tremember

No, it staysthesameforever

E isso finalmente o atingiu, como em um momento clichê de um filme, pensou no que suas amigas iriam querer. Não acreditava em céu, Deus, ou em nada disso. Mas sabia que a vontade delas não seria que se trancasse em seu quarto pelo resto da vida, consumido pela culpa.

"Guess I died. AndI'msosorry"

“Goodbye's too sadandway too lonely”

Oh god, no, don'tyousaythatyou'releaving

Pleasedon'tleave me!

I finallyknowthosehazy figureswerejustlooking for this "me"

Aquelas palavras da música, foram o que finalmente o fizeram acordar. Ele se levantou, calçou o primeiro tênis que encontrou, catou seu celular e uma jaqueta e saiu porta afora.

***

Enquanto caminha em direção ao shopping, João acessou a caixa de voz do celular e escutou a primeira mensagem, era MV:

João? Eh... Sou eu, MV, de novo... O Pedro estava tentando entrar em contato com todo mundo para nos encontrarmos amanhã...

Ele imediatamente cortou a mensagem e ligou para MV, disse que estava indo para o shopping e que queria encontrar com ele. MV confirmou e então João ligou para Peeh e o chamou também.

Cara, graças a deus, já estava achando que você tava morto...

Por um minuto João congelou, tentando decidir se era apenas força de expressão ou se já estava em sua vez.

–Desculpa, eu estava realmente preso naquele dia ainda... – Ele fez uma pausa, enquanto as memórias inundavam sua mente mais uma vez – Mas eu sei que preciso me concentrar, o mínimo que eu posso fazer é tentar não morrer.

–Eu te entendo cara. Devo chegar aí em dez minutos, ok?

–Ok, mas Peeh... Tem algo que deva me contar?

Não precisa se preocupar, não é sua hora, ainda...

–E está realmente acontecendo? Como podemos realmente saber?

Sobre isso... – Houve uma pausa enquanto Peehtentava encontrar palavras para dizer – Preciso falar com vocês disso, a primeira morte já aconteceu.

Aquilo o atingiu como uma faca. Mesmo que suas esperanças por isso fossem poucas, saber que estava realmente acontecendo, que a morte estava seguindo seus passos... Aquilo revirou seu estomago e o fato de não comer direito já faz alguns dias piorou a situação. Ele ficou um pouco tonto e se apoiou em um poste, tentando se recuperar.

Keth, a namorada do Vinícius. Houve um acidente durante háalgumas horas... Ela foi eletrocutada.

***

Os três se encontravam em uma mesa da área de alimentação do shopping. Peeh contava o que sabia sobre a morte de Keth enquanto João e MV o encaravam e escutavam atentamente.

–Você se lembra de qual é a ordem? – João perguntou, com uma expressão séria e preocupada no rosto – Quem é o próximo?

–Vou falar disso com vocês amanhã, quando tivermos mais pessoas reunidas, – Peeh respondeu – por enquanto só posso dizer que o que eu vi naquele parque foi além de cruel. Nós devemos nos preparar para o pior.

–Como...– o rosto de MV estava um pouco pálido e sua voz falhando, o medo do que estava por vir era claro – Como eu morri?

A imagem de MV sendo empalado pelos destroços de uma ponte de madeira voltaram a mente de Peeh. E enquanto MV aguardava uma resposta, ele estava tentando achar um jeito de amenizar a situação.

–Não lembro muito, mas você estava passando embaixo da ponte de madeira e ela... Ela desmoronou em cima de você e...– ele estava ainda a considerar contar o último detalhe, e decidiu que era melhor não manter informações escondidas de seus amigos – Você foi empalado pelos destroços dela.

MV não disse mais nada e então João encarou Peeh, insinuando que queria saber sobre sua morte.

–A sua João eu lembro apenas em partes. Suas amigas estavam junto... – Nesse momento a cara de preocupação de João foi substituída por uma amarga tristeza – Tinha um muro, então a ponte quebrou, você caiu. Eu tentei te segurar, mas...

–Peeh, pode me dizer, eu aguento.

–Ai, eu não lembro muito bem, mas acho... Acho que você foi cortado ao meio.

Agora João entendia a reação de MV quando ele ouviu sobre a morte dele. Se a morte já tinha sido tão cruel com seu destino original, o que o aguardava agora que ela foi enganada seria bem pior.

Peeh notou o silêncio dos amigos e contou o que lembrava sobre a sua própria morte, após algumas indagações eles se levantaram e seguiram para suas casas. O dia seguinte começaria com a reunião mais tensas de suas vidas. E eles deveriam estar preparados, a situação havia se agravado muito. Eles podiam adorar o filme, e se imaginar na pele de seus personagens favoritos, mas agora, suas vidas estavam realmente e eles não sabiam como conseguiriam lidar com isso.

***

“O dia está bonito,” João pensou, “nem parece que vou morrer hoje...”

Não existe jeito melhor de começar a manhã.

Após seu longo banho, talvez o último, pegou um jeans qualquer, uma camisa vermelha e uma jaqueta de couro e saiu.

Apesar de um sol iluminando a cidade de um jeito calmo e alegre, o tempo havia virado para o frio. A espera pelo ônibus foi cansativa e ajudou a aumentar sua ansiedade. Apesar de tudo que se passava em sua cabeça, não estava vendo sinais para todo canto que olhava. Isso era bom, não estava completamente louco ainda.

***

Ele foi o primeiro a chegar na casa de Peeh, seguido por MV e Vine e então Sam. Isso aparentemente concluía a lista de pessoas que iriam comparecer.

–Então... Só isso de gente nesse trem mesmo? – Sam perguntou.

Peeh os guiou até a sala onde tentaram se acomodar. Vine estava sentado no sofá, ele encarava o chão com um olhar vazio, João e MV estavam de pé com expressões preocupadas e Peeh não conseguia parar de bancar o pé. Sam era o mais calmo no lugar, apenas olhando o resto do grupo, apoiando a cabeça com as mãos, esperando alguém dizer alguma coisa. Todos olhavam para Vine.

–Eu realmente sinto muito, cara... – MV disse com uma voz fraca. O clima não poderia estar mais tenso. E esse era só o começo.

João se aproximou de Vine e sentou-se ao lado dele.

–Cara, eu sei como é passar por isso, eu estava na mesma situação depois do acidente. Sei como é esse vazio que as pessoas deixam em você quando morrem. – Ele então apoiou a mão nas costas de Vine, em um gesto que deveria fornecer algum consolo – Mas precisamos focar no que está adiante. Precisamos estar concentrados e atentos a qualquer sinal. Eu sei que é difícil colocar isso de lado, e o que eu vou dizer pode parecer um pouco clichê, mas pense no que Keth iria querer pra você agora. Ela ia querer que você vivesse, ela ia querer que você escapasse desse pesadelo e pudesse viver o resto de sua vida em paz.

Vine se virou para João, forçando um sorriso e agradecendo o apoio.

–Então... No que diabos a gente se meteu? – Vine indagou, forçando um sorriso novamente.

–Tem certeza que é uma boa ideia falar disso aqui, seus pais não vão nos achar uns loucos? – Sam perguntou. Uma pergunta muito relevante por sinal.

–Eles estão fora de casa, trabalhando, os dois... Não vai ser um problema. – Peeh se virou e olhou um relógio pregado na parede acima deles – E meus irmãos só chegam aqui daqui a quatro horas.

–Tudo bem então – MV finalmente se sentou e se acomodou – Peeh, você pode nos dizer tudo que se lembra?

***

Guiby estava se arrumando para seu encontro com Danielle. Ele precisava desse tempo para se distrair e tentar esquecer tudo que tinha acontecido.

Depois de escolher sua roupa, pegou sua carteira e o celular e os deixou separados em cima da cama e partiu para o banho.

***

Peeh não se lembrava de muito. Contou detalhes sobre a morte das pessoas que estavam por perto e que ele conhecia mais, mas não conseguia colocar os fatos em ordem. Se lembrara apenas de Keth apenas depois do ocorrido.

–Então não temos como saber quem é o próximo? Perfeito! – Sam disse enquanto andava de um lado para o outro pela sala.

–Peeh, será que você não consegue forçar um pouquinho mais a sua mente? Nós precisamos saber quem é o próximo – João passava as mãos pela cabeça, puxando o cabelo para trás em um gesto de agitação.

Era difícil saber quem estava mais inquieto no recinto.

MV se levantou e empurrou a cadeira, começando a mostrar seu nervosismo. (E temos um vencedor...)

–Mas que droga! – disse.

Peeh já estava perdendo o controle e quase chorando como no dia do acidente.

Vine se levantou e andou até ele, se agachando ao seu lado e disse olhando diretamente pra ele:

–Vai ficar tudo bem. Nós vamos dar um jeito, só precisamos nos concentrar.

***

Quanto entrou no banheiro, Guiby notou uma bolha d’água se formando no teto, mas não parecia nada tão sério que devesse se preocupar, então simplesmente seguiu com seus planos. Pegou uma toalha no armário, jogou a roupa usada no cesto e tirou seu cordão com o nome da namorada e o colocou sobre a pia. Então entrou no chuveiro, mas não percebeu que uma rachadura começava a se formar no teto.

***

–Okay, acho que talvez seja uma boa ideia se formos atrás dos outros reapers para avisá-los da situação – João disse enquanto se levantava, pronto para partir.

Os outros concordaram e fizeram o mesmo, mas quando Peeh tentou se levantar, ele ficou tonto foi puxado para o chão. Ele segurava a cabeça com a mão come se estivesse tentando parar alguma dor e suas pálpebras estavam palpitando.

–Peeh, você está bem? – Vine o leantava do chão, enquanto MV se aproximava para poder ajudar.

–Acho... Acho que tive outra visão –o rosto de Peeh estava pálido agora e sua voz mais fraca.

–Fala! O que você viu? – João se apressou, perguntando, na esperança de poderem salvar alguém.

–Não sei descrever... Foi... Foi muito aleatório... Eu vi água se tornando vermelha e sendo sugada pelo ralo... Rachaduras em uma parede e... Acho que vi um cordão, com um nome... Danielle.

MV tentou se lembrar onde já tinha visto esse nome e foi então que veio a ele.

–ESSA É A NAMORADA DO GUIBY!

–Nós temos que ir atrás dele – Peeh se levantou novamente e foi em direção a porta, pegou as chaves do carro na mesa e correu para fora, os outros correram atrás dele e Vine o parou no meio do caminho.

–Peeh, você tem certeza que está em condições de dirigir? Eu vou com você, me deixe dirigir. – Peeh entregou as chaves a Vine e entrou no carro.

–Vocês – Peeh disse apontando para Sam, João e MV – Corram para casa e tentem descobrir onde os outros estão a todo custo!

***

Peeh e Vine não estavam muito longe. MV tinha dado a eles o endereço de Guiby e a casa dele ficava apenas a uns 15 minutos de distância.

Mas então Vine passou com o carro por cima de alguma coisa e o pneu furou, fazendo o carro deslizar um pouco até parar completamente.

–Que porra foi essa? – Vine gritou enquanto descia do carro para ver o estrago. – Cara acho que vamos precisar chamar um reboque...

Peeh, entretanto, estava mais preocupado com Guiby – Faça o que for preciso mas tenho que ir atrás do Guiby! – ele disse, pondo-se a correr.

Vine puxou o celular e discou para um número de emergência enquanto assistia Peeh se distanciar.

***

João ainda estava longe de casa e começara a correr quando outra música no modo aleatório do iPod chamou sua atenção, “Outer Science”.

"Please, give it back!" youscreechandscream

"Stop thisalready" quite theplead

Oh youthinkthat I care? Welllife'sjustonefatedsnare

Welcometohorrible, pitiful, fictional, reality

Ah, what a stupidwaytolive

Try,tryagainyoujustresist

Wannaturnbackthepage, reset theactorsonstage

Knock it down as you'reheavinghowling, evenlouderscreaming

As vezes se perguntava por que tinha músicas como essa no seu iPod, mas no momento só conseguia temer o que estava para vir.Continuou correndo o mais rápido que podia. Precisava chegar em casa, precisava conseguir encontrar os outros e impedir que tivessem o mesmo destino que suas amigas e Keth.

***

Quando Peeh chegou a casa de Guiby, ele tocou a campainha, bateu na porta desesperadamente. Uma mulher de cabelos longos e negros, provavelmente a mãe de Guiby, abriu, porta e perguntou como muita educação quem ele era.

–Oi, sou um amigo do seu filho, da escola, ele está? Eu realmente preciso falar com ele...

***

A rachadura começou a se espalhar, mas Guiby percebeu e conseguiu se afastar a tempo quando a bolsa de água estourou e um pedaço de concreto do teto caiu no chão. Ele começou a rir, tomado pela alegria de ter escapado mais uma vez.

Mas o teto continuava a ceder lentamente, e uma caixa d’água parecia estar prestes a cair e com rachadura continuando a se espalhar, logo alcançou o chuveiro, deixando espaço suficiente para ele ter uma leve queda e acertar a cabeça de Guiby, derrubando-o.

***

O som da queda ecoou pela casa, alarmando a mãe do garoto, que disparou escadas acima, seguida de Peeh, até o banheiro.

–Guibson! Querido, o que está acontecendo? Você está bem? – A mãe de Guiby gritava.

Sem resposta ela começou a puxar a maçaneta sem parar, tentando abrir a porta, e então começou a chutar.

–Me ajuda!

Peeh estava entrando em desespero mas fez o que lhe foi dito. Os dois começaram a chutar e se jogar contra a porta para tentar quebrá-la.

Guiby estava no chão ainda, sentindo uma enorme dor na sua cabeça, ele podia ouvir os sons de batidas vindos da porta e se virou para ela. Quando eles conseguiram quebrar a porta, a mãe de Guiby tentou se aproximar, mas chegou a tempo apenas de ver a caixa d’água cair e esmagar a cabeça e o torço de seu filho. Ela gritou enquanto descia lentamente até o chão, chorando e se sentindo inútil por não ter conseguido salvar a vida de seu filho.

Peeh recuou e apoiou suas costas na parede, enquanto assistia a aquela terrível cena. Seu estomago estava embrulhado.

Conseguia notar agora os elementos de sua visão. A água misturada com sangue escorrendo até o ralo, as rachaduras no teto e na parede e o cordão, com o nome Danielle, em cima da pia, ao lado do box do chuveiro.

Uma tontura tomou posse do corpo de Peeh novamente e ele não conseguiu se segurar e vomitou. Enquanto encarava o chão pôs-se a chorar enquanto o medo o consumia, não estava pronto para isso, não estava pronto para ver seus amigos morrerem. Não estava pronto para morrer.

Notas finais
Não esqueçam de comentar, é importantíssima sua colaboração como leitor para a continuidade do projeto. Encontro vocês nas reviews!