Notas iniciais
Escrito por MV.

Alguns dias antes.

Marcela chegava exausta em sua residência. A mulher acabara de testemunhar uma das maiores atrocidades que tinha oportunidade de ter visto. Preferia que fosse tudo somente uma ilusão, mas era a verdade.

Ela tinha certeza que estava na lista novamente.

De certa forma, sentia-se derrotada, mas ao mesmo tempo sabia que conseguiria vencer. Ela sabia muito bem como jogar o jogo da morte, com esperteza e astúcia. Mas precisava achar as pessoas da lista, descobrir onde cada uma delas se escondia. Eles não faziam ideia com o que estavam lidando, simplesmente a pior das assassinas, aquela que não perdoa: A própria morte.

— Marcela? – Júlio a chamou, sem sucesso. – Marcela, preciso falar com você.

— Eu não quero falar com você, Julio. – Ela disse, subindo as escadas para o andar superior. Julio levou as mãos á cabeça, em sinal de preocupação. Ricardo então surgiu, vindo da cozinha.

— Ela não quer falar mesmo, né?

— Não sei mais o que fazer, Ricardo. Ela precisava escutar o que tenho para falar...

— Espera o acidente esfriar mais um pouco na mente dela. Todos nós estamos abalados, e ela principalmente.

— Ricardo, não há tempo! Você sabe como a morte age!

Marcela saiu da beirada das escadas do nível superior, de onde ouvia tudo o que era dito, e se dirigiu para o seu quarto. Se abaixou e puxou da parte de baixo da cama a maleta que o fornecedor tinha lhe dado. Abriu a mesma, e do seu interior retirou e segurou a Glock 18 com o silenciador.

Marcela estava decidida.

...

Cabo da Praga, 25 de dezembro de 2015.

O céu estrelado cobria a cidade de Cabo da Praga como um manto. Mas era um manto que impedia a saída de seus residentes. Desde o suspeito acidente no túnel Teodoro Kaulfuss, a cidade viu se em polvorosa. Estavam todos presos naquela grandiosa ilha, que um dia fora um dos maiores centros comerciais e empresariais do país, hoje uma verdadeira zona de guerra.

No alto da torre das antigas indústrias Zonatto, onde hoje se localizava o assentamento clandestino, Amanda olhava as luzes que sobraram da metrópole á distância, logo depois do fim do Natal. Um vento gelado atingia seu rosto e fazia os cabelos cacheados dela se espalhem por sobre seu rosto.

Ali era o seu refúgio, quando nada mais parecia dar certo. Ali era o local em que poderia estar sozinha, em que poderia liberar todas as emoções que escondia das pessoas ao seu redor. A garota sempre sofreu por si só, porque acreditava que podia resolver tudo por si mesma, e isso já causara extremos atritos com a sua antiga família.

Pensava na família, e o dia terrível voltou a sua cabeça, como um verdadeiro flashback.

Moça, sai da sacada

Você é muito nova pra brincar de morrer

Me diz o que há

O quê que a vida aprontou dessa vez?

...

Seis meses antes.

Cabo da Praga, 13 de julho de 2015.

A noite fria de inverno chegava na cidade costeira e Amanda apressava o passo para poder chegar em casa. A menina morava com sua família na zona residencial da grandiosa ilha, como a maioria dos seus habitantes.

Amanda possuía duas irmãs, uma mais velha, chamada Beatriz, com 17 anos, e outra mais nova, Simone, com 11 anos. Beatriz se esforçava continuamente para passar na renomada UFCP, enquanto Simone ainda era uma criança com desejos comuns para sua idade. Ambos moravam com o pai, Frederico, que viera do Nordeste tentar a sorte na região e que tinha se casado com Janete, uma mulher batalhadora que nascera em Cabo da Praga mesmo.

De pobre, Frederico chegou á classe média, e hoje trabalhava em uma fábrica local. Janete por sua vez, ajudava nos custos de casa sendo cabelereira. O seu salão de beleza, intitulado “Beleza Africana”, era um dos mais procurados na região, com experiência principalmente nos cabelos cacheados, que tiravam o sono de tantas mulheres.

Uma chuva fina começou a cair, quando Amanda finalmente chegou em sua casa. O salão se localizava do lado direito da casa, enquanto outra família morava ao lado, mas atualmente estava viajando.

A garota não percebeu o Opala preto estacionado do outro lado da rua. O motorista abaixou lentamente o vidro enquanto Amanda adentrava o interior da casa. O homem tinha percebido que a menina não trancara o cadeado, porque Beatriz ainda chegaria do cursinho.

— Mãe, cheguei!

A pequena Simone brincava com bonecas no tapete da sala, enquanto a televisão era assistida por Frederico. Já Janete, estava na cozinha fazendo o jantar.

– Filha? Tudo bem? – Frederico perguntou, sem desgrudar os olhos da televisão.

— É, na medida do possível. Acho que vou tirar um 6 na prova de Matemática. Dá pra recuperar o semestre.

— Filha, oi! – Janete chegou, esfregando as mãos em um pano, e dando um beijo em Amanda. – Você foi bem na prova?

— Ela disse que dá pra recuperar. – Frederico respondeu. – Menos mal.

— Por que você tá falando isso, pai? Eu me esforcei pra fazer a prova. Já sei, é porque eu disse que não vou querer fazer medicina, igual a Beatriz.

— Não é por isso, Amanda. Não comece a...

— Não adianta o que eu faço, sempre vou ser a ovelha negra daqui, né? – Amanda falou, se dirigindo ao seu quarto. Já tivera discussões demais com sua família e não queria que mais uma acontecesse. Os conflitos entre Amanda e sua família, principalmente com seu pai, eram frequentes, principalmente porque ela era totalmente distinta de Beatriz e Simone, que seriam como meninas e jovens normais. Ela não caminhava por esse lado.

Fechou a porta do seu quarto, e repentinamente desabou por sobre a cama, suspirando profundamente. O ventilador rodava acima de Amanda, balançando os cabelos seus. A janela do seu quarto permanecia aberta, deixando entrar o ar puro do inverno.

A menina de 16 anos sentia o mundo passar diante dos seus olhos, perdida em seus próprios pensamentos. Muitas vezes Amanda não aparentava estar ofendida ou magoada com coisas que ouvia sobre ela por aí. Não era motivo de bullying, longe disso. Mas nem tudo passava direto por ela, algumas coisas que ouvia a seu respeito realmente machucavam e ela sofria sozinha, não era necessário que ninguém soubesse o que ela passava.

Pelo menos era o que achava.

Um estranho barulho tomou conta dos seus ouvidos. O portão era aberto por alguém. Deve ser Beatriz chegando. Já voltaria a devanear quando ouviu o grito de Simone.

Permaneceu em silêncio, enquanto ouvia sussurros baixos vindos da sala. Amanda se esgueirou para próximo da porta, para tentar ouvir algo. Nesse instante, caiu pra fora do cômodo. Quando viu, uma arma estava apontada na direção da garota. A pessoa que apontava a arma estava encapuzada, e apenas os olhos eram mostrados. Então falou:

— Você vem também, garota.

Alguns minutos depois, a casa era revirada ao contrário, enquanto Amanda, Simone, Frederico e Janete foram trancados dentro do banheiro da casa. Os quatro tinham amarras nas mãos e nos pés, e estavam sentados lado a lado. Os ladrões disseram que não fariam nada se ninguém os interrompesse. Porém se houvesse alguma interrupção, ninguém seria poupado.

Simone chorava baixinho, tentando se afagar em Janete, que também chorava copiosamente, demonstrando seu pânico. Frederico olhava para o chão, desconsolado. E Amanda olhava para a sua família. Todos amordaçados e presos naquele pequeno cômodo, sem poder fazer absolutamente nada.

Então conseguiram ouvir a porta da sala se abrindo e uma voz conhecida.

— Chegue... – A voz foi interrompida com um barulho terrível e um baque surdo. Naquele instante, Janete gritou de terror.

Em poucos instantes, os encapuzados abriram a porta estampando as armas para eles. O que parecia ser o chefe dos ladrões falou, com voz grave:

— Eu falei pra ninguém abrir a boca. Saiam.

Nenhum dos quatro se mexeu, todos assustados até o último fio de cabelo.

— Eu disse pra saírem! – Ele gritou com toda a força. Janete e Frederico trocaram olhares, já adivinhando o que se desenrolaria nos instantes seguintes.

Os quatro foram escoltados até o quarto de Amanda, onde foram obrigados a ficar lado a lado. Um dos sequestradores foi até a sala e retornou, arrastando algo em suas mãos e o largou na frente dos quatro.

Janete gritou como nunca.

— Bia! – Simone exclamou.

O corpo estirado de Beatriz estava manchado de sangue. A menina tinha sido atingida por três tiros no abdômen, e sua camiseta estava encharcada de sangue. Um único buraco tinha sido feito no seu crânio, onde a bala que tirara a sua vida estava alojada. Beatriz apresentava uma face de choque, como se nunca tivesse visto o que tirara a sua vida.

— É isso que levam por interromper o que estava quieto. Por favor.

Por trás, Amanda conseguiu soltar as amarras que a prendiam, e começou a soltar as de Simone também. Ao ver o movimento, Frederico deu um recado visual para Amanda.

Corram.

De repente, um tiro ressoou pelo quarto, e a cabeça de Frederico foi feita de alvo. O tiro entrou pelo lado frontal da cabeça, explodindo em um jato de sangue na direção de Janete e do sequestrador. A bala se alojou na metade do crânio do homem. Ele arquejou, enquanto algum sangue saiu da sua boca.

E caiu, estatelado no chão. Simone se esqueceu de que estava solta, e correu na direção do pai, enquanto Janete entrava em pânico absoluto. Amanda também estava solta, mas já não sabia mais o que fazer. A situação saíra do seu controle.

Ela só tinha uma chance. Ou correria, ou salvava a família. Mas não precisou de muito tempo pra decidir.

Os sequestradores abriram fogo contra todos os que estavam no quarto, enquanto Amanda, num movimento de destreza, pulou a janela do quarto e rolou pelo barranco atrás da sua casa, caindo no meio dos arbustos. Mas antes que pudesse ter escapado de ter a visão terrível, viu a morte a chegando á Janete e Simone.

A pequena não teve nem tempo de abraçar o pai, enquanto foi atingida por vários tiros nas costas e na cabeça. O corpo da pequena caiu sobre o corpo morto do pai, e rolou pelo chão.

Janete foi a última. A cabelereira foi atingida por mais de 10 tiros que voaram naquele quarto. Entre vários espasmos, sentia o seu corpo explodindo em vários focos. Sangue espirrava em todas as direções, até tudo finalmente parar e o corpo da mulher cair sem vida sobre os outros quatro membros da família.

No meio de toda a essa confusão sangrenta, Amanda saiu correndo pelas ruas de baixo do barranco, entrando em um beco escuro e finalmente saindo na Avenida dos Afogados. Mas não parou de correr, ela precisava ficar cada vez mais distante daquele cenário de guerra que presenciara. Só parou no momento em que estava muito longe do local, já próximo á Baixa Praga.

A menina se encostou na parede de tijolos de uma casa, e se sentou, esbaforida.

E como no capítulo final de um livro sangrento, Amanda chorou.

Moço, ninguém é de ferro

Somos programados pra cair

...

Cabo da Praga, 26 de dezembro de 2015.

A manhã chegava calma á Cabo da Praga. Embora no dia anterior uma estranha frente fria tivesse se chocado contra a cidade costeira, o frio tinha quase se dissipado naquela manhã calada.

No dia anterior, o Natal de Cabo da Praga tinha sido invadido por uma horda de infectados que tinham escapado. Uma guerra literalmente tinha se formado na região central, onde acontecia a queima de fogos e não parou até todos eles estarem mortos. Mas o resultado desse terrível evento só contribuiu para aumentar ainda mais o pânico.

E então, Diana gritou.

Quando a moça abriu os olhos, estava deitada, e pensou que tudo tinha sido um pesadelo. Mas ao ser dar conta, percebeu que aquela invasão tinha realmente acontecido. Ela se lembrava bem das cenas de terror que tinha presenciado junto de Gustavo no dia anterior.

Ela não podia ir para sua moradia, pois seu apartamento ficava encravado bem no fogo cruzado, próximo ao Hospital do Centro. O perigo era iminente naquela região, então Gustavo deixou Diana dormir na sua casa, no quarto de hóspedes. Mas ela não poderia ficar ali por tanto tempo.

Tinha recebido uma mensagem de Mariana dizendo que ela tinha conseguido escapar de Cabo antes da explosão do túnel Teodoro Kaulfuss, mas Lucas não tinha conseguido sair. Mas desde aquele dia, Diana não tinha encontrado o namorado desaparecido.

Diana se levantou, vestindo uma camiseta surrada e um short pequeno e trocou rapidamente de roupa, agora estando mais apresentável. Ao sair do quarto, percebeu que já havia alguém na cozinha.

A mãe de Gustavo tomava tranquilamente seu chá da manhã quando viu a jovem se dirigir até a cozinha.

— Dormiu bem, meu anjo? – A senhora Lyra perguntou.

— Muito bem. – Diana mentiu. A hospitalidade tinha sido ótima, mas os sonhos que Diana tivera não ajudava muito para a noite se tornar memorável.

— Nossa, ainda bem que tudo terminou bem. Eu fiquei sabendo pela Rádio Bastilha ontem á noite, logo depois do ocorrido.

— Eu vi como ficou aliviada quando viu a gente chegar.

— É claro, né? Meu anjo, o café já está pronto, se quiser tomar... Tem manteiga e requeijão na geladeira, fique á vontade. Faça-se como estivesse em sua casa.

— Cadê o Gustavo?

— Meu filho é o maior dorminhoco que existe. Só vai acordar lá pelas dez da manhã e olhe lá.

Diana riu. Ela definitivamente adorava a senhora Lyra.

...

Debora subiu as escadas de mármore que levavam até o Cicciolina. Qualquer um que passava pela estrutura imponente que imitava um templo romano acabava por parar de tirar uma foto. Localizada na esquina entre a Avenida Inês Brasil e a Rua Cris Nicolotti, muitas vezes era confundido com outras edificações.

Muitos achavam que o Cicciolina era a sede de uma grande sociedade secreta, como a Maçonaria ou a MENSA. Outros achavam que se tratava de um prédio público. Já houve até algumas Testemunhas de Jeová que se interessaram perguntando se aquele prédio era uma espécie de Templo de Salomão.

Tudo isso porque a fachada do Cicciolina não expunha a casa que existia no seu interior. Ao lado, uma escada de mármore levava todos ao primeiro andar, onde ficava a verdadeira casa noturna, enquanto o pavimento de baixo era alugado pelo The Dubliner, um típico pub irlandês. Na última parte, localizava-se o escritório de Kátia e a residência das duas mulheres.

— Debora, onde estava? – Kátia perguntou do escritório.

A mulher ajeitou os cabelos e disse:

— Kátia, a cidade pode estar um caos, mas eu ainda tenho negócios a resolver.

Kátia soltou uma risada baixa, e Debora olhou para a amiga.

— Falando em negócios a resolver, o Ed voltará aqui, acabo de chamá-lo.

— O Ed, eu sei. – Debora falou. – Gostei muito dele, um senhor muito inteligente.

— Tenho uns assuntos a resolver, como sempre. – Kátia sorriu. – A vida do lado de fora nunca é fácil, e os garotos e garotas sabem mais do que ninguém isso. Bem, ele deve chegar daqui a pouco.

— Kátia, vou fazer uma pergunta, se não for incômoda... A tal da festa vai realmente acontecer hoje na boate, sim?

— Mas é claro que sim. As pessoas de Cabo precisam de mais diversão nas vidas delas, é muita tensão... Debora, onde nós nos metemos? – Kátia falou, passando a mão nas têmporas.

— Fala do vírus, não é? Kátia, por favor. – Debora falou. – Nós já enfrentamos coisas piores.

— Sim, mas se alguém pegar esse vírus...

— Mulher, entenda. Você sobreviveu á cadeia. O que é um vírus comparado a isso? E tem mais, não demorará muito para tudo estar sob controle. – Debora falou, ajustando o blazer que usava.

— Você tem certeza?

— Alguma vez eu errei, Kátia? Nos temos histórias muito piores, e isso só vai ajudar a fortalecer. – Debora parou por um instante. – Nossa, estou falando como um livro de auto-ajuda.

Kátia abriu um sorriso enquanto balançava a cabeça.

...

Heloísa passou a mão nos cabelos curtos e olhou no espelho. A sua face continuava sendo a mesma, mas sentia que tinha envelhecido dez anos em poucos dias.

Quando veio com a proposta no seu íntimo para a comunidade em Cabo da Praga, esperava realizar tudo com sucesso. Mas agora estava presa, no meio de um surto viral, em uma cidade em quarentena, em uma comunidade onde não poderia confiar em quase ninguém.

E ainda pensava que a Ilha Vermelha tinha sido seu pior pesadelo.

Uma sombra apareceu no canto dos seus olhos e ela se virou, com medo do que poderia encontrar. Mas era apenas Desconhecido, olhando na direção da mulher. O homem continuava com o cabelo bagunçado como de costume, vestia uma camiseta vermelha e calças jeans surradas. Um curativo estava feito onde ele tinha sido atingido por um tiro de raspão no incidente do túnel Teodoro Kaulfuss.

Tell me a piece of your history

That you're proud to call your own

Speak in words you picked up

As you walked through life alone

— Ah, é você, D. – Heloisa falou. – Você me assustou, sabia?

D sorriu, o que Heloisa achou um bom sinal.

— Desculpa. Eu estava fora aqui. – E então, ele saiu para o lado de fora, mostrando onde estava.

Heloisa riu. Desconhecido era realmente uma das melhores pessoas daquele lugar.

— Fazendo o que? – Ele perguntou.

— Nada, eu só estava pensando em algumas coisas. – Heloisa disse, saindo do banheiro.

We used to swim in your stories

And be pulled down by their tide

Choking on the words

And drowning with no air inside

— Você... Bonita. Muito bonita.

Heloisa estremeceu com a fala do homem, e se virou:

— Ah, obrigada... – Falou meio sem jeito. – Você também é muito bonito, D. – Logo depois tentou arriscar outra pergunta, algo que a perseguia desde que conheceu o doente.

— D, você não sabe mesmo quem você é?

Ele fez cara de confusão, e então, espanto. Respondeu com a cabeça, girando negativamente. Heloisa já se preparava pra dizer algo, quando D o interrompeu.

— Eu não sou o que sou. Só. – Desconhecido falou, intrigando Heloisa. Depois continuou. – Casper disse.

It is not enough to be dumbstruck

Can you fill the silence?

You must have the words in that head of yours

— O que o Casper falou pra você, D? – Heloisa perguntou, surpresa. Ela sabia que o líder pirado da comunidade escondia algo de D desde o começo. Principalmente pelo fato de Casper ter pedido que Desconhecido fosse na primeira caminhonete que escaparia da cidade. O que era? Ela tentaria descobrir.

O homem suspirou e olhou para Heloisa. Mas pela primeira vez, a socialite viu um resquício de humanidade no rosto de D. O sentimento que a invadia rapidamente era difícil de descrever, um misto de pena e a vontade de ajudar o homem a descobrir sua origem e o que Casper escondia de D. Tinha sido um designío do destino ir parar naquela comunidade, justamente para ajudar o homem? Ela preferia não saber.

O destino já tinha a maltratado muitas vezes.

And, oh, oh, can you feel the silence?

I can't take it anymore

'Cause it is not enough to be dumbstruck

Can you fill the silence?

...

A caminhonete andava rapidamente pela cidade de Cabo da Praga, e a parte de trás vinha com algumas pessoas, a maioria habitantes do complexo. Entre elas, Amanda e Suzana. O comboio se dividiria em breve, e Amanda iria fazer o que fazia de melhor: assaltar algumas pessoas desavisadas.

Repentinamente, o comboio passou em frente ao Restaurante Lamounier e Amanda gritou:

— Para!

— Amanda, o que aconteceu? – Suzana perguntou. Amanda desceu do comboio, agora parado, contra a vontade dos outros que mandavam continuar. Suzana seguiu a menina. Ao descerem da caminhonete, o motorista engatou a marcha e continuou.

— Espera, eu não disse que... – Tarde demais. A caminhonete já se afastava. – Eles acharam que era aqui que a gente descia, Suzana. Bando de idiotas.

— Amanda, afinal, o que aconteceu?

— Olha aqui. – Amanda apontou na direção da frente do Restaurante Lamounier, agora destruído. Um carro da perícia estava parado na frente do local.

— O Lamounier... — Suzana ficou estática observando o estrago feito na fachada do restaurante. – Nossa, minha mãe era muito amiga da dona daqui, eu esqueci o nome dela agora... Você quer falar com os policiais? – Suzana perguntou. – Amanda, você não pode fazer isso, eles devem ter conhecer.

— Não a Polícia Científica. – Ela falou, exibindo um sorriso. – Mas sério, eu fiquei preocupada com uma coisa.

— Se está procurando a dona Thereza, ela saiu da ilha. – Um homem falou ao lado de Amanda. Os olhos claros dele fitavam com temor o local, e sua voz expunha um pouco de remorso.

Amanda olhou para o homem desconhecido e o reconheceu. Era o homem que gritava no megafone no interior do túnel, dizendo que um acidente aconteceria. Mas preferiu abster essa informação, pelo menos naquele instante.

— Para onde ela foi? Ela escapou? – Suzana perguntou. Sua mãe tinha conhecido Thereza quando ainda era viva, mas Suzana perdera o contato com a mulher depois do assassinato terrível da mesma.

— De certa forma, ela escapou sim. De ver a cidade dela virar ruína. – Renan levou os olhos ao chão.

— Mas ela estava aqui ontem, como... – Então a verdade se clareou diante da Amanda. Não havia como sair da ilha, e de certa forma, ela tinha conseguido. Mas com a Polícia Científica no local deduziu que a mulher não tinha realmente escapado, e sim morrido. Um remorso sem fim atingiu Amanda em cheio. No mesmo momento Renan olhou para a garota ao seu lado e a reconheceu do fatídico dia do acidente.

A mendiga. Mais um conhecido do acidente, diante dele...

Ficou estático olhando a menina ao seu lado.

— Você conhecia a Thereza?

— Claro, ela já me deu muito pão. Não sabia que ela tinha escapado da ilha...

Renan olhou novamente para Amanda e repentinamente se virou, andando na outra direção, cada vez mais longe das duas. Ele não conseguia ficar mais um segundo na frente do Lamounier sem lembrar do destino que Thereza tivera. Mas algo ainda o aterrorizava.

Os rostos que Thereza dissera que tinha visto no manto cadavérico da figura que a assombrava enquanto estava viva pareciam mais reais que nunca. Quando ela disse que os rostos eram de pessoas que ela tinha visto no túnel, Renan não pode deixar de fazer a terrível conexão.
Será que aqueles rostos eram as pessoas que salvara de morrer no túnel? Por que diabos estavam naquele manto? E por que depois de tudo isso, Thereza tinha morrido de forma tão brutal?

Será que aqueles rostos eram as pessoas que salvara de morrer no túnel? Por que diabos estavam naquele manto? E por que, depois de tudo isso, Thereza tinha morrido de forma tão brutal?

Eram mistérios que a mente de Renan não conseguia processar.

...

Edmundo permanecia sozinho em sua mansão, sentado no grande sofá de veludo da sala de estar. O silêncio sepulcral era mantido, e Edmundo evitava ficar muito tempo naquele lugar.

Parecia que o espírito de Samantha ainda pairava naquele lugar.

Ele ainda se lembrara do dia do fatídico acidente da Teodoro Kaulfuss, quando conseguiu escapar graças á Renan, o seu fornecedor. Mas Samantha não teve a mesma sorte. Ed se perdeu da mulher durante o evento e torceu para que ela estivesse bem.

Até a notícia de que encontraram o seu corpo carbonizado no túnel, junto com de um garoto e um cachorro.

Agora a sua aprendiz estava muito longe dele, mais do que poderia pensar. E Ed novamente estava só, mas não se importava muito com isso. Ele se importava realmente em como Samantha morrera cedo, ele que sempre tinha cuidado dela... Agora a mulher estava enterrada a sete palmos do chão.

O seu celular tocou repentinamente. Quando viu no visor, percebeu que Kátia, Ex-Miss FEBEM ligava para ele.

Ele sabia que tinha trabalho a fazer.

...

— Mãe, tem certeza que vai ficar bem? – Gustavo perguntou, balançando a chave do carro nas mãos.

— Pode ir, filho. Eu sei me cuidar. – A senhora Lyra sorriu. – Inclusive, onde eu deixei a aspirina...

— Tá na sua frente, mãe. – Gustavo falou. – É, eu tô vendo como vai ficar bem.

— Menino, eu só não vi a aspirina. Não quer dizer nada... – A mãe dele respondeu, sorrindo. Logo depois tomou um gole de água juntamente do remédio. – Ai, essa dor de cabeça não passa...

Gustavo de aproximou de sua mãe e colocou a mão na sua cabeça. Estava quente, muito quente. Febre intensa.

— Não é só a dor de cabeça. Olha mãe, eu vou...

— Não precisa. Eu estou bem. – Ela disse, sorrindo. Mas suas mãos tremiam. – Eu estou ótima, e se não estiver ficarei melhor.

O loiro não conseguia conter a vontade de ajudar a mãe, a preocupação vinha como um choque para o rapaz, já que o tal do Plaga Vírus se espalhava com uma velocidade impressionante. Ele temia do fundo do seu ser que a mãe pudesse estar infectada, mas ela insistia que tudo estava bem.

— Mãe, vou te levar no hospital. Assim que eu levar a Diana no apartamento dela.

— Filho, não...

— Você não está bem, eu tô vendo. Por mais que seja somente uma simples virose é melhor se tratar. Olha, se a senhora melhorar um pouco enquanto eu for levar a Diana, aí está tudo bem. Certo? – Gustavo fez sinal de positivo com as mãos. A senhora Lyra concordou com a cabeça.

— Tudo bem, você venceu. Agora vá levar a moça pra casa dela. Ela é uma mulher de ouro.

— É, eu sei mãe. – Gustavo se aproximou da mãe e lhe deu um abraço forte. – Te amo. Fica bem, tá?

— Eu vou ficar filho. Vou ficar.

...

O homem chegou á passos apressados no complexo das indústrias Zonatto. Vestia-se de forma respeitável, com uma roupa social e sapatos de couro. O homem de aproximadamente 30 anos, carregava uma pasta junto dele.

Meio receoso, se aproximou de uma pessoa que andava pelo complexo, um jovem de aproximadamente 19 anos, que estava consideravelmente melhor vestido que os outros. Essa mesmo jovem andava quase correndo e ajeitava os óculos a todo momento.

— Com licença. O seu nome, por favor?

O loiro se surpreendeu um pouco com a afirmação e logo depois falou:

— Meu nome é Matias, por quê?

— É, Sr. Matias, você sabe onde eu posso encontrar o... – Leu o nome na planilha. — Caleb?

— Ah, você deve estar falando do Casper. – Matias riu. – Eu te levo até ele, vem comigo.

Depois de andarem por cerca de dez minutos, chegaram em um prédio que deveria ser imponente nos tempos passados, mas hoje estava praticamente abandonado. Subiram dois lances de escada até chegarem em um grande corredor, com várias salas. Onde seria no passado a sala do diretor, Casper lá estava.

— Sr. Caleb? – O homem perguntou, um pouco receoso.

— Fala aí. – Casper falou, abrindo um sorriso. – Pode entrar. Matias, pode me esperar na sala de reunião, por favor?

O homem fechou a porta e se sentiu literalmente oprimido. Sabia que estava pisando em território minado, e qualquer movimento errado poderia levá-lo a um fim. Talvez o fim da própria vida. Tudo isso porque Casper não era uma pessoa fácil de se lidar.

— Pode sentar, vai ficar olhando pra minha cara? Temos negócios a tratar. – Ele disse, indicando a cadeira que ficava na frente da cadeira giratória onde estava sentado.

— Bem, Caleb...

— Pode me chamar de Casper. Prefiro.

— Bem, você não deve me conhecer. Meu nome é Ivo. Trabalho para o prefeito e seus asseclas.

— Isso tá ficando interessante. Me conta mais. – Ele disse, cínico.

— Então, temos negócios a serem pagos. O prefeito me mandou exatamente para cá pra resolver isso. A venda está sendo um sucesso.

— Brilhante! Suspeito que esse seja o pagamento.

— Os negócios tem que ser escusos, Casper. Ninguém pode saber que você recebe essa quantia do alto escalão de Cabo. O senhor é uma pérola no meio desses sujeitinhos. – Ivo falou. Casper balançou a cabeça, afirmativamente.

— São todos jogos de poder, Ivo. Não vence quem é melhor, vence quem é esperto o suficiente pra passar por cima dos outros. Posso contar o dinheiro?

— Todo seu. – Ivo falou, entregando a pasta. Casper abriu a pasta e começou a retirar os maços de dinheiro, tomando cuidado para não serem falsificados. No meio da contagem, começou a dizer:

— Acho que foi algo incrível ter começado essa empresa. Não imaginava que o dinheiro poderia sair tão facilmente.

— São os ricos que mais consumem drogas. Você acha que é qualquer mané por aí que faz isso?

— Pode até ser. – Casper olhou para Ivo, enigmático. – Mas os manés sabem se cuidar melhor que os ricos, em questão de esperteza.

— O que está insinuando?

— Que eu sou mais esperto que você.

Ivo não teve tempo de tentar entender o que Casper dizia para ele, antes de sentir uma forte dor na cabeça. A sua visão se escureceu rapidamente antes de finalmente apagar. O seu corpo caiu da cadeira, tombando no chão frio. Um pequeno filete de sangue saía de sua cabeça.

— O pagamento está certo, Ivo. – Casper respondeu. Atrás do corpo caído de Ivo, um homem segurava um pé de cabra nas mãos, a arma que tinha levado o informante ao chão.

...

O hospital geral Querubins permanecia em total atividade, e a UTI estava praticamente lotada. O principal hospital da cidade tinha reservado uma ala exclusiva da UTI para tratar pessoas com suspeitas do Plaga Vírus, embora pouco sabiam sobre o que fariam quando se mostrava correta a prescrição.

Os pacientes respiravam com a ajuda de aparelhos e eram literalmente sedados para permanecerem em suas características tradicionais. O perigo de um deles acordar era inevitável, mas tudo estava sob controle.

A jovem enfermeira residente Rosannah andava pela área, verificando se tudo estava em ordem. O primeiro, ok. O segundo, ok. O terceiro, apenas os olhos abertos mas o resto ok. O quarto, ok. O quin...

— Olhos... Abertos? – Rosannah falou consigo mesmo. Ela se virou para verificar o paciente, mas ele já não estava lá. Sentiu um arrepio elétrico passar pela sua espinha, até sentir a mordida no seu pescoço.

Rosannah gritou, e sua prancheta deslizou pelo chão, manchada pelo sangue. Como em uma reação em cadeia, vários infectados começaram a se levantar, e atacarem a pobre mulher. Seus cabelos loiros oxigenados foram arrancados com ferocidade, enquanto suas costas foram completamente arranhadas e deixadas em carne viva.

Cuspiu algum sangue, antes do infectado número 3 avançar sobre seu rosto. Então somente houve escuridão para Rosannah, e agora o hospital se transformara em uma verdadeira zona de guerra.

...

O carro estacionou na frente do Cicciolina e Debora desceu as escadas para receber Edmundo. O homem quase sempre precisava de uma certa escolta para transitar por Cabo da Praga e dessa vez não foi diferente. Até Debora aparecer na entrada da imponente casa, Ed não deixou o seu carro.

— Como vai, Debora? – Ed cumprimentou a mulher com um beijo na mão.

— Vou muito bem, obrigado Ed. Exceto pelo vírus tudo corre bem.

— Sim, esse vírus está se tornando uma complicação. – Edmundo disse ao iniciar a subida das escadas, Debora ia na sua frente.

— Mas não demorará muito para estar controlado, eu não me preocupo.

— É dito para evitar aglomerações, certo? – Edmundo falou. – Desculpa me intrometer mas e o Cicciolina?

— É dito para evitar, não é proibido. Kátia está organizando tudo certo para o Cicciolina reabrir, na verdade, hoje mesmo.

— Não é necessário algum tipo de segurança para os clientes?

— Kátia irá te explicar tudo, Ed. – Debora respondeu. – Ela te espera, disse abrindo as portas de ouro maciço que levavam ao escritório da Kátia.

— Não irá ficar na reunião? – O homem perguntou á Debora.

— Também tenho negócios a serem resolvidos, Ed. No andar de baixo.

Debora se despediu rapidamente de Edmundo e desceu para o andar inferior, adentrando no Cicciolina. Observou o ambiente como um todo.

O Cicciolina era um grandioso ambiente e surpreendia a todos que entravam em suas instalações pela primeira vez. A porta de acesso á casa noturna localizava-se bem no meio do ambiente, enquanto as saídas de emergências localizavam-se nos fundos, próximo dos banheiros. A face direita era tomada pelo gigantesco bar, enquanto uma grandiosa janela exibia o lado exterior, mais precisamente a rua Cris Nicolotti.

Existiam ainda mesas na ala ao fundo do Cicciolina, próximo aos banheiros enquanto toda a parte frontal era dedicada á pista de dança. Uma escada levava ao deck externo, que se localizava acima do palco, com visão para á Avenida Inês Brasil e para a baía de Praga.

O grandioso palco tinha uma altura de cerca de 10 metros, equivalente a quase três andares de prédio, e era o grande símbolo de poder da casa. Colunas similares ás gregas se erguiam do chão dos dois lados do palco, exibindo uma brancura fascinante. No meio do local, existiam duas gaiolas de gogoboys que eram colocadas para baixo quando o ambiente estava sem comemoração. Dependendo da festa, as gaiolas funcionavam como um elevador, porém só uma pessoa poderia adentrar. As gaiolas eram erguidas ou abaixadas conforme a festa. Se exigisse gogoboys, lá estavam.

Debora foi até o bar e se deu ao luxo de pegar um pouco de whisky. No momento em que virava o conteúdo da garrafa no copo deixou parte do líquido escorrer pelo balcão.

Ao ver o que tinha feito, buscou um pano e limpou o derramamento que tinha causado.

...

Maria andava apressada pelos corredores do Hospital Geral Querubins. O hospital tinha se tornado o principal prédio público da cidade a funcionar, já que mais do que nunca, Cabo da Praga precisava de um hospital. E Maria viu o seu trabalho dobrar, mais do que nunca. Nos corredores da vida, acabou trombando com Donatella.

— Dona? Nossa, que surpresa te achar por aqui!

— Maria querida! Eu tô andando pra lá e pra cá, esse hospital está literalmente um caos. Ouvi dizer que precisam de ajuda na UTI, eu estou indo pra lá agora.

— Obviamente está um caos. Cabo está um caos. A cidade está praticamente maculada com essa doença.

— Gostei dessa palavra.

— O que? – Maria perguntou surpresa.

— Maculada. Representa muito bem o que anda acontecendo na vida de todos nós. Nossa vida está cheia de manchas e elas não param de crescer, assim como a cidade.

— É, de fato. Mas eu sabia desde o começo que quando se vira um médico, você tem que pensar menos em si e mais nos outros ao seu redor. A vida sempre está na sua mão.

Donatella assentiu com a cabeça. Maria continuou:

— Bem, acho que precisamos correr. Assim que eu terminar o que tenho que fazer, vou te dar uma ajuda na UTI, eu acho.

— Sim, tente ver se consegue. É o lugar mais requisitado do hospital – Donatella riu, enquanto se despedia de Maria, e continuava a andar á passos acelerados.

...

Amanda andava pelas ruas de Cabo da Praga, indo cada vez mais na direção da região de Baixa Praga. Curiosamente, Cabo da Praga insistia em tentar viver, mesmo depois de sucessivos ataques de infectados à harmonia da cidade. Suzana andava ao seu lado, mexendo nos cabelos castanhos dourados que possuía.

No meio do caminho, Amanda começou a reconhecer a região e logo veio á sua mente as lembranças que tinha da noite fatídica. Aquela mesma rua, as casas, os comércios. Todos eles estavam como realmente eram. Ao passar pelo número 180, viu a mesma parede de tijolos onde tinha se encostado. A Avenida dos Afogados não estava longe dali.

Ela parou ao ver a mulher que estava parada na frente da casa. Ela se virou na direção de Amanda e Suzana e fitou as duas com desprezo. Falou consigo mesmo, porém em alto e bom som:

— Esse mundo está entregue nas mãos de Deus mesmo. É cada figura que aparece na minha frente.

Suzana parou estática, chocada com o que acabara de ouvir, e então olhou para Amanda. A mulher tinha conseguido. Tinha puxado o gatilho da arma, e agora iria ouvir. Ouvir até não querer mais.

— Quem é a senhora pra falar isso?

— Tá falando comigo? Porque não estava falando com você.

— A partir do momento que estava falando de mim, estava falando comigo sua vaca.

Rita se afastou, horrorizada, com os olhos extremamente arregalados.

— Você acha que você é quem pra ficar falando assim? Só porque acredita em um Deus qualquer acha que tem moral pra sair falando de qualquer um? Se enxerga, velhota.

— Não é qualquer um, é...

— Olha pra minha cara de foda-se. Olhou? Pois fez bem. Tenta enxergar um pouco além da sua cúpula de proteção, mulher. É mais do que alienada.

— Quem é você...

— Eu não sou ninguém, de fato. Mas você é menos ainda. Eu consigo enxergar a hipocrisia nas suas palavras, não é mesmo, Maria Rita? A mulher que me deixou pra fora no pior dia da minha vida.

— Do que você está falando?

— Não se faça de desentendida. Pois no dia que eu pedi ajuda, você recusou. Tão amiga dos meus pais... Quanta falsidade pode caber dentro de você, Rita?

Rita parou estática, olhando na direção de Amanda. E então, o terrível 13 de julho veio á mente da mulher, quando a menina tinha pedido ajuda para ela. Rita tinha sido amiga dos pais de Amanda, muito antes de ir parar na igreja, mas sempre nutriu um ódio pela jovem. Ela simplesmente não era o que tinha que ser, pensava.

— Quer saber? Agora que está convertida, espero muito que Deus tenha piedade da sua alma. Porque a humanidade... – Amanda completou. — Já não tem mais.

A menina passou bem ao lado de Rita, seguida de Suzana, que evitou olhar para a negra. A mesma mantinha uma respiração ofegante e ficou olhando a menina se afastar cada vez mais, até finalmente virar na esquina mais próxima. Então percebeu que algumas pessoas olhavam o movimento.

— O que vocês estão olhando? Vão cuidar da vida de vocês! – Ela disse, se dirigindo novamente ao portão da casa para se trancar no seu refúgio.

...

O carro de Gustavo andava pelas ruas da cidade em alta velocidade. Diana ia no banco do passageiro, e olhava a cidade passar como um borrão na sua frente.

O vento fresco de verão entrava no carro através da janela aberta de Diana e ela se apoiou na porta, fechando os olhos e apenas sentindo o vento balançar os seus cabelos curtos. Era como se visse em uma ilusão, e todo o terror com o vírus dos últimos dias de dissipasse. Era uma paz que realmente não existia, mas que Diana queria que ocorresse.

Gustavo se sentia tentando a admirar Diana, mas não arriscaria. A última vez que isso aconteceu quase foram dessa para melhor. Então resolveu se concentrar na estrada, mas a sua mãe não saía de sua cabeça.

No fundo, torcia para que ela estivesse bem e fosse apenas mais uma de suas enxaquecas fortes que ela tinha constantemente.

— Guto, pode virar aqui no Cicciolina. – Diana falou, despertando o rapaz dos devaneios. – O carro virou na esquina onde o Cicciolina estava localizado, entrando na famosa Avenida Inês Brasil. Passou pelo Hospital Geral Querubins, onde parecia existir alguma estranha movimentação e também pelo CAPS local, localizado há poucos metros do Hospital.

— Não gosto de passar muito perto do hospital esses dias... Me dá calafrios. – Diana disse. – É quase uma zona de guerra.

— Será que no futuro as pessoas vão se lembrar de Cabo da Praga e sua quarentena? – Gustavo perguntou.

— Aposto que as teorias conspiracionistas vão bombar daqui há alguns anos. E eu vou poder falar: “eu vivi a quarentena, com licença”. – Ela riu e logo depois disse. – Vira aqui á direita. É o prédio do lado da esquina.

O tal do prédio nada mais era que um pequeno edifício de apenas dois andares, onde no térreo funcionava uma loja de ferramentas, mas que agora permanecia fechado. A parte superior possuía alguns apartamentos, mas pelo tamanho Gustavo deduziu que o espaço não seria muito grande. A parede era pintada com um laranja que estava quase opaco.

— É aqui mesmo, Di? – Ele disse, vendo o pequeno prédio se erguer na sua frente.

— É, sim. Pequeno, mas aconchegante. – Ela respondeu, depois se virou para Gustavo, com um olhar sincero. – Obrigada viu, Guto? Você me ajudou muito nesses dias, não sei nem como te agradecer. Obrigada mesmo pela companhia.

— Até na hora da invasão?

— Principalmente. – Ela riu. – Você quer subir um pouco?

Gustavo ponderou com a cabeça, respondendo logo depois:

— Se não for incômodo...

— Deixa de ser bobo, só tem eu aqui. Bem, só espera um pouco que eu vou arrumar o apartamento pra ficar um pouco mais decente. – Ela disse, saindo do carro. Gustavo fechou a janela do carro, enquanto via Diana entrar no prédio. Começou a tamborilar os dedos no volante, enquanto fechava a outra janela do carro.

A entrada de ar do carro repentinamente foi ligada e ar quente começou a ser espirrado para dentro do carro, mas o rapaz nada percebeu. Pegou o seu celular e colocou os fones no último volume, depois de colocar a música no aleatório.

Detonate me

Shoot me like a cannon ball

Granulate me

Kill me like an animal

Decapitate me

Hit me like a baseball

Emancipate me

Free the animal, free the animal

...

Maria corria desesperada pelas alas do Hospital Geral Querubins, tentando chegar o mais rápido possível na ala da UTI. Donatella já tinha se deslocado para a área, logo depois da notícia que alguns infectados tinham conseguido escapar.

Pegou o elevador mais próximo e começou a descida para o andar de baixo, quando repentinamente o elevador tremeu e parou. As luzes apagaram completamente.

Maria manteve-se em silêncio, mas estava na verdade mantendo a calma. Sim, ela estava presa em um elevador, e ele poderia despencar a qualquer momento, mas deveria existir alguma saída. Uma saída para a situação era o que Maria precisava achar.

Mas antes que pudesse pensar em qualquer solução, as luzes voltaram. Respirou aliviada até o momento que o elevador abriu em um outro andar do hospital. Não era a UTI.

Na verdade, a área onde Maria tinha chegado era exatamente o andar com os leitos. Um silêncio sepulcral tomava conta do local, e Maria saiu do elevador, andando a passos lentos pelo ambiente. Decidiu que pegaria a escada, e assim desceria mais um lance de escadas. A porta que levava para as escadas ficava no meio do corredor e a indiana começou a andar apressada naquela direção até ser interrompida. Um vulto surgiu do outro lado do corredor, e não demorou muito para ela perceber que se tratava de um infectado.

Mantenha a calma. Chegue nas escadas.

E não demorou muito para o infectado perceber que Maria era uma presa em potencial.

Detonate me

Shoot me like a cannon ball

Granulate me

Kill me like an animal

Decapitate me

Hit me like a baseball

Emancipate me

Free the animal, free the animal

...

Presa em seus pensamentos, a magnata das ruas ainda estava no interior da casa noturna. Depois de retornar do deck e passar pelo pórtico de entrada, Debora sentiu uma sensação elétrica tomar conta do seu ser, como se estivesse sendo perseguida. Quem estava ali?

A mulher se aproximou da área onde estava localizado o bar, que ocupava um grande espaço, na parede direita do local, e se sentou em um dos bancos, suspirando. Ser magnata das ruas não era exatamente algo tão fácil quanto as pessoas pensavam. Debora era de longe a maior delas dentro de Cabo de Praga, tanto que ganhou o nome próprio de A Magnata das Ruas, mas isso não tornava a vida mais fácil. Longe disso.

Debora não ligava muito para títulos, afinal já tinha conseguido da vida tudo o que queria, e preferia cada dia da maneira como merecia. Títulos somente enchiam a paciência dela cada vez mais. Resolveu voltar ao escritório, quando teve certeza que ouviu barulhos advindos da escada da mármore. A boate localizava se no primeiro nível da escada, enquanto o escritório ficava no segundo nível.

Tentou manter primeiramente a calma, mas não podia se dar ao luxo de estar desarmada, pegando o objeto mais próximo que poderia servir de arma. Um garrafa de Jack Daniels? Perfeito.

Então ficou tudo ficou em silêncio, exceto por estranhos passos arrastados que pareciam ainda vir da escada. A magnata se levantou e começou a andar na direção da mesma, até ser surpreendida negativamente. Não pode evitar o grito de desespero.

Um infectado acabara de entrar no Cicciolina.

Detonate me

Shoot me like a cannon ball

Granulate me

Kill me like an animal

Decapitate me

Hit me like a baseball

Emancipate me

Free the animal, free the animal

...

Gustavo abriu os olhos, repentinamente. Tinha sentido que estava sendo observado por algo. Se virou para a direção do pequeno prédio onde Diana morava, e observou uma pessoa entrando no edifício. Deu uma olhada melhor e percebeu que era Lucas, o namorado de Diana. Mas por que ele finalmente aparecera ali?

Intrigado, Gustavo resolveu tentar abrir a porta para tentar seguir, mas no momento em que ele se virou para a outra direção, foi surpreendido. Um infectado olhava diretamente para o carro. Os olhos vermelhos, quase explodindo e a boca espumando apenas transpassavam a raiva sobre humana que o ser sentia. Ele estava preso no carro.

Começou a descer cada vez mais para baixo do banco, até que o seu rosto saísse do campo de visão do infectado, escondendo-se quase embaixo do volante. O ar quente se concentrava cada vez mais naquela área, tornando o local insuportável, enquanto o loiro sentia o temor tomar conta de si.

Arriscou dar uma olhada para ver onde o infectado estava e percebeu que ele se aproximava do carro. Desceu bruscamente e começou a torcer que não tinha percebido. O silêncio tomava conta do local, embora uma vez ou outra pudesse ouvir gritos advindos do lado de fora. Respirou profundamente, ele já sentia o suor descer pelas suas têmporas.

O infectado repentinamente bateu na janela. Gustavo gritou.

...

Maria percebeu que aquela era a hora de correr. Ela arriscou andar um passo na direção da porta e para sua surpresa o infectado também andou o mesmo passo. Ele continuava a olhar para Maria com extremo interesse, quando Maria levantou a mão direita.

O outro também levantou a mão direita.

Isso está ficando muito macabro pra mim. Era chegada a hora de sair dali, e o mais rápido possível. Mas como, se o infectado praticamente copiava seus passos? Tinha que confiar no risco, na mais pura sorte. Virou para trás, e percebeu que o elevador já tinha mudado de andar. Não daria tempo de chamá-lo novamente.

Maria começou a correr, e percebeu que o infectado fazia a mesma coisa correndo na mesma direção, e ele se aproximava cada vez mais. Mas se tivesse calculado tudo certo, iria escapar. E quando o infectado levantou a mão para alcançar a mulher, ela pulou na direção da porta das escadas, a porta fechando bem na face do infectado. Começou a descer as escadas, célere, enquanto ouvia os passos ofegantes atrás dela.

Sentia que já estava salva, até o momento em que sentiu seu cabelo sendo puxado para trás. Ela então soltou um grito, que saiu quase instantaneamente e num movimento de reflexo, que surpreendeu até mesmo a mulher, ela sentiu a mão dela estapeando a mão do infectado e seu cabelo se soltando.

Então continuou a descer as escadas até o pavimento inferior, ainda perseguida pelo infectado, que agora espumava de raiva. Ao sair no corredor da UTI, percebeu o cenário de guerra onde se encontrava. Corpos espalhados pelo chão, muito sangue escorrendo pela região. Os utensílios médicos foram todos jogados contra o chão, e alguns foram usados contra alguns dos médicos que jaziam tombados no chão. E para completar, mais um infectado surgiu no final do corredor.

— Ei, aqui! – Ouviu alguém falando com ela, e se virou, na direção do armário da limpeza. Gabriel a observava, ofegante.

— Entra logo, a Dona tá aqui!

Maria correu novamente na direção da sala, antes que o infectado que a perseguia pudesse ver a mulher que entrava na sala, ofegante.

— Vocês conseguiram escapar? – Ela perguntou.

— Foi tudo muito rápido... – Donatella falou, sentada no canto do armário. – O Gabriel teve sorte de encontrar esse lugar, mas os outros médicos e enfermeiros não sei onde estão. Eu ia falar pra você não vir, mas já era tarde demais.

Gabriel trancou a porta da sala e acendeu a lanterna do seu celular, colocando sobre uma das prateleiras.

— Vamos deixar aqui e vamos esperar.

— Até quando? – Maria perguntou.

— Até alguém descer aqui e a área estar em segurança. – Ele disse. – Mas fiquem felizes. – Ele olhou na direção da porta. – Estão salvas, pelo menos por hoje.

...

Diana estava trancada no banheiro da casa, e lavava o rosto. Já iria chamar Gustavo para entrar, assim que saísse do banheiro.

Como imaginava, o apartamento permanecia vazio e como se tivesse sido abandonado ás pressas. O fato de Mariana ter conseguido escapar, sã e salva, deixava Diana muito mais calma. Em pouco tempo, as duas estariam unidas novamente, assim que a barreira da quarentena caísse.

O problema era Lucas. Diana não conseguiu por nenhum instante entrar em contato com o namorado. Sempre atencioso, Lucas ajudava muito Diana em sua caminhada, mas já há algumas semanas andava muito misterioso e ocultava coisas de Diana. Ela já sabia o que acontecia, mas não queria acreditar. Lucas não fazia essas coisas.

Ela poderia tentar falar com o namorado, mas isso se tornava inviável percebendo que Lucas simplesmente desapareceu do mundo desde a quarentena. Até o momento em que ouviu uma voz familiar advinda do lado externo do banheiro.

— Diana...

Ela reconheceria a voz do seu namorado em qualquer lugar. Só podia ser Lucas, tinha de ser Lucas.

— Diana... – A voz repetiu, quase como um sussurro.

— Lucas, eu tô no banheiro! Espera que eu já vou. – Diana correu para enxugar as mãos na toalha de rosto mais próxima, extremamente afobada. No momento em que colocou as mãos na maçaneta, sentiu um choque e levou a mão á boca.

— Diana... Está aí? – A voz falou.

— Estou sim, Lucas. Espera só um pouco.

— Estava com saudades, Diana... – A voz falou.

— Eu também, Lucas. Espera só um pouco. – Ela assoprava as mãos.

— Pra que esperar se não temos tanto tempo?

Diana se virou na direção da porta, meio surpresa com o que Lucas acabara de falar. Começou a duvidar que fosse realmente Lucas que estivesse ali.

— Lucas... É você?

— Abra essa porta, querida. Sou eu. – Ele disse, com uma voz sibilante.

— Eu não vou abrir até você falar algo que só nós dois sabemos. – Diana falou, receosa.

— A primeira vez que nos beijamos. Foi nos Jardins... – Lucas falou. Diana confirmou com a cabeça. – A primeira vez que eu fiquei com essa biscate que eu quero agora...

Diana se afastou da porta, horrorizada. Estava mais que claro que aquele não era Lucas. Pelo menos não o Lucas que conhecia.

— Vamos, abra essa porta, sua vadiazinha...

— Sai daqui, Lucas!

— Eu não sou mais o Lucas, Diana. Eu sou Deus. E eu posso tudo, só abra a porta...

— EU NÃO VOU, MERDA! SAI DAQUI, SEU... SEU...

— Então eu mesmo abro a porta, querida.

...

Não era somente um infectado, como Debora tinha pensando anteriormente. Mas sim, um grande grupo de infectados que entravam no Cicciolina como uma matilha de cães, e a presa era Debora.

Num movimento rápido, ela subiu na parte de cima do balcão do Cicciolina, e começou a atirar diversas garrafas de bebidas na direção deles. Vários Jack Daniels, José Cuervos, Skol Beats e Smirnoffs iam pelos ares, mas nada parecia impedir os terríveis infectados. Debora começou a se afastar lentamente, até seu salto escorregar na mesma bebida que tinha transbordado do seu copo, e como num rápido baque caiu para trás na direção do bar.

As costas de Debora atingiram em cheio o armário do bar. Com a batida, algumas garrafas explodiram sobre ela, enquanto o vidro cortante perfurou parte do seu cotovelo. Ela caiu sobre o chão, contorcendo-se de dor. Tentou olhar para o cotovelo, e viu um grande pedaço de vidro incrustado em sua pele. Vários arranhões atingiram suas costas e rasgaram o seu blazer em diversos pontos. Além disso observou o seu salto esquerdo. Quebrado.

Mas não tinha tempo para se lamentar porque os infectados continuavam a avançar. Ela se levantou antes que um infectado tentasse mordê-la e enfiou parte de uma garrafa quebrada em sua jugular. Sangue espirrou, e Debora evitou recebê-lo. Sabia que aquele sangue era infectado.

Ainda existiam cerca de seis infectados nas imediações do Cicciolina, e todos tentavam se aproximar da mulher. Ao perceber a porta aberta, um dos infectados conseguiu entrar na parte de dentro do balcão. Debora se virou com o medo estampado em seus olhos, enquanto o infectado avançava. Novamente, a mulher conseguiu subir no balcão e pular daquele lugar.

Com o movimento, o seu cotovelo ardeu mais ainda e Debora viu parte da pele pendurada sobre o machucado. Controlou o seu asco e correu na direção do local mais seguro da boate, segurando algumas garrafas entre as mãos.

A gaiola.

...

O infectado passava a mão pelas janelas do carro e arranhava a lataria, tentando achar um modo de entrar para devorar a sua nova vítima. Gustavo aguentava firme no interior do carro, mas o ar quente já tinha consumido completamente o ar que existia no interior. O rapaz tentava se manter são, mas era como se estivesse preso em um verdadeiro forno. Sua camiseta estava completamente suada, e ele apresentava uma terrível dor de cabeça.

E tão repentinamente como surgiu, o infectado deixou o carro, decerto frustrado, buscando uma vítima mais fácil de alcançar. Gustavo não conseguiu deixar mostrar um sorriso em sua face. Não era hoje que morreria.

O sorriso logo se dissipou ao perceber que Diana talvez pudesse estar precisando de ajuda. A mulher já estava no interior do prédio há quase meia hora, ou provavelmente, muito mais, e não tinha retornado. O medo de que pudesse perder Diana tomou conta do seu ser, e decidiu abrir a porta do carro, logo o ar seria completamente expelido também.

Exceto pelo fato da porta não abrir. Gustavo forçou a mesma diversas vezes, mas a mesma mantinha-se invólucra. O calor era ardente no interior e Gustavo já não conseguia mais raciocinar. Iria desmaiar, já perdia os sentidos.

Até perceber que a chave estava fora do contato.

No meio de toda a confusão mental que sentia, o rapaz tinha simplesmente esquecido de colocar a chave no seu devido local. Logo que deu a partida, as portas abriram com um baque, e Gustavo caiu do banco em direção ao chão, perdendo os sentidos.

...

Diana já estava em pânico.

Não havia qualquer chance de conseguir escapar do banheiro sem passar pela pessoa que dizia ser Lucas. Ela já tinha certeza de que o seu namorado tinha sido infectado e agora literalmente delirava, e a queria. Mas não do jeito que Diana imaginava.

Ele queria comê-la viva.

Torceu para que Gustavo aparecesse naquele momento, e temeu pela vida do rapaz. Ele poderia já estar morto, poderia ter sido atacado facilmente. Ela já deveria ter aparecido, não é mesmo? Involuntariamente, uma lágrima desceu pelo rosto de Diana. Pelo menos, estaria junto de Gustavo no pós-morte. Mas claro, se ele estivesse morto. E era a última coisa que ela queria acreditar.

Repentinamente, ouviu alguns barulhos advindos da região externa, e ouviu Lucas dizer:

— Gosta de Psicose, Diana? Pois esse filme vai se tornar realidade... Hoje.

Diana se afastou lentamente na porta, apoiando a mão na pia alva, quase desabando de medo. As lágrimas escorriam rapidamente pelo seu rosto e a realidade se tornava cada vez mais aparente.

O machado arrebentou a porta do banheiro com uma velocidade impressionante, quase acertando Diana no movimento. Através de uma fresta na madeira, Lucas olhou para Diana. E a jovem pode ver o que tinha acontecido com o seu namorado.

Os olhos vermelhos de Lucas expressavam a fúria e a loucura que o rapaz passava, sua boca espumava em risadas assombrosas. Ele sorriu de forma macabra quando olhou para Diana, como um leão diante da sua presa.

— HERE’S JOHNNY! – Lucas gritou com uma felicidade inquestionável, enquanto Diana já se debulhava em lágrimas.

E não esperava o que estava para acontecer.

Lucas cuspiu muito sangue repentinamente, enquanto Diana se afastava assustada. O que um dia foi o seu namorado olhou para Diana e soltou um último sorriso antes de cair. Com a queda, a cabeça de Lucas foi perfurada por um dos pedaços de madeira, que atravessaram sua cabeça por completo, saindo no topo do crânio, morrendo com o sorriso eternizado no seu rosto. Uma mão surgiu ao lado da cabeça e destrancou o banheiro, empurrando a porta.

Oh my my my, what you do to me

Like lightning when I'm swimming in the sea

From the very first time we loved

From the very first time we touched

Walking on wires and power lines

You put your body on top of mine

Every time that you lift me up

To the heavens and stars above

Gustavo olhava para Diana, radiante. O rapaz segurava um facão que tinha conseguido, roubando da loja de ferramentas abandonada que ficava na frente da casa de Diana.

A mulher correu na direção do rapaz, caindo em um abraço caloroso. A moça chorava sem parar, emocionada com o que acabara de acontecer.

— Ei, ei. Para de chorar, Di. – Gustavo falou, enxugando as lágrimas da moça.

— Guto. Se não fosse, agora... Eu estaria morta.

Ela viu os locais onde Gustavo tinha atingido Lucas, tingidos de sangue. Um pouco das tripas de Lucas estava caída no chão e Diana acabou vomitando sem querer no chão.

— O que você fez?

— Foi só o facão... Eu não sabia o que estava fazendo, só queria te resgatar, Diana.

Oh Lord, have mercy, I'm begging you, please

I'm feeling drained, I need love

You charge me up like electricity

Jumpstart my heart with your love

— Gustavo, mas isso é...

— Você ainda não percebeu que eu não consigo viver sem você?

Diana olhou diretamente para os olhos do loiro. Sim, ela podia sentir que ele falava a mais pura verdade. E ela sentia que a mais pura verdade de Gustavo servia para ela também. Uma energia estranha e diferente ligava os dois, e Diana já tinha percebido isso. Mas Lucas sempre tinha cegado ela, mesmo sem querer.

Nunca foi de Lucas que ela realmente gostou.

There's an energy when you hold me

When you touch me, It's so powerful

I can feel it when you hold me

When you touch me, It's so powerful

Diana se aproximou de Gustavo e como se a energia que ligase os dois estivesse finalmente conectada, e não quisesse nunca mais se soltar, ela beijou o rapaz, que retribuiu.

Eles eram como um só.

There's an energy when you hold me

When you touch me, It's so powerful

I can feel it when you hold me

When you touch me, It's so powerful

...

Debora correu na direção da gaiola e se prendeu no seu interior. A gaiola do Cicciolina não apresentava somente um lugar para o gogoboy se apresentar e sim, uma gaiola perfeita.

A corrida chamou os infectados na direção da gaiola, mas Debora sabia que agora ela estava segura. Bastava ficar no meio da gaiola e era quase impossível os infectados passarem pelos bastões de ferro.

O grupo de infectados circundou a gaiola como um todo, mas Debora não se preocupava. Um infectado foi o primeiro a tentar alcançar a gaiola, mas recebeu uma garrafada no meio do braço. O líquido alcóolico desceu pelo ferimento criado pelo choque dos vidros e o infectado gritou de dor.

Mas não era somente um. Eram vários. E Debora conseguia dar conta de todos. Um por um, as investidas do ataque eram barradas por simples garrafas de vidro. Repentinamente, um infectado tentou entrar dentro da gaiola e parte da sua cabeça realmente entrou dentro da gaiola.

E aí começou o pesadelo da magnata.

Tentando retirar o infectado de dentro da gaiola, Debora estilhaçou uma garrafa em sua face. Porém a mulher infectada, ao tentar retirar sua cabeça, ficou literalmente presa, não conseguia mais sair. A boca dela espumava, feito um cachorro com raiva, e nesse instante Debora viu como o vírus tinha sido subestimado por ela. Sentiu um pingo vindo do alto que caiu a poucos centímetros dela. A mulher olhou para cima, a tempo de abaixar antes que uma mão tentasse a arranhar.

Os zumbis tinham conseguido alcançar a área superior da gaiola e aí Debora percebeu que o número de infectados só aumentava. Mas ela pelo menos estava relativamente segura, e poderia aguentar por mais algum tempo.

Percebeu que alguns infectados tinham subido para próximo do deck e alguns entravam na plataforma de controle, localizada acima do palco. Um arrepio passou pelo seu corpo, antes de estourar um vidro de tequila na cabeça de um jovem infectado.

Dois infectados começaram a brigar inexplicavelmente na ala superior e Debora torcia para que nada acontecesse. Um dos infectados acabou por cair sobre um painel e a magnata percebeu o que tinha acontecido. Foi aí que não aguentou mais e gritou por ajuda.

A gaiola começou a se mexer.

...

Ed e Kátia conversavam no escritório quando ouviram o grito de Debora. Os dois repentinamente pararam e se entreolharam.

— Foi a...

— Sim. – Edmundo confirmou já se levantando da cadeira, seguido de Kátia. Os dois abriram a porta de ouro maciço e desceram um lance de escadas até pararem e verem o que estava acontecendo.

Uma horda de infectados tinham invadido o Cicciolina.

...

A gaiola começou a subir feito um grande elevador, sendo puxado por uma corda de aço. De forma vagarosa, Debora começou a se mexer no interior dela. Estava salva de certo modo, a gaiola a deixaria suspensa por algum tempo, até o momento em que Kátia e Ed pudessem resgatá-la.

Porém alguns infectados se prenderam nas barras e subiam junto de Debora e a gaiola. Sem contar os zumbis que vinham na parte superior. A mulher conseguia manter todos afastados mas não conseguiria por muito tempo.

Um tranco da gaiola e Debora foi jogada na direção das barras. Com o impacto do seu cotovelo contra as barras, o pedaço de vidro se desgrudou levando junto parte da sua pele, deixando tudo em carne viva.

— AAAAHHHHHHHHHHHHH!

Então olhou para baixo e viu que já superava os 4 metros. Alguns infectados despencavam por não aguentarem se segurarem. Olhou para cima e percebeu o que acontecia. A gaiola foi feita para apenas uma pessoa e não para seis pessoas se segurarem na mesma.

Outro tranco, e Debora foi jogada na outra direção, caindo sobre o chão. Apesar de ir aos trancos, a gaiola conseguia subir, e os infectados também. Mais um infectado caiu, e Debora ficou mais tranquila até ver que o ferro que prendia a gaiola na corrente caiu de um lado. Inevitável foi a queda e Debora rolou até a outra direção.

Agora a gaiola literalmente pulava por tentar subir cada metro a mais. Debora percebeu que tinha que sair dali, mas como? Ela estava presa em uma verdadeira armadilha suspensa. Qualquer queda poderia ocasionar problemas.

5 metros.

Primeiro tentou se manter em pé, mas foi derrubada outra vez. Sentiu um parafuso caindo na sua cabeça e ela o pegou. Olhou para cima, e viu que a polia que segurava o cabo pendia torta. O parafuso tinha caído e era uma questão de tempo até tudo desabar.

Se levantou, sentindo dores por todo o corpo e o seu cotovelo doía como nunca. Desviou de um ataque de infectado, e o chutou para fora da gaiola que pendia torta. Ela precisava chegar na porta. Foi se pendurando nas barras e conseguia chegar na porta. Na última barra antes da porta, sentiu novamente o tremor e caiu pra trás. A gaiola já girava, pendendo solta.

A porta, Debora. A porta.

Mais uma tentativa e a mulher conseguiu, antes da gaiola pender novamente. O outro trinco que prendia a gaiola na corrente tremeu, e Debora ficou dependurada sobre a porta.

6 metros.

Ela tinha que achar uma solução e conseguiu empurrar a porta pro lado de fora. Agora ela se encontrava presa, segurando apenas na porta aberta. Tudo tremeu novamente, e mais um zumbi caiu.

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Debora segurava firmemente na gaiola, mas sabia que não aguentaria o suficiente. Viu mais um parafuso caindo e a polia praticamente solta. Mas ainda existia uma chance...

— DEBORA!

7 metros.

Ed atirava contra os infectados enquanto Kátia gritava seu nome. O outro salto de Debora caiu, atingindo um infectado no chão. Ela foi tentar falar o nome de Kátia, quando o que era inevitável aconteceu.

A gaiola desabou numa velocidade fulminante contra o chão e Debora foi junto. Não tinha mais tempo para pensar, precisava achar uma solução e caiu para o lado.

O impacto do objeto foi de estremecer a estrutura do prédio. A gaiola automaticamente se retorceu completamente, matando todos os infectados esmagados na estrutura. Sangue espirrou para todos os lados enquanto o corpo de Debora rolou pelo palco e caiu do mesmo.

Atingiu o chão como uma boneca e lá ficou. Ed e Kátia correram na direção da mulher, e a Ex-Miss FEBEM por mais forte que fosse, agora estava desesperada.

— DEBORA! Por favor...

Saía muito sangue do ferimento de Debora do cotovelo e era fácil arriscar que tinha fraturado algum membro do corpo. Mas o corpo de Debora parecia literalmente inteiro, mesmo depois de uma queda de 7 metros.

— Kátia, ela batalhou até... – Ed começou a dizer quando foi interrompido.

— E eu continuo batalhando. – Debora disse, rindo aliviada. – Acho que alguém escapou da morte.

Então a visão da mulher escureceu-se por completo. O desmaio era quase inevitável. Mas Debora estava viva.

...

Ivo levantou os olhos e observou a sala onde estava. Percebeu também que suas mãos estavam atadas á cadeira onde estava sentada. Seus pés também amarrados em uma fita adesiva. Começou a se mexer para tentar sair quando percebeu que o gatilho de uma arma estava apontado para a sua cabeça.

— Pode vir pra cá, Playboy. – Casper surgiu das sombras. – Eu cuido desse aí. Fica com o Zé Pequeno e o Matias no canto.

O traficante foi para trás, enquanto Casper se aproximava de Ivo, e retirou a bandana que cobria sua boca. Assim que retirou, Ivo começou a despejar:

— Você vai ver, Casper. Ninguém vai...

— Shh, shh, shh. Quem fala aqui sou eu.

— Por que você fez isso?

— Eu disse que vou falar. Assim que você calar essa sua boca.

Ivo então se manteve em silêncio, enquanto a tensão atravessava todo o seu corpo.

— Ótimo. Bem, acho que percebeu que aqui, no complexo é uma região criada com muito esforço e dedicação, não é? Não me surpreende que muitos queiram derrubar essa área, isso aqui valeria uma fortuna. E sei que seu prefeitinho está metido nisso.

— Claro que não, isso...

— Não mente pra mim, Ivo. É tudo um jogo. E eu sei jogar esse jogo. Onde o seu prefeito está agora?

— Ele não está na cidade, a maior parte dos ricos...

— Foi embora, não é? – Casper concluiu. – Espetáculo! É por isso que a cidade continua maravilhosa como sempre.

— Mas você agora estava falando bem do prefeito. Por que fala isso?

Casper acendeu um cigarro.

— Porque eu aprendi a agradar. Eu aprendi a jogar com todos. Por que você acha que as pessoas tem medo de mim? – Casper soltou uma baforada. – O mundo é dos espertos, Ivo. Por isso, vou fazer uma oferta que você não poderá recusar.

— Você tá fazendo um jogo comigo?

— Talvez. Bom, vou direto ao ponto. Me conta tudo o que você sabe sobre o prefeito e seus asseclas, e te deixo sair daqui.

— Como assim?

Casper se aproximou de Ivo e deu um tapa na face dele.

— Não é bem meu ritmo. Eu poderia já ter mandado bala em você, mas estou te dando uma chance. Fique á vontade.

— O prefeito... – Ivo pensou em sua família. Casper prometeu libertá-lo em segurança e não podia recusar tamanha oferta. Sua família o esperava, e a única solução era contar tudo. – Ele saiu de helicóptero da ilha, antes mesmo de realizarem a quarentena. Dizem que ele ainda está na ilha, mas é tudo uma marionete, uma fantasia. Ele deve estar são e salvo em alguma ilha paradisíaca do Pacífico.

— Continue.

— Quem está no poder na realidade não tem poder algum. É por isso que a cidade está mergulhada no mais profundo caos. Nós simplesmente não temos um governo... Mas ninguém sabe ou percebe isso.

— Muito interessante. E útil. Como vai a prefeitura então?

— Estão conseguindo segurar as pontas, mas vai chegar um momento em que tudo vai desabar. Eu não quero estar aqui quando isso acontecer.

— É, de fato. – Casper falou. – Quem tá controlando a cidade é o exército então?

— O exército só auxilia nos feridos e doentes. A cidade está sem poder nenhum, jogada ás moscas.

— Como sempre esteve, convenhamos. – Casper falou, rindo. – Muito bom seu depoimento, Ivo. Playboy, Zé Pequeno, venham aqui por favor.

Os outros dois traficantes se juntaram a Casper e Ivo suspirou, aliviado. Seria liberto. Os três começaram a conversar em segredo e Ivo esperava o momento em que seria liberado. Pensou em sua filha de 5 anos, que chegaria correndo para abraçar o pai e se reconfortou. Após terminada a conversa, Ivo perguntou:

— Então, podem me tirar? Minha família está a espera.

Casper concordou com a cabeça, sorrindo. E depois respondeu:

— E quem disse que você vai ver sua família?

— Mas o que? Pera, nós tínhamos um trato.

— Temos sim. Acho que você não ouviu direito. Eu disse pra você me contar tudo e sua parte está concluída. Agora vou cumprir minha promessa.

— Que é me soltar!

— Não é não, Ivo. Eu disse que deixaria você sair daqui, mas não disse como e pra onde. – Casper se aproximou de Ivo, que já apresentava o desespero na sua face e disse, aos sussurros:

— Espero que aproveite sua estadia no inferno.

O tiro ressoou por todo o cômodo, enquanto Ivo sofreu um espasmo repentino e sua cabeça tombou sobre o peito, o sangue tingindo de vermelho a camisa branca. O tiro tinha literalmente explodido os miolos do homem, se alojando no meio do crânio. Casper se afastou e deu mais um tiro no homem, desta vez no peito, e guardou a arma.

You've got no place to hide

And I'm feeling like a villain, got a hunger inside

Depois de ter feito o trabalho sujo, Casper se virou na direção dos outros dois traficantes, e disse:

— Acho que vocês já perceberam como a cidade está vulnerável a qualquer coisa, e vocês tem poder nas favelas aqui ao redor. Acho que já entenderam onde vou chegar.

— Tá na hora de mostrar quem realmente manda nessa cidade. – Zé Pequeno disse. – Até que essa quarentena veio em boa hora.

— Segura um pouco essa sua animação, Zé. – Casper falou. – Suspeitas não podem ser mostradas. Mas influenciem seus habitantes, os próximos. Influenciem quem acredita em vocês. Todos caem como coelhos na boca da raposa.

One look in my eyes, and you're running cause

I'm coming going to eat you alive

— Você vai ver o que eu tô pensando, Casper? – Playboy perguntou. – Séloco.

— Séloco mesmo. Usem a esperteza que Deus deu pra vocês, eu espero pelo menos. Nós temos milhares de pessoas nas mãos. Basta fazer e convencer eles de lutarem por uma causa. Podem ver aqui no complexo o que é. Não peço pra que cheguem perto disso, mas usem a persuasão. Deem coisas para eles, o ser humano é movido por dinheiro.

— E aonde final você quer chegar com isso? – Zé Pequeno perguntou.

— Zé, essa cidade já tá na nossa mão. Nós só precisamos de um exército pra dar a reviravolta na história. Eu já tenho o meu, dispostos a lutar até a morte por uma causa. E vocês?

— Entendi aonde que chegar. Inteligente da sua parte, Casper.

— Eu sei. Então vão, a glória nos espera.

Your heart hits like a drum, oh, oh oh

The chase has just begun, oh, oh, oh

Assim que Playboy e Zé Pequeno deixaram a sala, Casper começou a limpar a pistola, com gotículas de sangue. Matias se dirigiu até o companheiro e disse:

— Casper, bela jogada a sua. Tiro o chapéu.

— Sim. Pode ficar tranquilo, Matias. Você vai ter o seu lugar, já tá tudo arrumado.

— Casper, quando você falou que... O povo era seu exército, você não acha que está tratando eles como merda?

— É diferente, Matias. Eu tenho apego ao povo, realmente quero ver eles bem, não nessa miséria que são obrigados a viver. – Casper respondeu. – Mas isso é também um gatilho para tal. Alguém tem que pensar, e manipular não é exatamente algo ruim. Manipular a outra pessoa pra a fazer conseguir algo muito melhor passa longe disso.

— É, seu pensamento não é tão errôneo assim, no final... – Matias suspirou.

— Vamos meu amigo, o expurgo nos espera. – Casper falou, abraçando Matias e o levando para fora da sala.

Monsters stuck in your head

We are, we are, we are

Monsters under your bed

We are, we are

We are monsters oh, oh

We are, we are, we are monsters

Notas finais
Não esqueçam de comentar. Os comentários são muito importantes para a continuidade do projeto. Vemos vocês nas reviews, pessoal!