Notas iniciais
Escrito por Jamie PineTree (Com colaboração de PW).

A velha senhora não estava satisfeita por completo, a profecia havia sido desencadeada e o que estava premeditado precisava continuar.

A erupção foi só o começo, grande parte de Santa Muerte estava coberta de cinzas como Pompéia ficara.

Seus dedos mal conseguiam acompanhar o que seus olhos já viram um dia, não havia harmonia no universo e tudo pioraria.

– Primeiro a doce Harpista, o Guerreiro e o Atleta mostraram o seu valor, a Inocente teve sorte, mas eu pude levar outro Inocente em seu lugar. Isso não me trará prejuízos. Agora é a vez do Flautista voltar para o céu.

Aquela pequena escultura com um violão em suas costas esperava para ser atirada ao fogo com um certo prazer e ainda havia outros que esperavam a sua vez.

Pessoas estavam vivas, mas ainda sim, estava errado. Aquela sensação de insegurança não abandonaria nenhum deles e estava disposta a sussurrar em seus ouvidos o erro.

Ela sabia que eles fizeram o que não deveriam.

Mas querer sobreviver era um erro tão grande assim?

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Maurício estava afundado naquela cadeira de hospital desde que se salvaram da erupção. O quarto era impecavelmente branco e gélido, o cheiro de remédios era forte e isso o desconcentrava.

Ele sentia ainda algumas dores no pescoço e no ombro devido à posição que dormira, ele fez uma massagem em si mesmo e notou um pequeno machucado em sua nuca. Levantou-se indo ao espelho do quarto tentando ver o que era até notar o reflexo de sua irmã.

Vivian estava deitada na cama atrás dele, ela ainda estava com ataduras cobrindo a pele enrugada e vermelha em volta dos olhos.

Ver o que acontecera com sua irmã não o deixava pensar em nada direito, seu cérebro queria explodir com tantas informações, seus olhos não aguentavam a pressão e até suas lágrimas saíam quentes.

Ainda escutava os gritos, o som da lava queimando tudo o que via pela frente e pessoas derretendo como bonecos humanos.

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Antes.

Lis ainda tocava seu violão no palco, a agilidade delicada que ela se entregava ao instrumento era digna de uma ponta de ciúmes do ruivo.

Foi perdido em seus pensamentos que o chão começara a tremer, uma mulher subiu descontrolada ao palco pedindo que saíssem.

– O vulcão vai destruir esse lugar!

Não precisou que falasse mais nada, seu mundo caíra ali.

Seu pesadelo distante se concretizara rindo da situação em meios aos lampejos de magma lançados no horizonte. Os dois ruivos se entreolharam e logo o chão começou a se abrir em rachaduras liberando aquele pânico escondido.

O telão atrás da cantora explodiu quase atingindo a garota e todo o palco começou a ceder com aquilo. Várias pessoas corriam e se atropelavam procurando por uma saída.

Maurício jogou o violão nas costas e pegou a mão de Vivian, seguido por ela e Gabriel para algum lugar que nem mesmo ele sabia onde era. Seus olhos procuravam por Bella, mas não conseguiam visualizar nada até que viram a loira do esquilo-rato e a ruiva do elevador com sinalizadores em mãos e os dispararam.

Uma das exageradas explosões do vulcão havia lançado detritos pela praia e vários corpos ali jaziam. Seu coração estava mais do que acelerado, seu pensamento era de apenas de se salvar e também sua irmã e seu novo amigo.

Ele sentia a fúria da lava que escorria pela borda de pedra indo para a praia. A mesma mulher que dera o aviso corria ao lado de uma criança e o céu atrás delas se enchia de fuligem.

Maurício percebera que Valentina orientava as pessoas que entrassem em um barco junto com Bella e Wendel, ele pensou em seguir o mesmo caminho e ir atrás deles quando percebeu que Gabriel não estava mais ali.

– Cadê o Gabriel? Cadê ele?

Vivian virou para procurá-lo quando algo sentiu algo se aproximando, o vulcão expelira mais rochas em chamas e uma delas explodiu no rosto da ruiva que foi jogada ao chão.

– Meus olhos! — Ela gritou e caiu desajeitada enquanto sentia seus olhos e mãos queimando.

Maurício demorou para entender que ela fora atingida e que chorava de dor com a queimação. Isso o lembrou sem querer do dia em que ganhara sua cicatriz, mas voltou a atenção perdida para a irmã quando a mesma era levantada por Eva que surgira ao seu lado.

– A gente precisa sair daqui! Você vai ficar bem, mas temos que chegar até o barco. — Disse ela.

Vivian tentou ignorar a dor e se apoiou em Eva, as duas foram na frente e Maurício as seguiu, desorientado, ainda procurando por Gabriel. Os três chegaram ao barco e Vivian fez o possível para esconder o rosto, abraçada ao irmão que parecia estar em transe.

Havia várias pessoas no pequeno barco que ele não conseguia distinguir quem eram. A noite que deveria ser inesquecível do melhor modo possível se transformou em sofrimento, perdas e também o sentimento de mais puro temor contra a natureza que parecera acolhedora logo de início.

O barco começou a se afastar do píer que cedia aos encantos da lava, a floresta queimava, lançando aquela fumaça para eles. Maurício sentia-se tonto, e o som salvador dos helicópteros se misturava aos gritos das pessoas que continuavam na agonia.

O ruivo olhou de volta para o vulcão e ali desmaiou.

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Ele não se lembrara de como havia chegado ao hospital. Vivian era a única do grupo das pessoas do barco que se machucara seriamente, seus olhos foram atingidos por fagulhas e ela estava cega.

O médico falara que ela recuperaria parte de sua visão com o tempo e com cirurgias, mas era difícil ter um pouco de esperança com tudo aquilo ao redor.

– Eu sinto tanto por isso. — Ele acariciou a mão enfaixada dela.

– Eu sei que sim. — Ela já estava acordada. — Já chorei e gritei demais por isso, não adianta ficar me lamentando por não ter mais meus olhos verdes.

– Eles nunca foram verdes.

– Nem os seus. — Ela riu levemente. — Mas é para isso que as lentes foram inventadas.

– Se eu pudesse teria amarrado você e o Gabriel, roubado o jipe da Valentina, se aquele jipe era mesmo dela, e voltaríamos os três para casa. Eu disse que se aquele vulcão explodisse eu ia ficar vivo de qualquer maneira.

– Incrível que você não o percebeu quando estávamos no helicóptero.

– Sou lento assim mesmo e também não sou muito bom aluno. Como eu ia saber que aquilo era um vulcão? Não tinha nenhuma plaquinha informando.

– Temos que esquecer isso, o vulcão, a ilha e tudo mais. Precisamos de uma nova vida agora.

– Sem estresse, nossa semana planejada na ilha acabou em um dia. O que importa é o que vamos fazer daqui para frente.

– Não posso sair daqui tão cedo. Todos vão rir de mim, como aquele casal fez na recepção do hotel. Prefiro não aparecer para mais ninguém.

Maurício escutou aquilo sentindo a mesma dor que ela, foi assim mesmo que ele se sentiu depois de ter ganhado sua enorme cicatriz anos atrás.

Ele levantou da cadeira e foi até a bolsa rosa dela pegando um óculos escuro e colocando-o no rosto de Vivian.

– Ligo mais para os seus sentimentos do que os meus.

– E eu te amo por isso. A única pessoa que vou amar incondicionalmente. — Ela respondeu.

– Em primeiro lugar você é a minha irmã. Estou aqui para te proteger e nunca vou deixar nada te acontecer de novo.

Ele a abraçou com um sorriso sincero, o impulso foi o suficiente para que os dois ficassem deitados naquela apertada cama e continuarem abraçados, ela alisava a cicatriz dele enquanto Maurício se entregava ao seu frágil porto seguro.

Os dois ainda estavam tristes, existia muito mais do que a aparência odiosa mostrava. O temperamento arrogante sempre foi um aditivo para que se isolassem e terem apenas um ao outro.

Era a única maneira de sabiam de agir, mas parecia que estavam dispostos a aprenderem outra ainda melhor.

– Me arrependo muito por não ter feito nada para impedir Mau.

– Não fale assim, você não teve culpa naquele dia.

– Tenho sim. — Sua voz estava embargada. — Sou uma péssima irmã, eu te abandonei e por causa disso quase te perdi para sempre. Essa cicatriz é uma prova disso.

– De certa forma estamos quites agora.

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Edenbrook, NY — 31/12/1999

Véspera de Ano-Novo, todo o Teatro Presage Target já estava decorado com balões dourados para receber a nova década.

A porta dos bastidores estava aberta devido a uma briga que acontecera e ninguém percebeu quando os irmãos entraram e se esconderam antes que os atores voltassem ao normal.

– Não devíamos estar fazendo isso. — Disse um Maurício de 7 anos.

– Ninguém vai ver a gente aqui. Relaxa.

Uma Vivian vestida de couro e com um piercing falso no nariz se esgueirava nos corredores.

– O que viemos fazer aqui? — Ele falava sussurrando.

– Ver o Edmund Craven, lógico. Não posso ir embora de Nova York sem conhecê-lo. — Ela olhava apaixonada para o pôster enorme onde o mostrava. — O ator mais famoso e bonito desse mundo.

– E eu nunca conheci essa fama toda digo eu sarcasticamente.

– O ator mais bonito e famoso da pequena Edenbrook. Melhor assim?

– Você tem só 12 anos, não seria mais fácil pedir que a mamãe comprasse um ingresso?

– Ela nunca me daria dinheiro para isso e também nem vai perceber. Agora vamos, temos que chegar até os camarotes lá em cima.

Os dois subiram uma velha escada em espiral desativada que um dia servira como saída de emergência, todos os camarotes pareciam estar ocupados e faltavam poucos minutos para peça começar.

– Isso não vai dar certo. Estou sentindo uma sensação estranha.

– Quieto! Achei um vazio, entre e fique em silêncio.

– Você não manda em mim!

– Sou a mais velha aqui e mando sim.

Eles tinham uma visão privilegiada do palco dentro do pequeno cômodo coberto de veludo.

– Por quanto tempo ficaremos aqui? — Ele fingiu um gesto de enforcamento.

– Pare de fazer isso, não deve demorar muito.

– Tudo bem, mas já que vou ficar aqui, tenho de saber quem é esse Edmund pelo menos.

– Aquele ali é o Edmund, alto, moreno e se parece com um caipira. — Ela apontou para o rapaz que batia exatamente com as características dadas.

Edmund Craven contracenava uma peça sobre exploradores amaldiçoados pela morte com seu grupo de teatro de teatro conhecido como Runaways Destiny.

Tudo ocorria com primor, toda a plateia assistia em completo silêncio, menos uma mulher sentada da primeira fila que se gabava por seu marido ser um dos atores.

Edmund dominava em cima do esplendoroso palco, seus olhos brilhavam a cada fala e arrancava suspiros apaixonados de Vivian.

Até que Edmund parou de falar de repente, ele congelou e depois começou a balbuciar palavras desconexas sobre fogo, os outros atores tentavam dar andamento, mas a plateia percebeu aquela falha e começaram a vaiar.

Edmund e outra atriz abandonaram o palco em um rompante e foram para os bastidores seguidos por outro ator que parecia estar com raiva.

– O que houve com ele? — Maurício perguntou confuso.

– Eu não sei, mas essa é a minha chance. — Vivian se levantou indo para a porta do camarote.

– Aonde vai?

– Vou até ele. Fique aqui, eu volto logo.

Ele tentou seguir Vivian, mas ela sumiu apressada correndo escadas abaixo.

– Não me deixe!

Já era tarde, o ruivo voltou para o camarote e viu outros atores se retirando quando uma imensa coluna de fogo imergiu dos fundos do teatro e avançava para a plateia.

Logo a madeira se consumiu rapidamente junto com as poltronas de veludo, as pessoas corriam em total desespero para a saída. O coração do garoto acelerou e queria ir embora, mas seu corpo não respondia.

O teatro se incendiava e aquela fumaça atingiu o camarote onde se encontrava, ele caiu para trás e só então percebeu que o barulho de pessoas correndo para fora havia cessado, ele conseguiu seguir seus instintos e sair gritando o nome da irmã.

Maurício andava perdido no meio do corredor enfumaçado sem saber para onde ir ou o que fazer, seus olhos ardiam, seus pulmões se contorciam tentando não inalar a fumaça e seus sentidos iam embora aos poucos.

Os gritos se escondiam atrás do barulho da madeira queimando, não havia ninguém para ajudá-lo, a sorte era a única que estava ao seu lado.

Ou talvez fosse o azar ali presente.

Luzes de emergência se acenderam e ele conseguiu enxergar uma provável saída, a mesma escada em espiral que subira antes, colocou as mãos sobre a boca e nariz e com dificuldade foi até ela.

Para sua surpresa tinha uma pessoa ali, alguém que pensara o mesmo que ele, mas que não parecia ter a chance de se salvar por completo, o rosto de um homem estava coberto de fuligem e ele tentava respirar sem sucesso.

Uma parte do seu cérebro queria ignorá-lo e tentar seguir em frente, mas o outro lado pensou em não deixa-lo para trás sem ajuda. O teto começou a se desfazer e a sua demora em decidir fez com que a escada desmoronasse.

Ele sentiu pânico na queda livre que foi amortecida ao cair em cima do homem, talvez ele não sobrevivesse sozinho ao impacto, mas aquele estranho o ajudou.

E agora estava morto.

As estrelas olhavam para ele com pena, mas no fundo, Maurício chorava. Mas sabia que aquela não seria a última vez que as veria.

Madeira em chamas e concreto caíram ao seu redor, a fumaça voltara misturada com a poeira e toda a sólida construção parecia querer desabar. Era só uma questão de tempo para sua morte também.

Levantou-se e se deparou que estava na sala onde se escondera no momento da briga e a porta na qual entrara estava entreaberta. Maurício correu com dificuldade até ela quando tropeçou em algo.

Seu corpo foi impulsionado contra ela e seu braço foi a primeira coisa a tocá-la, a porta de metal que fervia com o calor se fechou trancando-o, Maurício soltou um longo grito de dor ao sentir a queimação e tentou tirar o braço mas o mesmo grudara seriamente contra a superfície.

Não adiantava puxar, sua pele derretia e isso só piorava, a dor piorava, seus pulmões pioravam e ali desistiu e desmaiou.

Depois sentiu um vento gelado entrando pelo seu nariz, o choro de uma garota se confundia com o barulho de uma sirene, sentia-se mais leve e também sonolento, ele tentou abrir os olhos, mas a luz era forte demais.

E ali ele sentira que estava no céu.

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– Eu pensei que tivesse te perdido naquele teatro. — Vivian disse.

– Eu quase te perdi com aquele vulcão.

– Aquilo só serviu para eu perceber outras coisas. Minha vida nunca será a mesma e essa é uma nova chance.

– Chance de quê? — Ele indagou.

– De mudarmos talvez. — Ela deu de ombros. — Vivemos em um mundo onde o sobrenome é o mais importante e depois de tudo o que fizemos e de como tratamos as pessoas, podemos morrer amanhã e ninguém vai se importar.

– Fomos escritos assim e se é para sermos detestáveis nós vamos ter que ser. Cada um nesse planeta foi moldado pelo destino.

– Podemos começar com aqueles do barco. Eu não consigo me lembrar de quase nada do que aconteceu depois disso. — E apontou para os olhos. — Lembro apenas que uma mulher me ajudou.

– Era a Eva-não-sei-do-quê da Animal Rescue, ela nos levou até um barco e conseguimos escapar daquele pesadelo.

– Foi tão horrível, por um minuto senti pena daquelas pessoas. E a Bella? — Ela agarrou o braço tatuado dele ao se lembrar de sua vizinha.

– A Bella está bem, a Valentina e vários outros que estavam lá também. Acho que tudo terminou agora.

– Por falar nisso, você pediu que quando tudo terminasse, eu te lembrasse de ligar para a Sophia, a Bruna e aquele Juliano. — Um pouco de desdém no último nome.

– Você fala desse jeito por ele ser gay? — Ele a encarou. — Juliano é o meu melhor amigo então o respeite, por favor.

– Não, não é isso. Eu juro!

– Nós somos hostilizados só por respirar e você ainda que quer piorar isso?

– Não falo assim por ele ser gay. É por outro motivo que não posso falar.

– Nunca escondemos nada um do outro Vivian.

– É vergonhoso demais. — Ela virou o rosto.

– Quando quiser me contar estarei lá fora então.

Ele levantou chateado pelas palavras dela, Vivian estendeu o braço pedindo que ficasse, mas ele a ignorou pegando o maço de cigarros que roubara do Gabriel e saiu do quarto.

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Ele pegou um dos cigarros e antes que fizesse alguma coisa, uma enfermeira desacreditada surgiu e arrancou aquilo de suas mãos e lhe passou o pior dos sermões de como era proibido fumar dentro de um hospital.

O sermão acabou e ele pegou seu telefone pensando para qual dos seus amigos ligaria primeiro.

Seguiu sua própria lógica de que Bruna com certeza estaria com a Sophia, e quando as duas estão juntas, é muito difícil o Juliano não estar por perto.

A última vez que Maurício viu os três foi no heliporto, Sophia tentou se manter séria, não queria mostrar a saudade que sentiria dele e escondeu isso em seus cabelos loiros.

Bruna por sua vez era a mais dramática do grupo, chorava e pedia que eu a ligasse assim que saísse do avião. Ela tinha os cabelos castanhos e também era conhecida por seu nariz um tanto avantajado.

Juliano foi o mais calmo dos três, ignorou Vivian dando um forte abraço em Maurício e desejou boa sorte. O perfume dele ainda estava magicamente em seu moletom e isso era ótimo para matar a saudade que sentia.

Sem mais delongas ele ligou para Sophia e eles (os três realmente estavam juntos) atenderam no primeiro toque.

– Mau! — Mostraram a imensidão da alegria do outro lado da linha.

– E aí pessoas? — Tentou mostrar um pouco de animação.

– Como está aí? — Bruna perguntou.

– Já fizeram a primeira apresentação? — Juliano perguntou.

– E quando vão voltar? — Sophia perguntou.

– Calma pessoal, para quê tanta pressa? Eu ainda vou ter muito tempo nessa vida para contar tudo. Nós chegamos muito bem, o lugar até que é bonitinho, mas aconteceu um acidente e não temos uma data para voltar ainda.

– Acidente? — Os três perguntaram.

– Sim, um vulcão daqui da ilha entrou em erupção e foi um caos, mas eu a Vivian estamos bem na medida do possível, vamos continuar nos apresentando onde der.

– Deve ter sido um verdadeiro filme de horror, a gente queria tanto estar aí com vocês. — Bruna falou e os outros dois concordaram.

– Eu sei, queria muito que estivessem aqui. A Vivian teve muito trabalho para conseguirmos essa chance e não vamos largar tudo assim, mas como vai tudo em casa?

– Continua tudo na mesma, ensaiamos todos os dias esperando alguma oportunidade. — Sophia disse sem tanta animação assim.

– Mas estamos felizes por você estar bem. — Juliano continuou. — Tenho certeza que esse é um novo começo.

– Que o universo lhe ouça amigo. Quero muito encontrar vocês e vai ser um pouquinho demorado, mas tem alguém aqui que vai te substituir até lá. — Ele falou em tom de riso.

– Me substituir? Eu substituo as pessoas. Quem é esse?

– Ninguém especial, ele só tem o mesmo cabelo, os mesmos olhos, o mesmo rosto, o mesmo jeito sonhador, o mesmo corpo e curte homens também. Deve ser algum gêmeo seu perdido.

– Não duvido que a Dona Hermínia esteja me escondendo um irmão. — Juliano riu. — Todo mundo sabe que a minha mãe é uma peça.

Os quatro conversaram por mais alguns instantes, eles falavam muito e era isso o que Maurício admirava neles. Aqueles foram uma das poucas pessoas que o amavam de verdade sem se importarem com interior danificado.

Sua irmã consanguínea e seus amigos são as únicas pessoas na qual ele consegue ser um pouco de si mesmo. O verdadeiro Maurício.

Ele sempre considerou que seus pais são insuportáveis, que não aceitam a música, não aceitam o teatro e não aceitam que os irmãos são diferentes deles.

Não aceitam que sua vida é para artes e que fará isso até o dia de sua morte.

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Maurício desligou o telefone e deu uma volta pelo corredor do hospital até reconhecer uma loira e uma criança adulta perdidas na recepção.

Maurício andou apressado e os abraçou de surpresa.

Gabriel sorriu sôfrego e Bella o apertou com força. Os três permaneceram abraçados por alguns segundos envoltos em quase lágrimas.

– Eu fiquei muito preocupado com vocês sabiam? — Ele olhava incrédulo para os dois.

– Me desculpa, eu fiquei um tanto perturbado com tudo aquilo acontecendo ao meu redor, vi um quiosque em chamas com vários animais e corri até ele. — Gabriel disse. — Depois eu tentei achá-los, mas para onde eu olhava só tinha corpos, sangue na areia, pedras e mais corpos.

Seu colega de quarto tinha uma visível expressão de culpa em seu rosto. Gabriel fizera de tudo para salvar as pessoas que encontrara, mas seus reforços não foram o suficiente.

E isso o fazia se sentir péssimo, esse era o seu objetivo como um futuro médico.

– E a Vivi? Cadê ela? — Bella perguntou para o ruivo.

– Ela foi atingida. — Falou desanimado. — Parte do rosto dela foi queimado e ela perdeu a visão.

O sorriso da loira desapareceu ali.

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A água fria deslizava sobre suas mãos enquanto Vivian tomava coragem, ela tentava, mas não queria tocar no próprio rosto. Estava com medo.

Vivian ainda era orgulhosa mesmo assim, afinal conseguira chegar até ali sozinha. Queria prosseguir o possível sem ajuda.

Sua vida de quase brilho se transformara em escuridão e essa era uma dor que não queria mostrar para ninguém.

A pia se enchera demais e começava a transbordar molhando o piso do banheiro. Ela procurava pela torneira, mas não a achava e com isso começou seu desespero.

Vivian escorregou batendo a cabeça na imitação de mármore e ficou ali caída no meio de sua própria vergonha.

Minutos depois escutou a torneira sendo fechada, sentiu um par de mãos a levantarem e logo já estava de volta na cama com alguém secando seu cabelo com uma toalha.

– Isso é tão embaraçoso. — Ela disse para essa pessoa que não sabia quem era ainda.

– Estou fazendo o meu trabalho agora. Não precisa ter vergonha de sua nova condição.

Vivian reconheceu a voz da garota que estava ali, a mesma garota que tratara da pior maneira possível.

– Me desculpe Perry. — A ruiva disse derrotada.

– O mundo dá voltas, para o bem ou para o mal. Cada um interpreta da maneira que prefere.

A asiática sorriu com pena, colocou a toalha de lado e penteou os cabelos de sua paciente.

– Qualquer um no seu lugar já estaria rindo agora. — Ela não sabia mais como agir, toda a sua arrogância parecia estar neutralizada diante de Perry.

– Não vamos falar sobre isso. Todos da ilha estão ajudando como podem e agora ninguém é melhor do que ninguém.

Vivian e Perry se calaram, a primeira com vergonha de si mesma e a segunda via a ruiva de outro modo. Ela pensava que talvez Vivian Malinowsky morrera com o vulcão e uma outra pessoa poderia estar ali.

Perry terminou de pentear os cabelos e recolocou os óculos em Vivian. A porta do quarto se abriu e o mesmo foi invadido por um perfume.

– Oi, posso entrar?

– Bella? É você? — Vivian perguntou esperançosa.

– Sim acho que sim. — Bella entregou-lhe uma porção de flores e a abraçou com mais vontade ainda.

– Já vou indo agora. — Perry disse saindo do quarto.

– Espera! — Vivian chamou-a de novo. — Por favor, me desculpe de novo.

– Tudo bem. Só precisamos de um choque de realidade para perceber como somos realmente.

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Os dois garotos ainda estavam com as mesmas roupas do dia anterior, ainda havia fuligem incrustado neles, mas ninguém da lotada cafeteria do hospital notara nisso.

– Você não tem família não? Até agora nunca falou de ninguém ou falou com alguém. — Maurício perguntou para Gabriel.

– Claro! Tem o meu pai, meus primos, alguns poucos amigos da faculdade e você também.

– E a sua mãe? Ela vem te buscar?

Gabriel parou, ficou olhando para sua xícara e suas mãos tremeram um pouco.

– Não, ela não vem.

– Eu disse alguma coisa errada?

– Ela morreu em um acidente de carro quando eu era pequeno, ela morreu e quem sabe eu poderia estar com ela agora. Não consigo dizer se ter me salvado é uma coisa boa ou ruim agora.

– Eu sinto muito, mas não fique assim. Aquela mulher que eu acho que se chama Anna Clara te salvou, pois você é essa pessoa incrível e merece uma segunda chance.

– Você é especial Maurício. — Gabriel se levantou quase em choro e o abraçou.

– Eu não sou especial, sou a pessoa mais odiada daqui. Minha "fama" foi construída em cima disso e não tem como mudar.

– Nunca é tarde para mudar. Existem várias escolhas e tudo o que precisa é escolher a certa.

– Não existe livre arbítrio nesse mundo, fomos escritos assim e se é para ser lembrado como detestáveis vou ter que fazer isso até o final. Somos o que somos.

– Você e a Vivian são pessoas maravilhosas e as únicas que ficaram do meu lado o tempo inteiro.

– Não fala assim. Todos gostam de você. É só uma questão de tempo para interagir e fazer amigos.

– E você se tornou o meu irmão. O irmão que não quero perder.

– Agora percebo que ter perdido a minha suíte para um quarto compartilhado foi uma ótima desventura.

– Legal, pode devolver meus cigarros agora? Sei que você os pegou.

– Não e nem pense em comprar mais. — O ruivo mostrou o maço em seu bolso e o guardou de novo. — Pode não escutar o seu pai, mas vai ter que escutar o seu irmão mais velho.

– Vou fingir que concordo e acho que tenho que te contar uma coisa agora. — Gabriel mudou de assunto com uma expressão séria. — A Bella ia contar esse pequeno detalhe mas você acabou desmaiando lá no barco.

– O que foi? Fala logo, fiquei preocupado. — Ele levantou derrubando a cadeira.

– Ela está te esperando lá em cima.

– Ela? Ela quem?

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Maurício abriu a porta do quarto de Vivian e se deparou com uma senhora ruiva com mechas brancas que ele conhecia muito bem.

– Veio dizer que desbloqueou meus cartões mamãe?

Cristina se levantou da poltrona como um furacão jogando sua bolsa em cima de Bella.

– Não brinque comigo mocinho!

– O que veio fazer aqui? Como sabia que estávamos aqui? — Maurício estava mais do que confuso.

– Eu tive que trazer ela junto Mau. — Bella disse indo para a porta.

– Vim aqui para levá-los embora e quando chego, descubro que vocês estavam perto daquele vulcão. Vocês ficaram loucos em sair de casa assim sem mais nem menos?

– Fizemos o que achamos certo, aquela poderia ser nossa única oportunidade de ter uma vida fora de casa. Será que não entende que estávamos seguindo nosso sonho?

– E quase morreram por causa dele.

– Vamos esperar lá fora. — Gabriel falou para Vivian enquanto ele e Bella saíam na encolha do quarto.

– Já somos adultos, não pode mais mudar o caminho que escolhemos.

– Um ótimo caminho! — Disse na ironia. — Da última vez que fui até aquele lugar foi um desastre e agora foi bem pior do que o anterior.

– Já esteve na Ilha Vermelha? Jura?

– Eu e muitos outros, mas isso não vem ao caso. Será que pensaram nas consequências dessa viagem maluca? — Ela apontou para Vivian.

– Acho que estão falando de mim. — Vivian levantou a mão chamando a atenção dos dois. — Não ocorreu como esperávamos, mas não me arrependo de um minuto sequer de ter ido para a ilha.

– Você está cega!

– Não me importo com isso mamãe! — Ela arrancou os óculos tentando se levantar da cama e Maurício a ajudou. — Posso ter perdido a visão, mas isso me fez perceber a pessoa horrível que eu era antes.

– E eu consegui ignorar minha fobia por um minuto para o que realmente importava. — Maurício continuou. — Por causa dessa viagem maluca eu consegui um novo amigo e se a minha irmã que foi a mais prejudicada teve essa mudança, posso dizer que também não me arrependo de nada.

Cristina se calou diante dos depoimentos, ela ainda queria falar muito, mas seus filhos estavam diferentes.

– Vocês podem ter pegado meus cartões, serem irresponsáveis ao extremo, mas por incrível que pareça, nunca tive mais orgulho do que agora. — Ela estendeu os braços. — Vocês são loucos, mas são os loucos que sempre vou amar.

Maurício e Vivian estavam surpresos. Pela primeira vez, os três ruivos se abraçaram de um jeito que nunca pensaram que fariam.

Como uma família.

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Bella e Gabriel deram uma volta pelo jardim do lado de fora do hospital, o clima era ainda mais agradável ali sem toda a tristeza de pessoas que ainda choravam pelos parentes e amigos que perderam.

Os dois passaram muito tempo conversando, os dois ficaram bastante próximos por estarem preocupados com a situação dos irmãos.

O garoto não podia deixar de reparar na postura carismática da loira e de como parecia que se conheciam há séculos.

Eles se sentaram na grama e Gabriel arrancou uma flor dando para Bella que a colocou no cabelo.

Seus olhos azuis pareciam estar sempre mudando de cor com a luz do sol e irradiavam muita confiança ao estudante.

– Você foi muita corajosa. — Ele disse se referindo ao que ela fez no barco.

– Eu achei que ficaria com muito medo e ia chorar bastante, mas consegui chegar ao barco. — Bella disse. — Nem sei como consegui fazer tudo isso.

– Você me salvou e outras pessoas também. — Ele sorriu. — Pessoas que talvez não tivessem chances de se salvar.

– Obrigada Gabriel. Você é mesmo um amor.

– As pessoas não gostam de mim tanto assim, não consigo controlar o que falo e acabo tendo algumas desavenças por aí.

– Se o Maurício e a Vivian do jeito que são gostam de você. — Ela segurou a mão dele. — Eu gosto ainda mais.

Gabriel sentiu algo diferente nesse momento e olhou para Bella com um novo sentimento. Ele aproximou seu corpo para mais perto dela quando um garoto talvez um ano mais novo que ele sentou-se ao lado da loira. Felipe.

– É difícil ir ao banheiro até mesmo dentro de um hospital.

Ela apertou o joelho dele e puxou o loiro para um beijo, Gabriel virou o rosto, apertou as mãos com força e rezou para que algo atrapalhasse a agarração daqueles dois.

Seus pedidos de não ficar segurando vela foram respondidos de um jeito bem barulhento.

Ele e o casal se surpreenderam quando um helicóptero pousou um pouco afastado deles. O trio ficou olhando para a máquina e um homem desembarcou depois que a gigantesca hélice parou de girar.

O sol estava forte e Gabriel não conseguia ver quem era com nitidez, aquela mesma pessoa começou a andar apressado na direção dele e o adolescente forçou um pouco mais a sua visão quando o reconheceu.

– Pai?

– Eu mesmo garotão! — Disse o homem estendendo os braços com um sorriso bobo.

Gabriel literalmente pulou em cima do homem com alguns fios de cabelos grisalho mas ainda com um porte atlético e bem jovial.

– Como veio parar aqui? — Gabriel perguntou ainda desacreditado.

– Eu não sei, um helicóptero pousou na rua de casa e quando fui tirar satisfações, o piloto disse que me levaria até você e agora estou aqui.

– Só pode ter sido o Maurício. Ele é louco!

– Pode até ser, mas ele me trouxe ao meu filho e serei eternamente grato. Nem consigo acreditar que quase perdi você filho. — Ele chorava.

– Tudo está bem quando termina bem.

– Essa ilha sempre foi uma das melhores lembranças que já tive e quase se tornou a minha pior. — Ele afagava os cabelos castanhos do filho.

– Melhor lembrança? Qual?

– Não te contei que foi em Santa Muerte que sua mãe e eu passamos nossa lua-de-mel?

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O Natal finalmente chegara.

Os ruivos ganharam de sua mãe duas pulseiras de ouro. Estava escrito o nome de Maurício na pulseira de Vivian e o nome dela na pulseira dele.

Uma forma de terem um ao outro mesmo quando não estivessem juntos.

Cristina convencera o hospital a liberar sua filha mais cedo e logo ela, Vivian, Bella, Felipe, Gabriel e o pai dele embarcaram no primeiro voo de volta para casa.

Maurício insistiu de que precisava ficar na ilha. Ele não tinha qualquer espírito de Natal para comemorar com sua família. Talvez nem tivesse uma festa para ele naquele ano.

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Valentina estava sentada perto de uma fogueira com outras pessoas cantando músicas natalinas, comendo marshmellows e contando histórias.

O ruivo observou o grupo de longe naquela areia fria, ele queria ir até lá e fingir que a fogueira não o incomodava.

Queria conversar e se divertir com todos, mas tinha medo de não saber como interagir. O frio não o incomodava, ele esperaria o tempo que fosse sentado ali com o violão em suas costas esperando para ser tocado.

Seu momento chegou quando o grupo se dispersou, Valentina ficou sozinha recolhendo os pacotes vazios de marshmellows e garrafas, a guia turística estava distraída e não percebeu quando o ruivo surgiu atrás dela.

A garota deu alguns passos para trás com o susto derrubando o papel que continha as informações de sua irmã perto do fogo.

Maurício o pegou antes que o fogo se aproximasse, ele próprio se surpreendeu com a velocidade que fizera.

– Eu te assustei? — Perguntou enquanto devolvia o papel.

– Imagina! — Ela disse com um pouco de ironia, pegou o papel aliviada e abraçou o ruivo. — Estou tão feliz que esteja aqui!

– E eu mais feliz ainda com a recepção calorosa.

Os dois sentaram-se um pouco mais afastados da fogueira a pedido do músico, Valentina contou sobre a sua irmã e um resumo de toda a sua vida. Maurício escutou sem a interromper.

Valentina não queria mostrar sua tristeza mais uma vez e tentou amenizar suas palavras.

O tempo passou sem que os dois percebessem, o que os alertou foi a fogueira que estava perto de se apagou depois de consumir quase toda a lenha.

– Está um pouco frio agora. — Valentina disse.

– Espera, toma o moletom. — Ele tirou e o colocou sobre a garota.

– Obrigada! — Ela acariciou o rosto dele.

– Eu queria ter conhecido antes, em outro lugar, em outro momento mais romântico talvez.

– Já é romântico só por estarmos aqui.

Valentina se inclinou para beijá-lo, mas o ruivo recuou cabisbaixo.

– Não posso fazer isso. Eu tenho o maravilhoso dom de estragar tudo de bom que acontece comigo e com você não será diferente, sou um tipo um monstro muito bonito.

– Você é muito bonito sim, mas não é um monstro. — Havia ternura em suas palavras. — As pessoas muitas vezes olham sempre para a beleza do cabelo, do rosto e do corpo, mas o meu melhor lado não aparece, não é o esquerdo e nem o direito. É o de dentro.

Aquilo realmente lhe chamou a atenção, Valentina tocou em um foco desnecessário que ele tinha, sua beleza não era tudo, o seu talento era o seu dom mais precioso e estava guardado no seu coração e não em seus cachos ou nas lentes verdes dos seus olhos.

– Você é incrível!

– É, acho que sou sim. — Ela riu.

– Eu queria muito cantar uma música com você. Uma música que se encaixa muito bem com o clima.

– E qual seria essa música que se encaixa muito bem no clima? — Ela repetiu de um jeito engraçado.

– "Summertime Sadness" não seria a melhor escolha então que tal "Pra Você Guardei o Amor"?

– Ela é perfeita, mas não vou ficar aqui escutando você tocar para mim. Estamos no século XXI.

– E então? — Ele não entendeu.

– Eu vou tocar e você canta, passa o violão para cá.

– Quero que fique com ele.

– Oi? Você está me dando o seu violão?

– Todos os meus melhores momentos tinham haver com um violão. Quando eu o tinha nas mãos eu me sentia diferente, então se existe algo bom no meu coração de ferro e gelo, é por causa desse violão.

Ele pousou sua mão no lado direito do peito.

– Na verdade, o coração fica do lado esquerdo.

Maurício entregou o instrumento para Valentina que sorriu, ele limpou a garganta e os dedos dela fizeram o ambiente se encher de nostalgia.

"Pra você guardei o amor

Que nunca soube dar

O amor que tive e si sem me deixar

Sentir sem conseguir provar

Sem entregar e repartir

Pra você guardei o amor

Que sempre quis mostrar

O amor que vive em mim vem visitar

Sorrir, vem colorir solar

Vem esquentar

E permitir

Guardei

Sem ter porquê

Nem por razão

Ou coisa outra qualquer

Além de não saber como fazer

Pra ter um jeito meu de mostrar..."

O que aconteceu depois foi totalmente natural, Maurício tocou no queixo dela puxando-a para um beijo e Valentina retribuiu com delicadeza. Ficaram ali por alguns minutos até que ele desfez o laço do biquíni dela.

– Tem certeza que quer fazer isso? — Perguntou ele.

– Mais do que tudo!

Os dois fizeram um pequeno intervalo onde Valentina levou Maurício até o lugar que morava.

Os beijos ganharam mais intensidade. Ela acariciou as cicatrizes no braço dele e depois suas unhas arranhavam com força as costas dele.

A magia que os envolvia era grande, a profunda ternura de Valentina hipnotizava Maurício, o amor deles não parecia ser algo de momento nem mesmo precisava de mais tempo para se desenvolver.

Depois não havia mais nenhuma peça de roupa para atrapalhar o atrito entre seus pelos ruivos com a pele macia da garota. A cada impulso elétrico que a garota recebia a fazia revirar os olhos.

Havia uma química pura, uma loucura saudável, uma perfeita simbiose e um desejo inocente de que se tornassem um só.

Com apenas as estrelas lá fora como testemunhas, os dois protagonizaram um espetáculo de prazer sincronizado, mútuo e ofegante que duraria a noite toda.

Todas as garotas que Maurício namorara eram patricinhas frustradas que se derretiam por um acorde de violão e naquela noite, Valentina conseguiu ver a sua futilidade de outro jeito.

E ele encontrou o amor em um lugar sem esperanças.

Faltavam horas para amanhecer quando Valentina conseguiu dormir exausta, Maurício ainda acordado, levantou e se vestiu. Cobriu o corpo nu da guia e alisou o hematoma na bochecha dela.

Sabia que não era certo sair sem despedir, mas ele não queria dizer adeus para ela. O ruivo partiu em silêncio pela praia sem o seu violão até o seu meio de transporte favorito.

O helicóptero já estava ali esperando por ele.

=-=-=-=-=

Maurício chegou no finalzinho da manhã na cidade e logo decidiu passar no shopping para tentar comprar os presentes de Natal atrasado para Vivian, Bella e Gabriel.

Ele andava pela calçada digitando no celular, carregando as sacolas junto com um enorme urso-palhaço e escutando música pelos fones de ouvido, tudo ao mesmo tempo.

“I wanna leave my footsprints on the sands of time

Know there was something there”

Aquela música poderia ser considerada um dos temas de sua vida. E era assim como se sentia também, era o que queria que pensassem sobre ele.

"And something that I left behind

When I leave this world, I'll leave no regrets

Leave something to remember, so they won't forget"

Sem querer ele acabou se batendo no peitoral rígido de alguém que caminhava ao lado de uma garota de cabelo azul. Todas as sacolas caíram espalhadas pela calçada.

– Calma aí Double Bad. — Disse o homem de orelhas pontudas ajudando-o a se levantar enquanto a jovem recolhia tudo do chão inclusive o urso.

Maurício se desvencilhou tirando seus cachos da frente dos olhos. Percebeu a enorme tatuagem da garota e depois nos rostos dos dois.

– Eu conheço vocês?

– Greg Kaulfuss. — Tinha um charme europeu em sua voz. — E essa é a minha namorada, Lana. — A garota lhe deu um sorriso angelical e entregou as compras para o ruivo.

– Sei, vocês são aqueles que ficaram rindo de mim e da minha irmã na fila do hotel.

– É, não deveríamos ter feito aquilo. — Lana comentou.

– Não estamos em um filme então para com esse teatro, por favor. Já ouviu falar em superação?

– Desculpa, parei de escutar assim que você abriu a boca.

– Esquece! Você não cansa de ficar fingindo ser essa pessoa detestável? — Lana não obteve resposta de Maurício depois da pergunta. — Mostra para ele Greg.

Greg tirou o celular do bolso e entregou para Maurício mostrando-lhe um vídeo.

– O que é isso?

– Veja por si mesmo.

Maurício ainda estava desacreditado por ver aquilo, ele convidou o casal para irem até um pub ali perto onde repetiu o vídeo mais quatro vezes.

Greg estava atrás de um garçom que ainda não tinha trazido sua cerveja, Lana se contentava com um drink e o ruivo deixara seu milk-shake de lado, prestando atenção apenas no vídeo.

– Você gravou nossa performance? Sério mesmo?

– Eu estava lá vendo você e a ruiva fingindo que estavam se apresentando no hotel. — Greg disse. — Eu reconheço um talento quando vejo um e acho que vocês não são pessoas tão horríveis como parecem ser.

– Queria que mais pessoas pensassem assim também.

– Não fui o único, tinha um garoto lá quando fui embora, eu até pensei em publicar o vídeo no meu canal no Youtube, mas para minha surpresa alguém já tinha feito isso. E conseguiu um bom número de visualizações também.

Maurício ainda estava refletindo vendo a si próprio cantando.

Em cima de um palco ele não era Maurício e sim um cantor que se dedicava com amor ao seu trabalho. Uma pessoa bem diferente.

A música circense nos alto falantes do pub cessou e deu lugar a mesma música que o garoto escutava anteriormente.

"I was here

I lived, I loved

I was here."

– Eu não sei o que dizer. — Ele entregou o celular de volta para Greg.

– Mas eu sim, vocês são arrogantes e infantis. — Lana tomou o último gole de sua bebida antes de falar. — Precisam crescer e enfrentar o mundo de verdade. Muitos podem achar que não tem livre-arbítrio, mas podemos ser o que quisermos onde vivemos.

Você pode decidir ser a criança mais detestável de todas ou ser aquele que enfrenta a situação como um homem. — Greg completou. — Dê o seu melhor.

"I just want them to know

That I gave my all

Did my best

Brought someone to hapiness"

– Vocês estão certos, pode não parecer, mas eu me importo com o que acham de mim. E me importo muito.

– Assumir o erro já é um começo. — Greg tinha uma mão pesada e deu um pequeno soco no ombro do músico. Maurício era mais frágil do que pensava e disfarçou a dor que sentira com uma expressão séria.

– Não quero morrer como um figurante, mas não também não posso ser um dos principais. Não posso mais mudar a imagem de antagonista que todos têm de mim.

– Não precisa querer agradar os outros, a única pessoa que deve perceber isso é você mesmo. — Lana disse.

Maurício sorriu sincero.

Sorriu tanto pela frase quanto pela música.

“Left this world a little better

Just because

I was here."

– Obrigado. Mas eu ainda faria qualquer coisa para ter fãs.

Greg fez um sinal para o garçom que os atendera que em seguida trouxe um papel, o youtuber pegou o papel e entregou para o ruivo.

– Pode começar pagando a conta.

=-=-=-=-=

Não demorou muito para que Maurício e Gabriel soubessem das mais recentes notícias.

Os dois estavam no quarto do ruivo, Maurício tinha uma visão privilegiada de grande parte da cidade olhando pelos vitrais coloridos.

Bella contara para eles o que acontecera com a cantora que tanto idolatrava e se isolara por alguns dias tentando superar a tragédia.

Lis tinha tudo o que Maurício sonhava, ela era admirada, talentosa, reconhecida e amada por centenas de milhares.

E tinha um Grammy também.

Wendel morrera depois de passar seus melhores momentos ao lado da única pessoa que parecia entendê-lo e que o fazia feliz.

E o surfista. Ele não sabia o que falar sobre o surfista.

– Ela estava tão feliz.

Gabriel estava vendo as fotos que tirara no shopping no dia de Natal, ele com uma toalha vermelha listrada da lanchonete nas costas como um super-herói fingindo que mordia a peruca afro-rosa da Lis, que por sua vez, jogava confeitos no cabelo de Bella.

Havia mais duas garotas, uma loira e outra morena nas extremidades onde apenas metade do rosto de cada uma aparecia na foto.

– Deve ter sido isso o que mais desejava. — Maurício disse.

– Todos nós merecemos e agradeço por ter esta segunda chance com um amigo que posso chamar de irmão mais velho. – Falou Gabriel.

– Essa é a minha terceira chance, se não fosse pela visão do Edmund eu já estaria morto há muito tempo. Quinze anos depois o destino quis corrigir o que ele estragara e a Anna Clara acabou me salvando de novo.

– Ninguém deveria saber o que estavam fazendo. Ninguém entende como o mundo funciona.

– Ele está corrigindo as pontas soltas. Outras pessoas interferiram nos planos e isso nos trouxe para cá.

– E se existirem outros como você? Eu posso ser um também. — Havia um brilho diferente no olhar do Gabriel.

– Você teria que ter passado por uma experiência de quase-morte além dessa da Ilha Vermelha.

– Me lembro do meu pai ter me dito uma vez sobre algo parecido. Eu era muito pequeno na época e não me lembrava dos detalhes mas tudo parece estar interligado agora.

– Isso é bom. Eu escapei de um acidente antes e ainda estou vivo. E você?

Gabriel sentiu que aquela pergunta o fazia lembrar o lado mais triste do seu passado. Seu momento mais doloroso e também mais uma peça daquele mistério.

=-=-=-=-=

Edenbrook, NY — 07/09/2004

– Para onde vamos papai? — Um pequeno Gabriel de 8 anos perguntou ao pai.

– Encontrar sua mãe, ela deve estar saindo da universidade agora.

– E onde fica isso?

– Depois do parque.

– A gente pode passar um tempinho no parque? Por favor, por favor, por favor, por favor!

– Não dá, temos muito que fazer em casa.

A caminhonete cinza chegava ao parque que ficava de frente para a Koepp College, a única universidade em toda Edenbrook. Já estava no horário da saída e vários estudantes saíam do enorme prédio em direção aos quiosques ali perto.

Luna Luz, mãe de Gabriel, recebera uma oferta de emprego como professora em Nova York e ela o marido, Nero, se mudaram para lá ao lado do filho.

Ela estava no parque segurando seus livros, tinha uma expressão angelical em seu rosto, Gabriel puxara a cor dos cabelos e os olhos também.

– Aconteceu algo de bom hoje? — Ela perguntou para o filho que logo sentara em seu colo depois de entrar no carro e dar um beijo no marido.

– O Gabriel fez um desenho para você. — Nero disse enquanto fazia a baliza para fora do estacionamento.

– Um desenho, filho? Mostre-me, fiquei ansiosa.

– Não ficou bom, precisa de mais estrelas.

Gabriel tirou um papel e entregou para a mãe, ela olhou com carinho para o desenho onde mostrava os três em um campo estrelado. Luna retratada como um anjo que jogava as estrelas para eles que estavam na terra.

– É tão lindo! — Ela o abraçou. — Você além de ser o meu super-herói, é a minha estrela também.

– O que está acontecendo ali? — Nero perguntou.

Dois carros passaram céleres por eles, o primeiro entrou na universidade e o segundo bateu em um prédio, todos ali puderam ver a cabeça do motorista sendo esmagada com o impacto.

A caminhonete não continuou ali para o desfecho e seguia para longe quando um carro de luxo atrás dela derrapou colidindo com outro prédio. Fumaça escura começava a sair do veículo e logo um grupo foi ajudar o motorista.

Outro carro que estava envolvido freou ao ver a fumaça e depois fugiu com medo, o pai percebeu que ele vinha em sua direção e tentou desviar, mas a batida aconteceu.

Luna jogou Gabriel para o banco atrás do motorista quando o lado direito da caminhonete foi atingido com um impacto ensurdecedor, os vidros explodiram e em seguida Luna notou pedaços de ferro retorcido, entrarem em seu corpo.

O condutor do outro carro parecia não ter se machucado e logo tratou de sair correndo antes que alguém aparecesse.

Nero estava desacordado e Gabriel chorava estava sem entender a real situação. O sangue de sua mãe pingava no desenho tornando toda a folha vermelha.

– Meu super-herói. — Foram as últimas palavras dela.

=-=-=-=-=

– O mesmo acidente onde um estudante ficou louco por dizer que tinha visões? A Vivian estudava lá também quando isso aconteceu. — Maurício juntou as peças do quebra-cabeça. — Se o Neil não tivesse a visão, o carro que fugiu não teria freado e colidiria com vocês a tempo.

– E eu teria morrido. — Disse Gabriel cabisbaixo. — Apenas alguns segundos de diferença decidiram a minha vida.

– Esse é o problema. Onde está lógica? Se era para morrermos, então qual o motivo desse Edmund, do Neil e da Anna terem sido avisados?

– Sadismo talvez, a Morte deve gosta de brincar com as pessoas, colocá-las em um jogo onde sabe que não podem ganhar. Apenas por diversão.

– E se tiver acontecido com outros? Talvez a Anna Clara não conseguiu embarcar naqueles vôos da TAM ou Air France que caíram. Quem sabe aquela Vanessa poderia estar esquiando no Colorado, quando aquela avalanche atingiu a estação de esqui do Snow’s Lady Hotel.

– São tantas possibilidades.

– Talvez seja isso o que ela esteja fazendo. Precisamos contar para a Anna, ela tem que estar preparada para esses detalhes.

– Nem a conhecemos. Não sabemos nada de sua vida. Como conseguiremos localizá-la?

– Eu sei de um jeito. — O ruivo tinha um sorriso malicioso. — Mas preciso levar a Vivian para fazer mais uma cirurgia agora.

– Se esses pequenos acontecimentos de nossos passados estão interligado, fomos sobreviventes por muito tempo e acabamos reunidos naquela ilha para terminar com tudo isso.

=-=-=-=-=

O movimento do mercadinho estava tranquilo, Gabriel ajudou Bella a realizar alguns serviços e fez isso por estar se divertindo ao lado dela.

– Esse colar é muito bonito. — Disse Gabriel o pegando no pescoço dela e encostando sem querer nos seios da loira.

– Oh! Obrigada, é um mimo que ganhei quando fui visitar o túmulo da Lis.

– O anel também?

– Na verdade ele veio por acidente, preciso devolver. — Ela pegou o celular. — Talvez eu o encontre o dono dele na internet.

– Eu adoraria ficar, mas tenho aula agora. — Ele disse chateado. — É o maior tédio ter que estudar durante a noite.

– Tudo bem. — Bella se inclinou no balcão dando um beijo no rosto dele.

Gabriel permaneceu com um sorriso bobo e então se deu conta de que já estava atrasado, se despediu apressado e Bella deu um riso com aquilo voltando para o aparelho.

Meia hora depois, Bella encontrou o perfil de Thomas e mandou uma mensagem para ele. Uma cliente e sua filha chegaram ao mercado, Bella as atendeu simpaticamente.

A mulher de cabelos escuros sentiu-se mal perto de finalizar as compras, Bella a ajudou, mas a morena olhou para ela como se a conhecesse, depois se recompôs e saiu de mãos dadas com a filha.

=-=-=-=-=

Maurício e Vivian já estavam de volta ao casarão, eles subiram a escadaria até o espaçoso quarto da irmã que ainda estava um pouco tonta com os sedativos depois de ter feito a terceira cirurgia de reparo nos olhos.

Ele teria aula naquela noite. As imensas faltas na faculdade de administração obrigaram o ruivo a repor todas elas, mas ele não tinha a menor vontade de aprender sobre uma coisa que ele nunca faria.

Vivian já conseguia enxergar sombras coloridas, talvez não passasse disso, mas a ruiva transbordava confiança. A ruiva deitou-se na cama repleta de almofadas e travesseiros.

Havia várias fotos dela e de Maurício em poses engraçadas, prêmios que ganhara em algumas competições de talento quando pequena e um enorme espelho com lâmpadas ao redor como o camarim de uma artista deve ser.

Maurício escutava a ruiva que falava de como tinha sido a cirurgia, mas a mente dele estava voltada para a dor em seu ombro, ele tirou a camisa e prostrou-se diante do espelho, virou-se de costas até notar algo estava atrás do seu pescoço.

Uma marca sinuosa imprimida como uma cicatriz.

O ruivo se vestiu e pegou um papel onde escreveria uma carta para Anna Clara avisando-a do que sabia. Ele conhecia meios mais práticos, como redes sociais, e-mails e telefone, mas ele já estava decidido.

O computador estava ligado e isso o lembrou de procurar pelo vídeo que Greg falara no outro dia e para sua surpresa ele realmente existia e também com um bom número de visualizações.

Uma página de notícias acabou se abrindo sozinha, Maurício pensou em fechá-la, mas percebeu que estava falando da ilha, ele contou para Vivian. A irmã pediu que ele lesse:

– "A Maldição de Santa Muerte, por Serena Rabelo”.

– Nome pobre esse! Achei nada criativo. — Ela disse.

– "Mesmo depois da erupção que dizimou dezenas de pessoas, a Ilha Vermelha, uma das três ilhas que formam o Arquipélago Tríade Atlântica, reforça a sua história de maldição muito além do que conhecemos das lendas locais. Como a única repórter presente no dia do acidente, tentei recolher depoimentos de sobreviventes, como os herdeiros de várias empresas de investimentos da família Malinowsky. Mas infelizmente não conseguimos encontrá-los”.

– Quando foi que eles tentaram entrevistar a gente? — Vivian o interrompeu.

– Acho que o Albert disse alguma coisa sobre isso no dia da primeira cirurgia. Posso continuar?

– Vai lá, continua.

– "Começando pela pop star Lis Araújo, que teve o infortúnio de ser morta acidentalmente, durante um show ao vivo que fazia em sua casa. Mais de trinta mil pessoas assistiam a transmissão online, quando viram a garota entrar em combustão. Segundo informantes que permaneceram na ilha, para recolher mais notícias acerca da pós-tragédia, o estudante de astronomia Wendel Mateus foi morto, após ser esmagado pela pilastra de um hotel atingido pela erupção, e o surfista Eduardo Torres foi devorado por piranhas, depois de um acidente dentro da conhecida organização Animal Rescue em plena noite de Ano Novo”.

– Esse era tão lindinho, que pena. O outro deve ser aquele que se parece com seu amigo. — Vivian o interrompeu de novo.

– "A socialite Vanessa Érika Magalhães Albuquerque de Oliveira foi convidada de última hora para nosso programa e ficara incomodada ao ser questionada sobre assuntos pessoais, como o sinal de falência... Existem várias pessoas nesse emaranhado de perguntas e respostas, cada uma com seu próprio relato de como é ter encarado a face da Morte”.

– Quem é essa Vanessa mesmo? — Vivian o interrompeu mais uma vez. — Ela não deve ser tão famosa assim.

– É a ruiva que estava no elevador lá no hotel.

– E eu achando que a nossa família estava no buraco. — Ela riu caindo para trás e acabou batendo a cabeça de leve na cabeceira da cama.

Vivian xingou algo que não foi escutado por causa do barulho de trovões do lado de fora.

– O nome disso é carma querida irmãzinha. — O músico não conseguiu esconder o leve riso.

– Estou te ignorando Mau.

Ela jogou um travesseiro na direção em que achava que ele estava. A ruiva acertou a estante, derrubando um globo de neve e um porta-retratos, onde continha uma foto deles e de Bella, o vidro do globo rachou em uma espiral, onde a neve caía em cima do rosto da loira.

Nenhum dos dois deu atenção para aquilo.

– Quero terminar de ler isso ainda hoje. Pode ser?

– Termina logo então. — Ela cruzou os braços.

– "Santa Muerte tem seus mistérios do passado que se escondem em um armário sob a escada, mas eles sempre se revelam no nosso presente e com certeza surgirão mais no futuro. Como será o final desse conto de terror? Só o tempo dirá”.

– Essa Serena merece um prêmio só por causa do último parágrafo.

– Concordo. — Maurício continuou naquela página procurando por mais alguma informação. — Tem uma lista aqui das pessoas que estavam no barco, o nome e fotos de várias delas, inclusive nossas também.

– Esses repórteres são ninjas, estão em todo lugar. Minha foto ficou legal?

Maurício deu um zoom na imagem.

– Somos eu, você e o Gabriel antes de entrarmos no show, mas não ficou tão legal assim. Há fumaça do escapamento do jipe por todos os lados.

Valentina estava ao fundo sorrindo para o ruivo da foto.

Ele queria ter pegado o telefone dela pelo menos.

Maurício se distraiu tanto que nem escutou seu celular tocou, ele tateou os bolsos e o encontrou depois do quarto toque, não verificou o número e atendeu desinteressado.

O ruivo ficou em silêncio por alguns minutos, desligou o telefone e olhou para Vivian que começava a se entregar ao poder dos fortes sedativos.

Mais um trovão rugiu do lado de fora e toda a casa ficou no escuro. Alfred apareceu no quarto colocando várias velas acesas, o ruivo sentiu-se inseguro com tudo aquilo, se uma delas caísse seria um desastre.

Afastou esse pensamento da cabeça, pediu que Vivian se levantasse e a levou até o banheiro onde ajudou a ruiva a tomar banho e escovar os dentes. Ela já tinha falado que queria prosseguir com sua condição com o mínimo de ajuda, mas o músico era teimoso demais para isso.

Depois Vivian já dormia agarrada ao enorme urso-palhaço, ele apagou todas as velas do quarto e decidiu que contaria no dia seguinte o que acontecera com a loira dentro do mercadinho.

Alfred o surpreendeu no corredor do com mais velas acesas, mais ninguém sabia da fobia do ruivo que recusou gentilmente e entrou no próprio quarto.

Maurício olhou através dos vitrais da janela vendo que não chovia mais, o que era ótimo já que ele tinha um lugar para ir.

Só então se lembrou de que faltava um mínimo e importante detalhe.

"Como vou escrever aquela carta sem luz?"

=-=-=-=-=

Anna Clara estava de novo na ilha que tentava se reconstruir como podia. A comissária estava em paz consigo mesma e andava sem medo pela areia que ainda carregava o cheiro de mortalidade.

Já era noite, mas ela não se importava.

Parecia não haver mais ninguém por perto até ela reconhecer uma pequena cabeleira ruiva tocando violão próximo ao mar.

Anna caminhou até ele, mas parecia que cada passo que dava, a distância entre os dois aumentava, assim que parou de andar, a imagem do músico surgiu na sua frente, sentado para mar e com olhar perdido e automático para o violão.

Maurício parou de tocar, levantou a cabeça e sorriu para ela. A morena se tranquilizou e sentou ao lado dele, o ruivo tirou um maço de cigarros do bolso e encarou a chama do isqueiro antes de acender e oferecer para ela.

– Quer mesmo se matar fumando? — Perguntou incrédula.

– Não tenho tempo para morrer de câncer. — Ele soprou a fumaça para o outro lado. — E descobri que fico incrivelmente charmoso com ele.

– Acho que essa é aquela hora que a gente deveria se apresentar para o outro. — Ela estendeu a mão. — Sou Anna Clara del Sol!

– Maurício, só Maurício. — Retribuiu com timidez.

– Muito bem só Maurício, como eu cheguei até aqui?

– Nunca duvide do poder do misticismo, ele é incrível.

A fala dele só servia para reforçar as dúvidas de Anna Clara e ela sempre conhecia pessoas que pareciam ser malucas em seus voos.

– Isso não ajudou muito.

– Depois de ver a morte de perto, então você entende o real valor da vida. — Havia tristeza nos olhos dele. — Esse é o nosso caso.

– Essa conversa atingiu o nível máximo de estranheza, não consigo entender o que você quer dizer com tudo isso.

– Você teve uma premonição Anna Clara! — Ele revirou os olhos com desprezo. — Simples assim, você viu como aquelas pessoas iam morrer e agora vai acontecer de novo. Comigo, você e muitos outros.

Por um milésimo de segundos parecia que faíscas saíram do cabelo dele.

– Você fala isso como se fosse normal. — Ela tentava falar sem elevar o tom.

– Eu pagaria para ter uma premonição! Também sou sensitivo e tudo o que consigo ver é a aura das pessoas o que não é nada comparado ao que você fez.

– Eu me senti uma aberração quando vi aquele vulcão explodindo na minha mente!

– Seu desabafo saiu em um rompante, ela sentiu-se cansada e sua respiração não queria desacelerar até sentir o toque da mão do ruivo.

– Ter tido uma premonição não faz de você uma aberração, faz de você uma heroína.

– Uma heroína que não sabe o que fazer, nem sabe como lidar com isso. Estou perdida Maurício.

– Você terá ajuda, tudo o que estou falando é verdade e ainda vai acontecer coisas terríveis Anna. Começando por mim.

– Começando por você?

– Um astro é imortal para todos, mas espero continuar vivo em seus pensamentos. Sei que vou morrer e farei isso por mim, pela minha irmã, meus amigos e até mesmo por aquela mistura de rato com esquilo que não sei o nome e que vai ficar sem a dona algum dia.

Ela suspirou e sentiu firmeza nas palavras dele e também vontade de rir com a última frase.

– Tenho quase certeza que você está falando de uma chinchila.

– Bom saber. — Maurício tirou uma carta do bolso do casaco e escreveu algo na última linha, depois a dobrou e estendeu para a garota. — Isto vai lhe explicar algumas coisas sobre mim que sou mais importante do que tudo nessa história.

Anna pegou a carta e percebeu o seu nome escrito em vermelho.

– Posso abrir?

– Ainda não. Deve passar na televisão então você saberá o momento certo.

– O que vai fazer agora?

– Vou tentar aproveitar minhas últimas horas ou minutos talvez.

– Alguns são tão ingratos por estarem vivos, mas você não, não mais.

– É, foi isso o que a Lady Death me ensinou. — Deu de ombros.

–"Lady Death"? — Ela fez aspas com os dedos. — Tem gente que chama a morte de um monte de nomes, mas é a primeira vez que escuto esse termo tão gentil.

– Só eu posso chamá-la assim, o resto é plágio.

– Tudo bem, não está mais aqui quem falou.

– Gostei de você Anna, seu eu pudesse escolher quem teria a premonição, eu teria te escolhido.

– Acho que agradeço por isso. Só acho. — Deu de ombros.

– Eu só te peço mais uma última coisa antes de ir embora.

– E eu farei. — Ela sorriu.

– Não se esqueça de mim.

O olhar do garoto a comoveu, ela era uma criança destruída naquele momento pensando até que queria tê-lo conhecido antes.

Maurício se levantou colocando o violão na mochila em suas costas e rasgando com força sua camiseta em seguida. Suas unhas arranharam o ombro machucado dele e um pouco de sangue saiu do ferimento que tinha um formato irregular.

Aquilo surpreendeu a morena que levantou também se limpando da areia.

O garoto apontou o cigarro para seu próprio rosto como se estivesse o encarando, Anna Clara curvou a cabeça se perguntando o que ele ia fazer com aquilo e soltou um grito assim que o ruivo enfiou com força o cigarro no próprio olho direito.

Ele pareceu não sentir e fez o mesmo com o olho esquerdo, seus cílios encolheram e logo cada de uma de suas íris derreteram, a morena não sabia como reagir, Maurício apenas lhe deu um sorriso psicótico, seu cabelo vermelho ganhou mais vida e se incendiou espontaneamente logo passando para todo o seu corpo como uma tocha humana.

Anna tentou gritar, mas nenhum som saiu de sua boca. O vento soprou forte levando aquela bola de chamas para o céu sussurrando o nome dela ainda mais alto.

Maurício voltou para seu lugar de direito em sua verdadeira forma.

Desapareceu logo em seguida dando o lugar para a lua e as estrelas que despencavam como flocos de neve em volta de Anna Clara.

Aquilo fazia sua aflição sumir, ela até arriscou a sorrir diante daquela chuva de cristais de gelo, ela estendeu o braço e uma delas pousou em sua mão aberta.

O floco gelado brilhara e a deixava encantada, o brilho aumentou ainda mais e ela sentiu sua mão queimar.

Sua visão ficou escura e Anna Clara levantou-se apavorada de sua cama, seu marido Shinji acordou com o grito alto imaginando o pior.

– Anna? Anna Clara, o que houve?

– O músico! Ele morreu na minha frente, estava aqui agora mesmo! — Ela falava tropeçando nas palavras.

– Calma, foi só um pesadelo.

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– Era real Shinji, eu sinto que era real. Preciso encontrar o músico, ele deve estar em perigo.

O asiático segurou as mãos trêmulas dela, afagou o cabelo extremamente curto e tentou passar confiança em seu sorriso.

– É só o seu subconsciente brincando com você. Tenha certeza disso.

Anna olhou para o relógio em cima do criado mudo, eram três horas da manhã. Ela virou-se para Shinji e o agradeceu com um beijo deitando-se em seguida.

Seu sono demoraria a chegar, ela ainda estava pensando se o que acontecera era real ou apenas uma ilusão, parecia até ser possível sentir o cheiro de algas mortas dentro do quarto.

Do mesmo jeito que sonhara com a caverna de gelo na noite anterior.

– Desligue sua mente Anna. — Disse baixinho para si mesma. — Desligue sua mente.

O coração da morena desacelerou e suas pálpebras começaram a pesar, Anna sorriu mais tranquila e abraçou seu travesseiro.

Assim que fez isso, ela notou algo que não estava ali antes e mesmo no escuro foi fácil identificar o que era.

Uma carta escrita para ela.

=-=-=-=-=

Já era manhã quando Maurício e Gabriel chegaram ao hospital.

– Espero poder continuar praticando esportes depois dessa. — A loira disse assim que os viu.

Bella estava com o ombro, o tornozelo e três de seus dedos da mão enfaixados, também havia algumas leves queimaduras do frio.

Felipe dormia como uma pedra na poltrona ao lado, Maurício não o conhecia muito bem, sabia que ele e a loira passaram a namorar há quase um ano quando se conheceram no asilo que ela trabalhava antes do mercadinho.

Maurício não estava totalmente feliz por Bella estar viva.

– Onde está a Vivi? Pensei ter escutado a voz dela lá embaixo.

– Ela foi expulsa do hospital. — Gabriel falou tentando não rir da cena que aconteceu anteriormente.

– Mas o que houve?

– Chegamos cedo demais e ainda não estava no horário de visitação. — Até Maurício continha o riso. — Aí a Vivian pergunta para o segurança estressado ao lado quando estaríamos liberados para subir até aqui.

– E depois? — A loira já imaginava.

– Essa foi a parte mais engraçada. — O estudante não conseguia mais se conter.

– Ele apontou para uma placa com os horários e perguntou se ela era cega. Lógico que não deixou aquilo barato e acabou dizendo umas poucas e boas para o homem. Juro que fiquei com pena dele.

– Eu teria feito pior, nunca levo desaforo para casa. — Ela sacudiu os cabelos.

– Como está agora? — Maurício perguntou.

– Bem! Pensei que ficaria com medo e teria uma ataque de pânico, mas devo estar curada da minha claustrofobia. Consegui manter a calma e até dançar um pouco.

– Tantas coisas que poderia fazer e você resolve dançar. Sério isso?

– Podia ter ligado para um número de emergência como a polícia ou bombeiros, eles funcionam mesmo que não tenha um chip no aparelho. — Gabriel completou.

– Eu sou uma burra! — Falou em um tom de riso e escondeu o rosto com as mãos. — Sem julgamentos, por favor.

– Mas a gente te ama assim mesmo.

O ruivo disse segurando a mão enfaixada enquanto Gabriel segurava a outra.

– Nós somos tipo uma Trindade Profana. — Bella estava feliz com aquilo. — Temos uma coisa em comum que é falar coisas que podem não agradar os outros e alguns não gostam de nós. Sei que não começamos essa amizade juntos, mas ficaremos unidos para sempre?

– Para sempre!

Maurício e Gabriel responderam ao mesmo tempo.

A porta do quarto se abriu revelando a silhueta de uma enfermeira colocando luvas.

– Pronta para trocar os curativos Isabella? — Ela disse de uma maneira acolhedora e maternal.

– Sim acho que sim!

– E o horário de visitas acabou infelizmente. — Disse para o os dois rapazes. Felipe ainda dormia e ela decidiu não acordá-lo por enquanto, a enfermeira apontou a porta para eles e tirou primeiro tirou o curativo do ombro de Bella.

Maurício reparou na nuca da garota vendo um provável arranhão superficial feito pelo gancho do frigorífico antes de perfurar o ombro dela.

Mas aquela marca parecia estar ali há mais tempo.

Ele tentou decifrar o que era, mas um Gabriel impaciente puxou Maurício pelo braço e os dois caminharam pelo corredor vazio e iluminado.

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Vivian ainda estava chateada por não conseguir visitar sua amiga, Maurício havia deixado Gabriel na casa dele e agora eles voltavam para o casarão.

O carro em que andavam enguiçara no caminho e o motorista já estava cheio de graxa por querer fazer tudo sozinho.

– Preciso me distrair com alguma coisa até lá. — Ela disse saindo do carro.

– Fica a vontade pensando, meus amigo trabalham no Spa aqui perto e seria bom eu passar lá. — Maurício saiu atrás dela.

– Um Spa? Como não pensei nisso antes? Não consegui o meu bronzeado e nem você, não conseguimos na viagem e essa é a chance perfeita.

– Pensei que as camas de bronzeamento estavam proibidas.

– Isso não importa agora.

– Tem certeza que é uma boa ideia?

– Você sempre disse que faria qualquer coisa por mim. Lembra? — Ela falou com uma voz manhosa.

– Acho bom, aquela velha maluca não fazer massagem em mim de novo. Ela me assusta.

Aquilo significava que ele havia aceitado.

– E já que seus amigos trabalham lá, até que vai ser legal ter a companhia deles e até mesmo do Juliano durante o bronzeado.

– Não consigo te entender Vivian. — Ele se irritou um pouco. — Você gosta do Juliano, não gosta do Juliano e depois parece gostar dele de novo.

– Eu já disse que é vergonhoso demais te contar e esse sentimento é bem mais forte do que eu.

– Se quiser continuar escondendo isso, não vou insistir mais. — Disse com descaso.

– Um oceano de segredos. Nós mulheres somos assim mesmo.

– Mas não deveria ser comigo.

– Mau?

– O que foi?

– Ainda vamos ao Spa?

Maurício não conseguiu deixar de rir desacreditado e logo já estava andando de mãos dadas com ela até o Spa.

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– Nossa! A que devo a honra dos famosos da internet aqui no Ming Yun Spa? — A recepcionista perguntou assim que os ruivos passaram pelas portas de vidro.

– Bom te ver também Sophia. — Ele disse.

A garota abraçou calorosamente os dois.

– Podemos oferecer um desconto na acupuntura também. — Bruna surgiu participando do abraço.

– Não, sem acupuntura e sem desconto. Ela irá fazer bronzeamento artificial e acho que um sauna para mim já está bom.

– Isso mesmo. — A ruiva confirmou.

Vivian remexia sua bolsa procurando por um dos vários cartões de crédito, pegou o primeiro que encontrou e entregou para a Sophia que o colocou na máquina.

– Sinto muito, mas o cartão foi recusado Vivian. — Ela disse.

– Não acredito que depois de tudo isso o papai ainda não desbloqueou meus cartões.

– Tudo bem. — Bruna falou dessa vez. — Vocês são nossos amigos e não precisam pagar.

– Não, eu insisto. — Maurício respondeu. — Ainda estou com o cartão da mamãe.

Dessa vez não houve problemas, o cartão foi aceito.

Sophia foi para fora onde um caminhão se preparava para entregar os novos aparelhos e substituir os antigos que de longe já poderia se perceber algumas falhas.

Bruna levou Maurício até a sauna e Juliano apareceu levando Vivian para a área do bronzeamento que ficava em uma sala fechada.

– Tem Cds aqui. — Juliano se inclinou sobre a prateleira em cima de uma das camas. — Acho que somos os únicos de bom gosto.

– Poderia me ajudar a tirar meu vestido?

– Lógico.

– Obrigada.

Juliano desabotoou o vestido dela, Vivian tentava esconder o que sentia ao sentir aquelas mãos deslizarem por suas costas. Eram delicadas e fortes ao mesmo tempo.

Ele também passou as mãos pelo pescoço dela para prender seus cabelos, a ruiva se arrepiou com o toque.

– Eu juro que não sei o que você tem contra mim Vivian. — Ele disse. — Não que eu não goste de você, só não consigo entender essa sua implicância comigo.

– Desculpa, mas eu não sei como te dizer isso.

– Fala logo, por favor, ainda tenho que regular a temperatura da câmara.

– Eu gosto de você! — Ela disse em um rompante, quase um grito. — Eu me apaixonei por você é isso, mas não sei se sabe como é difícil ver uma pessoa todos os dias e saber que nunca terá uma chance com ela. É vergonhoso.

– Vivian. — Ele a segurou de modo que ficassem frente a frente.

– Pode rir de mim, eu deixo.

– Se você abaixasse esse nariz arrogante e fosse um pouco mais educada, já teria percebido que eu jogo nos dois lados.

Juliano segurou a cintura dela e a puxou para um beijo. Vivian não sabia como reagir, mas logo se entregou ao momento. A câmara atrás deles já estava ligado em uma temperatura mais do que baixa.

Ele a deitou sobre as lâmpadas e entrou também ainda de roupas, onde os beijos recomeçaram.

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Abigail não conseguia segurar a ansiedade, ela dava voltas no empoeirado piso de madeira de sua cabana na floresta.

– Chegou a hora! — Ela sentiu uma energia que lhe indicava isso.

A velha senhora vasculhou em sua caixa atrás da representação do Flautista.

Mesmo sendo cega, Abigail reconhecia cada objeto em sua casa, sabia de cor onde ficava tudo e nunca considerou aquilo um problema.

Ela sorriu ao encontrá-lo o caminhou até a fogueira em seu quintal improvisado, apontou o boneco para o céu e o jogou em meio às chamas.

Sua mira sensitiva não era a das melhores e o boneco apenas rolou para perto do fogo onde a fumaça e o calor o penetrava aos poucos. Demoraria um pouco até que ele fosse destruído por completo.

A velha voltou para sua cabana quando um jipe passou em alta velocidade pela trilha ali perto. Santa Muerte começara a receber os primeiros turistas.

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No carro estavam Valentina, Eva e mais dois jovens que seguravam câmeras profissionais. A mulher elegante havia voltado para a ilha — Depois de comparecer ao funeral dos pais de Nina, para oferecer-lhe suas mais sinceras condolências -, pois ainda precisava cuidar de sua instituição.

– Vocês não vieram até aqui só de férias não é mesmo? — Eva perguntou para os dois.

– Estamos fazendo um documentário sobre a ilha. — A garota respondeu enquanto segurava seu chapéu para que ele não fosse levado pelo vento.

– Nós já estávamos aqui quando tudo aconteceu, mas tínhamos que voltar para registrar em detalhes. — O rapaz usando fones de ouvido completou e mostrou para a bióloga seu celular.

O vídeo começou com uma frase e depois cenas do vulcão explodindo e de todo o desespero que conseguiram gravar.

"Aconteça o que acontecer, nunca pare de gravar."

Mesmo que não admitisse em voz alta, a frase do filme preferido de Eva se encaixou como uma luva naquela situação.

Aquele vídeo acabara e outro se iniciou com duas pessoas cantando. Eva sorriu ao escutar a música e se lembrar daqueles dois rostos.

– A senhora os conhece? — Perguntou a garota depois de perder seu chapéu.

– Sim! Vivian e Maurício alguma coisa. Não lembro o sobrenome dos dois.

– Malinowsky. Nós já sabíamos o sobrenome e agora que temos os nomes será bem fácil de achar encontrar os dois.

O vídeo dos dois irmãos ruivos já havia sido compartilhado com várias pessoas, o ainda adolescente de cabelos castanhos os reconhecera quando fora conhecer o salão do hotel que seus amigos utilizariam.

Ele permaneceu escondido gravando toda a performance e havia mais um rapaz com uma câmera ao seu lado que fez o mesmo.

O jipe freou com força em frente a fachada ainda sendo reformada do "Magma Hotel".

– Esse nome é realmente muito pobre! — Disse ele tirando os fones de ouvido.

– Agora sabemos que é por causa do vulcão. — A garota ao lado dele disse.

Ele sorriu e puxou a morena pelo braço, o beijo molhado e comprido chamou a atenção de alguns poucos hóspedes que entravam ali.

Valentina parecia estar passando mal. Todos os solavancos do jipe deveriam a ter deixado enjoada. A guia saltou do veículo e vomitou atrás de uma palmeira. Por mais que fosse acostumada com expedições, nunca seria com solavancos de transportes.

– Acho que, algo que poderia ter sido anos mais tarde, acabou acontecendo muito antes da hora. — Disse a guia.

– Bom, eu não sou adivinha ainda... – E riu desconsertada. — Então pode falar o que é? — Eva apareceu ao lado dela.

Valentina sussurrou algo nos ouvidos da Dra. Mendel deixando-a boquiaberta.

– Você tem certeza disso?

– Não, é apenas uma desconfiança.

– Precisam de ajuda com alguma coisa? — Perguntaram os dois jovens ao perceberem a cena.

– Eu deveria perguntar isso para vocês. — Disse Valentina depois de se recompor.

– Acho que podemos nos virar agora. Essa estadia na malfadada ilha servirá como o nascimento do documentário que eu e a Harmony estamos produzindo. — Apontou para garota que tirava fotos do vulcão. — E serve também para encontrar um lado da minha família que eu achava que estava perdido.

– Sua família? Maurício e Vivian? — Eva fez as perguntas. — Desculpa, mas como é o seu nome mesmo?

– Sou primo deles. E eu sou Angelo, Angel se preferir.

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Bruna deixou Maurício na porta da sauna. Ela ficava após um corredor extenso, cheio de portas. Incrivelmente era a última. O jovem bateu na parede e perguntou:

– Conheço esse material, ele retém o som que vem de dentro. Por que teriam uma sauna a prova de som aqui?

– Alguns clientes mais assíduos gostam de aproveitar e colocar o papo em dia. Fizemos alguns ajustes a pedido do dono, que é muito amigo deles.

Maurício fez um esforço para compreender, mas entendeu. Girou a maçaneta e viu que a porta estava emperrada.

– Acho que precisam de mais ajustes, além das paredes. — Comentou.

– Não é isso. É que são saunas de travas automáticas. Cronometramos a sessão que o cliente quer fazer, a porta obedece à trava eletrônica, quando o tempo acaba.

– Isso quer dizer que tem gente ai nesse momento? – O rapaz perguntou displicente.

– Sim, mas a sessão já irá terminar, e então você pode entrar e regular a temperatura ao seu gosto. Qualquer dúvida pode me chamar pelo atendimento interno. Há um telefone dentro da sala, à disposição do cliente.

Bruna se despediu com um aceno, voltando a caminhar pelo corredor. No mesmo instante, a porta destrancou e a pessoa que estava utilizando o serviço saiu, esbarrando no ruivo. Ela aparentava estar bastante aborrecida, pela fisionomia e expressão que carregava. Chamou Bruna, interrompendo seu percurso. Agora, as duas caminhavam lado a lado, enquanto a mulher brava reclamava:

– Vocês são muito desleixados! Não é a primeira vez que aquela porcaria de regulador apresenta danos. Chamem um técnico para verificar ou denunciarei para toda a mídia o que os clientes passam aqui! E que linha telefônica vocês usam? A da Somália?

Maurício já ouvira a voz da mulher, que permanecia de costas, gritando com Bruna, parada em um canto da parede, apenas digerindo o que ela tinha a falar. Mas não sabia discernir de onde reconhecia. Ela nem sequer olhou na sua cara ou pediu desculpas por esbarrar. Deveria estar mais preocupada em esbravejar e despejar seu dia infeliz na funcionária. Logo, o rapaz olhou para o lado e viu a porta aberta, com o vapor da sauna deslizando pelo piso encerado do Spa. Entrou e fechou a porta. Do lado de fora, a mulher seguiu caminho, com a toalha enrolada no corpo.

– Eu, Serena Rabelo, mereço coisa melhor que esse Spa de quinta! Mas logo terei meu merecido reconhecimento, vocês vão ver! Quem sabe eu compre essa espelunca e transforme em um centro de estética prestigiado, só para dar o gostinho a vocês!

Maurício caminhou pelo cômodo. As paredes eram recobertas por madeira envernizada ou algum produto parecido. O piso semelhante ao que vira do lado de fora, encerado e bem cuidado. Havia dois ofurôs abertos e funcionando e os tão comuns bancos de sauna, onde quem estava utilizando do serviço poderia sentar e relaxar. O ruivo empurrou a porta e se despiu devagar, analisando os botões do regulador de temperatura. Ele faria uma sessão leve, afinal, só estava ali pela irmã.

Ainda dentro da cabine do regulador, percebeu um copo de shake diet sobre o aparelho. Condenou a pessoa que o deixara ali. Era permitido? Não vira nenhum aviso sobre isso, muito menos recebeu orientações antes de entrar. Concluiu que talvez fosse. Pegou o recipiente e afastou-o da aparelhagem, colocando na mesinha ao lado. Ao dar total atenção para o regulador novamente, mexeu nos botões de sessão leve e ajustou na temperatura média. Sorriu em seguida. Estava feliz em ter acompanhado Vivian, ela precisava deste Up! estético, depois de tudo o que houve com ela e com seus olhos.

Virou o rosto para a direita e visualizou uma pilha de toalhas brancas empacotadas em sacos plásticos e prontas para o uso. Então, abriu um dos plásticos e retirou a toalha, estendendo-a e sacudindo-a por precaução. O rapaz se virou, indo em direção da saída da cabine, já podia sentir o ar esquentando. A toalha pendurada em seu braço bateu no copo da bebida e o líquido virou sobre a aparelhagem. Maurício não viu o pequeno movimento e nem ouviu o barulho da faísca que o regulador emitiu. Quando saiu da cabine, a porta se fechou e a trava frouxa caiu do lado de dentro.

Do lado de fora, de frente para os ofurôs e bancos da sauna, caminhou nu, a toalha pendia em seu braço. Ele tratou de cobrir seu membro genital com ela, deixando uma saliência no tecido. Foi até o ofurô e verificou a temperatura da água apenas com o dedão do pé. Estava morna, mas ele decidiu sentar no banco, ouvir alguma música nos Ipod’s disponíveis. Pôs um deles no ouvido e apertou o play. A música começou a tocar.

"Sing for the boys, sing for the girls

Every time that you lose it sing for the world.”

Ele balançava a cabeça, de olhos fechados. Tentava não se lembrar da sua fobia, do que lhe afastava das sensações de calor. Era a segunda vez que ele sentia-se aquecido, sem precisar ter medo de queimar-se. A primeira vez aconteceu com Valentina. Ela era puro fogo, e desde aquela noite, ele não esquecera como ela lhe deu a mão e o ajudou a caminhar pelo fogo, pelo seu próprio fogo. De fato ele queimou, mas foi inteiramente de paixão. Pela primeira vez, o fogo que o consumiu, quando seu corpo entrou em contato com o da guia, lhe trouxe um sentimento diferente que não fosse medo. Ele estava feliz. Ao lembrar da jovem, ele cantou junto da canção:

“Sing it from the heart, sing it 'til you're nuts

Sing it out for the ones that'll hate your guts”

Dentro da cabine, as faíscas aumentavam e a temperatura subia cada vez mais. Maurício já estava sentindo a mudança brusca da sensação térmica, tanto de seu corpo, como do ambiente.

– Bem que aquela mulher reclamou disso.

Retirou os fones e ergueu-se do conjunto de bancos de madeira, indo até a cabine da aparelhagem. Sentiu-se completamente traído, quando a porta não abriu.

– Merda! Emperrou também? – Ele puxava a maçaneta com força, mas sem sucesso. O seu hálito, que saia entre os resmungos, estava quente.

Ele continuava tentando obter êxito em abrir a porta da cabine. Lá dentro, o líquido escorria para a aparelhagem e invadia seu sistema elétrico. A temperatura aumentava drasticamente. A sauna estava ficando insuportável. A maçaneta esquentou tanto que queimou a mão do rapaz e lhe arrancou um grito. Alguma pele ficara grudada, quando ele retirara a mão, no susto de dor. Olhou para o ferimento e fechou o punho, trazendo o braço para si. A toalha também esquentava, junto do sua temperatura corporal.

O ruivo correu até a porta, desesperado. Ele batia a mão que estava ilesa, na porta travada.

– Tem alguém ai? Tirem-me daqui, a temperatura tá muito alta! Socorro! – Nem se quisesse, seus gritos alcançariam os funcionários.

Foi ai que se lembrou do telefone de emergência. Correu até o objeto e o tirou do gancho. O que ouviu fez sua espinha congelar, mesmo naquela temperatura em que seu corpo se encontrava, suando absurdamente. O toque de espera não durou muito, e quando ele achou que ouviria a voz de um de seus amigos, ouviu a mesma música que tocava no Ipod:

"Sing it for the deaf

Sing for the blind

Sing about everyone that you left behind”

Em seguida, o toque suave de uma flauta. Assustado, largou o objeto vermelho, de um material que não conduzia calor. O telefone fez um barulho metálico, ao entrar em contato com o chão, até danificar uma de suas pontas. Maurício gritou enfurecido, por ter tido aquela maldita ideia. Sua irmã estava feliz por ele estar acompanhando-a, mas ele não deveria ter aceitado a proposta de realizar uma sessão de sauna. Ele sabia dos riscos, das consequências. Apenas colhia o fruto que colhera. Olhou para os ofurôs borbulhando, as bolhas estourando ao chegar à superfície. Sentiu-se impotente, por não ter feito nada para evitar. O piso queimou os pés do músico, que saltou e gritou com a dor.

Seu corpo já não suportava mais a sensação térmica escaldante e cedeu às primeiras queimaduras, que já começavam a surgir. O rapaz tentava em vão gritar por alguém, pelos amigos... Por Vivian. A sua irmã também não o ouviria. Ele saltou, devido às queimaduras nos pés, que estavam em carne-viva depois do chão ter-lhe queimado. Ele acabou tropeçando no fio do telefone e rolou pelo chão extremamente quente. Suas costas e coxas deixaram resquícios de pele por onde passaram e ele fechou os olhos, antes de atingir o ofurô e seu corpo cair nas águas borbulhantes. As bolhas de terceiro grau saltaram de sua pele. Bolhas enormes, de coloração avermelhada. O pus se espalhou pelo antebraço e pela extensão das costas.

Maurício se jogou para fora do ofurô, com o corpo coberto de queimaduras de terceiro grau. A pele descascava e desaparecia, tanto pelas bolhas, como pelo calor agonizante. No marcador de temperatura, ela aumentava... 60, 70, 80 graus. A pele do músico já estava debilitada, derretendo como papel ao entrar em contato com fogo. Era como ácido correndo sua epiderme, sua carne. A dor era lancinante, insuportável. Ele chorava, as lágrimas caíam pesadas em seu colo. A toalha caída do lado, as queimaduras se espalhando pelas nádegas. O jovem estava fraco, a temperatura estava tirando sua vida gradativamente, da maneira mais sôfrega que a morte achou. O pus nem era mais visível, porque tudo que restava era sua carne chamuscada, os buracos na pele, o fêmur exposto pela falta de pele e nas coxas.

"Sing it for the world

Sing it for the world."

Ruivo caiu de bruços, de olhos fechados. Enquanto o inferno climático lhe transformava em um churrasco-humano, em seu pensamento, ele deu adeus à família, principalmente sua irmã. Maurício estava rendido, cercado. As bolhas cresciam no seu rosto, escondendo seus olhos claros. Elas estouraram juntas, produzindo um barulho repugnante.

– Estou preparado para a nobre guerra. Estou calmo, sei o segredo, sei o que está vindo e que ninguém pode impedir, nem mesmo eu.

=-=-=-=-=

No dia seguinte

Anna Clara não se lembrava de nem de 10% do seu sonho, ela tentava, mas aquelas imagens voltavam confusas e faziam sua cabeça doer ao ponto de derramar algumas lágrimas.

Os temores da morena se confirmaram ao assistir a notícia da morte do músico, ela mudava os canais, mas todos ainda divulgavam a trágica morte. Um vídeo amador até fora transformado em um clipe de verdade.

Saiu até no jornal.

Ela ainda se perguntava como a carta que segurava aparecera magicamente em sua cama, demorou um pouco para ela entender o que estava escrito devido à péssima caligrafia.

"Anna,

Deve estar se perguntando o motivo desta carta, nós nem nos conhecemos ou coisa parecida, mas é necessário.

Todos já devem saber da minha morte e não sei se isso lhe importa ou te afetou de alguma forma, mas preciso contar a verdade, a verdade que não tive coragem para revelar antes.

Sei que deve pensar que sou apenas um garoto rico e metido, mas esse não é o verdadeiro eu.

Não tenho seu heroísmo ou a alma dourada da Nina. A gentileza da Valentina e a amizade do Gabriel. A personalidade marcante da Ruth, o coração sonhador do Wendel, a determinação do Greg, o olhar poderoso da Vanessa, a sinceridade do Kris, o sorriso da Andreia, o carisma do Eduardo, o talento da Lis ou a preciosidade da Bella.

Sou só o Maurício.

Vamos morrer e aceitei a minha partida de bom grado, por mais dolorosa que seja, e, por favor, cuide do Gabriel por mim.

Agora que sabe que estamos em um jogo, você deve procurar ajuda e não deixar que a Lady Death vença.

Meu lado sensitivo nunca erra e sei que você será a uma peça chave para acabar de uma vez por todas com isso. Desejo que aproveite o tempo que ainda tem para iluminar quem precisa de ajuda.

E não se importe de ser tratada como integrante de um show de aberrações.

Todos fazemos parte dessas crônicas de vida e morte e isso é um motivo de orgulho.

E se o céu realmente existir, eu estarei lá com um violão feito de nuvens para lhe dedicar a canção mais linda já escrita.

PS: Agora sei que e aquele rato-esquilo é na verdade uma chinchila."

– Pelo menos ele conseguiu o que queria. — Falou alto consigo mesmo, olhando para a tv. — Ninguém vai se esquecer de você Maurício.

– Mãe? — Anna Bella apareceu na sala. — Está falando sozinha?

– Estava falando com um amigo, filha. — Ela desligou a televisão, guardou a carta no bolso e pegou a filha no colo.

– Parecia que estava chorando.

– A mamãe só estava ocupada, pensando em uma pessoa. — Anna Clara acariciou o rosto da pequena. — Mas vai ficar tudo bem, confia em mim.

– Gostei da estrelinha. — A menina sorriu.

– Que estrelinha?

– Essa que está na sua mão, ué.

Anna Clara olhou um pouco assustada e percebeu a pequena marca vermelha na sua mão. Uma queimadura em formato de estrela, mais parecida com um pentagrama. Ela não se lembrara de ter se queimado. A única palavra que veio na sua mente foi...

Wicca.

Notas finais
Não esqueçam de comentar. As reviews são essenciais para a continuidade do projeto.