Notas iniciais
Segundo capítulo, gente! :D Espero postar os capítulos nessa exata mesma frequência, um a cada semana. Se me empolgar a frequência pode aumentar, mas não quero atrasar muito as coisas ^^ Esse capítulo tem o acidente, então espero que vocês gostem :B Pra quem ainda não viu, aqui estão as fotos dos personagens da fic: http://premonicaofanficsource.blogspot.com.br/2014/05/premonicao-ilha-dos-condenados.html Bom, é isso. Enjoy! :D

Enquanto todos estavam extremamente desgastados por conta da longa viagem de avião, Ben parecia ter energia suficiente para todos eles. Dentro da lancha ele era o único em pé, de óculos escuros, avaliando o mar ao redor deles.

— Caraca, esse lugar é lindo!

E era. Anna estava sentada mais ao fundo, ao lado de Phillip e Michelle, que pareciam distraídos olhando para os lados. Courtney, Trevor, Simon, Daniel e Big J estavam espalhados por todos os lados da embarcação, também se surpreendendo com a paisagem que eles tinham diante de si.

— Quem vê esse mar bonito assim, nem imagina os horrores que esse lugar viu em 1941.

Pearl Harbor, Anna pensou. Ela lembrava-se vagamente do fato que havia estudado em suas aulas de história no high school, mas Ben parecia conhecer bastante a respeito do ataque japonês ocorrido sete décadas antes:

— Foram destruídos 21 navios, 347 aviões e houve um saldo de mais de dois mil mortos e mais de mil feridos. Quem ficou feliz com isso foi o primeiro-ministro do Reino Unido na época, Winston Churchill, já que o ingresso dos Estados Unidos na Segunda Guerra significou um aliado poderoso e decisivo para os rumos da história. "Estando saturado e satisfeito de emoção e sensação, fui para a cama e dormi o sono dos salvos e agradecidos", foram as suas palavras exatas.

Ele realmente sabe bastante sobre isso. Não me espanta que esteja solteiro.

— Você é geek demais até pros nossos padrões, Ben. Sério. — Michelle disse, abrindo um sorriso. O ruivo deu com os ombros e retirou os óculos, pendurando-os na gola de sua camiseta regata.

Não demorou até que eles chegassem à base naval de Pearl Harbor. Mesmo há vários metros de distância, o grupo conseguia ver, através das águas límpidas, uma enorme embarcação enferrujada no fundo do oceano. Os olhos de Ben pareciam brilhar diante daquela visão, e ele se aproximou até a amurada da lancha para observar melhor.

Quando eles desceram do veículo, o ruivo não esperou por ninguém. Seguiu pela passarela, à frente do grupo, olhando pra todos os lados. Quando seus pés tocaram o vidro blindado, Ben olhou para baixo. Ali o chão era transparente, e ele podia ver em detalhes os destroços do navio USS Arizona. Mesmo sem saber se algum de seus amigos o ouvia, o rapaz seguiu com a sua tarefa de guia turístico:

— Cerca de 1180 homens morreram quando esse navio foi atacado pelos aviões japoneses. Os restos mortais de mais de 900 deles nunca foram encontrados.

Phillip estava logo atrás dele, também olhando para o chão. Perguntou:

— USS Arizona. Que nome interessante. Existia um navio pra cada um dos estados?

Ben deu com os ombros, um pouco embaraçado por não saber a resposta para aquela pergunta:

— Vish, aí você me pegou cara. Eu sei que ele tinha um navio-irmão chamado USS Pennsylvania. Serve?

— É, eu acho que serve.

Mas, como sempre, Phillip já sabia a resposta para aquela pergunta que fizera.

x-x-x-x-x

Há alguns metros de Ben e Phillip, Anna mexia em seu celular, olhando as fotos que tirara durante o passeio na lancha. Eram só quatro, e em todas apareciam ela e Courtney, mas a garota gostou das imagens. Verificou seu sinal de wi-fi e percebeu que estava sem internet, de modo que teria de postá-las depois. Deu meia volta, andou alguns metros e parou no meio da passarela com o chão transparente.

Abaixo de si, o USS Arizona parecia imponente, mesmo naufragado. Havia algo de misterioso naquele navio, algo que deixava Anna extremamente fascinada e ao mesmo tempo desconfortável. Ele fazia parte de um importante evento histórico dos Estados Unidos, era verdade, mas o fascínio ia além disso. É quase como se...

Mas Anna não teve tempo de concluir seu raciocínio, já que os aviões japoneses sobrevoavam o USS Arizona e disparavam tiros contra a embarcação.

— Soldado Hasselbeck! Soldado Hasselbeck! — O militar ouvia algum de seus companheiros exclamar, tirando-o de seus devaneios.

Eles estão falando comigo, Anna percebeu imediatamente. Eu sou o soldado Hasselbeck.

— Eu não estou conseguindo contato com ninguém... — Ethan Hasselbeck exclamou, exasperado, enquanto mexia no rádio que ficava no painel de controle do USS Arizona. — Nós precisamos sair daqui antes que o navio exploda! Ninguém vai ouvir o nosso pedido de ajuda!

Mas os outros militares pareciam não concordar com aquela ideia. Hendrix, um dos superiores de Ethan, delicadamente pediu licença para o soldado e começou a dar ordens frenéticas no rádio que antes estivera na mão do rapaz. Não vai adiantar nada, ele pensou. É o nosso destino morrer aqui. Nós não vamos conseguir contato.

Eu não vou morrer, Ethan Hasselbeck decidiu, de súbito. Esgueirou-se para fora da sala de comando e percebeu o pandemônio instaurado ali. Os aviões japoneses sobrevoavam o USS Arizona apenas observando parte da destruição que haviam causado. Pareciam estar esperando alguma coisa, talvez uma ordem, mas o soldado não estava disposto a saber a resposta para aquela pergunta.

Imediatamente pulou na água para salvar sua vida, sentindo-se abraçado pela umidade que molhou suas roupas.

— Anna! Anna!

E então ela não era mais Ethan Hasselbeck, mas novamente Anna Hill.

— Vamos embora. O Daniel descobriu uma coisa que você não vai acreditar. — Courtney disse, abrindo um sorriso malicioso.

Anna ainda estava estática, sem entender o que havia acabado de acontecer. Eu sonhei acordada. Sonhei que era um soldado norte-americano durante o ataque à Pearl Harbor. Oh Deus, eu estou ficando maluca...

De alguma forma aquele sonho lembrava-lhe um pouco daquele que havia tido no carro de Daniel, com a diferença de que naquele ela era a própria Anna Hill, e o evento ainda iria acontecer. Dessa vez ela era um homem, um tal de Ethan Hasselbeck, e o que sonhara já havia acontecido em 1941.

Apesar disso, não deixava de ser perturbador. Eu preciso parar de dar ouvidos pras histórias do Ben.

O grupo já estava todo dentro da lancha, apenas esperando Anna. Ela percebeu que Big J havia guardado um assento ao seu lado, mas fingiu não ver. Agora não, Joe. Sentou-se mais à frente, ao lado de Phillip, e imediatamente começou a fingir mexer em seu celular. Não olhou para trás, e não viu quando o gigante loiro ergueu o cenho, frustrado. Daniel percebeu a cena e sentou-se ao lado do amigo, dizendo:

— Não liga não cara, a Anna tem dessas.

Mas Big J já parecia mais tranquilo. Deu dois tapinhas no ombro de Daniel e disse:

— Eu sei. Não tem problema. — E sorriu de maneira sincera.

x-x-x-x-x

A descoberta de Daniel era realmente bastante divertida.

— Uma rave! — Ele exclamou, entregando os flyers para os dois amigos.

Anna, Courtney, Big J, Ben, Trevor e Simon não estavam ali. As duas garotas tinham ido confirmar as reservas de uma cabana bastante pequena em que eles ficariam, enquanto os quatro últimos estavam lidando com toda a parte técnica necessária para que eles pudessem iniciar as filmagens do média-metragem, o que era uma tarefa extensa e nada fácil. Coube à Michelle, Phillip e Daniel uma tarefa muito mais prazerosa: recepcionar Laura King.

— A gente não veio aqui pra festar, Dani. — Michelle disse, censurando-o.

O rapaz deu com os ombros.

— A nossa agenda de gravações só começa amanhã. É só todo mundo prometer que vai acordar cedinho pra nós iniciarmos os trabalhos.

Michelle caiu na gargalhada.

— É difícil acreditar que você mesmo vá cumprir essa promessa.

Daniel riu também, mas negou com a cabeça.

— É sério, eu prometo. Eu não sou um irresponsável, Michelle. Esse projeto é o nosso bebê, você sabe. Eu sou o diretor e você é a roteirista. Nós e o Phillip aqui somos os cabeças, os outros são os nossos músculos. Eu não deixaria nada prejudicar o trabalho que nós dois batalhamos tanto para conseguir colocar em andamento.

Aquela frase foi o suficiente para convencer a garota. Apesar de tudo ela confiava em Daniel. Dentro do grupo, ele era a pessoa com quem ela tinha a maior sintonia intelectual e criativa, e era comum que eles estivessem de acordo em vários assuntos. Seis meses após se conhecerem, já era certo que a parceria deles nos trabalhos cinematográficos iria durar muitos anos, talvez até muito depois da formatura.

— Ok, vamos pra essa rave. Mas todo mundo precisa estar pronto para iniciarmos às gravações às oito.

Daniel abriu um largo sorriso, concordando com a cabeça. Foi só então que Phillip falou pela primeira vez, apontando para uma embarcação que acabava de chegar.

— Eu acho que a Laura chegou.

E era verdade. Mesmo de óculos escuros e no meio da multidão, ele percebeu a loira seguindo com uma mala de rodinhas cor de rosa e um andar sensual. Ela usava uma calça jeans preta toda rasgada e uma jaqueta jeans azul aberta até a metade. Por debaixo dela, Daniel conseguia ver um pedaço do sutiã preto que Laura usava. O visual da garota era completado por dois enormes brincos de argola e diversas pulseiras pretas em seu braço.

— Dani? — Ela disse, e o rapaz se derreteu com a sua voz. Laura tinha uma voz de sereia.

— Eu mesmo. É um prazer finalmente conhecê-la, Laura.

A loira abriu um largo sorriso, e os dois então se cumprimentaram com um abraço. Laura em seguida virou suas atenções para Michelle e Phillip, cumprimentando-os da mesma maneira. Enquanto o quarteto seguia para pegar o ônibus que os levaria até a cabana, a roteirista apressou-se em dizer:

— Eu sou uma grande fã dos seus trabalhos, Laura. Eu assisti Amazombies umas quinze vezes e gosto muito de Slaughtered 3 e 4. Você é a minha scream queen favorita da atualidade.

Laura parecia genuinamente feliz com aquela fala de Michelle.

— Eu não tenho palavras para te agradecer, Michelle. Você sabe, eu não sou uma atriz muito prestigiada, e é raro que eu ouça palavras como as suas. Filmes trash não são mais tão bem vistos como eram nos anos oitenta.

— Infelizmente eu não poderia concordar mais. — A garota disse, meneando a cabeça. — Mas ah, azar o deles. Nós sabemos valorizar o seu trabalho.

As duas sentaram juntas no ônibus de turismo e continuaram conversando por todo o trajeto. Daniel sentiu-se um pouco enciumado com aquilo, já que esperava que fosse ter toda a atenção de Laura. Tentou puxar algum assunto com Phillip, mas o rapaz não parecia entusiasmado em conversar, de modo que o outro rapaz desistiu rapidamente.

x-x-x-x-x

Quando Laura chegou até a cabana em que ficaria, teve vontade de rir de nervoso. Ah, dane-se, é mais uma aventura.

O lugar tinha três quartos, uma sala-cozinha minúscula e um banheiro que ficava do lado de fora da casa. Um local habitável para quatro pessoas, mas praticamente insuportável para onze. Isso sem falar no fato de que o grupo estava cheio de equipamentos para a gravação do filme, o que reduzia consideravelmente o seu espaço.

No sofá rasgado da sala, Simon estava estirado, dormindo. O mesmo acontecia com Trevor, que estava sem camisa e deitado no chão. Big J por sua vez desmaiara de sono do lado do amigo, também sem camisa e abraçado com um bichinho de pelúcia cor de rosa. Ben era o único acordado, sentado na bancada da cozinha e relendo o roteiro do filme.

— Ai meu Deus... — Daniel exclamou assim que eles entraram.

Phillip soltou um risinho nervoso e saiu em direção ao banheiro. Michelle fez uma expressão apreensiva, mas então olhou para Laura e a loira parecia divertir-se tremendamente com aquela situação.

— Mil perdões, Laura. Frat boys, você sabe. — A roteirista explicou.

Mas a atriz não parecia preocupada. Ainda estava rindo quando desviou dos corpos estirados no chão e seguiu até a cozinha para cumprimentar Ben. Assim como Daniel e Michelle, o ruivo parecia bastante entusiasmado com a presença da mulher.

— A Anna e a Courtney saíram pra comprar os ingressos pra rave. E ah! A Kia te mandou uma mensagem. — E Ben então entregou o celular para Daniel.

O rapaz pareceu interessado naquilo. Leu a mensagem por alguns segundos e então exclamou:

— Fantástico! A Kia disse que vai conseguir chegar hoje a noite.

Laura abriu um largo sorriso diante daquela frase.

— Isso é ótimo!

Enquanto Michelle se ocupava da tarefa de acordar os três rapazes na sala, Daniel foi mostrar à Laura o quarto em que ela ficaria. Os dois seguiram pelo minúsculo corredor da cabana em direção à última porta. O rapaz abriu-a orando para que o lugar estivesse em condições aceitáveis para receber uma atriz.

Por sorte, estava. Ali havia duas camas de solteiro, uma cômoda e um espelho, o suficiente para que Laura se acomodasse.

— Você e a Kia vão ficar com esse quarto, tudo bem?

Laura meneou positivamente a cabeça.

— Mas vocês nove vão dividir os outros dois quartos? Não seria mais justo ficarmos quatro em cada quarto?

Daniel pareceu meio desconcertado com aquela frase:

— A gente se vira, Laura. As meninas dormem juntas, e você viu o Big J e o Trevor ali, eles dormem até no chão. — E riu. — Eu só quero que você se sinta confortável aqui, tudo bem? Eu sei que não é a hospedagem ideal para uma atriz, mas... É o que um bando de universitários pode bancar e...

Mas a garota calou-o rapidamente, colocando delicadamente o dedo em sua boca.

— Eu sou uma atriz de filmes trash, Dani. Comparado com alguns lugares em que eu já fiquei, essa cabana é um hotel cinco estrelas. E o diretor do filme é o maior gentleman com quem eu já trabalhei, então tudo fica mais fácil. — E ela então abriu um sorriso que deixou Daniel completamente sem reação.

— Se você diz... — Ele respondeu rapidamente, seguindo até a porta. — Eu vou deixar você se instalar aqui. Como as gravações só começam amanhã, a galera toda pensou em darmos uma passada nessa rave que vai ter aqui perto. Nós tomamos a liberdade de já comprar o seu ingresso...

Laura fez uma expressão de chateação brincalhona, e então caiu na gargalhada.

— Obrigada, Dani! Vai ser divertido.

O rapaz concordou com um aceno e então saiu do quarto.

x-x-x-x-x

Phillip estava sentado, encostado em uma árvore qualquer, com um copo de vodca em mãos. Há vários metros dele havia um som bastante alto de música eletrônica e de adolescentes gritando. Luzes multicoloridas piscavam e davam o tom psicodélico daquela rave. Mas o rapaz não gostava nem do barulho e nem das luzes.

O local em que estava era bastante escuro. Era uma espécie de floresta, com uma vegetação verde e árvores baixas. A luz da lua atravessava as copas das árvores e deixava o clima morno ainda mais agradável. Phillip podia tranquilamente cair no sono ali.

De repente, alguém parou à sua frente. O rapaz ergueu a cabeça e as tatuagens espalhadas pelo braço direito da garota denunciaram de quem se tratava.

Kia Anderson. Com algum álcool em seu sangue, a visão da garota era quase transcendental. Ela era negra e bastante magra. Seus cabelos eram lisos e estavam cortados na altura de seu queixo. O rosto era completado por uma maquiagem escura e pesada e diversos brincos em suas orelhas. As roupas eram tão peculiares quanto: uma regata preta com a imagem de um zumbi e um shorts jeans com uma meia calça rasgada.

— Daniel Clark? — Ela perguntou.

Phillip apressou-se em se levantar, mas então ficou zonzo e caiu. Kia aproximou-se dele e segurou seu braço para ajudá-lo a ficar de pé.

— Você está bem?

O rapaz meneou a cabeça positivamente.

— Estou sim, só... Um pouco zonzo. — E diante da expressão complacente da garota, continuou: — Eu sou o Phillip. O Daniel pediu que eu viesse te recepcionar aqui, porque a música estava me deixando com um pouco de dor de cabeça.

Kia pareceu compreender, e então retirou o copo cheio de vodca da mão de Phillip, dizendo:

— Eu não quero bancar a sua mãe, mas acho que você já bebeu o suficiente dessa vodca.

Antes que Phillip pudesse responder algo, Anna apareceu. Ela usava um moletom azul marinho, um shorts laranja e tênis brancos nos pés. Seus cabelos castanhos claros estavam presos em um desajeitado rabo de cavalo feito do lado direito da cabeça e que caía por seu ombro. A garota segurava uma garrafa de vinho em mãos, e ao ver Kia, arregalou os olhos.

— Você chegou! É um prazer te conhecer, Kia.

— Obrigada. Você deve ser... Não me fala, quero ver se eu lembro... — E então Kia pensou um pouco e disse: — Anna?

— Exato! — A outra garota respondeu, rindo. — Bom, o Daniel está ali no bar. A gente te comprou um ingresso, então você tem direito a um copo de vodca grátis até às duas da manhã. Eu fico cuidando do Phillip aqui.

Kia concordou com um aceno de cabeça e agradeceu Anna, seguindo em direção à festa. A outra garota então ajudou Phillip a se sentar e a encostar na árvore. Quase que imediatamente o rapaz abaixou a cabeça e vomitou. Anna sentiu um pouco de nojo daquilo, mas aguentou firme. Ela então retirou um lenço de seu bolso e pôs-se a limpar a boca do amigo.

— Você pelo menos ficou sem tomar os seus remédios hoje, né Phillip?

O rapaz meneou a cabeça positivamente, com o olhar vago.

— Claro.

E então ficou em silêncio. Anna também se apoiou na árvore e ficou olhando a escuridão à frente deles. Decidiu fazer algo que Phillip fazia muito, e perguntar algo completamente aleatório para ele.

— Quantas garotas você já beijou na vida, Phillip?

Apesar da estranheza da pergunta, o rapaz não se abalou. Calmamente respondeu:

— Uma só. Quando eu tinha treze anos, no meu bar mitzváh. Ela se chamava Sarah, e foi o meu pai que apresentou ela pra mim. — E então, subitamente, os olhos do rapaz se encheram de lágrimas.

Anna ficou apavorada diante da perspectiva de ver Phillip chorando, então se apressou em falar:

— Você é judeu, é verdade. Eu tinha me esquecido completamente desse fato.

O rapaz percebeu o que a garota tentou fazer, e achou aquilo admirável. Virou-se e olhou diretamente nos olhos dela. Anna não desviou o olhar. Deus, ela é muito bonita. Do seu lado direito, um diabinho o incitava: beija ela! Ela está aí na sua frente, e acabou de te perguntar sobre quantas garotas você já beijou. É a sua hora, cara! Já do seu lado esquerdo, um anjinho o aconselhava: o Big J gosta dela, você sabe. Ele é seu amigo. Você não deveria fazer isso com ele.

Ao fundo, uma música eletrônica qualquer tocava.

Phillip se inclinou na direção da garota, e ela não se opôs. Daquela distância ele podia sentir a respiração de Anna de encontro com seu rosto.

E então eles ouviram passos.

— A gente pegou um ônibus e estamos indo pra uma caverna aqui perto... — Big J disse. Phillip congelou.

Anna virou-se imediatamente, mas pela expressão facial do gigante loiro, ele não tinha percebido nada. A garota apenas se levantou, limpando o shorts sujo de folhas secas, e saiu. Big J bufou e ajudou Phillip a se levantar.

— A Anna está complicada hoje, cara. — O loiro comentou.

— Pois é. — Foi tudo o que Phillip conseguiu dizer.

x-x-x-x-x

Trevor seguia dirigindo o ônibus de turismo através da floresta escura. Ao seu lado, Simon já estava sem camisa e bebia uma garrafa de vinho barato. Michelle estava abraçada ao segundo rapaz, por trás da cadeira, com as mãos em seu peito. No fundo do ônibus, Anna e Courtney riam enquanto viam fotos em seus celulares, sendo que cada uma delas tinha uma garrafa de cerveja em mãos. Phillip estava deitado em um dos bancos, dormindo, enquanto Laura, Kia, Ben, Daniel e Big J tentavam jogar cartas.

— Pra onde a gente tá indo mesmo? — Kia perguntou.

— Pra uma caverna que fica há alguns quilômetros daqui. — Trevor respondeu, sem tirar os olhos da estrada. — E não se preocupem que eu quase não bebi. Estou mais sóbrio que você. — E riu.

Kia fizera aquela pergunta porque ela conhecia muito bem a região. Era nascida e criada em Honolulu, e, quando pequena, costumava passar as férias na casa da avó, ali mesmo em Oahu. Imaginou que os jovens não soubessem dessa informação a seu respeito, e resolveu deixar assim mesmo.

O passeio demorou mais uns dez minutos. Trevor seguia através de clareiras sinuosas e inclinações bastante traiçoeiras, mas parecia estar no caminho certo. Kia observava as árvores passando ao lado da janela e estranhamente sentiu-se angustiada. Ela não sabia, mas naquele exato momento, Anna sentia exatamente a mesma coisa. Instintivamente ambas tocaram o peito.

— Chegamos. — O ruivo disse, parando o veículo.

Todos soltaram gritinhos de empolgação. O ruivo então abriu a porta e os amigos começaram a descer. Ele e Simon ficaram para trás, e então trocaram um beijo delicado e rápido. Antes de sair do veículo, Trevor tomou o cuidado de fechar a porta.

A caverna era quente e úmida.

Acima da cabeça dos jovens havia cerca de vinte metros de escuridão, ao fim dos quais eram visíveis estalactites de quase dois metros, pontudas e de onde pingava água com uma frequência irregular. O lugar era claro, porém. Ali havia diversas tochas acesas, que emitiam uma luz alaranjada que refletia no pequeno lago existente.

— Esse lugar é lindo. — Courtney comentou, olhando para todos os lados.

O grupo se espalhou pela pequena caverna, cada um deles observando um canto dela. Daniel e Laura seguiam lado a lado. Enquanto o rapaz tomava uma garrafa de vinho, a garota ia tocando as paredes de pedra.

Foi ele quem notou o objeto.

— Olha! — Daniel disse, apontando para o que tinha visto.

Escondido dentro de um buraco em uma das rochas estava um estranho boneco de argila verde. Ele se assemelhava a um gênio da lâmpada, com um rabo de cavalo preto. A parte de baixo de seu corpo parecia ser feita de fumaça, enquanto a de cima revelava um dorso musculoso com diversas joias em seu pescoço e em seus braços.

— Que porra será essa? — O rapaz perguntou. — É alguma divindade havaiana?

Laura se afastou alguns metros, um pouco trêmula. Um Djinn. Isso é um Djinn. Oh, não...

Por sorte, ninguém percebeu sua reação. Ben viu Daniel segurando o boneco e tirou-o da mão do amigo, avaliando-o por alguns segundos.

— Caraca, isso é um Djinn. — O ruivo disse, aparentando estar bastante curioso. — Ele é uma espécie de “gênio da lâmpada” na mitologia árabe.

— Tipo aquele do Aladim? — Daniel perguntou, entusiasmado.

— De jeito nenhum! Os Djinn não são nada parecidos com esses gênios que nós vemos no cinema. Eles são maus. Segundo a mitologia, os Djinn foram expulsos do paraíso junto com Satanás.

— Cacete!

Laura sentia-se extremamente desconfortável com aquela conversa, de modo que se afastou dos dois até que não pudesse mais ouvi-los. Isso não os impediu de continuar sua conversa:

— Desde então eles vagam pela Terra, presos em artefatos místicos e concedendo desejos àqueles que os libertam.

— À toa? — Daniel indagou. — Se eles são maus, por que concedem desejos àqueles que os libertam?

Ben então abriu um malicioso sorriso. Inclinou-se um pouco e fez a voz mais grossa que conseguiu:

— Porque eles são obrigados, cara. Essa foi a punição dada a eles ao serem expulsos do paraíso. Mas em troca desse desejo eles podem... Você sabe, ficar com a sua alma. E os Djinn são impacientes, eles não gostam de esperar. Então vão fazer o possível para conseguir transformar o seu desejo em algo que cause a sua morte.

Daniel tremeu com aquela fala do amigo. Mas que merda tá acontecendo comigo? Maldito álcool, me fazendo ficar com medo das histórias imbecis do Ben.

O rapaz então revirou os olhos e tomou o Djinn da mão do ruivo, guardando-o no bolso da sua calça.

Foi então que eles ouviram Trevor dizer, já na porta da caverna:

— A gente precisa voltar, ou o dono desse ônibus vai notar que ele não está mais lá.

Anna soltou um gritinho no exato mesmo momento. Aproximou-se do ruivo, exasperada, e então exclamou:

— Você roubou esse ônibus, Trevor? Mas que porra!

— Ei, não me olha assim. Todos eles concordaram.

Laura fez uma cara de ofendida, e então falou:

— Eu não sabia de nada disso. Nós todos podemos ser presos!

Pela expressão facial de Kia e Michelle, elas também estavam por fora do plano do outros. Courtney parecia ser a única garota a saber o que eles estavam fazendo, e ela então imediatamente abaixou a cabeça, envergonhada.

— Enfim, agora já foi. A gente precisa mesmo ir embora. Vamos. — Ele insistiu, chamando o grupo com a mão.

Anna saiu à frente deles, um pouco irritada. Foi quando ela ouviu uma música tocando, meio ao longe:

When the lights turned down

They don't know what they heard

Strike the match, play it loud

Giving love to the world

— Seu celular, Courtney. — Big J apontou, cutucando a irmã.

A loira tirou o objeto do bolso da calça e empalideceu ao olhar o número na tela.

— É o número do cara que alugou a cabana pra gente. Puta que pariu!

Trevor arregalou os olhos, mas tentou manter a calma.

— Não esquenta, a gente inventa alguma coisa pra eles quando chegarmos lá.

We'll be raising our hands, shining up to the sky

'Cause we got the fire, fire, fire

Yeah we got the fire, fire, fire

And we gonna let it burn, burn, burn, burn

— Desliga logo esse celular, eu não sou obrigado a ficar ouvindo Ellie Goulding... — O gigante loiro reclamou, tomando o objeto da mão da irmã e apertando o botão vermelho na tela.

Todos pareciam um pouco tensos, então entraram no ônibus em silêncio e assim permaneceram. Trevor dirigia calmamente, levando o dobro do tempo para fazer o mesmo trajeto que eles haviam feito na ida. Anna seguia com a cabeça encostada na janela, observando as árvores passando ao seu lado. Virou-se para trás e percebeu que Kia parecia um pouco ansiosa, mexendo nas pulseiras que usava em seus braços.

E então Anna viu a fumaça subindo ao seu lado.

A garota imediatamente cutucou Courtney, que estava sentada ao seu lado e de olhos fechados. A loira resmungou alguma coisa, mas não deu bola. Anna então começou a respirar mais forte, tremendo.

O barulho do pneu estourando foi o alerta.

A força foi tão grande que Trevor foi arremessado para fora da enorme janela aberta ao seu lado, caindo do lado de fora e batendo com a cabeça numa pedra pontiaguda. O sangue escorreu de sua cabeça, matando-o instantaneamente. Phillip viu a cena e imediatamente tentou sair do veículo para escapar, mas antes que pudesse saltar com calma, também foi jogado para fora e caiu batendo o rosto diretamente contra o grosso tronco de uma árvore. Sua face foi imediatamente dilacerada com o impacto.

Simon, que estava ao lado do ruivo, soltou um grito alarmante, mas conseguiu manter a calma e pulou para o banco do motorista no exato mesmo segundo.

— O Trevor e o Phillip! Freia esse ônibus! — Michelle exclamou, exasperada.

O veículo descia uma inclinação em alta velocidade, derrapando para os lados enquanto Simon tentava, inutilmente, fazê-lo ficar estável. O rapaz pisou no freio com força, mas não houve resultado.

— O freio tá quebrado, porra!

Quando eles passaram por uma espécie de lombada, Michelle foi jogada para o alto e então caiu com força no chão, batendo o rosto numa das barras de ferros pontiaguda que ficava atrás dos bancos. O objeto atravessou o seu olho direito e saiu pela parte de trás de sua cabeça. Ben, que estava ao seu lado, virou o rosto e vomitou.

A histeria dentro do veículo era total. Simon tentava girar o volante de forma que ele ficasse estável, mas era difícil. Mais complicado ainda era conseguir freia-lo.

— Vira! — Anna exclamou ao ver o caminho à sua frente.

Eles estavam chegando diante do fim da estrada. Teriam se virar à direita para continuar, mas essa tarefa mostrava-se cada vez mais difícil. Simon girou o volante o máximo que pôde, mas o veículo conseguiu apenas girar 180° e cair de costas em direção ao buraco de vários metros. A força com que ele girou acabou por jogar Kia em direção a uma das janelas. O corpo da garota atravessou o vidro como se ele fosse uma sacola de plástico, caindo na estrada completamente cortado e com uma enorme quantidade de sangue saindo de seu pescoço aberto.

O ônibus agora descia uma inclinação de costas, e os seis foram jogados para o fundo do veículo, enquanto Simon agarrava-se ao volante. A descida parecia não ter fim, e a velocidade aumentava cada vez mais. Foi então que o motorista não conseguiu mais segurar e se soltou, voando em direção ao grupo. Ele caiu em cima de Big J, fazendo as costas do gigante loiro serem perfuradas por uma barra de ferro semelhante à que causou a morte de Michelle. O objeto de metal atravessou o peito do rapaz, perfurando seu coração e matando-o instantaneamente.

Courtney ainda estava gritando diante da morte do irmão, quando uma das garrafas de vinho voou na direção dela e quebrou-se diretamente em seu rosto. A loira gritou com a dor dos cacos de vidro entrando em sua boca e olhos, e instintivamente os engoliu, sentindo o pedaço afiado cortando a sua garganta enquanto descia em direção ao estômago. Courtney teve tempo de cuspir algum sangue, e então também morreu.

A música tocando no celular da loira, ao fundo, parecia uma ironia.

We gonna let it burn, burn, burn, burn

Gonna let it burn, burn, burn, burn

De repente o ônibus parou, batendo com força em uma árvore.

Anna estava caída ao lado de Daniel, segurando com força sua mão. Ela estava completamente machucada. Olhou para o lado e percebeu que Laura parecia morta, mas o seu peito ainda se mexia, indicando que ela respirava. Simon estava caído segurando uma das barras de ferro, enquanto Ben rastejava para tentar abrir a porta do ônibus. A garota percebeu imediatamente que havia uma fratura exposta na perna do ruivo, e teve vontade de vomitar.

E então houve outro baque.

A árvore se quebrou como se fosse um galho seco. Anna teve tempo somente de olhar para trás e ver o enorme desfiladeiro em que cairiam.

Todo o restante aconteceu em câmera lenta.

Quando a árvore terminou de se quebrar, liberando passagem para que o ônibus despencasse em queda livre, Simon tentava sair pela janela. Ele então foi imediatamente derrubado pra fora, e Anna conseguiu ouvir seu grito ecoando até que seu corpo batesse contra o chão, vários metros abaixo.

E então ela sentiu um frio na barriga e soube que estava caindo.

Daniel voou para cima, e seu corpo atravessou o vidro do painel, matando-o na mesma hora. Com a força da gravidade, porém, ele voltou a cair dentro do ônibus, atravessando o buraco e chocando-se contra o corpo de Laura, quebrando o pescoço da atriz. O ruivo gritou alto, e instintivamente empurrou o corpo dela para o lado.

Eles ainda caíam.

E então Anna ouviu o estrondo do ônibus caindo dentro da água.

Em um segundo podia respirar, e no outro estava dominada pelo líquido que a cercava e a sufocava. Ao seu lado, o ruivo se debatia, tentando nadar para fora do ônibus, mas a sua perna machucada o impedia. Anna pensou em gritar, mas então percebeu que iria se afogar se fizesse isso. Apesar de seu estado, ela conseguiu nadar até o rapaz e começou a tentar puxar o seu corpo pra cima, ao mesmo tempo em que sentia que o veículo afundava mais e mais.

Quando viu que não conseguiria salvar a ambos, desistiu. Largou o ruivo e começou a tentar subir sozinha. Percebeu imediatamente que Ben já tinha fechado os olhos e sentiu-se horrível por isso. Mas eu preciso escapar. Assim como o Ethan Hasselbeck, eu não vou morrer. Eu preciso sobreviver.

Anna estava quase chegando ao vidro dianteiro quebrado, quando sentiu o impacto da explosão do ônibus. Uma pressão absurda tomou conta de seu corpo, e então ela engolida pela bola de fogo dentro da água.

Quando abriu os olhos, uma estava música tocando, meio ao longe:

When the lights turned down

They don't know what they heard

Strike the match, play it loud

Giving love to the world

E a garota soube que estava perdida.

Notas finais
Como prometido e de praxe, a música que utilizei no capítulo: Burn - Ellie Goulding: http://www.youtube.com/watch?v=CGyEd0aKWZE O cap. 3 já está todo escrito, então existem grandes chances dele ser postado logo. Já adianto que ele está BEM sangrento! hahaha XD Abração o