Premonição 5: Água Negra
7 Manequim
Notas iniciais
Abi fechou sua mala, decidida. A Real Doll mantinha-se impassível, como sempre. Insensível às lamúrias ou aos tormentos da garota. Ela é que é feliz, Abi pensou, temendo estar perdendo o seu inquestionável gosto pela vida.
Verdade fosse dita, estava claramente infeliz. Sentia-se deslocada. O que estava fazendo ali ainda? Esperando Leon? Besteira. O rapaz já provara que sabia se virar sozinho mais de uma vez. Abi não sabia direito o que queria ficando em Houston. Talvez quisesse tempo. Tempo para decidir o que faria de sua vida dali em diante. Temia ter deixado para trás seus melhores anos, e temia estar desperdiçando a vida. Sentia-se, por fim, incompleta.
Como um manequim.
Encarou a mala fechada por alguns segundos. Era a decisão correta, sabia. Pegou o objeto pela alça e não ao virar-se para seguir em direção a porta, deu de cara com seu colega de quarto.
— Pra onde você está indo, Abi? — Leon perguntou visivelmente desconcertado.
A garota não esperava por aquilo.
— Eu não esperava te ver em casa tão... Cedo. Achei que estivesse fotografando aquele bar mitzvá.
— Eu estava, mas um tio do garoto deu um vexame — Leon quase riu ao dizer essa palavra, aprendera há pouco tempo com Emily — tão grande que a festa acabou mais cedo. Daí eu pensei que nós podíamos sair e ir almoçar naquele restaurante egípcio que você adora.
— Tem gosto de casa. — Abi disse.
— Tem gosto de casa. — Leon concordou.
Abi mexeu nos cabelos, incerta, e então tomou coragem:
— Não está dando mais, Leon. Eu preciso ir embora. Eu preciso ir para casa.
O rapaz estava pronto para aquela conversa:
— Mas Abi, você não pode. A lista, ela... — E Leon esperou ser interrompido, o que não aconteceu. — Você não pode duvidar. A Jade morreu, e então aquele garotinho e a mãe dele. Três pessoas. E o namorado da Emily quase morreu também.
— Pessoas morrem todos os dias, Leon. A garota que foi picada pelas cobras estava exposta a isso. O namorado da sua amiga estava distraído, se o que você me contou é verdade. E quanto ao garotinho e a mãe dele... O que isso tem a ver com a gente? O que isso tem a ver comigo?
Leon estava impaciente:
— Eu já te expliquei muitas vezes, e ainda mais. Sobre a lista, sobre a Emily ter enganado a lista. Você viu as notícias na internet. Não há nada mais que eu possa fazer ou dizer que te convença. Há?
— Não, não há. — Abi disse, resoluta. — Eu agradeço a sua preocupação com o meu bem estar, de verdade. Mas eu não acredito em nada disso. Você precisa aceitar.
Não havia nada que ele pudesse fazer que mudasse a cabeça de Abi. Ela estava completamente decidida. Leon então pensou na foto da garota, e no que ela representava. Os cabelos. Os cabelos dela vão matá-la.
— Você poderia fazer uma única e última coisa por mim então? Sabe, pelo tempo que passamos juntos como companheiros de viagem.
Abi olhou para o rapaz com olhos curiosos.
— Sim...?
— Seu cabelo. — Ele disse num rompante. — Eu... É um pedido inusitado.
A garota riu.
— Eu sou uma modelo, estou bem familiarizada com excentricidades. Diga.
Ela vai me achar maluco.
— Eu posso cortar o seu cabelo?
— Como?!
— É que eu sempre fui fascinado por cortes de cabelo. Nunca te contei porque achei que você me acharia um maluco. Não é algo muito... Másculo. — Como se fotografia fosse. — Mas eu gosto disso. E você tem cabelos perfeitos.
— Obrigada. — Abi disse, incerta. — Mas... Você quer cortar o meu cabelo a troco de nada?
— É um presente de despedida. Eu só treinei com perucas e com alguns estagiários do papai. Rapazes de cabelo longo, já adianto. Nunca com mulheres, e menos ainda com alguém com um cabelo tão longo e... Perfeito. — Leon disse aquilo torcendo para que sua mentira colasse. Se eu não posso fazê-la acreditar na lista, posso pelo menos deixá-la mais segura.
Abi pensou alguns segundos. Então disse, decidida:
— Tudo bem, vamos fazer isso. Eu tenho certeza que vou me arrepender, mas... Se tudo der errado perucas estão aí para serem usadas. Certo Sidore? — A garota então se virou para a Real Doll. A boneca nada respondeu, e a egípcia tomou aquilo por um “sim”.
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— Aquilo me lembrou de Valerie Lewton. — Francis falou.
— A professora que saiu com os garotos do voo 180? — Krista perguntou.
— Ela mesma. A casa dela também ficou em chamas...
Os dois estavam sentados no chão da sala da casa de Emily e Johnny, de costas um para o outro. O rapaz dissera que aquela fora uma brincadeira que aprendera com a avó. Nela ele poderia dizer para ela todos os seus problemas e os seus medos, sabendo que ela estaria ali, ouvindo-o, mas sem precisar encará-la face a face. É um jogo.
Krista estava ansiosa.
— Agora é a vez da Abi. E então somos nós.
Francis já sabia daquilo.
— Nós vamos estar preparados. A Emily disse que às vezes ela sonha com a maneira como as mortes vão acontecer.
— Sonha?
— É um sonho, como qualquer outro. Não chega a ser uma visão. Ela disse que da primeira vez havia cobras. E então a Jade morreu. Na segunda vez ela sonhou com o Pete, e a cabeça dele era esmagada. Lembra? Ela chegou a mencionar isso com você.
A garota não se lembraria do fato nem se Emily tivesse lhe dito aquilo há dez minutos. Estava assustada, e temia por seu acidente. Será que doeria? Será que ela sofreria?
— Nós vamos conseguir. — Disse, por fim, incerta de se aquilo era verdade. Então virou-se subitamente e segurou o rosto de Francis com as duas mãos. O rapaz tremia e respirava profundamente. Então Krista não se conteve: uniu seus lábios aos dele e deixou-se levar no melhor beijo da sua vida.
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Abi chegou à oficina mecânica às três da tarde. Balançou os cabelos curtos e repicados e gostou do que sentiu. Seu cabelo gigantesco era seu xodó, mas ela aprenderia a gostar dele curto. Além disso, Leon havia feito um bom trabalho. A garota percebera no primeiro segundo que tudo o que ele estava dizendo era mentira. Mesmo assim não o impediu: ela sabia sobre a teoria da foto, sabia sobre tudo. E por mais que dissesse que não acreditava, uma parte de si temia.
Sentir-se-ia mais segura deixando que o cabelo se fosse.
Dois mecânicos estavam encostados numa mureta, conversando. Não havia mais ninguém na oficina àquela hora. Abi se aproximou deles e perguntou:
— Meu carro está pronto?
Um dos homens olhou-a de cima a baixo antes de dizer:
— A senhorita é...?
— Está no nome de Dash. Abi Dash. Eu trouxe o carro alugado. O conversível azul.
O homem então saiu para verificar. O outro ficou olhando-a de maneira meio estranha. Ao fundo ouvia-se um barulho irritante, inutilmente encoberto por uma música. A música Abi não conhecia, mas o barulho lhe pareceu familiar. Deu uma olhada ao seu redor e logo suas suspeitas foram confirmadas: era um torno mecânico. O que esse negócio está fazendo aí? Isso é para fábricas.
— Bonita... Boneca. — O homem disse, de repente.
Ah, então era a boneca que ele estava encarando. Sidore, a Real Doll, estava presa nas costas de Abi. A garota estava indo embora dos Estados Unidos, então não podia deixar nada para trás. Conseguira deixar as malas no hotel, mas a boneca era grande demais, e muito cara para ser deixada aos cuidados de qualquer um. A egípcia decidira que era melhor levá-la para a oficina. Depois disso ela fica no carro comigo. E droga, eu vou ter que comprar duas passagens de avião se não quiser que ela vá no bagageiro...
Abi não pensara nesses problemas quando adquirira a Real Doll. Mas agora eles estavam vindo à tona.
— Obrigada. — Ela disse, incerta.
E então o outro homem voltou.
— Seu carro está pronto, senhorita, queira me acompanhar.
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Johnny já estava longe quando Emily ligou para ele pela primeira vez. Ela queria avisar sobre Mikey e o seu acidente, mas completou dizendo que ele já estava bem e que o irmão não tinha com o que se preocupar.
O rapaz conseguira disfarçar bem o assunto que queria esconder de Emily. Dissera que estava viajando a trabalho, a pedido de seu chefe. A irmã jamais questionaria aquilo, sabia que era algo comum de acontecer.
Mas a verdade não era essa.
Por Deus, o que eu estou fazendo? Isso é loucura.
Mas Johnny já passara da etapa de pensar que tudo era besteira. A irmã podia tentar esconder o assunto dele o quanto quisesse, mas ele já havia descoberto tudo por si só. Sobre a visão, sobre a lista, sobre as fotos, sobre tudo.
Emily não era boa mantendo assuntos em segredo. Às vezes ela distraía-se, e não era a única. Por duas vezes Johnny chegou silenciosamente em casa e pegou-os conversando. Na última vez a irmã e Francis conversavam sobre uma casa em chamas. Aquele foi o chamado para despertar.
E então Johnny vasculhou o histórico do notebook de Emily e descobriu tudo.
E nunca na vida sentiu tanta falta de Jade quanto naquele momento. Se fechasse os olhos podia vê-la sorrindo, com os cabelos cacheados, volumosos e dourados e os olhos brilhantes e vivos. O sorriso de um anjo, a voz de uma ninfa...
Mas quando acordava ela ainda estava morta. E nunca mais voltaria. Mas eu posso salvar a minha irmã. Salvar Emily. Eu perdi Jade, mas não é tarde demais para a minha irmãzinha. E para mim...
— Deus, eu preciso estar fazendo a coisa certa... Preciso... — Disse em voz alta, enquanto sentia o vento do lado de fora invadir a janela do carro e pentear seus cabelos alinhados. — Hospital Twin Peaks eles disseram. É lá que você está. É lá... — E ligou o rádio, esperando que a música pudesse melhorar seu humor. — Heather Diamond...
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A mulher parecia flutuar em suas sedas verdes.
Mesmo assim, ao longe, Emily invejava tudo nela. O corpo, as roupas, o cabelo. Longo, liso, esvoaçante. Enquanto ela caminhava pelas nuvens opacas e macias, os cabelos faziam piruetas ao seu redor. Sua pele cor de café era brilhante, e tão lisa...
Ela é uma deusa.
Emily estava decidida a ir ter com a deusa. Levantou-se do balanço onde se sentava, ignorando o rangido das correntes ou o murmúrio das crianças que corriam por ali. A deusa estava sentada em uma fonte, rodeada de servos, todos nus.
— Com licença...? — A loira disse.
A deusa virou-se na direção dela, parecendo estar leve e graciosamente confusa.
— Sim?
E antes que Emily pudesse abrir a boca para dizer qualquer coisa à deusa, ele apareceu. Da primeira vez, eram calças de cetim brancas. Da segunda vez, nada. Dessa vez ele estava novamente sem roupa, mas havia correntes em todo seu corpo. Dois grilhões pendiam em seus pulsos, com as correntes de ferro arrebentadas. Em seus tornozelos a situação era a mesma. E em seu dorso e barriga havia um cruzamento de correntes, em forma de asterisco. No centro deles havia um cadeado, devidamente fechado, trancando todos os ferros e prendendo-os ao rapaz. Um cadeado com um formato de uma roda.
— Não faça isso! — Foi tudo o que a garota conseguiu dizer.
E então Leon puxou os cabelos da deusa para trás, com força. Amarrou uma das correntes ao redor do pescoço dela e, enquanto a sufocava com uma única mão, puxava a raiz de seus cabelos com a outra. E então aconteceu. O couro cabeludo desprendeu-se, e muito sangue jorrou pela cabeça e pela seda verde das roupas da deusa. Leon ria, enquanto o sangue molhava seu corpo. Emily queria gritar e ajudar a mulher, mas não podia. Estava presa por algo invisível.
O rapaz olhou para ela maliciosamente uma última vez. Então jogou os cabelos ensanguentados de Abi aos pés dela e piscou.
Emily acordou.
O sol entrava pela janela do seu quarto, e no relógio ela viu que eram três da tarde. Mikey ainda estava no hospital, e ela precisava ir visitá-lo em algumas horas. Se pudesse teria ficado com ele o tempo todo, mas não era permitido. Apenas no horário de visitação. Não havia nada de muito grave com a perna do rapaz, mas ele estava sob observação.
O sonho. É um sinal. A mulher... Abi. O cabelo dela. Eu preciso avisar o Leon.
Discou o número do rapaz com facilidade, e ele atendeu no primeiro toque.
— Leon, sou eu. É sobre a Abi. Eu tive um sonho. Os cabelos dela. O couro cabeludo... Alguma coisa vai enroscar neles e vai arrancar o couro cabeludo dela.
Não precisou dizer mais nada. Leon disse que estava indo atrás de Abi, e desligou. Emily tentou protestar e pedir para ele dizer para onde estava indo, mas o rapaz ignorou-a. Restava a garota ficar sentada e de braços cruzados torcendo pelo melhor. Salve ela, Leon. Pelo menos na vida real...
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Abi passou ao lado do torno mecânico com a Real Doll nas costas. Nunca os cabelos da boneca pareceram tão grandes. Compridos, maiores do que os cabelos da própria egípcia.
— Senhorita?
A garota tremeu, sentindo uma onda de eletricidade percorrer todo o seu corpo. Deu um passo para trás e então sentiu um forte puxão, e foi jogada para longe do homem.
O cabelo da Real Doll havia enroscado no torno mecânico. O objeto metálico dava voltas numa velocidade assustadora, e em segundos ele enrolou todo o cabelo da boneca. Abi era puxada na direção do objeto, já que estava firmemente presa à Sidore.
Em segundos o torno mecânico começou a esmagar o rosto da Real Doll, enquanto Abi gritava para que lhe ajudassem. O homem correu até ela e começou a puxá-la com força, enquanto a boneca era dilacerada, seus pedaços voando para todos os lados.
— Socorro! — O homem gritou. — Desliguem a máquina!
Ele estava em um dilema: podia soltar a mão de Abi, e tentar separá-la da boneca, mas poderia ser tarde demais; mas caso ele continuasse puxando a garota, o objeto demoraria mais para esmagá-la, mas cedo ou tarde isso aconteceria. O mecânico estava em pânico.
— Aaaaaaaaaah, eu não quero morrer! — Abi gritou.
E então Leon apareceu. Ele viu a situação já da entrada da oficina mecânica, e tremeu. Correu até a primeira caixa metálica que viu e abriu-a. Lá dentro havia uma chave, e o rapaz puxou-a para baixo. Subitamente toda a oficina escureceu, e os objetos pararam de funcionar.
Abi suspirou fortemente.
— Leon... — Ela disse, ao vê-lo. — Você...
O mecânico saíra. Ele fora atrás de algo que pudesse usar para retirar Abi dali. A garota não estava mais presa aos destroços da boneca, mas seu próprio cabelo curto havia começado a enrolar no torno. Leon chegara na hora certa. Mais alguns segundos e ela poderia estar morta.
Mas então uma chave de fenda caiu, de cima da caixa metálica.
E a chave voltou a ligar os objetos da oficina.
Leon teve tempo de gritar, mas só isso. O torno voltou a funcionar a todo vapor, e puxou o cabelo de Abi, arrancando o couro cabeludo dela com força, e fazendo muito sangue jorrar. A garota desfaleceu, inerte, só para ter a alça de sua blusa enroscada no objeto. Ele continuou a girar, e o corpo ensanguentado da garota foi com ele. O egípcio ouviu o barulho de ossos sendo quebrados, e sangue, muito sangue.
Quando a energia elétrica voltou a ser desligada, Abi havia se tornado uma massa humana retorcida e vermelha.
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Leon não precisou dizer muito para que Emily entendesse o que acontecera. O rapaz apenas murmurara, ao celular:
— Não...
E desligou.
A loira caiu na cama, sentada, inconsolável. Lágrimas involuntárias correram por seu rosto. Primeiro fora Jade, a garota mais doce e meiga que Emily conhecera em toda a sua vida. Depois um garotinho de (por Deus!) seis anos. E depois a mãe dele, de maneira tão brutal quanto.
E agora Abi. A mulher mais linda e elegante que Emily já vira. A deusa do seu último sonho. A deusa egípcia, com o corpo de um manequim.
Pensar nisso trouxe à tona outro aspecto que Emily ainda não tinha parado para analisar. Leon. Em todos os sonhos que ela teve sobre as mortes, ele estava presente. No primeiro ele aparecia logo após as cobras, e era o responsável por matar Pete e Abi nos sonhos seguintes. Por que ele? Por que sempre ele? Era estranho, misterioso, agourento... Mas o Leon é o último da lista. Eu não posso e não devo ficar me preocupando com ele. Existem coisas mais importantes a fazer.
E então discou o número de Leon novamente. Aquilo estava se tornando um hábito. No começo, sempre que tinha algum problema, Emily discava para Mikey. Isso já não acontecia mais. Leon se tornara seu maior confidente, e a loira temia que seu relacionamento estivesse morto e ela e o namorado ainda não soubessem.
— Fale, Ems.
— Leon, eu preciso que você vá atrás do Francis. Você pode fazer isso pra mim?
— Por quê? Você teve um sonho?
— Não. Não dessa vez. Mas é que na minha visão eu não lembro quem morria primeiro. A Krista e o Francis pareciam morrer juntos... Mas isso não faz sentido. Um dos dois morreu primeiro, e eu não sei quem é.
— Entendi. Você quer que eu vá atrás do Francis enquanto você vai atrás da Krista, é isso?
— Exato. Você pode fazer isso por mim? Eu sei que é pedir muito, mas...
— Eu estou a caminho. Onde ele está?
— Numa loja de... Armas. — Quando Emily externou seu pensamento, lembrou-se da foto de Francis. Ele vai ser baleado. Como eu pude ser tão irresponsável de deixá-lo ir para lá? Mas ela não tinha culpa. Francis nem mesmo gostava de armas. Ele havia ido até a loja porque o dono, um gorducho de nome Chuck, tinha um cachorro que precisava ser treinado. E Francis estava cansado de ficar sem ensinar seus cães. Eu não podia impedi-lo... Mas por que esse cachorro precisava estar numa loja de armas? — O nome dela é Chuck’s. Eu te mando as coordenadas por mensagem.
— Certo.
— E Leon...
— Sim? — O rapaz disse, com seu sotaque inconfundível.
— Eu sinto muito pela sua amiga.
O rapaz nada disse. Desligou o celular, e Emily fez o mesmo. Ela precisava ir atrás de Krista antes que fosse tarde demais.
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Krista jogou os restos do café da tarde no triturador e acionou o botão. Algum suco caiu no chão, do copo que ela segurava, mas a garota não se importou. Limparia mais tarde.
— Filha, eu já estou indo. Tem certeza que você não quer que eu fique com você essa noite?
— Não, mãe, eu estou bem. Manda um beijo pro Kyle e diz que ele precisa vir me visitar com a senhora da próxima vez.
A senhora Castle sorriu e abraçou a filha. Krista sentiu-se em paz naquele momento. Gostava de quando sua mãe vinha visitá-la, gostava da sua companhia. Havia apenas duas pessoas no mundo que a faziam sentir-se mais calma: sua mãe e Emily. Mas a amiga estava passando por muita coisa, e estava mais assustada que ela própria. Restava a mãe, que aparecia uma vez por semana.
E agora... Francis.
A garota sorriu de canto de rosto ao pensar no rapaz. Gostara do beijo que compartilharam, não podia negar. Francis tinha os lábios doces, o sorriso gentil, o toque leve, o rosto macio. Tudo isso para compensar o fato de que ele está quebrado. Irreversivelmente quebrado. Mas eu não ligo. Eu amo os quebrados.
E então alguém tocou a campainha.
— Mãe, a senhora esqueceu o quê dessa vez? — Krista disse, em tom brincalhão.
Era Emily.
A garota abraçou-a e então Krista pediu que ela entrasse. Seguiu para a cozinha, com a amiga atrás de si.
— O que aconteceu Ems? É sobre o Francis?
— Não. É a Abi. Ela está morta.
É a minha vez.
Krista estava prostrada ao lado da pia. Mexeu a cabeça negativamente, e só então Emily reparou em seus cabelos. Ela também tem cabelos lindos. Como Abi. Como a deusa do meu sonho.
— Krista! — Emily gritou, percebendo o que ia acontecer.
A garota virou-se e esbarrou no interruptor do triturador. Escorregou na poça de suco e foi com o rosto direto de encontro ao buraco da pia. O triturador começou a puxar seus cabelos, enquanto Emily gritava. A loira seguiu em direção ao botão para desligar o objeto, mas então levou um choque. Deu um gritinho e se afastou.
— Aaaaaah! — Krista gritou.
Emily então pegou uma luva de borracha que estava ali e colocou-a. Em seguida deu um soco no interruptor, e o triturador parou. A garota ouvia apenas o som de sua respiração.
Krista.
Ela puxou os ombros da amiga e levou um susto. A bochecha de Krista estava parcialmente triturada, e muito sangue escorria do ferimento profundo. Mas a garota ainda respirava. De maneira sôfrega e interrupta, mas respirava. Krista ainda estava viva.
Eu a salvei. Pelo menos ela...
Olhou para o micro-ondas e o marcador de tempo começou a piscar. Uma, duas, três vezes. E então marcou o número.
180.
Notas finais
Então, a morte de Abi é baseada em fatos reais. Eu me baseei em um documentário que vi no Discovery H&H, de um homem que teve o cabelo preso à um torno mecânico. Mas ele não morreu, apenas teve o couro cabeludo arrancado. MAAAAAAAAAAAAS eu fui googlear pra achar o link do documentário e achei umas fotos HORRÍVEIS sobre acidentes com tornos mecânicos, com pessoas dilaceradas. NÃO recomendo que pesquisem, é grotesco. Li também sobre uma estudante de Yale que morreu asfixiada por causa de um torno. É bem perigoso mesmo.
Enfim, that's it. Próximo capítulo é o antepenúltimo, e como estamos na reta final vai ter muita ação também! E aviso que NENHUM personagem está definitivamente salvos e TODOS são vulneráveis!
Abração! :D
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