Premonição 4- Viver Não É Uma Opção

3 Capítulo 03-Acidentes Não Existem


Notas iniciais
Não tenho muito a declarar. Apenas digo que algumas coisas podem ser esclarecidas nesse capítulo -ou não.

Era óbvio que tudo parecia uma loucura imensa. Lista de Morte? Premonição? Tudo loucura de pessoas que queriam achar explicações para um acontecimento de sorte. Mas Dan sabia que não era nada disso. Três pessoas, incluindo ele, tiveram sonhos mais ou menos iguais, mas que envolveram sempre a mesma coisa: o acidente no viaduto.

E ainda havia Ben que disse a ele que também havia tido um sonho esquisito. Na lanchonete, quando Nicole saiu da mesa dizendo que ia vomitar, Dan e Ben ficaram a sós. O rapaz pensou em perguntar para o irmão que sonho ele tivera, mas tentava organizar a ideias em sua mente.

Vagarosamente uma lembrança estava na mente de Dan. Há alguns anos ele havia visto no noticiário que havia feito dez anos do acidente com o voo 180. “É só mais um acidente de avião, por que a mídia dá tanta importância para isso?” Dan pensou na época.

Nicole voltou do banheiro com a cara verde e sentou-se ao lado do namorado.

–Essa história mexeu com meu estômago... –ela disse afastando seu lanche de perto dela.

–Vocês não acreditam nisso, acreditam?-Ben perguntou.

–Mas e se for verdade?-Dan perguntou-E se formos mesmo morrer?

–Aí vamos aproveitar a vida... –Ben respondeu-Você mesmo ouviu aqueles dois... Todos morreram. Se isso for verde e se formos mesmo morrer, por que lutar contra? Vamos aproveitar o tempo que nos resta!

Ben se levantou se foi em direção da saída.

–Ben, aonde você vai?-Dan perguntou.

–Aproveitar a vida. –o garoto respondeu, saindo da lanchonete.

Dan abaixou a cabeça, passando a mão na testa, nervoso. Uma mão macia percorreu suas costas, em um gesto carinhoso.

–Calma Dan... Você sabe como é seu irmão. Ele precisa de um tempo para colocar essa história na cabeça. –a namorada disse gentilmente.

–Eu sei. É só que... Eu quero descobrir um jeito de nos livrar! Não quero perder o Ben — Dan segurou na mão dela-Nem você... Nem ninguém.

Eles se beijaram.

–Acho tão fofo esse seu jeito protetor... –Nicole disse sorrindo.

–Acha, é?-Dan disse lhe dando mais um beijo-Preciso descobrir um esquema, um padrão, algum enigma ou segredo para parar a Morte.

–Vamos dar uma volta... –Nicole disse se levantando.

Os dois saíram da lanchonete e começaram a andar pela calçada, de mãos dadas. Dan ainda pensou que aquele podia ser o último passeio dos dois, ou que aquele fora o último beijo. Pelo canto do olho, ele ainda pensou estar sendo seguido por um homem, mas quando virou a cabeça por um instante, não havia nada fora do normal.

Eu não estou maluco!” Dan tentava se convencer.

***

O dia de Adrian não podia estar pior. Primeiro aquele sonho horrível envolvendo um acidente em um viaduto e várias mortes, incluindo a dele. Depois ele ainda resolve pesquisar sobre premonições e acidentes, descobrindo coisas tão gentis. Como por exemplo, que todos eles irão morrer brutalmente, não é fofo?! Para completar as bizarrices, ao chegar à casa da irmã, a vê chorando e dizendo que a culpa do acidente é dela.

Agora, Emma estava sentada em uma cadeira na cozinha, tremendo e com um copo d’água cheio de açúcar. Em alguns momentos ela dava alguns goles, olhando fixamente para a parede a frente dela, que não tinha nada que merecesse tanto interesse.

–Emma, com calma, me diz o que está acontecendo com você?-Adrian perguntou calmamente agachado ao lado da irmã.

–As bolas de boliche no armário... –Emma diz mantendo os olhos fixos na parede.

–O que?-Adrian perguntou. Aquelas palavras não faziam nenhum sentido.

–As bolas de boliche no armário... –Emma repete.

Adrian, confuso e preocupado, se encaminha para o armário, que estava novamente com a porta entre aberta. Ao abri-la, não havia nada fora do comum. As bolas de boliche das quais Emma havia mencionado estavam paradas em uma prateleira no alto do armário. Tratavam-se de cinco bolas velhas e coloridas de boliche, abandonadas lá.

Nada aconteceu.

O loiro se virou e caminhou de volta para a cozinha. Quando ia começar a descer a escada, ouve um barulho atrás dele. Ao virar-se, as bolas de boliche caíam da prateleira, uma por uma e rolavam, descendo pela escada.

–Mas como...?-Adrian disse deixando a pergunta no ar, pois nesse exato momento um estrondo de vidro quebrado é ouvido da cozinha-Emma!

Ele desce as escadas correndo, desviando de algumas bolas de boliche e corre para a cozinha. Ao chegar lá, Emma estava de pé, em frente a pia, descascando uma maçã e jogando as cascas em um lixo. Perto da cadeira onde ela estava sentada momentos antes, vários cacos estavam espalhados numa poça de água com açúcar.

–Emma, o que houve?-Adrian perguntou.

–Ah, eu acabei derrubando o copo... –Emma disse com um sorriso simpático no rosto e nenhuma lágrima-Vou fazer suco de maçã, você quer?

–Não, obrigado. –ele disse confuso.

Emma olhou para o relógio na parede e depois largou a maçã e a faca na pia, correndo para o sofá, pegando sua bolsa.

–Nossa, depois dessa confusão toda marquei de sair com uma amiga... Você se importa em juntar os cacos na cozinha para mim?-Emma pediu com seus olhos claros cativantes.

–Claro... –Adrian disse perplexo. Sua irmã havia mudado de uma hora para outra.

–Obrigadinha... –Emma disse saindo.

Adrian virou-se e olhou para a cozinha. Cacos e água com açúcar estavam espelhados pelo chão. Na pia, uma maçã descascada pela metade parecia sorrir para ele, como se lhe desejasse sorte em algo perigoso.

***

Lilian não precisou de muito tempo para desanimar de vez. Ao chegar à sua casa, a louça de dias ainda estava lá. A manhã havia sido cheia, com acidentes, mortes e com ela e seus colegas de trabalho sendo condenados a morrerem. Provavelmente, passaria o resto do dia deitada no sofá, comendo bombons e vendo televisão. Ela estava enganada.

Enquanto subia para seu quarto, Lilian tirava sua jaqueta roxa. Quando entrou em seu quarto, jogou-a na cama e abriu o guarda-roupa branco, procurando uma roupa para trocar. Sentiu calor e resolveu lavar o rosto. A água fria era jogada contra seu rosto. Algumas pequeninas gotas caíam sobre sua pulseira com o pingente em forma de pomba prateada, que balançava de acordo com a movimentação dos braços.

A pulseira arrebenta e cai de seu pulso, sendo levada pela água.

–Droga! Não... –Lilian disse fechando desesperadamente a torneira.

Se Lilian tivesse alguma sorte, a pulseira estaria enroscada no encanamento e seria apenas abrir um cano e pegá-la. Ela deita debaixo da pia e abre um cano, gostava de ser mulher independente. Quando abriu o cano, água e a pulseira caíram em sua cara.

–Ahn... –ela resmunga.

A campainha toca.

–Já vai!-Lilian grita, se levantando e correndo para seu quarto.

Chegando lá, joga a pulseira na cama. A pulseira que trazia lembranças, boas e ruins. Lilian tirou sua camiseta branca e molhada e colocou a primeira que pegou: uma camiseta laranja berrante três vezes maior que ela.

Lilian desceu correndo as escadas e abriu a porta. Parada em frente dela, estava uma mulher com os mesmos cabelos cor de chocolate e os olhos elétricos de Lilian. Roupas e joias brilhantes enfeitavam seu corpo, junto com uma bolsa de couro de cobra.

–Miranda... –Lilian disse.

–Irmãzinha, você sabe que agora me chamo Ashley. –a mulher bem vestida disse-Não vai me convidar para entrar?

–Claro, entra. –Lilian disse dando passagem.

A irmã de Lilian entra e se senta no sofá. Lilian a segue.

–Interrompi seu banho?-Ashley perguntou.

–O quê?-Lilian perguntou, percebendo que estava molhada-Ah... Não...

–Nossa, e essa roupa? Não é querer ofender, mas eu já te dei roupas melhores... –Ashley apontou para a camiseta com sua unha postiça.

–Pois é... Teve um alagamento no banheiro e eu precisei de pano de chão. –Lilian sorriu.

–Calma Lilian... Parece que quer me evitar... –Ashley disse levantando as mãos como se estivesse se rendendo para a polícia. E bem, ela sabia como era isso.

–Não é isso... É que você sabe que eu não gosto do jeito que você ganha a vida... –Lilian explicou.

–Não é nenhum crime... Normalmente... –Ashley argumentou.

–Pois fique sabendo que não é nada digno! E respeitoso. -Lilian disse.

–Assim você me ofende!-Ashley retrucou-Você, mais do que ninguém, sabe os motivos que me levaram a essa vida que eu tenho hoje!

–As mesmas coisas que levaram você até aí também aconteceram comigo, e eu levo uma vida completamente diferente da sua.-Lilian disse.

–Eu acho que deveríamos esquecer o passado... –Ashley sugeriu.

–Esquecer como, se ele está vivo no presente?-Lilian disse severamente, se referindo a irmã.

–Pois que seja assim... –Ashley disse-Você fique sabendo que eu vim aqui para ver como estava minha irmãzinha... Soube do acidente no viaduto, e que você estava lá...

–É... Eu consegui escapar... –Lilian disse louca para mudar de assunto.

–Estranho né. Ouvi dizer que um colega seu disse que o acidente aconteceria... –Ashley disse como quem não quer nada.

–Não quero falar sobre isso.

–Tudo bem...

Ashley abriu sua enorme bolsa de couro e de lá tirou um pacote vermelho.

–Achei isso e pensei que talvez você quisesse ver... –Ashley disse entregando o pacote. Em seus olhos havia uma mistura de dor e carinho.

–O que é?-Lilian disse pegando o pacote.

–Abra quando em sair daqui... Na verdade, é agora... –Ashley disse se levantando e indo até a porta.

–Miranda esp... Ashley espera!-Lilian disse indo atrás da irmã.

–Não se preocupe Lilian, vou me cuidar... –Ashley disse dando um abraço em Lilian. Uma sensação tomou conta dela. O que sua irmã estaria escondendo?

–O que está acontecendo?-Lilian perguntou desconfiada.

–Nada... –Ashley disse dando um falso sorriso.

Ashley foi embora e Lilian fechou a porta, voltando para o sofá. Era sempre assim. As duas nunca conversavam por mais de cinco minutos. Lilian procurava saber qual sentimento tinha pela irmã: amor, ódio, piedade? Ela não sabia. Colocou o pacote vermelho em seu colo e o examinou. Era um embrulho simples, sem nenhuma animação ou dica do que tinha dentro.

Lilian respirou fundo e abriu o pacote.

***

Após o passeio com Nicole, Dan foi para casa, entrou em seu quarto, jogou sua jaqueta e seus tênis no chão e desabou sobre a cama. O sonho não melhorou seu dia. Primeiramente porque era estranho, segundo porque era ruim.

Ele estava numa espécie de beira de uma abismo. Alguns centímetros a frente dele havia um enorme buraco. Então começou a chover, mas apenas dentro do buraco. Por algum motivo, Dan estava apavorado, o que não fazia sentido. Ele ficou observando a chuva cair no abismo por horas, até que acordou com alguém batendo na porta.

–Entra!-Dan mandou enquanto sentava-se na cama e passava a mão no rosto.

A primeira pessoa que entrou foi uma menininha meiga de seis anos que começou a chutar as coisas de Dan que estavam no chão. Logo depois entrou tia Lorena com roupas em uma cesta.

–Carly... –Lorena disse. A menina ficou quieta imediatamente com um sorriso sapeca no rosto-Vim trazer suas roupas, Dan...

–Ah, obrigado... Pode deixar aí na ponta da cama, eu arrumo... –Dan disse.

–Você está bem? Está com uma cara péssima!-Lorena disse.

–Ah, valeu... –Dan ironizou.

–Você e Nicole terminaram?-Carly perguntou se jogando na cama do primo.

–O quê?! Não!

–Carly! Isso não é assunto para sua idade!-Lorena disse.

–Mãããããe... –Carly disse fazendo beicinho.

–Vai assistir televisão lá embaixo, deve ter começado aquele desenho da vaca... –Lorena sugeriu.

–Não é vaca, é formiga! For-mi-ga. Formiga. –Carly reclamou saindo do quarto.

–Essa menina não tem mais jeito... –Lorena disse com um sorriso no rosto. Uma mecha de cabelo caiu em seu rosto e ela ajeitou atrás da orelha.

–Ela é uma boa menina... Na maior parte do tempo. –Dan disse.

–Soube que Ben arranjou um emprego de modelo, é verdade?-Lorena perguntou.

–É, arranjou... –Dan respondeu fazendo uma careta.

–Que cara é essa? Não está feliz por ele?-tia Lorena apreendeu.

–O quê? Não! É que é estranho... –Dan disse olhando para a pequena pilha de roupas colocadas pela tia em cima da cama.

–Hum... Vou ir trabalhar daqui a pouco. Acredita que o cretino do seu Vinício me fez trabalhar no fim de semana?!-Lorena saiu reclamando.

Dan abriu um pequeno sorriso. Então uma curiosidade o fez pegar seu notebook e começar a procurar por premonições e acidentes. Primeiro pesquisou “premonições de mortes”. Os resultados foram desastrosos. Então procurou “visões de acidentes”.

A primeira página que Dan entrou o levou para um blog. A imagem de banner (assim como o fundo) era um olho verde e brilhante. O texto mais recente era este:

“Olá pessoal. Tudo bem? Espero que não. Acho que souberam do acidente em um viaduto em Nova York hoje de manhã, não?! Pois bem, saibam que assim como no mercado Dead Money ou no navio de uma empresa que nunca revelaremos o nome, uma pessoa teve uma premonição. Parece-me que a Morte está fazendo seu joguinho. Logo agora, depois de anos.”

Como alguém já sabe que alguém teve uma premonição? E que esse alguém fui eu!” Dan pensou.

“Mas será que a premonição dessa pessoa foi como das outras vezes? Se for, essa pessoa e o grupo que ela retirou do acidente já estão condenados a Morte! Pois, como vocês, meus amados leitores, já estão cansados de saber: não há escapatória para a Morte. Ainda mais quando já se escapou dela uma vez. Quando se está lidando com a Morte, não há coincidências, não há acidentes, não há sorte ou azar... Tudo que é preciso para escapar dela é saber o designo, a ordem, a lista e como quebra-la.”

Ben entrou no quarto de Dan, sem bater ou avisar. Ele era assim mesmo. O susto que Dan levou foi tão grande que fechou o notebook na hora.

–Opa! Calma rapaz... –Ben disse com um sorriso no canto da boca-Estava vendo sacanagem é?

–O quê? Não! –Dan disse encostando a cabeça na cabeceira da cama-Eu estava pesquisando sobre...

–Premonições. –Ben completou-Eu sei.

–Sabe?-Dan perguntou intrigado, deixando o notebook de lado.

–É... Você é previsível. –Ben disse procurando algo de baixo da cama de Dan.

–Eu não sou previsível!-Dan protestou.

–Ah, é sim... Era óbvio que você ia ficar encucado com aquela história e ia atrás de respostas... –Ben disse tirando de baixo da cama do irmão uma bola de futebol americano-Ah, o nosso chefe ligou... Daqui a dois dias vai ter um enterro... Memorial, sei lá como chama. Valeu.

E assim o garoto saiu do quarto, deixando Dan confuso. Ele fez uma anotação mentalmente que não era para subestimar mais o irmão. O rapaz se levantou da cama, vestiu sua jaqueta, pôs os tênis e resolveu dar uma volta para relaxar.

Quem quer que fosse o autor daquele blog, sabia bastante sobre a Morte e sobre o que acontecia com ela. Se tudo aquilo fosse verdade, Dan precisava saber quem seria o primeiro da lista.

Um vento gélido bateu contra seu rosto quando Dan saiu de casa e começou a andar pela calçada. Um clima estranho estava no ar. Algo dizia para o rapaz que uma carnificina estava prestes a acontecer...

***

Um vulto tinha acabado de passar por debaixo da mesa. Will já não aguentava mais aqueles malditos ratos. De acordo com sua percepção, a culpa dos animais terem aparecidos é de Gertrude, sua ex-mulher, que deixou caixas e mais caixas cheias de coisas, incluindo poeira. Muita poeira.

A verdade era que a culpa era de Will, que vivia deixando restos de comida para que esses pequenos roedores aparecessem. Uma brisa fria da noite entrou pela janela da cozinha e balançou uma vaso de plástico que ficava em uma prateleira na parede branca, perto de uma mesa velha.

Enquanto preparava sua arapuca para matar os ratos, (colocando chumbinho – vulgas bolinhas pretas- em pedaços de salsicha e deixando na cozinha, para que os animais comam e morram) Will sentou-se numa cadeira perto da pia, que estava entupida.

–Hoje eles me pagam, vão morrer um por um... –Will pensou alto enquanto colocava mais bolinhas pretas em um pedaço de salsicha.

Ele olhou para a pia entupida. O líquido escuro estava ali há alguns dias. Por isso, depois que saiu do acidente, Will parou em uma lojinha de esquina e comprou um desentupidor, com letras vermelhas grandes e chamativas: SODA.

Will jogou o pedaço de salsicha cheio de veneno debaixo do armário e foi trabalhar em desentupir a pia. Abriu a tampa da embalagem e jogou o líquido lá dentro. Em pouco tempo, o líquido escuro começou a descer, indo pelo ralo — literalmente.

–Pronto. –Will comemorou, colocando a soda em cima da mesa velha perto da prateleira. Como sempre fez com todas as garrafas, Will apenas colocou a tampa em cima da embalagem e continuou seu trabalho com o veneno para ratos.

Outro vento gelado entra pela janela. Will decide fechá-la, passando entra a mesa, a prateleira e a pia. Ele deixa o potinho com veneno em cima da prateleira. O cano da pia se afrouxa e um pequeno jato de água começa a vazar, se esparramando pelo chão.

Quando Will tenta fechar a janela, não conseguiu: estava emperrada.

–Ah, vamos lá... –Will disse fazendo mais força e mesmo assim, não conseguindo-Droga.

Mas um pouco de água sai do cano, formando uma poça no chão da cozinha. Então para de vazar, como se nada tivesse acontecido. Will consegue fechar a janela, deixando apenas uma pequena fresta. A poça d’água começa a escorrer em direção de Will, que está indo em direção da prateleira, para pegar o potinho com veneno. Ele não percebe a água.

Ao dar o último passo para pegar o potinho, Will escorrega na água e cai de costas no chão.

–Ah... –ele reclama pondo a mão nas costas. Uma pequena brisa entra pela fresta da janela e faz o vaso de plástico na prateleira balançar.

Will estava prestes a se levantar, quando o vaso de plástico cai, empurrando o potinho com veneno. Várias bolinhas do veneno caem na boca de Will, que acaba as engolindo.

–Oh... Droga... –Will disse tentando se levantar, apoiando-se na mesa, que se quebra. Ele cai novamente, agora com a soda em sua cara.

Quando tentou gritar, Will acabou engolindo parte do líquido. Tanto sua pele como sua garganta começam a arder. Ele levanta-se correndo, em direção da pia, para tentar esfriar-se com água. Quando tocou na torneira para conseguir água, sangue começou a sair de sua boca. Ele gritou em agonia e começou a perder as forças, caindo no chão.

Mais sangue sai de sua boca, até que seu corpo perdeu o movimento. E a vida.

***

Quando Adrian chegou ao seu apartamento, o sol já estava se pondo. Do lado contrário a porta, podia se ver uma janela que ia do chão ao teto, parecendo mais uma parede de vidro do que uma janela. No centro da sala, pequenos sofás marrons cercavam uma mesa retangular de vidro, na qual o loiro jogou suas chaves. Ele estava exausto.

Dirigiu-se até o pequeno bar separado por uma coluna da sala. Tomou duas doses de uísque e foi para o segundo andar, subindo até seu quarto. Tirou sua camiseta e deixou seu corpo tombar na cama. Colocou as mãos no rosto e tento organizar seus pensamentos, que estavam embaralhados e confusos. O que está acontecendo com Emma?

Adrian não achava sentido, mas achava que a separação da irmã tinha alguma ligação com o acidente no viaduto. Tudo que estava acontecendo estava interligado de alguma forma. O loiro pegou uma toalha, se despiu completamente e resolveu tomar um banho frio para se acalmar.

A água serpenteava pelo seu corpo. Ele olhou para baixo, onde o ralo sugava a água. O loiro ainda se perguntou se todas as coisas ruins poderiam ser sugadas, assim como a água. Depois de poucos minutos, desligou o chuveiro e se enxugou. Enrolou-se na toalha e parou em frente do espelho. Viu seu reflexo.

Quem era? Quem Adrian era? O que ele era? Qual sua importância? Nenhuma dessas perguntas possuía respostas. Antes que percebesse, já estava mergulhando nas lembranças.

Adrian tinha nove anos e Emma sete. A garotinha estava feliz, pois conseguira nota dez no teste de matemática. Ver a irmã feliz deixava Adrian feliz. Os dois deixaram suas mochilas no sofá e foram direto para a cozinha, que exalava um cheiro de biscoitos assando pela mãe. Mas ela não estava lá. Os dois então correram para o jardim nos fundos da casa.

A grama do jardim estava morta. Era outono e as últimas folhas caíam de uma árvore. Em baixo dessa árvore o pai dos dois terminava de concertar alguma coisa com um serrote.

O homem se chamava Jake, tinha quase quarenta anos. Tinha um rosto quadrado e uma cicatriz perto do lábio. Usava um macacão de mecânico e uma regata branca, exibindo os músculos de seus braços – resultado de anos como lutador de Box. Cabelos lisos caíam sobre seu rosto, em direções diferentes. Quando viu seus filhos, parou de serrar e se agachou, para receber abraços.

Mi hijos!-ele disse abrindo os enormes braços. Jake tinha descendência latina e misturava espanhol enquanto falava. Adrian se lembra de ter demorado anos para aprender a compreender a diferença de línguas. As crianças correram e o abraçaram.

–Tirei dez em matemática!-Emma disse com um sorriso no rosto.

–É mesmo? Essa minha princesinha és uma gênia!-Jake disse dando beijinhos no rosto da filha-E você campeão, algo novo?

–Nada... –Adrian disse tristonho. Ele não tinha nada novo para o pai se orgulhar dele.

–Mas não tem problema... –Jake disse se levantando-Você é um bom filho e isso é maravilhoso.

Adrian conseguiu dar um sorriso fraco.

–Cadê a mamãe?-Emma perguntou.

Por um momento o homem franziu a testa, parecendo confuso. Então sua face ficou alegre novamente.

–Ah, ela deu uma saidinha... –Jake disse-Ah, tenho presentes para vocês...

Emma saltitou alegre.

–Presentes papai?!

Jake fez sinal para que os filhos esperassem e foi até um galpão aonde guardava ferramentas. Quando voltou, tinha dois pequenos objetos prateados em mãos: um anel e um colar.

–Nossa papai, que bonito!-Emma disse com os olhos fixados nos objetos.

–São para vocês... –Jake disse colocando o colar em Emma e dando o anel a Adrian. No anel estava escrita alguma frase em outra língua que o garoto não entendia.

–O que está escrito aqui papai?-Adrian perguntou apontando para o anel.

O homem limitou-se a apenas uma risada nervosa. Nada mais. Nem uma palavra.

–Vamos ver como estão os biscoitos?!-Jake incentivou. Emma concordou animada e correu saltitante para a cozinha. Adrian e seu pai foram atrás.

O garoto podia não entender muito sobre a vida naquela época, mas sabia que o pai estava escondendo alguma coisa. E aquele anel foi o último presente que o pai deu a ele.

Adrian se viu novamente no banheiro, enrolado em uma toalha, se olhando no espelho. Não aguentou sua raiva e explodiu, dando um soco em seu reflexo. Quando retirou a mão, uma rachadura estava no espelho. Nada mais. O loiro passou as mãos no rosto, tentando se acalmar.

Voltou para o quarto e sentou-se perto da cabeceira de sua cama. Ao seu lado estava uma pequena cômoda branca. Adrian abriu a última gaveta e o único objeto que estava lá era o anel que ganhara do pai. Ele colocou o objeto no dedo. Ainda servia bem. Devia aumentar ou diminuir de tamanho, de alguma forma.

Seria um objeto que enfeitaria perfeitamente o rapaz, mas trazia lembranças horríveis. Adrian pensou que tudo ficaria bem, afinal, cada um tem seus fantasmas. Grave engano.

***

A brisa noturna perseguia Dan. Ela só parou quando o rapaz chegou perto de uma casa em que tinha um tumulto na frente e uma ambulância. Ele não era muito curioso, mas se aproximou da casa.

–O que houve?-Dan perguntou para um homem gorducho com um bigodão.

–Um suicídio... –o homem respondeu.

Dan costurou entre as pessoas, até que viu sair da casa dois homens carregando um corpo coberto com um pano preto. Um arrepio percorreu seu corpo, fazendo os pelos de seus braços se eriçarem.

Ao seu lado, uma mulher loira chorava, enxugando inutilmente lágrimas que saíam cada vez mais de seus olhos, que já estavam inchados. Talvez fosse um ato idiota, mas Dan se aproximou dela e perguntou:

–Quem foi que morreu?

A mulher fungou, enxugou mais duas lágrimas e respondeu:

–Meu marido... Will Hitchcock... –a mulher disse se debulhando em lágrimas.

Dan se afastou da multidão. Não podia ser coincidência. Um trecho de um dos textos do blog que ele lera antes veio em sua mente: “Quando se está lidando com a Morte, não há coincidências, não há acidentes, não há sorte ou azar...”.

Então tudo que Dan pensou era verdade. Ele até iria falar com Will no dia seguinte, pois se lembrara de que ele era o primeiro a morrer na visão. Mas a Morte estava agindo rápido demais. Em menos de vinte e quatro horas do acidente, já havia pegado um. Talvez os próximos da lista já estivessem até morrendo.

Eu sou o culpado de tudo isso?” Dan pensou. Nesse momento, uma voz masculina e irônica disse atrás dele, como se lesse seus pensamentos:

–Sim, você pode se considerar o culpado por tudo isso...

Notas finais
Sim, vou deixar vocês na curiosidade sobre muitas coisas, tipo o pacote de Lilian e outras coisas a mais. Até o próximo capítulo.