Premonição 4: Noites de Terror
5 Cão de Caça
Notas iniciais
Petit dirigia sua moto com maestria. Adrian ia atrás, ambos sem capacete. Eles atravessaram o túnel baixo e a ponte, e logo estavam na rodovia que ligava a cidade deles à Memphis, onde ficava a mansão Graceland. Era lá que Ricky estava, já que, segundo a mãe, ele fora para um acampamento em homenagem a Elvis Presley. Era lá que eles o encontrariam. Vivo, se tudo der certo, Adrian pensou.
Não demoraram muito tempo para chegar a Memphis. Quarenta minutos, no máximo, menos da metade do tempo que levariam se fossem de bicicleta.
— Onde fica Graceland? Você sabe? — Petit perguntou.
Adrian deu com os ombros.
— Não deve ser tão difícil encontrarmos, é um lugar bem importante.
Petit consentiu, e guiou a moto até um restaurante, para pedir informações. O garçom pareceu divertir-se com a ansiedade dos rapazes:
— Vocês estão aqui pelo acampamento? — Ele perguntou.
— Sim. Você vai nos dizer onde fica Graceland ou não?
O homem riu.
— Belos fãs. Bom, Graceland fica na Elvis Presley Boulevard. Não lembro o número, mas vai ser bem fácil de achar, tem placas e letreiros por todo lado. Memphis está um inferno por esses dias. — E bufou com pesar.
— E como fazemos pra chegar lá?
O garçom explicou-lhes detalhadamente o caminho, e Petit anotou-o na cabeça. Adrian estava entretido com várias outras coisas ao seu redor, procurando sinais ou algo do gênero. Quanto mais eu souber sobre como o Ricky vai morrer, melhor, porque eu tenho uma chance maior de conseguir evitar que o acidente aconteça. Adrian não gostava particularmente do rapaz, mas sentia-se em débito com ele e com todos os outros que salvara do Baja Junkie. Era como se tivesse poupado-os de uma morte para condená-los à outra muito pior.
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O Elvis Camp estava um caos. Havia barracas por todos os lados, com crianças, adultos, velhos e adolescentes. Os jardins de Graceland viram-se, da noite para o dia, invadidos por fãs oriundos de diversas partes da cidade e do estado. Priscilla Presley, a ex-mulher de Elvis, havia organizado as pessoas e as coisas de maneira bastante caótica, reunindo um grande número de pessoas com pouca estrutura para recepcioná-los.
Tudo ao redor de Ricky o fascinava. As estátuas, o museu. Conhecera diversas partes da mansão no pouco tempo em que estivera ali, mas logo veria tudo com mais calma e em detalhes. Tinha tempo para isso, o acampamento duraria dias. Mas eu não posso perder o show dessa noite. Era o show de abertura do Elvis Camp, e ocorreria ao ar livre, com a presença de diversos cantores e covers. Ao fundo da galeria onde Ricky estava, ouvia-se:
You ain't nothin' but a hound dog
Cryin' all the time
Well, you ain't never caught a rabbit
And you ain't no friend of mine
Deu-se por si pensando em Wade. E depois em Sylvia. O fato de as duas figuras virem a sua cabeça de maneira seguida deu a Ricky uma sensação estranha, uma espécie de vertigem. Por que nenhum deles me deixa em paz?
O rapaz era constantemente assediado pelos jogadores do time e pelas líderes de torcida, por motivos diversos. Eles, em geral, queriam-no como parte de seu grupo, como um dos populares. Ricky era belo e ótimo nos esportes. Fazia sentido o que eles queriam dele. Já as garotas queriam apenas ficar com ele, tê-lo como namorado, ou pelo menos ganhar um beijo. Bom, elas e Wade. Mas esse desgraçado conseguiu o que eu neguei a todas elas. Ele tirou o gosto da Sylvia dos meus lábios.
Ela fora a última pessoa que Ricky beijara na boca, dois anos antes. Se fechasse os olhos ainda podia sentir o aroma dela, sentir os lábios dela pressionados contra os seus. Jurou que nenhum outro lábio tocaria os seus, que ele ficaria com o beijo dela para sempre. Mas então Wade tinha feito. Tinha retirado Sylvia dele, tocando-o com seu próprio beijo molhado e desconfortável. Forçado.
Ricky olhou para cima e respirou o agradável aroma dos jardins de Graceland. Não teve certeza, mas achou que sentiu Sylvia beijando-lhe mais uma vez, através do vento.
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Adrian e Petit chegaram à Graceland já tarde da noite. Passava das oito, e havia um show acontecendo nos jardins da mansão, aberto para todo o público. As pessoas assistiam-no ao lado de barracas de acampamento, com cadeiras e lençóis espalhados por todo o gramado.
— Como vamos encontrar o Ricky nesse fuzuê? — Adrian perguntou.
Petit pensou por alguns segundos. A música ao redor deles era alta, e crianças brincavam e corriam por entre as barracas.
— Eu tive uma ideia – Petit disse. — Vem comigo.
Os dois seguiram por entre as tendas, costurando caminho no meio dos campistas. Petit então se aproximou de um homem com um microfone, que dava avisos a cada meia hora. Ele dizia coisas triviais, a maioria delas relacionada com a abertura de determinada área do museu ou a respeito dos horários de visitação.
— Ei parceiro, nós precisamos da sua ajuda. — Petit disse ao homem.
O sujeito parecia amigável, e sorriu ao vê-los.
— Claro! Em que eu posso ajudá-los, pequenos fãs do rei?
Adrian ignorou a palavra “pequenos”, e foi direto:
— Nós queremos encontrar um amigo. Será que você podia anunciar a ele que nós estamos esperando-o aqui?
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— Ricky Campbell, favor comparecer à área 23. Repetindo: Ricky Campbell, área 23. Seus amigos lhe aguardam.
Ricky ouviu o aviso e pôs-se a correr até a tal área 23. Sylvia, é ela, seu subconsciente dizia, enquanto seu lado racional repetia: ela está morta, seu demente. Mas então, quem podia estar a sua espera?
Enquanto seguia para o local do encontro, o rapaz percebeu os irrigadores no jardim. Eles continuavam ligados, e algumas crianças brincavam ao redor deles. O objeto girava com fúria, espalhando água por todos os lados.
Quando chegou à área 23, surpreendeu-se.
— Adrian? O que você tá fazendo aqui? — Mais um maldito jogador do time de futebol que veio me tirar o sossego. O que eu fiz pra merecer tanta atenção? Me deixem em paz, por favor.
— Esse aqui é o Petit, um amigo. — O loiro disse, apresentando o outro rapaz. — Nós precisamos falar uma coisa séria com você.
— Olha, se for sobre o seu amiguinho Wade...
Adrian fitou Ricky com incredulidade, e então negou:
— Não tem nada a ver com o Wade. É sobre o Baja Junkie.
Aquele assunto quase não tivera relevância no cotidiano de Ricky, e ele pouco pensara sobre o fato. Não chegava a acreditar em visões, mas também não as desacreditava. Achava aceitável o fato de Adrian ter imaginado que algo aconteceria com o clube.
— Pois fale. Rápido. Eu tenho um encontro marcado com a minha namorada Sylvia para logo, logo.
Adrian abriu a boca para dizer algo, mas então viu o disco de frisbee, da mesma maneira como o vira no parque. Mas esse era diferente, parecia feito de metal. Viu quando um garotinho jogou-o na direção do amigo, e viu quando a pouca força do menino levou o disco na direção do irrigador.
— Se abaixa! – Adrian conseguiu gritar, mas Ricky não o obedeceu.
O rapaz virou-se para ver ao que Adrian se referia, mas seria melhor se tivesse seguido o conselho dele. O disco voou na direção de Ricky e passou através de seu pescoço como uma lâmina. Ele teve tempo de cuspir algum sangue e então caiu.
Seu corpo para um lado e sua cabeça para o outro.
Petit vomitou, e Adrian manteve-se atônito.
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O telefone tocou pela sétima vez naquela noite, e pela sétima vez a mãe de Sissy avisou que a filha estava indisposta e não poderia atender. Àquela altura Adrian havia desistido de ligar ou visitá-la, e Sissy odiava-o por isso. Ela precisava dele, mas jamais admitiria. Na verdade a garota jamais admitiria precisar de nada ou ninguém. São eles que precisam de mim. Eu me basto.
Sissy ainda tinha na cabeça a visão da metade do corpo de Trish caída na parte de trás de seu carro. Pior: ela tivera de passar por cima do corpo para sair do veículo, já que as portas da frente se fecharam subitamente depois que Tiffany pulou. Sissy teve de esgueirar-se pelas portas de trás, e por um momento sentiu o corpo ensanguentado e ainda quente da loira tocando-a. Gritou, chorou. A polícia demorou a chegar, e a garota teve de ir atrás deles a pé.
Mas a pior parte, que seriam os interrogatórios policiais, foi evitada. O pai de Sissy fazia parte da polícia, e conseguiu burlar tal burocracia. Tudo não passara de um acidente. Um maldito e terrível acidente. Por que você não previu isso Adrian? Por quê? Você é um maldito visionário, deveria ter previsto isso.
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Pam conseguiu encontrar com Adrian apenas no dia seguinte, no mesmo dia do evento destinado aos alunos mortos no Baja Junkie. O evento seria às três horas, e eles combinaram de se encontrar às duas.
O local era a mesma praça em que o rapaz costumava se encontrar com Petit. Estavam quase todos ali, Pam fizera questão. Charlene, Tommy, Adrian, Petit, ela própria e... William Bludworth, o tal sujeito bizarro que a caipira insistira para que falasse com eles. Pam começou:
— Olha Adrian, antes de tudo queria dizer que eu sinto muito, muito mesmo pelo que aconteceu. Eu passei esses últimos dias apenas remoendo o acidente e...
Adrian tocou o ombro dela e sorriu de canto de rosto. Ele está mudando, Pam percebeu. Mas será para melhor? Antes que a garota pudesse dizer qualquer coisa, o rapaz anunciou para todos:
— Sabem o Ricky? — E diante das afirmativas, soltou: — Ele está morto. Assim como o Jesse, a Trish e a Tiffany. — A morte desses três últimos era de conhecimento geral, à exceção de Pam. A garota tapou a boca e murmurou:
— Está realmente acontecendo... — E para Adrian: — Quando eu vim falar com você, eu ainda tinha esperanças de que fosse mentira, de que o livro estivesse errado e...
— Que livro?
Pam virou-se para Bludworth, para que ele explicasse essa parte da história.
— Sua amiga Pam me contou que você previu um acidente. Eu estou certo?
O rapaz acenou positivamente.
— Na verdade você fez mais do que isso. Você... Alterou os desígnios da morte.
Pam abriu a boca e disse:
— Eu sei que é loucura acreditar, mas...
— Eu acredito. — Adrian disse. — Na verdade eu suspeito disso há dias. Quando o Jesse morreu, eu vi algo relacionado à morte dele. E vi de novo com a Trish e a Tiffany, e por último com o Ricky...
A caipira estava surpresa. Então Adrian já sabia sobre o que estava acontecendo? Não exatamente, como ela percebeu depois. O rapaz tinha noção da lista, mas Bludworth precisou esclarecê-la para ele.
— Todos nós vamos morrer. — Charlene declarou convicta.
Não parecia haver ninguém cético ali. Petit aproveitou e também contou sua história, e todos ficaram chocados com a brutalidade do ocorrido. Bludworth, por sua vez, pareceu curioso:
— Você... Está vivo. Mas como? — E semisserrou os olhos.
— Eu devo ter sete vidas. — Petit ironizou.
O homem não parecia estar convencido. Disse:
— Vocês conseguem entender o que foi feito? Conseguem entender o motivo de a própria morte estar atrás de vocês?
— Sim! — Adrian exclamou, já cansado de ficar dando voltas no mesmo assunto. — Eu quebrei a porcaria da lista da morte. Mas é só isso? Nós agora temos que ficar sentados e esperar a morte?
— Não necessariamente. Quero dizer, eu nunca vi isso acontecer, mas eu já li a respeito. Muito. Incansavelmente. Eu sei como acontece, sei como a morte age e...
— Então fala, porra!
Bludworth fez uma expressão ofendida, ao que Pam tentou consertar:
— Perdoe o Adrian, ele está nervoso e...
— Eu entendo. Não há o que perdoar.
Adrian fuzilou o homem com os olhos, ainda bastante irritado com a maneira solene com que ele falava as coisas. Ele acha que nós temos todo o tempo do mundo.
— Existem maneiras de salvar-se da lista. Métodos, por assim dizer.
Ninguém disse sequer uma palavra.
— Você disse que viu sinais da morte dos seus amigos. Isso procede?
Adrian assentiu.
— Pois então. Esses sinais são fundamentais pra vocês conseguirem escapar. Eles não são como as visões, mas podem dar algum indício de como vocês vão morrer. Se vocês conseguirem escapar do acidente antes que ele aconteça...
— Nós estamos fora da lista? É isso?
Bludworth sorriu de maneira melancólica.
— É uma ideia.
Ninguém pareceu prestar atenção ao que ele deixara subentendido. É uma ideia. O que significava que não necessariamente era verdade. Apenas Tommy percebeu o enigma que o homem deixou no ar.
— O que acontece quando nós escapamos do acidente?
— Ah! Boa pergunta, eu pensei que vocês jamais a fariam. Bom, se você escapa do acidente... Você vai para o fim da lista. A morte então só voltará a incomodá-lo quando tiver acabado com todos os outros, na ordem correta. Pelo menos é isso que Juliet diz em seu livro. E também a Esther, antes dela, mas essa é uma história para outra hora.
Adrian ficou intrigado. Ignorou toda a parte final da fala do homem e focou-se em um ponto específico do seu discurso.
— Ordem? Que ordem?
— Pense com calma, Adrian. Você vai descobrir o padrão.
O rapaz forçou-se a lembrar de alguma coisa que pudesse lhe ser útil. E então teve um insight e percebeu. Viu Jesse morrendo com os cabos, viu Trish e Tiffany sendo explodidas no elevador, viu Ricky caindo da janela...
— A ordem em que eles deveriam ter morrido no acidente. — Adrian disse, por fim.
— Você sabe a ordem? – Charlene perguntou.
O rapaz meneou a cabeça, confirmando.
— Essa história é muito fodida, pelo amor de Deus... — Tommy desabafou.
E houve um silêncio sepulcral. Pam sentiu-se constrangida. O que poderia dizer ou fazer? Trouxera Bludworth e utilizara dos conhecimentos dele, mas ainda sabia pouco (próximo de nada) sobre o homem. Quem era ele, o que ele fazia? A caipira tinha medo de perguntar. Tinha medo das respostas. E aquele tal Petit? Bludworth certamente não gostava dele, e Pam decidiu que também não gostava. Ele estivera na lista, mas estava vivo e não sabia o motivo. Aquilo era muito suspeito.
— Nós precisamos avisar os outros. — Pam declarou.
— Não falta muita gente. Nós saímos em dez, não foi? – Charlene indagou.
Adrian confirmou com a cabeça.
— Jesse, Trish, Tiffany, Ricky. Eu, você, Tommy, Pam. Oito. Faltam apenas a Sissy e o Wade. E... Eu acho que eles são os próximos.
— Eu falo com a Sissy. — Charlene garantiu.
— E eu com o Wade. – Tommy prontificou-se. Adrian estranhou o fato, já que Wade detestava Tommy, mas não reclamou. Qualquer ajuda seria bem-vinda. Mesmo que isso custe alguns dentes de Tommy.
— Bom, se não precisam mais de mim, eu vou-me indo...
— Tudo bem. Nós também temos um memorial para comparecer. De novo muito obrigada, Bill. Você nos ajudou muito. — Pam garantiu.
— Realmente. Obrigada. — Charlene endossou o que a caipira dissera.
E William Bludworth abriu um largo sorriso que congelou os ossos de Adrian.
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A porta do quarto de Wade abriu-se no exato momento em que ele jogou a revista para debaixo da cama.
— Sim? — O rapaz disse, antes mesmo de ver quem havia entrado.
— Sou eu filho. — O homem anunciou, com uma voz rouca.
— Entra pai.
E o homem entrou. Cameron Turner tinha cerca de quarenta anos e era largo e forte como um auroque. Havia pouco cabelo em sua cabeça, e diversas tatuagens nos braços, pernas e pescoço.
— Atrapalhei sua leitura filho?
— Não. — Eu não estava lendo. E subitamente um pânico tomou conta de Wade. E se o pai quisesse ver a revista?
— Bom, menos mal.
E houve um silêncio sepulcral.
— O que você quer pai?
Cameron pigarreou e então disse:
— Eu imagino como você deve estar abalado com a morte da Trish e da Tiffany. Sei como vocês três eram... Próximos. — Wade teve vontade de rir da ironia. Próximos, sim. E então teve pena e sentiu culpa pelos momentos em que as usou. Refletindo sobre a morte delas, percebeu que, em vida, as garotas mereciam mais. Mereciam muito mais do que um cara que as usava para disfarçar algo. Mas eu as respeitei. Eu nunca fiz nada que elas não consentissem.
Wade nada disse.
— Quem é Ricky? – Cameron perguntou, abruptamente. Wade ficou confuso com a mudança brusca de assunto. Gaguejou, e, engolindo em seco, disse:
— Um cara da escola.
— Um cara da escola? Seu amigo?
— Não.
Cameron então fingiu estar pensativo. Após angustiantes segundos, disse:
— Estranho. Eu estava na oficina hoje e ouvi o pai do Kurt, aquele seu colega do time, comentar com o Michael que vocês dois eram bem próximos.
A cidade inteira já sabe. A respiração de Wade tornou-se pesada, e ele soube que seu segredo havia sido exposto. O que restava a ele era que o pai fizesse como fizera durante anos, para tudo: fechasse os olhos. Fingisse não saber mesmo. A mãe de Wade traíra Cameron incontáveis vezes, e o homem até chegara a ficar sabendo, mas nada fizera. Agira normalmente, como se não tivesse ideia que aquilo acontecia debaixo de seu nariz. Feche os olhos e tape os ouvidos, pai. Por favor.
— Nós não somos próximos. Na verdade nós nunca nem conversamos.
Cameron encarou o filho por alguns segundos, cheirando a mentira em seus olhos. Mas por fim preferiu reagir como reagia à maioria dos segredos que o desagradavam.
— Ótimo. Era só isso que eu queria saber mesmo.
E levantou-se da cama onde havia sentado, seguindo para fora. Segurou a maçaneta e, antes de sair, disse:
— Da próxima vez jogue a revista em um lugar menos visível. Não que eu me importe, mas a sua mãe pode gostar de ler a Playgirl. — E saiu, deixando Wade com as palavras entaladas em sua garganta.
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Adrian brincava de jogar uma bola de basquete na parede e pegá-la de volta, quando a irmã entrou em seu quarto.
— E aí? O que a Sissy disse? — Ele perguntou, de súbito.
Mas Charlene parecia furiosa.
— Como você deixou o Tommy ir sozinho falar com aquele brutamonte do Wade? Como?! Seu irresponsável!
— Ei, calminha garota. Você estava junto e viu quando ele se ofereceu para ir. Eu não obriguei ninguém. De qualquer forma... O que foi que aconteceu?
— Desce lá embaixo e vê você mesmo.
Adrian pulou da cama e desceu às escadas bem devagar. Lá embaixo encontrou Tommy deitado no sofá, com Jocelyn agachada ao seu lado, colocando uma compressa de gelo em seu olho. O pai de Charlene e Adrian, o doutor Roman Blanc, mantinha-se de braços cruzados, a examinar o rapaz por cima de seus óculos de lentes grossas.
— Seus pais disseram que vêm te buscar daqui há pouco. Eu poderia levá-lo, mas meu carro está no conserto.
— Sem problemas senhor R. — Tommy respondeu com educação, embora a fala tivesse saído quase como um gemido.
O loiro terminou de descer as escadas e aproximou-se da mãe, do pai e do cunhado.
— O que foi que aconteceu? — Adrian perguntou, sentindo a culpa lhe corroendo por dentro.
— Aquele seu amigo Wade. Ele bateu no Tommy. Pobrezinho! — E Jocelyn pôs-se a afagar os cabelos de Tommy. Ao contrário de Adrian, a senhora sua mãe mantinha grande apreço pelo namorado da filha. Talvez porque ela saiba que ele é o melhor que a Charlene vai conseguir. E Adrian subitamente odiou-se por aquele pensamento.
— Tommy, me desculpa, eu... — O loiro começou, mas foi interrompido.
— Não foi culpa sua que aquele desgraçado do Wade tenha atropelado minha bicicleta. Eu tive que ir tirar satisfação.
— Atropelado sua bicicleta? Eu não...
— Deixa pra lá, Adrian. Eu to bem. — E piscou. Adrian então entendeu tudo.
Wade não estava disposto a colaborar. Tommy havia ido conversar com ele sobre a lista e recebera em troca um olho roxo. A história da bicicleta era fachada para enganar Jocelyn e Roman, já que o real motivo do soco fora a lista de Adrian. Eu devia ter ido falar com o Wade. Em mim ele não conseguiria bater. Aquele elfo viado e covarde...
Olhou para cima e viu a irmã sentada nas escadas olhando-o com uma expressão de reprovação. Ela balançou a cabeça, e com esse simples gesto o rapaz concluiu que Sissy também não fora receptiva. Merda. Eu estraguei tudo. Era eu quem devia ter ido falar com os dois.
E deixou-se sentar no chão, ao lado do sofá onde Tommy estava. Bufou e deu dois tapinhas no braço do rapaz.
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