Premonição 3: Redenção
9 Sem Saída
Notas iniciais
"E eles o venceram pelo sangue do Cordeiro e pela palavra do seu testemunho; e não amaram as suas vidas até a morte." (Apocalipse 12:11)
Morgan ainda não sabia como reagir, naquele ponto. A dor era grande, profunda, crescente, infinita. Mantinha-se em um estado catatônico assustador, afastando qualquer pessoa que estivesse disposta a confortá-lo. Seu celular tocava como louco: Kelsey, Melissa, Skip, Angel... Todos tentavam, a todo o momento, contatá-lo. Mas Morgan não atendia. Ele soube, pela mãe, que o quarteto inclusive tentou visitá-lo, e ela inventou qualquer desculpa para deixar o filho a sós.
Era duro, e não havia palavras no mundo que pudessem trazer paz de espírito ao rapaz. A única coisa que ele conseguia pensar era em como tudo aquilo fora injusto. Kelly não merecia, definitivamente. Diz-se, em algum lugar na bíblia, que a perfeição só existe em Deus. Morgan acreditava piamente que quem escrevera aquilo não conhecia a garota. Kelly fora tudo de bom, inocente, puro e doce que poderia existir no mundo. Era simplesmente injusto tirá-la assim, sem mais nem menos.
Sua loucura e insanidade iam crescendo à medida que ele interiorizava o fato (e a fala) de que a morte de Kelly não era justa. Como se a morte conhecesse tal palavra! Não havia justiça, apenas democracia. Para ela todos eram iguais.
Ele também sabia que Heather estivera com ela nos seus momentos finais e que acabara a deixando a sós, resultando na tragédia. Para todos os efeitos (e pessoas) Kelly não era uma pessoa que necessitasse de alguém para ficar cuidando dela, como uma criança. Pelo contrário: era bastante independente. Mas cego pela dor Morgan não conseguia enxergar aquilo. Para ele a mulher fora relapsa e talvez a principal responsável pelo que acontecera com a sua amada.
Morgan abriu a última gaveta de sua cômoda, ainda tremendo e suando frio. Ao lado do computador havia uma garrafa vazia de vodca, que ele fizera questão de finalizar. Sua mãe não estava em casa, como geralmente acontecia, o que o deixava com pensamentos ainda mais tenebrosos na cabeça. Ali, sozinho, ele não via saída para nada. Estava só, sem ninguém que pudesse ampará-lo ou dizer para ele que tudo ficaria bem. Não, não ficaria. Kelly estava morta e não havia nada que ninguém pudesse fazer a respeito. Se pelo menos a maldita da Kelsey ou a desgraçada da Heather pudessem ter evitado! Era óbvio na mente torta do rapaz que as duas eram menos merecedoras da vida que sua amada Kelly. Então por que elas ainda continuavam ali enquanto a outra estava morta? Difícil deduzir.
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Skip acordou ainda na cama de Melissa. Já era de manhã, como ele constatou com a incidência da luz da janela. Olhou no relógio da cabeceira e teve certeza: sete e meia da manhã. Droga! Ele havia dormido na casa da namorada! Pior: no quarto dela. O que os pais de Melissa iriam pensar dele?
— Mel, querida, acorda. – E começou a chacoalhar a garota.
— Me deixa dormir, Skip...
— É sério, Mel, acorda. Já é de manhã! São sete e meia.
Aquela frase despertou a garota como nada mais havia feito. Melissa pulou da cama em um só movimento, colocando sua camiseta e resmungando:
— Ai meu Deus, você dormiu aqui... O que meus pais vão pensar de mim... Droga, Skip, droga! Como você deixou isso acontecer?
— Ei, que culpa eu tenho? — O rapaz disse, enquanto colocava sua camiseta.
— Toda a culpa do mundo! Você dormiu aqui! Por que não foi embora?
— Seus pais devem saber que eu dormi aqui, não?
— Claro que não! Eles devem ter pensado que você foi embora, eu pedi pros gêmeos dizerem isso.
— Espera aí, você pediu pros seus irmãos mentirem sobre mim sem nem mesmo eu ficar sabendo disso? Uau!
Melissa deu um risinho falso.
— Agora trate de ir embora antes que minha mãe apareça por aqui, vai.
— E por onde eu vou?
— Pela janela, é claro. Pula.
Skip seguiu até a janela, ainda colocando suas calças.
— Antes de ir eu preciso te contar uma coisa.
— Depois, Skip, depois.
— Não, agora! Eu sou o próximo, lembra?
A frase foi como um soco no estômago de Melissa. Ela não tinha parado para pensar naquele fato. E Skip tinha razão. Após Nikki, na visão de Kelsey, o próximo era ele. Depois Angel e por último a morena. Não fora apenas um pesadelo. As coisas ainda estavam uma droga.
— Fale. – Melissa disse, seca.
— Olha, eu não tenho ideia do que eu vou fazer de agora em diante. Eu não pensei que a minha vez fosse chegar tão rápido e eu vou bolar alguma coisa com o Angel, mas... Tem algo que eu preciso te contar.
— Precisa mesmo ser agora?
— Pode não haver outro momento, Mel.
A garota engoliu em seco, e Skip tocou os ombros dela de leve.
— Eu beijei a Heather. Duas vezes.
Melissa fez uma cara de confusão.
— Como?
— Na primeira ela me beijou, na verdade. E a gente não tava junto naquela época.
— E a segunda?
— Foi ontem, no clube.
— Você também estava no clube?!
— Eu estava, mas foi antes do acidente com a Kelly, eu acho. Eu encontrei com a Heather no banheiro.
— Foi nessa exata hora que a Kelly caiu na piscina! Seu desgraçado! Você distraiu a Heather e por isso ela não chegou a tempo para salvar a... Seu desgraçado!
E Melissa começou a dar socos no peito do rapaz, sendo que ele segurava os pulsos dela com delicadeza, deixando-a praticamente livre para continuar à agredi-lo.
— Mel, você pode me odiar por ter beijado a Heather. Mas não pode me culpar pela morte de Kelly! É a lista, você sabe. Eu não tenho culpa.
Melissa saiu de perto do rapaz e abriu a janela pra ele.
— Sai. Agora.
— Mel, eu sinto...
— Agora, Steven Tomlin!
Skip ficou cabisbaixo de súbito e colocou uma perna para fora da janela, mantendo a outra dentro do quarto.
— Melissa, não fica brava comigo. Eu não iria ter paz se acabasse morrendo com você brava comigo.
A loira engoliu em seco.
— Eu não estou brava. – Mentiu.
— Então prova.
Melissa fez uma cara de reprovação, mas não teve tempo de reagir. Skip segurou o rosto dela e lhe deu um beijo. Quando a soltou, a loira mantinha um olhar de surpresa e consternação. O rapaz sorriu e cuidadosamente pulou a janela.
Quando viu-se sozinha, a loira bufou e sentou na cama.
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Kelsey andava no parque de mãos dadas com Damien. Segurando a outra mão dele estava Alice.
— Obrigada por ter topado fazer esse passeio conosco, Kelsey. Sei que é estranho, afinal a gente nem se conhece.
A morena sorriu, completando:
— E mesmo assim tempos tanto em comum, né?
A ruiva concordou, sorrindo.
— Eu vou direto ao ponto, Kelsey. O que você tem, é um dom.
Kelsey surpreendeu-se com a frase de Alice.
— A Melissa te contou?!
— Eu deduzi, na verdade. Mas quando a confrontei sobre isso ela não teve coragem de mentir para mim.
— Claro que não. – Kelsey ironizou.
Alice parou a caminhada e prostrou-se na frente da outra. Damien se afastou um pouco, entendendo a situação.
— Eu sei o que vocês estão passando.
Ao contrário de Alice, que até dias antes não sabia de nada sobre a lista de Melissa e a visão de Kelsey, a morena sabia sobre Alice fazer parte da lista de Bobby e tudo mais. Melissa abrira o jogo com ela, de modo a fazer a garota sentir-se mais à vontade com o assunto.
— Não é fácil pra ninguém, mas é um pouco mais difícil para você, eu sei. Era difícil para Bobby também. E pra mim...
— Espera, por que pra você?
— Eu também tenho visões, a Mel não te contou?
Kelsey mexeu a cabeça negativamente.
— Ela só me contou que você, a cunhada dela e um tal de Matt foram salvos da lista pelo Bobby, mas é só.
Alice riu.
— Pois é. E aquele garotinho ali, meu... Filho... Ele também tem o dom. Mas o dom dele é um pouco diferente. Ele vê coisas que não aconteceram com ele e que nunca irão. Quando nos conhecemos ele viu exatamente o que eu tinha visto anos antes. Uma informação que não havia meio algum de ele saber.
A morena estava bastante surpresa.
— O ponto é: você precisa aprender a lidar com isso, e a aceitar. Quando a lista acabou para mim, eu me senti em paz. Nada mais aconteceu. Eu não me considero livre do que eu possuo, por que seria presunção achar que jamais acontecerá novamente. Mas ainda não aconteceu. E eu espero que não aconteça.
Kelsey baixou a cabeça.
— Quando tudo isso acabar, você vai poder continuar sua vida normalmente, Kelsey. Acredita em mim. Mas até lá você precisa fazer o possível pra que esse seu dom tenha uma utilidade, para que salve vidas!
A morena mantinha-se quase sem reação, desanimada.
— Pelos seus amigos, Kelsey. Eu sei que é uma responsabilidade tremenda, eu vi um amigo morrer na minha cabeça, em uma competição de skate, e não consegui fazer nada a respeito. E eu não me culpo por isso, sabe por quê? Porque eu tentei! Eu não fiquei de braços cruzados esperando todos eles morrerem. Não tive a mesma bravura de Bobby, mas não fui omissa. Eu tentei enfrentar, da melhor maneira. E eu sinto que é isto que você está fazendo e está destinada a fazer por mais tempo. Então faça! Se não funcionar, não se culpe. Por que você vai ter feito tudo que estava ao seu alcance.
Kelsey então disse com os lábios, sem som algum sair de sua boca: “obrigada”. Alice sorriu e tocou a mão da garota.
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Sozinha com seus pensamentos, Melissa concluiu que fizera a coisa certa. Era o necessário a se fazer. Mas essa havia sido a parte fácil. O que viria seriam os meses de agonizante espera. Pior: antes disso ela teria de convencer Skip de que era necessário que ele se mantivesse longe de problemas pelos próximos nove meses. A loira já tinha um plano, que, como anos antes ocorrera com Bobby, envolvia a casa de verão de Alice. A amiga com certeza não se recusaria. Restava ele aceitar. Será que ele estaria disposto a esse sacrifício supremo?
Nove meses não eram pouco tempo. Até hoje Melissa se perguntava como Bobby não havia simplesmente enlouquecido pelo tempo passado preso naquela casa de verão. E por fim todo o martírio dele fora em vão, requerendo um outro sacrifício supremo. Mas dessa vez não havia erro, havia?
Melissa aprendera que um bebê gerado antes da lista, teria o mesmo destino fatídico da mãe, como era pra ter sido o de Beth. Mas uma criança concebida e nascida depois de todos estarem marcados para morrer, com absoluta certeza colocaria a morte em xeque e jogaria toda a lista no lixo. Era a única maneira de se fazer.
Por algum tempo a garota sentiu-se egoísta por ter usado Skip para conseguir engravidar. Mas, no fim, concluiu que fizera o certo. Ela ainda o amava, apesar de tudo, e tê-lo “usado” era apenas uma forma de salvar a vida dele, no futuro. Por fim, tudo resumia-se ao amor. Ou a vingança? Difícil saber.
O que restava era o fato de que Melissa precisava estar grávida. Ou tudo iria pelos ares. Talvez literalmente.
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Kelsey dirigia o carro vagarosamente, tomando o máximo cuidado que podia. Ao seu lado estava Melissa, e Angel e Skip estavam nos bancos traseiros.
— Você vai ou não vai explicar o motivo desse nosso passeio imbecil, Mel? – Kelsey perguntou, um pouco alterada.
Melissa suspirou.
— É um plano. Vocês precisam me ouvir e só me julgarem quando tudo tiver sido dito.
Ninguém falou nada, sinal de que todos concordavam.
— Bom, então estamos assim: existem poucos métodos pra escaparmos dessa lista sem ficarmos em um looping infinito. Primeiro: uma vida toma o lugar da outra. Caso algum de nós... — E Melissa engole em seco. — Matasse... Outra pessoa... Estaríamos fora.
Kelsey riu sarcasticamente, e disse:
— O que não vai acontecer, certo?
Ninguém respondeu, e Kelsey assustou-se.
— Certo, né?!
Angel deu um tapinha de leve na cabeça da motorista, confirmando:
— Claro, né.
— Continua, Mel. – Skip pediu.
Melissa suspirou.
— O outro método é nos salvarmos sozinhos. Eu tive essa teoria há tempos atrás, quando estava tentando ajudar um casal que conheci, Mia e Kaleb. Nós sabemos que caso alguém seja salvo por outra pessoa, é pulado. Mas se a pessoa salvar-se sozinha de seu acidente, recupera sua vida. É um método que funciona, afinal. — E tomou fôlego: — Se alguém morrer fora da ordem, a lista é jogada no lixo. Foi o que aconteceu com meu irmão e foi como eles se salvaram.
Ninguém dizia nada. A atmosfera era completamente tensa e perturbadora. Eles estavam ali conversando sobre como evitar sua morte iminente, afinal!
— E tem um último método...
Todos esperaram pacientemente Melissa responder, sem dar sequer um pio. Kelsey agora dirigia na estrada que saía da cidade, sem rumo, apenas para ouvir Melissa. A estrada estava quase que completamente vazia.
— Caso alguém engravide antes de entrar pra lista, o bebê já está condenado a morrer com a mãe. Mas caso a criança tenha sido concebida após a lista estar montada, caso essa criança nasça... Bom, a lista é jogada no lixo e nós temos uma nova chance.
— Apenas nova vida pode derrotar a morte, certo? – Kelsey perguntou, confiante.
Foi então que Skip questionou:
— Bom, isso não nos ajuda em nada. Não vamos conseguir arranjar um bebê.
Melissa engoliu em seco mais uma vez. Tomou fôlego e começou:
— Sobre isso... Eu preciso te contar Skip.
— Me contar o quê? – O rapaz perguntou, nervoso.
— Eu fiz sexo com você ontem por isso. Não tem como eu ter nenhuma certeza pelas próximas semanas, mas eu espero e tenho quase certeza de que eu vou ficar grávida.
O rapaz ficou atônito. Não teve como expressar reação, porque Kelsey atravessou um cruzamento na mesma hora, sem perceber. A garota tentou frear, mas já era tarde demais. Um caminhão que vinha em alta velocidade na mesma hora atingiu a parte traseira do carro, arrancando metade do automóvel. Skip e Angel foram completamente esmagados pelo impacto, enquanto ela e Melissa, que estavam na frente, foram arremessadas para longe com a outra metade do carro.
Kelsey piscou os olhos e viu que ainda estava viva. Ao seu lado Melissa chorava, também ainda respirando. As duas ficaram assim por bons vinte segundos, sem se mexerem. Foi quando ela ouviu uma explosão e sentiu o corpo em chamas. Depois não sentiu mais nada.
Kelsey abriu os olhos e o cenário ainda era o carro.
— Sobre isso... Eu preciso te contar Skip.
A frase já proferida por Melissa fez a morena congelar. Num movimento brusco ela pisou no freio com toda força, não obtendo resultado.
— O carro não quer frear! – Kelsey berrou.
— Ai meu Deus! – Skip comentou, nervoso.
— O que aconteceu, Kel? – Melissa perguntou.
— Um caminhão... Um caminhão vai atingir a gente no cruzamento, ele vai esmagar vocês dois aí atrás.
Angel e Skip olharam um para o outro, nervosos.
— Essa merda não freia! – Kelsey berrou.
— Vocês vão ter que pular! – Melissa gritou.
— Sem vocês?
— Rápido, Angel!
Melissa então recostou-se no banco e abriu a porta de Angel sem que ele percebesse. Ela então empurrou o rapaz para fora, vendo-o rolar no asfalto e logo recompor-se. Não viu quando Skip fez o mesmo, mas quando se deu conta de si o caminhão já havia batido e ela e Kelsey voavam pelos ares com a outra metade do automóvel.
Kelsey tossia, caída dentro do carro como em sua visão.
— Vai explodir! – A morena gritou.
Melissa soltou-se rapidamente do cinto e saiu pela janela do automóvel, puxando Kelsey com força. As duas correram o mais rápido que puderam para longe do carro, e de repente ouviram o estrondo. Pow! Antes que pudessem ver o estado do carro, a loira viu-se puxando Kelsey o exato momento em que um dos estilhaços do veículo iria acertar fatalmente a cabeça dela.
Kelsey não conseguia nem agradecer, ainda chocada. Ao longe ela viu duas pessoas correndo em direção à elas, uma delas mancando. Eram Angel e Skip. Os dois haviam conseguido pular do carro a tempo e estavam à salvo.
— ... então a morte pulou eles, certo? – Kelsey disse, continuando uma frase que ela não havia sequer começado. — E você acabou de me salvar, então ela me pulou. O que acontece então? Ela volta pra você?
Melissa soltou um gritinho abafado. Olhou para o alto e viu um enorme poste prestes a cair em sua direção. Num movimento repentino e instintivo pulou para o lado, esquivando-se do objeto no momento exato em que ele iria acertá-la.
— O poste ficou assim pela explosão...
A loira havia feito. Havia se salvado sozinha e estava finalmente fora da lista.
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Skip e Angel se encontraram com as garotas ainda na beira da estrada. O primeiro tinha apenas alguns arranhões no rosto e no braços, enquanto o segundo parecia estar com braço quebrado.
— Desculpa, Angel, eu... – Melissa começou, mas foi interrompida.
— Você salvou minha vida.
A garota sorriu sem dizer nada.
— O que fazemos agora?
— É a vez do Morgan, nós precisamos encontrá-lo.
— Eu vou ligar pra ele. – Angel disse. Pegou então seu celular e discou o número do rapaz. Ele atendeu no primeiro toque. — Alô, Morgan? Aqui é o Angel. Onde você está cara?
Do outro lado da linha Morgan tossiu. Em seguida disse:
— Estou indo fazer algo que deveria ter feito há muito tempo...
— Do que você tá falando ca-- — Tu! Tu! Tu! — Ele desligou na minha cara! Nós precisamos encontrá-lo!
— E o acidente? Não acha que nós devemos...
Kelsey desligou-se mentalmente da conversa. De repente viu-se numa casa desconhecida. Ela estava trajando um baby doll violeta e tomando uma taça de vinho. De repente a campainha tocou. A garota atendeu e foi surpreendida por Morgan, com uma arma em mãos. Ele apontou para a cabeça dela e começou a gritar coisas ininteligíveis. Kelsey só chorava, desesperada. De repente sentiu. Um tiro certeiro em sua cabeça.
Acordou.
— Nós precisamos avisá-lo! Depois lidamos com o acidente!
Angel então percebeu o estado de Kelsey, os olhos mareados.
— Não me diga que você teve outra visão.
A morena tentou balbuciar uma frase completa, mas não conseguiu, ainda em estado de choque. Só disse:
— O Morgan... Vai tentar matar... Heather, eu acho. Heather, é isso. Ele vai matá-la!
Skip congelou. Sem dizer nada a ninguém começou a correr como louco.
— Onde você vai? – Angel perguntou.
— Nós temos que impedi-lo!
— Ele vai morrer antes que isso aconteça!
— Talvez não. – Melissa disse. — Não se ele matá-la. Heather não está na lista, ele iria ficar com a vida dela.
— Merda!
Os quatro começaram a correr. Skip já estava parado no meio da estrada, acenando. Não demorou um minuto e um homem com uma caminhonete parou.
— Oi, desculpa o incômodo, mas... Eu e meus amigos sofremos um acidente de carro e precisamos ir pra cidade chamar ajuda. Será que o senhor poderia...
— Claro. — O homem respondeu antes que Skip pudesse continuar. — Subam aí atrás!
O quarteto rapidamente subiu na carreta da caminhonete e o homem seguiu seu caminho. Ele dirigia rápido, justamente o que os garotos gostariam que acontecesse. Se não chegassem logo à casa de Heather, algo terrível poderia acontecer.
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Morgan estava na frente da casa de Heather, na espreita. Estava apenas esperando o momento certo para atacar. A mulher morava ao lado da estação de trem da cidade, o que facilitaria muito sua fuga. Era finalizar o serviço e correr para embarcar no primeiro trem para fora dali. O que iria fazer depois disso era incerto, mas podia ser arranjado.
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— E se chamássemos a polícia enquanto isso? – Kelsey sugeriu, ainda na caminhonete.
— Podemos tentar...
— Sem sinal! Merda! – Angel disse. — Algum de vocês aí tem celular?
Skip, Melissa e Kelsey entreolharam-se.
— Eu não, você sabe. – Skip disse.
— O meu estava no carro... – Melissa confirmou.
Kelsey só balançou a cabeça, como a dizer o mesmo que Melissa.
— Estamos na fronteira da cidade. Aqui não tem sinal não, rapaz. – O motorista disse, demonstrando que estava prestando atenção na conversa deles.
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Morgan tocou a campainha de Heather quando viu que nenhum dos vizinhos estava fora de suas casas. A garota veio atender a porta fechando seu robe vermelho que escondia seu baby doll violeta. Seus olhos ainda estavam completamente vermelhos pelo choro recente. Desde o incidente no clube, Heather não conseguira ficar uma única hora sem derramar lágrimas.
— Pois não? — Ela disse ao abrir a porta.
— Não me conhece, não é? – Morgan disse, sarcástico.
Heather estranhou a fala do rapaz. Começou a encará-lo com cuidado, tentando decifrar quem ele poderia ser.
— Morgan...? – A morena arriscou, tentando lembrar-se de como Kelly havia descrito o namorado.
O rapaz sorriu sarcasticamente e retirou a arma de dentro da calça, empurrando Heather para o chão e fechando a porta da frente. A garota gritou ao cair, enquanto Morgan mantinha a mira da arma apontada para ela.
— Sua vadia desgraçada! – Ele gritou. — Por sua culpa a Kelly está morta. Só sua!
Heather chorava desesperadamente, enquanto tentava se recompor. Ainda estava caída no chão, com os cabelos bagunçados e a aparência desgrenhada.
— Eu não sabia... Eu... Eu...
— Cala a boca! – E o rapaz deu um chute na barriga da mulher, fazendo-a se contorcer de dor. Morgan então deu mais três chutes na barriga de Heather, fazendo bastante sangue sair de sua boca.
Morgan estava nitidamente alucinado. Parecia não ter o mínimo remorso do que estava prestes a fazer. Limpou o suor da testa e voltou a apontar a arma para Heather.
— Era você que deveria ter morrido. Apenas você. A Kelly era pura, era inocente... Deus, ela era tudo de bom que há nesse mundo podre! — E gritou a última frase dando mais dois chutes em Heather.
Nesse momento a mulher já estava completamente nocauteada, com as mãos na barriga e chorando muito.
— Não tem jeito de trazê-la de volta. Não tem... Mas... Tem um jeito de te fazer pagar pelo que fez a ela... Tem...
E apontou a arma para Heather. Mirou. A mulher estava completamente indefesa, era um alvo fácil.
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— Estamos chegando, só mais duas quadras! – Skip disse, enquanto corria ao lado do trio.
Melissa viu, ao longe, a estação de trem. Congelou. Era ali que tudo havia começado e terminado com Bobby.
— Corre, Melissa!
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— Diga adeus. – Morgan disse.
Heather já estava pronta para aceitar sua morte quando alguém abriu a porta num rompante. A figura que acabara de chegar empurrou Morgan para o chão sem que ele pudesse reagir. A arma foi parar há alguns centímetros.
— Seu filho da puta!
Era Somerset. O detetive então começou a desferir violentos socos no rosto do rapaz, até o momento em que o deixou inconsciente. Quando Morgan não parecia mais esboçar reação, Somerset verificou seu pulso: ainda estava vivo. Bom. O detetive odiaria ter uma morte em seu currículo.
— Oh meu Deus! Você está muito ferida! – O homem disse enquanto tentava avaliar o estado de Heather.
O quarteto então chegou, afobados, entrando pela porta já aberta. Ao vê-los Somerset pareceu ficar levemente surpreso.
— Ela está bem? – Skip perguntou, visivelmente nervoso.
Melissa bufou. Olhou para o restante do cômodo e viu Morgan caído, com a arma próxima à seu corpo.
— Ele está...?
— Morto? – Somerset perguntou.
— Aham.
— Não. Eu só o deixei inconsciente.
A loira não soube dizer se aquilo era bom ou ruim. Pôs-se então ao lado de Skip, Somerset e Angel, que avaliavam o estado de Heather. Kelsey já gritava no telefone por uma ambulância. Somerset não tardou a pedir reforços.
— O que o senhor estava fazendo aqui, detetive? – Angel perguntou.
Somerset sorriu com pesar:
— Digamos que eu tive uma... Premonição.
Kelsey, Melissa e Skip entreolharam-se, pensando que o detetive talvez pudesse estar à par de tudo. Não foi o que pareceu: Somerset continuou da exata maneira que estava antes de dizer aquilo.
Morgan abriu os olhos com dificuldade. Todos estavam de costas para ele, avaliando o estado de Heather. Sentiu uma pontada enorme da cabeça. Então lembrou-se. Da lista, de tudo. Estava com raiva, apenas. Sua vida estava por um fio, mas isso pouco importava. Ele sabia que iria morrer cedo ou tarde. Mas queria ir após ter causado o máximo de dano possível. Pegou a arma do chão. Somerset viu a tempo e disparou um tiro contra ele, no peito. Morgan caiu. Ainda respirando tossiu duas vezes e juntou o resquício de vida que lhe restava para apertar o gatilho mais uma vez. A bala voou em direção à Skip sem demora, milésimos de segundos após Morgan dar seu último suspiro. Skip era o próximo. Nada podia ser feito.
— Angel! – Kelsey gritou, após ter percebido algo.
Foi quando Angel pulou na frente do irmão, recebendo o tiro em seu lugar. Caiu no chão sentindo todo seu corpo em chamas.
— Foi o Morgan. – Melissa começou. — Ele morreu. Daí o próximo era o Skip e Angel acabou de interferir entrando na frente da bala. O próximo é ele!
As palavras de Melissa cortaram Skip como facas. O irmão salvara sua vida e agora estava ali, agonizando, com a certeza de que morreria, pois era a sua vez na ordem da lista. Toda a sua vida passou em alguns segundos, culminando em um último e especial momento.
Ele estava em frente à seu bolo de aniversário. Era o primeiro ano que passaria ele em seu novo lar adotivo. Sorriu e assoprou as velinhas. Não apagaram. Tentou de novo. Em vão. Foi quando Angel prostrou-se ao lado do irmão e os dois assopraram juntos. Em segundos já não existia chama alguma ali. Os dois riram.
Acordando dos devaneios, decidiu-se. Sem dizer uma palavra começou a correr como louco. Já não estava mais na casa de Heather. Estava na rua, correndo, desesperado. Melissa e Kelsey gritavam e corriam atrás dele, nervosas. Flashbacks iam e voltavam da cabeça da loira. Estava desesperada, sem fôlego, em seu ápice de cansaço.
Skip chegou a estação de trem antes das meninas. Ele podia vê-las correndo em direção ao local, há poucos metros. Se ele fizesse o que estava prestes a fazer, tudo estava acabado. Era a vez de Angel morrer, não dele. Sua morte jogaria toda a lista fora, faria tudo começar do zero, dando uma chance ao trio. Kelsey e Melissa gritaram seu nome.
O rapaz ouviu-as e desejou que o trem fosse mais rápido. O veículo ainda não havia saído e ele teria de ser rápido. Correu a fim de ficar a uma distância suficientemente satisfatória pra seu baque com a caixa de ferro ser fatal. As garotas corriam atrás dele. De repente tudo aconteceu.
Skip virou-se, um último olhar. Gritou, embora com a certeza de não estar sendo ouvido:
— Adeus.
E pulou. Melissa gritou de modo tão alto que Kelsey viu-se fazendo o mesmo, enquanto lágrimas pulavam com furor dos olhos. Viu em câmera lenta o que ocorreu: o corpo de Skip chocando-se com o objeto e transformando-se numa massa de sangue. Uma parte sua caiu, e os trilhos passavam por cima sem piedade. Sangue, apenas sangue.
E a dor.
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