Premonição - O Início
6 Capítulo 6 - Alta Voltagem
− Pelo menos sabemos por que a Ana não morreu com a Brenda – Murilo suspirou colocando as mãos no rosto – Não era a vez dela. Assim como não era minha vez quando salvei o Erick.
Paloma concordou:
− Sim é verdade – então pareceu considerar – então não podemos morrer se não for nossa vez na lista? Podemos intervir na vez dos outros.
Maria Júlia fez uma pergunta:
− Agora que salvamos o Erick acabou? A lista foi destruída de novo?
Murilo viu uma enfermeira olhar irritada para eles. O garoto percebeu que haviam falado sobre esse assunto desde que chegaram ao hospital para cuidar das queimaduras nos braços de Erick.
− Eu duvido Maria – admitindo em seguida – Minha dúvida é apenas se vamos ter que ficar cuidando dele daqui para frente. Quer dizer, ainda é a hora dele, a morte segue a lista na ordem certa.
− Quer dizer que acidentes como esse vão acontecer com o Erick o tempo todo? – Maria não pareceu muito feliz com a ideia.
Paloma suspirou e olhou para a sala de espera vazia. Era madrugada, devia estar quase amanhecendo. A garota fez a pergunta que todos queriam fazer:
− Se a lista continuar e chegar ao fim todos que salvarmos vão estar livres ou a lista pode recomeçar?
Os três se entreolharam.
*
− Você está acordada Sâmea? – Ana perguntou.
Mesmo deitada no escuro por todo aquele tempo Ana imaginava que Sâmea e Tainy também estavam acordadas. Não imaginava como alguém pudesse dormir, não naquela situação.
− Sim – respondeu Sâmea.
Ana estivera sem conseguir pronunciar quaisquer palavras até aquele momento. Desde o acidente do dia anterior. Ela demorara a entender o que acontecera e agora que entendia ela gostaria de voltar a não entender. Era loucura demais.
Ana se sentou em sua cama e acendeu o abajur. Sâmea e Tainy olhavam preocupadas para ela, era óbvio que elas tinham medo tanto quanto a Ana de algum de ruim acontecer.
− O que vocês pensam sobre o que o Murilo disse e o que aconteceu hoje? – Ana questionou.
Tainy balançou a cabeça:
− Quer mesmo pensar nisso?
− Não adianta enrolarmos, por que se for verdade... – Ana se calou.
Sâmea que havia ficado calada até então, pensativa opinou:
− Eu fico tentada a acreditar nele, ainda mais depois do que aconteceu com os meninos e a Brenda, mas tem algo que eu não entendo – ela fez uma pausa – Se era mesmo nossa hora no festival, por que ele teve as visões e as músicas nos alertam sobre os acidentes? Não parece fazer sentido.
− Sâmea, nada faz sentido nessa história – Tainy levantou a sobrancelha.
Ana começou a chorar:
− E se for verdade? Pensei que íamos ter a chance de uma nova vida ao escapar do acidente, coisa que não parece ter acontecido.
Sâmea suspirou:
− Porque você não vem comigo e com a Tainy na nossa viagem? Se estivermos mesmo morrendo, queremos aproveitar cada segundo. Abandonamos nossos empregos essa tarde
Ana balançou a cabeça:
− Já tinha pensado nisso, mas não quero – ela parou indecisa em falar o que veio a seguir – Não quero morrer longe da minha família. Acho que vou com eles para o sítio da família.
*
Nilton abriu seu navegador de internet em seu computador pessoal e digitou na página de busca do google: Premonições e Visões. Olhou para os sites disponíveis: Estudante prevê queda do voo 180 da empresa Volee e tira passageiros do avião antes da decolagem; Garota prevê acidente em parque e salva amigos; Jornalista é morta em massacre um mês após ter sobrevivido a tiroteio.
As opções não eram nada boas, todos pareciam acabar em tragédia. Todos pareciam com o que estava acontecendo com ele e seus amigos. Todas às vezes, sem exceção, ninguém havia sobrevivido para contar a história. Nilton fechou o notebook irritado por ter pesquisado aquilo. Uma lição: Se você não consegue dormir, jamais pesquise sobre mortes na internet.
Aquele amigo da irmã dele havia mudado a vida de todos eles para sempre de forma irreversível. Nilton jogou o notebook na cama e em seguida abriu uma gaveta da sua escrivaninha. Com uma caneta ele abriu o fundo falso da gaveta, de onde tirou uma revista adulta.
Ele começou a folhear a revista tentando não pensar na morte, o que não foi muito difícil. O garoto estava absorto demais com a revista, por isso quando leu uma frase ficou extremamente desconcertado com a sensação que teve. Ela vai dar um choque em você. A frase estranhamente havia causado uma sensação ruim em Nilton. O garoto atirou a revista para longe também.
O rapaz ligou a televisão e em seguida seu Playstation 4. Olhou para a prateleira e começou a escolher em os seus jogos favoritos e escolheu Mortal Kombat X. Ele colocou o jogo no console e pegou o controle. O jogo iniciou como o esperado e ele escolheu o seu personagem. Resolveu jogar com o Subzero.
De cara na primeira fase ele ia enfrentar o Raiden. A tela era chuvosa e um garoto não devia ter muita dificuldade em derrotar o oponente, ele se considerava um bom jogador e não ia perder na primeira fase. Já de cara Raiden tentou dar um golpe elétrico nele, mas ele desviou facilmente. Nilton estava concentrado quando seu celular tocou. Ele atendeu enquanto jogava:
− Nilton você pode vir me pegar aqui no hospital? – sua irmã Paloma pediu.
− Você está bem? – Nilton se descuidou do jogo tomando um golpe forte de Raiden.
− Erick sofreu um acidente, mas está vivo. Ele é o próximo. – então a irmã o provocou − Você bem que podia saber dirigir.
− Olha quem fala – Nilton falou se desconcentrando completamente do jogo.
Se aproveitando de seu momento de distração Raiden deu seu golpe especial em Subzero na tela. Raiden agarrou a cabeça do outro personagem e soltou uma descarga elétrica por seu corpo que fez Subzero explodir. A palavra Fatality encheu a tela. Nilton ficou de boca aberta olhando para o jogo.
− Você vem ou vou ter que ligar para a mamãe vir me buscar? – Paloma ralhou.
− Estou indo – garoto respondeu desconfortável.
*
Quando Erick saiu da sala de curativo ele possuía os dois braços enrolados em gazes. Ele parecia cansado, mas bem. Murilo, no entanto não podia dizer o mesmo, ele estava com uma péssima sensação. Quando Erick falou sua voz soou tranquila:
− Eu sobrevivi à morte novamente, acabou para mim.
Murilo franziu o cenho, afinal não queria desanimar ou amedrontar o amigo. Não seria uma conversa legal. O garoto se levantou cansado e disse apenas:
− Espero que sim – então após um bocejo acrescentou – vamos embora, já é quase dia.
Maria Júlia cochilava numa cadeira e foi acordada por Paloma. Os quatro amigos saíram do hospital. Logo que saíram Murilo sentiu que algo estava errado.
Apesar de ser quase manhã ainda estava escuro. Apenas as luzes dos postes iluminavam a rua. A madrugada estava estranhamente seca e abafada. Murilo deu um passo para a calçada quando uma brisa varreu a rua arrepiando-os.
− Droga! – o garoto cuspiu.
Os outros três também haviam percebido o mesmo. Iria acontecer alguma coisa. O medo trespassou o rosto de Erick quando ele compreendeu que não havia acabado. A morte não ia parar. O garoto deu um passo para frente como que por reflexo.
Nilton surgiu do outro lado da rua e acenou para eles. Eles iam começar a atravessar a rua quando Erick resmungou:
− É minha vez ainda não é? Eu vou morrer não vou?
Murilo respirou fundo e parou. Ele encarou Erick e tentou acalmá-lo:
− Vai ficar tudo bem Erick. Vamos salvá-lo de novo se for necessário...
− De novo e de novo e de novo? – Erick falou com voz embargada – Acha mesmo que quero ficar vivendo assim? Fugindo?
Antes que alguém pudesse fazer qualquer coisa, Erick empurrou os amigos e correu para o meio da rua e começou a berrar:
− Eu estou aqui morte! Venha me pegar se puder se tiver coragem! Eu estou bem aqui...
Luzes se acenderam do nada na rua e uma buzina rompeu o silêncio da noite. Um caminhão vinha a toda velocidade em direção a Erick. Murilo pareceu ver tudo em câmera lenta. O caminhão veio pronto para esmagar Erick, e então, magicamente o caminhão desviou atingindo um poste da calçada, chacoalhando os fios elétricos. Nilton se atirou na rua ao mesmo tempo em que o carregamento com tambores de água caíam no chão encharcando os dois garotos.
O pneu do caminhão rolou até os pés de Erick. O garoto olhou para os amigos boquiabertos na calçada então começou a rir e gritou:
− Eu disse! Acabou! – Erick subiu no pneu de borracha como se subisse num pódio.
Então tudo aconteceu muito rápido. O motorista do caminhão, abriu a porta do caminhão e a voz de Bob Schneider encheu o ar:
Eu fui eletrocutado pelo sol
Duzentos milhões e quarenta e um volts
Foram direto para o meu cérebro
Acho que nunca mais serei o mesmo
Murilo viu exasperado quando a água no chão envolta de Erick e Nilton pareceu escurecer. Com um chiado um dos fios do poste atingido se soltou fazendo um arco no ar e tocando o corpo molhado de Nilton.
Uma descarga elétrica tão forte desceu pelo rapaz, incendiando-o como uma tocha humana. Erick apenas olhava desesperado protegido pela borracha do pneu. A vizinhança se apagou com o curto circuito seguinte e a descarga cessou tão rápido quando havia começado. O corpo carbonizado de Nilton caiu no chão.
O berro de Paloma encheu o ar da noite ao ver o corpo do irmão.
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