Premonição Chronicles
6 Capítulo 06: O Enérgico e A Ruiva
Notas iniciais
POV VICTORYA
"Long ago
Just like the hearse
You die to get in again
We are so far from you
Burning on, just like the match
You strike to incinerate
The lives of everyone you know
(Há muito tempo
Assim como no carro funerário
Você morre para entrar nele de novo
Nós estamos tão longe de você
Queimando, assim como o fósforo
Que você risca para incinerar
A vida de todos que você conhece
–Trecho da música Helena da banda My Chemical Romance.)
É com essa música super animadora que meu celular toca o despertador e me acorda. Acordo com metade do meu cabelo ruivo na minha cara, quase me matando afogada.
Meu nome é Victorya- sim, com Y mesmo. E se reclamar coloco dois. E um H junto.
Levantei e parei em frente ao espelho. Peguei o primeiro pente que achei caído no chão e comecei a arrumar o cabelo bagunçado. O piercing no meu septo brilhava.
–Ai!-gritei quando pente raspou nos meus dedos. Observei a gotícula de sangue surgiu no pequeno furo do meu dedo.
Praguejei, então levei o dedo a boca, a fim de parar o sangramento.
Entrei no meu facebook e para meu ódio eterno e malévolo, a primeira coisa que me apareceu foi que Ingrid, a maior rodada do meu colégio, havia mudado a foto de perfil. Agora ela segurava o livro de A Culpa É Das Estrelas e na legenda havia uma frase do mesmo. O livro estava sendo segurado um pouco abaixo dos peitos, que quase saltavam para fora com o decote tão grande.
Eu odiava aquela vaca.
Além de tudo, era modinha. Revirei os meus olhos castanhos e fechei o facebook.
Depois de mais ou menos meia hora, minha amiga Camila me ligou.
–Amiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiigaaaaa!-ela gritou. Pelo que eu me lembre as pessoas falavam Alô? primeiro.
–Oi.
–Tem planos para hoje?-ela disse com um tom saliente na voz.
–Ahn... Tenho um trabalho de historia e dois de português pra faz...
–Ah, isso não importa!-Camila me cortou-Vem aqui pra casa. As meninas já estão vindo.
–Pra que?-eu perguntei curiosa.
–A gente vai ir passear em um lugar muuuuuuuito maneiro!-ela estava animadíssima-E você não vai se arrepender...
–Eu sei que você não vai me dizer que lugar é... -indaguei-então pode me dizer porque não vou me arrepender?
–Porque... -ela deu um risadinha do outro lado da linha-...o Pedro vai estar lá.
Rapidamente senti meu rosto corar. Ai meu Deus, ai meu Deus, ai meu Deus!!!
Meu ex-vizinho quase anoréxico, com voz sedutora e fã de Final Destination vai estar lá?! Eu vou de qualquer jeito!
–E ah, não esqueça de levar biquíni. -Camila me avisou.
POV FELIPE
Abri meus olhos e tive a sensação que eles haviam sido trocados por bolas de beisebol. Fui dormir já era passado das 5 da manhã. Fazer uma surpresa decente de 1 ano de namoro não era uma tarefa muito fácil. Ainda mais quando a ordinária era uma perfeccionista compulsiva e detalhista pra cacete. Mas enfim, tinha terminado.
Cortei vários coraçõezinhos vermelhos e escrevi um monte de coisa fofa e cheia de eu te amo. Coisas melosas que só namorados sentem e pessoas como você que está lendo, acham um porre.
Também comprei uma pequena raposa de pelúcia, o animal que ela adorava e tinha preparado algumas coisas a mais.
O dia estava lindo, com um céu azul e sol forte. Perfeito para o parque aquático, embora eu não curtisse muito. Mas Marina, minha namorada, curtia. E eu queria que fosse inesquecível para ela.
E foi.
Depois de alguns minutos levantei da cama e vi que tinha algumas mensagens desesperadas de Marina no whatsapp.
"Bom dia :3
08:18"
"Hey, bom dia
09:15"
"Amor, vc tá aí?
09:50"
"Lipe, me responde :(
10:30"
E tinha algumas outras que é melhor não comentar pra não ter decadência.
Respondi que ainda estava vivo e fui ao banheiro pra me arrumar.
***
Depois de um longo banho quente relaxante e de arrumar meu cabelo castanho em um topete legalzinho, verifiquei as minhas redes sociais. No whatsapp, Marina dizia que estava ansiosa para o dia de hoje. Depois do parque, nós íriamos para a casa dela e ficaríamos sozinhos, pois seus pais estavam viajando. No twitter, a última integrante das GRL que não me seguia havia me ignorado. De novo. No facebook, minha foto tinha alcançado 34 curtidas. E eu havia feito uma promessa que se alcançasse 35 mandaria uma foto vestido de galinha pra Marina. Ufa...
Ela logo passaria me pegar com sua humilde BMW vermelha. Havia tirado a carteira de motorista há uns meses, depois que fez 18. E eu fazia minha namorada de motorista desde então... Mentira, não fazia não!
Resolvi então arrumar minha mochila de apetrechos pro parque aquático.
Sunga preta? Ok.
Óculos de sol da Ray Ban? Ok.
Bóia em forma de peixe? Ok.
Pistola de água pra jogar nos outros e jogar a culpa nas crianças? Ok.
MP4? Ok.
Bermudão com estampa de praia com gaivotas? Ok.
Bermudão vermelho? Ok.
Toalha do Ben 10? Ok.
Toalha reserva dos cachorrinhos? Ok.
Vários protetores solares de vários fatores? Não.
Corri e peguei alguns protetores no armário do banheiro. Nem vi se era fator 16, fator 50 ou sei lá o que. O que importa é que tinha pego. Coloquei-os na mochila e depois conferi tudo de novo. Eu tinha quase um transtorno obsessivo compulsivo quando se trata de arrumar alguma coisa.
Depois de arrumar tudo desci para comer alguma coisa. Estava dando a primeira garfada no meu delicioso bolo de chocolate, quando Marina me mandou uma mensagem dizendo que dali 5 minutos estava chegando.
–O que?!-gritei em um pulo. Literalmente. É, eu pulei da cadeira.
Larguei tudo na cozinha e voltei para o quarto, sem acordar ninguém da casa. Dei uma última arrumada no cabelo, mesmo sabendo que iria molhá-lo bem em breve. Peguei minha mochila com as coisas e estava indo ao portão quando ouço uma buzina. Vejo que é Marina. Ela buzina mais duas vezes só para provocar.
–Para com isso, você sabe como minha irmã é idiota e grossa!-eu reclamo enquanto entro no carro.
–Ah, pare de... -interrompi sua frase com um beijo.
–Vamos?-perguntei com um sorriso no rosto.
Marina dá meia volta com o carro e então pisa no acelerador, enquanto eu ligo o rádio.
***
–Katy.
–G.R.L.
–Katy.
–G.R.L.
–Katy!-Marina exclamou.
–G.R.L.!-eu exclamei de volta, colocando minha mão no rádio para selecionar alguma música das G.R.L. Marina me deu um leve tapinha na mão e então desligou o rádio.
–Pronto, sem discussão.- ela finalizou.
Bufei e então me encostei no banco do carro. Olhei para ela e então sorri. Ela me olhou e sorriu de volta. Aquele rosto era angelical para mim, tão lindo. Como diria uma música, "seu sorriso poderia iluminar a Nova Iorque depois do escurecer". Eu estava afundando cada vez mais numa paixão. E gostava disso.
Seu cabelo negro caía sobre os ombros e ainda dava pra ver algumas mechas roxas que ela havia feito meses atrás. Seus óculos pretos combinavam com seu rosto e davam mais destaque pra seus olhos castanhos escuro.
Passei a mão pela perna dela, que deu uma risadinha.
–Já faz um ano... -eu comentei.
–Parece que foi ontem! -ela disse-Foi o melhor ano da minha vida.
–E espero que tenham muito mais...-eu completei.
Me inclinei para beijá-la mais um vez, quando o rádio ligou sozinho e começou a tocar "The One That I Got Away" da Katy Perry.
–Mas oxe está estragado?-perguntei, voltando pro banco. Maldito rádio quebrador de climas.
–Não na verdade é até novo.-Marina disse séria, desligando o aparelho novamente-E você já comeu algum salgado? Sabe que sua pressão pode baixar, não quero você cambaleando por aí...
–Calma, já vou comer...
–Felipe!
–Táááá-eu disse, puxando a minha mochila e beliscando uma bolacha salgada. Tomei cuidado para que ela não visse as surpresas dentro.
–O que tem aí dentro que você esconde tanto?-Marina perguntou curiosa, controlando o riso.
–Sem pressa, bobinha. -eu argumentei, comendo mais um pedaço da bolacha.
Seguimos a viagem em silêncio. Já estávamos chegando ao nosso destino: Blue River Adventure Park.
***
Depois de estacionar o carro, a primeira coisa me chamou a atenção nem foi o parque em si, mas sim uma criatura que se encontrava na frente da entrada dele, com uma barraca imensa. Eu e Marina nos aproximamos um pouco.
–Venham aqui meus queridinhos, vou adivinhar o futuro de cada um!-ele... ou ela, sei lá, dizia com um sotaque meio podrinho. Na barraca, havia um enorme letreiro roxo escrito: MADAME TEREZA. Duas caixas de som soltavam um instrumental sinistro ao ar, tentando dar um clima sombrio à figura cômica.
Uma mulher totalmente desinteressada passou pela barraca e então teve o braço puxado.
–Joana Macedo, eu vejo... -Madame Tereza começou.
–Mas meu nome é Kéthellhen Baxtox!-ela exclamou.
–...eu estou tendo agora em mente que você vai passar de primeira nos seus exames de seu carro e mais tardar, de moto. E não terás nenhuma reprovação. Pode confiar em mim
–Mas eu já dirijo!
–...e no amor, você vai demorar muito pra achar não muito bastante, mas pode ter certeza que depois dos seus 25 anos, já vai estar casada. E vai ter trigêmeos! Aê querida!
–Mas eu já tenho 32 e estou encalhada! -a mulher saiu correndo, arrasada com a previsão de Madame Tereza.
Eu olhei para Marina, que olhou para mim e depois olhou para Madame Tereza, dando uma risada.
–Vocês dois, cuidado. Logo em breve ele se separará de você. Não por querer, mas ele será obrigado!-Madame Tereza disse para Marina, que me olhou assustada.
–Vamos entrar logo no parque-eu disse sério, passando o braço em volta da minha garota.
Madade Tereza parecia ser apenas uma figura de entretenimento para as pessoas, mas a previsão que havia feito, diretamente para Marina, me causou arrepios e uma agonia estranha.
Marina viu que eu estava incomodado com aquilo e então começou a me dar beijinhos, até que eu não resisti e sorri.
–Não liga para aquela capivara travestida, não -ela disse, toda carinhosa.
Entramos no Blue River Adventure Park, o que foi nosso maior erro.
Enquanto isso, na barraca de Madame Tereza, a música instrumental e sombria havia sido trocada, e agora, a própria Madame Tereza descia até o chão ao som de:
"Senta, senta Ana Tereza
Senta, senta Ana Tereza
Senta, senta Ana Tereza"
***
Ao entrar, fiquei encantado. Nunca havia ido, pois, como já disse, odiava esse tipo de coisa. Vários tobogãs coloridos serpenteavam por ali e por aqui, formando círculos e círculos, curvas e mais curvas. Piscinas de vários tipo e tamanhos se espalharam. Crianças encapetadas corriam sem medo de ser feliz. Bêbados gordos equilibravam o copo na pança e mulheres ficavam reparando nas estrias ou rugas das outras que passavam.
Fomos para o vestiário para nos trocarmos. Depois que botei minha sunga preta e meu bermudão vermelho, fiquei esperando Marina do lado de fora do vestiário. Quando ela saiu, fiquei deslumbrado.
Fazia tempo que não íamos à praia, então não havia visto ela de biquíni fazia um bom tempo. Ela era quente. E me deixava quente. Além de outras coisas mas enfim, abracei-a e nos beijamos ali mesmo. Depois de algum tempo, nossas bocas desgrudaram. Olhei-a nos olhos e então disse:
–Eu te amo.
Ela abriu seu lindo sorriso e disse:
–Eu também te amo.
Fomos a beira de uma das piscinas e nos sentamos nas cadeiras. Coloquei meus fones de ouvidos e apertei play na playlist das G.R.L. Agora ninguém me impedia de ouví-las!!!
A não ser um encontro de reapers.
Um pequeno tumulto se formava e eu via alguns rostos conhecidos.
–O que foi?-Marina me perguntou olhando para minha cara de espanto.
–Eu acho que conheço aquele povo... -eu apertava os olhos para tentar enxergar. Miopia é foda. Ser teimoso e não usar óculos é mais ainda.
–Vai lá eu fico aqui esperando. -ela disse e depois completou-Pra falar a verdade, vou comprar uma água e depois volto aqui.
–Tá bem. -dei um outro beijo nela e então me direcionei ao pequeno tumulto.
No meio do caminho, encontrei com João Victor. O Jão.
Ele disse algumas coisas, que eu não entendi porque a música nos fones estava muito alta.
Nos direcionamos até lá e então comecei a reconhecer as pessoas. Pedro, o ordinário que estragou minha vida escolar, uma garota ruiva com piercing estava perto dele. Também vi Marcio Vinicius, o MV, o MVenenosa, o MVulgar, o MVers... enfim, o povo todo.
Tirei um dos fones para tentar escutar o que o tumulto dizia. De repente comecei a me sentir tonto. Minha pressão estava baixando, droga!
As pessoas falavam e eu não entendia nada. Não entendia nem o que eu mesmo dizia. Pensei em voltar e comer algo salgado, mas algo me dizia que eu iria desmaiar no caminho. Era melhor esperar eu me recuperar.
Meu celular começou a pifar e trocou de música sozinho, que avançava sozinha também. A música era das G.R.L., obviamente, e se chamava "Rewind".
"Cause right now,
Its feels time this flames gonna burn out
What happened to us?
(Porque agora,
Parece que estas chamas vão explodir
O que aconteceu com a gente?)"
A música avançou.
"Rewind, rewind, rewind
(Rebobinar, rebobinar, rebobinar)"
Pedro parecia estar dando um ataque, mas eu não conseguia entender direito. Algo de que um acidente ia acontecer. Me apoiei numa cadeira, tentando me recuperar da pressão baixa.
–Que porra está acontecendo?-eu perguntei. Não só em relação ao ataque do garoto que eu mais odiava, mas também para mim.
Tudo avançou rápido demais desde então. Um cara com calção de patinhos apareceu e quando eu percebi, tudo já tava rolando.
Tobogãs caíam. Pessoas gritavam. Sangue era jorrado. Água, muita água, espirrava para todos os lados.
–Marina! Marina!-corri em direção onde eu estava antes. Nada mais tinha lá, nem cadeiras.
Minha visão estava borrada por causa da miopia.
–Marina! Marina! Cadê você?-eu gritava desesperado.
Algo bateu em meus pés, vindo com a água. Eram os óculos de Marina, com várias manchas de sangue. Foi quando eu olhei para o quiosque em que ela estaria comprando água e vi que havia sido atingido por um pedaço de um tobogã.
–Não, não, não... -eu disse, com meus olhos já marejados. Algum filho de uma égua gilletteira me empurrou e perdi os óculos dela no meio da confusão.
Comecei a correr desesperado, sem saber para onde ia. Quando dei conta de mim mesmo, estava perto do estacionamento, com lágrimas descendo pelo meus rosto feito cachoeiras.
Olhei para o grupo de reapers um pouco ao longe e meu único alvo era aquele garoto magrelo e esguio: Pedro. Ele sabia de tudo o tempo todo.
Uma última onda de água bateu no meu pé, junto com algo macio. Olhei e percebi que era a raposa de pelúcia, que estava na minha mochila e eu ia dar para Marina. Olhei para a destruição atrás de mim. Corpos jogados, coisas destruídas, sonhos acabados. No meio disso tudo, Marina estava morta. Meu primeiro e verdadeiro amor tinha sido arrancado brutalmente de mim, sem ter me dado uma única chance de salvá-lo.
Mirei novamente em Pedro e lágrimas escorreram pelo meu rosto. Mas não de tristeza, mas sim de ódio.
–Ele vai pagar.
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