Premonição Chronicles
4 Capítulo 04: O Esportista e O Romântico
Notas iniciais
POV MARCIO
Domingo de manhã.
Tento tomar fôlego, mas vejo a sombra passando ao meu lado, justamente quando o ponto de chegada está próximo. Só 50 metros, mas eu não consigo dar aquele sprint para chegar à frente. É, esse sempre vai ser meu problema. Quando percebo, chego no lugar indicado, mas a sombra, que atende pelo nome de Fabio já chegou antes.
Como se estivesse num transe, me jogo na grama e fecho os olhos, tentando descansar um pouco. Foi duro, e foi por pouco que eu não consigo ganhar dele. Tento deixar meus pensamentos me levarem, enquanto ouço tocar no ginásio atrás da pista de corrida We Will Rock You. Nada mais apropriado.
Mas isso é mesmo uma droga. Desse jeito, vai ser impossível ganhar dele na corrida de aniversário da cidade que vai acontecer no próximo domingo. Estou sentindo que estou preparado para correr, e chegar numa ótima posição. Porém, eu quero chegar antes de Fabio, e antes dele não há mais nada, apenas a vitória. Além disso, parece que o destino conspira ao meu favor. Outro corredor da minha idade se acidentou uns dias atrás, e não vai poder correr. Ou seja, só preciso passar Fabio. Só isso e consigo o tal do primeiro lugar.
E é exatamente a parte mais difícil.
Quando vejo, uma mão me ajuda a levantar. É Fabio.
– Dessa vez foi quase, hein? – Ele diz.
Sorrio ainda muito cansado. Eu nunca gostei muito dos chamados esportes convencionais: futebol, vôlei, basquete... Meu forte sempre foi em outro tipo de esportes. E foi aí que descobri a natação, e consequentemente, a corrida, e me apaixonei pelas duas. No começo eu fazia os treinos por fazer, mas a carga foi aumentando, e fui aumentando também. Faz parte do meu estilo, sou uma pessoa extremamente competitiva.
E aqui estou, nem sei como. Sou o segundo melhor do time de corrida da escola, só atrás de Fabio. Eu juro que nunca pensei em chegar aqui, mesmo com o porte atlético e adequado como a treinadora dissera para mim, eu não sou exatamente um exemplo de boa saúde. E aí lembro que preciso comer alguma coisa, como sempre os bolinhos que supermercado que eu trago.
Enquanto como, sou levado dos meus pensamentos até lembrar do parque aquático. Porra, como eu esqueci? Ainda tenho de ir pra casa, trocar de roupa, e ir encontrar com o Pedro, daí finalmente ir... Nem sei se meu corpo vai aguentar hoje, mas eu tinha combinado com meus amigos, e vou ter que ir. Não sou de furar compromissos, principalmente quando EU marco o compromisso.
É o seguinte: um amigo meu, o Pedro que é Reaper assim como eu, ganhou quatro passagens para o parque aquático da cidade, o tal do Blue River Adventure, e então deu dois pra um amigo nosso, o Lucas e pra namorada dele. Um ficou para ele obviamente, e ele me perguntou se eu queria o outro. Já dá pra saber a resposta.
Enfim, o casal decidiu ir hoje ao parque aquático, e eu também. Mas o Pedro não queria ir, e eu tive que convencê-lo a ir também. Eu não ia ficar segurando vela sozinho naquele parque. Pra completar, o João, outro amigo Reaper nosso, também ia ao parque, então porque diabos o Pedro não iria também?
...
Desço do ônibus, e pronto, aqui estou eu, novamente andando. Acho incrível a minha capacidade de nunca ficar parado. Já são 11h00, e o Pedro deve já estar querendo me matar por esperar tanto assim, literalmente. Ele disse que estaria próximo do shopping, mas não falou o exato local... Porra, aí fica difícil de saber onde ele vai estacionar, visto que o shopping tem umas 285063794724 entradas.
Fica bem mais fácil de achar o dito cujo quando alguém buzina feito louco do meu lado. Na primeira vez nem ligo, afinal estou com os fones de ouvido. Na segunda vez, finalmente escuto e já me viro na direção do barulho.
É ele.
– Graças a Deus, já era hora. – Pedro fala, enquanto eu entro no carro, no banco da carona. Ele não deve ter idade pra dirigir, quanto mais carteira, mas deve ter uma identidade falsa, provavelmente, pra poder dirigir. Anoto mentalmente: preciso de uma identidade falsa.
– Foi mal, foi mal. Desculpa pela demora. – Eu falo. – Você nem falou qual parte do shopping você estaria. Aí fica difícil, cara.
– Claro que falei MV. Você que não ouviu. Ah, mas deixa assim. – Naquele mesmo momento, estou colocando os fones de ouvido de novo, e então escuto a música que toca.
So lay me down
Let the only sound
Be the overflow
Pockets full of stones
Lay me down
Let the only sound
Be the overflow
Acho esquisito demais uma música chamada “What the Water Gave Me” estar tocando num passeio para um parque aquático, e então vejo que é meu sensor Reaper aparecendo novamente, me alertando, mas logo afasto essa possibilidade. Um dia ainda vou ficar paranoico com essas coisas. O que será que pode acontecer? Alguém sair gritando que o parque inteiro vai desabar? Eu rio diante dessa possibilidade.
Mas involuntariamente, sinto um pequeno arrepio.
...
POV GUIBSON
O ônibus chacoalha sem parar, enquanto Danielle deita a cabeça no ombro do seu namorado. Guibson.
Ele olha pela janela, enquanto vê tudo passando rápido diante dos seus olhos. Mas ele não está lá naquele momento, e sim pensando em como o destino estava sendo bom com ele. Ele e Danielle estavam juntos há um ano e meio, e o relacionamento deles, embora tivesse passado por alguns problemas, sempre permaneceu firme. Não era toda pessoa que conseguia ter um namoro adolescente com a mesma pessoa por um ano e meio. Isso já indicava que não era apenas um namoro adolescente. Era amor de verdade.
Ter uma namorada sempre esteve nos sonhos de Guibson, e da maioria dos garotos. Ele ainda se lembrava do pequeno caderninho que tinha quando criança, onde anotou muitos sonhos que tinha. Entre eles estava o sonho de ter uma namorada, depois virar sua mulher, e ter filhos. Vários sonhos daquele caderninho foram descartados, e até esse poderia ter sido modificado, mas o início dele realmente se realizou. E até mais rápido que Guibson pensava. E se realizou com Danielle.
– Amor, você não esqueceu as passagens né? – Ele falou, olhando para ele.
Guibson sorriu.
– Não, relaxa. Tá tudo aqui. – Ele falou, batendo na mochila que trazia.
– Ah, que bom. – Danielle falou, sorrindo. – Você teve sorte de ganhar essas passagens. Eu acho que eu nunca fui nesse parque aquático... o Blue River Adventure, não é?
– Somos dois. – Ele respondeu. – É, eu diria que eu tenho sorte. Eu ouvi na rádio esse anúncio, e pensei que não custava tentar, e agora... Bom, tenho um dia só com você. – Ele falou, dando um beijo na bochecha de Danielle.
De repente, Danielle deu um beijo na boca de Guibson, inesperado até mesmo para ele. Mas então, se deixou levar pelo mesmo. Quando os lábios se separaram, ele falou:
– Você sabe que eu faria qualquer coisa pra te levar num passeio diferente, né? Hoje vai ser um dos melhores dias da nossa vida.
– Desculpa, mas vou te corrigir. Vai ser o melhor dia, meu amor.
...
POV MARCIO
Saio do vestiário e então olho ao redor. Esse parque é realmente um formigueiro gigante. Estou acostumado com muvuca, e muita gente junta, mas isso já é um exagero.
Achar um quiosque aqui vai ser uma tortura, mas então olho para o lado e o Pedro já tá procurando outro quiosque no meio da muvuca. Tento seguir ele, na direção dos quiosques, mas facilmente me perco. Que maravilha. Ah, dane-se, depois eu acho esses quiosques.
Sigo andando pelo parque sem saber exatamente aonde vou. Vejo no horizonte, mais á frente, o grande Green Hype, e sua fila quilométrica, e próximo ao mesmo o Tubo da Morte. Ando mais um pouco, e vejo a entrada do famoso The River Emperor, o clássico “rio lento”, que corta o parque inteiro. Não, não quero ir nessas atrações, não agora. Só quero uma piscina mesmo. Continuo andando, indo cada vez mais longe, observando as grandes atrações do local, como o Red River Valley, o SuperSpiral, ou o Waterfront, uma grande piscina de ondas.
Quando olho pra frente, eu observo uma pessoa andando, junto de provavelmente sua namorada. É Fabio. Ele vai passar do meu lado, ele está vindo, e...
Viro na primeira entrada que vejo. Não que eu seja antissocial, mas sou aquele clássico tipo de pessoa que desvia de pessoas conhecidas em shoppings ou na rua, e aqui não é diferente. Quando vejo, passo por uma ponte, acima do The River Emperor, e finalmente chego na região dos quiosques, voltando a estar próximo do Green Hype. E então, eu finalmente vejo uma piscina, piscina mesmo, só que gigantesca, chamada Blue Lake. Mas que nome idiota, eu penso.
Logo depois, a água toma conta do meu corpo. Vou falar a verdade, é muito bom estar debaixo da água. Se eu fosse um semideus, com toda a certeza seria filho de Poseidon. Percy Jackson agora não, Marcio.
Quando saio da água, já identifico á frente o quiosque. Pedro está lá, e vejo outra pessoa se aproximando de longe. É o João. Pouco depois, aquele quiosque começa a encher, com a chegada de outros Reapers, o Felipe Chemim e o João Victor.
...
Estou sentado em um dos bancos do quiosque, e dou uma olhada ao redor. João está falando no celular com uma tal de Lais, Lucas ainda não apareceu, tudo está normal.
Tirando pela incrível surpresa de encontrar diversos Reapers, que juro que nunca esperei encontrar. Aí, meu senso de alerta Reaper aparece novamente. Normal até demais.
Corta essa, Marcio. Você tá muito paranoico hoje.
Balanço a cabeça, tirando esse pensamento, e me levanto do banco onde estou sentado, e então vejo algo que me espanta, pra falar a verdade.
O Peeh tá parado, olhando na direção do Green Hype. Tipo, paradão mesmo. Eu, hein? O Felipe fica olhando para ele com a mesma cara que eu, e vejo que ele está perguntando uma coisa pra mim, mexendo apenas a boca.
– Porra, o que tá acontecendo?
– Eu não sei. – Respondo. Logo depois, ele aparenta ter acordado do sonho, mas continuava com a expressão perturbada.
– Temos que sair daqui... – Ele fala. É nesse exato momento que eu vou com toda a minha curiosidade e pergunto, tentando já acalmar o coitado:
– Peeh, o que foi?
– Eu vi... PORRA, EU TIVE UMA VISÃO.
Esse é o meu momento de gelar por completo, assim como todos os outros, que ficam parados, sem falar qualquer coisa. O silêncio logo é quebrado por Chemim, que fala algo, provavelmente não acreditando. Mas eu ainda estou processando as informações, os sinais, o encontro inesperado... E isso agora.
– EU NÃO TO ZOANDO, EU VI! VAI TER UM ACIDENTE! – Ele fala. João tenta intervir na bagunça, mas o Peeh parece estar um passo a frente de nós.
E então subitamente o mesmo acha alguém no meio da multidão, que eu provavelmente nem tinha visto. É um cara com um short de patinhos e... Pera, para o mundo que eu quero descer. Eu já vi esse cara antes.
– Você! Vinicius!
Caralho, é o Vini.
Nesse momento já estou correndo atrás dos dois, que começam uma briga generalizada no meio do parque. De repente, eu vejo outras duas pessoas se aproximando. O Lucas e o... Não, pera. É o... Sam!? Minha mente ainda está processando todas essas informações que ocorrem exatamente ao mesmo tempo.
– Eu tô falando sério... – Peeh fala, voltando a chorar. Naquele momento ele vai correndo até a saída, mas sem antes não passar pelas piscinas gritando para todas saírem daqueles locais, e todos olhando descrentes, rindo... Isso é uma situação normal, afinal, a grande maioria não ia sair de sua diversão por causa de um lunático que estava achando que aquilo era um filme de Premonição.
E quando vejo já estou correndo atrás dele assim como a maioria dos Reapers. No meio do caminho, parecem que várias outras pessoas se juntam ao grupo. Vejo que um cara comprando dois sorvetes, que parecia estar atento a tudo que acontecia, segue a manada de Reapers até a saída. Também já vi ele em algum lugar... Acho que ele é o Guiby. Pronto, maravilha. Outro Reaper.
Quando finalmente chegamos ao estacionamento, finalmente respiro. O Pedro está sentado em um banco, recostado em algumas grades. Sento ao lado do Peeh. Nesse momento, Vini pergunta:
– Cara que que foi isso?
– Eu comecei a perceber aqueles sinais estranhos dos filmes. Eu juro que vi um acidente acontecendo.
– Você tá bêbado?
– Não tô cara. E também, não sei porque isso tá acontecendo comigo!
– Você nem se esforçou pra tirar as outras pessoas de lá. – Eu falo, olhando pro chão. Falo isso porque sei que é a mais pura verdade. Tenho quase certeza que até mesmo o Pedro não sabe o que está acontecendo com ele, não sabe se é algo relacionado com os filmes... Preferiu não arriscar, talvez? Não sei.
– Pois eu não sei o que tá acontecendo. Pode ser alguma coisa a ver com os filmes... Não sei se vai acontecer... – Ele fala, confirmando minhas suspeitas.
– Você toma algum tarja preta? Algum medicamento? Pressão alta? Fumou? – Vine pergunta a Peeh que responde negativamente. Depois disso, ele se afasta com a namorada dele.
– Peeh, você não faz ideia mesmo do que aconteceu? – Eu pergunto. – Tipo...
– Não, MV. Já falei. Eu só vi tudo acontecendo... – Ele leva as mãos à cabeça, e suspira.
– Droga. – Felipe fala do outro lado. – Isso é uma droga mesmo.
Então um barulho me assusta, vindo do lado do parque. Uma... Eu levanto boquiaberto, olhando na direção do que um dia foi o Green Hype. Gritaria, explosões, barulhos ensurdecedores que parecem que perfuram meus ouvidos. Nunca tinha ouvido um barulho ou uma mistura de barulhos como aqueles.
O barulho do pânico. Do medo. Aconteceu de fato.
Olho para trás, e no meio de todos os Reapers, ainda chocados, vejo o mesmo cara do sorvete balbuciando alguma coisa com a boca. Danielle. Quando percebo, João saiu correndo de volta para o parque, e eu finalmente saio daquele transe, e corro atrás dele, assim como Vinicius. Terrível erro.
Corro contra a multidão, no meio dos barulhos, e sinto o pânico que toma conta do Blue River Adventure.
No meio da multidão, piscinas tingidas de sangue, corpos retorcidos pra todo lado, árvores e placas caídas no meio dos caminhos. Não quero ver, não quero abrir mais os olhos. Mas consigo ver, não posso e não consigo ignorar. Se eu nunca vi uma pessoa morrendo na minha frente, agora eu vejo pessoas mortas pra minha vida inteira. Mais á frente, no meio da confusão, consigo identificar um corpo conhecido, esmagado por uma palmeira. Fabio. Ai, caralho.
Continuo correndo e registro uma cena terrível na frente dos meus olhos e que acho que nunca mais vai me deixar em paz. A piscina das crianças totalmente tingida de sangue, com várias delas boiando mortas, assim como o balde caído no meio daquele mar de sangue. Nesse momento, eu sinto algo subindo pela minha garganta, queimando todo o meu corpo por dentro. E finalmente saindo pela minha boca.
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