Notas iniciais
Escrito por 483ViniKaulitz.

No mesmo instante, alguém golpeou o vidro traseiro. Rafaela e Alisson gritaram no assento.

Era uma senhora. Ela ficou observando os quatro dentro do carro, os olhos congelados como vidro. Manchas rochas em suas bochechas e sangue seco em sua testa. Espuma saía de sua boca.

— Ela está...? — Rafaela perguntou.

— Lógico que está. — Natasha respondeu.

No instante seguinte, alguém surgiu por detrás da mulher. Grudou no coque da velha, arrancou-a da lateral do carro e jogou-a no chão. A mulher caiu e ficou de joelhos no pavimento.

— Ei! — Natasha e Max gritaram em uníssono. — Não é necessário...

O homem tinha uma cruz pendurada no peito. Tirou um frasco debaixo do braço, virou o líquido sobre a mulher e cuspiu o próprio cigarro na velha.

Natasha não teve tempo de gritar. As chamas se ergueram na cabeça da mulher, repentinamente iluminando aquele trecho do túnel. A velha começou a se debater, ainda de joelhos e passou a vomitar jatos de fluídos alaranjados, um colorindo o vidro frontal da caminhonete. Durou alguns segundos em equilíbrio, então tombou para frente.

Quatro horas antes.

Era dezembro e o clima no Brasil parecia promissor. Pela janelinha do avião, observava as nuvens já desmanchadas, parcialmente devoradas pelo bico da aeronave.

Alisson não tinha ideia sobre onde estava se metendo exatamente, mas devido as experiências anteriores de sua vida, duvidava que fosse encontrar situações piores.

Ela não acreditava em almas gêmeas. Ela acreditava em si mesma. Mas não podia negar, a lista da morte tinha levado o que poderia ter sido o companheiro de uma vida inteira. O jovem havia salvado Alisson das garras do suicídio quando ela era jovem. Então a vida fez e desfez os nós, toda a luz pareceu ir embora e mais tarde, a única maneira que Alisson encontrou de retribuir a dívida impagável ao rapaz foi (ironicamente) conduzindo-o ao próprio suicídio.

Nos primeiros meses seguidos ao suicídio do jovem, aqueles pensamentos surgiam na mente caótica dela como uma piada mórbida e infinita: quando chegava ao fim, na verdade apenas estava voltando ao início.

Mas ela evitava e evitou. E ultimamente ela não sentia mais as ondas de remorso batendo de frente com ela. Ultimamente eram mais como tsunamis – surgiam ocasionalmente, de repente vinham fazendo um estrago imensurável, e então tão de repente quanto haviam surgido, iam embora.

Terminava o suco que havia pedido. Estava quase desembarcando em Cabo da Praga, finalmente pronta para desenvolver um projeto de filme em parceria com uma produtora local. Ao finalizar o curso de cinema, Alisson tinha desenvolvido uma monografia sobre as representações atuais de narrativas com base em mitologias antigas – e como suas respectivas influências alteram os diferentes cenários do cinema moderno. Um jovem cineasta brasileiro chamado Demétrio havia lido a monografia pela Internet e então se apaixonou pela pesquisa de Alisson.

Ele estava desenvolvendo um roteiro relacionando as diferenças peças chaves da mitologia grega com suas simbolizações atuais, quase como personagens de um jogo. Para leigos: era um filme de terror. Alisson ajudou no que podia por e-mail, mas aquilo estava indo longe demais. Os dois apaixonados por história e cinema passaram meses trocando e-mails e chamadas longas no Skype enquanto desenvolviam a história, e então, após receber créditos de produtora, Alisson não podia evitar senão dar uma fugida de Londres e finalmente vir para Cabo da Praga acompanhar as filmagens do projeto.

E lá ela estava. Finalmente de volta no Brasil.

Encarou seu reflexo na tela apagada do celular. Os olhos um pouco puxados devido a uma muito distante descendência indígena estavam quase fechados devido ao sono, mas ela ainda podia ver a cor âmbar da íris acesa como uma chama, nunca apagada. Tinha herdado os olhos de raposa de sua mãe. O rosto quadrado, as mandíbulas delineadas perfeitamente quase como se alguém tivesse passado tempo demais a esculpindo. Os cabelos escuros e lisos, parcialmente enrolados num rabo de cavalo, caindo sobre a lateral de seu pescoço. Vestia um moletom cinza da faculdade e tinha as pernas cruzadas na poltrona no formato de meditação.

Tirou o fone e só então ouviu a respiração entrecortada próximo a ela.

Um jovem que não aparentava ter mais de 25 anos lutava para se recompor no assento, segurando contra os braçais, respirando fundo e suando. Algumas pessoas próximas a ele pareciam desconfortáveis, mas já acomodadas com a situação, quase como se aquilo já estivesse acontecendo por um bom tempo. De repente os olhos dele, marejados e de um tom verde musgo e sem brilho cruzaram com os dela.

Ela quis desviar o olha, mas não o fez. Ainda se recompondo no assento, ele soltou um sorriso nervoso e suspirou.

— Eu tenho crises de ansiedade. — Ele parecia desapontado consigo mesmo. As pernas longas mexendo sem parar. Abaixo do boné camuflado que ele usava, ela via o cabelo castanho escuro cortado no estilo militar. O maxilar triangular e forte, olhos levemente puxados como os dela e lábios cheios. — Logo passa essa crise.

Ela assentiu e sorriu.

— Tudo bem. Respira fundo que vai dar certo.

Ele concordou e suspirou fundo, voltando para sua própria batalha. Virou-se de volta para ela.

— Você... me lembra a Apology Girl.

Alisson virou os olhos.

— Quê?

O rapaz abriu uma mochila em seu colo, tirou o que parecia um rascunho de uma história em quadrinhos. Ergueu uma folha e mostrou o esboço de uma super-heroína com os olhos da cor dos dela.

Alisson sorriu.

— Posso ver?

XXXXX

Recostada contra o parapeito do Lagoa Negra, o aeroporto internacional de Cabo da Praga, Natasha observava o sol se pondo no horizonte, não totalmente absorvida na bela visão.

Cabo da Praga era uma cidade localizada numa ilha gigante de 150 quilômetros quadrados no sudeste do país, exatamente na divisa entre dois estados – quase não pertencendo a nenhum deles. Na ponta norte da cidade, além do túnel gigante para a entrada da Teodoro Kaulfuss: a ponte que servia como meio de entrada e saída principal da ilha,se localizava o centro financeiro.

Repleto de prédios e construções agressivas, ruas movimentadas e constantemente cheias de pessoas vestindo roupas sociais em direção a seus respectivos prédios e escritórios – além de servir como ponto de referência para um vasto condomínio repleto de mansões.

Do Norte indo para a zona leste,acumulavam-se as inúmeras lojas de departamento e comércio em geral – considerada como a área central, a mais movimentada da cidade. Continha parques ambientais em diversos pontos. Os hospitais eram localizados exatamente no centro da ilha. No sudeste da cidade ficava o subúrbio, a área residencial da ilha, contendo desde os bairros mais seguros para se viver, até os piores. Na ponta sul para o oeste era a zona menos populosa da cidade, contendo florestas, as instalações das indústrias e ainda sobrando espaço para grandes plantações e fazendas. Ao redor do litoral de toda a ilha, haviam diversas baías e portos, propícios ao comércio marítimo. Exatamente na ponta do lado oeste era localizado o Lagoa Negra, o aeroporto internacional de Cabo da Praga.

Natasha sabia que não era a primeira a perceber aquilo, mas podia admitir: o aeroporto dava de frente para um pôr do sol espetacular. Ela só estava um pouco preocupada, pois o voo de Max estava alguns minutos atrasado. E ela também estava um pouco preocupada com ele.

Dois caças sobrevoaram o céu diante de Natasha em direção ao sudoeste e ela instintivamente recuou um pouco da vidraça que balançou. Ela olhou um pouco envergonhada ao redor pelo saguão de espera – um pouco mais vazio do que o normal, então deu de ombros. Não entendia o motivo dos caças estarem sobrevoando a cidade desde a manhã do dia anterior. Ninguém sabia direito o que estava acontecendo e no fundo, Natasha não estava tão preocupada em descobrir. Aconchegou-se outra vez, sentindo se solta demais no moletom cinza gigante de Max que havia pegado da mesa dele. Puxou a touca e colocou.

Os olhos puxados, dourados e expressivos, só que dessa vez desarmados – estava claro que Natasha estava perdida em seus pensamentos. Os cabelos grossos e enrolados cuidadosamente arrumados, repousando contra a pele negra, suave e intensa ao mesmo tempo. Os lábios cheios, mas agora secos, quase como se ela estivesse esperando aquele momento fazia muito tempo.

Não fazia tanto tempo. Max tinha ido para Los Angeles quatro dias antes, ele era desenhista e colorista de uma história em quadrinhos sobre uma super-heroína retirada combatendo um apocalipse extraterrestre. A história tinha sido feita em parceria com uma amiga americana, Max a conhecia fazia muito tempo também, principalmente pela Internet – ele era apaixonado por quadrinhos. Após anos desenvolvendo a história com Max, Lucy finalmente havia entregado o roteiro para o desenhista – que então fez o primeiro esboço. Uma editora aceitou publicar e Max foi assinar o contrato lá fora.

Max era um homem crescido, mas o pobre homem era uma bagunça. Ele era calmo, tranquilo como aquele pôr de sol. Natasha era o oposto, ela era uma tempestade de raios, mas aquele não era o principal problema. Devido a Max ser antis social demais e talvez alguma coisa ou outra, ele acabou desenvolvendo diversos transtornos obsessivos-compulsivos, TOC’s, então qualquer coisa estranha demais era vista como um inimigo em potencial para a tranquilidade de Max. E viajar de avião estava incluso no pacote. Tinha dado trabalho...

Mas agora Max estava voltando e Natasha se sentia uma mãe orgulhosa.

A jovem estava cansada. Sentou-se na fileira vazia de assentos plásticos. Tinha passado a manhã inteira trabalhando no fórum. Estava no quarto ano de Direito Penal. Seu interesse na área tinha começado pois seu pai, Luis Silveira era um dos chefes do departamento da polícia local, e pelo que Natasha lembrava-se de sua infância, ele e as histórias de suas caçadas estavam sempre presentes. O interesse de Natasha era ainda mais intenso nas histórias sombrias, então logo passou a fazer pesquisas em casos não resolvidos e serial killers.

Enquanto crescia, lia livros, pesquisava, assistia a documentários, até que um dia notou que estava virando uma enciclopédia de fatos estranhos. Não se importou. Aos 16 anos, criou o Clube dos Testemunhas, uma espécie de comunidade para que os fãs de serial killers e casos não resolvidos pudessem se juntar, cada um fornecendo seus próprios materiais, insights, teorias e também, conduzindo suas pequenas investigações privadas nesses tais casos. Foi nesse mesmo Clube que conheceu Max.

Durante os dois anos seguintes em que se mudou para Londres, Natasha aproveitou o tempo que tinha e passou a escrever. Após voltar ao Brasil, publicou dois livros da série "Flores Mortas", contando a ficcional história de Ana Menezes, uma garota que perdeu os pais nas mãos de um casal de serial killers quando criança. A garota cresceu e tornou-se investigadora, passando a resolver crimes similares até encontrar-se de volta com o os seriais killers que assassinaram seus pais.

Naquele mesmo instante, ela estava pensando sobre qual cena iria usar para começar a terceira parte da série. A faculdade e o trabalho estavam cobrando demais dela ultimamente, então ela não tinha tempo. Às vezes pensava em largar o estágio para dedicar-se totalmente de volta a seus livros, mas o dinheiro de Max apenas não era o suficiente para manter os dois em conforto. Não chegava nem perto...

Ouviu um barulho de tênis de borracha riscando o pavimento, então virou-se de repente. Uma equipe de cerca de quinze pessoas surgiu de um corredor trazendo o que parecia ser uma espécie de tenda para ser montada. Várias das pessoas da equipe retiravam uniformes brancos de maletas de borrachas, daqueles que se vê em filmes, em casos de doenças infecciosas. Para casos de quarentena.

Ela sentiu seu estômago revirar. Teria aquilo ligação com os caças sobrevoando a cidade? Então sentiu seu fôlego retomar – virou-se de volta ao horizonte. Um avião estava finalmente pousando na pista. O alto-falante anunciou que aquele era o avião de Londres que havia feito uma conexão em LA, mas tudo que Natasha ouviu era que o amor de sua vida estava de volta.

Ela então esqueceu-se de tudo e pôs-se a sorrir.

XXXXX

Amélia ajeitou os óculos em seu rosto, rapidamente passou a mão nos cabelos longos e escuros, então entrou calmamente no CAPS – Centro de Atenção Psicossocial.

Dr. Alex, o seu professor, havia prometido que daria esta oportunidade de atuação na área, se ela topasse ser sua assistente na conferência nacional de saúde mental, depois que ela prometeu ir bem ao final do semestre. O semestre havia acabado – e a jovem passara com maestria, então Amélia topou sem pensar duas vezes. Rapidamente olhou-se no espelho, tirou um crachá do bolso do jaleco branco e pendurou-o contra o peito, marchando em direção à recepção.

Foi interrompida por um toque suave em suas costas e virou-se. Um homem alto, de cabelos pretos curtinhos e olhos azuis intensos a encarava de volta. Ele vestia um jaleco branco apertado na parte superior que acabava revelando os músculos em seus braços, mas ela voltou a focar-se no rosto. Ela pode até enxergar algumas sardas.

— Oi. — Ele disse sorrindo, um charme meio de vagabundo. — Você é a Amélia, a assistente do doutor Vinhas?

— Ah, isso. — Ela concordou séria. — E você é?

— Ah eu sou o Evandro, o enfermeiro. Eu ia acompanhar vocês na viagem, mas acabou sendo cancelado de última hora, você não ficou sabendo?

— Eu não. — Amélia ficou decepcionada. — Sério? Mas o professor me mandou mensagem agora há pouco...

— Foi de última hora. — Ele disse com um sorriso triste. Ele se parecia com algum famoso e ela não conseguia lembrar-se de quem. — Que pena, não é?

— Com certeza. Nossa...

Ele despediu-se com um aceno, virou-se repentinamente e saiu andando na direção oposta. Ela confusa observou ele desaparecendo no corredor, então marchou em direção a recepção.

— Moça, por favor... — Ela aproximou-se do balcão da atendente. — A viagem do Dr. Vinhas para o Congresso foi cancelada?

A atendente a encarou através dos óculos, sorriu gentilmente e virou-se para suas anotações.

— Pode ver para mim por favor? — Amélia repetiu, retribuindo o sorriso.

— Claro. Ainda está marcada para daqui há pouco.

— Que estranho. Um enfermeiro acabou de me dizer que havia sido cancelada... pode me mostrar onde estão os pacientes que vou levar?

— Mas qual enfermeiro? Você viu o nome dele?

— Evandro. — Amélia respondeu de imediato. Tinha guardado o nome para procurar no facebook mais tarde.

— Evandro? — A atendente franziu a testa e reprimiu um sorriso triste, de como se já tivesse passado por aquela situação antes. — Evandro, um bonitão?

— Isso. — Amélia ficou séria. Virou-se e viu a silhueta de Evandro surgir novamente no lado oposto do saguão e apontou.

— Amiga. — A atendente aproximou-se de Amélia como se fosse contar um segredo. — Aquele lá que conversou com você não é enfermeiro. Ele é um dos pacientes que você vai levar...

— Como assim?

— Evandro é só uma persona do Mariano para conseguir vantagens sobre novatos aqui no Caps. O Mariano é na verdade um ótimo ator, um de nossos pacientes mais talentosos, e as vezes um dos mais perigosos também.Ele prega peças no pessoal o tempo todo.

Amélia sentiu-se otária.

— Ah. — Ela sorriu desconcertada. — Bom, ele me pegou de jeito.

XXXXX

Natasha esperou ansiosa do outro lado da tenda. Eles haviam montado uma tenda gigante na área de desembarque. Acabou ouvindo a conversa de alguns funcionários sobre uma doença que poderia estar se espalhando, e sentiu um pouco de preocupação.

Logo os passageiros começaram a sair das cortinas e seus familiares os recebiam com abraços. Então avistou Max dobrando o corredor, um pouco acabado da viagem, mas sorrindo com alguém, o boné virado para trás. Do lado dele tinha uma moça bonita de cabelos escuros.

Natasha sentiu o rosto esquentar, ao mesmo tempo seu escudo voltando.

Max abriu um sorriso imenso quando a viu e correu tímido em direção a ela. Uma senhora passou próximo aos dois e soltou uma careta estranha ao vê-los juntos, então Natasha deu de ombros e deu um beijo de língua em Max.

— Oi Nat. — Max sorriu. — Uau.

— Senti sua falta. — Natasha o abraçou. — Sentiu a minha?

— Você sabe a música. — Max olhou para o canto enquanto falava. — Eu posso segurar minha própria mão, mas não posso beijar o meu próprio pescoço. Preciso de você.

Natasha sentiu-se corar mas ignorou.

— Que porre Max. E quem é sua amiga?

A garota estendeu a mão.

— Sou a Alisson...

— Essa é a Alisson. — Max tratou de explicar. — Ela veio a trabalho, sabe o Alfa né? Então, ela conhece ele.

— Ah legal. — Natasha sorriu. — Você trabalha com cinema?

— Exatamente.

Natasha não estava com ciúmes, mas ainda estava confusa sobre como eles se conheciam, Max percebeu.

— Você sabe, eu tava passando mal no avião, então ela conversou comigo e me ensinou uns métodos para me acalmar, sabe? O namorado dela tem esses ataques também.

— Ah claro. — Natasha sorriu de volta para Alisson. — Então você deve saber o que eu passo com ele aqui.

— Eu sei... Mas não vai ser tão útil mais. — Alisson riu meio triste. — Eu terminei com ele pra vir pra cá... é uma longa história.

— Você pode me contar se quiser. — Natasha deu de ombros enquanto saia andando com Max. — Qualquer pessoa que passa mais de cinco minutos com o Max sem se assustar com ele já pode se considerar minha amiga.

Alisson riu e ergueu a própria mochila de volta nas costas.

— Fechado.

XXXXX

Os militares se dispersavam lentamente pelo aeroporto. Natasha observava várias das plaquinhas dos aviões mudarem o status de atrasado para cancelado. Ainda, sentia-se feliz que Max havia chegado bem.

— Fizeram algum teste científico em você? — Natasha perguntou apontando para uma das tendas enquanto Max pegava as bagagens na esteira. — Pegaram teu xixi e jogaram no clorofórmio?

— Colocaram amostra da nossa saliva num recipiente. — Max comentou. — Gripe suína?

— Sei lá. — Natasha deu de ombros. — Deve ser algo passageiro.

— Ouvi falar que estava tendo um surto de gripe mais pesada aqui em Cabo. — Alisson comentou. — Vou ter que me vacinar por aqui.

— Faça isso. — Natasha riu.

Outro som de sapato de borracha riscando contra o piso e eles viraram.

— Peguem ele!

A cena pareceu câmera lenta. Um homem alto e magro surgiu correndo de um dos portões de embarque, a camiseta parcialmente rasgada exibindo um ferimento horrível no tórax e várias lesões nos braços e pescoço. Os olhos avermelhados pareciam estar revirando nas órbitas, cercados por manchas roxas e vermelhas. O homem balbuciava algo, parecia já estar deslizando para o estado da subconsciência.

—... ir pra casa! — o homem gritou entre gemidos, então desabou no chão. Natasha observou alguns fluídos de sangue serem arremessados da boca e das lesões do homem ao baterem contra o pavimento. O homem então vomitou.

No mesmo instante, cinco homens vestindo aqueles macacões com isolantes de vírus praticamente se arremessaram contra o homem, para que ele não acordasse de súbito e voltasse a correr.

Natasha viu um dos homens da quarentena sacar uma pistola pequena com um bico grosso do bolso e enfiar discretamente entre o tórax do homem e entre um outro de seus colegas.

Mesmo com o silenciador na pistola, Natasha ouviu o pff metálico e do ar comprimido sendo deslocado no tiro.

O homem parou de se debater e gritos ecoaram pelo saguão do aeroporto.

Natasha sentiu a mão de Max fechando ao redor de seu pulso.

Um dos homens da quarentena que haviam detido o homem levantou-se do chão e apontou em direção aos seguranças nas saídas do aeroporto.

Os homens próximos as saídas concordaram e passaram uma mensagem no rádio.

Natasha, Max e Alisson se encararam.

— Selando o aeroporto. — Max sussurrou. — Eles estão selando o aeroporto.

As portas automáticas começaram a se fechar.

XXXXX

Todas as saídas do saguão principal já estavam trancadas, então Natasha decidiu descer ao subsolo, pois os portões das garagens podiam levar mais tempo para se fechar. Ao saírem da escada no subsolo puderam enxergar os portões ainda abertos.

— Ali! — Natasha gritou. — Aquilo!

— Não vamos conseguir! — Max disse com a voz entrecortada. — Eu vou ficar entalado!

— Não vai não, vai passar!

Agora os três corriam pelo estacionamento dos funcionários em direção a uma das portas basculantes de saída que tinha acabado de ser ativada para se fechar.

Alisson lutava perdendo o fôlego, sofrendo para acompanhar os dois que corriam mais rápido, mesmo carregando mais peso. Os três chegaram no portão ao mesmo tempo e Natasha rolou para o lado de fora com uma habilidade incrível.

Max empurrou Alisson enquanto rolava suas mochilas pelo chão para o lado de fora também.

Alisson sentiu o ar da noite enchendo os seus pulmões e arregalou os olhos acostumando-se no escuro. Certificou-se de que estava totalmente fora do perímetro do portão que descia, então no mesmo instante que Max arrastou-se para fora da garagem, o portão fechou com um estalo metálico.

Os três se encararam no escuro, fora do aeroporto. Alisson conhecia os dois há pouco tempo mas quebrou numa risada nervosa. O casal a encarou e passou a rir baixinho, os três sentados no chão, cercados por malas semiabertas.

Então um par de botas militares pisou bem ao lado de Alisson e ela sentiu o calor e o sorriso desaparecendo de seu rosto.

XXXXX

— O Mario foi diagnosticado com esquizofrenia quando criança. — Dr. Alex comentava casualmente com Amélia. — É raro casos de esquizofrenia manifestarem tão cedo.

A jovem observava Mariano conversando empolgado com os dois pacientes que iriam junto, Marco e Janisce.

Mariano olhou para Amélia e riu, então cochichou algo com Marco, um outro grandão musculoso. Janisce ficou chateada por não ouvir e deu uma tapa de leve nos dois.

— Ele perdeu os pais quando criança e foi barrado dos melhores tratamentos com chances de resultados. Foi para abrigos, orfanatos e nada deu muito certo. Durante a adolescência passou a desenvolver uma espécie de comportamento sociopata, mas não é um paciente totalmente difícil de lidar.Ele tem um bom humor,e é gentil se você for gentil com ele.

— Então você está me dizendo que ele não é perigoso, mas morde?

— Mais ou menos isso. — Dr. Alex comentou. — Às vezes ele se torna agressivo e um pouco infantil demais, ou expressa desejos de grandeza que não condizem com a realidade. Tem dias que ele diz que vai retomar a fortuna da família, mesmo sabendo que seus pais morreram falidos.

— É uma pena. — Uma enfermeira próxima comentou. — Tão bonito esse jovem...

— Se ele não fosse bonito você não teria pena? — Amélia perguntou para a enfermeira e encarou Mariano.

Dr. Alex observou o olhar de Amélia em Mariano e suspirou.

— Não deixe a boa aparência de ele enganar você, Amélia. Ele não é de dar muito trabalho, mas também não é de se confiar.

— Eu entendi, professor.

XXXXX

Janisce levou as mãos até o ouvido e recostou-se contra o sofá.

Se tem uma coisa, que me deixa passada, é gritar comigo, sem eu ter feito nada...

— Jesus, Janisce. — Mariano virou-se no outro sofá e respirou fundo.

Desde que havia sido avisado que ia participar de um congresso distante, Mariano tinha tido esses sonhos horríveis envolvendo carros, pontes, túneis caindo. Ele não era muito de sair de sua zona de conforto, mas das outras vezes que saíra, jamais tinha recebido presságios tão prescientes e fortes.

Alguma coisa estava errada.

Ele sentia o grito sempre morrendo na própria garganta. E por mais que avisasse todo mundo que não podia ir, que não queria ir, pois algo grande e errado estava prestes a acontecer, ninguém entendia.

Só porque as vezes ele passava dos limites e chutava alguém, ou furtava uma pequena quantidade de sedativos do armário dos enfermeiros, não queria dizer que ele não deveria ser ouvido.

Então ele tinha partido para o plano. Iria confundir a assistente do doutor, ao mesmo tempo em que ia tentar ligar para o outro enfermeiro e avisar que a viagem dele havia sido cancelada.

Nenhum dos dois planos tinha dado certo.

Alcançou um grampo na parte interior de suas meias e esticou-o, prestes a ir até os armários dos funcionários.

Era hora de partir para o plano C. Hora de sujar as mãos.

XXXXX

O militar encarou Alisson de cima a baixo, em seguida Max e Natasha. Então o casal suspirou aliviado e Alisson sentiu-se estúpida por não entender a piada.

— Jesus, Vitor. — Max levantou. — Me explica que porra está acontecendo!

— Vitor é o meio irmão do Max. — Natasha sussurrou para Alisson. — Ele é... Militar, como você pode ver.

Pelas luzes da garagem, Alisson notou que Vitor tinha vários dos mesmos traços de Max, altura, fenótipo e maxilar. Contudo Vitor era alguns anos mais velho, mais forte e tinha olhos escuros e intensos. Também, demonstrava muito mais autoconfiança do que Max.

— Tudo o que eu fiquei sabendo é que um vírus muito perigoso está infectando muita gente na cidade. Trouxeram a gente pra cá pra ajudar com o CPD, mas parece que tudo tá virando um caos.

— Eles mataram um cara! — Natasha exclamou e então os três pareceram subitamente envergonhados por estarem rindo por terem conseguido escapar. — Eles mataram um cara na frente de todo mundo!

— Não acredito. — Até Vitor pareceu surpreso. — Deve ser... Esquece.

— Fala! — Max encarou. — Começou termina.

— Não posso falar. — Vitor suspirou. — Nem eu tenho certeza do que é.

— Então em breve a gente se fala. — Max virou-se para sair andando, então Vitor o segurou pelos ombros.

— Você viu o cara sendo assassinado. — Vitor comentou, com seu jeito de militar exagerado. — Nenhum de vocês foi infectado?

— Tá maluco, Vitor? — Natasha comentou. — A gente saiu correndo que nem doido, ninguém se infectou.

— Tá tudo bem, c-cara. — Max sussurrou. — Tome cuidado.

— Vocês também. Vê se não morre hein Max. — Max socou Vitor no ombro. O militar encarou apenas Alisson agora. — Se cuidem.

Alisson e Natasha concordaram. Os três jogaram a bagagem nas costas e andaram até o estacionamento.

XXXXX

— Que bom que eu fiz compras ontem.

Natasha dirigia atentamente, começando a ficar estressada com o tráfego. Era quase oito da noite e a cidade estava uma bagunça.

Carros lotados deixavam supermercados e pessoas corriam apressadas pelas ruas. Sentada no banco traseiro, Alisson era constantemente atingida pelas luzes dos carros da polícia, tanto que sua visão já estava acostumando.

Natasha estava indo ao hospital buscar sua irmã, Rafaela. De acordo com Nat, Rafaela era jornalista local e tinha se machucado numa transmissão que havia acontecido de tarde.

— Beleza. — Max finalizou a ligação. — Nat, meus pais viram na TV que bastante gente está saindo da ilha com medo da infecção.

— Se a gente for deixar a ilha, vamos para a casa dos meus pais.

— Da última vez já ficamos na casa dos seus pais. — Max riu. — Agora vai ser na minha.

— Dessa vez não conta... Alisson, conversou com o Alfa?

— Ele vai me encontrar perto da sua casa.

Alfa tinha prometido encontrar Alisson no aeroporto, mas de última hora havia mandado a ela uma mensagem dizendo que sentia muito, mas não chegaria a tempo devido a um imprevisto de última hora. Alisson iria pegar um táxi, mas com o caos acordando na ilha ela topou a carona de Nat e Max. Eles eram boas pessoas.

— Ok. — Nat suspirou. — Olha esse estacionamento do hospital...

Alisson observou Nat virando a esquina. Já tinha praticamente um engarrafamento na via do hospital.

— Não tem como chegar lá. — Nat deu de ombros enquanto estacionava a caminhonete. — Vou encontrar a Rafa.

— Quer que eu vá contigo? — Max a beijou. — Eu faço esse sacrifício... de andar no meio dessa gente.

Natasha avaliou a situação.

— Eu vou contigo. — Alisson tirou o cinto de segurança. — Pelo menos vou conhecer um pouco da cidade.

— O hospital? — Max riu.

— É o suficiente. — Alisson respondeu e saiu do carro.

Max observou Nat e Alisson sumindo no meio da multidão, agora se juntando no meio da calçada.

O som de uma vidraça se quebrando ao longo da rua oposta, Max deu um pulo. Secou o suor do rosto e trancou o carro.

Começou a assoviar o tema de Batman.

— Que merda está acontecendo com Gotham? — sussurrou.

XXXXX

Mariano vestia um uniforme e um boné azul escuro. Tinha conseguido no armário dos funcionários. Passou na segurança da saída e sorriu.

Só precisava encontrar a ambulância no estacionamento. Tinha ouvido sobre um surto de gripe na cidade, mas sabia que aquilo não seria o suficiente para poupá-lo do Congresso, e principalmente do acidente horrível que poderia acontecer no caminho.

Tinha encontrado o armário de um dos motoristas aberto. Assim não precisaria arrombar uma segunda fechadura. O uniforme tinha ficado um pouco apertado, principalmente curto nas pernas, mas sabia que ninguém reparava muito nos sub-funcionários. Pelo menos ele não.

Encontrou a ambulância. Sacou o pequeno canivete do bolso da calça e abaixou-se próximo ao pneu.

— Nem pensar Mario.

Mariano virou-se e dois dos seguranças principais do CAPS o encaravam.

— O Tico e o Teco. — Mariano forçou um sorriso enquanto esticou o braço para atingir o pneu. — Tarde demais.

Teco ignorou uma das instruções básicas de não chutar o paciente – e chutou o braço de Mariano. O canivete voou embaixo do carro enquanto Tico juntava Mariano se debatendo pelos braços.

— Eu disse que não posso ir nessa viagem! — Mariano berrou, jogando. — Cadê sua educação? Você não pode chutar os pacientes!

— Quer apostar que eu chuto de novo?Rapaz, você vai nessa viagem nem que seja amarrado.

Mariano fez uma expressão de raiva e então não disse nada. Deixou-se ser levado de volta para o prédio.

Plano D.

XXXXX

— Eu juro pra você — Rafaela sorria que nem uma maníaca. — Era a Serena Rabelo! Ela me viu quando eu estava ao vivo cobrindo aquele tiroteio na Baixa Praga e elogiou meu trabalho! Ela disse que fui ótima.

— Parabéns sister. — Natasha andava apressada de volta para o carro. Alisson tinha ficado em silêncio desde que tinha sido introduzida a Rafaela. A jornalista tinha vários dos mesmos traços de Natasha, mas ao contrário da irmã, parecia adotar um estilo muito mais próximo ao padrão da TV. Maquiagem para deixar os olhos menos puxados e os cabelos escuros, brilhantes e lisos descendo até o decote azul marinho social. Ela era muito elegante.

Ela tinha um sorriso maravilhoso que Alisson ficava intimidada. Ao mesmo tempo era infectada pela empolgação da repórter, e não conseguia parar de sorrir de volta. Rafaela tinha sido atingida por uma pedra durante um tiroteio na Baixa Praga, a parte pobre da ilha, e por isso estava no hospital, ainda vestindo o uniforme social. Apesar de estar com a perna enfaixada, já tinha sido liberada pois o hospital estava enchendo de gente com alguns sintomas da tal gripe.

Aparentemente, Serena Rabelo era uma grande jornalista e escritora, e estava na cidade conduzindo investigações sobre uma espécie de vazamento de produtos químicos de uma indústria local. Era coisa grande.A renomada jornalista havia assistido ao livefeed de Rafaela sendo machucada e continuando a transmitir as notícias. Serena então sentiu os sintomas da gripe e decidiu passar no hospital. Encontrou Rafaela e as duas passaram a tarde conversando.Rafaela tinha ficado tão empolgada que tinha contado o que podia e não podia.

— Serena Rabelo me elogiou e me deu seu número. — Rafaela repetiu, ainda desfilando sem dificuldades na calçada com o salto alto. — É o meu dia. Amo aquela vadia.

Natasha tentou abrir a porta do carro, Max deu um pulo lá dentro e destravou. Assim que todos entraram no carro, Max desviou o olhar do celular, apenas a luz do visor o iluminando.

— Precisamos sair da ilha. — Ele estava nervoso. —Agora.

XXXXX

— Nós não podemos ir! — Mariano berrou pelo corredor. — Eu sei que estou certo!

— Sua presença é obrigatória, Mariano, eles têm uma surpresa pra você lá. — Dr. Alex argumentava, seguindo atrás de Tico e Teco. Janisce e Marco olhavam curiosos do saguão, um pouco decepcionados que seu amigo tinha perdido o controle. — Temos que sair daqui o mais breve possível!

— Por que ninguém acredita em mim? — Mariano implorou. — Vocês sabem que não é a primeira vez que eu sonho com algo e acontece!

Além de Amélia, ninguém estava dando tanta atenção.

— Me ajuda, Amélia!

Ela ajudaria em outras ocasiões, mas não naquela. Mariano repassou na mente os passos de como escapar dos seguranças, então se preparou.

Ele tinha que fingir que estava indo junto com os rapazes, então rapidamente iria recuar com força, escapando do alcance do Tico e Teco. No instante em que eles dessem conta, Mariano já daria a volta e correria novamente.

Ele não iria ao Congresso.

Mariano arremessou-se de costas com força e escapou dos seguranças. Eles cambalearam confusos e ele deu a volta nos dois e disparou correndo, então no mesmo instante sentiu-se fraco demais. Suas pernas pesaram.

Ele estava com muito sono.

Olhou para trás e viu a seringa de sedativo ainda injetada em sua bunda. Caiu no chão, ainda olhando assustado para os seguranças e o Dr. Alex. Amélia estava chocada.

Teco abaixou-se e sussurrou em seu ouvido:

— Sonhe com o Luigi, seu filho da mãe.

Foi aí que Mario apagou.

XXXXX

Era quase dez da noite. A parte traseira da caminhonete de Natasha estava carregada com alguns mantimentos, coletados às pressas no apartamento. Natasha aumentou a intensidade do farol à medida que entrava no longo túnel, que então dava em direção a ponte de saída da cidade.

Max havia lido que o governo estava prestes a selar a cidade em estado de quarentena devido a ferocidade do vírus em alguns casos. Em circunstâncias normais seria impossível executar uma quarentena numa cidade, mas considerando que a cidade estava localizada numa ilha e que só existia uma saída por via terrestre, e as outras eram marítimas ou aéreas, era relativamente fácil.

Antes de entrarem no túnel, constantemente ouviam o som de helicópteros sobrevoando a cidade. Agora as buzinas no interior do local eram altas demais para distinguir qualquer coisa do lado de fora.

Lá estava o grupo, pronto para dar o fora de Cabo da Praga. Pelo menos por alguns dias. A via que vinha do litoral de fora estava praticamente vazia, então muitos motoristas que estavam saindo tinham pegado aquele lado também e agora ambos estavam bloqueados.

— Então você vai encontrar o Alfa fora da cidade, é Alisson? — Natasha perguntou, tentando aliviar o estresse.

— Isso! — Alisson respondeu. — Ele ia só amanhã para o estúdio em Valadares Brandão, mas como esse caos está acontecendo ele decidiu sair hoje já.

— Alfa? — Rafaela tirou os olhos do celular. — Alfa Demétrio Gama alguma coisa?

— O próprio, o cineasta. — Max completou do banco da frente.

— Eu estudei com ele. — Rafaela sorriu. — Ele era uma bagunça no ensino médio, mas hoje é um gato.

— Só conversei com ele por e-mail. — Alisson sorriu envergonhada. — Mas ele é.

— Pega ele, amiga. — Rafaela cutucou Alisson, que riu. — Eu pegaria se não fosse—

— Tudo bem, Max? — Natasha encarou o namorado. — Tudo fluindo aí na sua mente e etc?

— Tudo ok. — Ele sorriu. — Só estou preocupado com essa quarentena. E se a gente não conseguir sair a tempo?

— Puxa... — Rafaela parecia assustada com o celular agora.

— O que foi? — Max perguntou. — O que aconteceu?

— O número de infectados... Subiu de 280 para 600 em poucas horas.

— Meu Deus. — Natasha suspirou. — Vocês viram o cara no aeroporto. Vocês viram o que os caras fizeram com ele já que ele estava num estado avançado da doença, certo?

— Não precisa nem dizer. — Rafaela comentou. Ela ergueu o celular e deu play num vídeo de um militar executando um doente na praça pública da cidade. — Não tem volta.

O silêncio pairou no carro. Max olhou para fora da janela enquanto Rafaela guardava o celular. Natasha repousou a testa no volante e Alisson encolheu-se tentando se aquecer.

Foi aí que notaram várias pessoas deixando os carros e indo em direção a saída do túnel a pé. O caos tinha tomado conta e as pessoas estavam começando a ficar assustadas. Algumas corriam agora, entre gritos.Natasha fechou o próprio vidro.

Já estavam na metade do túnel agora. O carro da frente tinha parado de andar fazia uns cinco minutos. Era impossível voltar.

— O que fazemos? — Natasha encarou todos. — E agora?

No mesmo instante, alguém golpeou o vidro traseiro. Rafaela e Alisson gritaram no assento.

Era uma senhora. Ela ficou observando os quatro dentro do carro, os olhos congelados como vidro. Manchas rochas em suas bochechas e sangue seco em sua testa. Espuma saía de sua boca.

— Ela está...? — Rafaela perguntou.

— Lógico que está. — Natasha respondeu.

No instante seguinte, alguém surgiu por detrás da mulher. Grudou no coque da velha, arrancou-a da lateral do carro e jogou-a no chão. A mulher caiu e ficou de joelhos no pavimento.

— Ei! — Natasha e Max gritaram em uníssono. — Não é necessário...

O homem tinha uma cruz pendurada no peito. Tirou um frasco debaixo do braço, virou o líquido sobre a mulher e cuspiu o próprio cigarro na velha.

Natasha não teve tempo de gritar. As chamas se ergueram na cabeça da mulher, repentinamente iluminando aquele trecho do túnel. A velha começou a se debater, ainda de joelhos e passou a vomitar jatos de fluídos alaranjados, um colorindo o vidro frontal da caminhonete. Durou alguns segundos em equilíbrio, então tombou para frente.

Todos no carro gritaram agora.

XXXXX

Mariano acordou com um disparo.

Ficou algum tempo tentando reconhecer o perímetro, assustado. Antes de sua visão focar, lembrou-se de tudo num flash só.

Ouvia os gritos do lado de fora. Sua visão voltou e deu de cara com Marco e Janisce assustados, o encarando de volta. Ele estava na van, presumivelmente no túnel. Indo para o congresso.

— NÃÃÃÃÃÃÃO! — Mariano exclamou. — Eu disse que ia dar merda!

— Isso foi uma explosão? — Marco perguntou, incapaz de enxergar no lado de fora devido ao vidro fumê. — Não é possível...

— Alguém ateou fogo numa mulher. — Os três viraram-se para Amélia, no banco do passageiro, ao lado do motorista. Ela parecia chocada e tinha lágrimas em seus olhos e até nos óculos. — Meu Deus.

Mariano abriu a janela da van, cada vez ouvindo mais o som do lado de fora. Filas de carros parados, todos buzinando e os faróis acesos. Pessoas corriam entre os carros para tentar sair do túnel, militares surgiam correndo e desapareciam entre os veículos. Algumas pessoas estavam insanas.

Aquilo era exatamente como seu sonho. Faltava apenas a grande explosão. Esticou o braço na maçaneta da porta, e num único golpe destravou. Era sua única chance.

— Me sigam no três. — Sussurrou para seus parceiros. — TRÊS!

Pulou para fora do veículo e pôs-se a correr.

— Mariano, não! — Ouviu Amélia gritar.

Mas Mariano não parou. Uma olhada rápida para trás, Janisce e Marco estavam o seguindo. Ótimo. Agora era só acharem um lugar seguro.

Escutem! — Ouviu uma voz meio rouca ecoando pelas paredes do túnel. — Vai haver um acidente e uma grande explosão!

Não era apenas em seu pensamento, Mariano concluiu. Ele estava certo desde o início. Então parou e passou a escanear os arredores em busca da voz. Avistou um cabeludo de touca, trepado em pé em cima de um dos carros mais altos. Ele tinha um megafone nas mãos e parecia desesperado.

— Vocês precisam correr na direção oposta! — Ele continuou, quase que automaticamente, quase como se aquilo fosse uma ordem simples de algo que estava prestes a acontecer. — Um caminhão transportando gasolina vai bater e explodir!Vai vazar todo o líquido e vai acontecer uma explosão gigante! Voltem!

Mariano sabia que ele estava certo. Era aquilo que seus pesadelos diziam.

— Não me diga, hipster! — Gritou de volta.

Então houve o som da colisão lá na frente. Aparentemente dois caminhões haviam se chocado. Quem estava ouvindo o hipster, pareceu entender a mensagem e então tomaram a direção oposta.

— Agora vocês escutam ele! — Mariano gritou e voltou a correr de volta a entrada do túnel. — Otários!

XXXXX

Nat, Max, Rafa e Alisson tinham saído do carro. Ainda estavam parados perto do veículo, confusos e observando o corpo fumegante da mulher, chocados e com adrenalina.

— Eu já passei por isso antes! — Alisson gritou enquanto apontava para o maluco trepado no carro com o megafone. — Eu não acho que ele está mentindo! Vamos voltar! Se os caminhões realmente bateram, pode acontecer uma explosão!

— Pra onde vamos? — Nat perguntou.

— Direção oposta! — Rafaela gritou. — Lógico!

Os quatro começaram a andar na direção oposta, então outras pessoas também estavam fazendo o mesmo.

— Vamos ter que correr!

E agora os quatro finalmente corriam. Natasha viu Alisson parar diante de um carro, conversar rapidamente com o motorista, e então parou para esperar alguém.

No mesmo instante, Alfa saiu do carro com seus amigos. Natasha voltou a correr em direção a saída do túnel.

Uma explosão intensa irrompeu de onde os caminhões haviam se chocado. O calor e o fogo iluminaram o túnel num flash, e de relance Natasha pode enxergar dezenas de rostos em pânico. Destroços de carros foram arremessados contra as paredes do túnel, nos carros e nas pessoas.

— Corre!

Um rapaz com um topete enorme passou correndo por ela de mãos dadas com uma senhora de dreads. Natasha não pensou duas vezes e passou a segui-los.

Outra explosão imensa e Natasha sentiu o calor esquentá-la por inteiro. Sentiu-se arrepiar, e então olhou para trás.

Uma parede de fogo vinha devorando absolutamente tudo em seu caminho, e na intensidade que estava, iria chegar nela e devorá-la junto. Ao mesmo tempo em que o fogo se aproximava, a rodovia acima do telhado do túnel desabava abaixo, e Natasha observava pessoas e carros do lado de cima caindo em meio aos destroços do teto do túnel, logo em seguida sendo devoradas pelas chamas.

Não teria tempo de chegar até o final do túnel. A parede de fogo chegaria nela em apenas alguns segundos.

Ela estava sem reação.

Uma mão suada agarrou na dela e ela encarou. Era Max, um ferimento horrível na testa. Ele segurou ela com força e a puxou para a lateral do túnel, em direção a uma portinha discreta, utilizada apenas pelo pessoal da manutenção.

Ela pulou no cômodo da portinha com Max pisando logo atrás dela, e então fechou os olhos.

No mesmo instante que caiu no interior do cômodo, notou que já estava lotado de pessoas. Olhou de volta por onde tinha entrado, e a parede de fogo finalmente chegou... e passou direto.

Ela gritou observando o fogo correndo por entre os carros, então a portinha metálica foi fechada e o cômodo lotado foi tragado pela escuridão e choros.

Uma rápida olhada no local a fez perceber que a única saída era por onde tinha entrado. As pessoas estavam se abraçando e aquilo parecia o apocalipse.

Nada do que tinha aprendido com seu pai seria útil. Nada do que havia estudado em Direito, ou lido em livros sobre serial killers, ou escrito sobre a Ana Menezes poderia oferecer uma solução, uma saída daquele pesadelo.

Pela primeira vez na vida, Natasha não sabia o que fazer.

Ouviu o som do teto acima de si mesma desabando, então presumiu que aquele seria o fim. Abraçou Max entre lágrimas e fechou os olhos.

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Max estava sentado num banquinho, encostado contra o balcão do Praga Lanches. Era uma lanchonete simples localizada no subúrbio da ilha, mas era o local ideal para encontrar amigos. Tinha os bancos no formato de sofás, distribuídos num formato similar a lanchonetes americanas, e Natasha sentia-se extremamente confortável naquele lugar. It Must Have Been Love da Roxette ecoava pelas paredes engraxadas do refeitório.

A maioria dos membros do Clube dos Testemunhas havia ido embora, mas Natasha tinha perdido a noção do tempo conversando com Max. Ele era atrapalhado, derrubava copos e por vezes gaguejava, mas Natasha estava adorando. Ele ainda parecia estar naquela fase estranha do fim da puberdade e início da vida adulta, enquanto Natasha já era uma mulher formada. Max tinha entrado há poucos dias no Clube dos Testemunhas e era ótimo em desenhos.

De repente um silêncio se estabelecera entre os dois, mas não era estranho, era tranquilo. Os dois passaram a observar as pessoas pela lanchonete, o sorriso bobo no rosto.

Natasha tinha reparado num casal jovem, numa das mesas, um de frente para o outro. Ele tinha um visual agressivo que o deixava muito mais velho do que ele aparentava ser: uma barba mal aparada e uma cara de mau humor contagiante. Os olhos claros, meio cinzentos, não saíam da comida que ele devorava sem parar. Na sua frente, uma moça pálida comia agradavelmente um sanduíche diet, o cabelo ultra vermelho tombado contra as costas, parcialmente escondendo uma tatuagem barata. Nenhum dos dois falava nada fazia um bom tempo.

— Você havia me perguntando o que eu procuro em alguém. — Natasha comentou dando de ombros. — Não quero chegar a um ponto da minha vida em que não tenho simplesmente nada a dizer para quem eu amo. Eu simplesmente vivo para compartilhar o que estou sentindo. Odeio me sentir sozinha.

— Eu já-já li sobre isso uma vez e-e-e discordo. — Ele riu. — Na verdade, eu adoraria chegar nesse ponto de não precisar dizer nada.

— Por que? Ah, deve ser porque você gosta do silêncio. Você não é de falar muito...

— Tudo o que eu quero é ter alguém pra sentar comigo e comer uma comida em si-silêncio. Ficar em silêncio e saber que não preciso dizer nada para ela, e ainda saber que ela me seguiria de olhos fechados no meio da noite. Tudo o que eu quero é ter alguém que eu não precise impressionar, apenas ser eu mesmo.

Natasha congelou e sentiu os pelos do braço arrepiando.

— Você acabou de mudar minha mente completamente. — Ela disse surpresa. — Sabe quantas vezes alguém já fez isso comigo?

— Quantas?

— É a primeira vez..

Ela beijou Max, que retribuiu o beijo. Os dois ficaram no agarra-agarra por alguns instantes, então quando ela deixou Max se afastar um pouco, notou que o casal na mesa estava de mãos dadas, porém olhando para eles. O rapaz sorria para Max com o polegar levantado dando joinha.

— Adorei Max. — O rapaz comentou, a moça sorrindo ao lado dele. – Muito bonito, vocês.

— A propósito. — Max comentou. — Aquele é meu primo de São Paulo que eu te falei que viria.

XXXXX

— Nome e idade?

Amélia cambaleava entre os diversos sobreviventes do horrível acidente no túnel. Uma espécie de centro de ajuda havia sido montada, improvisada no pátio ao ar livre de uma escola próxima ao túnel, e muitos dos sobreviventes não infectados estavam sendo mandados para o local. Amélia tinha se oferecido de voluntária, tinha uma prancheta na mão e estava anotando a lista de sobreviventes para divulgar o mais rápido possível na TV. Os sobreviventes que estavam bem ainda tentavam manter um pouco da humanidade no local. Em outros locais a situação estava muito mais difícil.

— Amanda Ferrer, 23 anos.

A sobrevivente tinha uma expressão de tristeza, mas sorriu ao responder para a enfermeira. A camiseta xadrez rasgada no pulso, o cabelo repleto de poeira. Tentava fazer o celular funcionar.

— Obrigada. Nome e idade, por favor?

— Deborão... Debora de Carvalho. Minha idade, meu amor, é um mistério.

Amélia riu. Debora tinha o rosto extremamente delineado e olhos verdes intensos. Tinha uns 15 centímetros de altura a mais que Amélia, que se sentia intimidada, porém extremamente atraída ao bom humor da jovem. Debora parecia abatida, mas ainda sorria.

Tudo bem. Nome e idade, por favor?

A jovem pigarreou.

— Diana Ferreira. 23 anos.

— Voz bonita. — Amélia comentou, franzindo a testa. — Te conheço?

— Sou dubladora. —A voz bonita da mulher fraquejou e Amélia encarou. Diana forçou um sorriso e afastou-se.

— Nome e idade?

— Gustavo Gomes. 20. —O rapaz tinha olhos azuis intensos, se destacando mais do que o normal devido as manchas de fumaça negra na cara. Cabelos visivelmente claros e uma expressão séria no rosto. — E aquele cara que estava aqui um minuto atrás, é o Demétrio. Demétrio Gama, sei lá a idade dele.

— Obrigada. — Amélia sorriu enquanto anotava. — Eu conheço ele... Nome e idade por favor?

— Edmundo Moura. 55 anos.

— Ah. — Amélia ergueu os olhos da prancheta. — Meu pai já falou de você, você trabalhava na polícia federal, certo?

— Isso. — Ed franziu a testa. — Quem era seu pai?

— O Ricardo Paz. Ele era zelador.

— Ah o Ricardão! — Edmundo sorriu tímido enquanto batia nas vestes para retirar o excesso de fuligem. — Excelente pessoa.

— Ele vai ficar feliz em saber que você está bem. — Amélia sorriu. — Nome e idade, por favor... Ah é você Mariano.

— Ao seu dispor, doutora. — Mariano deu de ombros, a voz cansada. — 25 anos...

— Continue com o bom trabalho, Amélia! — Dra. Maria Raja passou rapidamente por Amélia, que por sua vez não teve tempo de responder. Amélia observou Maria, ainda mancando um pouco devido a alguns ferimentos, e então finalmente desaparecendo entre uma cortina para cuidar das pessoas mais feridas. A voluntária se perguntou se um dia chegaria perto de ser o que Maria era.

— Qual o seu nome e idade, senhora?

— Maria Rita dos Prazeres Assunção, 60 anos graças a Jeová.

­A mulher tinha dreads no cabelo, e apesar de não estar visualmente machucada, parecia acabada.

— E esse moço bonito e topetudo do meu lado... — Maria Rita continuou. — É o Erick Menezes! 20 anos! — Maria aproximou-se de Amélia e sorriu. — Você acredita que ele pegou na minha mão e me salvou? Um ótimo rapaz ele...

— Erick? — Um rapaz alto de cabelo escuro e olhos claros aproximou-se de Erick e abraçou-o. Erick retribuiu o abraço e ambos ficaram ali em silêncio por um tempo.

Maria Rita encarou a cena sem reação.

Nome e idade, por favor?

— Renan Carvalho —

Amélia pulou de susto e recuou. O rapaz de touca tinha falado o nome no megafone, o que assustou diversas pessoas.

— Desculpa. — Ele guardou o megafone, então passou as mãos sobre o rosto, quase como se tentasse recuperar foco. — Renan Carvalho, 25 anos.

— Ok Renan. Já peguei o seu nome?

— Acredito que não. Deve ter me visto quando... nada não.

— Ok Renan. Nome e idade, por favor?

— Thiago Bernardini, 27.

Amélia encarou Thiago. Ainda que tivesse alguns ferimentos do acidente, Thiago parecia intocável. Imponente. Ajeitou a camiseta de flanela.

— Obrigado Thiago.

— Obrigado a você, moça.

Amélia sorriu.

— Nome e idade, por favor?

— Donatella...

— Ah, oi Doutora Maciel. Tudo bem com a senhora?

A mulher trajava um vestido preto, provavelmente estava indo num evento muito importante. Ainda era bonito, mesmo empoeirado.

— Na medida do possível vou indo, um horror isso que está acontecendo. Você sabe onde eu posso me instalar para ajudar as pessoas?

— Ali mesmo. — Amélia apontou para uma das tendas. — Aposto que a Maria Raja está precisando de ajuda...

— Ah claro. Obrigada querida.

— Nome e idade, por favor?

— Amanda. 16 anos, quase 17.

Amanda comia um pão com mortadela cedido pela prefeitura. Parecia estar faminta.

— Tudo bem, Amanda?

— Lógico que tudo bem. Adoro pão.

— É, ok Amanda. Nome e idade, por favor?

— Thereza de Oliveira Couto e Silva. — A mulher tinha uma voz poderosa. — 44 Anos.

Amélia sentiu-se como se estivesse anotando uma ordem. Sorriu de volta para a mulher de braços cruzados, enquanto ela apenas concordou com a cabeça, num gesto afirmativo de que Amélia estava fazendo a coisa certa.

— Nome e idade?

— Marcela Figueira Falcão. 40 anos.

A mulher tinha um cabelo escuro e liso, quase intocado pela poeira e fumaça e destroços. Amélia conhecia ela de algum lugar.

— Falcon Magazine? — Amélia perguntou e franziu a testa.

— Isso. — A mulher respondeu. — Você lê?

— Às vezes. — Amélia riu. — Nome e idade, por favor?

— Lorelai Montoya Dias. 21 anos. Lola.

A jovem parecia ter ensaiado a frase pois falou firme e sem pestanejar. Parecia ser gentil. Poderia ser uma modelo ou atriz, a garota era bonita demais.

— Ok Lola. Obrigada. Nome e idade, por favor?

— Fica calmo, Max. O que você disse moça?

— Nome e idade? Pra eu anotar aqui.

— Ah sim. — A moça negra sorriu. — Natasha Silveira, 25 anos. E esse moço aqui é o Max Nogueira, 26.

— Tudo bem Max?

O rapaz parecia estar perdendo o ar. Natasha abanava ele da maneira que podia, então ele caiu no choro outra vez.

— Tudo bem. — Natasha disse. — Ele tem isso mesmo, a gente se vira aqui. Obrigada.

— Por nada! — Amélia anotou.

A jovem com a prancheta afastou-se em direção a um novo grupo de sobreviventes. Ela sabia que o dia seria longo.

XXXXX

— Então você já passou por isso antes? — Era a voz de Max.

Alisson virou-se. Max segurava uma gaze contra um ferimento horrível na testa e seu rosto ainda tinha manchas pretas devido a fuligem. Alisson pegou uma flanela úmida e entregou para Max.

— Digamos que eu já passei por muita coisa. — Ela segurou as lágrimas.

— Quer compartilhar? Eu escuto bem.

— Hoje não. — Ela secou o rosto.

Max concordou com um sorriso e virou-se de volta para Natasha, então parou e voltou-se para Alisson.

— Você está viva, Apology Girl.

Alisson secou as lágrimas e riu:

— Acho que essa cidade precisa de mim.

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— Vitor? — Rafaela gritou na direção do lado oposto da rua. — VITOR?

O militar virou-se para Rafaela, um pouco atordoado, então passou a andar na direção dela. Ele parecia acabado, como se o peso do mundo tivesse caído em suas costas duas vezes durante a última noite. A rua da escola parecia um cenário de filme pós-apocalíptico, ainda parcialmente cobertapelo pó da fumaça.

Max abriu os braços e Vitor abraçou o irmão. Natasha, Rafaela e Alisson encararam a cena em silêncio. Vitor começou a chorar com a voz embargada, e então Max deu umas tapas na costa do irmão.

— Está tudo bem cara. — Max secou as próprias lágrimas que caíram agora. — O que aconteceu?

— Aconteceu o que todo mundo esperava que ia acontecer. A bomba explodiu e agora o vírus está se espalhando pela cidade toda. Eu nunca tinha atirado em ninguém na vida cara. Até ontem...

Max encarou o chão.

— Sabe os caças de ontem? — Vitor perguntou. Natasha e Rafaela fizeram que sim com a cabeça. — Eles estavam observando quais eram as rotas adicionais de saída da ilha para poder eliminá-las. Para que o vírus não escapasse.

— Que raio de vírus é esse?

— É uma mutação genética que vazou de uma das indústrias daqui. Se você pegar o vírus... Até agora não tem antídoto. Você morre em poucas horas. Evitem locais aglomerados e se puder, não saiam de casa. Não conversem com estranhos...

— Venha com a gente. — Max disse. — Fique na nossa casa...

— Me desculpa. — Vitor deu de ombros. — Tenho corpos para recolher nos destroços do túnel.

— Mas não vão vir mais militares, força aérea? — Rafaela perguntou. — A cidade precisa de mais gente para ajudar, olha o que aconteceu com o túnel...

Vitor aproximou-se de Rafaela e sussurrou para que todos ouvissem.

— O boato que ocorre é que a explosão no túnel foi arquitetada pelo governo, e não um acidente. Exatamente para que o vírus não escapasse da cidade. Que sentido faz dois caminhões gigantes se chocarem num túnel com tráfego parado?

O grupo reagiu em choque.

— Então estamos sozinhos?

— Se depender da população de fora, estamos. Ninguém das cidades do exterior quer que o vírus espalhe para fora. O país inteiro está contra a gente.

— E a sua família, Vitor? — Max apertou o ombro do irmão.

— Eles ficaram do lado de fora. Estavam na casa da mamãe... — Vitor sorriu. — A gente ia passar o final de semana lá.

— Você é militar, talvez você possa...

— Você não entendeu ainda, Rafa?

Rafaela pareceu confusa agora. Vitor afastou-se do grupo andando de costas contra a rua, indo de volta para sua equipe.

— Ninguém sai de Cabo da Praga. — Vitor disse com uma expressão de pena. — Estamos presos.

Notas finais
Não esqueçam de comentar. Os comentários são muito importantes para a continuidade do projeto. Vemos vocês nas reviews, pessoal!