Premonição Chronicles 2
24 Capítulo 23: Hallelujah
Notas iniciais
16 de Fevereiro de 2015
O silêncio dominava o ambiente.
Nenhum som era audível. O farfalhar das folhas não existia, muito menos o rastejar da brisa ou o canto dos pássaros, que costumam gritar aos quatro ventos após um temporal. A única coisa que Valentina conseguia ouvir eram as batidas de seu coração. As fortes e precisas batidas. Nem sequer os galhos nos quais ela pisava ao andar sorrateiramente pela mata, podiam ser escutados. E tudo que ela queria, era não pensar no quanto solitária estava, no quanto indefesa e vulnerável ficaria sem qualquer pessoa ao seu lado.
Perdera-se de Mônica, depois que encontraram a cabana de Abigail completamente incendiada. Aproximaram-se das cinzas, apenas para verificar que nenhuma viga sequer havia ficado de pé. Nenhuma madeira deixara de ser incinerada. O amontoado de escombros queimados permanecera ali, concretizando o que elas desconfiavam. Será que Aby estava na barraca quando pegou fogo? Será que seus amigos também tinham sido queimados? Logo em seguida, as duas voltaram a caminhar através das árvores, na procura dos outros. Quando após um suposto ataque, Mônica desapareceu.
Agora, Valentina só queria encontrar algum amigo, saber certamente quais os sacrifícios que ainda se mantêm vivos. Ela sabia que Ruth estava morta, mas desconhecia o paradeiro de Greg e Anna. E se o ciclo tivesse recomeçado, e Bella também estivesse na mira novamente? Eram muitas perguntas para nenhuma resposta. Tudo que ela tinha que fazer, era seguir pela mata, numa inclinação de terra infinita. Se seu conhecimento como guia e conhecedora da Ilha Vermelha estivessemcorretos, ela estava subindo a montanha. Apoderou-se de um galho para lhe ajudar com a escalada na inclinação recém encharcada pela chuva, e continuou na caminhada.
A barra de sua saia longa estava rasgada e suja de terra, de modo que Val decidiu sentar-se, descansar e cortá-la com uma pedra afiada, já que facilitaria seu deslocamento. Então, posicionou a pedra na barra da saia colorida e passou a rasgá-la. Com a barra da saia já um pouco acima dos joelhos, ela suspirou cansada.
De repente, o pequeno amuleto de pedra verde escorregou de seu bolso e rolou até as raízes de uma grande árvore. Rapidamente a professora de história ergueu-se e procurou a pedrinha pelo brilho verde que ela possuía. Não havia brisa, não havia pássaros, não havia o farfalhar das folhas, nem os galhos quebrando. E aquilo preocupou Valentina, que sentia que algo estava errado, desde que se perdera de sua irmã.
Achou a esmeralda poucos segundos depois, guardando-a no bolso da saia novamente, desta vez, tendo mais cuidado. Foi ai que sentiu a primeira brisa lambeu seus cabelos castanhos molhados a fez recuar, tropeçando em uma raiz. Seu corpo tombou para trás e ela bateu a cabeça, desmaiando. De uma trilha que serpenteava próxima da sua, surgiram Lana e Nina. As duas pareciam atordoadas e perdidas. Como aconteceu com todos desde que chegaram à ilha.
Assim que Nina viu Valentina desacordada entre as raízes, correu até ela, abaixando-se e tentando despertá-la.
— Ela ta viva? — Lana perguntou.
Nina pôs a cabeça solenemente no peito da jovem e constatou:
— Sim.— Apesar disso, sua feição era de pura preocupação. A loira começou a buscar ferimentos no corpo da estudante, de modo que analisava seus braços, pernas e colo. — Temos que tirá-la daqui, é perigoso demais. Talvez hajam mais cavernas por aqui, do que lá embaixo.
— Desculpa, Nina, mas sem cavernas, por favor.— Lana respondeu com pesar.—A maioria das desgraças circula em torno delas.
A bióloga entendeu o que a amiga quis dizer e assentiu.
— De qualquer maneira, temos que procurar abrigo. Ao ar livre temos mais chance de virar almoço de animais ensandecidos.
A turquesa simplesmente concordou e as duas se dividiram para ajudarem a levantar Valentina, e levá-la para outro lugar mais seguro, mesmo cientes de que nenhum lugar poderia oferecer-lhes segurança.
— Em pensar que nem mesmo o vilarejo é seguro...— Logo, houve o silêncio sepulcral.
No meio do silêncio, que se misturou aos bichos no alto das árvores, Valentina começou a reagir:
— Pai... — Sua voz soou fraca, quase num sussurro.— Pai é você?
Ambas as mulheres que se encarregavam de transportá-la, entreolharam-se. Nina sabia do que se tratava, afinal, Val já tinha contado-lhe sua triste história de vida. Toda a perda dos pais, da irmã e finalmente, de sua última esperança de uma vida feliz. E então, ela pode se levantar perante a humilhação da solidão, e felizmente conseguiu aumentar o resquício de otimismo que havia nela. Cuidou do quiosque, ajudou turistas, estudou, ensinou, guiou... Num conjunto, Valentina era uma garota de ouro.
— Pai, você está ai? — Abriu os olhos devagar.
— Val, somos nós... Nina e Lana. — A bióloga sorriu, diante da guia.
Lana acenou para que a loira pusesse Valentina no chão, e ela assim o fez, depositando-a sobre as flores.
— Consegue caminhar ou ainda sente tontura? — Perguntou Nina.
— Ainda um pouco tonta, mas não se preocupem, estou bem.— Sorriu de lado.
— Não acham melhor irmos para a praia? Podemos pedir ajuda na Animal Rescue. — Lana sugeriu, encarando-as.
—É uma boa ideia, de lá podemos fazer contato com a cidade também.— Os olhos da bióloga brilharam. — Eva pode estar lá! Ela irá saber como nos ajudar!
Mesmo com a cabeça latejando, Valentina assentiu. A turquesa ao lado fizera o mesmo. No instante em que começariam a descida, a guia parou.
— Algum problema, Val? — Lana virou-se para ela, tocando seu ombro.
— Armas. Precisamos de objetos que possamos usar para nos defendermos daquelas aberrações de máscaras. — Olhou ao redor, ouvindo o pleno silêncio. — Eles podem estar em qualquer lugar.
— Você tem razão. — Concordou a mulher de cabelos azuis.— Pedras afiadas e galhos vão servir.— Viu Nina encontrar um galho pontudo.
— Se Greg estivesse aqui, ele estaria xingando tudo... — Nina murmurou, enquanto sentada em uma pedra, preparava o galho, retirando suas folhas.— Gostava do jeitão dele.
Ela e Lana entreolharam-se quase que de imediato. A turquesa apenas fechou os olhos por breves segundos. Ela podia sentir a presença de Greg ainda, as ondas eletromagnéticas que avisam quando alguém se aproxima, aquela sensação de estar sendo observada. Então, notou que algo estava errado. Aquela sensação não referia-se a Gregório e sim, uma presença física.
— LANA CUIDADO! — Ouviu Nina gritar, quando despertou dos pensamentos.
Porém, estava preparada. E no momento em que seria apunhalada pela adaga do máscara de urso, abaixou-se numa velocidade que livrara-lhe de ter o pescoço degolado. Não passou de questão de centímetros. O homem trajando a roupa preta e cobrindo o rosto com a figura do urso tentou uma investida contínua, mas desta vez, a turquesa correu na direção das amigas.
Não demorou muito para que outro mascarado aparecesse no lado oposto, próximo delas. Ele empunhava um arco. O máscara de corvo permaneceu parado, alternando entre mirar a flecha em uma das três. Elas não poderiam prever quem seria atingida. Foi ai que, com apenas uma olhadela entre o trio, conseguiram captar a mensagem. Valentina acabara de ter um plano. Discretamente, Lana e Nina concordaram e deram as mãos sem que eles percebessem.
Um...
Valentina ficou de frente com o máscara de urso. O coração pulsava célere embaixo da pele suada.
Dois...
Lana e Nina ficaram a cargo do corvo. Os olhares frenéticos só visualizavam o assassino e a trilha atrás dele. Uma gota de suor pingou na têmpora de Nina. Lana encarou uma última vez a amiga.
Três!
A turquesa puxou a loira para cima do corvo e elas sabiam exatamente o que tinham que fazer. O assassino teria que mirar em uma ou em outra, antes que as duas conseguissem avançar. Com as mãos dadas, elas correram e, sob a mira da flecha, soltaram as mãos e seguiram pelas laterais. O corvo disparou a primeira flecha após Lana conseguir ultrapassá-lo. A flecha passou raspando em seu braço. Já Nina tivera mais sorte e sumiu detrás das árvores, antes que o Corvo colocasse-a em sua mira mais uma vez.
Já Valentina tentava despistar o urso, correndo pela trilha contrária às das outras garotas. O algoz seguiu-a na mesma corrida insana. Atrás da máscara o responsável pelo porte das adagas gritava, num misto de fúria e entusiasmo. A hippie pulou alguns galhos e fingiu cair, ao passar por um tronco que jazia caído há um bom tempo. O Urso assobiava atrás da máscara, e caminhava calmamente, movendo a adaga para cima e para baixo, em um movimento de etripação. Era isso que ele faria com Valentina, quando a encontrasse.
E a guia sabia que a possibilidade de sua vez ter chegado novamente era grande. Ela não tivera notícias de Bella ou Anna. O terceiro fator, Greg, havia sido confirmado pelo modo como a dupla da turquesa e a loira, falaram dele. Enquanto o Urso continuava se aproximando, Valentina esgueirou-se pela lama deixada pela chuva e agarrou bem as duas pedras afiadas que carregava. Uma era a tentativa, a outra, a certeza. Respirou fundo e esperou pela melhor oportunidade.
O Urso saltou no tronco.
— Te encontrei, pequena!
A garota de cabelos castanhos gritou e virou-se de frente, para encará-lo. Durante o segundo seguinte de sua vida, ela dedicou-se a desvendar quem poderia estar por trás da máscara. Estava decidida a revelar sua identidade, mas para isso, precisava atingi-lo.
— Vá se foder! —Bradou e em um golpe único, lançou a ponta da pedra no tornozelo do algoz.
A pedra bateu contra o osso e estalou. O Urso recuou, sentindo uma dor lancinante. Valentina aproveitou-se para levantar e deferiu outro golpe com a pedra, desta vez em seu rosto. A máscara, apesar de bem presa, escorregou para o lado e a guia pode enxergar o queixo e a bochecha do caçador. Furioso, o homem rosnou e avançou contra a hippie, que não esperou pelo movimento e teve o antebraço cortado ferozmente, ao defender-se. Merda! Onde vocês estão, meninas?
You shout it loud
But I can't hear a word you say
I'm talking loud not saying much
I'm criticized but all your bullets ricochet
You shoot me down, but I get up
Recuando atordoada, Valentina tropeçou no tronco e caiu para o lado, rolando barranco abaixo. Suas vestes misturaram-se às folhas molhadas, que quebravam ao serem atingidas pelo corpo da jovem. Ao parar, olhou para cima, sentindo uma dor nas costelas e nas costas, e viu o Urso deslizar o barranco com maestria. Até parecia que ele já havia enfrentado aquele tipo de terreno antes. Sem muitas forças para prosseguir, a guia apenas ergueu-se do chão e fitou o assassino chegar mais perto, com a cabeça inclinada. Ele ergueu a adaga e riu atrás da máscara.
Atrás de si, Val avistou um riacho.
— Sabe de uma coisa? —Valentina disparou. — Eu não tenho nada a perder. Meus pais se foram, minha única irmã desapareceu, logo quando consegui realmente descobrir quem ela era, depois de anos... — Então baixou a tez, já resignada.— Vá em frente, seu merda, atire essa faca de uma vez. Acabe logo com isso!
Apesar da fala transmitir desistência, Valentina sabia que era revestida com uma armadura, que tudo que vivera não passou de uma provação. Ela conseguia ultrapassar todas as barreiras, obstáculos e muralhas colocadas em sua vida e aquela era mais uma delas. Caiu, mas levantou. Morreu muitas vezes na solidão e sobreviveu para testemunhar sua glória, diante das dificuldades. E ela enfrentaria essa, nem que fosse aceitando o que lhe fosse dado. Resistiria, acima de tudo. Porque certamente, ao longo dessa caminhada, descobriu ser puro titânio.
I'm bulletproof, nothing to lose
Fire away, fire away
Ricochets, you take your aim
Fire away, fire away
You shoot me down but I won't fall
I am titanium
You shoot me down but I won't fall
I am titanium
Ela deu dois passos e foi pega de surpresa por uma armadilha. O tempo pareceu parar e ela teve a sensação da sua armadura de titânio se despedaçando. O Urso estava esperando por aquele movimento e o mecanismo escondido embaixo das folhagens nas quais a jovem pisou, foi ativado. A corda enroscou no tornozelo de Valentina e seu corpo subiu de cabeça para baixo, até o alto de uma árvore, acima da correnteza.
— Para a Erudita, até que vocêé bem tolinha, Valentina. — A voz pacata soou lá embaixo.
De repente, os olhos da guia se arregalaram ao ver a senhora cega sorrindo cinicamente para ela.
XXXXX
De cabeça para baixo, Valentina podia encarar Abigail. Os olhos frios e esbranquiçados da velha senhora, o semblante cínico, o sorriso repleto de dentes tortos e podres. A jovem queria gritar, mas nada iria adiantar, pois estava cercada por árvores e monumentos rochosos. Tudo que tinha a fazer, era observar os movimentos sorrateiros que Abigail realizava.
— Preparada para o sacrifício? — Disse a velha, em tom sarcástico.
A outra nada respondeu, fechou os olhos e respirou fundo. Nada podia feri-la, a sua armadura de titânio invisível lhe traria equilíbrio e evitaria que ela se desesperasse com a situação provocada pela senhora de pé lá embaixo. Aby deu alguns passos, atéficar exatamente sob Valentina e sorriu novamente. Desta vez olhou diretamente em seus olhos, como se soubesse que aquela direção lhe levaria para tal. Resmungou algo e falou:
— Se seu pai estivesse vivo, ele ficaria orgulhoso, sabia? — A fala da mulher deixou Val surpresa.
—Vo-você... Não tem o direito! — As lágrimas formadas nos olhos da guia ameaçaram descer.
—Calada, sua chorona! — Aby gritou e isso fez o coração de Valentina acelerar.— Ele era uma boa pessoa, ele protegia esse lugar, assim como eu, por todos esses anos. Lembro-me muito bem do dia em que ele me deixou pegar você no colo. Era uma menina tão forte e saudável... Tão sábia! A erudição estava em seu sangue, querida. Uma pena você tê-lo perdido tão nova, a vida realmente foi bem cruel com você. Mas foi valente até os últimos dias de sua vida.
A pressão na cabeça de Valentina aumentou e ela não resistiu.
— Não abra sua boca imunda pra falar dele, velha cretina! —A professora de história cuspiu no rosto da velha e fez Abigail recuar, com a saliva no meio de seus olhos.
— VOCÊ ESTÁ FICANDO LOUCA?
— Sempre me chamaram de louca e eu nunca dei bola. Mas desta vez, eu sinto como se estivessem certos o tempo todo. — Um sorriso brotou no canto dos lábios de Val, e mesmo que seu cabelo estivesse cobrindo parte de seu rosto, dava-se para vê-lo.
Aby inclinou a cabeça, perdida nas palavras da guia.
— EU SOU LOUCA! —Valentina gargalhou. — Louca pela minha família, pelos meus amigos, pela minha profissão, pela minha vida!— E então encarou os olhos leitosos de Aby.
Abigail não pode prever o segundo seguinte, quando a jovem cortou a corda com uma pedra afiada que tinha nas mãos e caiu sobre ela, sem ter tempo nenhum de esquivar. Aproveitando que a velha amorteceu sua queda, Val tentou correr, mas no segundo passo, seu corpo paralisou. Seu rosto movia-se involuntariamente, e ela soube naquele instante que Aby controlava seus movimentos. Com os olhos marejados, Valentina sentiu o corpo adormecer aos poucos.
Na sua frente, entre a mata, os corpos de Nina e Lana apareceram sendo arrastados pelas figuras mascaras do Urso e do Corvo. Abigail abriu um sorriso largo e riu como uma gralha. A velha sabia como arrepiar os pelos de um corpo, sabia como apavorar uma alma. Os assassinos jogaram os corpos desacordados de ambas as garotas aos pés da estudante.
E Val chorou.
Chorou pelo pai, chorou por Mônica... Por Nina, por Lana... E todos os outros que não puderam escapar da sentença de morte.
Cut me down
But it's you who'll have further to fall
Ghost town, haunted love
Raise your voice, sticks and stones may break my bones
I'm talking loud not saying much
XXXXX
Sem poder realizar qualquer movimento, a morena procurou alguma maneira de se desfazer do que Aby estava tentando fazer. Desde que bateu os olhos sobre a figura aparentemente vulnerável da senhora, Val sentiu que ela não era de confiança, que em alguma momento ela se viraria contra eles. Valentina era grata por ter esse insight em relação às pessoas, isso evitava que ela possuísse problemas maiores com quem quer que fosse, porém, com Abigail foi diferente. Mesmo com um pé atrás, a guia foi atraída, e agora era ela quem estava vulnerável, nas mãos da velha.
Talvez ela esteja furiosa com o que aconteceu com sua cabana, talvez ela ache que fui eu quem causou aquilo, talvez ela só queira concluir a lista de sacrifícios. MALDITOS SACRIFÍCIOS!, Valentina pensava.
— Você vai se arrepender de ter feito mal aos meus amigos, bruxa!
— Demorou muito para descobrir o que está afrontando, Erudita.
Ao notar que Lana estava prestes a acordar, Val teve uma ideia. Ela ainda tinha uma chance de acabar com Aby. Logo, Lana abriu os olhos e pediu para que Nina também levantasse. A loira, mesmo com o corpo dolorido e entre gemidos, tentou erguer-se. Ambas acabaram chamando atenção da senhora cega, que caminhou até elas.
Aproveitando a distração de Abigail, Valentina percebeu que seu corpo estava livre da bruxa e correu. Saltou em suas costas momentos depois, derrubando a velha no chão. O rosto de Aby bateu com força na terra, sujando-o de areia. Ela urrou de raiva, enquanto a guia lhe prendia com os joelhos sobre suas costas.
O Urso e o Corvo apressaram-se para proteger sua líder, e ao empunhar o arco, o Corvo ficou com Val na mira. Nina ergueu-se do chão rapidamente e empurrou os braços do assassino, tomando seu arco e sua flecha. O outro mascarado também não teve sorte e sua adaga foi ao chão, quando Lana chutou seu braço. O objeto brilhante tilintou ao bater contra uma pedra e Lana jogou-se para apanhá-lo, chutando o Urso no joelho e o levando ao chão também, agora, em meio à dor.
Com Nina apontando o arco, mesmo que desengonçada, para o Corvo e Lana com a adaga na direção do Urso, Valentina mostrou sinal de positivo e sorriu para as duas.
—É, Abigail... Um dia é da caça e o outro do caçador. — Ergueu a pedra afiada na direção da cabeça da velha e estava pronta para cravá-la em seu crânio.
Quando Aby gritou.
Gritou tão alto, como um pássaro ensandecido, que estourou os ouvidos da morena. O sangue descia sem parar e Val já não poderia ouvir mais nada. Tentou tatear as orelhas para estancar o sangramento, deixando que suas mãos fossem banhadas. E de joelhos, viu Lana e Nina gritarem. Não ouviu os gritos, apenas viu que elas estavam gritando, pelas suas expressões.
Valentina não estava ouvindo nada. Estava ensurdecida.
O corpo da guia cambaleou até a borda da margem, e então, escorregou no lodo de uma pedra. Bateu os braços, tentando agarrar qualquer coisa que lhe desse suporte, mas não conseguiu evitar. Seu corpo caiu na água gelada do riacho. As outras garotas arregalaram os olhos e tiveram os instrumentos de ataque roubados de volta pelos assassinos, que empurraram-nas contra os arbustos.
Ainda tonta, com água ao seu redor, Valentina só via o azul, uma imensa tela azul. Seu mundo começou a girar e ela notou que estava indo em direção ao fundo das águas, que não era muito distante. Forçou um movimento brusco de volta à superfície e obteve êxito.
Até olhar para baixo e, em meio à visão embaçada, avistar algas enroscadas em seu tornozelo. Val abriu a boca, num gesto de pavor e isso rendeu-lhe muito do líquido insípido adentrando no canal oratório. Ela arregalou os olhos, ao mesmo tempo em que sentia a dor insuportável nos ouvidos. A vida dela estava sendo tirada da pior forma: a morte lenta e sofrida. Era tudo que ela não queria ter.
Rapidamente agarrou as algas no tornozelo, e ainda com a força que lhe restava, começou a puxá-la. O movimento não durou mais que cinco segundos, até que ela conseguisse arrebentar a planta, que mais parecia ter sido enviada pela própria Abigail para matá-la. A morena bateu as pernas celeremente e chegou à superfície logo após, tossindo muito e debatendo seus braços. O desespero não a deixava mostrar como era boa com nado.
Olhou em volta de si e viu os capangas de Aby ao longe, segurando Nina e Lana, as duas estavam sendo amordaçadas. Naquele segundo, a historiadora pensou no quão desnecessárias eram aquelas mordaças improvisadas com tecidos das próprias vestimentas pretas dos mascarados, visto que, mesmo que elas tivessem a oportunidade de gritarem, não iriam ouví-la.
Frágil e incapacitada de chegar até a margem com rapidez, Valentina apenas esticou os braços e nadou aos poucos. Demoraria o tempo que for, mas ela sabia que estava se esforçando para ajudar suas amigas, para mantê-las a salvo. A heroína que morava dentro dela havia despertado ou como gostavam de dizer: “o gigante acordou”!
— Eu sou feita de titânio, sua velha maldita! — Gritou, enquanto se aproximava da margem, lutando para não ser levada com a forte correnteza.
Ela sabia o que dizia, embora sua voz estivesse sendo constantemente entrecortada pela surdez repentina.
— Vou honrar o nome do meu pai, você vai ver!
I'm bulletproof nothing to lose
Fire away, fire away
Ricochet, you take your aim
Fire away, fire away
You shoot me down but I won't fall
I am titanium
— Isso, Erudita, mostre que além de valente, vocêé burra o suficiente para não perceber que é inútil tentar me vencer. A natureza está ao meu favor e eu prometo que sua morte será digna de um Oráculo.
Val finalmente alcançou a margem e ergueu a cabeça, encarando Abigail com semblante sério. Ofegava completamente molhada e desnorteada. Sangue ainda saia de seu ouvido, de modo que a garota fazia certas caretas. Valentina deveria ceder?
— O que você quer dizer com isso? — A voz da jovem trêmula destacou seu medo.
—Não está sentindo minhas bebês?
— QUE BEBÊS, PORRA!?
Aby soltou um riso exageradamente bizarro quando notou a maneira na qual a guia olhou para seu corpo. Ela tremia de pavor, ela sentia o medo consumi-la. Ela sentia-se impotente.
— Diga olá para minhas bebês. — A velha sussurrou.
No instante em que viu os seres rastejantes vagarem pelo seu corpo, Valentina gritou estridentemente. Chacoalhou o corpo na tentativa de impedir que as inúmeras sanguessugas do riacho cravassem em sua pele. Em vão, os bichos já estavam ocupando cada centímetro de pele da estudante, de modo que ela não tivesse escapatória. Centenas delas estavam em seus membros superiores e inferiores, outras centenas se ocupavam em arrancar o sangue de seu tronco e meia dúzia grudada em seu pescoço e couro cabeludo.
Os gritos de Valentina foram abafados com as sanguessugas que entraram vertinosamente em sua boca, grudando em sua lingua e garganta. Outra parte desses anelídeos subiu até seus ouvidos, atraídos por todo o sangue que jorrava, acabando por adentrar no cancanalal auditivo. Val ainda se debatia, sem saber como parar a dor lancinante causada pelos bichos. Sufocada pelas várias sanguessugas em sua garganta, ela aceitou seu destino.
Stone-hard, machine gun
Firing at the ones who run
Stone-hard, that bulletproof glass
Desculpem por tudo. Perdoem minha fraqueza, minha impotência. Eu fiz de tudo para vencer, fiz de tudo para detê–los, tudo por vocês. Mas de uma coisa eu tenho certeza: nunca fugi à luta, porque sou revestida de titânio. Dura como pedra, como vidro à prova de balas...
Com dificuldade, Valentina puxou o ar mais uma vez, dando o último sôfrego suspiro.
E seu corpo sem vida afundou.
You shoot me down but I won't fall
I am titanium
XXXXX
Fevereiro de 1997
Dezoito anos antes...
O corredor do hospital era imenso e irritantemente branco. Uma maca jazia sozinha, enquanto uma enfermeira entrava em uma das últimas portas bejes da seção de repouso pós-parto da ala reservada à maternidade.
O silêncio que antes percorria cada espaço do andar do setor de maternidade, agora era quebrado pelo barulho de saltos altos e finos em passos metódicos e elegantes ecoando a cada segundo. A mulher que estava causando aquela imperfeição na serena sonoridade do local parecia não se importar com o fato de quebrar as regras, aparentava até estar se divertido com o feito.
Embora sua face estivesse quase completamente escondida embaixo do grande chapéu vermelho elegante que ela carregava na cabeça, dava-se para notar o sorriso diabólico contornado pelos lábios extremamente vermelhos, do batom caro.
O tiquetaquear do relógio, prestes a anunciar a meia-noite, era interrompido pelo disfile da mulher, cuja vestes eram mais chamativas que o batom e o chapéu carregado de penas de ganso. A saia mid e o terno vermelho davam o último retoque na bizarrice. A mancha rubra vagando pelo corredor se aproximava de um dos quartos do hospital São Cura D’Ars. O leito 180, onde uma mãe repousava com seu bebê. Ambos imersos em um sono profundo.
A mulher misteriosa abriu a porta lentamente, certificando-se de que mãe e filho permaneciam em perfeito estado de sono e que sua bolsinha vermelha com emblema dourado, adornado com dois chifrinhos, não faria barulho. Outro sorriso brotou de seus lábios e finalmente ela entrou.
O batuque do salto no piso encerado despertou a mãe da criança, que soltou um gritinho, tapando a boca com a mão no segundo seguinte, temendo acordar o pequeno.
— Você não pode entrar aqui, senhora. — A voz veio detrás da mulher. Uma voz serena e acalentadora.
Sem virar-se, a mulher elegante julgou ser uma enfermeira.
— Eu posso tudo, querida. — Balbuciou. Em seguida, estalou os dedos.
E no segundo seguinte, a pobre enfermeira caiu com um baque surdo, ao pé da porta.
Logo, a mulher vestida de vermelho se aproximou calmamente da cama onde a mãe olhava incrédula, dizendo:
— O que pensa que está fazendo e quem diabos é você?
— Não tome o nome dele em vão, querida. — Um semblante de deboche surgiu no rosto parcialmente visível da dama. —Quem eu sou não importa, mas quem sabe daqui há alguns anos sim...
—Eu preciso descansar e ele também, se não se importa... — A mãe sussurrou.
—Só queria pegá-lo um instante, posso? — Perguntou a estranha dama.
—Depois do que você fez com a enfermeira? Óbvio que não.— O olhar da mãe foi de receio.
— Ok, entendo sua preocupação. Então, posso ver seu rostinho?
A mãe apenas fez um movimento singelo com o braço, arrumando a manta que cobria o garoto. O rosto do bebêficou visível e então a dama de vermelho deu um meio sorriso.
— Que bebê adorável. Eu tinha certeza de que, apesar de prematuro, ele seria bastante saudável. — Arrumando a bolsa e dirigindo-se até a porta, a mulher acenou, mostrando as unhas grandes e vermelhas. —Pedro será um grande Oráculo.
— Co-como você...
Antes que pudesse terminar a frase, piscou confusa e olhou para a porta. Não havia enfermeira caída, muito menos uma dama extravagante de vermelho.
Pedro foi o nome escolhido por mim para ele, mas... Como ela sabia? Porém, a palavra que mais pesava na cabeça da mãe era única:
Oráculo.
XXXXX
Aby andava lentamente com seus chinelos desgastados, pisando nas poças deixadas pelo temporal que passara. Ela sabia que os sacrifícios estavam quase concluídos e ela só precisava de um pouco mais de tempo, até que seu desejo fosse realizado, em troca dessas almas.
O Urso e o Corvo que vinham logo atrás, carregando Nina e Lana amordaçadas e amarradas, também pararam ao comando da velha. Ela estava estática, de frente para uma árvore centenária. Aproximou-se com ligeireza do tronco e mostrou um sorriso de canto, levando o dedo esquelético até a estrutura de madeira. Sentiu a textura e observou o que havia ali.
Entalhadas na árvore estavam as iniciais "H + A". De imediato ela soube associá-las a uma pessoamuito importante que passou em sua vida. Acabou lembrando o dia em que conheceu Hermes, o homem que viveu os momentos mais felizesde sua vida, e paradoxalmente, os piores momentos também.
Abigail conheceu-o quando teve uma premonição sobre um deslizamento de terra, após um tremor na ilha. Hermes era uma das vítimas da lista, geólogo e arqueólogo, foi ele quem estendeu a mão para ela, quando ela mais precisou e no momento em que todos os sobreviventes do acidente deram as costas para ela. Aby fora uma visionária desamparada e assistiu às mortes dos turistas sem poder fazer nada. A morte era muito mais forte, deixando-a sem saída.
Quando deu por si, Aby e Hermes eram os últimos sobreviventes e já tinham se passado alguns meses desde o dia em que se conheceram. Os dois ficaram bastante próximos e íntimos, mas ela tinha medo de se machucar, não só pela lista, mas por um amor arrebatador. A partir do primeiro beijo, os dois já estavam apaixonados.
Ele, um homem gentil, corajoso e perseverante e ela, uma jovem nativa da ilha, viúva e com um filho de pouco mais de sete anos. Os dois enfrentaram juntos a lista e descobriram através de pesquisas, como deter a morte. Acidentalmente eles estavam assinando sua redenção, de modo que uma das formas de se salvarem era gerar uma nova vida dentro da lista, e de fato, Aby estava grávida novamente.
Rapidamente Abigail foi trazida de volta, suas lembranças iam e vinham em sua mente e ela jamais esqueceria o que houve a partir dai.
XXXXX
Outubro de 1983
O dia ensolarado embelezava a Ilha Vermelha.
A casa na qual Abigail morava fazia parte de um conjunto de quatro casas, todas na floresta. Apesar de serem localizadas distantes do vilarejo, consideram-nas como parte de tal. Uma cabana branca, muito bem cuidada, com vasos de diversas plantas espalhados na varanda e uma bela estufa de vidro ao lado. Enfeites e penduricalhos coloridos eram vistos no teto e um balanço improvisado em uma árvore próxima.
Hermes havia acabado de chegar das ruínas de Santa Muerte. Estava suado e ofegante. O rosto vermelho de tanto explorar evidenciava seu cansaço. Ele estava aparentemente feliz com suas descobertas, embora não tivessem sido tão satisfatórias quanto ele achava que seriam.
Antes de entrar na bela cabana, viu o filho mais velho de Abigail brincando no balanço de pneu. O garoto fez uma cara séria e parou o brinquedo. Imediatamente Hermes sentiu um calafrio e uma sensação agourenta, como se algo ruim estivesse prestes a acontecer. Logo em seguida, entrou e avistou Aby lavando alguns utensílios na pia.
— Aby você não vai acreditar no que eu descobri nasruínas hoje!
A mulher não respondeu, muito menos virou-se para receber o homem com um beijo singelo. Limitou-se a olhar por cima dos ombros. Foi então que o geólogo percebeu a feição tristonha dela e seus olhos inchados de tanto chorar.
— Ei, o que aconteceu? Foi aquela velha chata da Dolores e o neto delate importunando outra vez? — Hermes tocou sua cintura, mas antes que pudesse se aproximar mais, foi repelido.
— Traidor.
— Quê? Do que está falando, Aby?
— Você não vai tirá-lo de mim. Você não vai me separar do meu filho! — A mulher de cabelos castanhos virou-se e encarou os olhos azuis do loiro de maneira fixa.
Ela transmitia raiva e agressividade no olhar, como vinha fazendo ha alguns meses. Este era um surto comum da mulher, que começou logo depois do nascimento do bebê, que em poucos dias completaria um ano.Desdea semana seguinte ao nascimento de seu segundo filho, Abigail passou por crises e surtos psicológicos, talvez resultado da lista da morte. Sequelas que poderiam ficar para sempre em sua mente.
O arqueólogo que convivera com ela para cuidarem juntos do pequeno já não sabia o que fazer. Ele tentava de tudo, buscou médicos na cidade, todos os tipos de condições de tratamento, mas Abu só parecia piorar. Em muitas ocasiões, Hermes não soube reconhecer a mulher com quem viveu estes últimos anos, a mesma para quem ele jurou amor embaixo da árvore centenária ou por quem se apaixonou.
A verdade era que Abigail havia mudado e tornara-seoutra pessoa. Hermes tinha medo do que ela poderia fazer ao filho nesse estado; do que ela poderia provocar em si mesma. Porém, não aparentava estar louca e sim, lúcida, em sã consciência, embora uma pessoa completamente diferente. Aby estava mais fria, introspectiva, misteriosa, indiferente e assustadoramente insana. Igualmente seu filho mais velho, que a cada dia se fechava mais e Hermes já não mantinha o contato de antes com o garoto.
— Quando pretendia me contar? Se é que iria me contar...
— Quem te falou tudo isso? — Ele até tentou mudar de assunto.
— Isso não importa, muito menos fará diferença! Só me diga, Hermes, pretende mesmo levar meu filho embora, está decidido a afastá-lo de mim? De sua própria mãe?
Era como se Abigail conseguisse invadir o fundo da mente do loiro e de lá tirar todos seus pensamentos e dedobrá-los. Os lábios do geólogo tremiam.
— Você não está bem para cuidar de nosso filho, querida. Deixe que eu o leve, e quando estiver melhor, poderá visitá-lo e ficaremos os três juntos.
A cabeça da mulher estava prestes a explodir. Aby jogou uma das louças na parede. O barulho de estilhaços fez o homem fechar um dos olhos e abri-lo a tempo de vê-la indo em direção ao quarto onde ficava o berço do bebê.
— Volte aqui, Aby! Vamos conversar civilizadamente, deixe-me explicar suas condições!— Hermes a seguia, os passos rápidos da mulher estavam deixando-o impaciente.
—CALA A BOCA E VAI EMBORA! ELE VAI FICAR COMIGO AQUI NA ILHA E NINGUÉM IMPEDIRÁ ISSO!
— Aby, escuta...
— Não! — Abigail aproximou-se do berço e pegou a criança no colo. — Meu bebê... Meu filho... Hermes, você não pode. — Lágrimas inevitáveis rolaram pelo rosto alvo da nativa.
— Tanto posso, como devo, querida. Deixe-me cuidar dele, prometo que poderá vê-lo quando quiser. Você irá melhorar e nós três viveremos juntos. — Os olhos do homem brilhavam. — Espera, tive uma ideia melhor! Vamos nós quatro para a cidade. Eu, você, o pequeno Álvaro e nosso garoto.
— Você enlouqueceu? Quer que eu deixe minha terra e vá viver com você no seu mundo de concreto, de violência e mentiras? — Ela fechou os olhos, sentia a fúria dançar em suas veias, a ira pressionar sua cabeça.
— Esta ilha não é um bom lugar pra ele crescer. É perigosa. — Retrucou o loiro.
— Saia. — Aby sussurrou.
— Quê?
— VÁ EMBORA DAQUI! Não quero mais que fique, você estáme fazendo mal.
— Querida, você não está entendendo. — Hermes estava prestes a se aproximar novamente.
No segundo seguinte Aby mostrou as palmas das mãos para o homem e sem que o tocasse, fez com que suas costas atingissem a parede de madeira. Hermes fez uma careta e baixou o rosto, sentindo uma dor infernal na coluna.
— Nosso filho não pode ficar mais nenhum segundo aqui, é perigoso pra ele ser criado por uma... — Ele engoliu em seco. — Aberração!
O arqueólogo sempre soube que a especialista em botânica conseguia levitar objetos, mexer com fogo sem tocá-lo ou ler seus pensamentos. Ele escondia de si mesmo o medo, negava a condição da mulher para evitar o descontrole emocional. Ele era tudo o que ela tinha, e então veio o bebê que os ajudou a quebrar a tal lista da morte.
XXXXX
A partir de então, Abigail não lembra-se de muita coisa, apenas do fato de que em uma noite, após a briga, Hermes levou seu filho, enquanto ela dormia. Ele entrou na casa, pegou a criança do berço e o tirou da ilha, o tirou de seus braços. Furiosa e tomada por uma imensa raiva, ela lançou-lhe uma maldição que o perseguiria pela vida inteira.
O bebê, em algum momento de sua maioridade, iria vivenciar o que ela vivenciou, o desconforto de ficar frente a frente com a morte e isso passaria hereditariamente. Assim como foi com sua mãe e como seria com alguma filha que ela viesse a ter novamente. O sangue de bruxa corria em suas veias, e se não seria repassado os ensinamentos para seus filhos, uma filha ela teria em breve, para que o legado fosse deixado.
Ficar frente a frente com a brutal lista da morte não fora uma escolha, mas para que a maldição recaísse sobre seu filho e o pai dele, ela como Oráculo, precisava fazer mais um sacrifício. Assim, eles pagariamo preço a terem que ficar longe dela.
Já sobre Hermes, através de sua magia, a mulher condenou-lhe a uma morte lenta, sofrida e dolorosa. Era o preço a ter que pagar por tirar dela o direito de ver seu filho crescer.
Prestes a concluir o pacto com Santa Muerte, Aby pegou uma faca de poda de sua estufa e posicionou-se atrás do balcão do local cercado de vidro. Respirou fundo e levou a lâmina da faca até seus dois olhos. O grito ensurdecedor e de arranhar ouvidos foi escutado pelo filho mais velho, Álvaro, que correu em socorro da mãe.
Ali estava selado o pacto com Santa Muerte. Ela daria o que a divindade queria e em troca, ela realizaria seus desejos a cada grupo de sacrifícios que ela lhe desse. Abigail conjuraria diversos acidentes ao redor do mundo e traria para a divindade um amontoado de almas.
Era um trato que valeria a pena.
Meu pequeno, tenho pena do que irá viver no futuro. Que Santa Muerte te guie, filho.
XXXXX
Junho de 2014
BlueRiver Adventure Park, o local perfeito para diversão, parque aquático onde uma diversidade de pessoas transitava e se dividia em realizar inúmeras coisas.
Uma garota de cabelos curtos usando gargantilha e camiseta com estampa do signo de aquário caminhava tranquilamente ao lado da piscina; Dois rapazes, um com uma blusa de bloco de carnaval e o outro loiro de olhos claros conversavam e tomavam caipirinha. Outro rapaz lia um livreto sobre alpacas ao lado de uma garota de óculos em espreguiçadeiras, além de um jovem levando fora de uma garota ruiva, na fila de um dos brinquedos.
Entretanto, era também o local perfeito para uma tragédia. O chapéu vermelho escondia um rosto sombrio, enquanto o batom destacava o lado ousado e misterioso. A dama de vermelho estava sentada em um quiosque, tomando um Bloody Mary e analisando a situação.
Esperava somente a chegada das vítimas. Gostava de assumir aquela forma jovem, graças àmagia. Sentia-se novamente bonita, jovem e disposta. Abigail possuía seus trunfos na manga. E Santa Muerte aguardava mais uma lista de sacrifícios.
Foi ai que a mulher viu o grupo de vítimas passar. Tudo estava seguindo conforme seus planos. Ela virou-se e, com seus olhos leitosos,encarou os bonecos sobre a bancada do quiosque. Embebedou-os com o líquido vermelho e recitou:
— Santa Muerte, aqui jaz mais uma prova de minha total fidelidade. Que sua supremancia possa trazer-me o que tanto desejo, a imortalidade!
Abigail pegou uma caixa de fósforos e riscou a mesma. Pós a chama próxima do rosto e jogou sobre os bonecos vudus.
— Harpista, Guerreiro, Atleta, Inocente, Flautista, Guardião, Prostituto, Erudito, Donzela, Tolo, Virgem, Curandeiro, Mensageiro e Oráculo. — Disse.
O fogo subiu depressa.
— Hallelujah! — A bruxa finalizou.
No segundo seguinte a bomba hidráulica explodiu o cano, causando a reação em cadeia. Ecaos se instalou.
Mesmo cega, Abigail assistia a mais uma destruição em prol de Santa Muerte.
XXXXX
O assobio incômodo da velha senhora soava nos ouvidos de Lana e Nina. As duas estavam amarradas ai pé de uma árvore no centro da floresta na ilha. Ambas já não tinham noção de quem estava vivo ou quem morrera. Somente tinham a certeza de que, se não fizessem nada, acabariam como os outros, abatidas pelos mascarados.
A velha continuava assobiando e olhando para a copa da árvore com seus olhos leitosos. A maneira com a qual Aby tratava sua cegueira era, deveras, assustadora. A todo momento, Nina tinha calafrios. Já Lana, em atos rápidos, tentava afrouxar a corda em seus pulsos.
Repentinamente a jovem turquesa conseguiu retirar a mordaça e bradar:
— Dá pra parar de assobiar? É irritante.
— Qual o problema? Essa canção é linda. Hallelujah...Conhece? Eu adoro essa música, ela me faz bem.
— A música é linda mesmo, você quem está estragando ela. — Lana cuspiu, antes de ter a boca amordaçada novamente pelo Urso, que estava próximo a ela.
Corvo e Urso rodeavam a árvore, encarando as duas garotas como se fossem sua próxima refeição. E de fato, aquela afirmação era verdadeira. Aby tinha ciência do próximo sacrifício.
— A Inocente e a Erudita já tiveram suas vidas ceifadas. Devo ter dado bobeira em algum momento para a primeira morte delas não ter dado tão certo. — Parecia estar buscando informações em seu consciente. — Ainda sinto que tem algo errado com essa lista. Sinto como se a loirinha-
Nina conseguiu retirar sua mordaça.
— Nina! Meu nome é Nina, velha maldita! — Os olhos de Nina estavam bastante vermelhos de tanto chorar. Ela estava prestes a se desmanchar em lágrimas novamente.
— Sinto como se Nina não fosse o último sacrifício obrigatório... Parece ter alguma fenda, algo que deixei passar. — A velha pós os dedos nas têmporas. — De qualquer forma, preciso me livrar de você, loirinha. Só entãopoderei me divertir a vontade com a ararinha e meus assassinos.
Urso fez menção de recolocar a mordaça de Nina. Um único olhar para Lana num único segundo, para que as duas agissem. A bióloga mordeu a mão do mascarado e ele recuou com o susto. As duas ergueram-se rapidamente e Lana jogou seu corpo na direção do Corvo, que ficou embaixo dela. No ato, Lana afrouxou a corda e pode livrar-se da amarra.
Olhando no fundo dos olhos claros embaixo da máscara, Lana sentiu uma ssensação estranha. Ela reconhecia aqueles olhos.
De repente olhou para o lado e percebeu que o Urso e Nina não estavam mais ali. Droga!
— Nina!
Desatenta Lana acabou recebendo uma joelhada no estômago e caiu para o lado, colocando os braços sobre o mesmo, sentindo uma dor terrível.
— Como vocêé enxerida, garota. Poderia ter ficado sem essa. — Abigail estava ao lado do Corvo.
Lana ergueu-se aos poucos, encarando a velha profundamente. Aby retribuiu o olhar, mesmo cega. Aquilo fez as pernas de Lana tremerem, mas ela no iria fraquejar. Era nunca iria desistir de proteger quem ama.
— Para chegar até a Donzela, você vai ter que passar por mim primeiro, caduca.
— Isso não será um problema, querida. Acabe com ela, Máscara de Corvo!
O assassino apontou o arco nacabeça de Lana e pareceu estar negando o ataque. Estático, o Corvo não reagiu. Encostada em uma árvore, Lana ficou confusa e segurou bem a pedra que estava escondida em suas mãos, lançando-a na máscara.
Com a pedrada certeira o Corvo caiu. Lana aproveitou e partiu para cima do assassino, pegando seu arco e a aljava de flechas.
— Reaja, minha filha!
—Filha? — Lana olhou diretamente para a velha e sem hesitar,arrancou a máscara do assassino em seguida.
O que viu,fez seu coração petrificar.
— CRYSTAL?!
A jovem de cabelos rosados por trás da máscara abriu os olhos ao sentir o filete de sangue escorrendo de sua sobrancelha.
— Não acredito que vocêé filha do demônio. — A voz de Lana embargou.
— Não fale assim da minha mãe! — Crystal gritou.
Ela deferiu uma cotovelada no rosto de Lana. A turquesa cambaleou para trás. Crystal não poupou esforços de agarrá-la pelos cabelos e jogá-la no chão. O rosto da professora de inglês foi direto na terra úmida. De boca suja, Lana redimiu-se e percebendo que a cigana se aproximava, investiu contra a mesma.
— Não importa se você era minha amiga, — Lana socou o nariz da cigana, fazendo-a tontear. — Se é filha dessa desgraçada mal amada, — Chutou sua barriga. — Ou se fazia consultas grátis pra mim. — Agarrou a cabeça de Crystal com força.
A cigana sentia seu corpo fragilizado. Sua cabeça girava e doíamuito. Até que sua mente pareceu sofrer uma pane e ela apagou estantaneamente.
— Não vou deixar que acabe com minha vida desse jeito! — Lana gritou, puxando a cabeça da outra até seu joelho direito, com o qual deferiu o último golpe, antes da jovem de cabelos rosados tombar para trás e ser amparada pela mãe.
— Sabe de uma coisa? — A turquesa olhou uma última vez por cima do ombro, antes de tomar outro rumo. — Vocês duas se merecem.
Então mostrou o dedo do meio e saiu dali em busca do paradeiro da bióloga. Onde você se meteu, Nina?
XXXXX
Olhos leitosos, então o escuro.
De cara contra o piso gelado, Crystal apoiou-se de pulsos e levantou-se de modo que pudesse se sentar. Sua visão voltava aos poucos, por vezes em pequenos fragmentos, em outras voltava com força, fazendo tudo em sua cabeça se misturar outra vez.
Uma luz forte, Crystal ergueu o braço tatuado diante de seus olhos. Mesmo sentada no piso, perdeu o equilíbrio repentinamente e voltou a cair de cara no chão.
O chão parecia ser um bom amigo agora, então ela relaxou. Crystal podia ouvir passos.
Então, o foco em sua visão voltou e ela reconheceu a banheira.
Crystal havia perdido as contas de todas as vezes que foi obrigada a afundar.
Abigail costumava dizer que a água era uma das melhores companhias para uma feiticeira. Pelo menos na fase de aprendizagem.
Os passos voltaram na direção de Crystal, então ela fechou os olhos. A jovem sentiu os braços fortes da mãe fechando ao redor de seus pulsos e a arrastando em direção a banheira.
Crystal se sentia incapaz de reagir. Ela estava fraca. E as memórias em seu cérebro ainda eram confusas, vinham em pedacinhos. O que estaria acontecendo?
— Não mãe, eu... eu não quero.
A velha não deu atenção. Crystal podia ouvir o som da água atingindo o fundo da banheira, logo alcançando uma profundidade suficiente para gerar apenas um som constante de água batendo em água.
Abigail ergueu os braços da filha e tateou até encontrar as vestes da garota. Encontrou a ponta do vestido e arrancou. Mesmo sabendo que sua mãe não podia enxergar, Crystal sentiu por alguns segundos a velha encarando seu corpo tatuado e magro.
Crystal encarou os olhos leitosos da mãe. Crystal podia até enxergar o reflexo de seus olhos verdíssimos nos olhos vazios da velha. Abigail não disse nada outra vez.
Algo na mente de Crystal dizia que aquele teria sido o plano desde o início.
Vários dos blackouts em seus pensamentos nos últimos anos faziam sentido agora. Era sua mãe que entrava e saía de sua mente todo o tempo, nunca avisando, nunca fechando completamente a porta ao sair.
Crystal caiu em lágrimas, um choro compulsivo e rancoroso. Abigail deu de ombros e ergueu o corpo da filha sobre a banheira, e então posicionou-o no interior da louça espaçosa, cuidadosamente para que a garota não submergisse totalmente.
Não daquela vez...
Crystal sentiu a água quente banhar seu corpo e seu choro tornou-se intenso. Fechou os olhos outra vez e ouviu o som da porta se fechando.
XXXXX
Sentia a sujeira deixando seu corpo, mas ainda se sentia suja.
Havia só três dedos de tinta ruiva nas pontas do cabelo de Crystal. A jovem via o tom rosa arroxeado, embora desbotado, ainda se destacando no mar de cabelos castanhos naturais, que ao entrar em contato com a superfície da água da banheira flutuavam graciosamente sobre seu tronco.
Para aguçar os sentidos de Crystal, Abigail a afogava.
Naquele segundo, na mente de Crystal, aquela didática antiga e insana da própria mãe fazia sentido. Enfrentar os medos (água), descobrir quem você realmente é (uma feiticeira). O que você pode fazer. (tudo?)
Mas quando Crystal tinha apenas oito anos, era difícil de entender.
Abigail havia dito que a água era capaz de trazer à tona o lado visionário da filha. A pressão no topo da cabeça da garota faria o cérebro trabalhar muito mais rápido. No desespero é isso que acontece. Então a menina teria visões do mundo inteiro em apenas alguns segundos, era mágico, intrusivo e destruidor.
— Só te destrói, pois você ainda não sabe controlar. — Abigail a alertava.
E como Crystal gostaria de ter aprendido a controlar. Ela queria fazer sua mãe orgulhosa, mas quanto mais tentou, mais errou.
A jovem de olhos verdes já havia morrido mais de um milhão de vezes. Infelizmente, toda vez que o destino finalmente botava seus dedos gélidos ao redor dos pulsos da garotinha, Abigail surgia como um trovão no meio da transição, empurrando o destino para longe e jogando Crystal de volta para a superfície, um sorriso esquisito no rosto enquanto cantarolava.
“Não é hora, minha querida fada, não éhora de ir embora...
Nós duas sabemos que ainda não chegou a sua hora”.
E então Abigail afogaria Crystal outra vez.
XXXXX
Clarisse e Anna Bella permaneciam de mãos dadas, enquanto Shinji, aponderado de uma lança improvisada, vasculhava cada centímetro do local. Eles poderiam dar de cara com Abigail e seus capangas a qualquer momento.
O cheiro da terra molhada ainda era sentido, a mata fechada e densa parecia querer engolir cada vez mais o trio que perambulava sem rumo. Estavam perdidos e sabiam disso, estavam prestes a se conformarem com o fato de que tudo não passava de um gigantesco labirinto, de onde eles não poderiam sair.
A pequena oriental já chorara muito, encharcando parcamente a roupa de Clarisse, mas depois do acalento do pai, ela pode se acalmar. A jovem de cabelos escuros sentia-se exausta, de uma caminhada que para ela tornara-se infindável. Tudo pela sobrevivência, arfou.
Nada tirava de sua cabeça o amuleto vermelho que encontrara dentro do bolso do casaco de Anna Bella. Se servia para algum propósito, ela deveria guardá-lo com segurança. Foi ai que Shinji despertou a roqueira de seus pensamentos. Clarisse olhou para frente e viu o vulto se mover atrás de um arbusto.
— Tem alguma coisa ali papai... — Anna Bella sussurrou, agarrando a regata de Clarisse e dando um passo para trás da garota.
Shinji pediu que as duas fizessem silêncio e deu três passos, até lançar o equipamento afiado na direção do arbusto. Um grito ecoou e espantou alguns pássaros na copa da árvore mais próxima. O cabelo ruivo denunciou quem estava de cócoras e escondida na vegetação.
Serena arregalou os olhos ao mesmo tempo em que suspirou aliviada.
— Você poderia ter me matado sabia, Samurai?— Limpou alguma sujeira de sua roupa.
— Poderia ter sido pior. Poderiam ter sido os mascarados da velha cega. — Shinji retrucou.
— Tem razão. — Serena arrumou o cabelo num rabo de cavalo desajustado. — Agora vamos sair daqui.
— Não temos tempo a perder. — Clarisse setenciou.
— Vem papai. — A voz de Anna Bella, ao tocar a mão do pai, pareceu embargada.— Não me deixa morrer.
— Não vai acontecer nada, querida.— Seu pai tentava ao máximo tranquilizá-la. — Estou aqui.
— Eu quero minha mãe... —Um choro baixo deu-se início.
A jornalista e o oriental se entreolharam. Ela sentiu como se seu coração fosse prensado pelos seus próprios músculos; ele sentiu como se seu peito fosse explodir. Como iria explicar para Anna Bella que sua mãe não voltaria.
Que Anna Clara estava finalmente voando.
XXXXX
A sensação que Nina tinha ao correr, era como se a floresta fosse fechar-se ao redor dela. A sua claustrofobia sufocava-a de maneira rápida, e se ela não fizesse nada para escapar do Máscara de Urso que estava em seu encalço, seria devorada.
As mãos atadas, o suor pesado escorrendo na testa, as roupas desgastadas, os cabelos bagunçados e sujos de terra. Nina estava pronta para ter seu final, mas não daquela forma. Ela era uma lutadora, era forte, não poderia fraquejar logo quando tudo parecia que iria dar certo. Ela iria desfazer-se das amarras e encontrar Lana, encontrar sua felicidade.
Em breve, Nina, em breve. Agora lute!
After all you put me through
You'd think I despise you
But in the end, I wanna thank you
'Cause you make me that much stronger
A loira encontrou um galho pontudo e ficou de costas para o mesmo. Sem titubear, começou a pressionar a corda contra a ponta do galho, fazendo movimento para cima e para baixo. Aquilo iria arrebentá-la e logo ela estaria livre. Mais um pouco...
— É engraçado ver seu desespero em tentar sobreviver.— A voz era gutural, mas lá no seu consciente, a bióloga tinha certa intuição de quem se tratava.
Parando para prestar bem atenção na voz do Máscara de Urso, que se aproximava sorrateiramente, ela reconhecia aquela voz com tom de deboche. Aquela voz amarga e doentia.
— Não pode ser você. — Os pedaços de corda caíram, despedaçados. Ela havia conseguido.
When I, thought I knew you
Thinking that you were true
I guess I, I couldn't trust
Called your bluff, time is up
'Cause I've had enough
You were, there by my side
Always down for the ride
But your, joy ride just came down in flames
'Cause your greed sold me out of shame
O homem riu atrás da máscara. Nina sentiu o cheiro da colônia forte, o cheiro repulsivo de alfazema com suor. Teve ânsia de vômito e apoiou-se na árvore.
— Achei que seria mais rápido em alcançar você, ligeirinha.— O assassino girava a adagas na mão, como em um comum número de malabares. — Da próxima vez corra mais devagar.
— Desculpa se não sou como as protagonistas de slashers. — Ela encarava a máscara, esperando que ele a retirasse.— Digamos que está mexendo com um tipo de Erin, de You’re Next, otário.
— Então esse deve ser o momento em que o assassino revela sua identidade.
After all of the stealing and cheating
You probably think that I hold resentment for you
But, oh no, you're wrong
'Cause if it wasn't for all that you tried to do
I wouldn't know just how capable I am to pull through
So I wanna say thank you
Sem muitas delongas, o Urso retirou a máscara e jogou-a. O objeto caiu na terra num minúsculo baque. Finalmente Nina poderia encarar aquele rosto. Aquelas rugas, aquele olhar acusador, aquele semblante carrancudo.
— Eu sei que está surpresa. — O homem riu, mostrando os dentes. Um deles estava visivelmente quebrado, resultado do confronto com Valentina.— Diga pra mim, qual a sensação de estar à beira da morte?
— Por que aquela bruxa maldita escolheu você? — Cruzou os braços. — Xavier. — O nojo só de pronunciar o nome do homem percorreu seu corpo até revirar seu estômago.
— Digamos que meu desejo de vingança falou mais alto, quando a velha resolveu fazer esse convite pra lá de inusitado. — Ele continuava girando a adaga na mão. — Tudo porque você roubou o que era meu! — O tom de voz de Xavier foi aumentando.
— Do quê você está falan-
— Cala a boca, vadia! — Xavier estava com o rosto vermelho, estava irado. — Não se faça de sonsa! VOCÊ ROUBOU MEU ÍCARO!
'Cause it makes me that much stronger
Makes me work a little bit harder
It makes me that much wiser
So thanks for making me a fighter
Made me learn a little bit faster
Made my skin a little bit thicker
Makes me that much smarter
So thanks for making me a fighter
Nina riu de maneira nervosa. Disse:
— Seu Ícaro? Isso é sério?
— Eu me dediquei todos esses anos para satisfazê-lo, para agradá-lo. E depois vem uma garota mimada tirá-lo de mim. — Xavier via o rosto de Ícaro formando em sua mente. — Eu nunca aceitei nem aproveiesse relacionamento de fachada. Um lord e uma pseudo-dama.
— Chega a ser tocante seu amor não-correspondido. Eu até te consolaria nesse momento tão triste,mas prefiro que morra, assim como aquele traste. — Nina não tinha nada para usar contra o homem, a não ser ironia.
Os olhos de Xavier fitaram o rosto culpado da ativista.
— Então foi você quem o matou?! Os pais dele ficaram desolados. — Alguma lágrima apareceu nos olhos de crocodilo que o mordomo possuía. —Foi você quem o tirou de mim pela segunda vez!
Lembrar de Ícaro trouxe à tona uma sensação ruim de solidão que Nina já havia esquecido. Ela estava sem a presença de Lana, sem os braços grandes de Greg acalentando-a, sem os conselhos dos pais e não menos importante, sem o carinho e a compreensãode Sidney. Será que sua chinchila estaria bem? Agradeceu a Deus pelo animal não estar metido naquele inferno.
— Eu nunca irei perdoá-la! — Bradou Xavier.
Never saw it coming
All of your backstabbing
Just so you could cash in
On a good thing before I realized your game
I heard you're going round
Playing the victim now
But don't even begin
Feeling I'm the one to blame
'Cause you dug your own grave
O instinto da loira foi correr e foi isso que ela fez. Sem perder tempo, o qual era preciosa àquela altura, ela correu entre as árvores. Xavier pôs a máscara de volta e seguiu-a correndo como um animal sanguinário e faminto pronto para atacar sua presa. Seu remorso estava sendo alimentado pela morte de Ícaro, pela ira que sentia ao lembrar que Nina se envolvera com o desaparecimento e com a possibilidade da morte do bombeiro.
— Oh, Donzela, não chegará muito longe! — Disse ele em tom sombrio.
Colocou a loira na mira e disparou a adaga. a lâmina cortou o vento num zunido específico e atingiu o ombro de Nina. A lâmina penetrou a carne. A bióloga urrou e tropeçou. Logo, o corpo caiu e rolou um pequeno barranco. Os cabelos dourados encheram-se de folhas secas,a roupa rasgada e os tornozelos e cotovelos feridos durante a queda.
After all of the fights and the lies
Yes you wanted to harm me but that won't work anymore
No more, oh no, it's over
'Cause if it wasn't for all of your torture
I wouldn't know how to be this way now
And never back down
So I wanna say thank you
Xavier ouviu o choro da bióloga ao descer o barranco e se aproximar da mesma. Ele adorou ver aquilo, gostou de sentir o gosto da vingança.
O homem soltou uma gargalhada bizarra.
— Este é o momento em que o assassino aparece uma última vez para terminar o que começou. — Deu mais um passo perto do corpo.
Por um único segundo ele pode sentir o pulmão parar de puxar ar. Olhou para o corpo jovem tombado e não avistou sua arma.
— Não no meu filme! — Nina girou o corpo de forma veloz e, segurando firmemente a adaga, deferiu um corte na altura da gargantado Urso.
Agora degolado, o pescoço de Xavier chiringava muito sangue, dava-se para encher um tonel inteiro com todo o líquido que transbordava pelo corpo do homem asqueroso. Ele tocou na gargantapela última vez, sentindo seus braços ficarem encharcados e a pele se abrindo.
O corpo inerte caiu de joelhos e tombou de bruços. A mão de Nina segurava a adaga, trêmula. Era misto de medo, angústia e ansiedade. A descarga de adrenalina havia sido tamanha que por breves segundos jurou que faria muito mais que só degolá-lo.
'Cause it makes me that much stronger
Makes me work a little bit harder
Makes me that much wiser
So thanks for making me a fighter
Made me learn a little bit faster
Made my skin a little bit thicker
It makes me that much smarter
So thanks for making me a fighter
— Pensando bem, eu sempre quis dizer isso, só não pensei que fosse em uma ocasião tão mórbida.
Acabou por guardar o canivete e seguir à procura de Lana.
XXXXX
Não demorou muito para que Lana encontrasse Shinji, Serena, Clarisse e Anna Bella na frente de uma caverna. O quarteto procurava um esconderijo, mas lugar seguro não existia naquela ilha e quanto mais eles buscavam meios de sair da floresta, mais dentro dela eles iam.
— Lana! — Shinji a recepcionou com um abraço.
— Mais uma sobrevivente, que bom que está bem. — Serena sorriu.
— Me diz que tem mais gente viva. — Clarisse manifestou-se.
— Até onde sei, Nina também está viva. Ela estava comigo, mas a perdi de vista. E o máscara de urso também. Temo que ele tenha...
— Não diga uma coisa dessas! Vamos achar o portão desse inferno e daremos no pé. Não quero passar o resto da minha vida fugindo deles. Uma hora vamos ter que enfrentá-los e só assim, conseguiremos sair. — A voz do oriental transmitia certa tranquilidade.
— Assino embaixo, Samurai. — Retrucou a repórter.
— Vamos entrar na caverna, aqui fora somos alvos fáceis. — Clarisse opinou.
— Temos péssimas experiências com as cavernas dessa ilha. Aqui é mais seguro que lá dentro. — A turquesa replicou.
Os cinco sentaram atrás de uma grande rocha, ao lado da caverna. Haviam alguns arbustos, seria dificil alguém vê-los.
Exausta, Anna Bella acabou dormindo no colo de Clarisse. A garota também repousava. Entraram em consenso e evitaram fazer uma fogueira, chamaria muita atenção. Embora fizesse frio, eles teriam que resistir até pensarem em uma maneira de fugir sem serem pegos.
— Eu não posso sair daqui sem a Nina. Não vou deixá-la morrer nas mãos da bruxa. — Lana riscava o chão com um galho. Ela escrevia o nome de Greg.
— Assim que encontrarmos ela, vamos direto para a pista de pouso. Deve ter algum transporte que nos tire daqui. Desceremos a montanha. — Shinji estava recostado na rocha. Parecia bastante abatido.
— Minha ganância acabou me trazendo pra cá, e confesso que estava empolgada para descobrir os segredos de Santa Muerte. Mas não sabia que essa descoberta custaria minha vida. — Serena permanecia cabisbaixa e martirizada. — Ainda arrastei minha assistente. Clarisse não merecia estar aqui, foi tudo por minha causa. — A repórter encarou Clarisse, que cochilava.
— Não se culpe. — Lana pediu, passando o braço pelo ombro da ruiva.
Repentinamente Lana ouviu um barulho de galhos quebrando do outro lado e pediu que os demais fizessem silêncio. Na companhia de Shinji, ela pode verificar do que se tratava.
— Nina!
A turquesa pulou o arbusto e correu para abraçar a loira, que mancava e segurava o ombro esquerdo. Logo, Lana notou que Nina estava ferida.
— Esfaquearam você? Porra! Aquele desgraçado me paga, vou enfiar aquela faca goela abaixo! — Disse,verificando o ferimento profundo no ombro da outra.
— Não precisa, eu já me encarregueide mandá-lo para o inferno.
— Quer dizer que você... — Shinji não completou.
Nina fez isso por ele, concluindo:
— Matei ele.
— Vamos tratar logo esse ferimento e descer a montanha? — Disparou Serena. A ruiva saiu de trás da rocha e cruzou os braços, como a esperar que os demais também tomassem a mesma atitude.
As horas seguintes foram dedicadas a descer a montanha. Todos com algum tipo de arma para lhes ajudarem. Porém, quando desceram a montanha, aconteceu o pior. Havia uma população inteira esperando por eles na parte baixa, à beira do vilarejo.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Serena, Shinji, Anna Bella e Clarisse foram cercados, desacordados e capturados rapidamente, enquanto Nina e Lana conseguiram fugir.
— Vão atrás da garota de cabelo azul e da loirinha! Nenhum dos escolhidos deixará de ser sacrificado! — Alguém bradou no meio do tumulto.
XXXXX
O silêncio enchia o banheiro. Os azulejos amarelados eram iluminados por uma lâmpada incandescente em seus últimos momentos e a água na borda da banheira permanecia estática. Só era possível ver uma das mãos da mulher grudada na lateral da cerâmica.
Submersa, olhos abertos e expressão petrificada, Crystal podia ver a própria maquiagem do rosto se desfazendo e pulverizando na água diante de seus olhos.
E ela estava totalmente consciente daquilo. Também, tão consciente de tudo que tinha feito errado, sob o controle de sua velha mãe pirada, mas ao mesmo tempo doía para Crystal reconhecer que ela mesma tinha deixado sua velha mãe ter ido longe demais.
A jovem então ressurgiu na superfície da banheira, uma onda de água transbordando da peça e encharcando o chão ao redor. Crystal sugou o ar profundamente e tirou os cabelos molhados da frente dos olhos.
Levantou-se cambaleando e agarrou uma toalha.
Em seu subconsciente, tinha visto Lana e Nina precisando de ajuda. Crystal nunca esperou um tipo de intervenção divina em sua vida e também não esperava que fosse perdoada, mas sabia naquele instante que precisava começar a fazer as coisas certas.
XXXXX
— Carlão, cê vai ou não rapaz?
Da parte baixa da ilha, era possível ver que a maior parte da nuvem de fumaça já tinha se dissipado.
— Do que cê tá falando?
Carlão não pertencia aquele lugar. Quando havia dito a sua mãe que preferia vender as coisas na praia do que cursar Economia, realmente não tinha esperado um sim.
E agora ali estava, em algum lugar da Ilha Vermelha, cercado por lunáticos que tratavam uma senhora como uma espécie de santa.
— Estão dizendo que mataram Dona Abigail. – O homem conhecido como pescador completou com uma expressão triste. — Tá todo mundo subindo lá no morro!
Carlão franziu a testa.
— Vish, vocês não têm uma espécie de substituta?
— Lave essa boca rapaz! — O homem conhecido apenas como pescador retrucou. – Não é assim que funcionam as coisas com Dona Abigail. Dona Abigail não gosta de gente assim.
Carlão pensou em retrucar e dizer que mesmo se a velha estivesse viva ele estaria cagando e andando para ela, mas apenas virou os olhos.
— Quem tirou a deusa de vocês do trono?
— Os escolhidos.
Carlão concordou, um longo suspiro. Observou várias pessoas deixando suas cabanas e uma pequena multidão se aglomerando no centro do bairro, a maioria apontando para a fumaça que agora desaparecia no céu.
— Ah claro, os sacrifícios. – Carlão riu. — Os escolhidos. A salvação da Ilha. Não sei porque eu ainda estranho tudo isso. Mas enfim, voltando ao assunto, o que exatamente vocês estão planejando, queridos nativos?
— O que você acha que a gente tá planejando? – O pescador perguntou cuspindo. — Ora, a gente vai terminar o serviço da Dona. Pelo menos até ela voltar.
— AS COISAS NÃO VÃO FICAR ASSIM! – Uma mulher gritou do meio da rodinha crescente de nativos. – TODAS AS ALMAS IRÃO SUBIR DO MESMO JEITO!
Carlão segurou uma gargalhada. O pescador o encarou sério.
— Cê vai ou não, rapaz?
— Claro que eu vou amigo, tua companhia éótima. – Carlão sorriu. – Até porquê, da última vez que você me chamou para dar um rolê, o vulcão explodiu.
XXXXX
Lana e Nina corriam pela mata densa, ambas de mãos dadas outra vez.
Pelo que Lana tinha entendido, elas estavam sendo perseguidas. Estavam descendo por uma das ruas principais da Ilha quando uma moça apontou para Lana e disse algo sobre cabelo azul e sacrifício. Então um grupo de pessoas gritou e pôs-se a correr atrás das duas garotas, cordas e velas na mão. Seus amigos foram capturados.
E as garotas correram. Ilha Vermelha estava mais para um inferno do que um lugarzinho para passar as férias. E ali estava Lana, correndo sem saber o que poderia fazer para aquele pesadelo acabar.
Na mente de Lana estava claro, Greg estava morto. E a cada passo dado, a cada fôlego tomado, a lembrança vinha como uma flecha arrebentando com seus pensamentos que, constantemente lutavam para se reorganizar. E mesmo se Lana escapasse daquele inferno com vida, ela nunca mais teria um Greg para chorar com ela.
E aquilo fazia a dor ficar mais e mais intensa.
Nina por vezes a acalmava, por vezes acariciava sua mão.
— Estamos juntas. Vamos ficar assim até o final.
Lana não discordava. Se as coisas dessem terrivelmente errado e se sua cena final fosse executada ao lado da de Nina, então não doeria tanto. Mesmo sabendo que não era justo.
As duas repentinamente pularam numa clareira e se deram conta que estavam de volta num asfalto. Nina apertou a mão de Lana com força, e as duas se preparavam para voltar a se esconder, então uma caminhonete hippie surgiu do nada e parou com um tranco na frente das duas.
Crystal dirigia.
— Entrem!
— Nem fodendo. – Lana cuspiu.
— Eu estava possuída pela Abigail! – Crystal soltou. – Aquela não era eu.
— Nossa! – Lana riu na cara de Crystal. – Aquela não era você, agora tudo fez sentido!
Lana ouvia a população cada vez mais próxima do asfalto.
— Porque essa gente tá nos seguindo? – Nina gritou. Seu ombro doía muito da facada dada por Xavier.
— Coisa da Abigail – Crystal virou os olhos. — Entrem no carro, eu vou ajudar!
Lana e Nina se encararam.
— Talvez seja a nossa única chance. – Nina sussurrou no ouvido de Lana.
— Se ela virar a casaca — Lana sussurrou de volta — eu pego pelo cabelo e você as pernas, falou?
— Por mim tá ótimo. — Nina concluiu com um raro sorriso no meio da correria. – Juntas.
XXXXX
Abigail entrou na casa, as chinelas molhadas de água de poça lambendo o piso com barulhos irritantes.
— Crystal, tá dando tudo certo. – Abigail berrou da cozinha. — Em breve vamos terminar a lista. A população idiota acredita que estou morta e está juntando os sobreviventes para...
A velha não obteve resposta. Desviando de móveis e objetos pela casa como se enxergasse, entrou no banheiro.
Ela não precisou repetir o chamado para saber que o local estava vazio.
— Forte à resistência... – Abigail meneou a cabeça. – Forte como a mãe.
Andou até a banheira, abaixou-se de joelhos e deixou as próprias mãos flutuarem pela superfície da água turva do banho de Crystal.
Abigail concentrou-se e pensou na jovem. A garota dirigia a caminhonete... A turquesa e a loira no banco do passageiro. Abigail já podia enxergar através de Crystal. A jovem mesmo não querendo, seria útil para a mãe outra vez.
Abigail sentiu-se invadindo a aura da jovem. Outra vez...
— Forte em resistir como a mãe, mas vulnerável como o pai. Posso entender o erro.
XXXXX
Sentada entre Crystal e Lana, Nina balançava com os movimentos caóticos da caminhonete.
O veículo inclinou-se na subida do morro.
— Onde estamos indo? – Lana perguntou desconfiada.
— Chamei a guarda costeira. – Crystal disse calma. – Eles vão levar vocês de volta.
— Então porque estamos subindo?– Nina pôs-se a encarar a traseira da caminhonete.
— Para enxergar de que lado a guarda virá.
Nina sentiu o olhar quente de Lana e retribuiu. Fez o máximo para indicar um “ainda não” para a jovem turquesa.
Crystal tossiu e tirou as mãos do volante, Nina pegou num piscar de olhos e passou a guiar o carro.
— Não! – Crystal grunhiu. – Não! Não!
— Não o quê? – Lana gritou.
— Nada. – Crystal congelou no assento e retomou o volante. – Tudo está absolutamente perfeito.
Sem tirar os olhos da estrada, a jovem de orelhas pontudas sorriu largo.
— Perfeito.
— Perfeito? – Nina perguntou.
Crystal não disse nada e pisou fundo. A caminhonete roncou e acelerou na subida. Nina arriscou um olhar para trás e viu alguns carros os seguindo.
Cutucou Lana.
— Meu Deus! – Lana tapou a boca. – A população.
XXXXX
A caminhonete passou por vários locais conhecidos pelas garotas, inclusive a antiga cabana de Abigail, que agora seus destroços eram envoltos em chamas cansadas e fumaça preta.
— Não quer que eu dirija? – Lana perguntou, encarou os carros em fila algumas dezenas de metros atrás e abaixo na estrada.
— Não, obrigada. – Crystal respondeu.
Nina sabia que algo estava errado, mas estava cansada para reagir naquele instante exato. Além do mais, estavam em um veículo em movimento. Qualquer golpe mal calculado naquela caminhonete poderia acabar com a vida dela e de Lana para sempre.
A caminhonete alcançou um vilarejo que, estranhamente, as garotas nunca tinham visitado. A maioria das casas eram de madeira e barro. Aquilo era sinistro.
Crystal diminuiu a velocidade enquanto se aproximava do centro do vilarejo.
— Ok, me dá a chave do carro. – Lana estendeu a mão. – Chega. Me passa a porra da chave do...
Nina empurrou Crystal para o lado e tentou desligar o carro. Crystal gritou e empurrou Nina com o ombro, ao mesmo tempo dando uma cotovelada na buzina do veículo.
A reação foi instantânea. Vários moradores saíram ao mesmo tempo do que parecia ser uma tenda, a principal do vilarejo e começaram a correr em direção ao carro.
— A chave! – Lana berrou outra vez.
Nina destravou a porta do motorista e empurrou Crystal para o lado de fora do veículo. A jovem caiu com um grito e Nina fechou a porta em seguida.
Ao mesmo tempo, a porta ao lado de Lana se abriu e a garota foi puxada para fora aos gritos. Mais uma vez, aquela droga parecia um filme de terror.
Nina chorou. Ela não deixaria Lana. Observou pelo retrovisor um grupo de pessoas segurando a jovem turquesa pelos membros enquanto a jovem se debatia. Um saco preto foi colocado ao redor da cabeça dela.
Nina não deixaria Lana.
A loira avistou um pedaço de madeira no lado de fora do veículo. Ela abriu a porta e engatinhou-se no chão batido de terra, em direção a sua arma em potencial. Então viu a sombra de alguém se aproximando.
O mesmo grupo que tinha pegado Lana, agora cercava Nina, uma pá na mão.
Nina duvidou que eles teriam coragem de acertar a pá em sua cabeça. Então uma garotinha puxou a pá da mão de um homem mais velho, que por sua vez sorriu.
– Deixa comigo, pai.
Nina viu a parte metálica da pá descendo em direção a sua cabeça e fechou os olhos.
A dor explodiu no topo do crânio e então tudo ficou escuro.
XXXXX
Nina acordou num espasmo. Era um saco plástico ao redor de sua cabeça? Teria ela morrido ou era apenas uma lembrança da noite do amor doido de Ícaro? Ela não tinha certeza. Gritou.
— Calma mocinha.
Mocinha. Nina estava odiando aquele tipo de gíria regional que estava sendo submetida naquela Ilha. Ah a Ilha...
Sentiu seus braços amarrados num poste. Sentiu que seus pés, também amarrados, estavam pisando em... folhas secas.
— Calma moça. Eu quero ver teu rosto bonito enquanto você morre. – Risadas no fundo.
Então o saco plástico foi arrancado e Nina abriu os olhos.
A visão perseguiria Nina pelo resto de sua vida. Ou pelo menos, pelos próximos minutos restantes...
Nina estava numa espécie de um palco improvisado, localizado no interior do que ela julgou ter sido aquela tenda gigante que tinha visto do lado de fora, momentos antes. Diante de si, uma plateia, algumas pessoas com tochas de fogo nas mãos.
Um circo.
Ela tinha os braços amarrados num poste que ia do chão batido até o teto da tenda. Os pés estavam sobre um monte imenso de galhos e folhas secas, que agora causavam uma alergia em seus pés machucados. Diante de si, haviam outros quatro postes, também com outras pessoas amarradas.
Shinji, Anna Bella, Serena e Lana. A jovem turquesa estava desacordada. Shinji chorava, Anna Bella berrava e Serena lamentava. Todos estavam com os braços amarrados acima do corpo, numa posição que representava vulnerabilidade. Todos no palco, e com os mesmos galhos e folhas secas em seus pés. A loira pode pensar em Clarisse por breves segundos, até onde sabia, a jovem também estava na ilha. Será que ela estava bem? A salvo, talvez?
Então Nina sentiu o cheiro arrebatador do álcool. Embebida em álcool, Nina estava prestes a ser incinerada viva.
O pensamento veio forte demais, e Nina sentiu-se desmaiando. Repousou a cabeça no ombro, veio o cheiro do álcool em seu cérebro e ela acordou de súbito outra vez.
Não era claustrofóbico, mas Nina podia dizer facilmente que aquele era o pior dia de sua vida.
O dia de sua morte.
XXXXX
A plateia que rodeava o palco montado dentro da tenda proferia palavras de baixo calão, xingando as vítimas amarradas aos postes de madeira.
Shinji tentava se livrar do nó dado em seus pulsos, mas só conseguia mais frustração. Serena pedia a Deus que ficasse tudo bem, que sua carreira não terminasse naquele fim de mundo, com inúmeros nativos chamando-a de imunda e vadia.
— Vocês vão ver quando eu sair daqui, seus seres primitivos! Vou denunciar essa merda de seita pra todas as autoridades e eles vão foder com essa maldita civilização! — A repórter gritava e esperneava amarrada ao tronco.
— Só estamos cumprindo nossas obrigações. — Um homem de meia-idade, porém de aparência velha, proclamou.
— Que obrigações? Oferecer pessoas inocentes para uma divindade pagã? Em que século vocês vivem? Era medieval? — Gritou Shinji, coberto de álcool. O cheiro era forte o suficiente para ser inalado em todo o recinto.
— Fica na sua ai, Japa! — Alguém gritou, seguido por um coro, reprimindo o oriental.
— Bando de animais. — Lana resmungou.
— Eles estão seguindo cegamente a profecia dos sacrifícios para Santa Muerte. A lista não pode ser concluída!Não podemos morrer aqui! — A ruiva chorava, debatendo-se debilmente, chamando atenção de todos os nativos que presenciavam o espetáculo. — Não antes de ficar famosa e viajar pelo mundo, conhecer:Veneza, Dubai, Amsterdã, Los Angeles, Miami, Saint Tropez...
— Não surporto mais essa choradeira, chega! — O homem de meia-idade gritou.
— Por favor, não...— Nina suplicou. Olhou para o lado e encarou Lana.
Naquele momento, as duas sabiam que havia chegado a hora, que seus esforços em escapar haviam sido em vão. A loira começou:
— Lana, eu sei que para onde vamos, encontraremos quem a gente ama, mas queria que soubesse que eu nunca esquecerei você e nem os momentos bons que passamosjuntas.
— Eu também nunca vou me esquecer de ti, Nina. Porque eu te amo. — Lana baixou a cabeça e sentiu o repulsivo cheiro do álcool.
— Tudo em mim ama tudo em você. — A loira replicou, fazendo alusão à música que Lana cantou para ela, pouco antes daquela ida repentina à ilha. E chorou.
Anna Bella afogava-se em suas próprias lágrimas. Anna Clara pairou em sua mente como um trovão e ela só pode olhar para o pai e sorrir o sorriso mais sincero que o contador já viu.
— Vamos encontrar a mamãe, querida. Vamos encontrar a mamãe! — Shinji falou entusiasmado, queria que a filha fosse a última coisa que ele visse, antes de morrer.
— Por Deus, eu não tenho ninguém para dizer que amo, esse não é um fim justo para mim. — Serena ergueu o olhar e fechou os olhos. Pensou em coisas boas, embora fosse difícil diante da situação em que se encontravam.
Cinco postes, cinco sacrifícios, cinco almas. Santa Muerte vibrava de tanta satisfação.
De repente os moradores começaram a erguersuas tochas e fazer uma espécie de oração. Em um coro macabro e tenebroso, eles cantavam:
Un Soldado A Casa Hoy Regreso
Y Un Niño Enfermo Se Curo
Y Hoy No Hay Trabajo En El Bosque Entre La Lluvia
Un Desamparado Se Salvo Por Causa De Una Buena Acción
Y Hoy Nadie Lo Repudia
Os cinco amarrados tinham certeza da deixa, que aquele era o destino final.
Cinco indivíduos encapuzados dirigiram-se até os galhos e entoavam a canção em uníssono. Logo, acenderam as palhas e viram o fogo crescer.
Aleluya
Aleluya
Aleluya
Aleluya
As labaredas lamberam os membros inferiores dos sacrificados, de modo que as chamas consumiam suas peles. Nina foi a primeira a ter o corpo devorado pelo fogo, sua pele desapareceu em questão de segundos, entre gritos histéricos de desespero. O corpo da loira parou de se mexer e os gritos cessaram. Nina estava morta.
Serena debatia-se enquanto o fogaréu queimava cada parte de seu corpo de maneira cruel. Sua voz foi desaparecendo a medida que seus ossos iam surgindo embaixo da carne chamuscada. Até que a cabeça já em chamas tombou para frente, sem qualquer indício de vida.
Un Ateo Que Consiguió Creer,
Y Un Hambriento Hoy Tiene De Comer,
Y Hoy Donaron A Una Iglesia Una Fortuna
Que La Guerra Pronto Se Acabara,
Que En El Mundo Al Fin Reinara La Paz
Que No Habra Miseria Alguna
O fogo que lambia Lana ficara maior em seus membros inferiores e a turquesa, no meio de tanto sofrimento e dor, teve suas amarras corroídas antes mesmo da morte. Ela caiu para frente e foi em meio às súplicas, ao mesmo tempo que se arrastava pelo palco, que sua vida se esvaiu e seu corpo pode ser devorado em paz pelas chamas.
Aleluya
Aleluya
Aleluya
Aleluya
Anna Bella gritava de dor. A garota estava sendo brutalmente queimada, sem quaisquer chances de escapatória. As maçãs de seu rostinho já estavam sem pele e o fogo demorava a matá-la. Quando olhou para o lado, avistou seu pai completamente tostado, enquanto o fogo se alastrava pelo seu tronco, até que a parte frontal de seu rosto deslizou pelo peito e seus braços tinham o couro completamente enegrecido.
Porque La Norma Sea El Amor
Y No Gobierne La Corrupción
Sino Lo Bueno Y Lo Mejor Del Alma Pura
Porque Dios Nos Proteja De Un Mal Final
Porque Un Dia Podamos Escarmentar
Porque Acaben Con Tanta Furia
Aleluya
A última coisa que a garotinha viu foi a pessoa a sua frente retirar o capuz. A pele rasgando jánão importava mais. E então sentiu a pior dor, a dor da morte. Anna Bella comprimiu os olhos e gritou o mais alto que pôde.
Aleluya
Aleluya
Aleluya
Aleluya
Aleluya
O fogo engoliu a menina,que abriu os olhosnum espasmo involuntário.
Realmente, a morte é apenas questão de perspectiva.
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