Notas iniciais
Escrito por Vini483Kaulitz.

O Texas Redneck Bar era um bar grande situado no andar superior de um galpão na Paulista. Paredes com cores escuras, porém bem iluminadas, destacando pôsteres de bandas de todos os estilos de música, filmes, séries e até novelas cults. Mesas e cadeiras, bancadas e enfeites pareciam ter saído direto de um saloon de um filme do faroeste antigo.

O espaço grande do Texas era dividido em três seções. Ao cruzar a entrada, você atravessa um longo corredor largo, geralmente repleto de casais, sombras misteriosas se esfregando num local escuro. Você nunca reconheceria nem mesmo sua mãe. Ao entrar no corredor, se você olhar para o fim do mesmo, pode ver as luzes da casa já dançando na parede, gradualmente ouvindo o volume da música aumentando em seus ouvidos. Alcançando o fim do corredor e observando o local, você finalmente se dá conta do quanto o espaço é enorme.

Na extremidade oposta à entrada ficava a área do DJ e karaokê; uma plataforma relativamente média acoplada logo acima da pista de dança, o chão decorado como se fosse um campo minado. Próximo à entrada do corredor, mas não colado na parede se localizava uma espécie de um grande quiosque, servindo diversos tipos de bebidas e aperitivos. Ao seu redor, banquinhos do faroeste simetricamente distribuídos.

Num dos banquinhos estava Greg Kaulfuss.

Não tinha DJ até aquele instante, então o karaokê estava tomado por dezenas de pessoas que escolhiam diversos hits da década de 90.

Greg estava deprimido, escondido por um boné marrom e uma barba maior do que o normal. Apoiado contra a bancada do quiosque, fazendo caretas ao beber uma Heineken, casualmente cantando desanimado e baixinho a maioria das músicas que os jovens escolhiam e destruíam em poucos segundos no karaokê.

O turno na agência tinha ido até mais tarde naquele dia, e Rafael, seu chefe e um de seus melhores amigos tinha o convidado para tomar uma cerveja; Rafael iria ao bar para se despedir de um colega que iria embora para a Europa, Greg não tinha entendido direito.

Agora Greg bebia sozinho, sem ideia de onde Rafael poderia estar.

Greg nunca tinha tido tanta coisa em sua cabeça ao mesmo tempo. A erupção de uma porra de um vulcão entupido na Ilha Vermelha tinha sido o pontapé de uma série de desgraças que pareciam não acabar. Greg se lembrava muito bem dos detalhes, em paralelo com as imagens que tinha gravado na GoPro, nada daquilo seria esquecido tão cedo.

Então teve o ataque e o incêndio na casa da Nina. Horrorizado, tinha encontrado Nina e Vanessa na pior situação possível. Os corpos dos pais da garota... Nina tinha sido violada. Greg fazia uma careta dolorida ao lembrar, sequer notava os próprios pulsos fechando com ódio. E bebia outro gole. Na noite horrível, tinha passado a madrugada na delegacia, mão entrelaçada com a de Lana, as pernas ainda tremendo, incapaz de segurar o nervosismo e a raiva. Naquela noite, ele poderia e queria socar alguém.

Alguns dias mais tarde, Festa do Branco na Vane. Um filho da puta matou o pai da garota. Greg foi o encarregado de caçar a ruiva na mansão gigante, mais uma vez sentiu o próprio coração sendo afogado ao ver Vanessa sendo derrubada. Aquela mulher tão forte, durona e bela; ajoelhada no chão, lágrimas descendo o rosto, sem armas. E Nina, que parecia estar pelo menos recuperando o brilho, nocauteada com força na cara pela segunda vez... Ah, terceira.

Greg e Lana não eram os protagonistas daquela história horrível, mas estavam na linha de tiro, ambos diretamente relacionados às duas garotas, consequentemente sendo atingidos pelos destroços daquela merda toda.

Greg parecia ser forte, todos pareciam enxergar nele um tipo de muralha. Aquela sensação de que ele era imbatível vinha de dois pontos, o primeiro era que Greg era enorme e coberto por tatuagens oldschool. O segundo e o principal era a imagem badass que ele tinha construído para si mesmo na Internet, e que caíra como uma luva em sua vida real. No início dos vlogs, em poucos dias o Greg do Youtube havia virado o Greg da vida real e vice-versa, e naquele ponto de sua vida ele tinha ido longe demais e estava bem pouco interessado em voltar atrás.

Apesar da muralha, ele estava quebrado.

Então ele achava que estava acostumado com os haters. Trolls, desocupados que enchiam sua caixa de comentários com porcarias sobre como ele agia, como ele falava, como se vestia ou como vivia. Ou quando falavam de Lana. De mãos dadas com a garota de cabelo azul, Greg havia aprendido a superar e a crescer sobre aquilo. Contudo, ao divulgar alguns pedaços do vídeo que havia gravado no dia que a Ilha Vermelha resolveu jogar a bosta no ventilador, o fotógrafo se viu mais uma vez assustado em como a Internet consegue mudar o sentido das coisas e realçar o lado ruim de qualquer coisa que você faz.

No vídeo, Greg relatava em frente à câmera que estava na Ilha Vermelha quando tudo aconteceu. Editou vários trechos das filmagens, desde a corrida no Jipe, o resgate da senhora, até o vulcão explodindo em tudo. Greg disse que sentia muito sobre todas as vítimas e que se sentia ótimo por ser um sobrevivente, ao lado de Lana. Greg havia postado o vídeo, pois simplesmente era o que ele fazia, ele divulgava diversos trechos de acontecimentos importantes em sua vida. O público de seu canal, que realmente o conhecia, o apoiou e então haviam mandado mensagens de apoio para o casal e para os outros sobreviventes. O resto da Internet caiu em cima, retorcendo Greg e fazendo com que ele parecesse “a pessoa que quer aparecer em cima de uma tragédia”. A pessoa que apenas correu e achou um banco na porra do barco de resgate.

Greg chegou a gravar um vídeo pedindo desculpas, sendo assistido por Lana e Nina. Mas na hora da edição, cansou da ladainha e excluiu o arquivo. Ele não devia explicações para ninguém.

Greg sabia que aquilo que haviam dito na Internet não era verdade. Mas mesmo se fosse, não justificava a enxurrada de coisas que haviam escrito sobre ele e Lana nos comentários. E lá estava Greg, desarmado mais uma vez.

Uma mulher tinha previsto o acidente. Aquilo era irreal. Ela economizou um tempo que Greg não sabia se teria, se tivesse subido naquele palco para avisar as pessoas que o vulcão entraria em erupção em poucos segundos. A mulher poderia ter salvado a vida dele...

Então os sobreviventes começaram a morrer. Greg viu Lis Araújo morrendo ao vivo e em chamas num show transmitido pela Internet, uma porra de um show de horrores. Então dois rapazes do grupo da lancha haviam morrido. Um tinha sido pregado na areia por uma pilastra e outro tinha sido... Devorado por piranhas. Greg rira com um pânico horrível agarrando seu coração.

Alguns dias antes, havia esbarrado com um ruivo que se lembrava de ter gravado um trecho de uma performance acústica de uma música no Resort. Tarde da noite, Lana havia o acordado, mostrando a porra da notícia que ele tinha virado cookie num ofurô.

Greg só sabia daquilo tudo, pois uma foto com todos os sobreviventes de um dos barcos tinha sido divulgada num site de notícias na Internet, Greg e Lana perdidos num canto da foto; Lana reconhecida pelo cabelo azul, Greg pelo tamanho e pelas tatuagens vazando na camiseta rasgada. Cabelereira ruiva intocada, Vane e uma loira belíssima, porém baqueada, Nina.

Lis Araújo também estava na foto, e justamente os outros que já haviam morrido. Os seguidores do fotógrafo haviam mandado a imagem via Twitter, e foram mandando para ele links com as notícias das mortes dos outros sobreviventes. Algumas montagens inclusive continham um X vermelho na cara de quem já havia morrido e outras mais refinadas continham o logo de The X Files no canto. A última versão da foto tinha um X vermelho na cara de uma moça que Greg sequer conhecia. Greg não quis saber sobre aquela notícia.

Os fãs tinham rido e comentado as similaridades das mortes esquisitas em sequência com a franquia de filmes Premonição. O que eles não sabiam, e que Greg não havia comentado com ninguém, é que alguém realmente tinha tido uma visão.

E por mais que aquilo parecesse uma piada horrível enviada diretamente de alguém na porra do inferno, era real e estava mais do que na cara que algo errado estava acontecendo.

E parecia com a porra daqueles filmes.

– Outra Heineken! – Greg berrou, inconformado. – Aqui!

O bartender trouxe a garrafa verde e abriu com um estalo.

– Fica frio, Kaulfuss. – O bartender, que Greg lembrou-se que se chamava Chico, e que já tinha trocado ideia com ele uma vez ou duas falou. – Seu disfarce tá bom, — disse, e desenhou um boné e uma barba ao redor do próprio rosto. – Ninguém vai saber que é você.

De alguma maneira, Chico entendia que Greg estava na fossa e não queria ser interrompido por alguém gritando “CADÊ A AVATAR” na cara dele. Greg não era a criança mais famosa da avenida, estava longe de ser e sabia muito bem daquilo, mas estava num bar cujos clientes respiravam Internet, Greg era uma peça importante naquele tabuleiro.

Sem contar que toda maldita vez que Greg estava no Texas, era parado o tempo todo para uma foto ou duas.

– Valeu Chicão. — Greg forçou um sorriso.

– ORA ORA ORA!

Greg reconheceu a voz de Rafael e se virou para encará-lo. Rafael tinha um rosto marcante, cabelos escuros e curtos, porém parecia ter o dobro da massa de músculos de Greg.

– Como vai o homem mais odiado da Internet brasileira? – Rafael perguntou socando Greg.

– Vai lindo. — Greg sorriu. — Obrigado por perguntar. Já tomou o suplemento da Gracyanne Barbosa hoje, cavalo?

– Eu estava te procurando, — Rafael ignorou o comentário, parecendo sério. – Por que cê tá bebendo sozinho? Vamos lá na mesa, a Madu e a Ellen estão lá.

– Quem?

– Aquela que eu te falei que tá indo embora.

– Ah. – Greg levantou-se do banquinho. – “Vamo” lá então.

Greg serpenteou entre as dúzias de pessoas, casualmente cumprimentando um ou outro e recusando ir cantar Backstreet Boys no karaokê mais de uma vez. Todo mundo que ele conhecia, o reconheceu mesmo com a barba zoada e o boné, e a maioria o cumprimentava com um sorriso gentil.

A mesa tinha quatro assentos e era encostada contra a parede; de um lado estava Madu, uma ruiva bela de olhos escuros que namorava Rafael há um bom tempo, e do outro uma garota bonita que parecia ser bastante popular. Greg cumprimentou as duas moças com um beijo no rosto e tomou o assento da parede, ao lado da desconhecida. Sorriu mais uma vez para as moças e voltou a tomar sua Heineken, recostado contra a parede.

Sentiu o olhar confuso de Rafael para ele e deu de ombros.

– Eles não têm Skol.

– Tá tudo bem, Greg? – Madu perguntou, visivelmente intrigada com o desânimo do rapaz.

– Ele tá puto com a Internet, — Rafa respondeu por Greg. Madu continuou olhando para Greg, ignorando a resposta do namorado.

Greg apenas confirmou indicando Rafael, dando a entender que era aquilo mesmo, e deu de ombros.

– As pessoas na Internet não tem vergonha na cara, — Madu continuou, visivelmente estressada. – É recalque.

– Certeza que é, — Ellen concordou e sorriu para Greg.

– Às vezes cansa, — Greg desabafou, só um pouco alterado por causa da bebida. – Não é porque você tá dando sua cara a tapa que as pessoas precisam jogar bosta o tempo todo.

Madu concordou com um sorriso seco, visivelmente tensa, achando que Greg iria começar a chorar.

– GREG VAI TOCAR LINGER É NOSSA MÚSICA MANO VAMO LÁ! – Alguém próximo gritou. Greg apenas balançou a cabeça, descartando.

Um silêncio desceu na mesa, e Greg se viu cantando baixinho o refrão de Linger, do The Cranberries. Tinha decorado essa música num dos shows de Lana.

I miss you dear,

You know I’m such a fool for you

You got me wrapped around your finger

Do you have to let it linger

Do you have to, do you have to,

Do you have to let it linger

– Fala pra elas do lance do Premonição, — Rafael comentou, um gole de alguma coisa.

Greg lançou um olhar para o amigo.

– Nem pensar.

Oooh I thought the world of you

I thought nothing could go wrong,

But I was wrong, I was wrong...

– Que lance? – Ellen perguntou.

– É, que lance? – Madu perguntou.

– Alguns sobreviventes do vulcão na Ilha começaram a morrer, — Greg riu entre dentes. Bebeu outro gole. – Meu público tá achando que todo mundo vai morrer ou algo do tipo.

Madu virou os olhos e riu.

– Mas alguém teve uma visão? – Ellen perguntou.

Greg ficou em silêncio e suspirou. Encarou fundo nos olhos escuros da moça.

– Não precisa nem responder, — ela ficou séria.

– Louco né? – Greg comentou.

Ellen pegou uma garrafa de Heineken na mesa e bebeu um golão. Greg encarou surpreso.

– E como. – ela disse. – Escuta, sabe que essa lenda não é só de Premonição, certo?

– Oi? – Greg perguntou.

– Eu comecei a cursar cinema esse ano, — Ellen se explicou. – Tive que procurar sobre lendas e mitos antigos, e suas respectivas adaptações para o cinema, e encontrei essa de Premonição. Vou embora para Londres depois de amanhã. Ganhei a continuação do curso pra lá.

Greg fez uma expressão de que estava impressionado e concordou para que ela continuasse.

– A história do filme é um misto de diversas lendas provindas do Oriente Médio. Numa das lendas, o espírito insano de uma antiga Deusa das Visões, algo do tipo, compartilha seu dom com outras pessoas, para que as mesmas possam evitar desastres horríveis. Ela faz isso porque não conseguiu evitar o desastre que a matou, algo assim.

– E? – Greg pareceu cético.

– E a pessoa que recebeu o dom, consequentemente acaba salvando outras pessoas. Aí elas morrem em acidentes estranhos, pois deveriam ter morrido antes, certo?

– Isso.

– Um antigo bruxo notou a relação entre os acidentes estranhos e enxergou ali uma oportunidade de tirar vantagem. Ele passou a manipular as coisas, para que o jogo funcionasse do jeito dele. Ele conjurava os desastres, era capaz de escolher os peões; as vítimas que fariam parte do acidente, e que mais tarde ao morrerem, serviriam como carne para um sacrifício sujo. E para dar certo, ele invocava a Deusa das Visões no local dos desastres, para que ela pudesse dar o dom a alguém.

– Pra que esse sacrifício?

– Sei lá. Alguns diziam que era pra ganhar os anos de vida restantes das pessoas, assim tipo, vivia uns duzentos anos a mais sem envelhecer. Outros dizem que era beleza e riqueza até o fim da vida, ou o poder de trazer alguém de volta dos mortos. Diversos fins, — Ellen riu, Greg acompanhou na risada. — Existem diversas versões dessa história... O que eu contei é mais ou menos o que acontece em comum na maioria delas.

Greg estava intrigado. A merda, obviamente, ia mais fundo do que ele havia pensado.

– Todas as vítimas que entram na lista são os denominados mensageiros, — ela continuou. — Pessoas que tem a capacidade de pular a morte. Algumas, a maioria das pessoas simplesmente não consegue evitar a morte. A morte chega e pá, elas morrem. Os mensageiros são os filhos do Destino, os únicos que são capazes de dobrar a morte e viverem como intrusos no plano por um longo tempo. E os mensageiros só podem ser assassinados por um ceifeiro mensageiro, o décimo oitavo cavaleiro da morte. E de volta a lenda original, sabe quem é o ceifeiro mensageiro?

– O bruxo da segunda lenda? – Greg perguntou, não querendo parecer estar mais interessado do que realmente estava.

– Isso. Pode ser o bruxo. Uma bruxa. A morte. Ou uma pessoa comum. Eu... Você...

Greg riu.

– Moça, você é de humanas ou cheira umas?

Ela riu alto.

– Eu faço meu dever de casa, — ela deu de ombros e tomou outro gole no gargalo.

Greg finalmente notou que Rafa e Madu já tinham saído da mesa

– Diz ai — Ellen perguntou rindo — em qual presídio você fez suas tattoos?

Greg encarou as próprias tattoos, rindo também.

– Faço na Phoenix Studio. Só quebrar ali na “Raposo Marques”.

Greg notou as tatuagens no pescoço e no braço da moça.

– E em qual presídio você fez as suas?

Repentinamente, uma moça muito bêbada chutou afobada na mesa e levantou Ellen pela mão. – Miga, vão botar Daughter no karaokê. É tipo, a sua música porra!

Ellen soltou o rabo de cavalo e deixou os cabelos escuros tombarem sobre as costas e sobre o vestido preto.

– É minha música, — Ellen justificou, sorrindo e ajeitando o vestidinho. Greg sorriu.

– Ellen, se você, por um acaso, estivesse na lista da morte, — Greg continuou, levantando-se também, agarrou o pulso da jovem delicadamente na lábia para não deixar que a amiga bêbada levasse Ellen de uma vez. – O que você faria?

Ellen mudou de expressão e um pouquinho de tristeza surgiu rapidamente no canto de seu sorriso e tão rápido desapareceu. Greg teve a sensação súbita de que Ellen já tinha pensado sobre aquilo na vida.

– Eu lutaria com garras e viveria o resto dos dias ao lado da pessoa que amo. – Ela sorriu, rapidamente secando uma lágrima descontrolada. – E eu fiz minhas tatuagens em Liechtenstein, na Califórnia. E outra coisa, não é Ellen, seu trouxa. É Ally. Ally de Alisson.

Greg riu, tinha entendido o nome errado a noite inteira.

– Perdão!

Mas Alisson já tinha desaparecido na multidão. E os primeiros acordes de Daughter soaram pelos autofalantes, e a galera vibrou.

Alone, listless

Breakfast table in an otherwise empty room

Younger, violence, center of her own attention

Mother reads aloud, child tries to understand it

Tries to make her proud...

Greg já estava pensando em Lana. Mesmo que aquela história toda fosse uma viagem completa e mesmo que ele estivesse só um pouquinho grogue, no fundo ele sabia que ainda teria muita coisa para fazer.

XXX

A ruiva chorava sem parar do outro lado da tela.

Nina e Lana encaravam Vanessa pelo Skype. Já era quase oito e meia. Greg tinha avisado que ia demorar, pois ia passar rapidinho no Texas com o Rafa, Lana então resolvera olhar o Facebook e havia recebido uma chamada de Vanessa. Lana então correu até a cozinha para chamar Nina, que estava pedindo uma pizza no telefone da casa, pois nenhuma das duas estava a fim de cozinhar aquela noite (sequer estavam com fome), e se Greg quisesse comida de verdade, Lana havia dito para Nina que ele que fosse procurar na puta que pariu depois que enchesse o rabo com o mala do Rafael.Cervejinha no Texas o caralho.

Vanessa estava desolada, e com razão. Nem Lana nem Nina tinham acreditado quando o assassino de Roberto Albuquerque veio à tona. E a história que Vanessa contou aos prantos durante a conferência no Skype teria feito Lana e Nina pegar o Jipe e não parar até chegar na Mansão Albuquerque. Mas como o Jipe não tinha chegado...

Pussy estava deitada sobre o sofá do escritório de Greg, um olho em Lana, outro em Nina e Sid, que finalmente repousava no ombro da loira. Dick... Só Deus e Greg sabiam onde poderia estar aquele cachorro. Ele tinha resolvido tirar o dia pra urinar nas coisas.

Lana não conseguia acreditar na quantidade de mortes que estavam acontecendo ao redor de si. Filha de delegado, cidade pequena, Lana estava acostumada desde criança a ver histórias totalmente diferentes se cruzando e revelando os plots e twists mais catastróficos e mind-blowings que se poderia imaginar. Mas aquilo que estava acontecendo, era, no mínimo, inédito. Se ela estivesse numa situação melhor com seu pai, o Delegado Campos, ela com certeza teria ligado para ele e discutido por horas. Ela sentia falta daquilo tudo.

Vanessa, Lana e Nina ficaram se despedindo pelo que pareceram dez minutos.

– Acha que fizemos certo de não contar a teoria do Greg para ela? – Lana perguntou alguns minutos mais tarde, voltando da cozinha com a caixa de pizza na mão.

– Claro que fizemos, — Nina respondeu, cortou um pedaço pequeno de pizza – Acho que todo mundo já tem coisa demais para se preocupar. Vanessa não precisa dessas coisas.

Lana aproximou-se da impressora e retirou a última impressão, a foto dos sobreviventes com um X vermelho marcado no rosto de pelo menos quatro pessoas.

– A internet tá acompanhando tudo. — Lana riu, deixou o papel cair no colo de Nina.

Nina encarou a imagem e deu de ombros. Pegou o papel, rasgou ao meio e arremessou no lixo.

– Isso tudo tá acabando comigo.

Lana encarou, concordando em silêncio.

– Meu Deus, — Lana exclamou, Nina olhou assustada. – Que tédio.

Nina caiu na risada.

A jovem de cabelos azuis sentia falta das pestes do Inglês. Lana era professora de Inglês na escola de inglês mais relevante da região. Embora estivesse de férias desde o início de dezembro, sentia que poderia morrer se precisasse ficar em casa por pelo menos mais dois meses. Fevereiro viria logo, e Lana logo voltaria a ficar estressada nos dias de semana com seus alunozinhos. Estressada do jeito que Greg gostava.

O telefone de Nina tocou, as duas se assustaram e riram. Nina encarou a tela, “ÍCARO”, e saiu do cômodo com uma careta. Lana observou que seus próprios shorts e regatas haviam caído perfeitamente bem em Nina. Deu um sorriso.

Lana não conseguiu acreditar quando Greg lhe sussurrou baixinho, que quando encontrou Vanessa na noite do assassinato de Roberto, ela estava se amassando com Nina.

Lana tentava ficar feliz pela amiga, finalmente voltando aos eixos, voltando a sentir alguma coisa depois de toda aquela merda de alguns capítulos mais cedo daquela história insana. Também estava um pouco surpresa, não desconfiava que Nina dava uns “rolês” de caminhão de vez em quando.

Lana estava caindo de amores por Nina, ainda que amando incondicionalmente Greg. Contudo, ao mesmo tempo Lana teria que tratar de aceitar que as coisas não iriam funcionar para o lado dela.

Nina havia lhe contado tudo na manhã seguinte ao incidente na mansão dos Albuquerque. Lana contou que Greg já havia lhe contado, e Nina disse que sabia que Greg teria contado, apenas pelo olhar que o barbudo lançou para as duas quando as encontrou. Lana não soube o que dizer. Nina não soube o que dizer, e as duas resolveram brincar com os animais.

Lana fora criada pelo pai e abraçada pelos inúmeros animais da família. A mãe desapareceu da face da terra após seu nascimento. Lana cresceu como a garotinha do papai, foi para o lado negro da força na adolescência.

Lana usou todas as maquiagens escuras que encontrou e se afundou num universo alternativo. Virou famosa no Fotolog e no MySpace. Nos dias atuais, as vezes ela se olha no espelho, encara o cabelo azul, confusa e envergonhada ao lembrar-se da jovem emo, gótica, otaku depressiva de alguns anos mais cedo. Ela imagina que talvez, daqui a uns dez anos, quando voltar com o cabelo preto natural, também vai se arrepender de ter passado azul unicórnio na cabeça quando tinha 22.

Mas ela não se importa muito, é apenas o jeito dela jogar. Lana era intuitiva, sensível, as vezes lunática demais. Mas quando enfiava ambos os pés no chão, era durona, decidida e possuía uma lábia de poucos. Lana era uma tigresa indomável.

Brincando com um violão, descobriu que poderia cantar, usando a voz pesada e metálica, que, sem dúvidas, herdou do pai.

Era um festival da cidade, The Lost Files tinha sido recém-formada por Lana e os colegas do ensino médio. Lana cantava Linger num tom bem mais baixo que o original. Era um Linger meio Alanis Morissetti. Finalmente enxergou um jovem rapaz charmoso, olhos cinzentos, sorrindo abaixo das luzes dos holofotes na plateia. Ele tinha a câmera presa na mão, Lana sabia que o foco era ela.

No instante em que conheceu Kaulfuss, imaginou que ele seria o próximo erro. Assim como fora com Marcos, Ian, Alice e Brenda. E todos os erros com aqueles e aquelas que ela nunca mais lembraria os nomes.

Não imaginou que o erro com Kaulfuss iria durar tanto tempo. Principalmente depois de encontrar a ficha criminal de João Gregório Kaulfuss no sistema da polícia, usando o login do Delegado Campos. Quatro passagens na polícia por ser pego usando drogas... Porte ilegal de armas... Pego tirando fotos no jardim de pessoas que ele não conhecia... Dois casos de brigas em bar... Acidente de moto.

Greg explicou que o primeiro ano da faculdade foi uma fase muito estranha de sua vida. Greg era um viajante, um soldado, um ator, uma bomba-relógio. Um coelho constantemente preso no meio da rodovia, paralisado pelos faróis do caminhão da morte. E foi justamente Lana que diminuiu ao zero aquela possibilidade de um dia, ele finalmente ser atingido.

Lana confessou todos seus medos e suas fantasias para Greg. Ele abraçou tudo aquilo, e abraçou Lana exatamente como ela era. Ele aceitava participar de seus desafios, e a desafiava de volta. Ele nunca pediu para Lana mudar em nada, não a julgou e não a forçou a fazer nada contra sua vontade. Ele a fez se sentir uma mulher.

Os anos se passaram, ambos amadureceram, e o Greg do bem ainda era exatamente o mesmo. E foi por isso que o amor de Lana nunca diminuiu. E ainda que Greg fosse um canalha e vivia dizendo que adorava a anatomia feminina e que não perderia qualquer chance aleatória que surgisse em seu caminho, ainda sim, ela sabia que o amor era recíproco. Do jeito torto dele, era recíproco até demais.

Era um pouco daquilo que a fazia se sentir culpada por estar criando sentimentos por Nina, e também, pois sabia que teria grandes chances de ser descartada. Seu lado bi havia sido engaiolado por vários anos, devido a companhia sempre presente e presciente de Kaulfuss. E ele sabia muito bem daquilo, por vezes caía na gargalhada, sussurrando fantasias bobas no ouvido dela.

Mas parece que afinal o mundo tinha dado suas voltas.

E Lana estava preocupada.

Dirigiu-se até a caixa de bagagens que tinha recebido mais cedo, seus pertences que haviam ficado no resort na Ilha Vermelha finalmente haviam chegado. Rasgou o papelão com uma tesoura, abriu a caixa e deu uma olhada. Uma espécie de nostalgia esquisita a lavou, as peças de roupas que ambos já haviam usado até o dia do acidente carregavam o cheiro do resort. Uma GoPro caiu de uma camiseta de Greg e Lana franziu o cenho.

Arrancou o cartão de memória e arrastou-se até o MacBook no chão. Não se lembrava de ter visto Greg usando outra GoPro na Ilha.

XXX

Trinta minutos mais tarde, uma chuva leve começava a cair na cidade, e Greg ligou os limpadores do para-brisa.

It’s My Life, Bon Jovi, ecoava pelo veículo. Greg odiava Bon Jovi, era Lana que tinha enfiado aquela música em seu celular, mas o momento era perfeito e Greg cantarolava alto, os pedaços que se lembrava da música.

It’s my life, it’s now or never.

I ain’t gonna live forever...

Ele sorria, maravilhado com a felicidade e a calmaria que aquele pensamento tinha trazido para seu coração.

Ainda estava preocupado, principalmente, pois Alisson tinha lhe falado que a história de Premonição era baseada em lendas antigas. Mas aquela ainda era outra história.

Na luz fraca do interior do Jipe, Greg tentava se lembrar de momentos importantes com Lana. Em todos os momentos marcantes de sua vida nos últimos anos, podia lembrar-se de Lana se divertindo ao lado dele.

Greg não poderia deixar de mencionar quando Lana bebeu vodca demais e sozinha, caiu em coma alcoólico. Aquilo aconteceu fora da supervisão de Greg, o fotógrafo teria sabido muito bem o limite da namorada. Greg levou-a até o hospital e carregou-a até encontrar uma maca. Lana acordou mais tarde, perguntando se os gnomos pendurados na orelha de Greg eram reais.

“Não são, se você não consegue tocá-los”.

Lana ergueu o braço até certa altura, mas o mesmo caiu de volta na maca.

“Você é real?”

“Se você consegue me sentir, mesmo estando bêbada pra caralho, então eu sou.”

Lana caíra na risada, enquanto Greg chorava.

Também teve aquela vez que os dois estavam excitadíssimos, mas Lana resolveu dar uma olhada rápida no Facebook antes do “tiro-liro”. A primeira coisa que veio na tela foi um vídeo horrível mostrando algum filho da puta tacando fogo em filhotes de cachorro indefesos, algum parente estúpido tinha compartilhado. Era uma cena horrível, e Greg e Lana excitados caíram no choro juntos.

E teve a vez que Greg contou sobre aquilo, para mais de 600 pessoas num evento do Youtube. Lana estava vermelha, logo do lado dele. Foi a partir desse dia que Lagreg ganhou uma intensidade feroz, mesmo com os nomes dos dois não formando um ship muito bonito.

Greg amava cada pedacinho da estrada com Lana.

Lançou um olhar rápido para a sacola da joalheria no banco do passageiro.

Greg ia casar com aquela mulher.

XXXX

Greg subiu as escadinhas de sua casa, mochila na costa, cubo com um anel de noivado no bolso de trás do jeans, coração batendo.

Como sempre, tocou a campainha e abriu a porta logo em seguida.

Nina surgiu da cozinha, corada e preocupada.

– Greg, você fez cagada.

– Oi?

Lana apareceu da cozinha, olhos vermelhos por ter chorado, uma caixa de ovos na mão.

Greg deixou a mochila escorregar pelo braço até o chão e sentiu seu estômago revirar. Que porra teria acontecido? Mais alguém morreu? Mas então por que Nina não estaria chorando? E a caixa de ovos?

O primeiro ovo arremessado atingiu a parede acima de Greg.

– SEU FILHO DA PUTAAA!

Greg recuou, desviando do segundo ovo que atingiu a parede logo ao lado dele.

– Que, que foi porraaa?

Então Greg viu o MacBook acima da mesa, na tela estava pausado o vídeo do boquetezinho que tinha ganhado da moça da Ilha. Delirando, ele se perguntou se Nina teria visto também.

Greg quis morrer.

– Lana, eu—

E o terceiro ovo acertou em cheio no meio das pernas de Greg. Ele arquejou com a dor, se apoiando contra a parede. Abaixou-se atrás de um sofá e pelo canto do olho enxergou Nina sem saber o que fazer.

– Me desculpa, eu...

– Greg, — Lana gritou, — não dá pra confiar em você uma única vez na vida, porra?!

– Lana, eu –

– Vai se foder, Gregório! Levanta, porra!

Um ovo se espatifou no sofá. Greg levantou-se mais uma vez.

– Lana, eu te amo, eu –

– Se me amasse, — Lana gritou, arremessando outro ovo, — não faria esse tipo de merda comigo!

Ela voltou a chorar, mas não parou de jogar ovos. Assim que o sétimo ovo atingiu-o na perna, Lana ganhou confiança e acertou quatro de uma vez só no peito e na testa de Greg.

Os ovos na caixa acabaram, e ela arremessou a caixa vazia no ar, não indo muito longe.

– Nina, me traz as maçãs. – Lana ainda encarava Greg, sem piscar. Lana era o lobo e Greg era a presa. Agora Lana estava totalmente séria, impassível.

– Lana, — Nina exclamou levando as mãos à cabeça. Abaixou-se e pegou Sid no chão e prendeu-a na gaiola. — Eu não posso, eu –

– Eu pego então.

Lana voltou correndo para a cozinha.

Nina encarou a bagunça e lançou um olhar desapontado para Greg. Fedendo a ovos e desarmado, ele não soube o que fazer.

Lana voltou de mãos vazias, o cabelo azul totalmente bagunçado.

Ela estava louca.

A jovem encostou-se na parede do corredor e escorregou até o chão, chorando. Nina abaixou-se junto dela.

Era incrível a velocidade daquela mulher em mudar de ideia.

Greg se sentia horrivelmente culpado.

– De quem era aquele batom?

– Oi?

– O BATOM PORRA, NO JIPE GREGÓRIO, NO JIPE.

Greg levou um tempo para se lembrar. O batom era realmente uma pegadinha do Rafael, Greg se lembrava de ver o amigo arremessando o objeto pela janela do carro.

– Já disse que foi o Rafa...

– Eu não consigo acreditar em você. – Lana começou a rir descontrolada. – Ai, aquelas merdas de anatomia feminina, VÁ A MERDA!

Ela enfiou a cabeça no meio dos joelhos. Greg não teria o que dizer.

– Lana, o Rafa pode provar...

– Foda-se o Rafael. – ela disse sem olhá-lo, a voz embargada pelo choro.

– O que você quer que eu faça?

Pussy finalmente surgiu na sala fungando repentinamente, não entendendo nada do que estava acontecendo.

– O que você quer que eu faça? – ele repetiu.

Greg se arrependeu de ter feito a pergunta. Lana ergueu-se calmamente, encarou-o nos olhos.

– Dá o fora.

– Oi?

– Lana, — Nina interveio, — ele não tem –

– Dá o fora.

Greg engoliu em seco, tremendo. Ele concordou, sem dizer nada, virou-se em direção à porta e saiu da casa.

Fechou a porta atrás de si e levou as mãos à cabeça, incerto do que fazer. Encostou-se na porta e escorregou até o chão. Sentou-se no carpete e descansou a cabeça na porta.

A porta abriu repentinamente e ele viu Lana do lado de dentro.

Talvez Lana estivesse melhor.

– E FICA COM O DICK, ELE NÃO PARA DE MIJAR NAS COISAS TÁ.

Lana delicadamente passou o cachorro grande pela porta e em seguida bateu-a com força.

Dick sentou-se ao lado de Greg, arfando.

Coração partido, Greg suspirou.

– É uma noite longa, amigo.

XXX

Não era nem a primeira e nem a segunda vez que o fotógrafo quebrara o coração de Lana. Mas não importava toda vez que aquilo acontecia, Greg se sentia um merda, um desespero constantemente crescendo dentro de seu peito.

Ele nunca soube direito como é que Lana havia o aceitado de volta nas outras vezes. Mas já fazia mais de três anos que ele tinha parado de pular a cerca, e uma preocupação gigante parecia querer explodir seu cérebro. Lana era diferente agora.

E ali, enxergando uma possibilidade de que talvez Lana nunca mais fosse sua, Greg levantou-se na varanda, correu em direção a cerca e vomitou.

O cheiro do ovo o incomodava, o suor em sua camiseta, a barba estúpida o incomodava e agora também o vômito. Tirou o boné e arremessou numa parede da casa. Voltou a sentar-se no carpete.

E chorou. Que patético um homem do tamanho dele chorando no carpete de casa, de frente para a rua.

Assustou-se com o celular vibrando no bolso. Olhou para a tela e viu o nome de Anna Clara, a mulher da Ilha Vermelha.

Após procurar que nem um condenado, Greg havia encontrado o número da mulher e deixado uma mensagem de voz, para ver se conseguia descobrir alguma coisa a mais sobre a tal visão.

– Anna Clara? – ele atendeu, pigarreando, arrumando a própria voz.

– João Gregório? – a voz da mulher soou do outro lado. Greg se lembrou da mulher dizendo no microfone sobre o acidente, semanas antes.

– Isso. É... – Greg pigarreou, tentando encontrar foco, encontrar as palavras certas. – Olha, você deve ter me achado um louco com o que eu disse na mensagem...

– Na verdade não, — Anna Clara respondeu. – Tem algo errado mesmo.

Greg sorriu. Aquilo seria mais fácil.

– Eu sei que a primeira impressão que você teve de mim no avião foi meio...

– Você estava com a garota de cabelo azul?

Ela se lembrava. Greg sentiu o coração batendo mais rápido.

– Isso.

Um silêncio.

– Gregório... Greg hmmm... Greg... Ai meu Deus eu...

Greg franziu a testa, confuso.

– Anna Clara? O que aconteceu? Tá tudo bem?

– Precisamos nos encontrar. – ela finalmente disse.

Greg sorriu outra vez, então sentiu o coração despencando. Teria a mulher, o visto morrer na tal visão?

– Era exatamente o que eu ia sugerir. — Greg respondeu calmamente.

XXX

Anna Clara desligou o telefone, atordoada com a memória súbita de ter visto o tal Gregório morrendo em sua visão. Um gancho atingia o topo de seu crânio e ele afundava lentamente, deixando um rastro de sangue na água.

A mulher andou até a cozinha e encheu um copo com água.

O nó em seu coração estava cada vez mais forte. Se até o outro rapaz já tinha percebido que as coisas estavam estranhas, então Anna não estava tão louca.

– Anna do céu, corre aqui filha.

Era Sílvia. Shinji tinha saído para jantar com Anna Bella, dona Sílvia tinha vindo fazer companhia a filha.

Anna não tinha ideia de quanto tempo não ouvia a mãe dizendo “Anna do céu”, então presumiu que o assunto fosse sério.

A comissária voltou para sala de sua casa, viu Silvia com o rosto enfiado no notebook. Na tela, havia o zoom de uma das fotos que havia surgido na Internet, na foto todos os sobreviventes do barco de Anna prestes a serem desembarcados em terra firme.

O zoom estava na cara de uma senhora, a mesma senhora que vira Gregório resgatando. Esquisito o bastante, a mulher sorria para a foto. Ela não era cega?

– Tá vendo essa mulher aí? – Silvia perguntou, balançando a cabeça descrente.

– Que tem?

– Essa é a mulher que te tirou do berço quando você tinha acabado de nascer. É essa a filha da puta.

– Mãe? – Anna Clara recuou descrente. – Você tem noção do que tá falando?

– Filha. — Silvia respondeu, lançou um olhar afiado para Anna. – Eu reconheceria esse sorriso de demônio em duzentos quilômetros de distância. Anota aí, é ela.

XXXX

Lana estava enterrada na cama box. Era quase onze da noite, a luz vinha apenas do corredor. Nina estava encostada no batente da porta, Sid em seu ombro. As duas observavam Lana.

– Nina? – Lana soltou entre um suspiro.

– Estou aqui Lana.

– Você viu se o Greg saiu de carro?

– Ele tá fungando lá na porta desde que você o chutou.

– Não é justo...

– Claro que não é justo. – Nina deu de ombros, aproximando-se da cama. – Ele te ama, mas fez aquilo...

– Não é justo o Dick ficar lá fora. – Lana disse calma. — Recolhe ele, por favor.

– Tá bom. – Nina deixou Sid descer na cama com Lana e voltou em direção à porta.

– Certeza que é pra recolher só o Dick?

– Recolhe o Dick, Nina. O Greg, ah... Você é que decide...

– Não vai ficar brava se eu recolher os dois?

Lana enxugou as lágrimas, quebrada.

– Recolhe os dois cachorros, tá? A casa também é dele.

Nina concordou e saiu do quarto. Lana virou-se e enterrou mais uma vez a cabeça no travesseiro.

Ela pensou sobre a teoria de Greg. E se os três estivessem em perigo?

Naquele momento, Lana não quis saber.

XXXX

Rosto lavado, Greg tirou a camiseta e deitou no sofá da sala, sorrindo timidamente para Nina.

– Tem certeza que não quer pegar o colchão do seu escritório? – Nina perguntou. – Pois eu posso dormir muito bem no sofá, eu é que sou...

– Nina, relaxa. Você é de casa, tá bom?

Nina sentou-se na poltrona de frente para Greg.

– Sinto muito por você ter que ver a confusão, — ele finalmente disse, jogando o celular em cima da mesa e tirando o coturno.

– Tudo bem. — Nina comentou. – Às vezes eu quebro o pau com o Ícaro.

Greg riu, cabisbaixo.

– Eu sei que fiz merda, — Greg comentou, fechou os olhos e suspirou. – E se a Lana não me quiser mais?

– Você vai resolver com Lana, — Nina sorriu. – Ela te ama.

– Eu ia pedir ela em casamento hoje, — Greg tirou o anel do bolso de trás da calça jeans.

Nina abriu a boca, surpresa e balançou a cabeça descrente para Greg. Ela não quis ver o anel, quis deixar a surpresa para Lana.

– Eu torço pra tudo dar certo pra vocês, — ela sorriu. — Espere a poeira abaixar e faça o pedido. Ela vai aceitar.

– Obrigado...

Nina encarava o ombro de Greg, que olhou para o próprio ombro, não entendendo. Tinha apenas uma tatuagem ali.

Deus me deu serenidade para aceitar as coisas que não posso mudar... – Nina começou.

Coragem para mudar as coisas que posso,– Greg continuou, sorriso crescendo.

E sabedoria para saber a diferença,– os dois disseram em uníssono. Greg riu alto, então tapou a própria boca rapidamente para não acordar Lana.

– Não sabia que você era religioso, — Nina comentou.

– Eu não sou. – Greg deu de ombros. – Mas gostei da frase. Acho que a crença da minha mãe passou um pouquinho pra mim. E você nerd safadinha, não sabia que falava latim.

– Pois é, — Nina deu de ombros. – Tenho meus talentos... Enfim, não deixa de ser uma bela frase.

– Euzinho que escolhi. – Greg comentou com um sorriso idiota. — Tento levar como um lema para a vida.

– Vou tentar levar também, — Nina comentou.

– Você vai ver, — Greg ficou sério. – Serenidade e coragem você vai ter de sobra.

– O problema é a sabedoria, — Nina completou.

Ela sabia exatamente onde aquilo encaixava em sua vida.

Ela nunca havia imaginado que perderia seus pais tão cedo. Mesmo que não pensasse muito no assunto, e que por um lado fosse cruel, acreditava que, assim como via com as outras pessoas, iria acompanhar seus pais morrerem quentinhos em suas camas.

As coisas tinham terminado com tanta brutalidade, que ainda, dias depois, ela ainda sentia o coração doendo. Era um dor insistente, uma dor psicológica que atravessava a barreira do cérebro e atingia diretamente no físico.

A dor é que te faz humana, Lana havia dito.

Nina duvidava que toda aquela dor um dia iria embora.

E no misto da dor, vinha a raiva. Aqueles marginais tinham invadido sua casa, matado seus pais e a violado. Aquilo era a prova terrível de que no fim das contas, talvez não existisse um Deus orando por ela.

Ela sempre tinha sido uma boa garota, nunca esperou nada em troca. Talvez seu grande erro fosse esperar que o resto do mundo tivesse um coração tão grande quanto o dela.

Nina nunca seria capaz de saber como agradecer a Lana e Greg. Os dois tinham sido amorosos desde o começo, e desde o incidente na mansão tinham funcionado como mãe e pai, amigo e amiga, namorado e namorada. Uma presença constante, uma calmaria que Nina outrora duvidava que pudesse sentir em outro lugar além de sua antiga casa.

Contudo, os pesadelos continuavam.

Nina era claustrofóbica. O nível de claustrofobia era tão grande, que ela se sentia mal apenas em ver outras pessoas engaioladas. Inclusive animais.

Nos pesadelos, ela estava nua, sentada e espremida numa jaula minúscula, e não podia ver direito o lado de fora pois havia um saco plástico ao redor da jaula. Aquilo dificultava a respiração também.

Quando Nina não desmaiava por falta de ar nos primeiros segundos do sonho, pelas grades da jaula e mesmo com o plástico embaçado, enxergava mais uma vez seus pais sendo mortos. E por mais que tentasse esquecer, sabia que era inútil. Então por várias e várias noites acordou gritando, lutando para respirar, sendo acudida por Lana ou Greg, que a abraçavam, enxugavam suas lágrimas e olhavam nos olhos dela, reafirmando que ela não precisava se preocupar.

Simplesmente porque ela estava num local seguro.

XXXX

Greg não tinha conseguido dormir.

Cansado, olheiras abaixo dos olhos, o fotógrafo dirigia sem rumo.

O sábado havia amanhecido frio, Greg levantou-se antes das garotas. Tomou um banho e pegou as roupas que estavam na caixa que o Resort tinha enviado. Roupas que ele tinha levado para usar na Ilha, mas não teve tempo. Agora a blusa que ele tinha vestido estava incomodando...

O celular estava conectado no painel inteligente do veículo. O painel de led acendeu; número desconhecido, mas o DDD de sua cidade. Greg pressionou um botão no volante e atendeu de primeira. O carro tinha microfone inteligente, então Greg poderia conversar tranquilamente apenas com o toque de um botão e sem se preocupar em segurar o celular ou usar fones de ouvido.

– Kaulfuss. – ele disse.

– Oi João, — era sua mãe, Bárbara Kaulfuss.

– Oi mãe. Só a senhora pra me ligar num sábado de manhã. – ele riu. – Escuta, você trocou de chip?

– Ah filho, — Bárbara respondeu. – Alguém me enfiou num monte de grupos daquele Zap Zap e eles ficaram doidos quando descobriram que eu era sua mãe. Tive que trocar.

Greg virou os olhos.

– Como que o pai tá?

– Tá na mesma. Bebendo e contando causos com os compadres dele.

– Ele não quis ligar mesmo?

Greg nunca teve um relacionamento fácil com o pai. Antônio Kaulfuss costumava dizer que só soube lidar com Greg até o garoto completar oito anos. Então tudo passou rápido demais e Antônio perdeu o jeito.

– Você conhece seu pai.

– Ah, eu conheço...

– João, querido, quando é que você vem pro sítio?

– Se tudo der certo, mãe, final de semana que vem.

– Como que vai a Carol?

– Vai bem também. Tá meio estressada comigo.

– Por quê?

– Outra hora conto, mãe.

– Eita João.

– Escuta mãe, é possível que vamos levar uma amiga com a gente pro sítio. Tudo bem?

– Além dos dois cachorros?

– É, além dos dois cachorros. — Greg riu. – Inclusive, melhor, talvez eu leve duas amigas.

Um silêncio.

– Que amigas? Elas são tipo um casal?

– Não. – Greg riu. Talvez, ele pensou.

– Pode trazer sim. — Bárbara riu. – O Max estava aqui ontem perguntando de você. Disse que viu aquele seu último vídeo e ficou preocupado.

– Manda um abraço pro Max aquele lindo.

– Mando sim, — Bárbara riu. — Vou fazer almoço agora querido.

– Tá bom mãe, te amo.

– Também te amo, dirija com cuidado.

Greg riu e fuçou na agenda. Encontrou o número de Rafael.

– Que cê quer a essa hora da manhã hein Kaulfuss? – Rafa gritou. Greg presumiu que Rafa estava dormindo.

– A merda daquele batom que você jogou no meu carro. Deu merda. Lana tá puta.

Rafael riu.

– Duvido que foi só por isso. – E riu novamente.

– Continue rindo, — Greg comentou. – Mais tarde eu passo aí e vou te meter uma bala.

– Tá bom Kaulfuss.

– Depois que enterrarem você, seu viadinho. — Greg continuou, — Eu vou no seu túmulo te desenterrar, então seria um dia bem feliz no inferno porque eles se livrariam de você por um tempo.

– Pode apostar.

Rafael desligou.

Greg deu de ombros.

O led acendeu de novo mostrando um número desconhecido, Greg lançou um olhar “sério?” para o celular e atendeu.

– Kaulfuss.

– Greg Kaulfuss? – uma voz feminina surgiu. — Do Falando Grego?

– Talvez...

– Oi, eu sou uma repórter de um programa de TV chamado Mais Brasil, me chamo Serena Rabelo, será que eu poderia conversar com você sobre o incidente na Ilha Vermelha e sobre o que está acontecendo com...

– Woa, woa calma aê. — Greg exclamou. – Como você conseguiu meu número?

– Queridinho, como eu disse, sou uma repórter.

Greg decidiu jogar.

– Como é possível você ser uma repórter se eu não te conheço? Eu conheço pelo menos todas as repórteres relevantes do Brasil, minha senhora.

Um silêncio e um suspiro de ódio do outro lado.

– Me disseram que seria difícil, — Serena comentou. — mas nem tanto. Olha, você pode me dar a entrevista ou não?

– Acho que não será possível, — Greg respondeu. – Minha agenda tá cheia.

– Tudo bem então, obrigada. – Ela desligou.

Greg abriu a boca, surpreso. Ele só queria fazer um charme, se ela tivesse insistido mais uma vez ele daria a porra da entrevista.

O led acendeu outra vez. O nome de Vanessa apareceu na tela, então apagou, tão rápido quanto surgiu.

Vanessa tinha ligado pra ele e desistido. A música no carro ligou.

Minha mente nem sempre tão lúcida, é fértil e me deu a voz.

Minha mente nem sempre tão lúcida, fez ela se afastar.

Mas ela vai voltar. Mas ela vai voltar.

– Ah, ela vai voltar, — Greg disse pensando com a música.

Greg estava perto do “SuburbsBar” então decidiu que compraria alguma coisa e então iria ver Vanessa.

Ele precisava conversar com alguém. E no fundo, tinha a impressão de que Vanessa também estava precisando.

Ela não é,

Do tipo de mulher que se entrega na primeira,

Mas melhora na segunda e o paraíso é na terceira.

Ela tem força, ela tem sensibilidade, ela é guerreira.

Ela é uma deusa, ela é mulher de verdade.

Ela é daquelas que tu gosta na primeira,

Se apaixona na segunda e perde a linha na terceira.

Ela é discreta e cultua bons livros, e ama os animais.

Tá ligado, eu sou o bicho.

XXXXX

Óculos escuros, recostada contra o balanço do jardim da Mansão Albuquerque, Vanessa observava.

Roberto tinha um bom gosto para decoração, era impossível negar.

Diversas estátuas em formato de animais silvestres eram distribuídas pelo gramado verdíssimo que se estendia além das piscinas, do chalé e das estufas de orquídeas. As estátuas eram dispostas organizadamente, como se um simples passeio no quintal dos Albuquerque fosse uma espécie de safari no paraíso. Além das estufas havia uma grande colina que descia até os limites da propriedade Albuquerque.

Vanessa continuava encostada contra o balanço, e não sairia dali tão cedo.

Parecia como se o mundo de repente tivesse dado as costas para ela.

Ainda tinha na memória o dia em que Matheus foi preso pelo assassinato de seu pai. O garoto tinha deixado as digitais na faca. Vanessa tinha ficado perplexa, machucada e confusa. Então, porque é que Matheus faria aquilo?

Matheus havia pedido para Vanessa visita-lo. Ele precisava lhe contar algumas coisas.

Vanessa foi. Ela nunca tinha sequer passado perto de uma penitenciária, e se viu sendo tratada por policiais como a esposa estúpida de um marginal qualquer. Ela logo tratou de deixá-los sabendo quem era ela.

Mas aquela era outra história, e Vanessa resolveria aquela acusação de desacato outro dia. A ruiva não tinha tempo para aquelas bobagens que policiais adoram jogar na cara dos pobres.

Vanessa sentiu-se violada também, ao ser apalpada por uma mulher gigante, com bigodinho. E foi jogada num corredor gelado, para que encontrasse a sala de visitas.

Ela encontrou. Matheus estava usando o uniforme padrão da penitenciária, barba feita, cabelo cortado. Até parecia gente o menino.

Ao vê-lo, Vanessa sentiu-se no direito de arremessar com força sua bolsa da Prada na grande cara de babaca que ele tinha, mas finalmente percebeu que tinha deixado suas coisas em algumas salas atrás.

Se contentou em apenas sentar diante dele e gastar a melhor expressão de desprezo que conseguira desenvolver durante todos aqueles anos.

Matheus contou que matar Roberto foi um grande acidente.

Vanessa quis enfiar as unhas nos olhos dele.

Então Matheus começou a falar, e Vanessa percebeu que nunca tinha deixado ele falar por tanto tempo. E a história que se desenrolou, despertou em Vanessa uma sensação que ela nunca tinha experimentado.

Matheus contou que trabalhava junto com Murilo, e inclusive com os outros assaltantes, todos trabalhavam para o pai de Murilo. O homem era um babaca que nunca havia merecido a fortuna que havia herdado de seu pai, o avô de Murilo.

Entre lágrimas, Matheus confessou que estava trabalhando para o pai de Murilo na noite em que a ruiva e Nina tinham sido atacadas. Inclusive, ele tinha chamado os outros, pois sabia da situação vulnerável da mansão quando deixou Vanessa no local. Ele não participou do ataque, mas estava muito perto.

“Pega essas suas lágrimas de crocodilo e enfia num lugar que o sol não bate.” Vanessa dissera entre lágrimas. “Pode enfiar em qualquer lugar a propósito, duvido que você vá ver o sol tão cedo.”

Matheus entregou alguns documentos para Vanessa, e disse que deveria ter entregado na Festa do Branco, mas Nina, Greg e Lana interromperam. Os documentos eram matérias que Elisa havia escrito, iria publicar em sua coluna na revista Mali, quando descobriu que estava sendo traída.

Roberto e o pai de Murilo eram velhos conhecidos, haviam aprendido a lavar dinheiro juntos e tinham continuado com o esquema. Elisa sempre soube, mas mesmo que não aprovasse aquela porcaria toda, tinha continuado de boca fechada.

Até descobrir os chifres.

O acidente que tirou a vida de Elisa tinha sido uma ideia de seu próprio marido, que em seguida a descartara.

O pai de Murilo enxergou ali uma possibilidade de tirar vantagem e pegar para si os negócios Albuquerque, então decidiu pegar a ideia de Roberto e botar em prática por conta própria, de bandeja tirando a vida de Roberto junto.

O pai de Vanessa saiu do carro mais cedo, o acidente aconteceu tirando a vida apenas de Elisa.

Naquele instante, Vanessa não conseguia pensar direito.

Matheus havia encontrado as matérias numa das gavetas do escritório de Roberto na mansão. Na noite da Festa do Branco, Matheus exigiu explicações por parte de Roberto.

O pai de Vanessa atacou, Matheus precisou usar a faca que trazia consigo para autodefesa.

E agora Matheus estava preso.

E Vanessa não tinha mais nada a dizer.

Ela pegou os documentos da mesa e saiu cambaleando da sala de visitas. Atravessou todo o caminho de volta, pegou suas coisas e se trancou no carro.

Fazia tempo que Vanessa não chorava tanto. Mesmo com tudo que passou em sua vida, a única vez que tinha chorado tanto foi quando descobriu que sua mãe havia morrido num acidente de carro.

Assim que as notícias da morte de Elisa tinham começado a surgir, Roberto enfiou a filha num avião e despachou-a para sua casa na Noruega.

Vanessa não entendia o que estava acontecendo. Ela só queria estar em casa com sua mãe. Roberto voltou para o Brasil, Vanessa ficou naquele maldito quarto naquela mansão isolada por três dias sem receber notícias por parte de ninguém, apenas obedecendo a uma governanta com cara de peixe e balofa que Roberto havia contratado.

Um dia, a cara de peixe deixou escapar que Elisa estava morta.

Vanessa quis morrer. E se trancou no armário de seu quarto, e chorou. Chorou até sentir-se desidratada. E Roberto voltou, como se nada tivesse acontecido, como se as coisas pudessem voltar a ser como antes.

Com o tempo, Vanessa entendeu que o pai a despachava para os lugares simplesmente para não precisar lidar com ela. Simplesmente, pois Vanessa era uma versão 2.0 de Elisa, metade do tamanho, mas o dobro de raiva. Roberto nunca seria páreo para ela. E sempre que Roberto via a filha, sentia-se desesperado, sem armas, quase como se uma nova Elisa fosse surgir da garota e ameaçar acabar com tudo mais uma vez.

Os anos se passaram e o relacionamento com seu pai se transformou em uma mecha de cabelo ruim. A cada conversa esquisita que terminava em choro na parte dela, um fio de cabelo ia embora. Então com o tempo a mecha rompeu totalmente e Vanessa não sentiu mais nada.

Quando criança, Vanessa começou a comer tudo que aparecia em sua frente. Rejeitada na escola, rejeitada pelo pai, tratada como um verme por governantas feias, a comida pareceu uma válvula de escape. O pai via que a filha se divertia com comida, e trazia mais comida para casa, para mantê-la ocupada. Mas ainda, Vanessa tinha as esperanças que um dia seria uma daquelas celebridades que eram descuidadas na infância, mas se transformavam em belos cisnes cheirosos quando cresciam.

No começo da adolescência, finalmente sentiu o peso de toda a comida que mandou na garganta nos anos anteriores. Começou a vomitar tudo o que comia, e o espiral na vida de Vanessa começou a apontar para baixo.

A merda da bulimia.

Ela sobreviveu a mais aquela batalha. Mudou a maneira de viver. Mudou sua maneira de pensar. Ela já tinha o mundo em suas mãos, bastava saber guiar. Ela começou a fazer exercícios, contratou agentes especializados em fitness, beleza, tendência, e aos 19 já era um mulherão de deixar qualquer homem caído. Celebridade? Pffff. Vanessa era demais para ser apenas uma celebridade.

O comportamento de Vanessa era algo que estava além de si própria compreender. Ela sabia que tinha uma pitada de sua mãe, o resto era apenas uma mistura de consequências trazidas pelo destino.

Vanessa não tinha culpa se o mundo insistia em ser idiota.

Ela sempre viu diversas pessoas de inúmeras classes sociais torcendo o nariz para tudo que ela dizia. Vanessa gostava de pensar que suas prioridades eram maiores do que as outras pessoas, simplesmente, pois o resto do povo não tinha visão.

Vanessa sabia que não estava errada. Para Vanessa, aquele era o jeito certo de viver, e nem um milhão de estereótipos poderiam chegar perto de descrever metade da pessoa que ela era.

Ela era dura? Sim. Linda? Sim. Fria? Às vezes. Mas ela sabia muito bem, se outra pessoa oferecesse seu coração para ela sem ter segundas intenções, aos poucos a ruiva daria o dela em troca.

Agora, cansada de pensar, considerava a ideia de dar o fora do Brasil e voltar para a Noruega. Estava de saco cheio com tanto brasileiros.

De quase todos.

– Dona Vanessa?

Vanessa despertou no balanço. Uma das empregadas contratadas recentemente tinha uma expressão de pavor no rosto. A empregada tinha um rosto bonito, porém parecia ter saído de um filme B americano, sempre que estava fora dos trajes de serviçal parecia uma gótica xexelenta.

– Que foi, novata?

– Desculpa, senhora. – Vanessa virou os olhos. – Tem visita pra senhora. Aquele homem que a senhora costuma chamar de rato.

– Eu. Só eu chamo ele de rato. Pra você, é Sr. Gregório Kaulfuss. – Vanessa deu de ombros. – Enfim, traz o rato para cá.

– Ok senhora.

Obrigada.

Vanessa riu sozinha depois que a novata foi embora. Vanessa tinha acabado de agradecer sua própria empregada, que era paga para fazer as coisas para ela?

Deus, estou passando tempo demais com a Nina.

Limpou o rosto disfarçadamente enquanto ouvia os passos pesados de Greg se aproximando.

– Puta que pariu, — ele exclamou sorrindo para ela e apontando para a propriedade. – Você é rica mesmo.

Ele vestia uma blusa de moletom preta que até a altura dos joelhos. Por baixo uma calça camuflada e um coturno esquisito.

– Jesus, rato. Como é que a Lana deixa você sair de casa desse jeito?

Greg aproximou-se e gesticulou para que Vanessa abrisse espaço pra ele se sentar ao lado dela. Ela virou os olhos e abriu espaço. Notou que ele tinha um embrulho nas mãos.

– O que você quer, rato?

– É assim que você trata seus novos amigos?

Vanessa tirou os óculos em tom de deboche e olhou Greg de cima a baixo.

– Que amigos?

– Qual é. — Rato riu. – Eu sei que você já nos ama.

Vanessa riu alto.

– Você tá bem? – ele perguntou.

– Meu pai foi assassinado pelo meu mordomo, que eu em partes, considerava meu amigo. Você acha que eu estou bem?

Greg deu de ombros.

– Você tá gata. Parece bem melhor.

– Você é charmoso, meio loiro. – ela disse. — Se eu te encontrasse na Europa, e se você não se vestisse como um mendigo hipster, eu juro que perderia cinco minutos contigo.

– Eu perderia até meia hora contigo. Olha, te trouxe um presente. — Greg entregou o embrulho para Vanessa.

Vanessa sentia-se bem ao lado do rato. Mas odiava receber presentes, justamente, pois as pessoas nunca acertavam o gosto dela. Sem contar que ela nunca conseguia fingir que tinha gostado do presente, mas não gostava de desapontar quem tinha dado o presente.

– Não precisava.

Ela abriu o embrulho e se surpreendeu. Uma caixa de Vodca Martini.

– Gregory, — ela riu, usando o apelido carinhoso que já vira Lana e Nina usando com ele. – Não precisava gastar todo o seu salário mínimo comigo.

Greg tinha um sorriso idiota no rosto.

– Abre a caixa, abre. – ele disse parecendo uma criança. – Abre logo, mulher... Deixa que eu abro.

Vanessa abriu a caixa com a ajuda de Greg. Ela ergueu uma garrafa de Skol de dentro e lançou um olhar mortal para o mendigo.

Greg caiu na risada.

– É minha favorita.

Vanessa virou os olhos e deu risada também.

Fazia dias que ela não ria daquele jeito. Ela sentiu vontade de abraçar Greg, mas preferiu deixar quieto. Em vez disso, posicionou o gargalo na beira do banco e arrancou a tampa num golpe só.

– Uau, — ele comentou impressionado. — Você é truqueira, “muié”.

– Você não tem ideia.

Ela ergueu a garrafa e tomou um gole da cerveja.

– Calma, — ele disse. – Tá quente.

– Tá mesmo, que nojo. — Ela deixou a Skol de lado e suspirou.

– Chama um dos seus cachorrinhos pra guardar na geladeira. Pedi pra montarem a embalagem no bar do meu amigo. Eu falei sobre você para eles, mas a ideia da embalagem foi minha.

– Tá bom. É um bom presente até. Até que eu gostei.

– Nina comentou comigo um pouco da história de ontem – Greg disse. — Quer conversar sobre?

– Melhor não. – ela disse tirando os óculos. Pensei demais nessa história. Não aguento mais chorar.

Greg olhou pra ela, os olhos cinzas dele estavam azuis com o reflexo do sol. Enquanto isso, os olhos verdes dela estavam vermelhos.

– Não adianta chorar, não é? – ele disse.

– Oi?

– Não adianta chorar, Vane.

– Não me chame de Vane. Parece apelido de empregada que briga por décimo-terceiro. Não que ela esteja errada. Enfim, eu nunca choro, tenho o direito de gastar minhas lágrimas como uma pessoa normal de vez em quando.

– Vane, — ele ignorou. – Se chorar melhorasse alguma coisa, eu juro que sentaria aqui e choraria a tarde inteira com você.

Vanessa suspirou. Ela virou-se para ele e abraçou-o.

– Você é legal, rato. Mesmo parecendo um mendigo que fez tatuagens em toda prisão que passou, você até que pode ser elegante um dia.

Definitivamente, estou passando tempo demais com Nina.

– Também gosto de você, Vane — ele respondeu. — Como eu disse, dá pra perder meia hora.

Ela o socou.

XXXX

Greg preferiu não falar sobre a teoria com Vanessa. Ele passou algumas horas na mansão da socialite, apenas jogando conversa fora. Voltou em casa, Nina e Lana haviam saído. Ligou para Lana, que por sua vez não atendeu. Nina atendeu, disse que estava com Lana, a The Lost Files teria um mini show inesperado numa garagem local.

Greg dormiu um pouco e acordou no horário do show.

Agora estava no “Garagem Kova”, uma espécie de casa de shows no lado oeste da cidade. Centenas de pessoas esquisitas andavam pelo estacionamento, e ao descer do Jeep já foi capaz de ouvir a voz poderosa de Lana nos alto-falantes.

Ele costumava ficar assistindo os shows de Lana gravando vídeos no backstage. Hoje, porém, decidiu ficar na plateia.

Identificou Lana no palco no instante em que entrou no galpão. A garota balançava os cabelos enquanto terminava uma música que tinha escrito com os integrantes da banda. A música se chamavaBlack Overdose, e Greg nunca tinha entendido direito do que a música se tratava, mas gostava da pegada.

Luzes azuis batendo em sua cara, lançou um olhar para o público, achava incrível o quanto sua mulher sabia fascinar a galera. O som da Lost Files poderia não ser o favorito de muitos “rosqueiros” no local, mas sempre é bonito ver uma mulher gostosa com roupas curtas enlouquecendo, envolvida e bêbada com o som de sua própria voz.

Lana era uma boa líder.

– Esse é um mashup que fizemos alguns dias atrás, — Lana comentou, arfando. – Espero que curtam.

Greg ouviu atentamente, enquanto trechos de músicas atuais de diversos estilos ganhavam uma nova cor na voz de Lana, as guitarras deixando as músicas originais mais pro rock do que pro pop.

“Just gonna stand there, and watch me burn.

But that’s alright, because I like the way it hurts.

But then you stand there, and make me cry.

That’s alright, because I love the way you lie.”

Greg sempre se surpreendia quando algum roqueiro conhecia as letras da música da Rihanna.

“I don’t have to leave anymore,

Cause what I have is right here,

Spending nights and days before, before

I’m yours now, so I won’t ever have to leave

I’m yours now, I’m yours now”

Greg ouviu cada música, lembrando-se do que tinha passado com Lana. Sentiu várias delas como uma indireta.

You did not break me,

I’m still fighting for this.

Well, I’ve got a thick skin, and an elastic heart

But your blade it might be too sharp

I’m like a rubber band, until you pull too hard

But I may snap when I move close

But you won’t see me move no more

Cause I’ve got an elastic heart.

Indireta visualizada. Lana andava ouvindo muito aquela música ultimamente.

“So when my time is gone

I won’t regret anything

Thank you so much for keeping up with me again

Blue hair, I promisse you, I’ll be a better man

No time to worries, no time for pain”

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A última música, o refrão tinha sido escrito por Greg num guardanapo de uma mesa do Texas, meses antes. Ele até lembrava o dia.

Sentiu um aperto no coração.

Finalmente deixou o galpão, nervoso.

Cruzou o estacionamento rapidamente, entrou no jipe cantarolando o refrão de Elastic Heart pra ver se esquecia do refrão de Until the End. Iria para o shopping se encontrar com Anna. O encontro estava marcado para mais tarde, porém Greg poderia esperar por ela num bar qualquer.

XXXXXXX

A chuva caía mais uma vez do lado de fora do shopping.

Salto alto elegante, um vestido decotado verde e uma bolsinha prateada, Vanessa saiu cambaleando de uma boutique, diversas sacolas de compras nos braços.

Matheus faria uma falta danada, ele sempre carregava suas sacolas.

Vanessa avistou um banquinho na praça de alimentação, deu um sorriso e correu até o mesmo.

Delicadamente, pousou as sacolas de compra ao seu redor.

Tirou o celular da bolsinha e viu nas mensagens que Lana e Nina estavam chegando. Sorriu.

Ela mal podia esperar para entregar a blusinha que havia comprado para Lana. Ela achava um pouco esquisito, o jeito da garota se vestir, um pouco “pirigótica” fofa demais, mas não podia negar que combinava com o cabelo azul dela. Havia comprado para Nina uma blusinha com uma estampa de um gato, era uma blusinha cara, mas tinha cara de ser uma blusinha barata. Ignorou o pensamento e comprou para a bióloga, simplesmente pois achou que era a cara dela. Pensou em pedir para alguém da loja bordar “Sid” logo abaixo do gato, mas queria entregar o presente logo. Para o rato Greg, comprou uma camiseta social cinza. Achou que ele poderia parecer elegante se enfiasse alguma coisa social por cima daquelas tatuagens todas. Não achou nada que coubesse em Sid.

Comprou também roupas para a empregada novata. Não queria que os outros avistassem uma serviçal sua vestida que nem um fuscão preto no meio da rua.

Sorriu e levantou-se, precisava voltar ao trabalho.

Voltou e juntou as sacolas de compras.

Perguntou-se se as meninas demorariam, ela precisava de ajudantes.

XXX

Anna Clara encarou a foto dos sobreviventes mais uma vez. Tentou encontrar Greg Kaulfuss na Internet e se surpreendeu com a quantidade de resultados, o rapaz parecia ser um daqueles desocupados que ganham fama na Internet.

Shinji viu uma foto dele no Google Imagens, sem camiseta e com tatuagens.

– Você tá doida achando que eu vou te deixar ir sozinha conversar com esse rapaz. Anna, ele tem tatuagens até nos mamilos.

– Seu bobo, — ela riu. – Pode vir comigo.

Mas não era com Greg que Anna estava preocupada. Ela estava é pensando na senhora da foto, que segundo sua mãe, tinha a tirado do berço quando bebê e falado coisas que pareciam fazer sentido no futuro de Anna, quase trinta anos depois.

Anna fechou o notebook e se despediu de Anna Bella.

A verdade estava lá fora.

XXX

Vanessa estava sufocando.

A correntinha de ouro que tinha herdado de sua mãe estava apertando seu pescoço.

Que sentido aquilo fazia? A correntinha era grande demais no pescoço dela.

Vanessa precisava pensar.

Correu até a mulher mais elegante que pode ver num raio de dez metros quadrados. Pelo menos uma mulher elegante não iria assalta-la.

– Moça, — Vanessa forçou um sorriso desesperado, — poderia soltar minha corrente? Tá me sufocando!

A moça concordou rapidamente e pediu para Vanessa virar. Vanessa virou e ergueu os cabelos agilmente. A moça delicadamente abriu a correntinha.

– Prontinho. – ela entregou a corrente para Vanessa. – Seu cabelo é muito bonito.

– Obrigada, — Vanessa sorriu. Ela pensou em dizer o mesmo, mas a mulher tinha o cabelo bem curtinho, e Vanessa não era de mentir elogio.

– Mas você é muito bonita também, — Vanessa cortejou. – Já te vi antes em algum lugar?

– Acredito que não, — a mulher sorriu.

Mas Vanessa poderia jurar que já tinha visto a tal mulher.

XXXX

Nina e Lana subiram até o andar superior do shopping, onde imaginaram que Vanessa poderia estar.

A chuva tinha dado uma trégua, mas os raios continuavam caindo.

Sid estava no ombro de Nina, e Lana casualmente brincava com a chinchila, que finalmente graças a Deus estava se acostumando com ela.

– Nossa. — Lana riu. — Finalmente ela tá me aceitando.

– A Sid é assim mesmo, — Nina riu. – Alguma notícia da Vanessa?

– Não, — Lana respondeu. – Deve estar enfurnada em alguma loja.

XXX

Greg marchava pelo shopping, casualmente cheio de si e cumprimentando alguns poucos jovens que o reconheciam. Encontrou até Madu, perdida com uma amiga na entrada de uma loja de perfumes. Pensou em perguntar sobre Alisson, mas lembrou-se que a jovem já deveria estar na direção de Londres naquele instante. Rapidamente conversou com Madu e a amiga, então voltou a procurar por Anna.

Ele lembrava que a mulher tinha cabelo curto.

XXX

Vanessa estava numa loja de decoração. Não era a decoração que chamava sua atenção, e sim as estátuas grandes próximas a vitrine.

Eram anjos. Vanessa sentia que conhecia aquele design. Eram anjos quase que similares aos anjos que estavam em seu jardim. Ela podia dizer que pertenciam a mesma coleção. Vanessa tateava os anjos, impressionada.

As luzes no teto da loja piscaram e Vanessa encarou as lâmpadas. Não deu muita atenção. Ela precisava entender como poderia comprar algumas daquelas estátuas. Era simplesmente errado, todos aqueles itens estarem fora da coleção de seu pai.

Veio um baque e Vanessa encarou assustada. A estátua estava balançando?

Vanessa percebeu que tinha acidentalmente chutado um dos suportes da grande peça. Ela recuou, e viu a estátua cair em cima dela.

XXX

Greg franziu a testa ouvindo os gritos de agitação dos clientes do shopping, enquanto as luzes voltavam e o som da energia elétrica sendo retomada ecoava como um tufão. No mesmo instante, enxergou Anna no lado oposto do saguão do shopping.

Levou as mãos ao redor da boca e chamou.

– ANNA!

Repentinamente, uma mulher ruiva surgiu tropeçando do interior de uma loja, passando a centímetros a Greg.

– Hey...

Era Vanessa?

Greg se assustou quando uma estátua gigante atravessou a vitrine da loja. O vidro se espatifou pelo chão e as pessoas gritaram assustadas.

XXX

Nina e Lana esperaram a luz voltar de mãos dadas. Assim que a mesma se reestabeleceu, ouviram uma mulher falar logo na frente delas.

– Shinji, olha lá o Greg Kaulfuss.

Então veio o som de vidro se espatifando e as duas se encararam. As luzes se apagaram outra vez.

XXXX

– Vanessa, é você?

Greg acendeu a lanterna do celular e pôs-se a procurar diante de si. Ele enxergou a estátua rachada, o vidro espatifado no chão junto com várias sacolas de compras. Girou ao redor de si mesmo, procurando a mulher.

– Aqui, Greg...

Greg virou a lanterna em direção à voz e viu Vanessa recostada contra uma escada do shopping, envergonhada.

Ele correu em direção à mulher. Era Vanessa mesmo. Ela tinha tropeçado ao sair da loja e virou o pé com o salto alto. Caiu de costas contra a escada.

Greg botou a luz na cara da Vanessa.

– Você tá bem?

– Claro que estou, me ajude a levantar.

– Greg Kaulfuss? – Anna surgiu atrás de Greg.

– Greg? – Nina e Lana exclamaram confusas atrás de Anna.

– Que é isso hein? — Vanessa perguntou estressada. – Reunião da Equipe Rocket?

Greg sorriu para Vanessa com a referência. Ele abaixou-se e abraçou a ruiva, preparou para levantá-la, mas no meio da subida, Vanessa tombou a cabeça para trás e voltou ao chão com um grito.

– Que é isso? – Greg perguntou.

– Meu cabelo tá preso! — Vanessa gritou. – É isso!

As luzes voltaram no mesmo instante e com um frio na barriga, Greg notou que o cabelo de Vanessa estava preso na borracha do corrimão de uma escada rolante.

– Me tira daqui, Greg!

O som da energia elétrica voltando...

– Uma tesoura! – Greg gritou. – Canivete? Alguma coisa?

– O quê? – Vanessa gritou.

Greg abaixou-se e com cuidado para não machucar a ruiva, tentou arrancar com força o cabelo dela da borracha.

E foi aí que a escada rolante ligou.

XXX

Vanessa gritou horrorizada quando o mecanismo de força a levantou de pé num único puxão, o motor fazendo a borracha do corrimão subir com os degraus. Ela nunca tinha sentido um golpe tão forte, e instantaneamente viu joias dançando ao redor de sua cabeça. Gritou mais uma vez.

XXX

Greg correu na frente da escada rolante, ele tinha lido em algum lugar que todas as escadas rolantes tinham um botão para desligamento no painel lateral.

Aproximou-se e esmurrou o botão vermelho, os gritos de Vanessa enchendo seus ouvidos de pânico. A escada não parou.

Finalmente enxergou a tela do mecanismo.

“QUEDA DE FORÇA. SISTEMA REINICIANDO EM 40 SEGUNDOS.”

40 segundos era tempo demais, porra.

– ALGUÉM SABE DESLIGAR ESSA PORRA PELO AMOR DE DEUS? – Ele berrou.

Nina e Lana entenderam o recado, horrorizadas, começaram a gritar para que alguém cortasse a luz imediatamente. O grito para que a luz fosse cortada logo se espalhou pelo saguão do shopping por todas as pessoas presentes.

Greg voltou para Vanessa, e com horror, viu que a mulher estava pendurada pelos cabelos, pelo menos a dois metros de altura do chão. Ele não conseguiria alcança-la.

– SOBE NA ESCADA GREG! — Lana gritou. – A ESCADA!

– PEGA ELA POR CIMA! – Nina berrou.

Greg disparou na escada rolante, suor escorrendo pelo corpo. Anna em seu encalço.

– Eu te ajudo! – A mulher disse.

XXX

Vanessa nunca tinha sentido uma dor tão forte. O primeiro puxão foi rápido, em seguida fez uma dor horrível dançar em sua testa e descer pela parte frontal do crânio. Ela ouvia o próprio coração explodindo dentro de seu peito.

– GREG – foi o que ela conseguiu gritar – ME SALVA!

Pendurada, ainda subindo, a dor aumentando, via as pessoas horrorizadas lá embaixo, as mãos nos rostos, em pânico.

Vanessa não merecia passar por aquela situação. Ela também não queria ver aquilo. Ela tentou fechar os olhos, mas o cabelo sendo puxado também puxava a pele de sua testa para cima, fazendo impossível com que seus olhos pudessem piscar, muito menos fechar.

Então ela teria que assistir a própria desgraça?

Com força, desesperada ela ergueu os braços, tentando soltar o cabelo da borracha. Não soltou.

E seu cabelo não iria romper tão cedo, ela usava shampoos caríssimos.

O medo encheu seu cérebro, outra dose de dor lasciva. Ela berrou, ainda pendurada.

Parecia que alguém a arrastava pelos cabelos.

XXX

Greg tentava puxar Vanessa para o lado de cima, Anna tentava pegar o braço da mulher que se debatia.

O fotógrafo olhou para o topo da escada rolante. Logo eles alcançariam o fim da subida.

– SOLTA PELO AMOR DE DEUS! – Ele berrou, as lágrimas descendo o rosto.

XXX

Vanessa sentia a pele do couro cabeludo começando a partir. Sua pele nunca tinha sido rasgada na vida, mas ela soube identificar aquela sensação tão bem.

Ela percebia agora que os gritos de terror vinham do interior dela. Ela não seria capaz de formular palavras agora.

Ela ergueu as mãos novamente, tentando se soltar. Estava há pelo menos quatro metros do chão agora.

Vanessa sentiu-se caindo para frente repentinamente, algo líquido desceu pelo seu rosto.

A pele tinha rasgado. Sangue em profusão descia de seu couro cabeludo, agora exposto. Num segundo, ela parou de enxergar devido ao sangue em seus olhos.

Sentia as mãos encharcadas de sangue, assim como o líquido quente e rubro descendo por seu decote e pingando de seus pés. Ouviu o som de seus sapatos de salto alto despencando no chão molhado logo abaixo.

Vanessa nunca teria imaginado viver num mundo em que estivesse desfigurada.

Com a pior sensação do mundo, Vanessa soube, ela estava pronta para morrer.

Um balde de sangue desceu repentinamente por seu rosto. Vanessa engasgou, se afogando com o próprio sangue. Mal podia ouvir os próprios gritos, pois o sangue também estava entrando em seus ouvidos. Então a pele do topo de sua cabeça começou a estalar com um barulho de estouro úmido. Pop pop pop... Era a pele descolando do crânio.

Ela sabia que agora os músculos e seu crânio já estavam expostos. A dor vinha numa linha contínua agora, e Vanessa berrava, mas não podia ouvir. Então berrava mais alto, assim todos saberiam que ela estava em dor.

Ela agonizava pendurada pelos cabelos.

Lembrou-se de sua mãe.

Vanessa poderia ter se lembrado de todas as coisas importantes que fez durante sua vida. Ela já tinha fantasiado uma vez, que quando morresse, seus flashbacks seriam repletos de luzes e glória, e que estaria cercada por amigos.

Ela sabia que estava cercada por amigos, mas o pensamento era inútil.

Tudo o que ela podia lembrar e pensar, era em Elisa.

Elisa sorrindo para ela.

Vanessa sempre soube que o único grande amor de sua vida tinha sido sua própria mãe. Agora poderia ter certeza.

Uma luz muito forte surgiu em seus pensamentos. Era seu próprio cérebro desligando. Então ela viu estátuas de anjos num jardim.

E via Elisa surgindo por entre os anjos.

Um arrepio gélido percorreu por seu corpo. Então a luz ficou muito forte e a dor foi embora.

XXXX

Greg e Anna já estavam no topo da escada rolante. As tatuagens no braço do rapaz tinham sido substituídas por um sangue escuro e viscoso, e ele berrava coisas sem sentido.

Houve um estalo úmido quando a borracha com o cabelo atingiu o final do percurso, então aquilo rompeu e o corpo de Vanessa despencou seis metros abaixo.

Greg gritou, passou por Anna e desceu as escadas correndo, pulando sobre os degraus que continuavam subindo. Anna o seguia, os braços cobertos de sangue e tremendo.

Ele podia ouvir Nina e Lana berrando inconformadas.

Greg pulou o último degrau e correu até Vanessa. O corpo da moça jazia numa poça de sangue, o couro cabeludo encharcado de sangue agora repousava disforme sobre o crânio exposto.

O fotógrafo gritou, tapando a boca. Escorregou numa mancha de sangue e caiu com força, próximo a Vanessa.

Ele sabia que ela já estava morta.

Greg sentia seu próprio corpo apagando. Sua pressão caindo... Deitado diante de Vanessa viu sua visão escurecendo.

Alguém finalmente tinha cortado a luz do shopping.

A última coisa que viu foi a pulseira brilhante ao redor do pulso ensanguentado da ruiva. O pingente de ouro estava entrelaçado em seus dedos.

Era uma conchinha, daquelas que se encontram na areia da praia.

Notas finais
Não esqueçam de comentar. Os reviews são hiper importantes para a continuidade do projeto.