Premonição Chronicles 2
8 Capítulo 07: 1983 - Parte 2
Notas iniciais
Anna Clara estava deitada numa cadeira de praia, na varanda de seu quarto no resort. O ar fresco soprava sua alma, e Anna acreditou que poderia ficar ali por um bom tempo. Shinji estava na cadeira ao lado, já dormindo, o braço esticado e a mão repousando no colo de Anna. A filha do casal se espreguiçava e brincava com um iPad, incapaz de dormir devido ao açúcar em excesso digerido na sobremesa do jantar.
Que dia cheio. Anna Clara estava exausta, e sentia que logo cairia no sono ali mesmo.
O jantar para a Animal Rescue, patrocinado pela Voleé, tinha acontecido num salão de festas do resort. Anna Clara tinha finalmente colocado o papo em dia com Tânia, sua melhor amiga da companhia aérea, e que também tinha sido convidada para a Ilha Vermelha.
Tânia havia lhe contado que a Voleé planejava cortar gastos em breve. Informações vindas diretas do chefe do departamento financeiro, Tânia estava dormindo com ele. Ele era casado e Tânia estava apenas dando um jeito de manter seu emprego, afinal, de acordo com as palavras de Tânia, "ela não era uma das aeromoças exemplo, como Anna".
Anna Clara havia caído na risada ao ouvir a história da amiga. Era difícil de engolir que sua aparentemente melhor amiga era uma piranha.
Anna Clara nunca teve muito tempo para criar laços de amizade. Ela nunca ficava nas cidades. Ela sempre estava num avião. E sentia falta de poder compartilhar seus segredos e seus medos para alguém, além de Shinji. Sem contar que os homens nunca entendem todas as coisas.
– Mãe, — Anna Bella chamou, enfiando o tablet no estojo e guardando-o na mala.
– Filha?
– Eu mudei de ideia.
– O que foi, querida?
– Acho que quero ser aeromoça de novo.
Anna riu.
– Se é o que você quer, então você vai ser.
– Ok. — Anna Bella apertou os olhos. — Vou dormir, mãe. Te amo.
– Boa noite querida, também te amo.
Anna Clara riu. Ela amava seu emprego, mas conhecia Anna Bella e sabia muito bem que sua filha não tinha a paciência necessária para tolerar os passageiros indelicados.
Anna amava o que fazia. Mas no fundo, sabia que sua filha merecia algo além do espaço.
No mesmo instante, um avião cruzava o céu. Anna poderia jurar que era um Boeing, apenas pelo ronco grave que acompanhava o zzzzz da turbina.
Anna amava voar. Foi ali mesmo que adormeceu.
XXX
Greg acordou tarde no dia seguinte, suando e ainda vestindo a calça jeans que tinha usado no jantar. Não se lembrava de como tinha chegado ao resort. Olhou-se no espelho, estava arrebentado.
Lana estava dormindo um sono dos deuses. O que é que aquela menina fazia pra parecer tão bem o tempo todo? Ele puxou a coberta de Lana, viu que a garota dormia apenas de calcinha, dessa vez era do Super Mario. Assim como fazia em casa. Greg achava incrível, o quão rápido Lana se acostumava em outros lugares.
Tropeçou na bagagem enquanto arrancava a calça e dirigiu-se até o banheiro. Ligou a ducha e ali ficou.
XXX
Lana corria, sentia o vento gelado soprando suas costas suadas e doloridas. Os pés descalços tocando a areia, ela não entendia o que estava acontecendo, mas a sensação era horrível.
Greg gritava para ela ir mais rápido, mas o próprio não era visível em lugar algum. Lana não conseguia gritar de volta.
De repente, vários clarões. Que porra era aquela?
Crystal, a cigana, surgiu na sua frente, baralho na mão.
– As cartas não mentem, querida.
– Como assim? – Lana não ouviu a própria voz, mas viu que Crystal havia entendido.
– Tá. — Crystal começou. — Deixa que eu te explico--
– Tááááá com voz de sooono, foi mal se te acordeeeeeiiiii...
Lana finalmente acordou, a voz rouca de um Greg perfumado sussurrando em seus ouvidos.
– Greg, para.
Ele riu.
Lana dormiu mais uma vez para tentar descobrir o resto do sonho, mas não aconteceu. Quando acordou quinze minutos depois e não encontrou Greg, lembrou-se que ele havia dito que ia fazer uma coisa em algum lugar, mas ela estava caindo no sono e não prestado atenção.
Ela levou as mãos ao rosto. No relógio, uma e meia da tarde.
– Jesus.
XXX
Câmera na mão, óculos escuro, uma camiseta xadrez fresca, short jeans e tênis, Greg havia gravado suas primeiras impressões sobre a Ilha Vermelha durante a caminhada até a locadora de carros.
Era uma ilha legal. E as moças da ilha eram muito bonitas. Tinham pouco peito, mas a bunda, caramba.
Ele não tinha falado aquilo para a câmera.
O sol na costa, Greg adentrou o pátio dos carros, procurando algum veículo que pudesse servir para ele. Havia várias caminhonetes, de todos os modelos, alguns carros simples, outros de luxo, e no finzinho da fila, quase que encostado na cerca de arame farpado, um Jipe preto.
O Jipe era idêntico ao dele. Esportivo, quatro portas e espaçoso. Greg ainda estava terminando de pagar. Mesmo modelo, mesmo ano, Greg acreditou que até o cheiro deveria ser o mesmo.
Sorriso nos lábios, Greg entrou no escritório da locadora.
Havia um funcionário num computador e algumas moças discutiam animadas sobre alguma coisa. Ele sentiu o olhar delas, e ouvia o murmúrio, baixinho.
Greg rapidamente preencheu a ficha e efetuou o pagamento adiantado. Dez minutos depois, chaves na mão, já andava sorrindo que nem um babaca em direção ao jipe; as pulseiras no braço balançando.
– Moço?
Greg virou-se. Uma das moças da locadora, loira da raíz morena, olhos verdes e exóticos, peitos grandes e corpo perfeito, o encarava.
– Oi?
Greg sentia o cheiro do perigo.
– É, eu vi você alugando o carro, acho que, esxxcuta, você é famoso? Eu acho que já vi você antes.
Greg franziu o cenho e sorriu. Olhou mais uma vez para a moça.
– Talvez eu seja.
– De onde tu é?
– Tem que adivinhar.
– Você é... do... B..
– BBB. – Greg completou.
– Isso! Meu Deus! – Ela aplaudiu. – BBB! Eu sabia que já tinha te visto antes. Tu é o Carlinhos, não é? – Jogou os cabelos. — Oshe Carlinhos.
– Oshe, — Greg repetiu, agora jogando. Nunca revele seu nome real, caso a pessoa não te conheçer – Pois é. Carlinhos.
Greg suspirou fundo. Por Lana.
– Olha moça, tenho que ir. – Ele virou-se, andando de volta para o Jipe. – Tenho que fazer uns negócios aqui na Ilha.
– Tudo bem. Tchau.
XXX
Quinze minutos mais tarde, o Jipe preto estava estacionado entre algumas árvores numa estrada deserta que Maria havia apontado.
Os shorts já arriados, recebendo um boquete um pouco que desesperado da moça da Ilha, e constrangido por ter de explicar o motivo de alguns dos pelos de seu corpo serem azuis por tomar banhos com sua mulher de cabelos azuis, Greg respirou fundo e fechou os olhos.
– E que venha o arrependimento por uma semana. — ele disse em voz alta.
– O que foi? – Ela interrompeu e o encarou, grandes olhos verdes o intimidando.
– Nada. Apenas continue.
Greg ajeitou a GoPro no peito e ligou. A moça nem escutou o bipe.
XXX
O campeonato de surfe estava acontecendo, e Anna Clara até que estava entretida.
Ela não trocaria Shinji por nenhum dos jovens surfistas, mas não podia negar o estilo e o efeito que causavam no público. Havia um rapaz que era um tipo de galã entre as groupies dos surfistas. Qual era o nome dele? Eduardo?
– Lembra-se de quando eu tentei surfar? – Shinji riu.
– Pois você não conseguiu, Shinji. — Ela riu, memórias subitas do marido levando um caldo atrás do outro, quase uma década atrás.
– Pois é, — ele riu. – Eu gostaria de ter aprendido.
– Nunca é tarde, — ela riu. – E eu gostaria de aprender a tocar piano. Minha mãe me botou na natação...
– Nunca é tarde, — ele devolveu.
Anna distanciou-se um pouco da multidão, em direção ao mar. Sorriu, sentindo a água gelada refrescar seus pés descalços. Ah, aquela sensação... Ainda sentia que suas costas estavam um pandareco por ter trocado a cama fofinha pela cadeira de praia da varanda, mas a sensação não deixava de ser incrível.
Olhou para os próprios pés, uma outra onda. Ela já tinha visto aquilo em seus sonhos.
Frio na barriga, decidiu voltar para sua família. Longe daqueles pensamentos que envolviam sonhos.
XXX
Lana passou a tarde com Nina, ambas brincando com alguns animais que a Animal Rescue tinha resgatado pela ilha.
Lana tinha se apaixonado por todos os animais, mas um gato siamês pegou sua atenção, os olhos muito azuis, o andar delicado e exalando desprezo com o mundo todo. Já Nina, por vezes levava mordidinhas de sua chinchila, uma peludinha fofa chamada Sidney que estava demonstrando uma crise de ciúmes intensa com os animais, algo que Nina sequer conhecia, e também demonstrava ciúmes de Lana, esnobando a garota de cabelos azuis descaradamente.
Lana já sabia o nome de todos os pets que Nina havia tido durante toda sua vida, e vice-versa. Por algumas horas, as duas recordaram de inúmeras histórias engraçadas envolvendo a amizade virtual das duas. Após Lana adotar Pussy e Dick (Pussycopata e Dick Vigarista, Nina disse que esses deveriam ser os nomes mais hardcore de animais que ela conhecia), as duas passaram a trocar e-mails. Com o aumento do alcance público de Greg, Nina e principalmente Lana cresceram junto. Lana era a namorada de Greg, vocalista da Lost Files, Nina era BFF de Lana, recém-formada em Biologia e crescendo como profissional. Os três sempre estiveram divulgando os projetos um do outro. Embora Nina não conversasse muito com Greg, os três ainda eram uma boa equipe.
Nos últimos meses, Nina havia crescido exponencialmente na comunidade de proteção aos animais, e agora as duas compartilhavam histórias sobre serem perseguidas por pessoas esquisitas na Internet.
Lana recuou com um gemido, caiu sentada ao se assustar com o bafo repentino de um pastor alemão e finalmente caiu na risada. Nina ajudou a colega a se levantar, dobrando de rir.
– Você acha que posso entrar para a Animal Rescue? – Lana perguntou, limpando as vestes.
– Você tá doida? – Nina riu. – É claro que você entra. Seu amor por animais deve ser maior que mais da metade daquelas pessoas ontem no jantar, todas juntas.
– Obrigada, mesmo. Significa muito...
– Cadê o Greg? – Nina perguntou de repente. Lana notou que não tinha falado nada a respeito de Greg com Nina durante a tarde. Ela estava tão entrosada que acabou esquecendo-se dele.
– Ah, o Greg. Acabou de me mandar uma mensagem me perguntando onde eu estou. Disse que foi alugar um carro.
– Ele é exatamente como eu imaginei, — Nina comentou. – Já conheci algumas pessoas que são totalmente diferentes do que a gente vê no vídeo.
– Eu posso imaginar, — Lana respondeu – Greg é exatamente como você viu. E o seu namorado, o Ícaro, ele ficou tão quieto ontem de noite no jantar...
– O Ícaro é um caso complicado, — Nina respondeu, Lana notou que talvez ela não quisesse tocar no assunto. – Acho que ele ficou meio bravo, pois achou que eu seria só dele durante a nossa estadia aqui na ilha.
– Ah, — Lana riu. – ele pode ter você durante o resto da vida, não é?
Nina franziu o cenho, rindo, talvez considerando a ideia de “resto da vida”.
– Desculpa, — Lana completou.
– Tem Nina pra todo mundo, — a garota loira disse. A chinchila apoiou-se no ombro de Nina e tentou subir no rosto dela. As duas riram. – Tem Nina principalmente pra você, Siiiiid...
Houve um barulho de pneus deslizando na poeira, Nina e Lana se viraram. Diante da cerca de arame farpado, uma nuvem de poeira se desfez revelando um Jipe preto. Greg estava de pé na porta do Jipe, gritando alguma coisa e rindo.
– Falando em animais, — Lana deu de ombros, — Greg chegou.
XXX
As labaredas refletidas nos olhos cinzentos, Greg estava exausto mais uma vez. Ainda pensava sobre a moça do dia anterior e ter traído Lana. Outra vez... Estava com a mão dentro da gaiola de Sid, que por sua vez roía seus dedos.
– Ei rato, — a voz veio, Greg olhou – Porque você tá quieto?
Greg, Lana, Nina e uma mulher ruiva chamada Vanessa estavam longes de tudo, estacionados numa clareira na montanha do vulcão. Desde o dia anterior, Lana e Nina tinham resolvido que queriam explorar o local, e ordenaram que Greg as levasse de cabo a rabo na ilha. Mais cedo tinham encontrado a clareira; voltaram de noite e estavam fazendo uma festinha ao redor de uma fogueira que Greg havia trabalhado muito pra conseguir acender.
GoPro no peito, Greg tinha trazido cervejas, Lana e Nina trouxeram algumas coisas pra comer e Jack Daniels; Vanessa tinha trazido vodca, algumas tequilas caras e o ar da graça.
Não era bem uma festa, mas a noite estava passando rápido. Música eletrônica tocava no Jipe, e as garotas dançavam. O efeito das bebidas no ponto. Greg estava de pé próximo à fogueira, fingindo que dançava, e casualmente batia a garrafa de cerveja no copo de alguma das meninas.
Vanessa era uma ruiva de morrer. O tom da cor do cabelo era muito similar às labaredas que dançavam quase que em sincronia com as garotas (ou simplesmente Greg estava muito bêbado). Usava uma camiseta de seda verde, um pouco transparente; provocante, e também uma calça jeans, ambos pareciam delinear cada maldita curva naquele corpo desgraçado de gostoso. Joias caras no pescoço, Greg conseguiu identificar. Eita, que mulher rica. Salto gigante. A mulher sabia como dançar naquele salto, e Greg podia perceber que às vezes até as garotas pareciam fascinadas e invejadas com a habilidade de Vanessa em simplesmente seduzir as coisas que estivessem ao seu redor.
– Rato. Porque você tá quieto? – Vanessa repetiu mais alto. – Escuta, eu não costumo repetir o que eu digo.
– Eu não sou rato... – Greg respondeu.
– Raaaato, — Vanessa disse calmamente, empurrou Greg e voltou a dançar com as meninas. Greg entrou no meio, desajeitado, logo se viu sobrando mais uma vez. Ele não tinha talento algum para dançar. Lana jogava o travesseiro nele toda vez que ele bebia demais e arriscava um strip-tease.
– Você disse que não bebia cerveja! — Greg gritou para Vanessa. A ruiva tinha passado metade da viagem no Jipe dizendo que não bebia cerveja barata e que ia beber apenas seus bons drinques. Agora, requebrava com as garotas com uma garrafa de Skol na mão.
– O que acontece na ilha vermelha, fica na ilhaaaaa! – Vanessa gritou. Voltou a dançar com as meninas. – Tô cansada. — ela disse, ainda sem parar de dançar.
Às vezes Greg acreditava que Vanessa jogava um charme pra ele. Ele acabou concluindo que era só impressão, e também a ruiva estava um pouco fora de si por misturar vodca, tequila e cerveja, tudo numa pancada só. Ele rira.
– Melhor feeeeeeestaaa! — Nina gritou, pulando, tequila caindo no cabelo de Lana e na fogueira.
Whoooosh! As garotas recuaram com o fogo repentino, Greg caiu na risada.
– É o seguinte, — Vanessa começou. – Vocês são bem agitados, e são bonitos. Inclusive o ratinho ali. – apontou para Greg, Lana virou os olhos. – Todo ano tem essas festas, muito ricas, lá em Saint Trope. Vai ter uma agora em janeiro...
Os três ouviam com atenção.
– Eu posso levar vocês pra lá.
– Sério? – Nina perguntou, um sorriso curioso.
– Claro que posso, — Vanessa respondeu, jogou a garrafa de cerveja nas labaredas. – Eu sou rica, posso tudo.
Greg achou que seria um ótimo lugar para gravar vídeos, mas decidiu não falar nada. Por enquanto...
– Vanessa é engraçada quando fica bêbada. — ele comentou com Nina.
– Ela não é engraçada, — Nina respondeu. – Ela é assim o tempo todo.
Lana estendeu uma corda entre duas árvores.
– Vamos fazer essas brincadeiras de acampamentoooooo...
BOOM! Veio um estrondo repentino, forte, diretamente do topo da montanha. Greg se desequilibrou e caiu, percebeu que o solavanco forte tinha desligado a música no jipe. Vanessa largou a garrafa de uísque que havia acabado de pegar e ficou olhando de um para outro, esperando alguém dizer alguma coisa. Lana correu em direção a Greg e Nina correu até a gaiola de Sid.
Alguma merda estava acontecendo, Greg imediatamente soube.
– Todos para o jipe! – ele gritou, ainda no chão.
Vanessa entrou que nem uma bala no banco de trás. Lana e Nina ajudaram a levantar Greg, e enquanto o casal entrou no banco da frente, Nina sentou-se no banco de trás com Sid no colo.
– Coloquem os cintos, — Greg gritou, e posicionou o retrovisor de uma maneira que pudesse enxergar o topo da montanha, logo atrás de si. Fumaça jorrava pelo topo do vulcão. – Vamos dar o fora daqui.
Greg pisou no acelerador. Não tinha ideia do que estava acontecendo, mas sabia que o vulcão iria explodir. O ponto positivo que ele conseguiu enxergar na situação, era que ele ainda era um ótimo motorista, mesmo chapado.
– Toma cuidado, — Lana gritou – por favor!
Greg notou que o chão estava tremendo, então diminuiu a velocidade. Só um pouco...
– É um terremoto? – Nina gritou, — Aqui na Ilha...?
– Não é um terremoto, — Lana já encarava o retrovisor, assim como Greg. – É o vulcão...
Vanessa olhou para trás, a tempo de ver o vulcão surgir totalmente diante do vidro traseiro do jipe. Ela gritou.
O jipe acelerou repentinamente, Greg estranhou. Uma olhada rápida nos pés, notou que algumas garrafas de cerveja rolavam no chão do veículo, uma delas presa no acelerador.
Greg arregalou os olhos e chutou a garrafa.
– Lana, preciso que tire essas garrafas daqui, tá perigoso...
Lana soltou os cintos e abaixou-se rapidamente, tentando retirar as garrafas, acidentalmente batendo a cabeça no volante algumas vezes, Greg segurando firme.
– Temos que pegar a Abigail!
– Quem seria Abigail? – Lana surgiu com a última garrafa de cerveja nas mãos e arremessou numa caixa, no chão do banco traseiro. Outro tremor mais forte...
– É a moradora da cabana no pé da montanha. – Nina gritou, a voz entrecortada. — Ela pode se ferir, caso fique por lá...
Greg viu um caminho surgir à direita.
– Vire ali! Rápido!
Greg virou. Então vamos salvar a tal da Abigail, ele pensou.
Logo na sua frente, ele viu a cabana surgindo. Quase que fantasmagoricamente, a mulher estava do lado de fora da casa, encarando o céu.
– Tragam ela!
– Abigail, — Nina disse abrindo a porta do veículo, — você precisa vir com a gente.
– Ah não, — a velha sorriu. Greg encarou a cena, assustado. – Tá meio tarde para passeio. Aqui é meu lugar.
Greg suspirou indignado, olhou pelo retrovisor, o vulcão parecia uma chaleira prestes a explodir.
– Quero ouvir o som da Santa Muerte acordando... – a velha continuou.
– Puta que pariiiiiuuuu.... — Lana sussurrou para Greg.
– Você não tá entendendo, — Nina continuou, — o vulcão tá entrando em erupção! – Nina agarrou o braço da mulher.
– Eu vou ficar aqui! Ninguém vai me levar...
Greg encostou a cabeça no banco do Jipe. – PUTA QUE PARIIIIIIIU!
– Eu vou ajudar! – Vanessa disse, rapidamente saindo do veículo.
Vanessa já estava do lado da velha, enquanto Nina tentava argumentar.
– Vamos logo sua velha maldita! – Vanessa agarrou no braço da velha e a chacoalhou. – Ou vai ou morre!
Abigail se assustou e caiu pra frente. Desmaiou.
– Ai não! Eu matei a velha? – Vanessa tapou a boca, visivelmente preocupada.
– Ela tá viva. — Nina checava o pulso da velha.
– Ótimo, — Vanessa disse, voltou quase rebolando para o carro. – Todo mundo entra, e ratinho, coloca a velha no carro! – E fechou a porta, puxando o cinto de volta. – Maldito biscoito chinês, deve ser aquilo...
XXX
Abigail jazia desacordada no colo de Nina, Vanessa voltava a gritar. Lana cuidava da gaiola de Sid e Greg dirigia.
Pelo retrovisor, ele já podia ver as sombras alaranjadas dançando entre a fumaça do vulcão. Labaredas. Ele entendeu aquilo como um sinal que a lava estava subindo.
Quase como se adivinhasse, a lava apontou no topo do vulcão e começou a descer. Outro estrondo forte, Greg bateu a cabeça no volante e o jipe morreu.
O grito de Vanessa foi o mais alto.
XXX
Vento fresco batendo no rosto, Anna Clara esperava Jorge, seu chefe na Voleé, terminar seu discurso, o homem tinha um grande sorriso.
A multidão esperava o show da Lis, as estrelas no céu começavam a desaparecer, indicando chuva. Alguns da plateia claramente já demonstravam sinais de impaciência. Anna não os culpava.
Anna Bella e Shinji sorriam para ela, nas primeiras cadeiras para o pessoal da equipe.
Anna Clara tinha sido condecorada com outra insígnia da equipe da Voleé Airlines. Ela ainda estava surpresa com o ocorrido. Acabou desconfiando que, talvez a insistência de Jorge para que viesse mesmo para a Ilha fosse apenas para ele aproveitar a ocasião e entregar o presente nas mãos dela.
A noite não poderia ficar melhor. Anna Clara mal via a hora de dar o fora daquele palco e ir passar o resto das férias com sua família, mas a sensação de estar ali no topo, embora intimidadora, ainda era ótima.
Logo Jorge terminou suas considerações, e todos aplaudiram. As luzes do palco se apagaram e a plateia vibrou.
Anna estava descendo do palco, logo ouviu a cantora Lis tocando os primeiros acordes de sua música no violão. Lis cantou as primeiras letras da música, acompanhada pela multidão, então veio o silêncio.
O chão estava tremendo.
Anna viu Nina, a garota que havia conhecido no cruzeiro, acompanhada da garota do avião, de cabelo azul, subindo no palco.
– Saiam daqui! – Nina tomou o microfone de Lis, um tanto quanto chocada com a quantidade de pessoas invadindo o local. – Saiam! O vulcão está explodindo!
Imediatamente, vários seguranças surgiram e tiraram Nina e Lana do palco. O microfone caiu no chão, um estrondo nas caixas de som.
Ninguém estava vendo que o chão estava balançando? Anna se perguntou. Imediatamente ela desceu do palco, correndo em direção a sua família. A multidão finalmente começava a se dispersar pelas saídas agora, e ela conseguia ouvir explosões no horizonte.
Explosões? O que estava acontecendo? Anna precisava tirar a família do local.
Anna lançou um último olhar ao palco, e viu Lis cercada por seguranças. Ainda confusa, exposta, agarrada no braço do violão branco.
Repentinamente, o telão no fundo do palco explodiu e Anna pode ver Lis, os seguranças, bateria e violão, tudo e todos sendo arremessados na plateia. Anna gritou, lágrimas de pânico descendo pelo rosto, identificou o que parecia ser uma grande rocha envolta em fogo. Que coisa era aquela?
Logo atrás da rocha, ela entendeu com um estalo o que estava acontecendo. O vulcão tinha explodido e um dos destroços do magma havia atingido o palco.
Anna se viu encarando a situação, o horror invadindo o próprio coração. Não precisou andar muitos metros para chegar até a cantora, agora caída no chão da plateia; ao atingir o chão, a cabeça da cantora virou em 180 graus. Os cabelos loiros, salpicados com sangue, ainda balançavam com o vento. As vestes chiques lentamente tragadas pelo fogo.
Uma vez inalcançável, agora a cantora Lis estava ali morta, mais do que nunca exposta, jogada que nem um pedaço de carne sem valor.
Um flash. Alguém tirou uma foto, e aquilo fez Anna voltar para a realidade. A jovem mulher precisava de sua família.
Anna pegou na mão de Shinji, que agora carregava Anna Bella em seu colo. Os dois desviaram dos inúmeros cabos elétricos que chicoteavam pelo ar, e finalmente cruzaram a saída, Anna inalou o ar livre como se nunca tivesse o feito.
A visão que teve ao sair da arena do palco cortou seu coração.
Ela olhou para o céu. Dezenas de rochas envoltas em fogo riscavam o céu, um silvo estridente e constante no ar. Aquilo parecia uma guerra. Detritos gigantes atingiam construções, carros e floresta. Com horror, Anna entendeu que nada estava salvo.
Anna percorreu a lateral da arena, até alcançar a calçada que dava para a rua. Ela conseguiu enxergar, além do asfalto, da orla e além da areia da praia, alguns barcos ao longo do píer recolhendo as pessoas, passageiros já nos barcos utilizando sinalizadores e riscando o céu.
Aquela poderia ser sua melhor opção.
– A praia! — ela gritou. – A praia! — Shinji já havia entendido, e ambos já se preparavam para cruzar a rua em direção à orla.
Dois rapazes se adiantaram na frente dela, de mãos dada. Shinji os seguiu, e Anna foi atrás, o coração batendo...
Um clarão repentino, Anna virou-se para a extensão da rua que vinha da montanha. Uma rocha em chamas atingiu um carro que vinha em alta velocidade, que por sua vez foi arremessado pelos ares, agora em chamas, na direção dos dois rapazes.
Shinji parou. Anna também. O tempo parou. Os rapazes soltaram a mão, um deles pulou num impulso para frente, escapando. O de trás não teve a mesma sorte. Foi atingido em cheio pelo veículo em chamas.
A vítima arqueou como um boneco, sangue jorrando, os ossos quebrando, enquanto o carro, ainda em movimento, agora arrastava o corpo do jovem pelo asfalto, deixando uma longa mancha de sangue no concreto.
– Wendeeel! — O outro rapaz, que tinha escapado, soltou um grito horrível.
Anna e Shinji rapidamente passaram pelo garoto em prantos, e a família finalmente alcançou a orla.
Ali, o fluxo de pessoas era maior. Anna tinha que prestar atenção para não ser atingida pelas pessoas, e também pelas rochas de fogo que agora caíam sobre as pessoas. Não havia como escapar...
Ela avistou um quiosque, o espaço ao redor da mini construção mais vazio que os arredores. Ela desatou a correr, as mãos grudadas na do marido. A filha gritava em desespero.
Anna iria salvar sua família. Ela não ia deixar nada acontecer com eles.
Próxima ao quiosque, viu um clarão repentino na própriadireção. Ela parou e recuou com o marido. Ambos caíram na areia da praia, no mesmo instante em que um detrito do vulcão atingiu o quiosque em cheio. Instantaneamente, dúzias de produtos do quiosque foram arremessados pelo ar, e Anna viu um rapaz esguio ser atingido por uma prancha de surfe.
Ele caiu morto no chão, diante de Anna, os olhos ainda arregalados com o susto ao ser atingido pela prancha.
A jovem comissária, mesmo gritando, já estava de pé e correndo novamente, vendo o píer tão perto, mas ainda tão distante, considerando os destroços caindo e as pessoas aglomerando.
Ela viu uma garota loira sair correndo do meio dos destroços do quiosque, o belo vestido em chamas, pequenas labaredas que agora começavam a subir por suas costas e cabelos. A garota gritou instintivamente, sentindo a carne queimando, caiu na areia rolando. Ela continuou se debatendo por alguns segundos, tentando apagar as chamas, mas não chegou a levantar. A fumaça e o cheiro ocre de carne queimada subiu no ar. Anna tropeçou, o cheiro entalado na garganta, mas logo foi levantada por seu marido.
Um rapaz ruivo com a camiseta rasgada, sequer chegou a perceber que a mochila do violão em suas costas estava em chamas. Um piscar de olhos, e o fogo já se alastrava ao longo de seu peito e suas pernas. Ele largou a mochila quando já era tarde. Ele caiu no chão também, um longo grito de tenor que pareceu durar uma eternidade até reduzir a um grave gemido.
Anna enxugava as lágrimas mais uma vez. Lançou um olhar rápido para o vulcão, as explosões estavam cada vez piores. Destroços choviam ao redor da Ilha, e a visão era incrível e aterrorizante ao mesmo tempo.
Ela viu um farol clarear diante de si e parou. Um carro, no meio da praia e em alta velocidade, inclusive passando por cima das pessoas que ainda tentavam escapar.
Anna parou e o carro passou diante dela em alta velocidade. Um pouco a frente, uma moça de cabelos castanhos não teve a mesma sorte. Ela caiu de cara no chão e o carro passou por cima num segundo.
– ANDRÉÉÉIA! – um rapaz gritou.
O carro continuou seu trajeto, mas Andréia não. A roda passou por cima da cabeça da garota, que explodiu como uma melancia, espalhando miolos pela areia.
Anna tapou a boca e continuou firme agora. Faltando tão pouco... Lançou um olhar em direção à montanha, e horrorizada notou que o rio de lava estava se aproximando.
Havia um carro abandonado num quiosque, próximo ao píer. Ao mesmo tempo em que viu uma moça loira desesperadamente lutando com alguma coisa no quiosque, viu outra rocha de fogo vindo pelo céu.
O detrito atingiu o carro abandonado. O mesmo explodiu, e outra chuva de destroços aconteceu. Viu um pedaço da lateria voar na direção de uma moça ruiva e esbelta, correndo agilmente pela areia mesmo com um salto alto.
A lataria atingiu o pescoço da ruiva, e o corpo caiu no chão com um pedaço de metal enquanto a cabeça foi ejetada no ar, cabelos ruivos misturando-se com o sangue do rompimento das inúmeras artérias.
Aquilo era demais para Anna.
A alguns metros de distância do píer, a mulher reconheceu a guia turística, Valentina, caída no chão, com as mãos estendidas em direção ao píer. Tinha sido brutalmente pisoteada durante o caminho, Anna percebeu ao ver a costa desnuda da guia cheia de hematomas. Anna tapou o rosto e continuou, finalmente pisando na madeira do píer junto com outro grupo de pessoas. Ela olhou para trás e viu Valentina pousar a mão na areia, sangue saindo pelos olhos e nariz. O último suspiro...
Anna chegou à extremidade do píer no mesmo instante que o outro grupo. Detritos de fogo passaram zunindo acima de sua cabeça e pousaram no mar. Anna reconheceu a garota de cabelos azuis entrando no barco, e ajudando um rapaz, provavelmente seu namorado, a embarcar uma senhora desmaiada. Anna embarcou Shinji e Anna Bella.
– Rápido, alguém forte pra me ajudar a salvar uma garota! – o rapaz da garota de cabelo azul gritou. – Ícaro, você tá por aí?
Ninguém respondeu.
– Cadê a Nina? – Garota de cabelos azuis gritou.
– Ela ficou presa quando estava soltando uns animais ali no quiosque...
– Eu vou! – Lana começou a subir de volta para o píer, mas Anna sentiu que poderia ser útil. Ela tinha visto a Nina do cruzeiro com a garota de cabelos azuis. Via a expressão de desespero no rosto do rapaz, que parecia saber que não surgiria ninguém para ajudá-lo.
– Onde ela tá? – Anna perguntou para o rapaz.
– É pertinho, uns vinte metros daqui!
– Eu vou com você, — Anna respondeu. – Conheço ela, e é perto.
O rapaz com a barba rala castanha a encarou por um microssegundo, então logo agarrou sua mão. Ela se viu sendo arrastada de volta para a ilha.
– Mamãe volta logo!
– Não vá Anna! – Shinji havia gritado — Cê tá doida?
– Eu sou o Greg, — o rapaz disse, sem olhar para Anna, parando por um segundo na areia da praia e então rapidamente localizando o quiosque. – E você deve ser a Anna.
– Isso.
Ao se aproximar do quiosque, viu que a lava já estava muito próxima. A maioria das pessoas já estava se lançando ao mar, e Anna sentiu-se entrando em outro nível de desespero. Até que viu a moça loira, a mesma Nina que havia conhecido. As pernas estavam presas embaixo de um grande pedaço de madeira do quiosque.
– Aqui! – Greg apoiou-se embaixo de um grande pedaço de madeira. Anna rapidamente juntou para tentar ajudá-lo.
– Você? – Nina olhou para Anna, perplexa, lágrimas descendo pelo rosto. – Anna?
– Eu. — Anna respondeu. O coração batendo.
O pedaço era pesado, mas Greg continuou tentando, Anna dando apoio. Mas era inútil. Eles não conseguiriam.
Anna se viu horrorizada mais uma vez.
Greg parou por um segundo, secou a testa cheia de suor, tossiu e voltou a tentar erguer a madeira. Frustrado, ele xingou.
– Vão! – Nina disse. – Não vai dar! Por favor!
– De jeito nenhum! — Greg gritou.
Nina olhou para trás, viu a lava chegando, não mais de vinte metros. Anna continuou firme, tentando ajudar Greg e confortar Nina.
– Não vai dar, Greg! Vão! Por favor!
Nina parecia querer cair em prantos, mas continuou impassível, Greg continuava tentando erguer a madeira.
– Anna, — Nina encarou nos olhos da mulher, — Vai salvar sua filha, ela é linda! Vai!
As pernas de Anna amoleceram com aquela frase. Anna segurou o choro.
– Greg, volte pra Lana! Por favor, se salvem!
Anna recuou, a lava se aproximando. Greg ficou ali com Nina por mais um segundo, até a lava finalmente atingir os destroços. Nina grudou no pulso de Greg e fuzilou.
– Vá logo, Greg! – ela ordenou. – Vai!
Anna não ficou para ver. Ela virou-se e voltou a correr de volta ao píer, sentindo o calor da lava já se aproximando. Percebeu que Greg estava correndo logo atrás dela, chorando alto e tão descontrolado quanto uma criança.
Ambos ouviram o grito de Nina.
Assim que pisaram no píer, a estrutura balançou. Anna virou-se e viu que a lava tinha atingido a ponta do píer e o conjunto todo estava desabando, rapidamente tragando consigo um jovem rapaz que carregava expressões quase que infantis de medo no rosto. Aquilo tudo era demais...
Anna virou-se e viu que os barcos já estavam distantes da costa, percebeu que teria que nadar. De mãos dadas com Greg, ambos alcançaram a extremidade do píer que desmoronava em cadeia, e pularam, logo sentindo o conjunto todo de madeira desabando atrás de suas cabeças.
A água era gelada e Anna Clara ainda sentia como se a adrenalina em seu corpo estivesse a mil, rapidamente voltando a superfície. Ainda ouvia os gritos de dezenas de pessoas, sofrendo em algum lugar. Não estava mais de mãos dadas com o rapaz, mas ouvia ele se debatendo por perto.
Afobada, batendo os braços para não afundar e tremendo, Anna avistou uma prancha de surf flutuando e nadou até ela. Equilibrou-se na borda de madeira e finalmente lançou o corpo com uma força incrível.
Ela só conseguiu na segunda tentativa.
Agora via Greg tentar o mesmo, mas sem sucesso pois era muito pesado. A lava, agora perdia a velocidade, mas continuava deslizando sobre a água.
Avistou uma das moças que estava no palco também, como ajudante da equipe da companhia. Era Ruth o nome dela? A garota lutava com unhas e dentes para nadar, e repentinamente houve outro clarão, destroços da praia foram arremessados e Anna viu uma espécie de lança surgir do nada e atingir a nuca da garota. O objeto pontiagudo atravessou o crânio da garota em um microssegundo e a ponta saiu pela testa. A cabeça tombou para frente, fluídos e sangue respingaram na água e instantaneamente a garota parou de se debater, a expressão de pânico desaparecendo no rosto e sendo substituída por uma de calmaria.
Anna sentiu-se horrorizada a assemelhar a visão da garota com um unicórnio. Então, lentamente, acompanhou com o olhar enquanto o corpo da garota afundava.
Avistou Greg a alguns metros de distância, tentando ajudar um garoto que mal conseguia nadar. Ela reconheceu o garoto como o parceiro daquele que havia morrido ao ter sido atingido por um carro, minutos antes. A lava estava aproximando-se do garoto que se debatia, e ele não conseguia sair do lugar, diferente de Greg, que agora que a lava perdia a velocidade, agilmente era capaz de evitar ser atingido por ela.
Greg agarrou os braços do garoto e puxou com força para si no exato instante em que a lava atingiu a cintura do garoto.
O garoto gritou, cuspiu sangue e apagou, enquanto metade de cima de seu tronco era expelida pela lava sobre Greg.
O rapaz com a barba gritou, empurrou o tronco decepado do garoto e passou a nadar em direção a Anna, um olhar de determinação no rosto.
Repentinamente, um poste submerso do píer surgiu na superfície. Era um tipo de base da estrutura da plataforma do píer, presa no fundo do mar por ganchos, os aviões tinham um mecanismo similar no sistema de bagagens. Na ponta do poste, havia o cabo de aço que prendia a estrutura com ganchos no fundo do mar. O cabo chicoteou no ar por um segundo e o gancho pontudo atingiu o topo da cabeça de Greg de uma vez só.
A feição no rosto do homem desapareceu, sangue desceu pelos olhos e nariz, e Anna acompanhou o corpo do rapaz afundando. O cabo de aço ainda preso no topo do crânio, uma mancha de sangue descendo junto.
Anna virou-se na prancha e começou a bater os braços para se afastar da ilha. Ela precisava alcançar um dos barcos, precisava dar o fora daquele lugar, mas ao mesmo tempo vibrava, sabendo que se tudo desse errado, ainda estaria ok, pois sua família já havia conseguido. Ela não se sentia arrependida por voltar por Nina. A garota era tão humana quanto sua filha.
Um clarão repentino, Anna gritou e rapidamente notou que um helicóptero estava lançando luzes sobre ela. Ela seria resgatada!
Assim que completou o pensamento, um destroço do vulcão atingiu a cauda do helicóptero. A aeronave girou no ar, as hélices pararam de rodar e a armadura de ferro começou a despencar.
Na direção de Anna.
Anna gritou, ela não queria morrer. E enquanto tentava nadar para se afastar, grito preso na garganta, via ao seu redor na água a sombra do helicóptero gradualmente aumentando.
Aquele era o fim.
E então Anna acordou.
XXX
O jipe desceu a montanha numa velocidade absurda, jogando terra e pedregulhos para o lado, deixando a estrada logo atrás sendo devorada pelas lavas que escorregavam enfurecidas pela superfície da montanha. Chegou a praia com os últimos resquícios de combustível que havia no veículo.
Lana saiu do automóvel, seguida de Nina. Greg, que outrora dirigia, agora carregava Abigail, desacordada em seus braços. Vanessa foi a última a descer, com uma caixa de metal azul que encontrara dentro do jipe.
Ao se aproximarem do palco, ouviram uma mulher gritando no microfone:
– Temos que sair daqui o mais rápido possível! – Ela parecia acabada, e entre lágrimas tentava comunicar algo para o público. – Sou uma oficial... A guarda costeira... ela me passou a informação o vulcão vai destruir esse lugar! Lava por todos os lados e... foi no meu pensamento, eu vi! Deem o fora daqui, o mais rápido possível! – Ela agarrou a mão da filha, chamou o marido e os três saíram dali imediatamente. Várias pessoas começaram a deixar o local.
– O que está acontecendo? – Lis retomou o microfone. – Vulcão?
O chão começou a tremer absurdamente. Rachaduras começaram a surgir por todas as partes, serpenteando entre as pessoas.
Lana, Nina, Greg, Abigail e Vanessa já tinham se misturado na multidão.
Lis, a cantora finalmente desceu do palco, e segundos depois viu o telão explodindo atrás de si mesma.
– Saiam daqui, agora! – Lana gritava, fazendo um movimento com as mãos, para que as pessoas se dispersassem e se distanciassem o máximo possível do local. — Rápido!
Lana não tinha certeza se haveria algum lugar seguro durante a erupção, mas aquela era a única chance de salvar aquela multidão.
A estrutura do palco não demorou a ceder com todo o tremor. Pilastras caiam, prendendo algumas pessoas e cabos chicoteavam o ar enquanto se desprendiam. Um dos holofotes pegara velocidade durante a queda e acertara Vih, espirrando um jato de sangue no rosto de Kris e Wendel. O choque não durou muito tempo e logo Lena tomou a frente, puxando Ruth, e todos começaram a correr.
O tumulto seguinte afastou qualquer hipótese de redenção. Várias pessoas corriam em círculos, desesperadas. Algumas choravam, outras tropeçavam nas próprias pernas. O sentimento de agonia e desespero pareceu se acumular num aroma sobrecarregado acima de todos.
– Tire-a daqui, por favor! – Nina gritou para Greg. Abigail parecia estar em transe nos braços do homem, enquanto ele se enfiava no meio da multidão, procurando um caminho para seguir.
– O que a gente faz agora? Não vai dar tempo de alcançar um lugar seguro, vamos morrer! – Lana gritou, com os cabelos sendo chacoalhados pelo vento quente que soprava cada vez que a fumaça era expelida do vulcão.
– Nesse momento, precisamos tirar todo mundo daqui, não vai restar muito tempo pra gente! – Nina tentava ser racional, mas não estava tendo êxito.
– Ei, vocês duas! – Elas ouviram Vanessa gritar. – Olhem o que temos aqui. – Apontou para a caixa de ferramentas aberta. Para a sorte delas, seria mais fácil orientar as pessoas com os dois sinalizadores que ali existiam.
– Isso! – Nina comemorou e pegou um dos sinalizadores. Deixou o outro com Vanessa.
A quarta explosão vulcânica aconteceu e jogou dezenas de dejetos contra a praia. Os objetos flamejantes decolaram e caíram numa velocidade imensurável, acertando o chão de maneira furiosa. A areia pulou contra as pessoas, que ainda permaneciam desorientadas. Muitas delas foram ao chão e não tiveram chance de poderem se safar da armadilha de fogo. Outros dejetos começaram a saltar sobre as pessoas, que iam sendo pegas de surpresa pelas rochas incandescentes que caíam da montanha num piscar de olhos.
Edu e Mônica seguravam as mãos um do outro firmemente enquanto desviavam das rochas superaquecidas que saiam do vulcão. Lis e o rapaz que havia a tirado do palco corriam em sincronia, saltando os destroços em seu caminho, na direção da orla da praia.
Um grupo de senhoras que gritavam bem próximas de Lana foram interceptadas por uma das rochas em chamas. Três das velhinhas foram esmagadas e mortas instantaneamente, a última ficou com uma fratura exposta, enquanto olhava horrorizada para o osso do tornozelo pulsar para fora da pele. Lana correu para ajudá-la.
– Usem isso, façam o que puderem!
Nina e Vanessa olharam ao mesmo tempo para o lado oposto da ilha e viram o vilarejo. Se tivessem um pingo de sorte, a lava não chegaria até ele, pois uma grande parede de pedras permanecia entre o vilarejo e o lado comercial da Ilha. Entreolharam-se e assentiram. Juntas, colocaram os sinalizadores em suas posições e dispararam.
Os dois feixes subiram e fizeram um zunido agudo. A atenção das pessoas se voltou para elas.
– TODOS VOCÊS PARA O LADO OESTE DO VILAREJO! – Nina gritou. – É o lado mais seguro da ilha!
Não obtiveram respostas das pessoas desatentas.
– Corram pelas suas vidas! Ou querem ficar parados e virarem torresmo?! – Vanessa tentava um incentivo diferente, um sinalizador na mão.
As rochas cuspidas pelo vulcão caiam com mais intensidade na praia. Partes do palco pegavam fogo, enquanto pessoas eram sucumbidas pelas labaredas. Luca e Henrique foram algumas das vítimas. Ruth tentou gritar por seus amigos, mas seu grito foi abafado pelo som do fogo e da destruição que ele causava. Isso não impediu que lágrimas escorressem de seus olhos.
A lava serpenteava pela montanha, a caminho da praia, a caminho das pessoas. Muitas ainda resistiam, procurando refúgio, mas parecia que o fim seria aquele. Lana perdeu a senhora de vista no meio da confusão. Estava ajoelhada na areia, com o corpo inclinado para frente, num gesto de desistência.
Anna Clara vinha correndo com a filha bem atrás dela, até que a pequena tropeçou e caiu por cima da jovem de cabelos azuis.
– Vamos, querida! – Anna gritou, correndo com a garota. O marido veio logo atrás, descalço e com uma das mangas da blusa rasgadas.
Vanessa e Nina corriam na direção de Lana, quando um jato de magma que salpicou de uma das pedras de fogo, atingiu um homem que corria ao lado da ruiva. Nina a empurrou no último segundo e as duas caíram na areia. Enquanto Vanessa caiu de costas, Nina caiu com o rosto numa poça de sangue, que já estava sendo absorvida pelos grãos. Metade de seu rosto estava sujo. Vanessa ajudou-a a se erguer da areia e segurou na sua mão bem forte. A alguns metros, Nina finalmente viu Ícaro, segurando Sidney. A chinchila estava apavorada, não parava de se mover nos braços do homem.
– Graças a Deus que você está bem! – Ele beijou-a. Vanessa de repente largou sua mão e correu na direção do mar. Lana se levantou da areia e seguiu-a. Nina fez o mesmo, ao lado do namorado.
Enquanto os quatro corriam, viram Greg com Abigail nos braços. A senhora parecia estar recobrando a consciência. Nina também percebeu um grupo de pessoas entre a multidão. Era heterogêneo, mas todo composto por jovens. Quatro rapazes e quatro moças. Dentre elas, Ruth e Lena. As duas clamavam por uma saída daquele inferno tropical, e o grupo passou a procurar uma maneira de se livrar daquela área. A lava já cobria a vegetação mais baixa da mata, enquanto queimava tudo que via pela frente. Uma grande e espessa fumaça surgiu mais além e deixou o céu acima das pessoas inteiramente escuro.
Ainda puderam ver a equipe de TV gravando tudo, mas eles precisavam decidir se registrariam o terrível momento ou se sobreviviam. E se dependesse da repórter que gritava com seus ajudantes, seria possível realizar os dois. Eles corriam na direção do píer, para onde todos estavam se encaminhando inconscientemente.
Nina correu até um quiosque e libertou um grupo de animais que estavam amarrados nos bancos. Assim que terminou e se afastou da construção, um detrito do vulcão destruiu a lojinha.
De súbito, o grupo ouviu os berros de alguém, no píer. A guia das expedições pelas ruínas e também de aparência hippie, Valentina, gritava e acenava com os braços freneticamente.
– Venham rápido! – Gritou. – Ainda temos um barco! RÁPIDO!
No calor da situação e imersos em adrenalina, todos aguçaram os sentidos e correram. Ninguém se lembrara de ninguém, com pequenas exceções. Só pensavam em alcançar o maldito barco. O suor escorregava pelo rosto e pelas costas. Os pés esquentavam e o corpo recebia bruscamente a mudança de temperatura. Agora: Lana, Greg, Anna, Nina, Ruth, Kris, Wendel, Andreia, Bella e a equipe de reportagem corriam juntos na direção do píer. Na direção do que poderia ser a única passagem para a redenção.
No que poderia ser o último passe para a claridade. Havia apenas uma maneira de arrancá-los do escuro. E esta maneira era aquela embarcação.
Graças a movimentação das placas tectônicas, o mar também estava agitado e pequenas ondas chocavam-se contra o píer, derrubando algumas pessoas. Mas a célere caminhada até o barco não durou mais que vinte segundos. Tempo suficiente para a lava do vulcão cobrir totalmente a praia. Valentina ficou no píer, orientando-os e auxiliando-os na entrada do barco. Anna e sua família foram os primeiros a entrar, seguidos do grupo que contava com: Ruth, Lena, Wendel, Kris, Bella e Andreia. Haviam mais algumas pessoas com eles, deduziu-se que fossem seus amigos ou acompanhantes; Greg entrou com Abigail em seguida, deitando-a no convés, Lana entrou logo após, ajudando a senhora a recobrar a consciência por completo. Nina, Ícaro e Vanessa foram os próximos a entrar, e a ruiva xingava muito.
Os recém-chegados na embarcação notaram que algumas vítimas já aguardavam dentro do barco, pois tinham recebido o chamado da guia.
De repente a agitação do mar se agravou, sacudindo o barco, o que lançou a maioria das pessoas para o lado direito. Duas pessoas que estavam no grupo que já se abrigava dentro da embarcação, passaram sobre a amurada e caíram no mar.
– Puta que pariu! – Greg se inclinou na amurada. Ícaro apareceu ao seu lado, analisando a situação e pedindo que eles ficassem calmos, pois arrumariam alguma maneira de tirá-los de lá. Ele já estava acostumado com resgates do tipo.
O vulcão expeliu mais rochas flamejantes, e uma delas atingiu o lado esquerdo do barco, sem causar muitos danos. Porém, a embarcação chacoalhou novamente e isso fez mais um grupo de pessoas cair para dentro da cabine, inclusive Ruth, Lena e Andreia.
– Você tem que ligar a porra desse barco agora! Temos que sair daqui! – Greg gritou para Valentina, que acompanhava a cena na ponta do barco.
– Não temos muito tempo, peguem a corda, um de cada vez! – Ícaro gritou para as pessoas que se batiam na água. – Vou precisar de ajuda! – Logo recebeu a ajuda de Greg, Kris e outro rapaz. Os quatro conseguiram colocar as duas pessoas de volta no barco.
Sem hesitar, Valentina correu até a cabine, passando pelo corpo desacordado de Andreia, que havia batido a cabeça na porta da saleta. Um rapaz loiro amparava-a.
– Ei, me ajudem aqui! Vocês não podem sair sem mim! – Uma garota loira gritou no píer. Logo foi identificada como sendo Lis, a cantora.
– Sem nós! – Um casal também a acompanhava. Junto deles havia mais três pessoas, uma delas era Eva Mendel, a fundadora da Animal Rescue. Os outros dois eram ruivos e pareciam ser irmãos.
– Doutora! – Ícaro correu até a do barco. – Podem subir!
Valentina ligou o motor.
– Vamos! – Greg pegou na mão da garota de cabelos escuros e olhos claros, acompanhada de um rapaz. Ele tinha um colar bastante peculiar. Ele não precisou se ajuda para subir na embarcação, já a garota teve a ajuda de Greg.
– Cuidado com meu sapato! – Lis disse, enquanto era puxada para dentro do barco.
Assim como todos os outros, Eva teve tempo de ser resgatada. Nina a abraçou, com a chinchila mexendo no seu cabelo. Quando se deram conta, o barco já estava se afastado do píer, e a estrutura de madeira finalmente cedeu, logo sendo envolvida pela lava. Ao redor deles, o cheiro de destruição invadia suas narinas. A lava consumia a praia, boa parte da mata e agora lentamente deslizava sobre a água.
E os detritos continuavam a cair, ao redor do barco. Ele foi se afastando...
Ficou cada vez mais longe, até ficar fora da zona perigosa.
Anna Clara permanecia estática, abraçando a filha, que estava encolhida em seus braços. O marido da mulher abraçou-lhe e observou o caos.
Ruth e Lena se aproximaram de Anna, visto que as duas ouviram da boca da mulher que o vulcão causaria um estrago, antes mesmo de tudo começar.
– Você... Você disse que isso iria acontecer... – As duas encararam-na.
Os que estavam mais próximos se entreolharam e em seguida, observaram o semblante da mulher. Uma lágrima caiu. Helicópteros começavam a rodear o barco, dezenas deles se aproximavam da ilha.
– Eu vi tudo. – Foi o que saiu do movimento dos seus lábios. – Eu vi toda a destruição, vi os corpos, o magma, os restos... – Era como se alguém atingisse uma faca contra seu peito. – Todos morriam.
– A maldição de Santa Muerte. – A velha, que outrora desmaiara, agora estava de pé, de frente para Anna. – A profecia... Você desencadeou a profecia.
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