Premonição Chronicles 2
6 Capítulo 06: Kanaloa
Notas iniciais
Um ano antes.
– Deixa que eu assumo a direção, Pedro. – Bella falou, diante da situação em que se encontravam. – Você não tá bem.
– Mas... Não... dirije... – Ele tentou falar, tendo sua fala abafada pela crise de asma.
– Para um pouco, rápido. – Bella falou. No momento em que Pedro parou o carro, os dois trocaram de lugar rapidamente, e Pedro pegou o broncodilatador que estava á sua frente.
Bella deu a partida no carro, e tentou se guiar. A garota de 15 anos já havia dirigido algumas vezes, mas não diante de algo tão sério. Esperaria Pedro, que era seu namorado, recuperar a respiração normal e então, trocaria de lugar novamente... Aquilo seria temporário e...
Quando menos esperava, um carro veio em alta velocidade do lado, e se chocou com o carro de ambos. Num baque, o carro capotou e tombou no meio da rua. Bella foi arremessada para longe do carro, caindo no chão, e sentindo a dor tomar conta do seu corpo, e percebeu imediatamente que seu braço tinha se quebrado. Ainda zonza com o que havia acontecido, olhou para o lado, e viu a lataria do carro de Pedro totalmente amassada, no meio da rua. Uma mão caía para fora de uma das janelas, e ela sangrava incessantemente.
Ela ficou paralisada e...
– Isabella?
Bella piscou os olhos, e percebeu que a dona do mercadinho olhava com uma cara suspeita para ela.
– Está bem? Parecia que estava delirando.
– Não, está tudo bem. – Bella sorriu falsamente.
– Hum... – Ela levantou os olhos, parecendo que avaliava a garota, e depois continuou a andar.
Bella deu um suspiro de alívio.
– Ah, mais uma coisa... Poderia por favor deixar tudo o mais arrumado possível? Não quero eventuais problemas enquanto você estiver fora... De férias.
– Sem problema. Falta só umas coisas e...
– Espero que tenha uma ótima viagem, querida. Você merece um pouco de descanso depois desse ano. – A senhora sorriu, e continuou a andar.
– Obrigada...
...
A cabeça de Eduardo emergiu na borda da piscina do clube. O cabelo do rapaz de 24 anos caía sobre a testa, enquanto e colocava o braço na borda.
De repente, uma toalha caiu em cima da sua cabeça. Olhou pra cima, confuso, até que percebeu que alguém ria. Aquele riso e também o sorriso da garota eram inconfundíveis. Mônica.
– Tudo bem aí?
Eduardo jogou a toalha de volta na garota.
– Com você aqui, não tenho tanta certeza disso. — Ele saiu da piscina, e Mônica jogou a toalha novamente para o irmão.
– O que você tá fazendo por aqui? — Ele perguntou, enquanto se enxugava. — Não tá na faculdade não?
– Eu cheguei hoje. Esqueceu que nós vamos viajar amanhã?
– Você acha que eu vou esquecer? — Ele sorriu. — Só não tava esperando você por aqui.
– Vim fazer uma visitinha. Vou passar a noite na casa do pai e da mãe. E como você tá? — Mônica falou, passando a mão na tatuagem que Eduardo tinha no braço direito. Uma rosa-dos-ventos.
Eduardo e Mônica. Dois irmãos, que pareciam ser feitos um pro outro. Mesmo com personalidades tão diferentes, os dois se completavam de uma forma incrível. Exatamente como na música que dera a inspiração para a mãe deles para o nome dos irmãos.
Eduardo tinha 24 anos, era alto, com 1,80, e pra completar tinha um cabelo bem rebelde. A maioria das vezes estava com um topete, mas era comum ver o rapaz com outros penteados. Ainda tinha um rosto que disfarçava sua idade real. Já Mônica era 2 anos mais nova, bem mais baixa, com longos cabelos pretos. Os olhos dela se destacavam, incrivelmente azuis além do lindo sorriso que sempre portava. Apesar da similaridade entre eles, Mônica tinha sido adotada.
– Tô bem, muita correria por causa do campeonato de surf, né? Essa é uma das etapas mais importantes... Vai ser bom descansar a cabeça um pouco.
– É. Eu não vou ter tanto descanso assim, mas de qualquer jeito, estar num lugar com a Ilha Vermelha vai me fazer bem. — Ela disse, seguindo Eduardo na direção dos vestiários. — Ainda tá mancando, Edu?
– Não, a fisioterapia já deu um jeito. Agora só tô com umas cicatrizes... Não gosto de falar nisso.
Ele se referia ao acidente de carro que sofrera meses atrás, quando voltava de uma festa com seu melhor amigo Nicholas. Eduardo não lembrava muitos detalhes do acidente, apenas que acordara dias depois no hospital, e descobriu que Nicholas tinha morrido no fatídico acidente e que fora um milagre ele escapar bem, só quebrando uma perna e com alguns arranhões.
– Entendo... Se prefere assim... — Quando o rapaz ia entrando no vestiário, Mônica perguntou:
– Você me dá uma carona?
– Claro, claro. Daqui a pouco tô saindo.
...
Eduardo abriu a porta do seu apartamento, e percebeu que a mesma estava destrancada. Entrou vagarosamente, e uma figura trajada com um grande vestido púrpura se virou.
– Edu! Que bom que chegou...
– Heloisa? Como...
– Você me deixou uma cópia da chave, não lembra? — Heloisa respondeu. — Vim pra pegar algumas coisas... Suas. Antes que pergunte, eu vou mais cedo pra lá, já vou levar algumas coisas da equipe, entende? Pra vocês não terem tanto problema depois... Igual ás outras vezes.
– Bem que eu tava me perguntando como eu ia levar uma prancha de surfe pra lá. – Eduardo falou. — Mas você não tinha avisado.
– Claro que avisei, até mandei um recado no seu celular. – Heloisa falou. – Bom, mas nada disso importa... E como você tá?
Eduardo deixou as chaves em uma bancada e se virou.
– Todo mundo tá me perguntando isso... Eu tô ansioso, mas ao mesmo tempo apreensivo, ué. Do jeito que todo mundo estaria na minha situação.
Heloisa se aproximou com seu passo de rainha. Ela não tinha somente um passo de rainha, como passava um ar de imponência. A mulher de 40 e poucos anos era uma grande milionária, acionista de sucesso. Com sua pele morena e cabelos curtos, mas revoltos, se destacava onde passava. Edu poderia nunca ter conhecido a mulher, se não fosse um golpe do destino.
Heloisa era apaixonada por surfe, e principalmente por aquela equipe na qual Eduardo era um dos destaques, sendo que ela ajudava e financiava os atletas. Desenvolveu um carinho específico com Eduardo e Mônica, inclusive ajudando a garota a também ir pra ilha, onde ela atuaria como assistente da renomada bióloga Eva Mendel.
– Entendo. Mas relaxe. Você treinou pra isso.
– É, mas...
– Não importa o que você procura, você sempre vai achar o que está procurando. É uma frase que adotei pra mim.
Eduardo apenas ficou olhando boquiaberto.
– Você deve me estar achando louca. – Heloisa riu.
– Se não te conhecesse bem, eu acharia mesmo. – Eduardo falou.
– Bem, então vou pegar o que preciso... – A mulher olhou para o rapaz, mais alto que ela, e de repente, um beijo surpreendeu-a. O beijo foi aumentando, aumentando e ambos os corpos ficavam cada vez mais abraçados e quentes.
Abraçados e Quentes.
Eduardo e Heloisa caíram juntos sobre o sofá da casa do surfista, e em pouco tempo, já faziam sexo.
...
Um dia depois.
O carro acelerava pela estrada em direção ao aeroporto. No interior, Eduardo tentava prestar atenção na pista, enquanto Mônica olhava vários guias de conseguira e também pesquisara sobre a Ilha Vermelha.
– Dudu, você sabia que já teve uma civilização espanhola na ilha? – Mônica perguntou. – Eu nunca tinha ouvido falar disso.
– An? Não, nem sabia disso.
– Aqui fala que essa civilização sumiu misteriosamente no século dezenove... Algumas ruínas ainda estão no local, mas sobre a grande maioria das casas, foi erguido um vilarejo, denominado Santa Muerte.
– Santa Muerte? Eles não tinham um nome melhorzinho pra dar não? Eu hein.
– Aqui fala que é Santa Muerte por causa de uma homenagem a uma divindade cultuada pela civilização. O nome era... – Mônica parou, surpresa. E então olhou para o rapaz. – Santa Morte.
Eduardo ficou estático.
– Santa Morte? Eles cultuavam a morte, é isso mesmo?
– Deve ser só uma coincidência. – Mônica falou, guardando o guia. — De qualquer jeito, nós vamos nesse vilarejo. Parece um lugar interessante.
– Se eu encontrar um esqueleto preso na entrada daquela ilha, podemos voltar. Onde já se viu cultuar a morte?
– Ficou impressionado?
– Só é estranho. Estranho até demais.
Mônica continuou a olhar a programação que recebera, e pouco depois, chamou a atenção de Edu, que continuava a prestar atenção no trânsito.
– Dudu, olha só. Um dia depois do campeonato de surf vai ter um show da Lis Araújo.
– Hum...
– Nossa, eu adoro as músicas dela. Já ouviu No More Apologizes?
– Aham.
– Eu adoro essa música e... Dudu, você tá me ouvindo?
– Não.
Mônica bufou, e recostou no banco, olhando para o rádio do carro.
– An... Quer colocar música? Você não para de olhar pro rádio.
– Pode ser. – A moça falou, um pouco decepcionada ainda com ele. O pen drive de Edu estava plugado na entrada do rádio. Mônica ligou o mesmo, e uma música muita conhecida pelos irmãos começou a tocar.
Quem um dia irá dizer
Que existe razão
Nas coisas feitas pelo coração?
E quem irá dizer
Que não existe razão?
– Tá zoando comigo né Edu? – Mônica sorriu.
– Não. Foi coincidência. – Ele disse, olhando pra irmã.
...
– Bella...? – Seu namorado Felipe apareceu na porta do seu quarto. – Bella? Não tenta pregar mais uma peça em mim, eu sei que você tá aí. – Ele disse, vendo a mala da garota sobre a cama.
– O que foi? – A garota loira falou, saindo do banheiro.
Isabella, ou apenas Bella, tinha 16 anos, com 1,67, altura normal para a sua idade. Tinha um corpo meio definido, que claramente ainda sofria as mudanças da adolescência. Mas sua grande característica física eram os cabelos loiros, lisos e longos, herdados de seu pai, que terminavam em cachos.
– Ah, você está aí. Tá tudo pronto?
– Como você vê, não né. – Bella respondeu, com um sorriso sarcástico na cara. – Eu não sei bem o que levar...
– Isso aí já tá bom. Não vamos ficar um mês na ilha, só três dias.
– Mesmo assim... Vão ser três dias inesquecíveis. – Ela sorriu. – Fiquei sabendo que vai ter um campeonato de surf também, exatamente durante o período que a gente vai estar lá, além do Maurício e da Vivi, que também vão. E pra terminar, vai ter um show da Lis. — Bella falou, apontando para o grande pôster que estava no quarto da garota.
Felipe só levantou a sobrancelha.
– Vamos lá, Felipe. Até parece que não está animado com tudo isso.
– Bella, eu não sei... Concordo da gente passar um tempo juntos, isso é bom, a gente precisa ficar um pouco a sós, mas não tô com uma sensação boa.
Bella olhou fixamente para os olhos claros de Felipe, como se tentasse extrair alguma coisa daquele olhar enigmático. Felipe namorava com Isabella, ou apenas Bella, há certo tempo, mas parecia que os dois ainda não se conheciam realmente. A história dos dois havia começado a partir de uma noite quando Bella quase fora molestada em mais uma das loucas noites que ela curtia, e Felipe impedira tudo aquilo de acontecer. Mas Felipe já estava há mais tempo na vida de Bella, desde o acidente que matara Pedro. Ele fora o responsável pelo acidente que vitimara o garoto.
– Ah, você vai ter que estar com uma sensação boa. O lugar é incrível de verdade, você vai ver. Todo aquele clima paradisíaco...
Felipe suspirou.
– Você nem pesquisou direito né, Bella? Nem ficou sabendo da civilização que sumiu misteriosa...
– Também. — Bella sorriu. — Vamos ter tempo pra fazer tudo isso e mais um pouco. Felipe, você vai adorar.
– Tá bom, tá bom. Me rendo. Era só uma coisa estranha mesmo.
– Falei seu bobo. — Bella disse, beijando Felipe logo em seguida. O beijo se tornou bem demorado, até que Bella o interrompeu.
– Foco, Felipe. Então, o que você acha melhor?
...
Eduardo olhava da sala de embarque para o grande avião em que eles entrariam. Um misto de sensações passou por sua mente.
Ele ainda lembrava a primeira vez que pegara um avião, e ficara pensando em todas aquelas notícias que diziam de grandiosos acidentes envolvendo esse meio de transporte, tão seguro e tão letal. Felizmente, tudo ocorrera bem, embora Eduardo não conseguisse nem olhar para a janela, e ver as nuvens bem abaixo dele. Não, ele não tinha medo de altura. Era apenas uma incômoda sensação de vertigem.
Olhou para a passagem. Voo 130.
Santa Muerte e agora 13? Cês tão brincando comigo hein?
A última chamada para o embarque se realizou naquele momento. Ele pegou sua mala e foi na direção do local onde embarcariam. Olhou ao redor e viu que Mônica tinha sumido.
Bem que ela falou que iria no banheiro. Cadê essa garota?
Logo depois, ela surgiu correndo. Edu suspirou de alívio.
– Ainda bem que você chegou. Eu já tava ficando impaciente.
– Nem demorei tanto... – Mônica falou. Ela pegou as malas e entrou na fila, seguido por Eduardo. Mais duas pessoas o seguiam, e então a fila terminava.
Quando Eduardo entregou a passagem para o homem que coordenava o embarque, ele teve uma estranha sensação e olhou para trás, antes de pisar no túnel que o levaria para o avião.
...
Algumas horas depois.
– Finalmente vocês chegaram! Por que demoraram tanto? – Murilo perguntou para o casal de irmãos que chegava em mais um aeroporto, logo depois dos cumprimentos. Dali partiria o avião particular de Heloisa.
– Murilo, somos dois. Não só uma pessoa como você. – Mônica respondeu, se apoiando na mala.
– E a Heloisa, Murilo? – Eduardo perguntou.
– Ainda não apareceu, Edu. Tá demorando até demais. E você, tá pronto? – Murilo perguntou.
– Pronto não né, mas vamos ver no que dá. – Eduardo riu. – Mentira, tô ansioso pra caralho, viu.
– Pode se contentar com o segundo lugar então. – Murilo ergueu a sobrancelha. – O primeiro já tem dono.
– Veremos Murilo.
Murilo era três anos mais velho que Eduardo, e já era experiente, sendo o melhor surfista da equipe. Como ele mesmo dizia, não era qualquer um. Murilo já tinha ganhado diversas competições, inclusive o campeonato nacional. Além disso, já tinha estado na Ilha Vermelha, e conhecia as bravas ondas do local. Um ponto a mais para ele?
Eduardo o tinha por inspiração, mas também como algo a ser alcançado e se possível, superado. Ele já tinha o alcançado, e agora precisava só superar Murilo. O que não era exatamente uma tarefa fácil.
Alguns minutos depois, uma pessoa surgiu andando no pátio do aeroporto. Seu jeito inconfundível logo revelou quem era. Heloisa.
A aventura iria começar.
...
Eduardo respirou profundamente, sentando-se na beira do monte onde no topo localizava-se o aeroporto. Abaixo dele, era possível ver o vilarejo de Santa Muerte, e mais a frente as grandes ondas chocando-se contra a areia brilhante da praia. O forte sol da tarde esquentava o lugar.
Naquele momento, esqueceu de todos os problemas, de toda a ansiedade, de tudo. Apenas sentiu o vento chocar-se contra ele.
– Isso aqui é o paraíso.
Olhou para trás, e viu que a cadeia montanhosa só crescia até finalmente chegar na maior montanha do local.
– Um vulcão extinto. – Mônica falou, sentando-se na relva ao seu lado. Do outro lado, Heloisa tinha o seu vestido verde balançado pelo vento, enquanto seu deslumbrante chapéu branco se destacava. Mônica também vestia um lindo vestido florido, e os cabelos totalmente soltos.
– Extinto mesmo? – Eduardo perguntou.
– Tudo indica que sim. Não tem relatos de erupções há muito tempo.
Eduardo pegou o colar que vestia e levou a pequena estátua à boca. Um hábito que tinha e que não perderia facilmente.
– O que foi, Edu? Parece preocupado.
– Não, relaxa. Eu só tô impressionado mesmo com essa ilha. Pensei que seria... menos linda do que é.
– Vamos ter tempo de conhecer tudo, mas nesses primeiros dias, você precisa focar no seu objetivo. Eu também.
– Quando que vai ser o evento de abertura da...?
– Animal Rescue? Amanhã mesmo, à noite. Você trouxe alguma roupa social, né? Não vai poder ir do jeito que está agora. – Mônica falou, ao prestar atenção na roupa que o rapaz usava. Uma regata vermelha, e uma bermuda azul.
– Roupa social?
– É claro, né Edu. Não me diz que você não trouxe? – Mônica bateu suas mãos na perna, mostrando impaciência com o irmão.
– Não se preocupe, eu tenho uma aqui que é perfeita pro seu irmão. – Heloisa disse, cutucando a garota.
– Tá brincando né? – Mônica se levantou, abraçando a mulher. – Heloisa, você pensou em tudo! Obrigado, obrigado mesmo!
– Que isso... O mínimo que eu poderia fazer.
– Você tá pagando até minha estadia aqui... Tem algo que eu possa fazer pra retribuir?
– Não se preocupe, querida. Não se preocupe. Pensei em tudo, pra fazer essa estadia aqui de vocês uma maravilha. Para aproveitar de fato as belezas desse lugar...
– Paradisíaco. – Eduardo falou, completando a fala da mulher. Ao se levantar, sentiu uma tontura, mas logo foi amparado pelas duas mulheres. A vertigem atacava novamente.
...
Um dia depois.
O luxuoso carro parou na porta do aeroporto e dele saíram um grupo de quatro pessoas. Isabella, sua mãe e Felipe ajudaram a descarregar as malas, enquanto mais uma pessoa, que não estava nos planos iniciais, ficou se abanando com um leque. Era Cristina, a mãe de Maurício e Vivian. Ambos eram amigos próximos de Bella, e eles se encontrariam na ilha, mas o que ninguém sabia é que eles tinham ido sem autorização dos pais.
Não que precisassem, mas Cristina não gostou nada disso. Por um golpe do destino, encontrou Bella em casa, e meio que obrigou a vir junto com a garota. Agora, ela olhava perplexa ao redor. Nunca pensou que poderia abandonar o seu lindo heliporto e ir parar num aeroporto comum, e pior, lotado de pessoas. Mas esquecera que na casa de Bella não havia heliponto, ou essas coisas.
Ela ainda não está no nosso nível.
– Pronto, filha. Acho que é isso. — A mãe de Bella disse, após ajudar a descarregar as malas. — Tenha uma ótima viagem.
Ela se aproximou da filha, e deu-lhe um abraço, mexendo nos cabelos da garota.
– Juízo hein?
– Vou ter, mãe. — Ela falou, sorrindo.
– Eu não acredito. Espero que o Felipe cuide de você, viu? — Ela riu.
– Eu vou, sim. Relaxa — Ele falou, dando um beijo na garota.
– Tô vendo mesmo... Bem, boa viagem.
Bella, Felipe e Cristina entraram no saguão do grande aeroporto, carregando várias malas.
– Felipe, acho melhor primeiro comprarmos as passagens e...
– Bella, eu preciso ir ao banheiro. É urgente. Espera ali naquela pilastra.
– Agora, Felipe? Fala sério. — Ela balançou a cabeça. — Vamos comprar primeiro e daí você vai.
– Não dá mesmo. — Felipe falou, já se distanciando e deixando as malas com Bella. — Volto em um minuto.
Cristina só observou a cena.
Bella bufou e se dirigiu ao ponto onde Felipe dissera, carregando as malas. Cristina se dispôs a ajuda-la. Logo depois, pegou o celular e colocou os fones, colocando as músicas no aleatório. Não sabia quanto tempo tinha passado até perceber que Felipe já deveria ter voltado. Uma brisa leve e gelada passou enquanto Bella tentava localizar seu namorado, até que viu ele em outra pilastra, parecendo perdido. Cristina prosseguia alheia á situação, apenas olhando as pessoas ao redor.
Não acredito. — A loira pensou.
Bella pegou as malas e correu na direção do namorado, mas um estrondo a interrompeu. Ao se virar, percebeu que suas malas tinham se chocado com as malas de um casal. Cristina ao perceber a cena, apenas balançou a cabeça, desaprovando a atitude.
– Desculpa, desculpa... Não vi as malas... Desculpa mesmo.
– Tem problema, não. — A moça falou, arrumando as malas, sendo ajudada por seu companheiro. Logo, Felipe percebeu a confusão e ao chegar, tudo já estava arrumado.
– Desculpa de novo, viu. — Bella falou, e lançou um olhar inquisidor a Felipe, como se dissesse: Pega, seu filho da mãe. Quando viu que Felipe pegara todas as malas, sorriu como se dissesse: Se fudeu.
...
A noite estava clara ao luar, enquanto um grande evento ocorria na Ilha Vermelha. O evento da Animal Rescue reunia importantes autoridades sobre o assunto, e Mônica estava lá.
Ao entrarem no grande salão, ambos ficaram boquiabertos com a proporção daquele jantar, que lançaria as bases da Animal Rescue na ilha.
Os irmãos sentaram na mesa indicada, e Mônica começou a ver alguns panfletos que estavam sobre a mesa. Eduardo olhava ao redor.
– O que foi, Edu?
– Nada... — Ele falou, se mexendo na cadeira, meio desconfortável.
– Dudu, poderia pelo menos fingir que está gostando?
– É que você sabe, Mônica, eu não me sinto bem usando estes trajes formais. E para completar, essas comidas são muito chiques. — Ele disse, olhando para o bufê.
– Agradeça à Heloisa pelo terno, se não fosse por ela... Às vezes eu acho você muito largado, sabia?
– Meu jeitinho de ser. Você não pode mudar como uma pessoa é.
– Para de fazer esses discursos pra se justificar. Você...
Nesse momento, o rapaz se desligou do que a irmã falava e olhou ao redor, justamente quando um tumulto se fazia na entrada. Eduardo tentou ver os responsáveis e viu quando uma mulher loira, juntamente de uma garota de cabelo azul e um cara que parecia ter saído de um show do Arctic Monkeys sentaram numa mesa ao lado. Eduardo jurava já ter visto ele em algum lugar, mas não se lembrava.
– Greg Kaulfuss.
– Quê?
– O nome dele, se tentava lembrar. Um youtuber famosinho.
– Ah, tá. Já vi uns vídeos dele.
Ele virou a cabeça mais uma vez e viu uma mulher ruiva andando próximo deles. Ela parou para conversar com outra mulher, que logo depois veio na direção dos irmãos. Mônica sorriu, parecendo conhecer a mesma.
– Doutora Mendel?
– Sim... Você deve ser Mônica Torres, certo?
– Sou sim. Eu falei com a senhora várias vezes...
– Estou lembrada. Bem, sem mais delongas, eu estava te procurando mesmo. Eu te elegi como minha assistente durante o período que estará na ilha.
– Sério mesmo? Obrigado, obrigado mesmo, doutora! Podemos começar já? Ai, desculpa a indiscrição, eu me animei agora.
– Tudo bem, entendo. E quem é esse rapaz aí com você?
– Me perdoa, doutora! Esse aqui é o meu irmão, Eduardo.
– Prazer, doutora.
– O prazer é todo meu. Eduardo e Mônica, então? A mãe de vocês deve ter bom gosto.
Ambos riram.
– Ele está aqui pra competição de surf que vai acontecer amanhã.
– Ah sim, boa sorte amanhã, viu?
– Obrigado doutora.
– Se não se importa, vou tirar a sua irmã um pouco de você. Espero que aproveite o evento.
...
Eduardo saiu na frente de sua irmã, assim que o elevador abriu suas portas. Mônica só ficou observando enquanto o irmão abria a porta do quarto deles, quase que desesperado. Caminhou relativamente devagar e entrou no quarto.
– Eu não aguento...
Mônica trancou a porta.
– Essas roupas!
Quando Mônica se virou, viu um sapato sendo arremessado na parede. Eduardo estava tirando toda a roupa social que fora obrigado a vestir. Quando terminou o processo, agora só vestindo uma cueca, disse:
– Assim tá melhor. Isso aqui me sufoca.
Mônica riu.
– Você não tá acostumado, bobinho. — Ela falou, enquanto pegava a roupa que Eduardo tinha jogado.
– E nem vou. — Ele se virou e saiu para a varanda do quarto. Mônica o seguiu, vendo Eduardo apoiado na grade da varanda. Quando a garota chegou, viu que o rapaz olhava para o mar aberto, que ficava bem à sua frente. Uma leve brisa balançava os cabelos da garota, enquanto refrescava o clima quente. Ela se apoiou ao seu lado.
– Tá ansioso, Dudu?
– Você não tem noção, Mô. Tô treinando pra isso já faz tempo. Apesar de ser só mais uma etapa nacional... Eu sinto que essa vai ser a etapa. Ainda vou estar nesse ambiente lindo aqui. E a água vai me ajudar.
– A água?
– Mô, eu vivo em contato com a água. Ela parece que já faz parte de mim e eu dela. Cara, não dá pra descrever...
Naquele momento, uma grande onda se chocou contra a praia e a brisa aumentou.
– Acho que eu entendo...
Mônica ficou em silêncio por um tempo, até ver Eduardo mexendo num colar que tinha, com mais uma daquelas estátuas havaianas. Dessa vez verdadeira, porque o garoto tinha comprado ela em solo havaiano.
– O que é? — Mônica perguntou. — Mais uma daquelas estátuas, como é o nome... Tikis?
– Não, não. Pelo menos não é Tiki. Esse aqui é Kanaloa. O deus dos mares, segundo a mitologia deles. — Eduardo largou o colar e olhou para o mar aberto. — O deus dos mares.
– Agora entendi porque você vive usando isso. — Ela sorriu ao mesmo tempo que ele virou-se para ela.
– Será que vai dar tudo certo amanhã?
– Se não der, você tentou, se esforçou. Mas lembra que sua fã número um sempre vai estar aqui, viu? — Mônica sorriu graciosamente.
É, ele realmente adorava aquele sorriso cativante da irmã.
...
O sol brilhava forte naquela tarde de verão. A praia estava lotada de turistas, que acompanhavam a competição. Olhos atentos em cada competidor que ousava enfrentar as ondas colossais que quebravam na areia quente.
Muitos se saíram bem, já outros tiveram diversos problemas nas ondas.
– Tá preparado, Eduardo? — Murilo perguntou, novamente em tom de desafio. — Já que a primeira vez que você chega tão perto da liderança...
– Preparado totalmente não, mas vamos nessa.
– Você é muito positivo. Como tem certeza que vai dar tudo certo?
– Eu não tenho, acabei de falar. Mas eu acredito, e isso já é um longo passo.
– Qualquer um pode acreditar, Eduardo. Mas acreditar é diferente de conseguir.
– Aí, tu vai parar com esse joguinho mental ou eu vou ter que fazer você parar?
Naquele momento, o alto falante chamou o nome de Murilo, dizendo que ele era o próximo.
– Tá bom. Desculpa aí, campeão. Boa sorte lá no mar. — Ele disse, andando na direção do local designado.
Ele bufou.
– Oi. — Mônica falou, aparecendo ao seu lado, alguns minutos depois
– Onde você tava?
– Resolvendo umas coisas com a Heloisa. — Ela se sentou na areia, junto de Eduardo. Mônica novamente passava a mão na tatuagem do rapaz.
– Gosta dela, né?
– Acho bonita. — Ela respondeu.
Murilo tinha acabado de começar a surfar, mas Eduardo não o observou e sim, olhou para o lado direito e viu uma mulher morena correndo atrás de uma crianca oriental. Também viu uma garota de cabelos curtos e castanhos junto de um loiro. Ele cerrou os olhos.
– Mônica.
– O que?
– Tá vendo aquela moça com o loiro... De cabelo curto?
– Sim.
– Acho que eu conheço ela. Sei lá, ja vi ela em algum lugar.
– Impressão sua. Nunca vi ela.
– Que estranho, eu jurava já ter visto ela. Em algum lugar do passado talvez.
– Que isso. Deve ser só um truque da sua imaginação.
Eduardo desviou os olhos e lembrou-se de tirar o colar, dando para Mônica. Logo depois, o nome dele ressoou nos altos falantes.
Era agora ou nunca.
...
Algumas horas depois.
– Não se preocupe tá? – Mônica sorriu. – Você foi ótimo, conseguiu uma ótima colocação. Inclusive você tá no top10.
– Segundo lugar. – Eduardo suspirou. – Que vontade de quebrar a cara do Murilo.
– Relaxa Dudu. – Mônica falou. Ela passou a mão sobre os cabelos negros do irmão. – Você foi lá, você conseguiu fazer o que tinha de ser feito. Além disso, vou falar a verdade. Você foi muito melhor que o Murilo, não sei onde eles acharam que ele foi melhor. Depois que você foi embora, até me perguntaram quem era você.
– Ser reconhecido, hein?
– Não só isso. Alguns me falaram que você tem muito potencial, e foi muito melhor que o Murilo, deveria ter ganhado. Não sou só eu que falo isso, mas o público. Até a Heloisa concordou.
– Mas ela foi na festinha dele, né? – Eduardo suspirou.
– Tá com ciúme da Heloisa, é? Esqueceu que ele também é da sua equipe?
– Mas isso não significa que eu tenho que aguentá-lo se gabando em cima de mim. Eu achei que ele era meu amigo e...
– Edu, desculpa, mas... Qualquer um via que ele não era seu amigo. Ele só busca bajulação... Tanto que se coloca as pessoas pra baixo. Existem várias pessoas desse tipo, entende?
Eduardo ergueu as sobrancelhas.
– Mas quem se importa de verdade comigo sempre aqui, pronta para te ajudar. E também quando você precisar de um puxão de orelha, como já aconteceu algumas vezes, né?
– Péssima hora pra lembrar do passado, Mô.
Os dois irmãos permaneceram em silêncio no quarto de hotel onde estavam, deitados lado a lado, na mesma cama. Os pássaros ainda “gritavam” do lado de fora, e a noite prosseguia clara como nos outros dias.
– Edu?
– O quê? – Ele perguntou, serenamente.
Mônica baixou a cabeça, e olhou para o rapaz. Ele também olhava para ela, e a troca de olhares durou relativo tempo. Como em uma atração magnética, os dois se aproximaram.
Você é assim
Um sonho pra mim
E quando eu não te vejo
Eu penso em você
Desde o amanhecer
Até quando eu me deito
E se beijaram. Logo depois, eles interromperam, ainda meio chocados com o que fizeram.
– Me desculpa... – Mônica falou, tentando se levantar da cama, mas Eduardo a segurou.
– Não precisa se desculpar. Fica aqui.
Ela olhou para o rapaz, que parecia implorar a presença dela. Será que o sentimento que ela nutria pelo seu irmão também era mútuo?
Mônica nunca dissera nada para Eduardo, mas desde adolescente, tinha uma grande admiração pelo garoto, que acabou se revelando como um verdadeiro amor. Ela escondia isso de todos, embora alguns movimentos que ela fazia, faziam algumas pessoas desconfiarem. Mas nunca pensara que Eduardo também pudesse nutrir o mesmo sentimento pela irmã.
– Eu... eu... – Mônica falou, ainda envergonhada.
– Por que tá assim? – Eduardo falou, sorrindo.
– Eu não deveria ter feito isso, somos irmãos e... Irmãos não fazem isso.
– Sempre existem exceções, Mônica. – Ele sorriu de novo.
Eu gosto de você
E gosto de ficar com você
Meu riso é tão feliz contigo
O meu melhor amigo
É o meu amor
– Você...?
Eduardo já suspeitava do verdadeiro sentimento que Mônica nutria por ele, e ele retribuía. Não tinha só cumplicidade entre eles, existia um sentimento mais forte, um sentimento que já pulsava no interior de Eduardo há muito tempo. Por mais que fosse amante de Heloisa, Eduardo sabia que seu coração já pertencia a outra pessoa há muito tempo. Principalmente depois do terrível passado que assolava o rapaz.
– Ninguém precisa saber, não é mesmo? – Edu falou, depois levando a mão à boca como se dissesse “silêncio”. Mônica sorriu novamente.
– Adoro seu sorriso. – Eduardo respondeu.
– E eu adoro seu jeito. – Mônica retribuiu.
E a gente canta
A gente dança
A gente não se cansa
De ser criança
A gente brinca
Na nossa velha infância
Logo, os dois se beijavam mais uma vez.
...
Edu caminhava pelo mundo dos sonhos, mais uma vez. Ele já sabia o que iria encontrar.
Tentou acordar, sem sucesso.
Ele abriu os olhos, olhando em um espelho. Tinha 16 anos novamente. Logo, no sonho começou a chorar de novo, até que uma menina chegou por trás dele. Ele se virou, e a garota não tinha face. Ela uma pequena coisa enrolada num cobertor branco, molhado de sangue e num grito, sumiu.
Ele desenrolou o cobertor, sabendo já o que iria encontrar.
Era um feto se mexendo, chorando. Totalmente envolto em sangue. Ele olhou para Eduardo uma vez, abrindo os olhos. Lágrimas saíam do rosto do garoto de 16 anos.
– Seu filho. – Uma voz etérea disse, vinda de algum lugar. Naquele momento, o feto começou a se transformar em sangue e o cobertor sumiu. Ele sentia sua pele em contato com o que viria a ser uma criança, e o sangue escorrendo por sua mão.
Ele fechou os olhos, enquanto sentia a vida daquele ser escorrer por suas mãos.
Então finalmente abriu os olhos.
Ele estava deitado na cama, suando, com Mônica deitada no seu peito. Os dois caíram no sono pouco depois daquele momento que finalmente se declararam um para o outro. Ao contrário de muitos primeiros encontros, e do que todos deveriam pensar, os dois estavam totalmente vestidos, só descansando sobre aquela cama.
Ele ligou o celular, verificando que eram 3:07, e novamente deixou o celular sobre a cômoda, coçando os olhos. Odiava ter aqueles pesadelos, mas aquilo já se tornara costume.
...
Fim da tarde de domingo.
A ilha permanecia em polvorosa, mesmo depois do grande campeonato de surf do dia anterior, porque hoje seria o tão esperado show de Lis Araújo, uma das cantoras mais famosas dos últimos tempos, que faria um show beneficente para a Animal Rescue.
E todos já se preparavam para ir ao show. Na direção contrária das estradas que levavam ao local do show, três figuras caminhavam em uma das calçadas, que levavam ao vilarejo.
– Você acha que conseguiremos ir à trilha, Heloisa? – Mônica perguntou, andando ao lado da mulher. Heloisa estava com mais um dos seus vestidos, enquanto Mônica e Eduardo se vestiam de forma mais casual.
– Veremos. Eu não sei bem a programação, então... De qualquer maneira, vamos dar uma olhada no vilarejo. Falam bastante desse lugar...
– Já falei que se tiver um esqueleto pendurado na entrada do vilarejo eu não entro, nem que me paguem. – Eduardo respondeu. – Santa Muerte... Tanto nome pra dar, tipo... Vila.
– Edu, não viaja. – Mônica respondeu.
Pouco antes de chegarem no vilarejo, viram um quiosque, onde dizia que a trilha das ruínas começava ali. Os três se dirigiram até o local, que estava praticamente vazio, com exceção de uma moça que parecia uma hippie.
– Oi. O que posso ajuda-los?
– Quando que a trilha está aberta? – Heloisa perguntou. – Queríamos ir.
Valentina olhou para o grupo que estava na frente da sua barraca. Uma mulher de 40 e poucos anos, aparentando ser bem rica; um rapaz alto que logo chamou a atenção dela, o reconhecendo como o surfista do dia anterior, e uma garota de olhos azuis como o mar. Apesar de não ser lésbica, foi inevitável o pensamento que ela era linda.
– Ah, senhora. A trilha para as ruínas só fica aberta de dia, só algumas vezes que é aberta de noite. Ontem inclusive estava. Ah, desculpe-me. Meu nome é Valentina. – Ela disse, apertando a mão de Heloisa.
– Heloisa.
– Você é a guia das trilhas aqui? – Eduardo disse, se aproximando. – Ah, meu nome é Eduardo, me desculpe. Essa aqui é a Mônica.
– Prazer em conhecê-la, Valentina. – Mônica sorriu.
– O prazer é meu, e sim... Eu sou a guia das trilhas aqui. Moro aqui faz tempo, conheço bem as lendas do local, e também o que essas florestas escondem. Hei, escutem. Querem ouvir?
– Pode ser. – Eduardo falou.
– Esperem só eu terminar de fechar o quiosque. Estou indo para o show da Lis Araújo, o povo inteiro da ilha estará lá, entende?
Alguns minutos depois, eles caminhavam novamente para a direção do local onde aconteceria o show. Valentina, Mônica e Eduardo conversavam bastante sobre os assuntos, enquanto Heloisa decidira ir ao hotel, já que não iria ao show de Lis. Estavam chegando ao grande espaço onde a cantora se apresentaria, e a noite começava a cair.
– Você sabe alguma coisa sobre a civilização antiga que viveu por aqui? – Eduardo perguntou meio curioso.
– Pouca coisa. Não sabemos quase nada sobre eles. Na trilha vocês poderão ver as ruínas que ficam no final dela. Mas até hoje não sabemos muita coisa sobre o que aquilo quer dizer...
– Então, é tudo mistério? – Mônica perguntou.
– Quase isso. Mesmo morando já faz um tempo aqui, eu tenho um pouco de medo e apreensão sobre o que todas as inscrições querem dizer.
– Que inscrições? – Eduardo perguntou, novamente.
Melhor parar de falar, Val. – A hippie pensou. Mas agora tinha começado e não poderia parar.
– Bem, no meio das ruínas existem estranhas inscrições... Como se invocassem algo... Não se assustem, por favor, mas é alguma coisa realmente estranha. Ninguém conseguiu descobrir o que realmente significa.
– Que coisa macabra. – Mônica falou.
– Concordo. – Eduardo respondeu.
– Além disso, existem locais que falam que foi palco de rituais e... Bem, vocês tem que ir pra ver. Amanhã esteja pela manhã próximo ao quiosque que verão tudo.
– Nós iremos. – Eduardo sorriu, junto com Mônica, que concordou com ele.
– Gostei de você, Val. – Mônica falou. – É realmente uma pessoa muito legal.
Naquele instante, Lis começou a cantar no palco.
Storms are coming, I feel it underneath my skin
SOS on my bedroom floor
See, I see a lighthouse even when it's still so dark out
I know I'll make it to the shore
Um grupo de jovens estava quase ao lado deles. Eduardo reconheceu alguns deles, que estavam no campeonato de surfe no dia anterior. Um pouco mais a frente, uma garota loira falava animadamente com um garoto alto. Ouviu um pouco da conversa deles, e descobriu que a garota se chamava Bella.
Perto deles, a mulher que corria atrás da criança, exibia uma face de terror e medo. Ele olhou fixamente para a mulher, junto de Valentina, enquanto Mônica ainda estava alheia a tudo. Lágrimas caíam da face dela, e então agarrou o braço de uma das jovens.
– Temos que sair daqui. – Ela falou.
– O quê? – A jovem garota falou.
– O vulcão.
Eduardo e Valentina se entreolharam.
Naquele momento, um tremor foi ouvido, e Lis interrompeu sua canção. Logo tudo começou a tremer, e Mônica se virou para Edu.
– O que... Que...
– Eu não sei. – Eduardo começou a olhar ao redor, até olhar para o grande vulcão no alto. – Merda.
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