Premonição 8: Condenados
6 Arco-Íris
Notas iniciais
Na maca da enfermaria, Anna dormia de maneira tranquila após ser medicada. A enfermeira já fora embora fazia alguns minutos, e apenas o grupo de amigos continuava ali. Todos eles estavam em silêncio.
Daniel também dormia tranquilamente em um pequeno sofá ao lado da garota, segurando a mão esquerda dela de maneira delicada. Phillip estava ao lado do amigo, sentado no chão e com uma expressão de tédio e melancolia em seu rosto. Laura estava do outro lado da cama, encostada na parede e olhando para o andar inferior, do lado de fora. A loira virou-se na direção de Ben, encostado na parede de frente a ela, e percebeu que o ruivo mexia de maneira distraída no boneco de Djinn que pertencia a Daniel. Tremeu.
Por fim, Courtney e Simon estavam sentados em outro sofá que ficava no cômodo. A garota tinha a cabeça encostada no peito do amigo e os olhos completamente vermelhos.
O silêncio era sepulcral.
Foi quando a loira se levantou. Simon estranhou a atitude da amiga, mas nada fez. Ficou apenas observando-a de maneira curiosa.
— Gente? — Courtney começou, e todos se viraram em sua direção. — Eu quero contar uma coisa pra todos vocês. Eu tinha falado só pro Joe, mas... — E então a garota sentiu um nó na garganta, mas rapidamente se recompôs. — Vocês são meus amigos. Mais do que nunca eu preciso do apoio de vocês.
Todos continuaram em silêncio. Foi Ben quem falou, aproximando-se da amiga:
— Pode falar Court. A gente tá aqui pra te ajudar.
A garota agradeceu o amigo e então olhou para Anna dormindo em cima da maca e depois para Daniel dormindo no sofá.
— Não contem pra eles, por favor. Eu quero pensar em um jeito de melhor de contar isso pra Anna e pro Daniel, mas eu não posso guardar pra mim. — Os amigos continuaram com a mesma expressão de confusão. — Eu tenho HIV.
Phillip não conseguiu esconder sua expressão de surpresa. Ele então imediatamente abaixou a cabeça, ciente de como sua reação poderia magoar a amiga. Courtney continuou:
— Eu contraí o vírus do Pierre, aquele meu ex-namorado. Vocês se lembram dele? — Simon e Ben menearam a cabeça positivamente.
— Mas... — Simon começou, mas então não soube como continuar. Ele ainda estava atordoado com aquela informação. — Você tá bem? Quero dizer... Você está indo ao médico e tudo mais?
Courtney concordou com um aceno.
— Eu descobri faz só alguns dias. Eu tenho vários exames marcados pras próximas semanas e tudo mais. — E não soube mais o que dizer. — Mas eu suponho que agora esse seja o menor dos meus problemas. — E então sentiu sua voz ficando embargada. Iria chorar, tinha certeza, mas não queria fazer aquilo novamente na frente dos amigos.
Levantou-se e abriu a porta num rompante, seguindo para fora aos prantos. Simon fez menção de segui-la, mas Ben então tocou delicadamente o braço enfaixado do amigo.
— Deixa ela, cara. Ela precisa de um tempo sozinho. Quando ela precisar de nós, vai dar os sinais corretos. — O outro rapaz olhou nos olhos do ruivo e concordou com a cabeça. — Nós dois sabemos disso, não é?
Ele sabe, Simon soube naquele exato momento. Ele sabe que eu amei o irmão dele. Ele sabe e não se importa.
O abraço pareceu o caminho natural. Simon apertou forte o corpo de Ben contra o seu, sentindo a batida do coração do amigo em seu próprio peito. Por alguns segundos, ao ver de relance os cabelos alaranjados em seu ombro, pensou em Trevor.
— Obrigado. — Foi tudo o que conseguiu dizer, entre murmúrios.
x-x-x-x-x
Era noite. Daniel dirigia com rapidez, fazendo os prédios do seu lado direito se tornarem apenas vultos. Em sua cabeça ainda passavam imagens de Big J deitado no campo, completamente inerte e com os olhos abertos. Ele estava morto. Estava morto e não voltaria nunca mais.
Daniel sentiu a visão ficando embaçada com as lágrimas. Teve de parar o carro no acostamento para limpá-las, mas não sem antes deixar que muitas outras caíssem em sua calça jeans. Doía de maneira forte, mais do que havia doído a morte de Michelle. Daniel sentia-se preso em um pesadelo, em que, dia após dia, assistia a morte de todos os seus amigos sem que pudesse fazer para impedir que aquilo acontecesse. Trevor, Michelle e Big J estavam mortos. Até mesmo Kia, com quem ele teve apenas um breve contato. Daniel sentia a falta de todos e cada um deles, em especial Big J.
Os dois eram amigos desde a pré-adolescência. O gigante loiro, inclusive, sabia diversos segredos sobre Daniel que ele jamais havia contado para mais ninguém. Levando em conta que ambos eram rapazes, e que rapazes não costumam dividir segredos, aquela amizade era ainda mais preciosa. Daniel tinha certeza absoluta de que jamais encontraria um amigo tão bom quanto Big J.
Abaixou a cabeça e voltou a chorar silenciosamente.
O boneco do Djinn estava preso no espelho do carro.
Daniel ergueu o rosto e observou seu reflexo no espelho. Seus olhos estavam bastante vermelhos, de modo que sua íris da cor de índigo se destacava ainda mais. O rapaz ajeitou o cabelo bagunçado e respirou fundo. Quando sentiu que estava preparado, deu novamente a partida no carro.
O relógio do rádio indicava que era mais de meia-noite. A música que tocava provinha do pendrive de Daniel.
Pushed around and kicked around
Always a lonely boy
You were the one
That they'd talk about around town
As they put you down
Bronski Beat. Ele gostava daquela melodia e gostava em especial daquela letra. Fora Simon quem lhe apresentara a banda, e Daniel imediatamente se apaixonara por ela. Por algum motivo sentia-se... Compreendido. De uma forma que quase ninguém conseguia compreendê-lo. Anna e Big J se esforçavam, era verdade, mas devia ser difícil para eles. Nem mesmo o rapaz tinha certeza do que se tratava.
Cantarolou:
Run away, turn away, run away, turn away, run away
Run away, turn away, run away, turn away, run away
A boate “Broke!” ficava há poucos quilômetros de onde ele estava. Pelo mapa de seu GPS, Daniel percebeu que estava bem próximo de seu destino final. Não sabia direito o que procurava ali, mas tinha esperanças de conseguir encontrar Detox, já que, segundo o tumblr oficial da drag queen, ela trabalhava como performer no local. Fazia shows todas as noites, de modo que não tinha como ele errar a data.
Detox havia dito, durante um dos episódios de RuPaul’s Drag Race, algo que tocara Daniel profundamente. Ele não lembrava das palavras exatas dela, mas tinha a ver com sentir-se aceito do jeito que era e em como fora difícil para ela conseguir ficar em paz consigo mesma.
Daniel não era gay, disso tinha certeza. Já havia ficado com garotos em duas ocasiões e sabia que definitivamente não era atraído por eles. Também tinha certeza absoluta de que estava confortável com seu corpo e com seu sexo. Gostava de ser um garoto e sentia-se como um garoto. Mas ao mesmo tempo via-se fascinado por aquelas artistas. Com suas perucas coloridas, maquiagem exagerada e impecável senso de humor. Qualquer que fosse seu problema, era provável que Detox pudesse ajudá-lo a descobrir.
Cry, boy, cry...
O rapaz estacionou o carro em frente ao enorme letreiro cor de rosa em que se lia o nome da boate. Logo na entrada trombou com um homem que ele conhecia através de fotos do tumblr de Detox. É o Julian Nowak. Ele é o dono da Broke!
Julian não pareceria ter mais do que trinta anos, e cumprimentou Daniel com um aceno de cabeça quando passou por ele. O rapaz retribuiu o gesto e passou seus dados para a hostess, que rapidamente lhe entregou uma comanda. Ele levou sorte, já que não havia fila nenhuma ali.
Apesar disso, o interior da boate estava em polvorosa. Havia muitas pessoas, mais do que ele imaginara pelas fotos. A maioria delas dançava e pulava de maneira animada. Daniel se aproximou do bar e pediu uma piña colada sem álcool, já que teria de voltar para casa dirigindo. Enquanto o bartender preparava a bebida, Daniel foi surpreendido pela presença da própria Detox.
Ela sentou-se ao lado dele e pediu um drink qualquer que Daniel não conhecia. Distraía-se de olhos fechados e dublando a música que tocava ao fundo. O rapaz estava tão fascinado pela presença da drag queen que nem mesmo prestou atenção no que estava tocando.
— Detox? — Ele perguntou, de maneira tímida.
A drag olhou para Daniel de soslaio, e então abriu um sorriso.
— Sim? — Ela falou, inclinando a cabeça.
Daniel não conseguiu conter a empolgação em sua voz:
— Eu sou um grande fã seu. Eu assisti a sua temporada umas quinze vezes já, e sempre fico triste no episódio em que você é eliminada. Na minha opinião foi uma grande injustiça.
Detox sorriu com o elogio do rapaz.
— Obrigada! Você é um fofo...?
— Daniel. Daniel Clark.
— Clark. — Ela assentiu. — Que sobrenome chique. E o seu primeiro nome é lindo. Daniel. Daniela. Daria um belo nome de drag.
Estranhamente Daniel sentiu-se eufórico ao ouvir aquilo.
— Você acha?
— É claro! — Detox confirmou, acenando com a cabeça. Naquele momento os dois drinks chegaram. O de Daniel vinha em uma taça um pouco grande, enquanto o da drag vinha em um pequeno copo e tinha uma coloração anil bastante brilhante. — Você já se vestiu em drag?
O rapaz meneou a cabeça negativamente.
— Eu sou hétero, daí é complicado. Ninguém entende muito, sabe? Acho que as coisas seriam mais fáceis se eu fosse gay.
A gargalhada de Detox foi alta.
— Essa é a primeira vez na vida que eu vejo alguém dizendo que a vida seria mais fácil se fosse gay. Daniel, você é uma figura! — E diante da expressão de confusão do rapaz, ela continuou: — Mas você sabe... Danem-se eles. Você não precisa ser o que querem que você seja. Você não precisa se encaixar em molde. Você pode ser o que quiser, e pode ser várias coisas ao mesmo tempo. Você pode ser heterossexual e ainda sim ser a drag queen com os olhos mais lindos dessa boate. Uma coisa não impede a outra.
Ouvir aquela fase foi a melhor coisa que acontecera a Daniel em muito, muito tempo.
Eu... Posso?
Mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, Detox já o puxava pela mão.
— Vem, vamos. Essa noite nascerá Daniela Indigo!
O rapaz abriu um largo sorriso. Estava subindo as escadas em direção ao camarim de Detox, quando esbarrou em uma garota loira encostada na parede e aos beijos com outra de cabelos vermelhos.
— Desculpa, eu...
E então a garota se virou e Daniel a reconheceu.
— Laura?!
Detox voltou a descer os degraus que havia subido e surpreendeu-se com aquilo.
— Laura, sua piranha! Por que você não me falou que estaria aqui?
A atriz caiu na gargalhada, se despedindo da garota ruiva. Aproximou-se da drag queen e lhe deu um abraço, fazendo o mesmo com Daniel, que ainda estava um pouco surpreso.
— Foi uma decisão de última hora, Dee. Aconteceu uma coisa horrível lá na universidade onde eu estou hospedada e eu quis espairecer a cabeça. A boate mais próxima de lá é a Scandals, mas aquele lugar é uma porcaria, então eu peguei um táxi até aqui.
Daniel sorriu ao ouvir aquilo. Falou:
— Se eu soubesse que você viria eu tinha te dado uma carona.
A loira concordou com um aceno de cabeça. Justificou-se:
— Ah, eu sei, mas eu não quis falar nada. Quero dizer, eu tinha medo de parecer insensível, sabe? Um amigo de vocês acabou de morrer e eu vim pra uma boate... — E então ela percebeu que, indiretamente, estava ofendendo Daniel e calou-se. Tentou consertar: — Mas as pessoas lidam de formas diferentes com essas coisas. Algumas, como nós, precisam distrair e espairecer a cabeça. E não há nada de errado com isso.
O rapaz sorriu diante daquela frase da atriz. Detox também concordou, meneando positivamente a cabeça. Disse:
— Bom, já que você está aqui... Quer ajudar na transformação do Daniel aqui?
Daniel congelou diante daquela frase. Oh, não, a Laura vai ficar sabendo! Mas então teve um estalo. Fazia realmente alguma diferença? Além do fato de que a atriz não parecia ser do tipo que contaria aquele tipo de coisa, ainda havia o atenuante de que seus próprios amigos achariam aquilo... Bobo. Bobo e óbvio. Nenhum deles o rejeitaria. Especialmente o Big J. Ele seria o que mais me apoiaria, eu tenho certeza absoluta.
— Transformação? Você quer dizer... Colocá-lo em drag? — A loira disse, e seus olhos brilharam diante daquela possibilidade.
— Exatamente! — Detox confirmou. — O que me diz?
— Só se for agora! — Laura confirmou, dando pulinhos. A atriz então começou a subir as escadas puxando Daniel pelo braço.
As gargalhadas do rapaz foram altas e sinceras. Detox veio atrás, correndo e também bastante animada.
Por alguns instantes, Daniel se sentiu feliz. Sentiu que conseguiria suportar todas as adversidades que estavam acontecendo em sua vida. Teria uma vida boa e longa, e se lembraria de Big J para sempre. Eu sei que você está cuidando de mim aí de cima, grandão.
Aquele pensamento o reconfortou como nada mais seria capaz.
x-x-x-x-x
Anna acordou em prantos.
Não se lembrava de como tinha chego em seu quarto, mas estava ali. Deitada, de pijamas e segura. Olhou para o lado e viu a cama de Courtney desarrumada e vazia. Sentou-se na cama e chorou por vários e incontáveis minutos.
Doía de maneira forte. Era como se ela estivesse prestes a ganhar um presente pelo qual esperara durante a sua vida toda, e então ele fosse subitamente tirado das mãos dela. Com a diferença de que o presente, no caso, era uma das pessoas que ela mais admirava e amava no mundo. Doía como jamais doera em toda a sua vida.
A garota olhou para a tela de seu celular e percebeu que era seis e meia da manhã. Ela tinha meia-hora antes de sair para visitar a Casa de Repouso onde Ethan morava.
Não havia dúvidas na cabeça de Anna de que ela deveria ir. A morte de Big J, aliás, tornava a situação dela e dos amigos ainda mais urgente. Não podia ser coincidência. Trevor, Michelle, Kia, Big J. Quatro mortos em poucos dias. A visão que ela tivera no carro, e então no ônibus e... Ethan. A visão que ela tivera dele, em especial. Tudo aquilo tinha de ter um significado maior. Por algum motivo eles estavam amaldiçoados.
Anna só desejava, porém, ter descoberto as respostas antes de Big J morrer. Tudo poderia ter sido diferente se ela tivesse se apressado um pouco mais. Poderia tê-lo salvado, não poderia? Era difícil saber.
Abriu o guarda-roupas e jogou a roupa em cima da cama. Sentia-se incrivelmente estúpida por aquilo, mas sabia que era o mais certo a se fazer.
A camisa era branca e fechada até o pescoço. Havia também um vestido azul xadrez e um par de meias brancas. A fantasia era completada por dois sapatos de salto baixo vermelhos e duas fitas azuis para amarrar os cabelos. Dorothy. Eu vou visitar o Ethan fantasiada de Dorothy de “O Mágico de Oz”.
Imaginou que aquilo fosse agradá-lo. Sabia que ele era fã do filme, e sabia como uma Casa de Repouso poderia ser um lugar solitário. Apesar das circunstâncias, Anna queria que Ethan se alegrasse com sua visita. Não conseguiu pensar em melhor maneira de fazer isso que não fosse lembrando-lhe de algo que amava.
As duas batidas na porta despertaram sua atenção.
— Anna? — Ela ouviu, e seguiu até o local.
Abriu a porta e viu Phillip. O rapaz usava um moletom cinza e uma calça jeans surrada. Ele parecia bastante melancólico, com os olhos levemente vermelhos e a expressão cansada.
— Oh, você realmente já está acordada! Quando a enfermeira falou que o efeito dos remédios acabaria por esse horário eu não acreditei, já que os remédios que eu tomo geralmente... — E então se calou, sentindo-se sem fôlego. Pensou em continuar sua fala, mas a expressão de conformismo no rosto de Anna o desestimulou.
Ela então pediu que ele entrasse, e o rapaz assim o fez. Notou imediatamente a fantasia de Dorothy em cima da cama, e ficou curioso por isso. Queria perguntar à garota sobre aquilo imediatamente, mas sentiu que seria rude. Tentou começar:
— Você está bem, Anna? Quero dizer... Na medida do possível.
A garota meneou a cabeça positivamente.
— Você já sabe quando vai ser o velório? — Ela perguntou à queima-roupa.
Phillip arregalou os olhos, surpreso com aquela pergunta.
— Amanhã. — E diante do aceno de cabeça de Anna, continuou: — Não vai ser naquela catedral de sempre. — Explicou, como se aquilo fosse extremamente relevante. — Os pais do Big J e da Courtney são mórmons, então a cerimônia vai ser em outra igreja. A Court disse que eles vão alugar um ônibus pra levar a galera aqui do college, porque além da gente tem todo o pessoal do time e tudo mais...
Anna concordou com a cabeça, compreendendo a situação.
Phillip então, subitamente, a abraçou.
Ele...
Aquilo confundiu a cabeça da garota, já que não parecia ser uma reação que Phillip normalmente teria. Anna não o culpava, sabia que fazia parte da personalidade dos aspies. Mas, por algum motivo, ele estava a abraçando. Estava sendo... Vulnerável. Vulnerável e gentil.
Anna retribuiu o gesto e ficou abraçada com Phillip por vários segundos.
E então se decidiu.
— Phillip, tem uma coisa que eu preciso te contar.
Suspirou e começou a falar. Sobre suas suspeitas, sobre suas visões, sobre Ethan.
A expressão no rosto de Phillip ao terminar de ouvir a história era de mais completo choque.
x-x-x-x-x
O notebook de Trevor foi deixado na porta do quarto de Simon.
Quando o rapaz acordou e abriu a porta, tropeçou no objeto. Abaixou-se e o pegou, voltando a entrar no quarto. Do lado de fora, os irmãos da Pi Chi faziam o maior alvoroço.
Haveria, naquela noite, uma festa de fraternidades. O motivo era bem estranho para Simon, mas fazia sentido, de certa forma. O campus estava recebendo uma palestra ministrada por um grupo de estudantes de uma universidade fora do estado. Eles eram todos sobreviventes de um killing spree acontecido três anos antes, em 2011. Na ocasião, Dylan Harris, um estudante introspectivo e religioso, iniciou um massacre contra os outros estudantes. Ele assassinou dezenas deles, em seguida suicidando-se com um tiro na cabeça. A tragédia era considerada o segundo maior caso de assassinato em massa em uma universidade nos Estados Unidos, perdendo apenas para o Massacre de Virgínia Tech, sendo ainda mais violento que o Massacre de Columbine.
A tragédia ficou popularmente conhecida como “O Massacre da Babilônia”, e os estudantes decidiram então realizar palestras pelo país conscientizando os outros estudantes a respeito de assuntos como bullying e como identificar e conter comportamentos violentos e que gerassem ostracismo por parte de outros. Simon lembrava-se do nome de dois deles, já que ele fora junto dos irmãos da Pi Chi convidá-los para a festa que seria realizada em decorrência de sua visita. O tal Angel parecia meio mal humorado, mas a garota, Kelsey, fora gentil pelos dois.
O convite da festa estava em cima da escrivaninha de Simon. O rapaz jogou-o em cima da cama e colocou o notebook de Trevor no lugar. Ele então o ligou na tomada, supondo que ele deveria estar sem bateria.
Quando abriu o aparelho, viu que havia um post it colado na tela. Estava escrito:
É melhor você ficar com isso. Meus pais podem encontrar coisas que iriam magoá-los.
Ben
Simon entendeu perfeitamente o que o rapaz queria dizer com aquilo. Mais: entendeu também porque ele havia deixado o notebook ali ao invés de entregar diretamente em suas mãos. Ben não estava pronto para falar sobre aquilo, e provavelmente jamais estaria. Simon entendia o amigo e o admirava apesar de tudo.
Perder Trevor e Michelle havia tornado todos eles bastante próximos. A morte de Big J faria esse sentimento de carinho mútuo se estreitar ainda mais, Simon tinha certeza. Eles tinham apenas uns aos outros.
O rapaz ligou o notebook. Percebeu que havia conexão com a internet, de modo que decidiu acessá-la. Ao abrir o navegador, deu de cara com a página do Facebook de Trevor. Havia mais de duzentas notificações, e Simon não precisou abrir todas elas para saber do que se tratava. São condolências. São mensagens de apoio aos pais dele.
Abriu a linha do tempo do ruivo e então clicou na aba de fotos. Ficou vários minutos navegando por elas, lembrando-se de Trevor. Ele parecia tão feliz ali, em todas aquelas circunstâncias. Fosse na praia com Ben, quando tinha quatorze anos, fosse nas festas de fraternidade da Pi Chi. Simon sentiu um nó na garganta, e então voltou para a home.
Abriu o chat e percebeu que a última pessoa com quem Trevor havia conversado fora Pierre. Estranhou aquilo, já que era a segunda vez que ele encontrava uma menção ao ex-namorado de Courtney. Não podia ser apenas uma coincidência.
Não resistiu à tentação de abrir a conversa. A última mensagem datava de dois dias antes da viagem à Oahu. Estava escrito:
Boa viagem, lindo. Nos vemos quando voltar?
Ao que Trevor havia respondido:
Com certeza. Eu já estou com saudades.
Simon sentiu seu coração em pedaços.
Dominado pela adrenalina, voltou toda a conversa, até o seu início, e pôs-se a ler. Lia com rapidez, com furor, com raiva. Demorou mais de meia-hora, e o conteúdo das mensagens o destruía cada vez mais. Ao terminar de ler tudo o que estava escrito, tinha a certeza de uma coisa.
Trevor e Pierre tinham um caso. Mais do que isso: eles tinham um caso há mais tempo do que o ruivo e Simon estavam juntos.
O rapaz fechou o notebook e caiu de bruços na cama. Tremia. Colocou a cabeça no travesseiro e sentiu-se a pior pessoa do mundo. Queria odiar Trevor, mas não podia. Queria ter raiva dele, queria esbofeteá-lo, queria que ele explicasse... Queria muito, mas sabia que nada daquilo aconteceria. Trevor estava morto. Não importava. Ele o traíra e o enganara, mas nada disso mudava o fato de que ele estava a sete palmos abaixo da terra.
E então o pior pensamento de toda a sua vida tomou conta de sua cabeça.
A Courtney falou que ela contraiu HIV do Pierre. Não. Não pode ser. O Trevor não seria... Mas então se sentiu incrivelmente estúpido. Claro que seria. Nós não usávamos camisinha. Por que ele usaria com o Pierre? Puta que pariu.
Simon tremia. Sua cabeça girava, indo de um pensamento para o outro sem conseguir se focar em nada. As coisas estavam acontecendo muito rápido e com muita intensidade. As tragédias... Elas pareciam não ter fim. E quando Simon pensou que o pior já havia passado, aquilo.
Pegou o celular e digitou o número do seu convênio de saúde. Conseguiu marcar um exame de sangue para o dia seguinte, embora não tivesse ideia de quanto tempo os resultados demorariam para chegar.
Sabia, porém, que os dias que viriam seriam os piores de toda a sua vida.
x-x-x-x-x
Quando Anna estacionou o Impala do lado de fora da Casa de Repouso Carpenter, Phillip pareceu despertar. Daquela vez, porém, ela sabia que não havia sido premeditado, já que ele desconhecia o caminho.
— Acorda, Simba. — Ela brincou, cutucando-o.
Phillip espreguiçou-se e bocejou. Ele estava vestido com uma fantasia de leão e tinha o nariz pintado de preto, como se fosse o seu focinho. A ideia fora de Anna. Ela conseguira pegar a fantasia emprestada com um amigo do curso de Teatro, prometendo que devolveria à noite. A ideia era que o rapaz também participasse do plano dela com relação a Ethan, já que o Leão Covarde era um importante personagem de “O Mágico de Oz”.
Anna desceu do carro e Phillip fez o mesmo, ambos fechando as portas. A garota então seguiu na frente, alisando o vestido azul. A Casa de Repouso parecia uma construção velha de dois andares, mas era bastante bonita e aconchegante. Todas as janelas do andar superior e inferior estavam abertas, de modo que o sol entrava nos cômodos em que estavam os moradores dali. Do lado de fora havia grama, flores e árvores por todos os lados.
Ao chegar à recepção, Anna notou a presença de uma garota negra bastante bonita lendo um livro em cuja capa estava escrito “Esther”.
— Ah, oi... Você é a Janet? — Ela disse, um pouco tímida.
A garota na recepção ergueu o rosto e sorriu ao ver Anna e Phillip fantasiados.
— Sou sim. Você é a... — E então Janet abriu um caderninho que tinha à sua frente. — Anna. Anna Hill. Isso?
Anna meneou a cabeça positivamente, concordando.
— Esse aqui é o meu amigo Phillip. Eu espero que não tenha problema eu tê-lo trazido comigo.
Janet meneou a cabeça negativamente, sorrindo.
— Oh, não. Não tem problema algum. — E então ficou alguns segundos em silêncio, pensando. — Oh, sim! Eu conversei com o seu Ethan a respeito da visita de vocês, e eu acho que ele compreendeu a situação, porque pareceu alegre com a perspectiva de ver alguém. Ele não tem mais ninguém nesse mundo, sabem? — Janet falou, parecendo melancólica. — Os dois filhos que teve já estão mortos há algum tempo, e eu não sei de nenhuma esposa. Eu acho que ele mencionou netos uma vez, mas não tenho certeza.
Anna meneou a cabeça positivamente, demonstrando que entendia a situação. Phillip não fez nada, apenas continuou parado olhando para todos os lados.
— Bom, vocês podem se sentar ali. — Janet disse, apontando para um sofá marrom que ficava na recepção. — Eu vou ver se o Ethan está acordado.
— Muito obrigada, Janet. — Anna agradeceu, tentando sorrir.
A outra garota concordou com a cabeça e virou um dos corredores da instituição em direção à escadaria que dava ao segundo andar, onde devia ficar o quarto de Ethan. Anna percebeu que ao fim daquele corredor havia uma porta de vidro que estava aberta e dava em direção a outro jardim, em que havia diversos bancos e mesas de xadrez. A garota levantou-se e tentou observar o local com mais detalhes, conseguindo perceber uma mulher de branco sentada ao lado de uma idosa de vestido rosa.
— Esse lugar parece acolhedor. — Phillip comentou de maneira displicente. — Não é como eu imagino Casas de Repouso quando ouço o nome. É agradável.
Anna concordava com aquilo. Se um dia eu tiver o privilégio de ficar bem velhinha e não tiver ninguém pra cuidar de mim, eu quero vir para um lugar desses, pensou. Apesar disso, cada vez mais sentia que aquele dia jamais chegaria. O dia em que ficaria mais sábia e lenta, o dia em que seus cabelos se tornariam brancos como a neve... Pensar naquilo lhe deixava com vontade de chorar, de modo que tentou afastar aqueles pensamentos.
Não teve tempo de pensar em qualquer outra coisa, já que Janet já aparecia, empurrando uma cadeira de rodas em direção ao jardim dos fundos. Sentado na cadeira estava ele. Vestido de maneira bastante pomposa, com uma calça social marrom, sapatos lustrosos nos pés, colete de lã e gravata borboleta. Em sua cabeça Ethan tinha uma boina vermelha com um broche preso a ela. Usava óculos de armações grossas e tinha uma expressão gentil em seu rosto.
Mas os seus olhos... Eles eram os mesmos. Os mesmos que Anna havia visto no reflexo do vidro, em sua visão. Era ele. O homem com o qual ela sonhara estava ali à sua frente, vivo, ao seu alcance.
Quando o velhinho pôs os olhos em Anna, seus olhos brilharam. Ele retirou os óculos com um movimento solene e trêmulo, e a garota viu quando seus olhos se encheram de lágrimas. Ethan as enxugou rapidamente, tentando esconder aquele sinal de fraqueza. Ele então sorriu e balbuciou:
— Dorothy... Eu estive esperando por você todos esses anos...
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