Premonição 4: Noites de Terror
8 Formatura
Notas iniciais
— A tal Juliet do livro? Ela está viva? — Pam disse, parecendo incrédula. — Ela deve ter mais de cem anos, se isso for verdade!
— Foi o que o Petit disse. Ele falou que também viu o mesmo livro que você. Que ele encontrou a Juliet e ela lhe disse como salvar-se.
Tommy estava irritado com o rumo que a conversa estava tomando.
— Então por que ele não nos contou sobre Juliet no começo? Melhor: por que ele não desembucha logo o método que utilizou para escapar da lista?
Charlene mantinha-se quieta, apenas observando e ouvindo. Mas diante daquele comentário, decidiu que deveria falar:
— Por que o que ele fez provavelmente é contra a lei.
— Você está insinuando que... — Adrian começou.
— Que Petit matou alguém? Estou. Eu ouvi as teorias de vocês, de que uma vida tem de ser dada por outra vida. Quão inteligente precisa ser para deduzir que isso é um eufemismo para assassinato? É isso ou salvar-se sozinho. Se Petit tivesse escapado atrás do primeiro método, por que esconder? Ele matou alguém.
A garota estava irritada. Temia por Tommy, temia por si mesma.
— Mas se nós já sabemos que o método é esse, então por que encontrarmos a Juliet? — Pam perguntou.
— Nós não sabemos. — Adrian respondeu. — É uma teoria. Só a Juliet vai poder nos dizer se ela procede ou não.
— E se proceder? Nós matamos alguém? É um beco sem saída... — Tommy resmungou.
Houve um silêncio na sala. Nenhum dos quatro disse nada.
— Existe também o método de forçarmos a lista a se quebrar, matando alguém fora da ordem. — Adrian arriscou.
— De novo: assassinato. Alguém sabe de algum método lícito para escapar dessa maldita lista?
Pam pôs-se então a pensar. Para ela só havia uma saída:
— Nós temos que nos vigiar. Prestar atenção aos sinais, e então nos salvarmos. Uma quase morte, como o afogamento da Juliet. Essa é a saída.
— Mas se nós salvamos uns aos outros, continuamos nesse ciclo sem fim para sempre! — Tommy falou.
— Não isso. — Pam começou. — Quando percebermos que alguém está prestes a morrer, nós não devemos interferir.
Todos a olharam com espanto.
— O que quero dizer é que nós devemos avisar a pessoa, para que ela se salve sozinha e seja retirada da lista para sempre.
— Isso é plano de suicida... — Tommy resmungou.
— É isso ou assassinato. — Pam foi pragmática, e isso ofendeu o rapaz levemente.
Os quatro estavam na sala da casa de Tommy. Os pais dele haviam saído, e o quarteto reuniu-se para tentar descobrir maneiras de deter a morte. Wade não quisera comparecer: ainda estava desanimado e depressivo demais para fazer qualquer coisa.
Uma parte de Charlene queria continuar a ajudá-lo, para que ele não cometesse nenhuma bobagem. Mas outra parte só conseguia pensar: se ele conseguir se matar com algo fatal, algo impossível de ser detido, então nós estamos salvos. Não é a hora de ele morrer. E ele parecia disposto a ir. Se Wade realmente tivesse culhões para tentar de novo...
Era um pensamento cruel e egoísta, e Charlene sabia disso. Mas era a vida dela que estava em jogo. Era vida de Tommy, o amor da sua vida. Ele queria viver, enquanto Wade tentara se matar. Para ela parecia justo que o elfo morresse para que Tommy vivesse. E pensar que o primeiro, o suicida, estava temporariamente salvo, enquanto seu namorado lutava com todas as suas forças para viver.
Charlene tinha quase vontade de ir ela mesma até a casa de Wade e pregar-lhe uma facada na testa. Poderia ir para a cadeia, mas tudo teria um fim. Ela salvaria seu irmão, seu namorado, e Pam.
E eu mesma. E o pensamento subitamente pareceu-lhe correto.
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Petit havia desaparecido. Adrian sabia onde ele morava, mas ao chegar lá encontrou apenas a casa vazia. O rapaz morava sozinho, e estava se mudando para uma universidade fora do estado. Não chegara a mencionar onde ela ficava, então Adrian não sabia como encontrá-lo.
Ele realmente fez. O Petit matou alguém. Só isso explica ele ter fugido após nos contar sobre a Juliet...
Apesar de a ideia de Petit ser um assassino enojar Adrian, ele não podia odiar o rapaz. Apesar dos pesares, Petit alertara-o desse método. Ele deixara claro que existia uma alternativa, para quem tivesse a coragem necessária. E quem poderia garantir que ele mesmo não faria o mesmo se fosse colocado em uma situação limite? Valorizava a vida o suficiente para preferir matar a morrer. Mas a coragem...
Eu não tenho. O Tommy muito menos. Por Pam eu não colocaria a minha mão no fogo, menos ainda por Wade. Mas e Charlene? Dias antes Adrian diria que não existia essa possibilidade, mas a irmã estava mudada. Parecia mais desiludida e sofrida. E o rapaz a entendia. Ela estava encarando a possibilidade de perder Tommy, alguém que amava muito. Adrian havia perdido Sissy, então ele poderia compreender tudo pelo que a irmã estava passando. Ela está desesperada. E pessoas desesperadas em situações limite tomam decisões extremas.
Não valia a pena ficar pensando naquilo. Adrian recostou-se no travesseiro e tentou dormir.
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O dia da formatura dos alunos da Voorhees-Myers Highschool chegou rápido e para a maioria deles foi um alívio.
Era visível que a morte de Sissy, semanas antes, tinha deixado a todos traumatizados. O diretor não teve como reiniciar as aulas após o desastre no baile de formatura, e todas as provas e testes foram cancelados. Eles foram pouco prejudicados, tendo em vista que o ano letivo estava praticamente no fim. A maioria dos alunos já se divertia com a possibilidade de esquecer tudo o que haviam presenciado quando fossem para a universidade. Era todo um novo mundo que se abria para os formandos. Eles estavam, acima de qualquer coisa, felizes.
Tommy não era um desses. Ele havia sido aceito em quatro universidades, todas elas muito boas. Teria a possibilidade de escolher qualquer uma para estudar. Mas eu vou morrer antes. Não tem jeito.
Chegava a ser melancólica a maneira como ele se comportara desde o dia do baile. Tommy estava apavorado, e reagira a isso com uma tristeza que partia mesmo o coração de Adrian, que não nutria qualquer simpatia pelo cunhado. É diferente quando você sabe que alguém terá de morrer antes de você. É mais fácil. Com Tommy isso já não acontecia mais, ele sabia que era o próximo, e não havia nada que pudesse ser feito.
Roman e Jocelyn chegaram depois dos filhos. Os alunos estavam todos sentados nas primeiras fileiras, usando as habituais togas pretas. A maior parte deles estava empolgada com a cerimônia, e até mesmo Wade parecia ser um deles, acompanhado de seu pai e de sua mãe. Mas Tommy, Charlene, Adrian e Pam, não. Os gêmeos fingiam alegria para os pais, mas a verdade era que estavam dilacerados por dentro. Não tinham ideia do que fariam. Parecia fútil matricular-se numa universidade tendo os dias de vida contados.
— Você está bem, amor? – Charlene perguntou, tocando o braço de Tommy.
Os pelos dele arrepiaram-se, e o rapaz tremeu.
— Não. Eu estou em pânico.
— Não fique. Você está perto de nós. O Jesse, a Trish, a Tiffany, o Ricky... Eles não foram salvos porque não estavam perto do Adrian quando ele teve o sinal das mortes. Você está.
— E quanto à Sissy? Ele estava do lado dela quando ela foi cozinhada viva.
Charlene não tinha respostas para aquela fala do namorado.
— Fica calmo. Nós vamos nos encontrar com aquela Juliet amanhã. Ela tem que saber alguma coisa. Algum método. Você só precisa ficar calmo por mais um dia. Um dia e nós poderemos já ter a solução para os nossos problemas. Aguenta firme.
Easy to say, hard to do, Tommy pensou, mas não disse.
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— Adrian Blanc... — O diretor chamou, e o rapaz dirigiu-se ao palco para receber seu diploma. Sorriu para os pais quando eles tiraram a foto dele.
Adrian ainda tinha a desculpa para estar triste sem precisar mencionar a lista para seus pais. A morte de Sissy havia afligido até mesmo o Sr. e a Sra. Blanc, que estavam arrasados. Apesar do temperamento da garota, eles realmente gostavam da nora. Jocelyn e Roman inclusive compareceram ao enterro de Sissy junto com o filho. Lá Adrian ficou sabendo que o pai da ex-namorada estava buscando saber quem foram os responsáveis pela brincadeira fatal. Quando descobrisse, eles seriam presos e indiciados por homicídio culposo.
O loiro teve vontade de contar ao pai de Sissy que a responsável fora a própria morte. Aquela era a verdade. O acidente que ocorreu com a brincadeira de mau gosto não passara disso: um acidente. Não havia a quem culpar. Se Sissy não morresse daquela forma, morreria de outra, talvez até bem pior do que ser queimada com tinta vermelha. Ela podia ter morrido no Baja Junkie, sem nunca ter se tornado rainha do baile de formatura, sem nunca ter realizado qualquer coisa de que pudesse se orgulhar. Aquele pensamento reconfortou Adrian por breves e solenes segundos.
— Charlene Blanc... — O velho diretor anunciou, e a garota subiu ao palco. Ela jamais imaginaria o que estava prestes a acontecer.
As palmas.
Com exceção de Jocelyn e Roman, ninguém mais aplaudiu.
Adrian olhou para os lados, surpreso e desesperado com a situação. Tommy ficou vermelho como um pimentão, e Charlene parecia desconcertada. Foi quando a primeira manifestação surgiu, que a garota teve certeza do que estava acontecendo.
— Monstro! — Gritou uma velha da plateia.
— Criatura do diabo! Você deveria estar morta! — Berrou outra.
Todos já sabem.
— Monstro! Monstro! — Ecoou um grito que abafou qualquer comentário positivo que pudesse ser feito. Aqui e acolá se conseguia ouvir coisas do tipo “aberração” ou “você vai para o inferno”. As pessoas gritavam, exasperadas, e o diretor não conseguiu pedir silêncio no microfone. Eles me odeiam. Todos eles me odeiam.
Na plateia, Jocelyn e Roman defendiam à filha contra as pessoas mais próximas deles, mas não era o suficiente. Todos os pais de alunos (e os próprios alunos) pareciam estar contra ela, tomados por uma onda de ódio irracional. Houve uma vaia coletiva, enquanto Adrian, Tommy, Pam e Charlene continuavam estáticos no palco. Nenhum deles ousou mover um músculo.
Até que uma pedra foi jogada contra o palco em que os alunos estavam.
E ela foi o suficiente.
Charlene não conseguiu aguentar os comentários e a humilhação pública e desceu os degraus aos prantos. Adrian seguiu-a, e Tommy tentou correr atrás, mas Pam o segurou de maneira firme. O rapaz tentou se soltar dela, mas a garota sussurrou:
— O Adrian teve um sinal. Você não pode sair daqui. Eu preciso estar do seu lado quando acontecer. Pra te avisar ou pra te salvar, qualquer coisa assim. Ele está com ela, ela vai ficar bem.
— Mas ela é minha namorada, porra! — O rapaz gritou suficientemente alto para que várias pessoas ouvissem.
Quando ele desceu do palco, já fazia tempo que Charlene tinha ido, então Tommy não sabia onde ela estava. Jocelyn e Roman tentaram se aproximar dele, mas o rapaz correu mais rápido. Ele precisava encontrar Charlene. Precisava dizer a ela que nada do que aquelas pessoas disseram era verdade. Dizer que ela era maravilhosa e especial, e que era a mulher da vida dele. Dizer que ele não a trocaria por nenhuma outra no mundo. Dizer que ela deveria erguer a cabeça e continuar lutando.
E principalmente dizer que fora ele que indevidamente deixou que o segredo dela vazasse.
Mas Tommy jamais imaginou que as coisas pudessem chegar àquele ponto. Ele deixara escapar numa conversa com Sissy, quando a garota lhe perguntara se ele sabia algo sobre a infância de Adrian e Charlene. A garota queria desvendar as premonições do namorado, encontrar algo que pudesse utilizar para ajudá-lo, mas sem que precisasse dar o braço a torcer. Ela iria conversar com ele logo após o baile. Se ela tivesse conseguido sobreviver ao baile. Será que o Adrian ficaria feliz em saber que, apesar de tudo, Sissy o amava e queria realmente compreendê-lo e ajudá-lo?
Mas com o segredo de Charlene, Sissy fora perversa. Ou apenas ingênua? O fato era que todos sabiam, e não havia nada mais que pudesse ser feito.
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Charlene correu o mais rápido que pôde, sem olhar para trás. Sentia-se nua, exposta. Já tivera aquele pesadelo algumas vezes, desde que era uma criancinha. Mas nele os xingamentos eram mais brandos. Diziam: “você é uma farsa”, ou “nós sabemos o que você é”. Ela dizia: “eu sou a Charlene”, mas era em vão. Todos a viam de maneira diferente. Ela via-se como Charlene, mas os outros...
Os outros a viam como Charles.
A garota descobrira desde muito cedo que alguma coisa viera errada com o seu corpo. Quando era uma criança, com quatro anos ou menos, recusava-se a vestir as roupas que seus pais compravam para ela e Adrian. Roupas iguais. Jocelyn e Roman inicialmente pensaram que Charles estava apenas querendo desenvolver seu individualismo, que queria ser diferente do irmão gêmeo. Mas logo perceberam que era mais do que isso. Muito mais.
Perceberam que Adrian e Charles eram completamente diferentes. Perceberam que, embora os médicos tivessem dito que eles teriam dois bebês meninos, eles haviam tido um menino e uma menina. E que, para sua dor e sofrimento, a sua pequena garotinha viera aprisionada em um corpo o qual não reconhecia como seu.
E Charles rapidamente tornou-se Charlene. As mudanças foram as menores possíveis. Continuaram a criá-la da mesma maneira de antes, embora a deixando ter liberdade para decidir o que vestir ou como se comportar. Adrian brincava com a irmã, mas mesmo sendo criados exatamente da mesma maneira, eles eram claramente diferentes. Adrian sempre fora mais ativo, vivo, enérgico, embora bastante desastrado, confuso e lento. Charlene tinha o raciocínio rápido e era sagaz, mas era também quieta, tímida, introspectiva.
Adrian aprendera a defender a irmã desde cedo, desde muito novo. Ela nunca sofrera o julgamento alheio, já que crescera em um meio em que todos sabiam que ela era uma garota, independente do que o seu corpo e a sua condição biológica dissesse. Bastou que fossem realizados procedimentos médicos burocráticos quando a garota cresceu para sua passagem do seu falso eu para o seu verdadeiro eu se tornasse completa. O espelho enfim refletia a realidade.
Agora tudo isso era passado. Todos sabiam, e todos a odiavam simplesmente por ela ser quem ela era. Por ter nascido como nasceu.
— Charlene! — Adrian gritou, esbaforido, cansado de tanto correr. — Charlene, espera, por favor!
A garota ignorou-o e correu para dentro do prédio onde ficava a academia da escola. O local estava vazio, mas aberto. Charlene sentou-se no chão, abraçada com os joelhos e chorando. Poderia ser eu. Eu poderia morrer para deixar que os outros vivam.
Adrian havia sido despistado. Ele estava longe dali.
Mas Tommy sabia encontrá-la.
Charlene não se surpreendeu quando o namorado abriu delicadamente a porta.
— Você sempre se esconde nos lugares mais improváveis possíveis quando está chateada.
— Improváveis é eufemismo. — Ela disse, entre soluços.
O rapaz então se sentou ao lado da namorada. Em cima dos dois pendiam halteres de mais de duzentos quilos, mas nenhum deles pareceu perceber. Naquele momento havia mais em jogo do que a própria lista da morte. Eles desejavam viver, mas a vida de ambos, naquele momento, parecia valer pouco.
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— Pra onde ela foi? — Pam perguntava-se. Wade e Adrian estavam ao lado dela.
— Eu a perdi perto do prédio da academia. — O loiro garantiu.
— Bingo! – Wade disse.
Os três então começaram a correr até lá. Adrian viu uma maçã cair de uma árvore próxima e espatifar-se, esmagada. Ele havia tido a mesma visão mais cedo, e supusera que se relacionava com a morte de Tommy. Adrian havia inclusive alertado Pam sobre o que poderia acontecer ao namorado da irmã. Ele não havia desgrudado do rapaz desde então. Mas agora Tommy estava sozinho, e outra maçã caíra. E o peso da queda dessa maçã fez seu coração doer.
Depois do Tommy vem a Charlene. Duas maçãs esmagadas.
— Os halteres! A academia, a maçã esmagada, eles vão ser esmagados pelos halteres! — Adrian gritou, de súbito.
O grupo chegou até o prédio com rapidez, mas quando foram tentar abrir a porta de acesso, um vento fechou-a com força. Adrian tentou puxá-la, mas em vão. A porta havia emperrado.
— É uma armadilha. Eles estão presos aí para morrer.
Wade não se contentou com aquela resposta. Ele pegou a maior pedra que conseguiu encontrar e jogou contra a janela do segundo andar, onde ficavam os halteres. A pedra não alcançou o vidro.
— Eu vou subir pelo cano. — Adrian disse.
E assim o fez. Agarrou-se ao cano metálico do lado de fora do prédio e começou a subir. Wade ficara lá embaixo, para o improvável caso de Adrian cair. Mas ele não cairia, era praticamente um macaco. Além disso, um mau jeito na queda podia matá-lo. E, naquele momento, a morte não iria querer aquilo.
Quando ele chegou ao segundo andar, esticou a cabeça e viu através da janela. Charlene e Tommy conversavam debaixo dos halteres. Idiotas, idiotas. O rapaz segurou-se ao cano com uma só mão e começou a dar socos na janela. Os dois não pareceram ouvir. Foi então que Adrian segurou-se completamente na janela e a abriu. Caiu lá dentro com rapidez.
— Adrian! — Charlene disse, assustada por ele ter aparecido no segundo andar.
— Escuta, saiam de perto desses... — Ele começou sua frase, mas não terminou.
A janela fechou-se com força. O impacto fez os halteres em cima de Tommy e Charlene penderem. O primeiro caiu, e Adrian não teve tempo de fazer nada, nem mesmo de gritar. Quando o segundo caiu, ele puxou Charlene no exato momento em que ela seria esmagada.
Mas a primeira metade do estrago já fora feita. Charlene gritou estridentemente.
A cabeça de Tommy ainda estava lá, mas ela estava completamente torta. O peso caíra entre o ombro e o pescoço dele, e entortara metade do seu corpo. A cabeça pendia estranhamente deformada para o lado esquerdo, e escorria algum sangue de sua boca. Pouco. A expressão do rapaz era grotesca, como se ele ainda estivesse vivo. Mas não estava, e disso Adrian tinha certeza.
Ele salvara Charlene, e ela só morreria depois do namorado. Não havia mais maneira de salvar Tommy.
— Tommy! — Charlene gritou, e correu para perto do corpo do namorado.
Adrian não tentou impedi-la. Charlene agarrou o cadáver deformado dele e começou a gritar e chorar. As lágrimas caíam com rapidez e fúria em sua toga preta. Os gritos foram intensificando-se, bem como a quantidade de lágrimas.
Pam e Wade apareceram de repente, vindos da porta de entrada. Pam soltou um gritinho e tapou a boca. Wade apenas arregalou os olhos, e correu para fora para chamar uma ambulância. A caipira fez menção a ajudar Charlene, mas Adrian a impediu. A irmã precisava lidar com aquela dor sozinha.
Adrian sentiu uma dor estranha no peito. Como se, apesar de Charlene estar viva, ele a tivesse perdido. O segredo dela fora exposto, e agora todos a conheciam como ele sempre conhecera. Ele a amara por isso, mas os outros a odiavam pelo exato mesmo motivo.
Desejou poder dar a vida de todos que humilharam sua irmã à morte. Somadas, as vidas deles não chegariam aos pés do valor da vida de Tommy.
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Quem dirigia o carro era Wade. Ao seu lado ia Pam, enquanto Adrian estava no banco traseiro. O sol já estava se pondo, e Adrian julgou que era mais de seis horas da tarde. A irmã havia ficado, já que estava arrasada demais para poder ajudar de qualquer maneira que fosse. Além disso, ela havia sido pulada, então não corria riscos, pelo menos por hora.
— Quantos quilômetros até a casa dessa tal de Juliet? — Pam perguntou de repente.
Wade deu com os ombros, e Adrian respondeu:
— Muitos. Creio que nós teremos pelo menos meio dia de viagem. Chegaremos lá de madrugada, então vamos precisar encontrar um hotel pra passarmos a noite. Algum de vocês tem dinheiro?
Wade ergueu a mão, e completou:
— Vocês ficam me devendo.
Nem Adrian e nem Pam tiveram ânimo para pelo menos sorrir. A caipira tremeu.
— Essas estradas... Elas são perigosas? — Ela disse.
— Talvez. — Wade respondeu. — Seria uma boa maneira de a morte pegar nós três, um acidente de carro. — Ele completou.
Foi Adrian quem tentou tranquilizar a garota:
— Mas seria arriscado. Eu poderia acabar morrendo antes de você, ou o Wade. Se isso acontecesse, a lista estaria quebrada. Não creio que a morte se arriscaria a isso.
Wade soltou uma gargalhada gutural e então disse:
— A morte não tem nada a perder. Nós é que temos. — E voltou seu olhar para a estrada.
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