Premonição 4: Noites de Terror
1 Death's Coming
Notas iniciais
Maio de 1983.
Adrian abriu o caderno pela quarta vez naquela noite. Nas três primeiras fora interrompido: primeiro pela mãe, depois por Charlene, e por fim, por si mesmo. Mas daquela vez ele iria até o fim. Estava decidido a entender de uma vez por todas o segredo dos números. Se os geeks de sua escola conseguiam, por que não ele? Era mais bonito e atlético, decerto deveria ser mais capaz. Não podia ser assim tão difícil aprender álgebra. Além disso, ele havia ignorado as contas durante toda a sua vida escolar e, agora que estava quase no fim, gostaria de saber se tinha perdido algo bom.
Teve vontade de enforcar-se logo na primeira questão.
Só podia ser uma brincadeira cruel de Charlene. É, era isso. Álgebra não podia ser assim tão difícil. Eram apenas números! Adrian sabia somar, subtrair, multiplicar e dividir, embora as duas últimas operações ele executasse com dificuldade. Existia algo além disso? Ele sempre achara que não, que o segredo dos números residia ali. Mas diante do caderno aberto da irmã, teve certeza de que andara perdendo boa parte do seu ensino médio nos treinos do time de futebol. Mas era assim que as coisas funcionavam.
Se o ensino médio era uma cadeia alimentar, Adrian Blanc estava no topo. Loiro, alto, atlético, bonito. Fazia parte do time de futebol americano da escola e namorava a chefe das líderes de torcida, a queen bee Sissy Bluhm. Todas as garotas queriam tê-lo e todos os garotos queriam ser ele. Era bom ser Adrian.
Adrian jamais pegara em um livro de álgebra. Jamais, em todos os anos do ensino médio, assistira a uma aula daquela matéria. Apesar disso, seu boletim era impecável: havia mais “A”s e “B”s do que poderia ousar querer. Álgebra, literatura, história, economia, biologia. Em todas as matérias ele era aparentemente exemplar. Eu sou uma farsa, pensou. Não conseguiria tirar “A” em nenhuma dessas matérias, se precisasse.
Por sorte ele não precisava. Essa era outra das vantagens de ser uma das estrelas dos Tigers, o time de futebol do seu colégio. Sua única obrigação era a de ir bem nos jogos. Notas, exames, projetos e trabalhos eram adicionais e podiam ser alterados ao bel prazer do diretor e dos professores. E enquanto Adrian conseguisse trazer troféus para a escola, pouco importava se ele sabia somar, subtrair, multiplicar ou dividir.
Mas eu não quero sair do ensino médio como um completo imbecil, dizia para si mesmo, embora fosse difícil de acreditar. Sua vaga na universidade já estava garantida, já que Adrian recebera uma carta de aceitação dias antes. De novo o mérito é dos meus passes, não do meu cérebro. Às vezes desejava ter nascido como a irmã, que era relativamente atlética e, mesmo assim, boa com os números. Ele, Adrian Blanc, era um completo ignorante, burro mesmo, embora fosse inegavelmente uma fera em campo.
Após fitar as páginas com a letra delicada de Charlene Blanc, decidiu que aquilo não era para si. Os geeks que fiquem com os números. Eu só preciso dos meus passes. Apenas meus passes e eu conquisto o mundo. Os babacas que fiquem com os seus malditos números.
Adrian levantou-se da escrivaninha e sentiu o ar quente da noite penetrando em seu cômodo. Era uma sensação gostosa. Apesar da frustração e do sentimento de completa impotência, Adrian estava em paz, e até feliz. Mais alguns meses e estaria formado. Com sorte na universidade ele poderia garantir suas notas com seus passes também, e acabaria por se tornar o primeiro arquiteto a ser um exímio jogador de futebol americano. É só pra isso que eu sirvo mesmo.
Mas era exagero dizer aquilo. Adrian tinha outras qualidades, embora não soubesse valorizá-las. Podia ser intelectualmente desfavorecido, mas era talentoso. Ah, isso era. Em campo e com uma baqueta na mão. Conseguia, com movimentos rápidos e precisos, criar uma melodia agressiva e empolgante. Quando tocava sentia-se nas nuvens, sentia-se como quando estava no campo de futebol. Era uma sensação de poder indescritível, como se o mundo todo fosse apenas seu. Como se nada fosse capaz de contê-lo. Só os malditos números. Só a maldita álgebra. Só o meu maldito e minúsculo e incompetente cérebro.
Na noite seguinte Adrian tinha um concerto com a sua banda, a The Reaper. O rapaz era obviamente o baterista, e aquele era um hobby que adorava. O show da próxima noite aconteceria no clube Baja Junkie, cujo dono tinha uma filha que tinha uma queda por Adrian. A garota estudava em sua escola, e por isso mesmo boa parte dos espectadores do show seriam seus colegas de classe. Líderes de torcida, jogadores do time de futebol, e até mesmo os malditos geeks. Todos haviam sido convidados para assistirem a The Reaper.
Eu devia cobrar um pouco de cérebro pelos ingressos, ao invés de dinheiro. Talvez assim eu conseguisse deixar de ser um burro. Adrian bufou e enfiou-se com rapidez debaixo dos lençóis. Queria dormir e esquecer o completo idiota que ele era.
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Os alunos da Voorhees-Myers Highschoolestavam em polvorosa. O motivo, claro, era o show que haveria à noite no Baja Junkie. Em todos os corredores do colégio, falava-se apenas nisso. Sissy conversava distraidamente com suas amigas Tiffany e Trish. As três pareciam trigêmeas, pela sua aparência: eram todas loiras, de olhos claros, altas e extremamente maquiadas. Além disso, todas elas usavam o mesmo uniforme das líderes de torcida, roxo e amarelo. Sissy tinha a boca mais carnuda e os cabelos mais volumosos, porém. Tiffany era a mais baixinha das três, e seu cabelo era completamente liso e fino. Já Trish usava falsos cachos descoloridos e tinha a pele bronzeada artificialmente. Apesar das mínimas diferenças, elas pareciam ser todas iguais.
Pelo menos era isso que Pam pensava.
Para ela as líderes de torcida vinham todas de uma fábrica. Uma ou outra possuía um cabelo castanho, um olho puxado ou uma pele mais escura. Mas em geral eram todas iguais, e todas usavam a mesma roupa. Falavam com um linguajar próprio, que Pam tinha nojo só de ouvir. O vocabulário cheio de “tipo” que elas usavam para contar casos e fofocas embrulhava o estômago da pequena caipira.
Tudo bem, Pam também tinha seus vícios de linguagem. Como uma boa caipira, havia sempre aquele sotaque que a fazia sofrer piadinhas de toda ordem. Piadinhas essa orquestradas pelas líderes de torcida, em especial por Sissy. Ela era a rainha de todas elas, assim como Adrian era o rei dos panacas do time de futebol. Se havia alguém para se culpar pelo calvário de Pam, esses eram Adrian Blanc e Sissy Bluhm. A garota havia trocado apenas algumas palavras com o rapaz, e nenhuma com a líder de torcida. Mas, mesmo assim, sempre sofria com os desmandos deles, direta ou indiretamente. Adrian jamais lhe ofendera diretamente, mas ele estava ligado com aqueles que o faziam, e, não foram poucas as vezes em que ele riu junto. Pam decidiu que o odiava, desde então.
Pam era bela, apesar de tudo. Possuía espessos cabelos castanhos escuros, os olhos cor de mel. Usava uma flor na cabeça (uma diferente a cada dia, colhida no jardim da dona Violet), e um delicado pingente no pescoço. Mesmo que dissesse o quanto desprezava os populares, ela também se rendia a eles. Como todos naquela escola, no fim das contas.
Um baque metálico fez Pam virar-se. Há alguns metros de onde ela estava, um dos jogadores do time empurrara um geek contra os armários. A garota conhecia tanto o agressor como o agredido.
O primeiro era o braço direito e sidekick de Adrian, o belíssimo Wade Turner. O que ele tinha de belo, tinha de cruel. Era alto (mais alto do que Adrian, até), esguio, e possuía cabelos castanhos claros e belíssimos olhos azuis esverdeados. Para Pam sua face lembrava a de um elfo. Mesmo assim, apesar de sua beleza, Wade estranhamente não tinha namorada. Já havia sido visto algumas vezes aos amassos com Trish ou Tiffany (Pam não conseguia diferenciá-las), mas os rumores que corriam eram os de que ele tinha uma queda mesmo era por Ricky Campbell, o rapaz mais belo e inteligente do colégio todo. Não que alguém tivesse coragem de dizer aquilo na frente de Wade, claro.
Mas se Wade realmente gostava de Ricky, Pam não podia culpá-lo. Ricky era extremamente belo. E inteligente! Isso, para Pam, era o seu diferencial. Mas claro que os cabelos castanhos (estrategicamente erguidos num topete) e os olhos azuis celeste tinham lá sua parcela na beleza do rapaz. Apesar disso, ele era muito metido a besta e não dava confiança ou bola para ninguém, quer fosse uma líder de torcida, quer fosse um cara do time de futebol. Nem mesmo para os populares, que ansiavam por tê-lo em seu meio.
Wade continuava a humilhar o geek nos armários. Pam viu o pequeno e magricela Jesse Allen proteger-se com sua mochila quando o jogador tentou lhe desferir um descoordenado chute. O geek ajeitou os óculos e entregou um caderno para Wade. O que será que tem naquele caderno?, pensou Pam. Não importava. O agressor já saía de perto de Jesse, deixando o rapaz caído e desolado no chão.
Pam correu até Jesse e ajudou-o a recolher seus cadernos e livros.
— Dia difícil Jesse?
— Todos os dias são difíceis. – Jesse disse, terminando de recolher suas coisas. Ele agradeceu a ajuda de Pam e saiu sem dizer mais nada.
Jesse era um alvo fácil porque tinha características físicas facilmente debocháveis. Era magrelo, baixinho, e usava óculos com lentes grossas e que deixavam seus olhos minúsculos. Os olhos e os cabelos eram de um tom pálido de castanho. Além disso, tinha as orelhas grandes e largas. Apesar de tudo isso, Pam achava-o fofo. Eu namoraria Jesse, concluiu. Desde que ele não fosse tão palerma e passivo diante das agressões. Mas Pam não podia exigir dos outros uma postura que nem mesmo ela conseguia ter.
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Charlene aproximou-se de Tommy lentamente. O rapaz estava de costas para ela, e não viu quando a namorada tapou seus olhos. Ela não disse uma palavra. Ele sabia como funcionava aquela brincadeira. Disse:
— Charlene?
A garota destapou seus olhos e lhe deu um beijo, rápido e delicado.
— Você sempre adivinha.
— Você é a única que faz essa brincadeira comigo, amor.
A garota riu. Apesar de ser gêmea de Adrian, os dois eram um bastante diferentes. Enquanto o rapaz era louro, Charlene era morena. A altura era a mesma, e quando a garota colocava salto alto, tornava-se gigantesca, com enormes pernas de modelo. Apesar disso, ela e Adrian compartilhavam os mesmos olhos, o mesmo nariz, a mesma boca. Na verdade eles compartilhavam mais coisas do que a garota gostava de admitir.
— Tudo certo para o concerto de hoje à noite, Tommy?
O rapaz riu e disse:
— Só se você parar de chamar um show de rock de “concerto”. Fica parecendo que vamos assistir a porcaria de uma ópera!
— Tudo bem, então. Preparado para ver a banda do meu irmão tocar?
Tommy seguiu lentamente de mãos dadas com Charlene pelos corredores.
— Eu já vi a The Reaper tocar. Os caras são feras até. O Adrian, inclusive.
Era meio complicado para Tommy admitir aquilo, porque ele não gostava de Adrian, nem um pouquinho que fosse. O amor e carinho que tinha por Charlene eram proporcionais ao desprezo que tinha pelo irmão dela. Tommy não entendia como ambos poderiam ser gêmeos e serem tão diferentes.
Tommy não era muito belo. Pelo menos não se comparado com a beleza de sua namorada Charlene. Ele era baixinho, alguns centímetros menor do que ela. Tinha cabelos castanhos e arrepiados, e os olhos castanhos escuros. As orelhas eram bastante grandes, o que lhe tirava grande parte dos atributos de seu rosto agradável. Apesar disso, Charlene o amava mais do que tudo, e o achava o garoto mais bonito da face da Terra.
— Vai ser bacana. Tenho certeza. – Charlene finalizou, e o namorado concordou. O que podia acontecer de tão ruim? Só eu ficar surdo com aquela barulheira que eles fazem. Apesar de ter pensado aquilo, Tommy não disse.
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Já passava das dez da noite quando Tarte, Lody, Plage e Skank apareceram. Os quatro eram, junto com Adrian, os membros da The Reaper. Tarte era o baixista, Lody e Plage os guitarristas (embora o primeiro fosse também backing vocal), Skank era a vocalista, e Adrian era o baterista. Aqueles não eram seus nomes verdadeiros, claro. Tarte se chamava Todd; Lody era o Louis; Plage fora batizado como Prince; e Skank era nomeada Sonya. E ele, Adrian Blanc, era o Alyx.
— Podemos ir, cara? – Plage indagou, bastante apressado. O show começaria às onze horas, e eles precisavam chegar antes para arrumar os equipamentos.
— Calma, a Sissy está se arrumando. Se quiserem podem ir na frente. – Adrian respondeu.
— Ir na frente? – Skank ironizou. — Da última vez que fizemos isso nós tocamos sem você.
Era verdade. Naquela ocasião Sissy o chantageara, dizendo que se ele não ficasse com ela, estava tudo acabado entre os dois. Adrian ficou, embora não levasse a ameaça muito a sério. Já falara sobre terminar com Sissy algumas vezes, e ela sempre implorava para que ele não fizesse aquilo. Parecia improvável que ela própria fosse terminar o namoro. Mesmo assim ele ficara. Mas não dessa vez. Se Sissy quisesse ficar, ficaria sozinha. Adrian não perderia aquele show.
Mas não foi necessário criar um caso sobre o ocorrido. Sissy já saía do banheiro do quarto de Adrian. Ela estava vestida de maneira completamente colorida, como a moda exigia. Havia presilhas nos cabelos, adereços em tons neon, e muitos, muitos panos. Finos, coloridos, brilhantes e esvoaçantes.
— Uau! – Tarte exclamou, e logo reparou no olhar carrancudo que Adrian o lançou.
— Vamos amor? – Sissy disse, ignorando a presença de Tarte, Lody, Plage e Skank. Adrian assentiu com a cabeça e os seis saíram. O rapaz ainda teve tempo de ver o conversível vermelho de Tommy saindo do quintal, com Charlene sentada no banco do carona. Eles seis iriam no furgão de Lody.
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O Baja Junkie fervia, mesmo àquela hora. Os adolescentes estavam todos apinhados ali, seja dançando na pista, seja apoiados em balcões e nas janelas. O clube ficava localizado em um antigo e abandonado prédio onde, há mais de oitenta anos atrás (no começo do século) havia existido um centro psiquiátrico. A decoração era propositalmente rústica: havia pichações pelas paredes, janelas quebradas, paredes de material sem qualquer acabamento. Tudo isso era contrastado pelos aparelhos de som e as luzes, tudo aquilo de elevado preço. Também era um clube underground, destinado a uns poucos.
O salão de festas localizava-se no terceiro e último andar. O primeiro servia de boca de fumo durante a noite e de dia ficava fechado. O segundo andar estava interditado devido a problemas em sua estrutura, e o terceiro abrigava o clube. Havia dois meios de se chegar ali: o primeiro era através da escada de metal enferrujado que se serpenteava ao redor do edifício, e o segundo era através de um rústico elevador feito de madeira. Era unânime a escolha dos jovens pelo primeiro meio.
Na frente do prédio, havia diversos carros estacionados. O local quase não tinha vizinhança, já que a maioria dos edifícios e casas ao redor ou estavam abandonados ou eram estabelecimentos comerciais, fechados àquela hora. O barulho era quase ensurdecedor, e havia fumaça suficiente para destruir toda a camada de ozônio umas sete vezes. A quantidade de cigarro e bebida era imensurável, e havia drogas ilícitas também.
Talvez por esses motivos Pam perguntava-se o que estava fazendo ali.
Eu estou aqui pelo Jesse, tentou convencer a si mesma. Mas aquela era apenas meia verdade.
Jesse convidara-a sim para vir ao show, isso era verdade. Mas por que ela aceitara o convite era um mistério. Não podia dizer que era por amizade ou piedade de Jesse. Pam nem era amiga dele. Decerto quando eles chegassem ali cada um iria para um canto, e não se veriam até às aulas, dali dois dias.
Talvez eu esteja aqui pelo mesmo motivo que ele. Talvez eu queira fazer parte desse grupo dos populares. Mas Pam não queria ver-se daquela forma.
— Caso eu me esqueça de dizer umas cem vezes essa noite, obrigado por vir comigo, Pam. — Jesse disse, tremendo. Não estava frio, e a tremedeira dele só podia ter como causa o medo. O rapaz tirara os óculos de lentes grossas, mas ainda tinha a aparência de um geek. Pode-se tirar um garoto das trevas, mas não se pode tirar as trevas de um garoto.
Pam pensou em responder que não precisava agradecer, mas limitou-se a dizer:
— Eu ainda não sei o que nós conseguiremos estando aqui. No máximo morrer como populares.
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Sentado em seu banco com os pratos à sua frente, Adrian conseguia ter apenas um vislumbre de quem estava ali. Ele conseguia ver Sissy ao lado de Trish e Tiffany. Havia Charlene e Tommy, encostados num balcão e aos beijos. O rapaz tinha um drink vermelho em mãos, bebida essa apelidada de “inferno”.
Mais adiante ele viu Wade, cercado por algumas garotas da sua escola. E surpreendeu-se ao ver Ricky conversando com uma garota, também com um “inferno” em mãos. Então o senhor perfeitinho também precisa se divertir e tomar um porre. Bom saber. Eu também faço isso, então já sei que posso cortar a bebida como fator decisivo na minha burrice crônica.
— Boa noite putada! – Skank disse, aproximando-se exageradamente da beirada do palco. O local onde a The Reaper estava tinha pouco mais de um metro de altura do chão, e era deveras pequeno. Cabiam os membros da banda, os instrumentos e mais nada. Mas seu público também era reduzido: cerca de cinquenta ou sessenta espectadores. Mais da metade alunos da Voorhees-Myers Highschool.
Os adolescentes gritaram frases, entre elas várias obscenidades. A metade deles já estava completamente bêbada, e a outra metade, drogada. A fumaça tornava-se espessa, e dançava com as luzes do globo localizado no meio da pista de dança. Adrian conseguia ver apenas as baquetas em suas mãos, e mais nada.
Mas, mesmo assim, ele conseguiu ver quando Ricky derrubou sua bebida vermelha no vestido delicado e amarelo da garota com quem conversava. A menina não pareceu se importar e lascou-lhe um beijo. Distraído com a cena, Adrian não percebeu quando Skank começou a cantar.
She told me that she loved but she's gone away
Death's coming
For I know now that no one’s safe
Death’s coming
She won't escape, she won't escape
She’s never going to get away
Lody percebeu a distração de Adrian e lhe deu um soco no ombro, gritando:
— Toca Adrian! Mas que... Porra!
O loiro piscou algumas vezes e começou a tocar ao som da música que Skank cantava. Era um punk pesado, e ele estava decidido a entrar no ritmo da música. Cantava junto aos berros, enquanto suas baquetas batiam com fúrias nos pratos metálicos.
Now my hearts alone as I wait to embrace
Death's coming
For I know now that no one’s safe
Death's coming
She won't escape, she won't escape
She's never going to get away
Quando Skank cantou o último trecho do refrão, começou a acontecer. Adrian viu o exato momento em que uma explosão atingiu em cheio o lado esquerdo do prédio, onde ficava uma espécie de sala onde os adolescentes usavam suas drogas. O gás, foi a primeira coisa que o rapaz pensou. Algum drogadinho maldito acendeu um baseado. Dane-se.
Mas então as paredes começaram a ruir, aos poucos. Os cabos que seguravam as luzes coloridas ricochetearam, e Adrian viu quando um deles partiu um grupo que estava na pista de dança ao meio, sendo um deles o geek Jesse, da sua escola. Os cabos de ferro esmagaram o grupo com força, tornando-os uma única massa de sangue disforme.
Todos os adolescentes gritavam e tentavam escapar pela única porta que levava as escadas de ferro. Ela estava trancada, como eles perceberam rapidamente. Trish e Tiffany correram para o elevador de madeira, mas quando entraram nele, ocorreu outra explosão, essa as incinerando. A madeira do elevador queimava, e misturava-se à poeira dos baseados.
Adrian largou a baqueta e pôs-se à procura de Sissy e Charlene, chamando desesperadamente pela namorada e pela irmã.
— Aqui! – Sissy gritou, de trás de um aglomerado de adolescentes desesperados.
O rapaz então viu Ricky cair por uma das janelas quebradas do prédio, quando tentava desviar de um grupo de pessoas que estava prestes a esmagá-lo. Adrian não viu, mas teve a certeza de que ouviu o barulho do corpo do rapaz quando este se chocou contra o chão.
Ele já estava ao lado de Sissy quando o pior aconteceu. Outra explosão, e essa derrubou um pedaço de madeira pesadíssimo do teto em cima da namorada e de mais algumas pessoas que estavam ao redor dela. Adrian gritou quando o sangue respingou em sua roupa. Arfou e finalmente uniu-se ao grupo que tentava arrombar a porta de saída.
Havia caos por todo lado. Wade acabou com um pedaço de ferro atravessado em seu peito quando foi empurrado contra um pedaço da parede arrebentada. Adrian correu para ajudá-lo, mas o rapaz limitou-se a cuspir uma quantidade assustadora de sangue. Foi quando o loiro ouviu uma voz conhecida:
— Adrian! – Charlene gritou.
Ele estava correndo em sua direção quando ela apontou para Tommy. O namorado da irmã estava caído no meio da pista de dança, com uma viga de madeira caída em cima de suas pernas. Ele gritava e cuspia algum sangue, com alguns dos corpos atingidos pelos fios de aço ao seu redor.
— Fica calmo que eu vou te ajudar, parceiro. – Adrian disse. Mas então ouviu um clac, e viu quando o glorioso globo de vidro caiu em cima de Tommy, esmagando seu torso e a sua cabeça. Do outro lado do salão, Adrian imaginou ouvir Charlene gritar, mas não tinha certeza de mais nada.
As explosões tornaram-se mais intensas, e parecia certo que o prédio ruiria em segundos. Charlene gritou, e quando Adrian virou-se para procurá-la, viu a irmã sendo atingida por um estilhaço voador da aparelhagem de som. Ela não teve tempo de gritar, com o impacto fulminante.
No meio da fumaça, fogo e gritos, Adrian distinguiu um último rosto. Era o de uma garota que ele havia visto algumas vezes no colégio, mas cujo nome ele lembrava apenas vagamente. Seria Pam? Devia ser esse o nome dela. Pam mantinha-se imóvel ao lado da porta que os adolescentes ainda tentavam inutilmente abrir. Quando eles conseguiram, a garota saiu com o grupo. Adrian correu atrás, e pôde ver quando a estrutura da escada de metal ruiu, com o peso de tantas pessoas ao mesmo tempo. Todos eles caíram no andar debaixo, esmagados pelos ferros e pelos corpos uns dos outros.
Adrian ainda segurava a porta, atônito, quando sentiu o fogo contra sua pele. Primeiro a fumaça e seu cheiro insuportável, e então as chamas. Ardia, queimava... Sentiu-se queimando, sentiu-se derretendo. Sentiu-se... Morrendo.
E então acordou. Os olhos estavam completamente mareados.
O cenário era o mesmo de minutos atrás.
— Boa noite putada! – Skank gritou, e foi retribuída com obscenidades.
Adrian olhou imediatamente na direção de Ricky, e viu quando ele derrubou a bebida no vestido da garota, que lhe retribuiu com um beijo. Tentou dizer qualquer coisa, pedir que parassem a música ou algo assim, mas sua voz saiu apenas um arfar prolongado. Ele estava em estado de choque. Skank começou:
— She told me that she loved but she's gone away…
O rapaz pulou de sua cadeira com fúria, e pulou do palco sem importar-se se havia machucado alguém no processo. Não viu o olhar que o restante da banda ou os outros davam a ele. Correu na direção de Sissy e começou a puxá-la para fora.
— Ei, o que é isso Adrian? Me larga! – Ela reclamou.
Charlene e Tommy aproximaram-se. A irmã perguntou:
— Adrian, bebê, você tá bem? Fala comigo!
Adrian ainda não conseguia juntar as palavras direito.
— Um acidente. Vai tudo explodir! Eu vi! Aconteceu na minha cabeça, eu...
Sissy tentou levantar o tom de voz e dizer alguma coisa, mas Adrian não lhe deu a oportunidade. Ergueu a garota no colo e começou a sair pela porta que dava em direção à escada de ferro, entre socos e arranhões da loira. Tommy e Charlene seguiram-no. No caminho o casal esbarrou em Ricky, fazendo-o cair com força contra um balcão.
— Ei seu filho da... — Ricky começou, mas Tommy ignorou-o.
Trish e Tiffany correram para fora, seguindo Sissy e gritando com Adrian. Wade largou suas acompanhantes e pôs-se pra fora, no momento em que viu o amigo alterado e carregando a namorada. A música ainda tocava, apesar da ausência do baterista.
Death's coming
For I know now that no one’s safe
Death’s coming
Pam virou-se para Jesse e disse em seu ouvido:
— Chega dessa festa.
O geek protestou, mas não conseguiu impedir Pam de retirá-lo do prédio aos empurrões. A garota desceu rapidamente os degraus, acompanhada do rapaz magrela. Lá embaixo Adrian discutia com Wade, Ricky e Tommy.
— Eu to falando sério, eu vi! O prédio explodindo, as pessoas sendo esmagadas e queimadas e...
— Ah, qual é! Vai se foder, Adrian! Eu sou teu parceiro e tudo mais, mas eu estou te estranhando. Que chilique é esse, velho? Tu não é assim. Vai fazer cena com outro.
— Cala a boca, seu viadinho de merda! — Tommy disse, estranhamente defendendo Adrian. Charlene segurou o namorado, ao passo que Trish e Tiffany agarraram Wade, impedindo os dois de iniciarem um confronto físico. Ricky há essa hora já havia desistido de dar uns sopapos em Tommy por derrubá-lo, e limitou-se a ouvir, meio afastado, a conversa do grupo.
Com Pam e Jesse, eles eram dez.
— Vem aqui que eu te mostro quem é o viadinho! – Wade replicou. Tommy ignorou o insulto, já que Charlene falava algo em seu ouvido.
Sissy segurou o queixo de Adrian com firmeza, e então disse:
— Amor, calma. Você está me assustando.
— Mas eu estou falando sério, eu vi o prédio...
Foi quando a discussão do grupo foi interrompida por uma explosão. Todos olharam para o andar de cima e puderam ver a fumaça saindo pelas janelas, e não era a fumaça habitual dos baseados. Adrian não precisou dizer nada, e todos se afastaram das escadas e do quarteirão em si. Pam gritava para que alguém chamasse os bombeiros, e Tommy correu à procura de um telefone público.
Adrian estava atônito, em estado de choque. Todos falavam coisas ao seu redor, réplicas, súplicas, agradecimentos, retaliações. Mas ele mantinha-se alheio a tudo, com uma única pergunta em sua cabeça.
Por quê?
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