Premonição 4: Noites de Terror
2 Consequência
Notas iniciais
Era manhã de sábado, mas, pela primeira vez em sua vida, Adrian não estava de todo satisfeito com isso. Já passava das nove horas e ele ainda não havia levantado. Permanecia deitado olhando para o teto, onde penduricalhos infantis dançavam ao som da suave brisa que entrava pela janela de seu quarto. Todo seu cômodo tinha uma aparência muito infantil, e isso só servia para lembrar-lhe o quão imbecil era. Podia ter crescido em tamanho, mas continuava tão burro quanto era aos cinco anos de idade. E agora além de burro era também um maluco.
Era impossível não remoer o pensamento de que ele havia previsto o desastre no Baja Junkie. Tudo bem, não era difícil supor que o prédio iria desmoronar em breve, dado o estado dele. Mas Adrian fizera mais do que isso. Ele vira todos os detalhes da destruição do edifício. Vira todas as pessoas morrerem. E no fim tudo se repetiu, todos morreram como ele havia previsto. Bom... Nem todos.
Adrian escapara junto de mais nove pessoas, sendo uma delas sua irmã. Era grato por isso, no fim das contas. Mas o ônus, para o seu estado de espírito, estava sendo quase equivalente ao bônus.
Toc, toc. Pensamentos interrompidos.
— Entra. — O rapaz disse, com voz cansada.
Era Charlene. A garota usava um rabo de cavalo caindo em seu ombro direito, e, ao contrário dele, não estava mais de pijamas.
— Mamãe está te chamando pra tomar café.
— Vocês ainda não tomaram? – O rapaz indagou surpreso.
— Não, quisemos te esperar.
Adrian ficou pensativo, mas logo disse:
— Não estou com fome, podem tomar o café sem mim.
Charlene não se deu por satisfeita. Retirou a colcha que ele usava para dormir e jogou-a no chão. Em seguida sentou-se na ponta da cama e colocou os pés dele em seu colo. Disse:
— Você está assim por causa de ontem.
Nossa, você é mesmo a gêmea inteligente, ele pensou ironicamente, embora não tivesse coragem de dizer aquilo em voz alta.
— E eu não tenho motivos? Tipo... Que porra foi aquilo que aconteceu? Eu juro, eu vi tudo acontecer no meu pensamento. Eu vi todos vocês morrendo. A Sissy, o Tommy, eu... Você.
Charlene estremeceu.
— Mas nós não morremos. E graças a você. Devíamos ficar gratos por isso e seguirmos com a nossa vida.
Adrian concordava com aquele pensamento, mas havia algo em seu íntimo que dizia que aquilo ainda não estava acabado. Ele resolveu que daquela vez iria externar seu pensamento.
— Será que é só isso, mana? Eu não sei... O que eu mais quero é esquecer e continuar a minha vida, mas algo dentro de mim me diz que isso ainda não acabou. Na verdade eu sinto que não está nem perto de acabar... De alguma forma eu sinto que... Isso está apenas começando.
O rapaz terminou sua frase e suspirou. Charlene sentiu um arrepio, e a brisa fresca que entrava pela janela do quarto se tornou mais intensa, derrubando uma revista no chão e abrindo-a. Era uma publicação de games, e na página aberta estava escrito: “Fliperama Smash! Nós temos o melhor em jogos de fliperama! Agora com nova sede na Browning Street, nº. 180. Não deixe de nos visitar. Uma pancada de jogos está a sua espera!”.
Adrian tremeu. Ele talvez precisasse de um pouco de fliperama para distrair-se.
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— Dessa vez eusou o arqueiro e você vai ser o gigante, tudo bem Cão Felpudo?
O golden retrievercontinuou a olhar Jesse como se não tivesse ideia do que o dono estava lhe dizendo.
— Eu sei, você prefere ser um lobo gigante, mas dessa vez preciso que você seja o gigante para-lá-da-Muralha. Eu cansei de brincar de cavaleiro e lobo. Tudo bem Sor Cão Felpudo?
O cão ganiu, e recostou a cabeça entre suas patas. Cão Felpudo era belíssimo, grande e dourado. Tinha quatro anos, e era o companheiro de Jesse desde que nascera. O único companheiro, na verdade. Jesse não tinha amigos, e os pais passavam tempo demais trabalhando para que pudessem passar algumas horas com o filho. Quando não estava na escola, o garoto estava em um mundo medieval e fictício que criara para si. Lá ele nunca ficava sozinho, e sempre havia muitas aventuras para se viver.
— Corra gigante! Os homens da Patrulha estão vindo em seu encalço!
Cão Felpudo corria pelo gramado, deixando seus pelos esvoaçarem. Jesse seguia atrás, fugindo de um inimigo invisível que queria detê-lo por ser um vira-casaca que estava ajudando um gigante, inimigo da Patrulha.
— A morte está atrás de nós, gigante! E eu sou muito novo para morrer! – Esbravejava o pequeno arqueiro, rolando pelo gramado do quintal de sua casa. Os vizinhos passavam e sorriam consternados com a infantilidade daquele adolescente. Jesse, o arqueiro, não se importava com eles. Eram homens do rei, enviados para espioná-lo. Não poderia permitir que eles influenciassem em sua fuga. Quando os selvagens atravessassem a muralha, não haveria rei que pudesse detê-los. — A morte! O que nós dizemos ao deus da morte, ó nobre gigante?
O cão não respondeu, apenas parou e sentou, arfando. Jesse respondeu por ele:
— Hoje não!
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Adrian caminhava pelo parque decidido a não esquecer o que houvera no Baja Junkie. Ele iria pesquisar a fundo, e iria encontrar respostas. Não era possível que ele tivesse tido uma visão sobre um acidente, salvasse seus amigos e tudo terminasse assim. Adrian não queria acreditar em nada sobrenatural, mas tinha escolha? Se tivesse ocorrido com qualquer outra pessoa, o rapaz desdenharia da situação e julgaria o sujeito como um doido varrido. Mas tinha acontecido com ele, então, o que fazer? Será que poderia estar realmente louco?
Subitamente a imagem dos membros da The Reaper veio à sua cabeça. Tarte, Lody, Plage, Skank... Todos mortos. Havia algo que Adrian pudesse ter feito para salvá-los? Provavelmente não. Pelo menos ele gostava de acreditar nisso, do contrário teria deliberadamente deixado de salvar quatro vidas.
Na verdade... Muito mais vidas. Todos os alunos que estavam no Baja Junkie. A garota de amarelo que estava com Ricky, as garotas grudadas à Wade... Mas por sorte ele havia salvado alguns. Os mais próximos de si, e, estranhamente, outros três. Ricky havia saído porque Tommy esbarrou nele (bendito esbarrão!), mas e os outros dois? Adrian lembrava o nome da garota, Pam. Mas o outro rapaz, o geek, era desconhecido para ele.
Mas eu salvei essas pessoas, não salvei? Queria, com todas as suas forças, acreditar nisso.
— Ei! – Adrian ouviu. Virou-se para ver quem o chamava e percebeu que era Wade. O amigo vestia uma roupa de corrida, bem como uma tiara de lã na cabeça. Estava bastante vermelho e suado. — Espera, vamos correr juntos.
Adrian concordou e começou a seguir Wade. Não tinha uma rota definida, então não viu problema nisso.
— Sabe cara... Eu queria te pedir desculpas. Pelas coisas que eu disse ontem e tudo mais. Eu tinha bebido bastante e... — E não soube mais o que dizer.
— Sem problemas. Eu sei como é... Já fiz algumas vezes.
Wade sorriu, com as bochechas vermelhas e úmidas. Havia algo que ele queria dizer, mas não tinha coragem. Adrian percebeu, e o encorajou:
— Pode falar.
— Não, deixa pra lá. Você tá querendo esquecer essa porra toda de ontem.
— Ainda vai demorar um pouco pra isso acontecer, bro. Diz o que tem pra dizer. Eu sou teu parceiro, não vou ficar chateado.
O outro rapaz então assentiu, e disse:
— Como você sabia? Eu quero dizer... Você disse que o clube ia desmoronar, e ele realmente desmoronou. Tá, não era uma previsão muito difícil de ter, mas mesmo assim. Aquele prédio podia ter caído hoje, amanhã, depois. Mas caiu exatamente depois de você ter dito que ele iria cair.
Adrian já esperava aquele tipo de indagação. Mas infelizmente ele não tinha como responder da maneira que gostaria, já que estava tão sedento por respostas quanto Wade.
— Eu vou ser franco com você, Wade. Você sabe que eu não sou de dar chilique ou ficar inventando historinhas. Eu não preciso disso. Eu... Vi. Eu vi, na minha cabeça. Foi como um sonho sabe? O Ricky derrubava bebida em uma garota, a Skank chamava o público de “putada”... Tudo aconteceu na minha mente. E o acidente. E quando eu acordei a história começou a se repetir. Tudo que eu consegui pensar foi que o acidente aconteceria como no sonho também. E... Isso é tudo o que eu sei. Eu gostaria de saber mais. De verdade.
Wade estava intrigado, mas parecia acreditar no amigo.
— De qualquer forma... Você salvou nossas vidas. Ontem era pra ter sido nosso último dia, se não fosse por ti. Qualquer que tenha sido o motivo que te fez prever o que iria acontecer... Não importa. Eu... Obrigado cara.
Adrian acenou com a cabeça e viu Wade desaparecer, em uma corrida rápida, deixando o outro rapaz para trás em seu trote lento.
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Jesse acabou de colocar a coleira em Cão Felpudo e se agachou para afagar o pelo do animal.
— Pronto pro banho, Felpudo?
O cão ganiu, como a entender o que o dono queria dizer.
— Eu sei, é ruim. Mas você está muito sujo, e se a mamãe chegar e te ver assim vai sobrar pra mim. Não que ela repare muito em nós dois, mas mesmo assim. Não quero você sujo dentro de casa.
E seguiu com o cachorro na coleira. Enquanto caminhava, pensou em Pam. Pensou também em como ela insistiu para que os dois saíssem do clube momentos antes de ele desmoronar. O tal Adrian do time de futebol havia previsto o acidente, pelo que ele tinha entendido. Jesse acreditava em visões, pelo menos quando estava em seu mundo de fantasia. Lá elas eram chamadas de “sonhos verdes”. No mundo real, porém, Jesse não era mais cético. Gostaria de acreditar, mas era difícil.
Na verdade era dolorido viver cada momento, quanto mais acreditar em coisas sobrenaturais. Viver como uma escória era insuportável, mas fazia parte do dia a dia de Jesse. Desde que ele se entendia por gente fora daquela forma. Todos o ignorando, todos o desprezando como se ele não valesse nada.
A começar pelos pais. Jesse os amava de todo o coração, apesar de tudo. Amava especialmente a mãe, que uma vez, quando ele tinha sete anos, lhe dera um beijo na testa. O garoto se lembrava de ter ficado sem tomar banho por quatro dias, até que sua mãe o obrigou a fazer isso. Depois do banho ele pediu outro beijo, para compensar aquele que fora lavado, mas recebeu apenas uma reprimenda.
Desde então Jesse criou um escudo que impedia qualquer pessoa de machucá-lo. Transformou tudo em um jogo. Em seus sonhos e pensamentos, tudo o que vivia era uma provação que, ao ser superada, o tornaria melhor. Jesse ainda não sabia bem o que seria, mas imaginava que fosse algo bom. Tinhade haver algo bom. Heróis não sofriam para nada. A recompensa era sempre proporcional à quantidade de sofrimento. E, da maneira como ele sofria, deliciava-se em pensar em sua recompensa, quando chegasse a sua hora.
— Você acha que a Pam sairia comigo, Felpudo?
O cão nada disse. Jesse continuou mesmo assim:
— Eu acho que sim. Ninguém gosta dela também. E além disso, ela foi à festa comigo ontem. Ela não iria se me rejeitasse tanto assim, né? Talvez a Pam seja diferente das outras garotas. Assim como eu...
Mesmo que fossem apenas planos e sonhos, Jesse gostava de imaginá-los. Em seu mundo de magia, cavaleiros, lobos e gigantes, Pam seria sua rainha. Ou, pensando com mais humildade, uma bela donzela filha de um poderoso senhor. Jesse seria capaz de derrotar os selvagens e inimigos do senhor, e conseguir a mão dela como recompensa. Os dois poderiam ter filhos que, quando o senhor morresse, se tornariam também senhores. Era um sonho doce, mas não um sonho verde. Jamais aconteceria. Ou será que sim? Poderia Pam ser a sua recompensa?
— Vamos mais rápido Felpudo! Os patrulheiros estão atrás de nós!
E o cão correu, com o menino atrás.
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Adrian já estava chegando em casa quando viu Trish e Tiffany do outro lado da rua onde corria. As duas andavam de mãos dadas, e uma delas (o rapaz achava que fosse Tiffany, embora não pudesse ter certeza) levava um cachorro em uma coleira. Era um pinscher negro bastante nervosinho, que ficava tentando se soltar da dona, latindo e pulando como um doido.
As duas viram o rapaz e acenaram de longe. Adrian retribuiu o gesto, e então viu o momento em que o cão soltou-se de Tiffany e correu para atravessar a rua, latindo. A garota não conseguiu segurá-lo, e o rapaz percebeu que no fim da rua vinha um furgão em alta velocidade. O cão parecia não perceber isso, e já estava longe demais das garotas. Mas estava perto de Adrian.
Adrian então correu até o meio da rua e tentou, em vão, pegar a coleira do cachorro. Foram tentativas fracassadas, e o furgão se aproximava cada vez mais. Tiffany e Trish gritavam de maneira ensurdecedora, avisando sobre o veículo. Eu já vi a porcaria do furgão. Por que acham que eu estou no meio da rua? Eu estou tentando salvar a porcaria do cachorro de vocês.
Quando o veículo estava tão próximo que não poderia frear, Adrian conseguiu. Pegou o cachorro e pulou para o lado no último segundo, sentindo a fumaça do furgão em seu rosto. O cão latia e esperneava, tentando morder seu salvador. Adrian ignorou-o, e continuou o segurando até que Tiffany e Trish atravessaram para pegá-lo.
— Adrian, você é nosso herói! – Trish disse.
— Obrigada por salvar o John Travolta. Eu não tenho palavras pra te agradecer!
O rapaz sorriu e inventou qualquer desculpa para seguir seu caminho antes que elas pudessem enchê-lo com baboseiras. Garotas loucas. Ontem eu salvei a vida delas e ganhei xingamentos e reclamações. Hoje salvei um maldito cachorro e fui chamado de herói.
Adrian bufou e aumentou o passo da corrida, até perceber que estava perto de casa. Uma van passou, e nela havia a inscrição “Hot Dog”, e o desenho de um cachorro todo chamuscado, como se tivesse sido queimado.
Eu estou vendo muitos cachorros por hoje. E pessoas também. E entrou em casa, esperando que houvesse um belo jantar o aguardando.
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Já passava das sete da noite e o pet shop estava quase fechando. Jesse chegou afobado, completamente vermelho e suado pela corrida. Cão Felpudo colocou a língua para fora, igualmente cansado.
— Será que vocês poderiam dar uma olhada no Felpudo? Eu sei que está tarde, mas ele realmente está precisando de um banho.
O cão ganiu em resposta, e a atendente sorriu.
— Sem problemas... Jesse?
Ela sabe meu nome.
O rapaz entregou o cão para a mulher, e ele seguiu-a docilmente. Jesse então se sentou em uma cadeira e retirou um livro de sua mochila, para ler enquanto aguardava. O livro era pesado, e devia ter no mínimo umas setecentas páginas.
— Você vai realmente ler tudo isso? – Uma segunda atendente, que havia aparecido pra substituir a primeira, o indagou.
Jesse sorriu, tentando ser o mais amigável possível. Cada nova pessoa que conhecia era uma nova chance de conseguir um amigo, ou pelo menos alguém que não o detestasse.
— Na verdade eu estou relendo. É que eu acabei o quinto livro, e vai demorar algum tempo para o escritor escrever o sexto. Daí eu decidi recomeçar a série. Esse é o livro quatro.
A garota fitou-o com os olhos castanhos esbugalhados. Mais uma que eu perco. Mas que culpa ele tinha se os guerreiros, donzelas e monstros dos livros que lia, eram mais atenciosos que as pessoas da sua vida real? Jesse conhecia e tinha mais contato com os personagens de seu mundo fantástico do que tinha com os do seu mundo real.
O rapaz então ouviu o barulho de uma freada brusca, e então alguns gritos. A atendente correu para dentro, por qualquer motivo que Jesse não soube dizer. O rapaz imediatamente aproximou-se da porta de saída, investigando o motivo da balburdia através dos vidros onde ficavam expostos animais e artigos para os bichos. Há essa hora não havia mais cãezinhos ou gatinhos ali, já que estavam todos guardados. Havia apenas vários utensílios para animais, como coleiras, caminhas, e um poste de madeira feito para gatos arranharem.
E então viu a van branca com o cachorro chamuscado.
Tommy passeava de bicicleta há alguns metros dali, e viu o automóvel passar em alta velocidade ao seu lado. O motorista tentava, em vão, frear a van. A velocidade se mantinha regular e crescente, e ele então moveu o volante. Tommy viu o exato momento em que aconteceu.
Jesse abriu a porta do pet shop. Olhou para o lado direito e não viu nada. Teve pouco tempo para olhar para o lado esquerdo antes de ser atingido em cheio pelo veículo. A van bateu nele com um enorme impacto, jogando-o com força para dentro da vitrine. Os vidros se quebraram, e o corpo de Jesse foi arremessado contra o poste de madeira, sendo que um de seus “braços” cravou-se na barriga do rapaz. Jesse cuspiu bastante sangue e olhou para seu estômago, onde agora havia um pedaço de madeira perfurando-o.
Arfou algumas vezes e, como um bravo cavaleiro, morreu.
Tommy parou sua bicicleta há vários metros do lugar, e manteve-se afastado, apenas observando. Ele tinha conseguido ver a morte exata do rapaz, embora não tivesse total certeza de quem ele era. Mas então o reconheceu. É o geek que saiu do clube com a gente ontem. Que ironia.
Suspirou e voltou a pedalar em direção à casa de sua namorada.
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Adrian tocava o piano com a delicadeza de um verdadeiro pianista. Não gostava daquele instrumento, era calmo demais para ele. Mas fora o primeiro que aprendera a tocar e, mesmo hoje, mais de dez anos depois, seus pais ainda mantinham-no na sala de estar. Charlene aprendera na mesma época que ele, mas desistira de continuar com as aulas. Ela tentara balé, mas na época não funcionou muito bem. Por fim encontrara seu lugar na natação, e era quase um peixe. Mas o rapaz continuara com os instrumentos musicais, e do piano seguiu para a bateria. E foi aí que finalmente encontrou o seu lugar. As baquetas e os pratos lhe permitiam a fúria e a movimentação pelos quais era tão apaixonado.
Com as teclas isso não ocorria, embora a harmonia fosse muito maior.
Mesmo assim, era o piano que tocava naquele momento, e não a bateria. E Adrian não saberia dizer o porquê. Ele tinha perdido sua bateria no desastre no Baja Junkie, mas isso não era motivo suficiente para fazê-lo voltar ao piano.
Quando terminou Moonlight Sonata, alguém entrou na sala. Ele sabia quem era antes mesmo de olhar para trás.
— Há quanto tempo você não tocava Adrian?
— O piano, você diz? Se for, quatro meses. Mas bateria eu toquei ontem.
— Tocou? – Charlene parecia incrédula.
— Pensando bem eu não tive tempo.
A irmã concordou e sentou-se ao lado dele na banqueta em frente ao piano. Disse:
— Eu nunca tive paciência pra esse treco. Sempre achei muito complicado.
Adrian riu, julgando que a irmã estivesse fazendo uma brincadeira.
— Complicado?! Eu vi as suas tarefas de álgebra. Quem consegue resolver aquilo, com certeza consegue tocar qualquer instrumento musical do universo.
— Não necessariamente. Aquilo são contas, são coisas exatas. Elas exigem um lado diferente do seu cérebro.
Isso explica porque eu sou bom com os instrumentos musicais e péssimo com os números.
— Pois eu preferia ter desenvolvido o lado do cérebro que você desenvolveu. Não ligo pra porcaria do piano, ou a porcaria da bateria. Eu queria era saber os números. Eu queria não ser tão burro, e imbecil, e paranoico, e...
Charlene recostou sua cabeça no ombro do irmão, e disse:
— E eu daria tudo pra ser burra como você, pra ter o seu talento com os instrumentos, os esportes... Você é sortudo, isso sim. O mundo não é dos inteligentes, Adrian. Ele é dos talentosos. E não existe ninguém mais talentoso do que você. Em qualquer área.
Adrian esboçou um meio sorriso, e abraçou os ombros da irmã.
— Sabe... Algumas vezes eu me pergunto... Acho que a minha vida seria muito mais fácil se eu tivesse nascido você e não eu. — O rapaz disse.
Charlene levantou sua cabeça abruptamente, e afastou-se dele.
— Nunca mais diga isso. Nunca mais repita isso.
O rapaz estranhou a reação da irmã.
— Por que tanta hostilidade Charlene? Eu falei algo indevido?
A garota parecia bastante magoada, como se o irmão estivesse debochando dela.
— Se você acha que a sua vida seria mais fácil se você fosse eu... Você está redondamente enganado. E você sabe disso.
E ela estava prestes a sair porta a fora quando alguém bateu. Adrian pediu para que entrasse, e foi surpreendido com a presença de Tommy. O rapaz estava bastante vermelho e esbaforido. Cumprimentou Charlene com um beijo rápido e disse ainda ofegante:
— Vocês não sabem o que eu acabei de ver.
— Conta, Tommy! Você está me deixando assustada.
O rapaz olhou para os dois lados e, em tom de quem contava um segredo, disse:
— Sabem aquele geek que saiu do clube com a gente ontem? — E diante dos acenos com a cabeça, continuou: — Ele está morto.
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