Premonição 3 - Depois do trem
1 Capítulo 1 - Deixando os trilhos
Eu sobrevivi ao acidente de trem na estação 180. As chamas e a fumaça negra foram tudo em que meus olhos conseguiram se focar quando acordei em meio aos destroços espalhados sobre os trilhos, aquele era um cenário aterrorizante. Depois de um tempo, as ambulâncias chegaram. Queria me levantar e perguntar para uma daquelas pessoas se Kevin e Julie estavam bem, mas não conseguia me mexer. Não tenho certeza, mas, acho que se passaram horas até que me localizassem. Quando acordei no hospital e recebi a notícia de que Julie havia morrido, tudo o que eu queria era sumir. Só me recuperei depois de dias, não aguentava mais derramar uma lágrima sequer. Mas agora estou bem.
É inverno, uma manhã fria e cinzenta de sábado. Olho para o calendário ao lado da minha cama, Dia de Ação de Graças. Eu teria comemorado, pulado de alegria ou coisa do tipo ao lembrar que hoje é um dia especial, se tivesse sobrado alguém para comemorá-lo comigo. Já se passaram 8 meses desde o acidente, mas não parece que se passou tanto tempo. Levanto-me e vou para a cozinha pegar uma xícara de café. Preciso da cafeína para me concentrar, já que os pesadelos da noite anterior ainda estão em minha mente. Posso ter escapado da morte, ou seja lá o que estava me perseguindo depois de ter escapado do acidente na Devil’s Flight, mas isso ainda me acompanha nos meus sonhos...todas as noites.
Não é sempre o mesmo sonho, ao contrário e pior, são sonhos completamente diferentes, em que me encontro em diferentes lugares, é aterrorizante e me faz querer acordar e não voltar a dormir nunca mais. No último pesadelo eu estava de volta ao Red River Adventure Park, mas estava sozinha. Andei pelo local em busca de algum sinal de vida, mas tudo o que pude encontrar foram os brinquedos vazios, enferrujados. De repente tudo começou a ganhar vida. O carrossel começou a girar sozinho, o simulador de voo ligou-se com um barulho ensurdecedor e o que me fez tremer e ficar enjoada: os carrinhos da montanha-russa começaram a andar sem nenhum comando. Eu tinha a consciência de que tudo não passava de um sonho e tentei acordar o mais rápido possível, pois sabia que aquilo tudo seria só o começo de mais um dos meus terríveis pesadelos diários. Mas eu simplesmente não tinha a capacidade de fazer isso, não tinha o controle sobre minha própria mente.
Uma força me puxava para dentro dos carrinhos e era uma sensação horripilante não conseguir me mexer. O ar estava rarefeito, como se tudo aquilo estivesse se passando em um local muito alto, e por mais que tentasse, não conseguia respirar normalmente, o que só deixava tudo mais assustador. Entrei em pânico, tentei agarrar um pilar de metal que fazia parte de um brinquedo chamado Space Loop, mas ele simplesmente se dissolveu em minha mão, deixando uma gosma preta e pegajosa, que queimava a minha pele. Gritei por ajuda, mas obviamente, ninguém apareceu. Estava chorando e a única coisa visível naquele momento eram formas borradas e luzes coloridas por toda parte, por causa das lágrimas que me impossibilitavam de enxergar qualquer coisa em sua forma normal. Por alguns segundos, consegui identificar uma sombra. Ela estava escondida em uma velha e deserta barraca de churros, e infestou o ar com um cheiro horrível. Talvez fosse a Morte? Não sei, estava com muito medo para raciocinar algo.
Quando finalmente desisti e fui puxada para dentro do carrinho, ele não começou seu percurso original, e sim um totalmente diferente. Começou a andar para trás, lentamente, até que a velocidade aumentou e as travas de segurança se soltaram. Estava tremendo. Como no dia do acidente, tentei me segurar o máximo de tempo possível, mas quando chegou à parte do Looping, não tinha como suportar. Eu caí violentamente sobre os trilhos e surpreendentemente consegui me levantar, mas alguns segundos depois uma coisa estava vindo em minha direção e, que eu me lembre, não era o carrinho, mas uma coisa parecida. Sim, era um trem, em alta velocidade, que me atingiu brutalmente. Mas pelo menos ele me fez despertar daquele pesadelo horripilante.
Fico enjoada só de pensar nisso, é como se tudo o que aconteceu naquele parque ainda estivesse comigo, me seguindo incansavelmente.
Depois de terminar o café, decido tomar banho. Ligo a torneira e espero a banheira encher, enquanto isso pego um livro e me permito fugir da realidade, pelo menos por um tempo.
Estou terminando um capítulo quando sinto uma sensação estranha, muito estranha. É como se algo não estivesse certo. Vou até o banheiro, mas nada está fora do lugar, na verdade, é um cenário bem comum. Eu devo estar ficando completamente maluca. Bem, isso já era de se esperar, alguém que escapa da morte duas vezes não pode ter uma mente normal.
Tento esquecer isso, tiro o meu pijama e piso nos ladrilhos gelados do banheiro, louca pra ter um belo e longo banho quente para me aquecer nesse inverno. Estou prestes a entrar na banheira quando a companhia toca. Não é comum eu receber visitas no apartamento. Desde que a Julie morreu, me mudei para cá e ninguém costuma dar as caras por aqui, se lamentando pela morte dela ou me consolando. O que é bom, gosto de ficar sozinha. Então, a essa hora da manhã, não tenho a mínima ideia de quem possa ser.
Visto um roupão de banho e vou atender a porta.
Kevin.
-Kevin, o que está fazendo aqui?
-Você está bem? – Ele pergunta preocupado.
-Estou ótima, por quê?
-Eu tive um pressentimento.
- O quê? Espera, eu também senti algo parecido.
- Sério? Precisamos conversar. Estão acontecendo coisas estranhas.
O que deu nele?
- Entre, fique a vontade, só vou trocar de roupa.
Kevin nunca foi de se preocupar muito com as pessoas. Egocêntrico. Essa palavra é perfeita para defini-lo, em seu pensamento todas as ações deveriam ser voltadas para seus desejos e anseios. Por isso acho estranho que tenha vindo até aqui só por causa de um “pressentimento”.
Visto uma calça jeans e uma blusa de frio, lamentando ter que esperar mais para tomar banho e me livrar dessa aparência de sono. Quando volto para a sala observo a expressão de Kevin. Ele está sentado no sofá, preocupado, olhando fixamente para as mãos, cabeça baixa. Nunca o vi assim.
— Então, o que aconteceu? –Eu pergunto me sentando ao seu lado.
Ele balança a cabeça, como se não acreditasse em si mesmo e então fala:
- Eu não tive um pressentimento Wendy, eu tive uma premonição.
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