Premonição 1: Sem Saída
10 Um Epílogo
Notas iniciais
Dizem que toda pessoa, pra poder continuar a ter uma vida saudável logo após a perda de alguém querido, precisa passar pelas cinco fases do luto. Com Bobby e tudo o que se sucedeu após seu suicídio não há clareza.
As semanas que se seguiram após o acidente foram trágicas e desoladoras. Nada consolava Lily, Melissa, Jane ou Michael. Nada traria Bobby de volta, e era difícil, quiçá incapaz, para esses últimos, entender os motivos que levaram o filho a fazer isso. Boa vida, bons estudos, boa namorada, carreira promissora. Por que acabar com tudo assim, de uma hora para outra?
Quando teve tempo para raciocinar, muito tempo depois do ocorrido, Melissa tratou de escrever uma falsa carta de Bobby para eles. A garota sabia que o irmão não se despedira dela, mas não gostaria que os pais tivessem a mesma dor. Por isso tratou de arranjar explicações inexplicáveis para o ato de Bobby. Em seu íntimo ela sabia o real motivo, embora não desejasse perguntar a Lily ou Alice. Não havia necessidade. Bimbo morrera e não havia mais volta.
Foi numa tarde chuvosa que ela entregou a eles o envelope, dizendo ter encontrado-o dentro de um livro de Bobby. Jane, que tinha os olhos inchados, pareceu ter novo fôlego com o bilhete. Na carta, o rapaz declarava todo o seu amor por eles e pouco tentava justificar seu ato. Mas aquilo fora o suficiente pra acalentar, embora de forma microscópica, o sofrido coração dos seus pais.
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Lily suspirou e retirou o bastão. O risco vermelho era claro como água. Um misto de alegria e melancolia tomou conta da garota. Não estava acabado ainda. Alice, que esperava do lado de fora do banheiro, gritou:
— E aí Lily, o que deu?
A outra nada respondeu. A tristeza que estava guardando desde o fatídico dia, deu lugar a uma empolgação sem tamanho, que, aos poucos, engoliu sua amargura de tal forma que só restou a saudade. A saudade eterna. Era quase mágico saber que dentro de nove meses a pessoa que ela mais amaria estaria em seus braços. Era mágico saber que ele vivia dentro dela.
— Eu... Estou grávida. – Lily declarou, por fim.
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As visitas de Matt à Beth eram frequentes e, embora a avó da garota sentisse uma dor de flashback toda vez que via o garoto, não impedia o seu contato com a menina. Ele já sabia que a Beth não era sua filha, mas os avós da criança não. Tanto os pais dele quanto os pais de Jamie achavam que o bebê era fruto de ambos.
— Eu te amo, sabia? – Matt beijou o nariz de Beth.
A garota riu, quase gargalhando. A avó, que estava parada no batente da porta, não conseguiu conter um sorriso.
— A Beth é um milagre. – Declarou.
— Sim, ela é o nosso milagre.
O rapaz apertou a garota contra seu peito e desejou ficar daquele jeito para sempre.
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Foi numa quarta-feira à tarde que Alice se viu pensando em suas duas premonições: a do acidente de Pepper e a do suicídio de Bobby. Por que ela? Aliás, por que Bobby? Não havia motivos coerentes para que ambos tivessem visões claras do futuro, mas acontecera. Ele previu o acidente de trem, e ela previu duas mortes. Em nenhum dos casos o resultado final compensou ou foi satisfatório.
Por fim, Alice concluiu que aquele dom era uma maldição. As palavras de Lily, tentando convencê-la a saber mais sobre isso, ecoaram em sua cabeça. A ruiva chegou a ficar tentada a saber as razões, mas por fim resolveu ignorar o assunto. Se fosse possível, não queria nunca mais ter contato com o sobrenatural pelo resto de sua vida.
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— Eu estou grávida do Bobby.
A situação era a seguinte: Lily em frente à Jane, Michael e Melissa. Os pais do rapaz estavam estáticos. Melissa deu pulos de alegria. Jane quase desmaiou. Quando a mulher conseguiu colocar a cabeça em ordem, sua reação foi próxima a da filha, embora mais contida.
— Quer dizer que um neto meu está dentro de sua barriga? Uma parte do meu Bobby?
Lily maneou a cabeça afirmativamente e Jane abriu um sorriso consternado. Lágrimas imediatamente brotaram em seus olhos. Ela abraçou a mãe de seu neto com força, querendo ficar assim para sempre.
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A barriga de Lily já incomodava no dia em que ela e Alice saíram com Jimmy e Luke para tomar um sorvete. Enquanto os garotos se divertiam no bufê, as duas comiam suas sobremesas numa mesa ao ar livre.
— Sabe Lily, se eu morresse hoje eu só me arrependeria de uma coisa.
— Esquece esse papo de morte, Alice. Você vai me fazer perder o apetite. E olha que com esses meninos famintos aqui dentro de mim, isso é muito difícil.
Alice sorriu, mas continuou:
— É sério, Lily. Sabe qual é a única coisa da qual eu me arrependeria?
Lily fez uma careta e nada disse.
— Lembra o meu ataque de histeria depois que a Roxy sofreu o acidente na lancha?
A outra se manteve imóvel. Não queria se lembrar de nada daquilo.
— Eu disse que ela era minha única amiga, se lembra?
Nenhuma reação.
— Se você tivesse ideia do quanto eu quis reaver essas palavras! Eu daria tudo, todo o dinheiro de papai, o helicóptero do padrinho, nossa casa de férias... Tudo. Tudo pra não ter dito aquilo. Não imagino o quanto aquilo te magoou. E, mesmo assim, você se manteve fiel a mim. Não me negou ajuda nem nos piores momentos. Talvez eu tenha dito que Roxy era minha única amiga porque é verdade. Você não é minha amiga, você é minha irmã.
Dessa vez Lily esboçou reação. Um sorriso bobo, aliado a um balbucio de “obrigada”. Não teve tempo de dizer muita coisa, porque Jimmy e Luke já chegavam.
— Eu sento do lado da Lily! – Jimmy declarou, sob protestos de Luke.
— E ninguém quer ficar do meu lado não, é? – Alice fingiu estar magoada.
Os garotos riram.
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Matt subiu ao quarto de Bobby pela primeira vez após o acidente. Já fazia mais de seis meses e tudo permanecia intacto. O lençol estava do exato jeito que ele deixara, amassado.
— Pode pegar o que quiser, querido. Se puder ajeitar algumas coisas, seria de grande ajuda pra mim... – Jane declarou, saindo rapidamente antes que as lágrimas lhe traíssem.
O rapaz então percebeu que Jane não entrava ali desde a morte de Bobby, por isso tudo estava do exato jeito que ele deixou. O pensamento do amigo e uma boba conversa sobre virgindade desarmaram Matt. Em segundos ele estava caído no chão, com a cabeça entre as mãos, chorando tudo o que havia guardado por seis meses. Abraçou um boneco de ação de Bobby e encharcou a camiseta com as lágrimas. Sentiu, pela primeira vez, a dor.
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— Eu decidi ir pra universidade, pai. Eu sei que estou um ano atrasada, mas quem liga? Um cara de Yale entrou lá só aos vinte e cinco. – Alice declarou triunfante.
Ela e Matt iriam para a mesma universidade. Ela cursando Design de Moda e ele cursando Direito. Continuavam bons amigos, e apenas isso. Uma amizade sincera e verdadeira, que sobrevivera a diversos altos e baixos.
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Lily já não conseguia mais nem andar direito. Seus bebês gêmeos pareciam ser gigantescos, já que sua barriga estava de um tamanho colossal. Ela estava pensando exatamente nisso quando sentiu que a bolsa se rompeu. O líquido escorreu por entre suas pernas, inundando o lençol da cama.
— Mãe!
Ginger apareceu com uma rapidez formidável e em segundos já ligava o carro para levar a filha ao hospital. No caminho ela ligou para Alice e Jane, avisando-as. A ruiva chegou ao local antes mesmo da gestante. Estava eufórica:
— Meus sobrinhos estão nascendo! A Beth está mesmo precisando de amiguinhos!
O parto correu bem, como esperado. Os bebês, Max e Bimbo, nasceram bem, embora com uma pequena surpresa, que Lily descobriu apenas depois de já estar em seu quarto esperando para amamentar os filhos. Junto a ela estavam Jane e Alice.
— Srta. Millwood?
A garota sorriu, maneando a cabeça afirmativamente. O velho médico pigarreou e disse:
— Bom, eu não vou fazer rodeios. Um de seus bebês, ao que tudo indica, é portador de uma síndrome bastante rara e peculiar chamada “síndrome cri-du-chat”, vulgarmente conhecida como “síndrome do miado de gato”. Essa síndrome é facilmente identificada durante o período pré-natal, então suponho que a senhora tivesse ideia de que a criança...
— Não, eu não tinha. Cadê meus filhos? Eu preciso vê-los agora!
O médico baixou os olhos.
— A enfermeira já vai trazer um deles. Com o outro nós precisamos fazer mais alguns exames acerca da síndrome...
A garota começou a chorar tanto que o homem permitiu que ela visse os filhos, embora um deles apenas através de um vidro no berçário.
Com Max no colo e olhando Bimbo pelo vidro, a diferença visual entre eles era clara como água. O primeiro possuía uma face robusta e avermelhada, além de olhos grandes e vívidos que pareciam brilhar. O segundo possuía uma beleza igualmente fascinante, porém peculiar. Suas orelhas eram grandes, os olhos estreitos e havia um pequeno corte característico em seu lábio.
— Vocês são tudo na minha vida. – Lily murmurou próxima ao vidro, e desejou que Bimbo tivesse a escutado.
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Com o passar dos meses e dos anos, Lily acabou percebendo que a síndrome de Bimbo era um problema ínfimo, e algo que lhe dava forças para continuar vivendo. O fato de que ela mancava era o único mínimo incômodo em sua vida. Porque, afinal, incômodo era a última coisa que Bimbo era. Ele era especial. Tal qual Max. Tal qual Bobby.
Mas era latente a diferença no modo como eles se desenvolviam. Com um ano de idade, Max deu seus primeiros passos, enquanto Bimbo não conseguia nem mesmo manter-se de pé. De certa forma isso aproximou ela ainda mais dos gêmeos.
— Vocês são a herança de amor e generosidade que o seu pai deixou pra nós, meus amores...
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Na lápide de Bobby, Melissa segurava um ramalhete de rosas. Já fazia dois anos, e ela finalmente estava indo para uma universidade, então decidiu despedir-se do irmão mais uma vez. Não chorou. A alegria dos sobrinhos tomava conta de sua vida, e, lá no fundo, ela sabia do ato de heroísmo do irmão.
Suspirou e deixou as flores no túmulo. O vento soprou forte e Melissa teve certeza que Bobby também estava feliz, onde quer que estivesse...
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