Notas iniciais
Primeiro capítulo, espero que gostem! :D

Bobby estava deitado em sua cama lendo um livro qualquer, pensando em qualquer coisa. Gostava disso. Era bom saber que tinha todo o tempo do mundo pela frente, para fazer tudo, para fazer nada. Faltava apenas um semestre de aulas e ele logo estaria formado. Já tinha recebido diversas cartas de aprovação das mais prestigiadas universidades do país, embora ainda não tivesse ideia do que iria fazer. Não, ele não conseguira Harvard ou Yale. Mas perto disso. Suas notas eram boas o suficiente para uma bolsa em uma importante universidade particular. Talvez se mudar, começar uma nova vida... Era o que Bobby queria. Faltava avisar Lily, sua namorada. Toc, toc. Pensamentos interrompidos.

— Esqueceu que eu vou passar a noite aqui, cara?

— Haha, desculpa Matt, entra.

Matt era o melhor amigo de Bobby. Ele possuía os cabelos curtos e castanhos claros, e os olhos negros e estreitos, como os de uma ave de rapina. Entrou desajeitadamente, derrubando suas malas em um canto qualquer do quarto.

— Três malas, mocinha? — Bobby brincou.

— Fica quieto, eu não consigo usar a mesma roupa por dois dias seguidos.

Bobby riu. Ele era bem mais alto e forte que Matt, um rapaz franzino. Possuía os cabelos escuros e penteados em um topete e os olhos em um tom de azul celeste.

Eles fariam, no dia seguinte, uma viagem bastante divertida, algo pré-formatura. Um passeio de trem, seguido por uma semana divertida com os amigos em uma casa de férias. Não era nada escolar, embora a maioria dos envolvidos fossem colegas de classe. A dona da casa era Alice, uma amiga em comum deles. Ela havia convidado a todos para o passeio, garantindo que a casa era enorme e haveria lugar para eles. O grupo estava indo em cerca de dez pessoas.

— Eu estou tão animado pra essa viagem, cara! – Matt exclamou.

— Porque você vai perder a virgindade?

— Cala a boca, Bobby. Você tem essa pose de macho alfa, mas duvido que tenha chego até o final com a Lily.

— Você está certo.

Bobby fez uma cara de frustração.

— Esperando pelo casamento? – Matt perguntou.

— Formatura. Pode isso?

— Garotas... – O amigo pareceu refletir.

— Como é mesmo o nome da tal amiga da Alice que você está afim?

— Jamie.

— E você conhece essa menina pessoalmente?

— Só por fotos.

— E se você tiver uma surpresa desagradável? Hoje em dia, com photoshop e tudo mais, nunca se sabe...

Matt resmungou.

— Tanto faz cara. Mesmo que ela não seja bonita, ainda sim eu estou apaixonado. Nós conversamos muito pela internet, e ela é perfeita. Inteligente, geek, divertida...

Bobby sorriu.

— Me parece perfeita mesmo.

Matt sorriu junto. Sim, ela era. Jamie e ele começaram a conversar pela internet há cerca de um mês. Ambos eram amigos de Alice e ambos estavam solteiros. A garota então decidiu dar uma forcinha, e passou o contato de um para o outro. Os dois acabaram se entendendo e queriam se encontrar. Eles eram o principal motivo pelo qual aquele passeio de férias estava acontecendo.

— Bom, de qualquer forma eu espero fazer algum avanço nessa viagem. – Bobby começou. — Quem sabe no clima descontraído de uma viagem de férias com os amigos, a Lily não acaba deixando de lado essa bobeira de esperar pela formatura?

— Tomara parceiro. Tomara. Ia ser triste ver seu amigo geek desajeitado perdendo a virgindade antes de você, macho alfa do colégio, Mr. Quarterback.

Bobby riu, argumentando:

— Haha, você sabe que não é bem assim, Matt. Eu sou o completo oposto desses estereótipos, e você é a prova disso. Se eu fosse o capitão do time de futebol bully desses filmes slasher, nós com certeza não seríamos amigos. Então eu ainda ser virgem é... Natural.

Matt riu alto.

— Claro, natural. Você é bobo, isso sim. Se eu fosse atlético como você já teria pegado metade das meninas daquele colégio.

— Como se todas as garotas se jogassem aos meus pés né?

— Porque a Lily fica em cima. Ela faz questão de mostrar a todos que você é dela.

Era verdade. Lily era extremamente possessiva e ciumenta. Não podia ver qualquer garota se aproximando de Bobby que fazia um escândalo. A única em quem ela confiava era, ironicamente, Alice, famosa por suas aventuras sexuais malucas.

— Voltando a você... Porque você não, sei lá, pediu pra Alice “te dar uma mãozinha”? Sem querer soar machista e babaca, mas ela já dormiu com todo mundo mesmo... Não acredito que ela diria não a um amigo. Um amigo de longa data, aliás.

— Você soou machista e babaca sim, cara, haha. Mas sei lá... Eu acho que não teria coragem. Quando ouço o nome da Alice a única coisa em que eu penso é naquela garotinha ruivinha irritante que ficava quebrando os meus carrinhos no primário.

Bobby sorriu. Ele, Lily, Alice e Matt se conheciam desde os cinco anos de idade. Muito aconteceu entre eles, mas continuaram sempre amigos.

— Posso lidar com isso.

De repente a mãe de Bobby, Jane, abriu a porta:

— Janta, garotos.

Os dois desceram rapidamente. Na mesa, a família toda já havia começado a jantar. Bobby morava com sua mãe, seu pai Michael e três irmãos: a do meio, Melissa, e os gêmeos mais novos, Luke e Jimmy.

— O Mattonto está aqui! Legal! – Jimmy exclamou, rindo.

Jimmy e Luke tinham seis anos. Melissa tinha quatorze. Os três possuíam os mesmos olhos delicados e ingênuos de Bobby.

— Haha, boa Jimmydiota.

Michael, Melissa, Bobby e Luke começaram a rir.

— Boa!

x-x-x-x-x

Alice olhou em seu relógio: dez horas. Devia levantar antes que seus amigos começassem a chegar. Ela iria levar Jamie, Roxy e Eric, que não conheciam os outros. Eles estavam envergonhados de chegarem sozinhos ao terminal de trem e nem ao menos reconhecerem os colegas de classe de Alice.

Wake up, bitch! – Alice puxou a coberta de Lily, rindo.

— Mais dez minutos, vai... – Lily resmungou.

Alice possuía uma beleza descomunal. Os cabelos eram de um tom de laranja bastante forte, e os olhos azuis acinzentados acentuavam ainda mais o semblante “destrutivo” dela. Apesar de igual beleza, ela e Lily eram completamente diferentes. Enquanto Alice era destrutiva, Lily possuía uma aparência apaziguadora, gentil, confiável. Tinha os cabelos loiros longos e os olhos calmos e azuis escuros, quase violetas.

— Nem dois minutos. Levanta!

Alice começou a pular na cama de casal, rindo. Ela e Lily dormiam juntas desde que tinham cinco anos e uma ia dormir na casa da outra. A cumplicidade e amizade das duas era bastante bonita. A mãe de Alice, Madeline, interrompeu a bagunça, surgindo na porta:

— A Roxy e o Eric já chegaram, querida. E o Artie já confirmou que a casa está toda limpa, só esperando você e seus amigos.

Artie era o caseiro da família de Alice. Ele trabalhava para eles há mais de quinze anos.

— Obrigada mãe, já vamos descer.

Lily sentou-se na cama, esfregando os olhos.

— Ânimo, garota! It’s gonna rock!

A outra sorriu de maneira ainda sonolenta. Prendeu seus cabelos loiros para trás num coque e entrou no banheiro. Alice foi se arrumar no banheiro de sua mãe. Em minutos estava pronta e recepcionando os amigos:

— Acordamos a Bela Adormecida, foi? – Eric brincou.

— Haha, não, eu já estava acordada. E aí, animados?

— Ô! O Eric está levando a prancha dele pra vocês brincarem um pouquinho.

— Maravilhoso! A lancha do papai vai estar lá, vamos fazer estragos imensos!

Os três riram. Alice conhecia Eric e Roxy há anos. A garota viajara com ela durante o ano em que Alice fora estudar no Canadá. Eric era canadense e se mudou apenas para continuar namorando Roxy. Ele estudava e morava agora na casa dos pais da garota, e já era certo que os dois se casariam logo após a formatura. Um amor bonito e precoce. Além de tudo, os dois eram extremamente bonitos. Eric com seus cabelos e olhos castanhos e seu sotaque impecável; e Roxy com os cabelos tingidos de duas cores: caramelo e castanho escuro, combinando com os olhos dourados.

— Vocês dois sabem como eu morro de inveja de vocês né? Quem me dera encontrar um amor assim...

— Talvez você já tenha encontrado e ainda não percebeu... – Roxy sugeriu.

É, talvez. Alice tinha muitos affairs e dificilmente tentava seguir em frente com algum dos relacionamentos. Talvez ela já tivesse encontrado seu príncipe encantado e o deixou escapar. Talvez. Desistiu de pensar nisso.

x-x-x-x-x

— Lily, tem uma coisa que eu preciso te dizer. Nós... Não estamos mais dando certo. Logo após a formatura eu vou me mudar, fazer universidade em outro estado. Já é algo planejado e eu não vou mudar de ideia. Você merece alguém melhor, alguém que te ame da forma que eu te amei há um ano. Da forma como eu não te amo mais.

Matt abriu a porta do banheiro com a mão no zíper da calça, interrompendo o discurso treinado de Bobby.

— Eu quero mijar, cara.

Bobby riu e saiu do banheiro. Era isso. Ele iria terminar com Lily durante a viagem, não importava como. Não conseguiria fingir por muito mais tempo. Ele já havia a amado, muito. Mas já não era como antes. Ele já não conseguia sentir nada por ela, e não havia ninguém para culpar.

x-x-x-x-x

— Bobby, tem uma coisa que eu preciso te dizer. Eu sou completamente apaixonada por você e não quero te perder, nunca. Por isso eu decidi... Eu... Quero fazer sexo com você. Nós não precisamos esperar até a formatura, eu estou pronta. Mais pronta do que nunca.

É, estava bom. Decidida, Lily prendeu os cabelos e saiu do banheiro.

x-x-x-x-x

Bobby e Matt foram os primeiros a chegar à estação de trem. O lugar estava deserto, havia apenas umas dez ou doze pessoas ali. Nenhuma delas era conhecida.

— Chegamos cedo demais, parceiro.

— Ou não. – Matt respondeu apontando para um grupo que chegava.

Era o grupo de Alice. Ela vinha com Lily, Eric, Roxy e Jamie. O coração de Matt parecia querer sair pela boca.

— Oi garotos!

Alice estava entusiasmada e cumprimentou os amigos. Bobby e Lily deram-se um beijo e Alice começou a apresentá-los, entre trocas de beijos no rosto e apertos de mão.

— Oi Jamie.

Matt estava nervoso. A garota à sua frente era linda. Ela possuía os cabelos negros e curtos. Usava um vestido bandage sem alças e preto, deixando à mostra as tatuagens em seu braço e busto. Seus olhos estavam sensualmente escondidos atrás de uma pesada maquiagem negra.

— Você é ainda mais fofo pessoalmente! – Jamie disse para Matt.

O rapaz sorriu encabulado. Não teve tempo de tentar puxar assunto, pois o restante do grupo já chegava. Eram Naomi, Lubo e o Pepper.

Hey guys! – Alice correu para abraçá-los.

Naomi era uma amiga de Alice, Lily, Bobby e Matt, e eles a conheciam bem. Ela era apaixonada por biologia e um pouco conservadora em suas ideias. Estudiosa, dificilmente bebia ou se exaltava. Uma chata. Bom, nem tanto. Ela era apenas mais diferente dos outros. Tinha os cabelos dourados e lisos e os olhos grandes, azuis e expressivos.

— Uau, que cabelão Naoms!

Pepper era amigo de Matt e Bobby, especialmente. Gostava de andar de skate e tinha uma queda por Alice. O mais bobo dos amigos, não perdia uma oportunidade de fazer piada. Era bom tê-lo por perto. Descendente de indianos, seu primeiro nome era “Manik”, mas ele detestava e acabou ganhando o apelido de Pepper por ser apaixonado por pimentas. Seus olhos e cabelos eram escuros.

— Esses são Jamie e blá, blá, blá...

O último dos rapazes era Lubo, também do colégio de Bobby e Matt e amigo deles. Cego, era talvez o mais sensível e romântico de todos. Já havia namorado com Naomi e a traído com outra garota do colégio, o que deixava o fato de os dois estarem ali, juntos... Estranho. Considerado pelas garotas como o “garoto mais fofo da escola”, Lubo tinha os olhos castanhos esverdeados e os cabelos cor de chocolates bem curtos. Tinha a aparência doce e o semblante tranquilo.

— Cara, olha essa camiseta do Lubo. Acho que a mãe dele quis sacaneá-lo. – Pepper brincou, apontando para a t-shirt onde se lia “I’m blind, not deaf”.

Lubo ergueu as sobrancelhas e disse:

— Primeiro: como a minha camiseta já diz, eu sou cego, não surdo, Pepper. Segundo: eu mesmo consigo me trocar, não preciso que minha mãe me vista. E terceiro: seu boné é que é ridículo.

Todos caíram na gargalhada, inclusive Lubo. Pepper ficou emburrado e tirou seu boné, entregando-o a Lubo, que o colocou na cabeça.

Well, já que estamos todos aqui e já fomos todos devidamente apresentados, let’s go? – Alice disse, tomando a dianteira do grupo.

Todos a seguiram. Lily e Bobby estavam abraçados.

— Nós precisamos conversar, amor.

— Depois, Lily.

O grupo entrou no trem ainda rindo e se divertindo. Os bancos eram coletivos e ficavam encostados nas paredes, de ambos os lados. Todos se sentaram, com exceção de Pepper. Roxy e Eric ficaram mais para frente, um pouco afastados do resto do grupo. O trem partiu.

Bobby olhou pela janela atrás dele e teve um calafrio: ele só conseguiu ver um precipício, um buraco sem fim. Do outro lado havia uma montanha. Se o trem descarrilasse para a direita a queda seria brusca, não havia nada para ampará-los.

— Eu vou ao banheiro. – Lily disse.

A garota seguiu em direção ao último vagão, onde ficava o banheiro. Cerca de vinte segundos depois todos ouviram um estrondo. Começou fraco e de repente explodiu. Uma bola de fogo vinda do último vagão atingiu em cheio todos que estavam lá. O vagão soltou-se e escorregou, caindo no abismo. Todos gritavam. Foi quando o trem começou a ir a uma velocidade absurda, jogando as pessoas umas contra as outras e contra os objetos. Roxy foi arremessada em direção ao buraco onde deveria ficar o último vagão que caíra, batendo com força nos trilhos e tendo seu corpo esmagado. Eric gritou e acabou soltando-se da barra de ferro que segurava, tendo o mesmo destino de Roxy.

— Se segura, Naomi!

— Não da!

Naomi gritou e soltou-se, voando para fora e caindo no abismo. Os que ainda restavam no trem se seguravam com força, torcendo para não serem “sugados” para fora do veículo. Pepper não teve forças e também soltou, batendo com força numa barra de metal e caindo ao lado de Jamie com o rosto esmagado. A garota gritou. O sangue respingou em Bobby.

— Socorro! – Alice gritava.

Só se ouviam os gritos. De repente o penúltimo vagão começou a soltar-se também. Jamie estava no extremo do antepenúltimo vagão, e quando o penúltimo soltou-se ela acabou sendo levada junto, explodindo com a caixa de ferro.

Então, de repente, o trem parou bruscamente durante uma curva. Bobby teve certeza de que iriam cair no abismo. O vagão virou-se lentamente, jogando Lubo e algumas outras pessoas através da janela. Ele estava caindo no precipício.

Bobby levantou-se e tentou correr mais rápido, pular nos trilhos antes que acabasse no buraco com o restante do trem. De repente aconteceu. Bobby pulou no trilho, segurando os braços de Alice. Matt caiu no abismo junto do restante do transporte.

— Alice, você está bem?

O rapaz segurava os braços da garota na beira do precipício, mas ela não respondia. Bobby puxou a garota para longe da beirada e levou um susto ao perceber que estava segurando apenas metade do corpo de Alice. A outra metade havia sido cortada com força na queda do trem. Bobby largou o corpo da amiga e correu para o extremo esquerdo dos trilhos. Começou a chorar. Não teve tempo de continuar. Outro trem vinha em alta velocidade e ele viu o exato momento em que o veículo se chocou contra seu corpo.

Bobby suava frio.

Well, já que estamos todos aqui e já fomos todos devidamente apresentados, let’s go? – Alice disse, tomando a dianteira do grupo.

Todos a seguiram.

— Nós precisamos conversar, amor.

— Não, não entrem no trem! – Bobby gritou.

O grupo parou e olhou para ele.

— Não entrem! Esse trem vai descarrilar, nós todos vamos morrer!

Pepper começou a rir.

— Que história é essa, Bobby? Tá, me diz, qual o nome da erva que você fumou e quem foi que te vendeu?

Bobby começou a esfregar a cabeça.

— Não tem erva nenhuma, eu não estou drogado. Esse trem vai sofrer um acidente e nós todos vamos morrer. Por favor, me escutem!

Lily olhou séria para Bobby, que suava descontroladamente:

— Amor, não tem graça.

— Eu não estou... – Antes que Bobby terminasse sua frase ele viu o trem fechar suas portas e seguir. Ele começou a correr, gritando para pararem o veículo. Em vão. Ele seguiu seu caminho.

— Parabéns Bobby, perdemos o trem. — Naomi disse.

— Calada.

Foi quando ouviram um estrondo. Pow! O barulho foi seguido por gritos e som de ferro se chocando. Todos olharam para trás e viram o exato momento em que o trem saiu da linha e começou a cair no abismo que ficava ao seu lado direito.

— Mas que... Merda! – Pepper parecia estar falando por todos.

Alice tapou a boca e soltou:

What… The… Fuck!

x-x-x-x-x

— Tudo bem Bobby, se importa em nos explicar como diabos você sabia que o trem ia cair?

O grupo estava sentado em círculo na clareira de uma floresta há alguns metros da estação de trem. O local estava um fervo, com vários policiais, ambulâncias e bombeiros, embora a chance de haver sobreviventes ser quase nula.

— Eu... Não sei. Eu apenas vi. Foi como um sonho. Eu vi todos vocês morrerem, depois a minha própria morte. Foi tão real que eu não pude evitar...

Bobby abaixou a cabeça, cansado. Lily abraçou-o.

— Eu já li sobre uma coisa parecida. – Jamie disse, surpreendendo a todos. — Vocês já ouviram falar do acidente com o voo 180?

Todos negaram com a cabeça.

— Há uns nove anos atrás, um grupo de estudantes estava indo à Paris para sua viagem de formatura quando um garoto disse ter tido uma visão do avião explodindo no ar.

— E...? – Naomi quis saber.

— Ele desceu do avião junto de alguns amigos e a coisa realmente explodiu, como ele havia previsto! Mas vocês sabem o que foi mais estranho?

Todos fizeram cara de dúvida.

— Passou algumas semanas e tudo parecia normal. Mas então um dos sobreviventes morreu. E depois outro. E outro. Até que todos acabaram morrendo em circunstâncias estranhíssimas.

O grupo ficou sério. Pepper começou a rir:

— É sério isso, Jamie? Porque me parece o episódio cancelado de alguma série de ficção científica.

— Eu juro! Se vocês duvidam podem procurar na internet sobre o voo 180, na época houve o maior estardalhaço em cima disso, porque foi um acidente grande, várias pessoas morreram. Meu padrinho foi um dos advogados da empresa quando ela foi processada pela família das vítimas.

— E como você ficou sabendo da morte do povo após o acidente? – Bobby perguntou.

— Eu sou interessada nesses fatos misteriosos ou sobrenaturais. Encontrei um blog só sobre premonições, lá tem diversos depoimentos de supostos sobreviventes de acidentes que alguém acabou prevendo. Daí eu achei sobre o voo 180. Mas a maioria das pessoas que escreveu lá provavelmente já está morta...

— Isso é besteira e vocês sabem disso. So, please, let’s go... – Alice começou.

— E se não for, Alice? – Bobby perguntou.

— Mas é. E vocês vão ver. O que você teve foi apenas um presságio, uma sensação ruim...

— Foi diferente! Mais forte! Eu vi todo o acidente, eu vi vocês morrerem.

— Que seja. O máximo que isso irá me fazer é, quem sabe, voltar a acreditar que existe um ser superior cuidando por nós. Tudo bem, mamãe tenta me fazer acreditar em Deus há anos. Mas acreditar que vou morrer só porque não estava naquele trem? Shut up!

Lubo interveio:

— Mas você entendeu a lógica, Alice? Na teoria as pessoas deviam morrer no acidente, era o destino delas. Ou o nosso, que seja. Quando alguém tem uma visão, uma premonição, ele destrói o desígnio da morte. Por isso ela volta pra buscar os sobreviventes. Porque eles... Nós... Não devíamos estar vivos...

Pepper fez um “MUAHAHA”, assustando a todos.

— Vocês estão malucos e não vão me deixar maluca com vocês. Eu vou ligar pro meu pai e pedir o helicóptero do meu padrinho. De jeito nenhum vou perder minhas férias graças a um incidente desses. O Bobby nos salvou, beleza. Vou aproveitar e comemorar a segunda chance que me foi dada. Espero que estejam comigo. Se não estiverem, bom... I feel sorry for you, guys. – Alice declarou, decidida.

Antes que qualquer um pudesse dizer qualquer coisa, Alice pegou seu celular e discou para o pai.

— Paizinho da minha vida, eu estou fula da cara. Nós acabamos de perder a droga do trem e não tem próximo. Será que você, em sua imensa bondade, pediria o helicóptero do padrinho emprestado? Só por hoje, vai, paizinho...

— Ela está falando sério? – Bobby cochichou com Lily.

— Ela tem certa razão, Bobby. Eu esperei tanto por essas férias, não quero perdê-la por conta disso... Só se você fizer questão de não ir, daí eu fico com você.

Bobby pensou durante alguns segundos. Sua cabeça estava uma bagunça. Será que toda aquela teoria de que a morte agora estava atrás deles era verdadeira? Será que eles estavam mesmo destinados a morrer? Era muito a se pensar. Bobby olhou ao seu redor e viu todos conversando. Estavam divididos. Queriam muito ir à viagem, mas não queriam parecer insensíveis quanto ao que houvera com ele. Provavelmente era melhor seguir com o plano original, não estragar o passeio de ninguém. Quem sabe se divertindo com os amigos ele não esqueceria o que houve? Restava tentar...

— Tudo bem. Como diria Alice... Let’s get this party started!

Notas finais
Segundo capítulo já foi escrito, posto em breve. See ya!