Prelúdios Etéreos I: A Ascensão
9 Capítulo 8
O refeitório era um espaço amplo, repleto de mesas retangulares com espaços para seis cadeiras cada. Dispostas em fileiras, ocupando de uma ponta a outra o local, quase não reservando espaços para as pessoas transitarem. Arthuel falou “com licença” ao menos cinco vezes, seguido de um “obrigado” para as congratulações que recebia pelo primeiro lugar até conseguir encontrar um lugar para se sentar.
Estranhamente, aquela mesa estava vazia, e todas ao redor lotadas com até oito pessoas. Ao se sentar ali, Arthuel sentiu-se desconfortável, quase como que quebrando alguma regra. Alguns olhares tortos foram dirigidos a ele, mas Cyriac tentou ignorá-los enquanto possível.
Estava comendo sua porção de salada com carne (a sempre equilibrada porção que ele fora ensinado a comer diariamente no almoço), até que outra pessoa sentou-se à mesa.
O garoto que dividira o quarto com ele.
Danyel Kadrach.
O indígena era um tanto metódico em relação aos seus costumes ancestrais, por isso Arthuel demorou certo tempo para conseguir dormir na noite anterior. É difícil cair no sono quando há alguém cantarolando algo sobre florestas, rios e lobos, de joelhos, no quarto.
Kadrach se colocou no lado oposto ao de Arthuel na mesa.
O garoto pardo de cabelos escuros e raspados nas laterais da cabeça trazia em seu prato uma única folha de alface.
— Não conseguiu encontrar outra mesa, também?
Danyel não parecia muito atento. Fitava o seu prato, mas algo dizia que não era em comida que ele pensava.
— Digo, essa é a única mesa vazia. Estranho, não? – Arthuel riu um pouco, e aumentou a entonação de suas palavras.
Danyel pareceu sair de um transe, e piscou rapidamente.
— Já vi coisas mais estranhas, Arthuel. – ele falava como se já fosse próximo de Arthuel. – Mas isso definitivamente é incomum.
— Você costuma comer tão pouco em todas as refeições? – a pouca variedade do prato do garoto mais velho despertou curiosidade em Arthuel.
— Aprendi a sobreviver com a menor quantidade possível. Não posso me acomodar. Manter o hábito. – falou aquilo quase que como um discurso ensaiado previamente.
Apesar de ser apenas um ano mais velho que Arthuel, Kadrach de fato parecia colecionar muitas vivências.
— Parece útil. Conte-me mais – disse, enquanto mastigava. Estava claro que Danyel era fechado em relação a pessoas que não entendiam seus hábitos. Mas Arthuel sabia que deveria simpatizar com o máximo de pessoas que conseguisse.
Danyel, antes encurvado, retesou-se. Olhou fixamente para Arthuel.
— Você me acha estranho, não é? Eu entendo. O mundo de vocês, das grandes cidades, o ar sujo e difícil de se respirar, os grandes veículos de metal, é tudo completamente novo pra mim.
Apesar de tudo, seu tom indicava uma amistosidade misteriosa. Danyel não queria ser rude.
Arthuel apenas deu de ombros.
— É complicado compreender o ponto de vista alheio. Os costumes, tudo isso. Eu estudei o quanto pude sobre os hábitos dos nativos boreais do Reino, mas o seu povo— Arthuel teve medo de soar de alguma maneira preconceituoso com aquele termo – sempre foi fechado demais para que nós das metrópoles pudéssemos entendê-los a fundo.
Kadrach sorriu.
— Arthuel, nós, os kalari, nunca tivemos absolutamente nada contra vocês… nos fechamos ao longo dos séculos. Nossos encontros, a princípio pacíficos, se tornaram puramente em jogos de interesses. Interesses belicosos. E isso não é algo honroso para meu povo— Arthuel ficou aliviado ao ver que o indígena usava o mesmo termo – e nem deveria ser para o seu.
Ele tinha razão. Infelizmente, ainda pairava no ar a tensão, desde que os syrel surgiram do mar e das montanhas, dominando completamente todo o Reino e anexando-o a seu Império. Apesar de todos viverem habituados a tal domínio, os homens ainda guardavam rancor dos seres de pele vermelha, sempre se julgando superiores às outras raças.
Embora fosse hipocrisia. Os feciter que o digam.
— Quem sabe um dia… e espero que estejamos vivos nesse dia… Quem sabe possamos ver todos os povos em paz.
— Me parece um tanto otimista. Até demais. Talvez o primeiro passo nessa longa caminhada para a comunhão seja um contato maior com a natureza. – ele olhou com certo desprezo em redor, como que desaprovando a aparência do refeitório – Por que comer em espaço fechado? O vento não os deixa engolir? O sol queima as comidas frias? As aves roubam seus mantimentos?
Arthuel não conseguiu deixar de rir; as dúvidas de Danyel eram verdadeiras. A inocência em seu tom dizia isso.
Justo quando os dois começavam a criar alguma empatia, uma figura apareceu em pé, ao lado de Danyel, com um prato na mão.
O rapaz alto, provavelmente um syrel, parecia receoso de pedir algo. Olhava nervosamente para a mesa.
— Você quer sentar? Fique à von…
— É minha.
Ele pronunciou aquilo sem sequer piscar, e a frase não expressou nenhum sentimento.
— Desculpe, o que disse?
— A mesa. – apontou com o indicador. – É minha. Poderiam, se não for incômodo, se retirar?
Arthuel não estava com a menor vontade de iniciar uma discussão, por mais sem noção que fosse o sujeito que se proclamava o dono da mesa.
— Hm, nesse caso, perdão. Somos calouros. Eu não fazia ideia de que as mesas possuíam donos.
— Sem problema. Acontece. Mas, sério. Levantem.
— Mas… – Arthuel não sabia mais o que falar para tentar fazer o syrel mudar de ideia.
Felizmente, Danyel cooperou, como que percebendo a dificuldade do colega de quarto.
— Nós ainda não terminamos de comer. Não há mais lugares disponíveis. Seria pedir muito para que ao menos esperasse pelo término da nossa refeição?
Apesar do vozerio presente no local, abarrotado por estudantes, por alguns segundos o silêncio pareceu pairar no ar, enquanto o jovem de pele vermelha pensava em sua resposta.
— Justo. Mas…
— O quê? Pode se sentar. Não vamos lhe incomodar.
— Poderia se sentar na cadeira à direita? Eu costumo sentar exatamente aí, onde você está.
Ele estava chegando ao cúmulo.
Mas Arthuel, agora consciente da falta de nexo nas exigências do syrel, não questionou.
— Afinal, qual o seu nome? – perguntou, enquanto se movia para a direita, cedendo lugar ao sujeito.
— Não que isso seja relevante. Mas é Arulus. Syrel da linhagem vallerici. – agora seu tom revelava um ar ligeiramente esnobe. Mas sentir orgulho de suas raízes é algo aceitável.
— Interessante. Parente distante do Império, não é? – Arthuel estudara as diversas linhagens syrel do Império, e suas árvores genealógicas.
— Sim, muito distante. Felizmente. Detesto a corrupção que se alastra pelo palácio imperial. Kaius II está se mostrando um governante ainda pior que seu pai. Triste. Mancha a honra da minha raça. Não quero meu nome associado à família imperial.
— De fato. Meu povo não possui nada pessoal contra o Império, cujo reino do qual, enfatizo, não somos súditos, é vassalo. Mas definitivamente, em cada encontro com o povo de pele vermelha, cada vez menos esporádicos, podemos sentir, quase farejar, a corrupção que exala de suas armaduras ornamentadas de bronze e ouro. – Danyel agora parecia extremamente interessado na pauta. Enquanto isso, seu prato continuava ali, intocado. Ele não devia estar mesmo com fome. Arthuel também se sentia cheio.
Mas pretendia ficar ali, fingindo estar interessado na refeição, apenas para ouvir a interessante discussão que se iniciara.
— De repente vocês não me parecem má companhia. – Arulus sorriu vagarosamente, como que deliciando-se mais com a conversa que surgira na mesa do que com sua porção de...batatas e algo que parecia uma maçã, mas com certeza não era uma. Talvez algum fruto misterioso e comum nas terras além-mar de onde vinham os syrel. – Dentre todos os recém-chegados a esta instituição, vocês dois me parecem os menos estúpidos.
Ignorando o desnecessário termo usado por Arulus ao final da frase, aquilo essencialmente era verdade. Arthuel e Danyel foram, por obra do destino, os dois primeiros colocados. Pobre Julian Syinke.
Sobre Arulus, o sujeito era uma pessoa estranha, e Arthuel não sabia definir se no sentido ruim ou agradável.
O syrel parecia estar analisando tudo a todo tempo, como que esperando um inimigo à espreita, pronto para dar o bote. Sua capacidade de assimilar informação também era impressionante, a julgar pela sua afirmação sobre os dois colegas de quarto com quem agora dividia a mesa do refeitório. E eles se conheciam há menos de dez minutos.
— O que fazem aqui? Qual o nome de vocês? – indagou repentinamente ele.
— Hã...comemos? – respondeu, com outra pergunta, Danyel.
— Não – Arulus revirou os olhos – O que fazem aqui, nesta instituição? Que objetivo os trouxe à Grande Academia de Elyrach?
— Estudos. Apenas isso. Ascender na carreira, adquirir o máximo de conhecimento possível. É para isso que eu vivo. – falou Arthuel, dando de ombros. Ele estava sendo sincero – E sou Arthuel.
— Interessante. Recomendo que tente achar algum outro objetivo. Algo mais concreto. Estudar por estudar vai te levar à desistência. Falo isso como Candidato Primário ao Conselho Institucional da Fundação.
Candidato Primário. Conselho Institucional.
Arthuel já tinha ouvido falar naqueles dois termos, mas não tinha ideia do que poderiam significar realmente. Algo ligado à alta cúpula que coordena a Academia, talvez.
— Chamo-me Danyel. Venho aqui procurando entender como funciona a sociedade urbana. Quanto mais a fundo conhecê-los, mais facilmente poderei alcançar uma possível paz como líder dos kalari. – mais uma vez, Danyel pronunciou aquela frase sem expressividade alguma, como que ensaiando um discurso.
— Estranho. Acho que criei uma certa afeição inconsciente pelo seu discurso utópico, Kadrach. – o sarcasmo e a língua afiada de Arulus começavam a incomodar.
Antes que Danyel pudesse retrucar, porém, uma quarta voz pôde ser ouvida nitidamente em meio às centenas, talvez milhares de sons no refeitório.
— Posso me unir à discussão?
Um garoto naklerin louro, com o cabelo relativamente desnivelado nas laterais e olhos azuis num tom escuro, se apresentava amigavelmente, com a mão direcionada à cadeira na sua frente. O único alimento que trazia consigo era uma maçã na mão, já mordida.
— Está perguntando se pode se sentar?
Seus olhos brilharam. Ele parecia animado com a proposta.
— Eu posso?
— Claro… – Arthuel se lembrou que não era o dono da mesa ali. – Ele pode, não pode? – se virou para Arulus.
— Certamente. – o syrel gesticulou, em desdém – Se vocês já ultrapassaram o limite que impus, por que motivo qualquer outra pessoa não poderia, certo?
— Gaderi— falou Danyel discretamente, aparentemente tentando soar como que pigarreando.
— O quê? – perguntou Arthuel.
— É uma expressão popular dos kalari. Denota incômodo com a atitude ou o jeito de ser de uma certa pessoa com a qual se tem contato. Não estou certo, Kadrach?
— De fato, está. – disse o indígena, com um sorriso desconfortável no rosto.
— Me pergunto o porquê de tê-la usado nesse momento. Não consigo encontrar utilidade para tal termo na nossa conversa. Poderia nos dizer, Kadrach?
— Kadrach. Como sabe meu sobrenome?
— Ora essa. Você comentou ser herdeiro da liderança dos kalari, e todos bem sabem que a linhagem Kadrach é a detentora de tal posto. Certo?
A capacidade de raciocínio de Arulus começava a assustar Arthuel.
— Hm, desculpa incomodar, mas… afinal, eu posso sentar ou…
— Pode, claro que pode. – respondeu o jovem dos vallerici. O garoto loiro rapidamente sentou-se, a duas cadeiras de distância de Arulus. – Sinceramente? Vocês merecem um prêmio. Uma recompensa pela coragem ao invadir meu espaço particular. – caiu na gargalhada.
— Podemos saber desde quando essa mesa pertence a você? – perguntou Danyel.
— Desde que eu sou o Candidato Primário ao Conselho Institucional da Fundação. Ou talvez um pouco antes disso, minha memória me falha agora. Pode ter sido quando fui eleito o Conselheiro Principal do Corpo Discente. Ou Grão-Representante da Academia em Território Extracurricular. Confuso. – se virou para a direita, olhando fixamente para o novo garoto – E você, qual o seu nome? Objetivo aqui dentro? Ambições?
Ele parecia surpreso em se tornar repentinamente o foco da conversa. Arthuel também estava. Arulus parecia ter dificuldade em se concentrar numa única pauta por muito tempo.
— Victor – falou, enquanto mastigava um naco de maçã – E sobre meus planos aqui, acho que eu cometeria um grande erro em contar.
— Victor? Victor Harland? O garoto que tentou escalar o muro?
— Ah, sim… o último colocado.
Arulus arregalou os olhos, e assim o fez também Victor. Porém, enquanto o primeiro tentava controlar o riso, o outro rapidamente ficou nervoso.
— Último? O último colocado?
— Acho que vocês estão enganados. Eu passei em centésimo oitavo.
Arthuel se sentiu, por algum motivo, tentado a acreditar naquilo. Mas, com certo esforço, conseguiu convencer-se de que aquele era mesmo o garoto que atraíra a atenção de todos ao tentar escalar o muro, exatamente quando chegara a vez do primeiro colocado recitar o juramento.
Concluiu que Victor estava provavelmente envergonhado pelo que acontecera na cerimônia de iniciação, então resolveu ajudá-lo. Ele sabia que o constrangimento é uma das piores sensações que se pode proporcionar a um ser humano. Quanto aos syrel, ou os feciter, ele não fazia ideia.
— Oh, sim...peço desculpas. Minha cabeça está meio que sobrecarregada. Muita coisa aconteceu nos últimos dias. – Arthuel levou a mão à testa, sorrindo discretamente para Victor.
— Do que está falando? Você é definitivamente Victor Harland! – Danyel se exaltou um pouco ao final da frase, mas não por maldade. Provavelmente era apenas mais um costume kalari, exagerar na entonação de frases, ou algo do gênero. – Eu não costumo esquecer facilmente de um rosto.
— Ouvi dizer que um guerreiro da tribo Kalarya consegue reconhecer um único lobo no meio de uma alcateia, apenas com um olhar de relance. – Arulus soltou aquela frase de maneira tão vaga, fitando o nada, que parecia estar em outro mundo.
— Não passa de mito. Se conseguimos isso de fato, é pelo olfato, não pela visão.
— Ora, ora. É bom termos alguém com experiência para nos dar resoluções do assunto! – Arulus bateu palmas ironicamente – Mas, afinal, você é ou não é Victor Harland?
Victor suspirou, baixando a cabeça.
— Sou.
— Ha. Parece que um de nós possui péssima memória. – disse Arulus a Arthuel.
— Não falem muito alto, por favor. – pediu Harland, escolhendo cuidadosamente as palavras, a julgar pelo ritmo compassado da frase.
— Eu o entendo perfeitamente, Harland. – o syrel pareceu ponderar sobre o que dissera por alguns segundos – Certo, não tão bem. Sempre fui o primeiro colocado em tudo que participei. Mas posso compreender sua situação. Eu também consideraria um constrangimento ter meu nome associado às últimas posições de uma lista de aprovados. Mas não fique triste, ao menos você é um aprovado. Existem outros milhares de indivíduos que conseguiram ser ainda mais fracassados ao sequer conseguirem passar nos exames.
Arthuel ficou boquiaberto. Pela primeira vez naqueles quinze ou vinte minutos, Arulus expressara alguma afeição e compreendimento em relação ao problema de outro indivíduo. Exceto pelos já esperados trechos de soberba, aquele discurso fora um tanto inspirador.
Antes que alguém pudesse balbuciar alguma coisa, porém, uma sirene ecoou por todo o refeitório, e além: o som estridente ressoava por todo o edifício, aparentemente.
— Parece que a diversão acabou. – comentou Arulus, como se aquilo fosse música para seus ouvidos. O som era tão alto que Arthuel, seguido por todos os outros novatos, tapou os ouvidos com as mãos, soltando imediatamente os talheres, que tilintaram ao cair na mesa, gerando ainda mais poluição sonora.
A sirene continuou a tocar por alguns segundos a mais que pareceram durar uma eternidade, até que, pouco a pouco, seu volume foi diminuindo, tornando-se nulo um tempo depois.
— Hora de voltar para o quarto, crianças. – O syrel se levantou, e por alguns instantes tudo que se pôde ouvir no local foi o ecoar dos seus passos, seguindo em direção a uma grandiosa entrada do outro lado do refeitório que, Arthuel tinha certeza, não estava ali antes.
Logo o burburinho estava novamente instaurado ali. Os alunos, novatos e veteranos, se levantaram, ainda conversando, todos seguindo em direção aos seus quartos. Nenhum deles ousou sequer chegar perto da entrada por onde Arulus fora.
Arthuel fez o mesmo. Victor logo seguia seus passos, mas ultrapassou Arthuel rapidamente, como se quisesse sumir dali o quanto antes. Sumiu numa esquina entre dois daqueles longos corredores. O lugar parecia ter sido projetado para funcionar como uma espécie de labirinto.
Após um tempo e certo esforço na procura, Arthuel conseguiu chegar ao seu quarto. Mas não havia sinal de Danyel.
Esperou cerca de meia hora, enquanto organizava seus pertences para a aula que viria, e o kalari continuou sumido.
Resolveu não se preocupar. Se ele era, de fato, um guerreiro kalari, que caçava seres míticos nas florestas antigas, certamente não corria grande risco dentro da Grande Academia, um lugar repleto de jovens sem rumo na vida.
Treinou, de forma solitária, um pouco de esgrima. A próxima aula só seria em algumas horas.
Era o que fazia quando tentava ocupar a mente com algo produtivo.
Já cansado, estava hesitante quanto a tirar ou não um cochilo, mas um barulho incessante e inquietante tirou-o do transe.
Alguém batia à porta.
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