Notas iniciais
Feliz 2019, pessoal! O plano para esse ano é terminar esta obra, torçam por mim e até o próximo capítulo (que deve sair ainda esse mês)

Pela primeira vez desde a cerimônia de entrada, Victor via aqueles portões abertos, embora não por completo. De toda forma, era seu primeiro vislumbre vívido do mundo lá fora em muito tempo, mesmo que ainda existisse um longo caminho entre aqueles muros e o resto da civilização que circundava a Academia. Como no dia da cerimônia, o céu estava limpo. Os invernos de Elyrasia eram amenos, mas a maioria dos milhares de presentes estavam agasalhados de maneira apropriada.

A roupa que mais se destacava naquelas fileiras repletas de suéteres era a do Grão-Mestre, vestido em sua impecável túnica branca. Darkas já era praticamente uma entidade onipresente na Academia; fosse qualquer evento, lá estava ele. Victor estava surpreso que o ancião não comparecera à festa da semana anterior. Sentados atrás dele, vários conselheiros. Reconhecia os irmãos de roupas florais e o syrel que era Mestre das aulas de combate, apesar de não saber o nome de nenhum deles. Não podia mentir para si; a imponente mulher de cabelos branco-prateados e a jovem morena sentada de maneira descontraída eram de fato bonitas.

A estátua de Elyrach, centenas de metros atrás dele, emitia uma energia diferente naquele dia. Um pilar de luz se erguia até os céus a partir da base da gigantesca imagem dourada do Soberano que defendia a Justiça. E, mesmo que não estivesse olhando, Victor e todos os outros presentes podiam sentir uma diferença no clima da Academia. Era um momento incomum.

A algumas fileiras de distância, Elae acenava para que Victor viesse sentar ao seu lado, onde uma cadeira estava sobrando. Rapidamente, porém, o assento foi tomado pelo mesmo garoto grandalhão que havia os separado meses antes. Harland deu de ombros. Estava feliz, de toda forma, que a garota não o evitasse completamente, como temeu que pudesse acontecer.

Viu outros rostos conhecidos, como era natural numa cerimônia que convocou todos os acadêmicos. Arthuel estava rodeado por veteranos esnobes e calouros sanguessugas, mas fazia pouco caso da companhia: estava verdadeiramente atento às palavras de Darkas. Já Danyel acompanhava o evento em pé, descansando sob a sombra de uma árvore.

Ao seu lado, claro, estava Britan, ainda se recuperando do tombo de dias antes. Sua perna continuava imobilizada enquanto ele conversava distraidamente com Sora, sentada à sua direita. Antes ela do que o próprio Victor. À distância, no outro lado da multidão, viu Valimund e Vinicus, inquietos. Se esforçou para não ser notado por eles.

Já havia algum tempo que não ficava tão próximo aos muros. Ainda se questionava o que teria criado nele a atração hipnótica que sentira na outra vez. De qualquer forma, parecia estar imune ao efeito, felizmente. Não gostaria de ser repreendido por Darkas na frente de uma multidão ainda maior. Precisava se manter discreto o tempo inteiro.

O Grão-Mestre, a propósito, tecia comentários elogiosos a um homem chamado Barren, o que era estranho, já que o sujeito de armadura azulada e expressão tranquila ao seu lado chamava-se Pavel. Pelo pouco que Harland de fato ouvira e entendera, Barren era um antigo confrade de Darkas e Pavel era um de seus discípulos.

— A Ordem de Edrevas pode ter perdido seus números, mas mantém seu respeito e sempre zelou pelas boas relações com a Ordem de Elyrach. Contar com um dos Cavaleiros Silenciosos é uma imensa honra e a minha expectativa é de que possamos colher bons frutos ao acolhê-lo aqui, Sir Setmus. – o velho tomou fôlego.

Pavel apenas acenou com a cabeça. O elmo fechado estava em sua mão esquerda, junto à cintura. Andava de capa também azulada e tinha ao alcance de sua destra uma espada longa, embainhada, cuja única parte visível era o cabo ornado com detalhes em prata e branco. A característica mais marcante de seu rosto marcado era o nariz torto. Sobre os seus olhos caía uma franja loira do lado esquerdo. Não sorria, mas também não parecia sério demais. Sua expressão era absolutamente neutra, o que deixou Harland um pouco incomodado.

Por um instante, ele pareceu encarar Victor de volta. Em autodefesa, o garoto desviou o olhar para qualquer lugar. Ao acaso, estava novamente olhando para Arthuel e os idiotas que o cercavam. Cyriac já não prestava a devida atenção ao discurso. Tinha saído de seu assento e encarava um elemento tão notável quanto o cavaleiro de armadura metros à frente: as colossais paredes, iluminadas pelas linhas douradas do conjuramento que mantinha os portões abertos.

Oh oh. Victor reconhecia o olhar do garoto mesmo à distância.

Uma salva de palmas começou. Harland sentiu-se obrigado a acompanhá-la. Pelo jeito, o momento era reservado para algumas palavras de Pavel Setmus, o mais novo Conselheiro a tomar a cadeira 24 no Elareum. Enquanto aplaudia, o garoto acompanhava com discrição e certo desespero a lenta aproximação do colega prodígio em direção ao muro. Ninguém mais parecia perceber o fato. Mesmo os amigos de Arthuel estavam distraídos rindo e apontando para Britan ou para o Grão-Mestre.

— As literaturas de minha Ordem favorecem aqueles de poucas palavras e muitas ações, e eu não poderia ser diferente. – o cavaleiro agora estava à frente da pequena comissão do Conselho no púlpito em frente ao público – Estou aqui para contribuir. Apenas isso. Agradeço a confiança do Grão-Mestre Haldhopper e de todos os outros Conselheiros, de coração. Muito obrigado.

Outra salva de palmas. Alguns dos conselheiros sentados no fundo do púlpito fizeram cara feia, especialmente a de cabelos brancos no meio deles. Mas Victor tinha maiores preocupações, embora também aplaudisse para manter aparências.

Arthuel já estava afastado de seu grupo. Não havia mais tempo, e mais uma vez Victor não deu ouvidos a sua parte racional: levantou-se e caminhou com bastante pressa até o louro. Como que de propósito, foi interrompido por uma garota um pouco mais velha. Ela segurava alguns cartões.

— Oi! Me chamo Lorelei. E você?

— … Victor. – respondeu impaciente.

— Bom dia… – ela piscou e balançou a cabeça – Boa tarde, Victor! Já pensou, por acaso, em fazer parte de algum clube? O de arquearia, por exemplo.

— Eu não sou lá muito bom atirando… – já nem olhava para a ruiva. Arthuel continuava caminhando com olhar deslumbrado.

— Não tem problema! A gente aceita todo mundo por lá. E, caso não goste de tiro, aqui na Academia tem todo tipo de clube! – ela mostrou alguns dos cartões ilustrados que tinha nas mãos. Clube de música, clube de montaria, clube de teatro, clube de alquimia… – Não sei se você sabe, mas eles ajudam na carga horária…

— Já sei disso. Não ando com tempo sobrando. – respondeu impaciente. Tentava se deslocar, mas a garota bloqueava a passagem.

— É sempre importante criar vínculos na Academia. Você nunca sabe se vai precisar de aju…

— Desculpa, mas podemos conversar depois? Eu tô com um pouco de pressa agora – não esperou a resposta, apesar de ouvir um “mas…” desanimado à medida em que se afastava dela e se aproximava de Arthuel. A conversa estava tomando rumos esquisitos. O tom dela era um pouco assustador.

Victor esperava não chamar atenção demais. Pedindo passagem por alguns alunos e esbarrando em muitos outros, finalmente chegou perto de Arthuel. Ele já estava frente a frente com o muro e estendia a mão na direção da pedra maciça.

Pousou a mão em seu ombro esquerdo.

— O que pensa que está fazendo, Cyriac? – sentiu o corpo inteiro dele tremer, indicando susto. Ele virou-se para Victor e recolheu a mão direita.

— Huh? – seu olhar era confuso. Victor entendia o sentimento.

— Darkas não iria gostar nem um pouco disso. Aqueles caras – apontou para o sentinela de armadura mais próximo – menos ainda.

— Eu… tô um pouco tonto – respondeu. – Você também ouviu?

— Ouvi o quê?

— Ah. Esquece. – constrangido, Arthuel deu alguns passos para trás – Obrigado, de todo jeito. – sorriu, talvez como um cumprimento, mas o nervosismo no gesto era completamente legível.

Victor não se preocupou muito em responder, porém. Cyriac desfez o sorriso e voltou ao seu lugar, nitidamente com a cabeça em outros lugares. Harland sentiu um calafrio percorrer a nuca. Se sentiu observado. Por pura precaução, afastou-se dos muros. No trajeto de volta a seu assento, notou que era acompanhado pelo olhar do príncipe kalari. Fitou-o de volta, mas sentiu-se intimidado pelos olhos lupinos do indígena, escondidos sob o pequeno freixo.

Afinal, após muitos “com licença” através da fileira, sentou-se novamente. Percebeu que a voz que ressoava pelo ambiente vinha da mulher de cabelos prateados do Conselho. Ela já falava há algum tempo, mas Victor só prestou atenção a partir de um trecho demasiado específico:

— … o fim dos Cavaleiros Silenciosos. É graças a Pavel que essa… honorável ordem se mantém viva. Sinta-se em casa, Sir Setmus. – acostumado que era a dissimulações, o garoto se surpreendeu. A mulher era mesmo boa na arte de fingir que se importava com o que estava falando. Provavelmente todos os presentes acreditavam no discurso. Ela parecia usar da postura como uma espécie de hipnose. Não era muito fácil de compreender, mesmo para Victor. Mas ela tinha algo de diferente.

Outra salva de palmas.

Após isso, os Conselheiros desceram e se dirigiram ao Elareum. Os Guardiões fecharam os portões. Foi o fim da cerimônia, ou pelo menos a parte que os estudantes eram obrigados a presenciar. Pavel Setmus era uma figura curiosa.

As aulas estavam encerradas naquela tarde. Estava se dirigindo de volta ao Habitares, mas foi obrigado a parar quando uma voz conhecida o interpelou:

— Como estão os preparativos, Harland?

Como ele temia. O syrel sorria, mas o companheiro ao seu lado mantinha-se sério. Ambos vestiam as malhas típicas das aulas de Arquearia.

— Vinicus… olá. Não precisam se preocupar. Terei tudo pronto ainda essa semana, acho. – gesticulava, como um ilusionista tentando desviar a atenção do público. Desde criança, era fascinado pelos ilusionistas.

— Acha? – o tom de Valimund era pouco animador.

— Precisamos de algo. E rápido. Como um sinal de boa vontade.

— Você não mostrou nada até agora. Estamos ficando impacientes.

Victor achou curiosas as frases no coletivo que os dois utilizavam. Estava claro que eles falavam em nome da vontade de Aclus, mas citar seu nome em público não seria uma boa ideia sob nenhum aspecto.

— Uma semana. E só. – tentava transparecer tranquilidade, não com muita efetividade. – É tudo que peço.

— Cinco dias. É o limite. – Vinicus assumiu de repente a mesma persona ameaçadora do colega – Não nos obrigue a decidir por uma mudança de métodos, Harland. Até outro dia. – ele acenou. Em seguida, a dupla partiu. Tinham aljavas nas costas.

Sentindo o suor escorrer pelas têmporas, Victor engoliu em seco.