Prelúdios Etéreos I: A Ascensão
4 Capítulo 3
Definitivamente não era o que Lars esperava.
Elyrasia era grande, mas não tão movimentada quanto Gael comentara.
— Essa é mesmo a parte central da cidade?
— É. – respondeu secamente Gael; ele nunca fora de muitas palavras.
— Tem certeza? Ela parece meio...vazia.
O comentário de Lars apenas refletia a realidade: poucas pessoas estavam nas ruas. Apenas alguns mercadores aqui e acolá; de vez em nunca, encontravam um viajante recém-chegado à cidade.
— Hoje é uma dia...especial.
— Especial? De que modo?
Gael se virou para Lars, impaciente.
— Já tentou parar de fazer perguntas?
— Talvez eu pare se você me der as malditas respostas de uma vez, ao invés de falar em partes.
Gael assentiu, suspirando.
— Hoje a cidade para porque a cerimônia de iniciação dos aprovados para a Grande Academia está ocorrendo neste exato momento. Satisfeito?
— E agora você vem com perguntas. – Lars riu, mas Gael não.
Ele pensou em uma infinidade de outras perguntas para fazer, mas resolveu deixar Gael em paz.
O sujeito tinha motivos para estar impaciente; eles viajaram (junto com uma caravana movida a cavalos) desde Mirasia, no noroeste do Reino, até a capital Elyrasia. E quando chegaram ao destino, o indivíduo misterioso que os convidara não estava no lugar marcado, na hora marcada.
E desde então, os dois estavam procurando alguma estalagem.
Mas todas que não beiravam a precariedade desumana estavam lotadas. Culpa das centenas, talvez milhares de parentes que vieram junto com seus respectivos filhos, sobrinhos ou afilhados para o grande evento que Gael comentara.
Era o fim da tarde; o sol irradiava cada vez menos. Lars ouvira de um caravanista que aquela seria uma noite de duas Luas; sabe-se lá como alguém pode ter conhecimento disso.
Chegaram a uma estalagem. Era a sétima tentativa.
— Há vagas? – Gael já chegou perguntando, sem hesitar.
— Depende do quanto você pode pagar. – respondeu o estalajadeiro.
Lars sentiu uma melancolia súbita. Saber que estava quase mendigando um quarto numa estalagem de quinta categoria na mesma cidade em que se localizava o mais complexo e luxuoso sistema de hotéis do Reino… era triste, apenas isso.
— Sete peças de prata e nada além disso. – Gael apoiou um punho fechado em cima da bancada, abrindo-o lentamente. A mão aberta revelou sete moedas prateadas, com o rosto do antigo Rei gravado em um lado e escritos na língua dos Antigos na outra face.
O estalajadeiro, um sujeito com fiapos de barba, variando em tons de grisalho e preto, surgindo em tufos pelos rosto cansado, fez cara de espanto, como se nunca na vida tivesse visto ou ouvido falar em quantia tão alta.
— S-sigam-me. – parecia agora intimidado pelas duas figuras misteriosas que apareceram com uma quantia que provavelmente pagaria duas daquelas estalagens. – Vou levá-los ao melhor quarto que temos.
— Temos? Você não é o único proprietário da estalagem?
Nem mesmo Lars sabia porque perguntara aquilo; talvez apenas para tentar ser convidativo, menos ameaçador, enquanto se dirigiam ao quarto. Puxar assunto.
Gael o direcionou um olhar que dizia de onde vem esse seu estúpido hábito de fazer perguntas?, enquanto o estalajadeiro parecia surpreso pela pergunta repentina e sem nexo.
— Ah...não. Divido as despesas com minha esposa. – antes que Lars pudesse retrucar, o homem gordo e fedorento parou. O jovem se perguntou como alguém naquele estado podia ter conseguido uma esposa – Chegamos.
Eles haviam subido um pequeno lance de escadas(que rangiam bastante, a propósito) e caminhado até o fundo de um corredor. O último quarto possuía uma porta maior, que reagiu abrindo-se com outro rangido ao toque do estalajadeiro na maçaneta. As portas não são trancadas por aqui?, pensou Lars.
— Qualquer coisa que precisarem, estarei à disposição. Temos limitações, é claro. Espero que não se incomodem. – o estalajadeiro, que também tinha um terrível mau hálito, fez uma reverência, como se Lars e seu tutor fossem duas autoridades reais.
Ele fechou a porta. Por alguns segundos, o único som que Lars conseguia ouvir eram os pesados passos do sujeito, corredor abaixo.
Virou-se para o quarto e analisou-o rapidamente.
Exceto pelo cheiro de mofo, era um lugar relativamente agradável.
Duas camas, uma mais larga (provavelmente de casal), cobertas por lençóis com as extremidades roídas (pelos ratos, ele presumiu) e tocando o chão.
Um criado-mudo do lado da cama de casal. Um espelho na parede, ao lado da cama menor.
Uma janela irregularmente quadrada, com sua claridade coberta por uma cortina persiana. Um buraco numa de suas divisórias, que se ramificava em diversas rachaduras. Aquele lugar fora vítima de vândalos?
— Esse é o melhor quarto que ele...eles têm?!
— Você deveria aprender logo a se contentar com pouco. Comparado ao que já passamos, isso é como o mais esplêndido dos palácios reais.
Gael tinha razão, então Lars decidiu tocar em outro assunto.
— Mais importante do que isso: como esse lugar vai me servir de alguma maneira para o treinamento?
Gael o observou de uma maneira estranha, diferente; se Lars não o conhecesse, diria que ele estava rindo, mesmo que por dentro.
— Achei que tivesse notado.
Lars não compreendia. Detestava o hábito que Gael tinha de ser excessivamente misterioso.
— Notado…?
Lars não acreditava no que vira.
Mas era a verdade; estava bem ali, na sua frente.
Sentado na cama enquanto tirava o conteúdo de uma pequena bolsa que chamavam de “mala”, Gael começara a rir.
Não mentalmente, não um simples sorriso.
Ele estava ali, caindo na gargalhada.
Aos poucos, ele parou. Respirou profundamente, liberando o ar com um longo suspiro.
— O sujeito que iríamos encontrar...ele iria me fazer um favor. Um favor que envolvia você. O seu treinamento, Lars – fez uma pausa, como que dramatizando a frase – o seu treinamento acabou.
— Como assim?! – Lars detestava fazer tantas perguntas, mas se ele não fazia ideia do que estava acontecendo, ele não podia fazer mais nada além de questionar. – Por que não me avisou isso de maneira mais clara? Não precisava fazer esses joguinhos de mistério!
— Acho que você vai sentir saudades deles, na verdade.
Antes que Lars fizesse jus à sua expressão de dúvida, Gael continuou.
— O meu trabalho está chegando ao fim. O único dever que me resta é conseguir, de alguma maneira, colocar você – ele enfiou a mão por entre a persiana, abrindo uma brecha de claridade no quarto. Seu dedo apontava para uma grande muralha que se fechava em formato circular, com uma estátua dourada ainda maior saindo de seu centro – lá dentro.
Era a Grande Academia.
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