Prelúdios Etéreos I: A Ascensão
23 Capítulo 22
Era mais um daqueles dias apressados a que Arulus estava acostumado. Se perguntava se alguém haveria de notar sua ausência ou sua presença, tamanha a velocidade com que aparecia e sumia de todos os cantos. Não havia tempo; era um dia repleto de compromissos, o mais importantes deles, à noite.
Depois de comparecer às aulas avançadas, conseguir votos de alguns professores para sua eleição como Conselheiro Sênior, discutir com Vivaros sobre a questão dos dotados syrel, pressionar o garoto Cyriac a comparecer à reunião e, por último e mais importante, cumprir sua cota semanal de tentativas de convencer Darkas a aceitar seu tio no Conselho, se dirigia no momento para a Datea, a Central de Locais e Dados. Costumava gostar de títulos grandes e desnecessários, mas por aquele tinha pouco apreço. As palavras não soavam bem juntas.
Tinha que conseguir papelada para o encontro daquela noite. Era o primeiro do ano, e de toda forma, registros eram sempre úteis, especialmente para uma sessão dirigida por alguém tão paranoico e zeloso quanto Lyrael.
Gostaria de ter o poder para dizer não a algum pedido de Deimos, mas infelizmente tamanha conquista ainda demandaria certo tempo. Aparentemente, o Pretor da Excelsis tinha em mente a certeza de que Arulus, enquanto Vice-Pretor, era seu secretário. Arulus acatou o pedido, pois se o recusasse, tornaria-se uma ordem. Teimou em poupar-se do ônus desagradável das ordens de Deimos.
Algumas pessoas no caminho até a Datea acenaram para Valet, dando a entender que pretendiam conversar, mas a todas Arulus deu a mesma resposta: um aceno negativo com a cabeça, seguido de um revirar de olhos, sempre apontando para a frente. Era até um pouco ridículo que buscar uma papelada despertasse tamanha adrenalina no syrel. Embora tivesse feito e desfeito mil coisas no mesmo dia, estava certo de que seu corpo só se daria conta do cansaço quando tudo estivesse terminado.
Quando passava pelo refeitório, ouviu o sino das seis.
Não pode ser possível, atreveu-se a dizer para si mesmo. Mas bem sabia que era possível. Precisava se apressar; o encontro era às sete e meia.
Finalmente chegou. Uma pequena fila se formava na entrada da Datea. Arulus, pedindo as devidas licenças, passou direto pela fila e se dirigiu à porta do local; algumas pessoas, vendo que se tratava de Valet, acataram os pedidos. Outras foram mais ríspidas, mas Arulus prosseguiu, até que um monitor o interrompeu. Demorou um pouco para lembrar-se do nome do homem. Ereven.
— O que pensa que está fazendo? – perguntou ele.
Arulus quase retrucou com a mesma frase.
— Estou tentando entrar na Datea, se me permite.
— Talvez não tenha percebido, mas temos uma fila. Você não é o único querendo protocolar papeladas.
Não estava com tempo nem paciência para lidar com implicância. Arulus não queria ter um acesso de arrogância syrel ali, sem necessidade alguma. Considerou a polidez e o cinismo como armas válidas.
— Eu não vou demorar, Ereven, eu só vou…
— Arulus – uma terceira voz manifestou-se – Algum problema?
Sunil apareceu diretamente de lugar nenhum. Geralmente, estava ocupado com coisas mais relevantes do que pessoas. Sua presença era imponente; Arulus ajeitou sua postura, em respeito. Ereven parecia acuado.
— Não é nada de mais. Eu só estou tentando explicar para o monitor Ereven…
— Que você, sendo Conselheiro Júnior e Candidato Primário, tem prioridade de espera em qualquer situação burocrática. Não é? – disse, olhando diretamente para o monitor.
— … Exatamente.
Alguns instantes de silêncio perduraram entre os três, com Ereven claramente constrangido.
— Então? – disse Sunil. Seu cavanhaque concedia a suas palavras um ar ainda mais imponente sempre que falava.
— Oh, é claro. Desculpe. – Ereven se moveu para o lado, de braços cruzados e com ar ranzinza. Não parecia feliz em ceder, mas a situação o pressionava.
— Espero que não se esqueça disso, monitor. – disse o oficial turmaline.
Sunil e Arulus entraram, junto com mais duas pessoas da fila. Ao contrário do que se podia imaginar, o Centro de Locais e Dados estava quase vazio. O que justificava a fila formada do lado de fora era visível no balcão:
apenas uma pessoa atendia todas as situações naquele momento. No fim das contas, fazia sentido, afinal eram seis horas e o céu já estava escuro.
— Tem algum propósito aqui, Sunil?
— Ha. Não achou que eu estivesse apenas passando para ajudá-lo, achou?
— Definitivamente não.
— Vim assinar algumas permissões para o novo projeto de Volgard, a pedido de Darkas.
— E você aceitou? Não faz o seu estilo, se me permite dizer.
— E que escolha eu tenho? Não gosto de Volgard, mas Darkas ainda é meu superior.
— Você não faz ideia de como o compreendo. Agora, estou sem tempo. Obrigado pela ajuda ali fora.
— Você devia aprender a exercer sua moral. Sempre julguei os syrel como especialistas nisso. Não me decepcione.
— Se você diz. – os dois se afastaram. Sunil passou pela porta atrás do balcão sem pedir permissão alguma, enquanto Arulus aproximou-se do homem no balcão. Não parecia feliz com a função. Movia as mãos de um lado para o outro com feição compenetrada, cumprindo o dever como um autômato.
— Há uma fila. – disse, sem tirar os olhos das papeladas da mulher que atendia no momento.
— Eu tenho prioridade. Chamo-me Arulus Valet, e sou o Candidato…
— Ah, tudo bem. Já entendi. O que quer?
— Duas atas, uma licença para utilizar a Sala de Reuniões e vinte folhas de registro livre em branco.
— Certo. Me dê alguns minutos.
— Minutos são tudo que tenho. Se puder se apressar, agradeço.
O homem apenas revirou os olhos.
Victor saiu da porta por onde Sunil tinha entrado. Ele levava algumas pastas nas mãos, mas tropeçou nos próprios pés e derrubou os papéis por todo lugar.
— Harland!
— Eu disse para tomar cuidado com o que fosse pegar! Limpe essa bagunça, garoto. – o sujeito do balcão, mesmo dando uma bronca, soava desanimado. Não devia fazer questão de ser levado a sério ali.
Já que era obrigado a ficar ali, o syrel se agachou para ajudar o garoto a recolher o que tinha derrubado. Ele dava sinais de um misto de pressa e constrangimento.
— Obrigado, mas não preciso…
As palavras de Victor se perderam no ar quando Arulus pegou dois dos
papéis em avulso.
Licença discente para entrada no Elareum.
Trecho do Trigésimo Quarto Memorando dos Oficiais Administrativos da
Sacra-Fundação de Elyrach, das novas regras do ano 439… certo, aquele título era grande demais até para Arulus.
— Curioso. O que vai fazer com isso?
Victor pediu, com um gesto, os papéis na mão de Valet, que não se negou a entregá-los.
— O professor de Leis pediu para fazermos pesquisa no campus. Preciso ir, Arulus. Este dever é para amanhã.
— Divirta-se na visita ao Elareum! – exclamou. Victor disparou pela saída do local.
Pelo jeito, Arulus não era o único apressado ali naquele dia.
— Isso é tudo de que precisa? Se estiver esquecendo de algo, vai provavelmente se arrepender. Meu expediente está no fim – o tédio que a voz do homem no balcão transmitia quase deu sono em Arulus. À sua frente, uma pilha de papéis. Já estava até exausto do termo “papel”.
— Minha memória não costuma me enganar. Isso é tudo. – dito isso, pegou a papelada com cuidado para não derrubá-los como Harland e saiu do Datea. Não estava com tempo suficiente para agradecimentos.
Agora, precisava levar aquilo à Sala de Reuniões. O cansativo dia, no entanto, ainda estava longe de acabar.
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