Prelúdios Etéreos I: A Ascensão
13 Capítulo 12
Bibliotecas costumavam ser entediantes para Victor. No entanto, saber que poderia finalmente visitar o local deixou o garoto ansioso. Se sentiu um pouco estúpido quando descobriu que a Biblioteca ficava na verdade em outro prédio, o que significava que ir à Central tinha sido perda de tempo.
Era sua segunda semana na Academia, e tinha certeza de que eles estavam ficando impacientes. O combinado era conseguir a mensagem desde o primeiro dia, mas entre proibições de visita a diversos locais e eventos para novos alunos, Victor acabou por se distrair.
Cerca de sessenta alunos se sentavam aqui e ali, com a cara enfiada nos livros. O silêncio quase total era a prova de que uma biblioteca e uma professora exigente, juntas, formavam a melhor maneira de manter dezenas de adolescentes de boca fechada.
A tutora Nadlya tinha seus trinta e tantos anos, pelo jeito não muito bem vividos. Apesar da idade, seu rosto já era bastante marcado por rugas e olheiras, como se ela tivesse passado boa parte da vida sem dormir. Sendo professora da Grande Academia, Harland não duvidava de tal hipótese. Seu cabelo longo, preso num desajeitado coque, já era mais cinzento do que castanho.
Ela também estava sentada ao redor de uma das mesas circulares, lendo um livro tão grosso quanto o anuário acadêmico da Fundação (Victor o tinha visto na mão de um dos monitores, e acredite, aquele era um livro grosso). De vez em quando, parava com sua leitura para fazer uma ameaça a algum aluno que substituíra a sessão de leitura por um diálogo com o colega ao lado.
— Eu voltaria a ler, em seu lugar, garoto. Só para ter certeza de ainda estudar aqui amanhã.
Nadlya parecia ter olhos para tudo dentro daquele recinto. Talvez por isso ensinasse… algo relacionado a Literatura. Victor não era dos alunos mais atentos, mesmo nos momentos em que o professor apenas se apresentava à turma.
Mas tinha que ser naquela aula. Era a maior chance dele. Só precisava esperar a tutora se distrair… embora isso parecesse distante da realidade.
Não havia como saber quando a aula acabaria, mas ele presumiu que não restava muito tempo, afinal já estavam ali por quase duas horas. Precisava tentar.
Tentando não parecer suspeito, embora soubesse que era exatamente esse tipo de atitude que o tornava suspeito, levantou-se da cadeira e seguiu em direção aos longos corredores de estantes de livros, todas com mais de dez metros, a maior com vinte e cinco metros de altura.
Ele sequer sabia o nome do livro que estava procurando, mas tinha certeza de que eles tinham dado um jeito.
O menor livro da terceira fileira, na estante O4.
Quase se perdeu enquanto procurava a estante O4.
Comemorou mentalmente ao encontrar a tal estante, mas foi nesse momento que descobriu que a terceira fileira era mais alta do imaginava. Precisou puxar uma das típicas escadinhas que ficavam espalhadas pela biblioteca para conseguir alcançar aquela altura, mas veio o terceiro problema: ele não sabia dizer precisamente qual dos livros possuía menos páginas.
Alguns eram tão grossos quanto os anuários, outros finos como um jornal, mas Victor não sabia qual era mesmo o mais fino.
Enquanto tentava descobrir, uma voz veio por trás, de sobressalto:
— O que faz aí, jovem? – era a voz de Nadlya, descontente.
Raciocinando rápido, Victor olhou para a cartela acima da estante, que anunciava a categoria dos livros que ali estavam.
— Estou procurando alguma das listas de oficiais para ler. Gosto de saber sobre quem ocupou os maiores cargos da instituição. – afirmou, sem temer o quanto aquilo poderia soar mentiroso. Se esforçou para olhar para trás, diretamente nos olhos da tutora.
— Isto é… peculiar. Aspira a algum desses cargos?
— Não necessariamente. Está mais para pura e simples curiosidade. – tentou dar um sorriso falso.
— Se está tão curioso assim, por que não pegou um livro do assunto antes? – Victor não sabia como responder à pergunta, mas ao menos ela parecia convencida.
— Eu… li sobre isso no outro livro que peguei. Fiquei curioso e resolvi vir para cá, ler algo do assunto.
— Tudo bem. Então pegue logo algum volume e desça daí.
O jovem percebeu que poderia tirar vantagem daquela situação.
— Hm, professora, digo, tutora, eu não acho que vá conseguir assimilar um volume muito grande. Diga-me, então, qual o menor livro destes aqui? Prefiro começar com pouco.
Ela pareceu entrar em reflexão por alguns segundos.
— Ora, o deste ano. Acho que faria mais sentido conseguir um dos anuários, mas se quer algo mais específico, e menor— a ênfase no “menor” provavelmente significava “odeio quem não gosta de ler toneladas de informação” – pegue o Volume 445. Ele ainda está sendo produzido, na verdade, mas deve lhe iniciar bem no assunto. Tem a lista de todos os Oficiais atuais, incluindo eu. – a última sentença foi recheada de orgulho, com o bônus “sorriso no rosto da professora amargurada”.
— Muito obrigado. – movendo os olhos, vasculhou de uma ponta a outra a fileira de livros, até encontrar o volume desejado. Era realmente bastante fino em comparação aos outros. O que mais se aproximava em espessura daquele era o Volume 444.
Desceu da escada e seguiu até a área de leitura da biblioteca, onde, por algum motivo, os alunos continuavam em geral calados. No caminho, Nadlya comentou com ele sobre como era cansativa a vida de professora, e que poderia ganhar muito mais, afinal era “uma Oficial de Elyrach”. Victor poupou seus ouvidos e veio assoviando uma música discretamente, apesar de soar como uma marcha imperial no silêncio da biblioteca.
— Ora, não gostou do outro livro?
— Quase me fez dormir.
— Eu acho que já dormi. A aula já deve ter acabado. – comentou Arthuel Cyriac, o primeiro colocado que, por ironia do destino, mais uma vez sentou-se ao lado de Victor Harland, o último. Aparentemente, ele podia falar normalmente na sala. Talvez fosse poupado das ameaças de expulsão por ser o queridinho dentre os calouros da Academia.
— Se eu estivesse nos seus sonhos, seria um problema. – Victor fingiu rir.
— Eu não disse que este é um bom sonho.
— Concordamos que sou um pesadelo, então.
— Também não seria para tanto, Harland.
O fato de ter sido chamado pelo sobrenome levou Victor a um curto estado de choque, como se ninguém devesse saber aquilo.
— Claro que seria. Eu sou um tanto assustador, meu caro. Agora, se me dá licença, vou ler meu interessantíssimo livro.
— Divirta-se finalmente sabendo o que significa ser um “Grão-Mestre”. – ele riu, mas algo em Victor dizia que o garoto não era realmente tão simpático. Ao menos nisso eles se entendiam.
Finalmente.
Folheou o livro da primeira à última página rapidamente. Não havia muito conteúdo para ser lido. O que interessava mesmo era o pedaço de papel amarelo que estava entre as páginas 22 e 23. Estava dobrado. Victor o abriu cuidadosamente, olhando para os lados para se certificar de que ninguém observava a cena.
Aclus Thoryn.
Victor sabia o que aquilo queria dizer, mesmo naquela terrível letra cursiva. Era o dever que tinha a cumprir ali dentro. Mas não sabia de quem eles falavam. Foi quando releu o subtítulo das páginas em que o bilhete se escondia, seguido por uma lista de quase trinta nomes.
Oficiais banidos da Ordem.
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