Predestinados - Perina
30 Trinta
Notas iniciais
O dia começara cedo na academia de Gael.
Ele arrastou João para o âmbito dos lutadores,obrigando o anjo a passar por mais uma ‘’sessão de tortura’’. Enquanto o mais novo se equipava,ouviu o anjo chefe gritar:
– Bora lá,cambada! Quero ver todo mundo na atividade! Cem abdominais pra começar.
João,que agora já estava pronto para a aula,se dirigiu até ele,que observava os alunos.
– Até quando você vai continuar com isso?
– Isso o quê? – Gael voltou sua atenção para ele,e percebeu que ele se referia as aulas de Muay Thai. – Até quando eu achar necessário.
– Tá na cara que eu não tô sendo útil por aqui. Por quê não chama a Karina?
– Nem morto! Isso aqui não é pra ela. – Afirmou. — Além do mais,ficando aqui você fica longe daquele tal de QG e daqueles joguinhos. Eu tô te fazendo um bem,então não reclama.
– Karina! – Sussurrou,com raiva.
– É,foi ela mesmo que contou. Algum problema?
João conteve sua vontade de brigar com Karina ou mesmo contar a Gael que ela não estava afastada de Pedro coisa nenhuma,mas respirou fundo. Não iria dedurar a amiga. E ele poderia achar algum ponto positivo naquilo tudo.
– Nenhum,mestre.
– Então bora pro treino,moleque! Fabi,faz dupla com ele.
A morena se aproximou receosa.
– Mas mestre,e-eu sou ruim,né. – Ela ponderou,tentando se livrar do novo parceiro e voltar a ‘’treinar’’ com Priscila.
– Não tem problema,ele também é. Agora chega de papo,quero ver ação! Quer moleza,come minhoca que não tem osso!
João ficou frente a frente com Fabi,e começaram a treinar algumas sequências de jabs diretos.
Enquanto treinava,percebeu que Fabi tinha sua atenção mais focada nele do que no treino.
– Tá tudo bem,Fabi? – João parou o treino e perguntou.
– Erm,n-não é que.... – Se atrapalhou toda para responder. – Eu acho que o mestre tá errado. Até que você luta bem.
Ele havia ouvido bem? Ela havia acabado de elogiá-lo? João agradeceu sorrindo,e viu as bochechas das meninas corarem.
Ia recomeçar a sequência com a nova parceira quando a viu entrar na academia.
Percebeu que Bianca procurava por alguém,e ele logo se viu desanimado,pensando que ela procurava por Duca. Qual foi a sua surpresa ao ver que ela agora olhava para ele e acenava com a cabeça,pedindo para que ele se afastasse para falar com ela.
Ele disse a Fabi que iria beber água e foi até ela,sob o olhar atento de Duca.
– Oi,João. – Ela começou,medindo as palavras.
Ele nada respondeu,apenas assentiu com a cabeça. O que ela poderia querer com ele,depois daquela festa? Já havia pensado em milhões de coisas,mas preferiu a esperar dizer.
– Eu vim até aqui para conversar com você....sobre a festa. – João percebeu que estava errado,e esperou que ela continuasse. — Hum....olha,eu sei que você deve estar chateado comigo. E eu não te culpo,porque o que eu fiz foi....
– Bianca. – Ele a cortou,sem coragem nem estômago para vê-la se lamentar por um dos melhores momentos que ele já havia presenciado na Terra. – Se for pra pedir desculpas,tá tudo bem. Não precisa.
Percebeu que a última parte saíra mais amarga do que ele gostaria,mas já era tarde. Ela assentiu,sem coragem de encará-lo.
– Ok,entendi. — Devolveu a amargura das palavras dele com um olhar desapontado. — Sendo assim,acho que eu não tenho mais nada pra fazer aqui,né? – Ela olhou para Duca,que a essa altura já havia parado o treino para observá-los. – Tchau.
Ela se afastou dali a passos largos,mas a amiga Bárbara,que estava com Wallace,a parou. Começaram a conversar ali mesmo,enquanto Gael não aparecia para expulsá-las dali.
Duca,que estava esperando Bianca se afastar,foi até João,que fazia uma hora perto do bebedouro para não ter que voltar para o tatame.
– Fala,Duca. – João começou,mas o lutador estava com cara de poucos amigos.
– O que a Bianca queria contigo,hein moleque?
João viu a raiva de Duca e aproveitou a oportunidade para provocá-lo.
– Desculpa aí cara,mas isso só diz respeito a nós dois. – Um sorriso presunçoso se formou em seus lábios,e ainda que ele não soubesse o que estava fazendo,iria continuar.
– O que cê tá querendo com a Bianca? – Se aproximou do anjo com raiva,estava morto de ciúmes e pronto para resolver aquela situação do único jeito que sabia.
– O que eu quero com ela não é da tua conta,cara. – Elevou os oitavos da voz,chamando a atenção de todos na academia e da própria morena. Viu ela se aproximar rapidamente deles. – Agora,o que ela quer comigo,eu posso te dizer. – Voltou seu olhar para o garoto a sua frente. – Nada.
– O que tá acontecendo aqui?! – Bianca perguntou,temerosa mais por João do que por Duca.
Nenhum dos dois respondeu nada. O anjo desviou seu olhar de Bianca e se afastou,voltando sua atenção para o treino com Fabi.
– Tá tudo bem,João? – Perguntou com um olhar preocupado.
Ele logo desanuviou a expressão ao vê-la,e desconversou.
– Não é nada não,Fabi. Agora bora treinar ‘’porque o último dia fácil foi ontem!’’
Ela riu e respondeu:
– Sei,sei. ‘’Quer me enganar me dá jujuba!’’,senhor Spinelli! Mas tudo bem,vamos voltar pro treino antes que o Mestre Cruel dê as caras por aqui.
– Mestre Cruel? – Riu do apelido.
– É,o pessoal da academia só chama ele assim. Você não sabia?
– Não. – Afirmou,rindo e imaginando a reação do anjo chefe ao saber de sua fama na Terra. Pelo visto,não eram só ele e Karina que tinham problemas com ele. – Mestre Cruel.....Tá,gostei.
– X –
Pedro e Karina estavam preparando as crianças para o dia no zoológico.
Quando contaram a elas,todas logo ficaram animadas e a gritaria se instalou no Amparo. Os dois acalmaram os pequenos e trataram logo de conversar com Regina,para acertar os últimos detalhes.
A van parou e os dois desceram primeiro,para que pudessem ajudar os pequenos.
– Calma aí galerinha! – Pedro pediu,e ajudou um a um a sair do veículo.
– Quero todo mundo fazendo uma fila com a tia Karina! – A loira pediu,e as crianças obedeceram prontamente.
– Todo mundo pronto? – Gael perguntou,e elas bateram continência. – Posso saber o que é isso?
As crianças prenderam o riso e Pedro tentou fazer o mesmo,fazendo um sinal de ''joinha’’ para Gui.
Gael fez vista grossa para Pedro,que tentou disfarçar.
– Muito bem,vamos a chamada. Karina,pode começar.
– Alice,Bia,Caio e Gui. – Os quarto acenaram,e a loira continuou. – Lucas,Marina,Nat....
– É,estão todos presentes. – Ela confirmou,indo para perto de Pedro.
– Então vamos começar!
– Não mestre,tá faltando o João,o Duca e a Bi. – O guitarrista disse.
– E aonde é que se enfiaram aqueles três que não chegam nunca?
– Eu sabia que não ia dar certo chamar os três.... – Karina reclamou,mas Pedro tratou de acalmar a namorada.
– Ih,pensa assim não linda. Vem cá. – E a abraçou. – Ah,moleque! Olha lá quem chegou,mestre.
Duca desceu do carro com uma cara amarrada,seguido de João e Bianca. A atriz já reclamava dos mosquitos e João se dividia entre provocar Duca e tentar jogar alguma partida no tal PSP.
– Oi,Bi! – Karina cumprimentou a amiga com um abraço,e percebeu o quanto ela odiava passeios ao ar livre. – Tá tudo bem,amiga?
– Não,cunhadinha! – E matou um mosquito que voava perto dela. – Tá vendo? Eles não podem me ver que já me atacam. Meu sangue deve ser doce,só pode....
– Só o sangue? – João sussurrou para si,mas Duca ouviu e lhe deu um pescotapa.
– Tá querendo morrer,moleque? Cala essa boca pra falar da Bianca,cara!
– E como é que eu vou falar se vou estar de boca fechada,ô mané? – Retrucou,e Duca o encarou confuso. – Dei um nó na sua cabeça,né lutador? Eu acho que é melhor você ir embora,o sol já começou a a afetar o que sobrou dos seus neurônios...
– Olha aqui....
– Calem a boca,vocês dois! – Bianca gritou. – Agora vamos que eu tô louca pra conhecer esass fofurinhas!
– Alto lá,dona Bianca! Essa galerinha não é fofurinha,coisa nenhuma. – Afirmou,e os pequenos concordaram. — Né não galera? Fala pra tia Bi.
– É tia Bianca,nós somos a Galerinha do Mal! – Gui afirmou,fazendo posição de ataque junto com Pedro e as outras crianças.
– Ai Pê,que horror! – Bianca disse,rindo com Karina.
– É Bi,essas criaturinhas não são fáceis não! Tá pensando o quê? – Abraçou Karina.
– Agora que eles já estão aqui,acabou a moleza! Vambora macacada! – Gael bradou. – Todo mundo comigo,força e honra!
– FOCA E ONÇA! – As crianças gritaram e alto e bom som,enquanto Pedro ria e Karina tentava repreendê-lo,rindo junto.
– Mas o quê?! Foi você,né seu menestrel do caipiroto? – Gael tentou acertá-lo,mas Karina o impediu.
– Foi só uma brincadeira,né Pê? – Deu um olhar significativo para o chefe. – Agora vamos. — E todos seguiram para conhecer o zoológico.
Pedro e Karina seguiram na frente com as crianças com Gael,enquanto Bianca seguiu com Duca e João mais atrás,para o risco de alguma das crianças desviar o caminho e se perder.
– Ih Duca,olha lá seus parentes! – João provocou,ao passarem pelo local onde as antas ficavam.
– Há há há,muito engraçado ô viciadinho! Sorte a tua que tô me segurando para não quebrar tua cara. – Duca rosnou entredentes.
– E as antas são animais muito inteligentes,se quer saber. – Bianca tentou contornar a situação.
– Então o Duca não é anta mesmo não,porque esse aí é tudo,menos inteligente.
Duca tentou avançar sobre João,mas Gael o impediu.
– Ei,chega vocês dois! Vocês vieram pra ajudar,não pra arranjar briga.
– Foi mal mestre,mas é que ele....
– Quer saber? Nós vamos nos dividir em grupos. Eu vou com o João. Duca você vai com a Bianca,e o menestrel vai com a Karina e a Tomtom.
– Oba. — Pedro comemorou,aproveitando a distração do mestre e beijando Karina.
– Isso não vai prestar... – João reclamou.
– O que cê disse João?
– Nada não Gael,vambora né gente? — Gritou para Karina,e ela se afastou de Pedro.
– X –
Duca e Bianca caminhavam com as crianças em silêncio. Os pequenos não paravam de falar,mas entre eles não havia nenhuma troca de palavras.
– Bianca. – Ele chamou,mas ela o ignorou. – Bianca,eu tô falando com você.
– E eu tô te ouvindo. – Ela retrucou,sem olhá-lo.
– Você vai ficar me ignorando,é isso? – Ela assentiu. – E eu nem te fiz nada. É,tá certo.
– Não me fez nada?! – Aproveitou que as crianças estavam prestando atenção no guia e se virou pra ele. – Você terminou comigo sem nem me dizer o porquê...
– Esse assunto de novo não,Bianca. – Ele desviou o olhar dela e fitou as crianças.
– Tá certo,eu também não quero mais falar sobre isso. E por quê essa implicância toda com o João?
– E você ainda pergunta? – Ele agora a encarava,sem conseguir esconder sua raiva. – Ele te beijou na festa,eu vi!
– E o que você tem a ver com isso? – Gritou,cansada de sempre discutirem sobre o termino e nunca chegarem a um ponto final.
– Tudo! Eu tenho tudo a ver com isso,porque...
Parou a frase ali,quando viu que ele não tinha a resposta para aquela pergunta. Tinha feito um acordo com a doutora Luiza,e não podia dar para trás justo naquela hora. Tinha feito tudo para o bem dela,e continuaria assim,até que fosse preciso.
Tinha medo de que ela não o entendesse quando lhe contasse a verdade,e que ela não o quisesse mais,mas perdê-la era um risco que ele se propôs a correr.
– Nada. Deixa pra lá. – Desconversou,e viu a frustração estampar as íris castanhas da morena. – Agora vem,as crianças estão precisando da gente.
Ela negou,tentando engolir as lágrimas,uma a uma,sem sucesso. Ela não conseguia mais suportar sua presença,não naquele momento. Foi com aqueles pensamentos que se afastou dele a passos largos,ignorando sua voz a chama-la de volta.
– X –
– Um,dois,três,quatro! – Pedro e Karina gritavam.
– Quatro,três,dois,um! – As crianças gritavam de volta.
Assim seguiram o caminho. Pedro cantava e Karina ria,tentando calá-lo. Tomtom vigiava as crianças,aprendendo com elas sobre cada animal que vivia na Terra.
– Ei,vocês dois! Será que dá pra desgrudar um pouquinho e ajudar? – A pequena anjo mandou.
– Calma,baixinha! Paz e Amor. – Pedro brincoua,abraçado a loira.
– A Tomtom tem razão Pê,é melhor a gente ir ajudar ela. – Se soltou dele.
– E eu achando que essa ideia do Mestre Cruel ia ter vantagem.... – reclamou,fechando a cara.
– Ahh,não! Pode ir desfazendo essa tromba de elefante. – E beijou seu rosto. Pedro aproveitou e a puxou pela cintura e tomando seus lábios para si.
– E por falar em elefante,é aquele ali? – Tomtom perguntou,e Gui confirmou.
– Vamo lá,galerinha! Um,dois!
– Feijão com arroz!
– Três,quatro!
– Feijão no prato!
– Cinco,seis!
As crianças cantavam,chamando a atenção dos bichos.
– Ih olha lá,esquentadinha! Até a bicharada tá gostando da cantoria.
– Aposto que eles não veem a hora da gente ir embora,isso sim. – Tomtom disse. – Quem é aquela grandona ali?
– É girafa,baixinha. – Karina respondeu.
– Olha lá quem vem ali! – Tomtom apontou para Duca,que vinha na direção deles.
– Ah,fácil! Esse aí correndo é uma anta,Tomtom! – Pedro gargalhou.
– Pô,você também cara? – O lutador reclamou,mas logo voltou seu foco. – Eu preciso da ajuda de vocês,e rápido.
– O quê que houve,Du? – Karina perguntou.
– É a Bianca. Ela sumiu.
– X –
Perdida. Literalmente perdida. Era assim que Bianca se encontrava.
Tentou se afastar de Duca,achando que seus problemas acabariam ao menos pelo fim daquela tarde,mas só conseguiu ficar mais confusa sobre o lutador e de quebra,ainda se perder na mata.
– Droga! – Reclamou ao matar mais um mosquito. Estava cansada e a noite já ameaçava cair.
Não sabia como sair dali. Seu celular estava sem sinal e ela não via nenhum dos amigos passar.
Uma sensação de desespero começou a tomar conta dela. Tentou correr,mas alguns metros depois,acabou tropeçando e caindo em meio a terra e folhas secas.
Sua respiração já estava entrecortada,seus olhos marejaram e ela conteve sua vontade de gritar,quando ouviu seu nome ecoar pelo matagal.
– BIANCA!
Ela conhecia aquela voz. O alívio começou a relaxá-la,e ainda com lágrimas nos olhos,ela voltou sua atenção para a voz que a chamava.
– Eu tô aqui,João! – Esbravejou. Tentou se levantar,mas não conseguiu e seu corpo foi jogado de volta ao chão. – JOÃO!
Tentava controlar o choro,mas ele veio,sem pudores. Quando ele veio ao seu encontro,ela não hesitou e o abraçou,apertando seus braços em torno do corpo do anjo como se precisasse dele mais do que qualquer coisa.
Ele se desvencilhou do corpo trêmulo da atriz e a olhou,limpando as lágrimas que caíam.
– Te encontrei.
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