Predadora
3 Ajuda médica
Assim que chego à porta de meu quarto, deparo-me com Rosalie. Alta, loura e com um corpo escultural, esperando-me encostada contra a parede.
O conselho do Dia da Caça.
Droga, esqueci completamente.
Rosalie é responsável por aconselhar vampiros novatos a passarem pelo Dia da Caça sem muitos incidentes ou perigos. Ela nos diz o que fazer, como fazer e quando fazer e hoje era para ser o meu conselho. Droga.
– Estava se enroscando com aquele seu namorado outra vez? – ela range os dentes, fuzilando-me com seu olhar vermelho. – O quê, sua sede agora é por sexo?
– Não – esfrego os olhos -, eu estava em uma audiência com o rei. Desculpe.
– Você não tem o menor respeito pelo conselho do Dia de Caça, não é? – sua voz exala veneno. — Do jeito que está indo, é capaz de deixar um humano montar em você.
Rosalie passa por mim, trombando em meu ombro, e desaparece no corredor. Perdi a chance de aprender a caçar e ela não vai me dar uma segunda. Chuto a parede de pedra com a ponta da bota e resmungo. Meu dia começou bem, mas agora está um desastre.
Entro em meu quarto e lanço-me de bruços na cama, enterrando o rosto no travesseiro. Um ruído me assusta e eu me sento rapidamente, procurando qualquer sinal de vida no quarto. Por que alguém entraria aqui?
Subitamente, um corpo choca-se contra o meu, derrubando-me deitada na cama de barriga para cima. Nenhuma das velas está acesa, então não consigo ver o rosto do invasor, mas sinto suas mãos explorando as curvas do meu corpo demoradamente. Tento me soltar, mas ele é forte demais. Um vampiro adulto.
– Saia de cima de mim! – rosno, tentando chutá-lo.
Suas mãos seguram meus pulsos e suas pernas pesam sobre as minhas quando ele decide deitar-se sobre mim. Quando estou prestes a gritar, ele me beija e eu logo reconheço esses lábios, esse corpo.
Jacob.
– Você quase me mata de susto, idiota! – rosno, sem fôlego.
Jacob se afasta, gargalhando e sacudindo a cabeça. Seus braços fortes e musculosos me abraçam e eu me deixo ser aninhada contra seu peito.
– Você é maluco – sussurro, batendo o queixo contra sua clavícula quando falo.
Jacob me aperta.
– Eu amo você, Bells.
– Eu te odeio agora – murmuro.
Mesmo no escuro, posso ver suas sobrancelhas arquearem-se.
– Me odeia, é? – ele ri e então, acaricia minha coxa. – Odeia que eu faça isso?
– Si-im.
Sua mão desliza para minha cintura e encontra o caminho por baixo de minha blusa. A sensação de seus dedos em minha pele nua é deliciosa.
– Odeia isso?
– Mais ainda.
Ele ri e sua mão desde novamente, deslizando por minha barriga, passando por meu umbigo e descendo até...
– Jacob – arquejo, tentando encontrar forças para me afastar. Ele me toca e eu me contorço. – Pare, pare.
Levanto-me e num salto estou do outro lado do quarto.
– O que há com você? – ele pergunta.
– Não quero isso agora, tá bem?
Jacob levanta-se da cama, mas não se aproxima de mim.
– Você nunca me recusa, Bella. O que está acontecendo?
– Nada – dou de ombros.
Posso ver seus olhos crispando-se, em dúvida.
– Como foi a audiência com o rei? – ele indaga.
– Não quero falar sobre isso agora, eu...
– Certo – ele interrompe. – Se não quer minha companhia, vou procurar algo útil para fazer.
Ele rosna e deixa o quarto. Quando conheci Jacob ele era apenas meu instrutor. Bateu-me, repreendeu, foi duro comigo e me fez ser a lutadora que sou hoje. No começo, sua palavras para mim eram como espinhos venenosos e ele me enxergava como uma criança mimada pelo rei. Quando me dei conta de que estava apaixonada por ele, cometi a loucura de agarrá-lo e roubar-lhe um beijo. Ele ficou furioso, mas me procurou na noite seguinte e disse que não conseguia parar de pensar em mim. Desde então, suas palavras têm sido doces e suaves quando ele fala comigo.
Até agora.
Mas não posso perder tempo pensando nos dramas de Jacob. Tenho que pensar no que farei para recusar o casamento com o príncipe Caius sem que pareça que eu o estou recusando. Preciso de um especialista em ver as intenções das pessoas e preciso fazer com que ele me ajude. E só há uma pessoa capaz disso por aqui.
Deixo meu quarto e corro o mais rápido que consigo – o que, deixando a modéstia de lado, é muito – e chego até a ala hospitalar do castelo. Talvez as pessoas pensem: puxa, por que um vampiro precisaria de tratamento médico quando é forte e indestrutível? Eis a resposta: nós, vampiros, nos metemos em muitas brigas e rixas que às vezes nos custam um braço, uma perna ou um nariz. A ala hospitalar existe para religar nossos membros perdidos em nossos corpos – desde que possamos trazê-los até aqui, obviamente. Em meu primeiro ano nessa nova vida, perdi um dedo enquanto jogava Caça ao humano com um grupo de recém-criados, e foi o brilhante Jasper Hale quem o religou à minha mão.
É com ele que preciso falar.
– Jasper! – entro igual a um furacão em seu escritório improvisado e logo vejo que interrompi uma consulta.
Uma das recém-criadas, Helene, gesticula algo sobre seus pulsos – ou pulsos humanos, quem sabe? – e Jasper parecia muito interessado no assunto antes me minha interrupção. Ele lança seu olhar gélido e carmim sobre mim e eu me retiro, fechando a porta. Terei que esperar.
Quase dez minutos depois, Jasper abre a porta e a recém-criada sai, sem deixar de me olhar com raiva quando passa por mim. Levanto-me do chão, onde estava sentada esperando, e encaro Jasper.
– Preciso de ajuda – digo.
Ele me avalia dos pés a cabeça.
– Não parece ferida.
Sacudo a cabeça.
– Não estou ferida. É outra coisa.
Jasper faz um gesto com a cabeça para que eu o siga porta adentro e eu o faço. Sento-me na cadeira de couro diante dele, que cruza as mãos sobre a mesa.
– No que você se meteu dessa vez, Bella? – Jasper revira os olhos.
Tenho um histórico longo de visitas à ala hospitalar, principalmente porque eu sempre apanhava feio nos treinamentos de Jacob. Tenho cicatrizes de mordidas nos pulsos, nos joelhos e até uma na nuca, escondida sob meu cabelo. Sem contar a cicatriz que Jasper deixou quando remendou meu dedo.
Suspiro, deixando os ombros caírem.
– É o rei. Ele... ele quer que eu me case com o príncipe Caius! – sussurro, aflita. – Disse que sou uma aquisição valiosa para a família, como se eu... como se eu fosse...
– Uma mercadoria – completa Jasper, com o olhar distante.
Engulo em seco. Ele sempre fica com essa expressão quando pensa em seu passado – um passado que, por acaso, não conheço.
– É – concordo.
Jasper dá de ombros.
– E o que você quer que eu faça?
– Preciso que me ajude a encontrar uma maneira de rejeitar esse casamento sem parecer que estou rejeitando – apoio os cotovelos sobre a mesa. – Não posso me casar, Jasper. Eu nem conheço esse príncipe e tenho Jacob. Isso não pode acontecer.
– Não sei, Bella... Sinceramente, ninguém nunca disse não aos caprichos do rei ou da rainha – ele sacode a cabeça. – Você precisaria mostrar-se inapta para o cargo de realeza e companheira do príncipe.
Cerro os punhos com força. É isso.
– Sim – assinto. – Mas como farei isso?
Jasper recosta-se em sua poltrona de médico e fita o teto.
– Volte aqui amanhã, após sua primeira caça. Vou pensar em alguma coisa.
Agarro sua mão e ele arregala os olhos para mim.
– Obrigada.
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