Preciosa Vida
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Aquele dia amanheceu negro, apesar do lindo sol que fazia. Em uma determinada casa, perto de um parque, uma família chorava a morte da filha. Todos de luto, amigos e colegas, tentavam entender o porquê aquela garota linda teria motivos para acabar com a própria vida.
No meio da noite, Bárbara havia pulado de um penhasco, sem que ninguém soubesse. Havia deixado uma carta para todos, em cima de sua cama. Mas não explicava seus reais motivos. Lamentavam sua morte, era uma dor que nunca se curaria. Mas a verdade era que ninguém poderia entender.
Na tela da televisão passavam imagens dela, brincando alegre, as risadas enchiam o ambiente. Filmagens de quando era pequena, de viagens. A festa dos quinze anos. Todos se debulhavam em lágrimas dolorosas. Como uma garota tão feliz como aquela do vídeo, teria coragem de se matar? Ninguém compreendia.
- Licença? – uma garota dos cabelos pretos e compridos estava na porta.
O rosto da mãe contorceu-se em uma carranca. Perguntou rispidamente o que aquela menina queria. A garota chamada Maria trouxe-lhe um pequeno livro. Entregou-lhe, com os olhos cheios de lágrimas. Disse que Babs não queria que ninguém o lesse, mas ela achava que estava na hora de saberem a verdade.
Saiu dali quase enxotada. E tudo porque era a pessoa com quem Bárbara havia escolhido viver e amar por toda a vida. A mãe sentou-se em um espaço no sofá, abriu o pequeno livro em uma página qualquer e começou a ler.
“Não sei mais o que fazer, vou acabar enlouquecendo. E não adianta pedir ajuda, porque eu sei que ninguém pode e nem quer me ajudar. Acham que meus problemas são besteiras, minhas lágrimas e sentimentos são puro fingimento. A dor é cada vez maior, não estou suportando mais. Só preciso de um abraço, mas não há ninguém ao meu redor.”
“Faz semanas que minha melhor amiga não fala comigo. Estou desesperada. Meu coração está apertado, já é a sexta noite que não consigo dormir, só chorar. Dor de cabeça constante. E não importa o quanto eu tente, simplesmente não faz efeito. Parece que eu não faço falta, não sou importante. Acho que eu vivi um sonho nesses últimos anos, e agora acordei para a realidade. Estou sozinha, sou sozinha. Como acreditar em amizade agora? Se ela era a única pessoa que eu não esperava que fizesse isso? Se ela era a prova de que existe uma amizade que vai além da compreensão humana? Simplesmente se cansou de mim? Da minha inconstância, do meu ciúme, dos meus ataques, do meu emocional? Está difícil acreditar que isso pode passar...”
“Quase três meses e nada. Estou cansada. A alegria vem em pequenas doses. Tudo perdeu a graça. Não consigo mais confiar, mais continuar. E quando eu canso, não tem ninguém para me dizer que vai ficar tudo bem. Querem que eu seja forte, mas não estou mais conseguindo. Tudo seria melhor se eu não existisse... Alegre demais, intensa demais, sempre otimista. Estranha demais, sozinha demais. Fora dos padrões. Romantica demais. Ciumenta demais. Apegada demais. Tudo em excesso. Todos se afastam. E isso dói, demais. Não parece, mas tenho lutas diárias, dentro de mim. Nos filmes, quando a mocinha cai, sempre tem alguém para pegar no colo, salvá-la. No meu caso, não há ninguém.”
“Sem parar de chorar, a dor é muito intensa. É muito forte. Separam-me do meu amor. Faz tanto tempo que não a vejo... Acho que ela desistiu de mim. Não importa o quanto eu tente, ela não me responde, não me procura. Silêncio. Não suporto mais o silêncio. Passo a maior parte do tempo trancafiada no quarto. Não agüento mais. Não há ninguém para desabafar, porque todos acham meus problemas pequenos, banais. Já nem falo sobre o que sinto, pois sei que vão rir na minha cara. Até eu estou achando que sou doida. Maluca.”
“Apesar de saber que a gente sempre faz diferença na vida das pessoas, eu precisava de alguém para me dizer isso. E não tem. O ser humano não vive sozinho. Por isso, me despeço. Já não agüento mais. Vou ser livre, vou ser feliz. Vou estar em paz. Como os pássaros. Adeus, para sempre.”
Quando ela acabou de ler a última página, chorava convulsivamente. Se soubesse por um momento o que a filha estava passando... Nada disso teria acontecido. O diário passou de mãos em mãos, trazendo o pranto à todas aquelas pessoas.
Se as pessoas parassem para pensar no outro um pouquinho mais, talvez ela ainda estivesse viva. Se alguém simplesmente estendesse a mão, ouvindo-a, ela estaria viva. Tantos “Se”... É verdade que as pessoas só percebem o valor das coisas quando perdem. Mas quando se descobre que uma vida é preciosa, após perdê-la, nunca se recupera.
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