Preces de Braun

2 Caindo no buraco penoso da surpresa


Notas iniciais
Eu não sei se to louca hoje, mas achei esse capítulo muito estranho. Me avisem caso ficou, porque então reescrevo.

Se você alguma vez já sonhou de modo tão profundo quanto o fundo do oceano, obviamente ao despertar sentiu-se perdido. Subindo para a superfície, arquejando e cuspindo, a percepção do real deu-lhe um tapa tão forte que a desorientação foi instantânea. Respirando e tentando acalmar-se, as linhas tão perfeitas do que passara começavam a nublar-se. Tentando agarrá-las, porque o sonho fora surpreendente, você perdeu-se e tudo lhe escapou.

Comparando com algo hilário, fora como tentar segurar aquele sonho tão desejoso que simplesmente jamais iria acontecer. Hilária decepção, claro.

Entrementes, me parece as vezes nojento como o mundo ilusório da nossa mente é tão mais afetivo do que o existente. Mesmo num em que nada faça sentido, tudo distorcido como um quadro de Francis Bacon, é mais lindo. Mais querido.

Mas eu continuo calando minha boca e retornando para a tristeza. Eu quis pegar, quis manter meu desvaneio de uma noite abafada de verão, mas ele dissipou-se numa batida de coração. Eu ainda inspiro mecanicamente.

Como nada muda, eu observo-a grudar as vistas na tela de televisão. Ela mantem um sorriso frouxo com a imagem de Jensen, aquele lá. Sua amiga loira e alta está lá, olhos de azul acinzentado, complacente com a cena ocorrente. Ela é um demônio, na lata mesmo. Eu já perdi as contas de quantos anos de amizade mantinham. Era como se não existisse o passado anterior a isso.

Perdendo minha paciência tão conquistada, aqui vai o seguinte:

Noka e Jamie agitaram-se na cena de luta entre o certo Dean e o certo sei lá quem. Nick aproximou-se da entrada da sala e jogou um olhar calculado, pois não atrevia-se pronunciar-se. Compreensão não era o feito das duas num lançado episódio novo de Supernatural. Oh, não mesmo. Meu caro, olhando o show preferido, final de temporada, quem ia ter o saco de suportar comentários alheios?

Mas aquela camaradagem entre os três morreu no momento que o saber entrou na mente de Noka.

Na porta. Mão esquerda espalmada contra. Sangue indo para o carpete. Lábios brancos. Suor no corpo. Choque hipovolêmico. Hemorragia. Quatorze segundos para.

Noka saiu do sofá tão rápido quanto o dedo de Jamie no pause. A demônio tinha os olhos azuis queimando e seu poder estendeu-se quilômetros. Outro como ela vinte e dois metros. Atrás de uma árvore. Observando.

O irmão permaneceu apenas parado. A de cabelos rosas jogou-se contra a porta de frente e abriu-a, revelando um homem de uns dezessete anos, cabelos preto azulado num rabo de cavalo soltando, o peito aberto e o sangue vermelho vivo de artérias rasgadas jorrando.

Jamie já estava fora de casa, correndo com os dedos em garras. Nick engasgou e sua face esbranquiçou, de olho no estranho. Este caiu pesado e a garota gritou pela caixa de ritual.

Agora vamos retroceder que nem aquele simbolo estranho no controle remoto. Isso está meio confuso, não? Sente, pegue um refrigerante, espere. Eu vou ter o cu de explicar. Me agradeça.

O dia começou tão bonito quanto uma propaganda de TV. Aquelas baboseiras de pássaros piando felizes e estragando o sono bom de qualquer um. Não me olhe com essa cara. A mim incomodavam.

Noka jogou-se no sofá e Jamie acompanhou-a, as duas agitando-se com entusiasmo. Último episódio de SPN. “MEU DEUS, o que ocorreria??!!”, esse tipo de afobação. As duas riam-se de nervosismo, enquanto o irmão da outra lançava uma exasperação tão dramática que até Gabriel teria achado graça.

Considerando que os Braun ganhavam a vida lendo sorte e essas coisas, perder um dia INTEIRO porque uma integrante não conseguiria suportar o desfecho era muito irritante. Deveras. Meu deus, era insuportável.

Então podia ser entendível a postura de Nick ao abandonar a casa e a dupla. Ia para o encontro de um cliente agendado, implorando aos céus que Gah aparecesse para poder jogar sua frustração nele.

No meio da espera para o sinal verde abrir, lhe veio a mente que alguém o olhava. Virando o pescoço na busca, nada encontrou. Apenas transeuntes entediados. A bile subiu e um incômodo agitou-se no estômago. Seu poder não enganava-o.

Passando pela faixa, a sensação morreu e foi para o local agendado. Ele gostava bastante de rituais, quaisquer que sejam. Arrumou um de catar namorado para uma velhota necessitada e torceu os lábios em agrado pela recompensa. Sorriu.

Voltando para casa, quase pulando que nem Luna Lovegood no quinto filme de Harry Potter (não que ele soubesse. Não gostava da série), chegou num estopim contente e quase chorou quando percebeu elas ainda endeusando o santo Dean Winchester.

Não percebeu o cara alto, cabelos desalinhados pretos, olhos zombadores próximo. Nick despontou, fechou a porta, engoliu o resmungo.

Noka girou seus olhos para ele, o sorriso alinhando. Agitou um olá irônico. Andava tão irritada por causa do acontecimento ainda de Gabriel que não perderia qualquer oportunidade de incomodar outro.

Não incomodaria Jamie porque era sua melhor amiga e essa aí era tão forte que uma irritaçãozinha e Noka perderia um braço.

Abaixo a força gigantesca de demônios, por favor. Socorro.

Fechando a cara, ele iria adentrar no cômodo quando Noka saltou.

Avançando o tempo agora, Jamie voltava com um braço totalmente ensanguentado, onde havia enfiado inteiro no peito do tal demônio aleatório. Noka estendia os símbolos pelo chão, pela pele do homem que sofria pela perda de sangue, pelos próprios punhos. O jorro de poder saltou numa nuvem invisível de vento grosso, e a cura deslizou para o ferido como uma cobra sobre a areia do deserto.

Tudo estava confuso e enevoado. O nome do homem ao chão era Satoru. Ele era bonito, mesmo edemaciado, sudorético e pálido. Ele entrara no convívio dos três e tudo mudaria, porque assim como a confusão desse capítulo que narro, o sonho perdido da vida que levara morreu e ele acordava. Agora, fraco e dono de uma taquisfigmia, cravou o olhar em Nick, a certeza de estar acordado subiu em ondas de dor, como eu me senti quando tudo o que um dia aspirei desapareceu entre minhas mãos.