Prazeres Sombrios - Indômita
21 Capítulo XX - Flor da Meia-Noite
Notas iniciais
BOA LEITURA!!!
CAPÍTULO VINTE
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A fúria explodiu em seu interior e ele agarrou gargantas, quebrando traqueias impiedosamente, pouco se importando com qualquer outra coisa em seu caminho. Seus olhos viam vermelho e seu único objetivo era pegar sua esposa nos braços e leva-la para longe daquela guerra. Sequer viu quando se livrou dos grilhões ou como o fez.
Erik tinha razão. Alasdair McDonald jamais descansaria até estuprar sua mulher e mostrar a ele que era superior. Erik lhe alertara para protegê-la, mas não foi o suficiente. Deus, tinha de fazer alguma coisa, não podia ser tarde demais. Derrubou o último homem no chão e torceu seu pescoço até a cabeça dar uma volta completa. Ignorando qualquer outra coisa a seu redor, correu pelos degraus, quase saltando por eles, até chegar a ela. Leonor estava encolhida, tremendo, tão frágil e quebrada como ele nunca vira e jamais esperaria ver de novo, abraçando as próprias pernas e escondendo o rosto entre os joelhos.
Nunca esperou ver aquilo. Ela sempre era forte e destemida, e agora... Ele não soube o que fazer para aliviar sua dor. Ajoelhou-se ao lado dela devagar. Queria que ela soubesse que era ele, que não se assustasse.
-- Leonor...
Lentamente, ela foi erguendo a cabeça, o rosto pálido, as lágrimas presas em seus olhos. Quando o viu, demorou a reagir, como se não o visse realmente, mas logo se jogou contra ele, enlaçando seu pescoço com os braços, enterrando o rosto em seu ombro. Ele a abraçou com força, inspirando o aroma de seu cabelo. O contato o relaxou como um bálsamo para suas dores. Acariciou seu desgrenhado cabelo, desfazendo a trança pouco a pouco, passando a mão suavemente por suas costas. Beijou o alto de sua cabeça. Queria pronunciar palavras tranquilizantes e doces, mas não sabia o que dizer, o que fazer além de sustenta-la em seus braços. Podia sentir a força do coração dela batendo contra seu peito.
Ele nunca tremeu tanto na vida como o fazia agora. Foi o maior medo que teve e ainda não passara, porque o pavor queria se fazer presente. Olhou para o lado e sentiu uma fria alegria ao ver o lobo que tinha salvado no mês anterior cravando os dentes na garganta de Alasdair McDonald. O gigante negro rasgara o peito de seu inimigo com as garras e o matava lenta e dolorosamente. Muito em breve estaria morto. Alasdair desembainhou sua espada e o lobo saltou para trás, como se soubesse o que aconteceria. Mostrou os dentes afiados e banhados em sangue, rosnando, enquanto os olhos do McDonald ficavam enevoados. Duncan sentiria um enorme prazer se pudesse ressuscita-lo para mata-lo outra vez, a seu modo. Se não fosse aquele lobo, sua moça inglesa teria sido estuprada, porque... Ele não teria chegado a tempo.
Apertou-a contra si.
-- Duncan – ouviu a voz de Mary atrás de si, mas não se deu ao trabalho de olha-la, ela sabia que ele estava ouvindo – Posso cuidar de tudo aqui e Erik conseguiu expulsar momentaneamente os McDonald de Dragon Seafront Castle. Por favor, cuide de minha prima.
Ele assentiu com a cabeça. Sentiu quando ela se foi e ouviu quando deu as ordens a Bessie para que coordenasse a limpeza do salão enquanto ela selecionava um grupo de mulheres para ir atender aos feridos no pátio. Duncan ergueu Leonor nos braços, aninhando-a e subiu as escadas sem fazer movimentos muito bruscos. Levá-la-ia ao quarto que agora deles. Erik e Mary cuidariam de tudo, não precisavam dele. Duncan subiu cada escada em um silêncio incômodo, olhando vez ou outra para a face pálida dela, preocupado por sua saúde.
E se ela não fosse mais a mesma?
Sua inglesa era vívida, intrépida, alegre, doce, indômita, voluntariosa... E se agora continuasse como uma boneca sem energia, pálida e lânguida como estava em seus braços? Não, ela era uma guerreira. Era de sua natureza lutar até o fim. Só Deus sabia o quanto ele se orgulhava dela, o quanto a admirava.
Quando chegou ao quarto, abriu a porta com um chute e entrou, caminhando até a cama, onde a sentou na beira do colchão. Ajoelhou-se diante dela e observou suas feições. Seus olhos ainda estavam aterrorizados, mas ela parecia estar se recuperando muito lentamente. Ela precisava de tempo. E dos seus cuidados. Agora era a vez dele de cuidar dela, de lhe dar atenção e carinho. Afagou sua bochecha fria.
Sem saber o que fazer ou falar, beijou seus lábios e voltou a abraça-la, pousando a cabeça em sua coxa, rodeando sua cintura com os braços. Fechou os olhos, rodeado por seu calor, por seu perfume. Devia ter cochilado, porque quando abriu os olhos – nem percebeu que os tinha fechado – sentiu uma suave carícia em seu cabelo. Ela passava as unhas por seu couro cabeludo como ele gostava e poderia ronronar por isso. Deixou-se relaxar pela carícia, pelo conforto que ela lhe proporcionava.
Precisava dizer a ela. Não sabia que palavras usar, mas tinha de dizer a ela a verdade. Mesmo que os McLeod e os McDonald atacassem simultaneamente sua fortaleza, não sairia daquele maldito quarto até abrir a boca e contar a ela no que passara os últimos dias pensando. Foi um tempo longo demais e... Bom, ele podia não conhecer exatamente, mas... Sim, ele... Droga. Estava nervoso. Beijou a coxa dela e ergueu a cabeça para olha-la. Por Deus, a força daquela mulher era assombrosa.
-- Leonor – sua voz saiu como um grunhido raivoso, mas não era isso o que pretendia. Ela segurou seu rosto entre as mãos e o beijou.
Oh, sim, ele queria fazer amor com ela. A noite inteira. Queria marcar o corpo dela com beijos, com seu cheiro, enchê-la com sua semente, fazê-la sua dezenas de vezes, até caírem exauridos sobre a cama, onde dormiriam abraçados. Queria fazê-la esquecer-se do que passara e do que quase acontecera. E todos esses pensamentos e desejos surgiram com apenas um beijo dela. Um beijo casto, mas carinhoso.
-- Eu... – ele tentou outra vez. Respirou fundo. Certo. Já derrotara exércitos, então, qual era o problema em tentar pronunciar algumas palavras que não tinha as palavras morte e maldito no meio? O silêncio dela o deixava desconfortável – Eu não sou bom com as palavras. Não tenho muito a te oferecer, não sei compor versos românticos ou dizer frases bonitas, não sei o que poderia te dar de presente, o que poderia te fazer feliz, não conheço a verdadeira forma de amar uma pessoa e até então sequer sabia que isso existia... Não sou um cavalheiro, alguém que pode te embevecer com belas palavras ou te encantar com uma música. Mas eu quero ter filhos com você se você quiser, quero estar contigo até estarmos velhos e... Diabos. Não sou o homem correto para você. Mas eu te amo, Leonor, e daria minha vida pela tua quantas vezes fossem necessárias. Quero absorver tua dor sempre que a sentir. Quero ser o motivo de você sorrir, quero chegar em casa e te ter nos meus braços todos os dias da minha vida. Fomos unidos por Deus e pelos reis e o que eles unem, homem algum separa. Então eu... Eu quero que seja minha, assim como eu sou teu. Tudo o que posso te oferecer... sou eu.
O que não era o bastante, porque ele era uma droga. Um bastardo, um escravo dos ingleses, um bruto... Ela ficou calada. Certo. Era compreensível sua rejeição. A porta do quarto se abriu e as criadas entraram, carregando baldes de água fria e de água quente. Derramaram na tina, enchendo-a. Duncan se levantou e se afastou de Leonor. Quando o banho dela esteve preparado, ficou de costas para não vê-la se despir, porque já estava suficientemente desejoso de seu corpo. Tinha de lhe dar um tempo e... Por que ainda estava naquele quarto? Dizia a si mesmo que era só caso ela o necessitasse, mas sabia que não era apenas aquilo.
O farfalhar de suas roupas indo ao chão foi uma provocação dolorosa, mas não a incomodaria com... É, isso aí. Agora não. Passos leves. E entrou na tina. Sem saber o que fazer, foi até o banco ao lado da tina e pegou o sabão que as criadas haviam deixado. Leonor suspirou de deleite pela água quente.
-- Posso banha-la?
Ela anuiu com a cabeça. Ele molhou o sabão na água quente e, delicadamente, segurou sua mão, erguendo o braço com cuidado. Havia um corte no ombro, o sangue já coagulado. Massageou sua palma, esfregando o sabão nos dedos, no pulso, percorrendo lentamente seu braço, sentindo a maciez de sua pele. Lavou o corte e ela fez uma careta, mas não reclamou. Então repetiu o processo com o outro braço. Ele nunca tinha cuidado de ninguém, mas tentaria ser gentil com ela.
Ela se recostou na tina e suspirou, fechando os olhos, entregue a ele. Esfregou o sabão sobre os seios e rapidamente desceu para o ventre, contendo os próprios desejos. Afastou-a um pouco para lhe lavar as costas, os ombros. Ergueu um dos baldes deixados ali e molhou a juba de ébano, para logo esfregar a espuma em sua nuca, massageando. Ele era muito destrambelhado e brusco, era provável que lhe quebrasse o pescoço. Quando terminou, despejou outro balde sobre ela. Leonor se levantou e ele poderia ter babado com a visão de seu corpo nu envolto pela luz da lua como se fosse um anjo, as gotas de água morna escorrendo por cada pedacinho de pele acetinada, os cabelos revoltos e lavados cobrindo os seios e as costas. Engolindo em seco, Duncan pegou o linho sobre o respaldo da cadeira e voltou para enxuga-la. Era uma tortura toca-la sem poder senti-la, sem poder saboreá-la. Ela saiu da tina e ficaram um de frente para o outro. Passou o linho por seu cabelo para tirar a imensa quantidade de água que ele absorvera, depois deslizou por suas costas, as nádegas... Que Deus tivesse piedade, uma ereção poderia matar um homem.
-- É o suficiente.
-- O quê?
Ela sustentou seu olhar, as bochechas rosadas.
-- Você – sussurrou, tirando a toalha de linho das mãos dele. Duncan não protestou, estava fisgado por seu olhar. Ela deixou a toalha ir ao chão e segurou timidamente o rosto dele entre as mãos trêmulas enquanto molhava os lábios – Você é o suficiente para mim. Não vou prometer que não vamos gritar um com o outro depois, porque vamos brigar muitas vezes, mas eu também te amo. Você... me quer como esposa, Duncan?
Ela não fazia ideia do quanto.
Segurou-a pela cintura e a ergueu em um abraço de urso. Leonor riu e o abraçou de volta. Ele a levou para a cama e a deitou, para logo cobri-la com as peles para que não tivesse frio. Acariciou sua face.
-- Sim, moça, te quero como minha mulher. – disse em uma voz baixa e rouca, pressionando os lábios contra os dela – Descanse. Eu vou...
O medo brilhou em seus olhos e ela rapidamente o agarrou pela mão com uma força surpreendente.
-- Fique comigo. Por favor.
Era a primeira vez que ele a ouvia dizer por favor. Depois de tanto persistir, de tanto provocar, quando menos esperou, ela lhe pediu por favor. Que conquista! Incapaz de lhe recusar o pedido, Duncan rapidamente se despiu e se banhou, tirando o cheiro de sangue e guerra do corpo. Ela observou todos os seus movimentos com um sorriso acanhado no rosto. Quando voltou para a cama, deitou-se atrás dela, permitindo que usasse seu braço como travesseiro enquanto o outro lhe rodeava a cintura. Manteve o quadril longe dela por causa da maldita ereção. Não era o momento ainda. Ficar daquele jeito, apenas deitado junto dela... Era extremamente reconfortante. Dava-lhe uma estranha sensação de paz, de força, de ser capaz de erguer o mundo nos ombros só para protegê-la. Sua valkyria se recostou nele, relaxada como ele nunca vira, sinal de que confiava cegamente nele.
Inferno, estava... emocionado. Ninguém nunca o tratara como ela fazia e ele não sabia como reagir. Não sabia como compensar. Enterrou o rosto na curva do pescoço dela, respirando seu cheiro como se fosse o próprio ar. Nunca dividira a cama com ninguém, era estranho e... Aquele aperto no peito retornou. Queria matar Alasdair no lugar do lobo. Queria ser quem tivesse degolado aquela maldita garganta McDonald, bem lentamente para que sofresse incomensuravelmente. Jamais pensou que amaria aquela inglesa intrépida que saltou de um escarpado de Ulster. A mesma inglesa filha de Hugh Knightley. Mataria qualquer um que fosse tolo o suficiente para toca-la, qualquer bastardo que tentasse lhe fazer mal. A dor que sentiu quando pensou que veria Leonor ser estuprada diante de si sem que pudesse fazer nada ainda não fora embora e não amenizara mesmo com o alívio de saber que nada acontecera.
Graças ao lobo.
-- Duncan – ela sussurrou, tirando-o de devaneios provavelmente estúpidos – Está dormindo?
Beijou-lhe a curva do pescoço e a aconchegou em seu corpo, apertando-a contra si.
-- Não.
-- Não consigo dormir.
-- Eu também não – e era verdade. Não conseguiria dormir nem se estivesse com sono, não conseguia parar de ver atrás das pálpebras a visão tenebrosa de Alasdair tentando montar sua esposa como um cavalo querendo possuir uma égua.
Ela se sentou na cama, livrando-se de seus braços. Inconscientemente, contemplou as alvas costas de Leonor, suas nádegas redondas e deliciosas, a juba negra formando cachos rebeldes, suas curvas... Seu membro reagiu de imediato e teve de trincar os dentes com força para resistir aos desejos mais libidinosos que o acossavam. Ela encolheu os ombros e suspirou. Havia marcas roxas, amareladas, verdes e negras em suas costelas, manchando o imaculado tom de sua pele. A fúria borbulhou dentro dele, chegando a um nível incompreensível. Rezou para que Arian ainda estivesse viva, porque a mataria por ter tocado em Leonor e ordenado que a espancassem. Duncan também se sentou na cama, mas não se aproximou dela.
Diabos. Por que tudo tinha de ser tão complicado?
-- Estou enjoada – ela gemeu. Ele tinha certeza de que ela estava fazendo uma careta. Duncan queria abraça-la, mas estava muito furioso. Consigo mesmo, com Arian, com as marcas que Leonor tinha no corpo... Levantou-se com um grunhido e contornou a cama, pegando a terrina sobre a mesa e depositando aos pés dela, caso necessitasse. Ela estava muito pálida. Ele puxou as peles e lhe cobriu os ombros, ocultando sua nudez de seus esfomeados olhos. No entanto, ela não vomitou de imediato. Sem saber o que fazer, sentou-se ao lado dela. Leonor o olhou, o azul intenso de seus olhos brilhando e um lento sorriso se formando em seus lábios – Sabia que essa cicatriz no teu rosto te deixa mais sexy, McGregor?
Engoliu em seco. Usou um travesseiro para cobrir a ereção, que acenava alegremente a ela, contente pelo elogio. Ela o estava provocando, verdade?
-- É que não tem medo do perigo, moça? – sua voz saiu tão gutural quanto o rosnado de algum animal.
-- Deveria ter?
Sim, ela o estava provocando.
Sem conseguir se conter, deitou-a na cama e a cobriu com seu corpo, bebendo deleitosamente a visão do corpo nu... Até ver as outras marcas do espancamento em seu corpo. Deveria ter franzido muito as sobrancelhas, porque Leonor começou a se cobrir, pondo um braço sobre os seios, fechando as pernas com força e se ocultando com uma mão. Suas bochechas estavam vermelhas e ela desviou o olhar, pela primeira vez se mostrando envergonhada por sua nudez. Ele teve de cerrar os punhos para não quebrar algo. Para não gritar de ódio pelo o que lhe tinham feito.
-- Não olhe assim para mim – ela choramingou.
-- Eu não... – sinceridade. Precisava ser sincero. Talvez... conversar um pouco mais...
-- Não foi culpa sua – ela sussurrou. Conhecia-o muito bem, a ponto de compreendê-lo mais que ele mesmo. E isso não deixava de surpreendê-lo – Lachlan é o culpado de tudo e eu o mataria se ele estivesse vivo.
Ele não tinha palavras para responder, então reivindicou seus lábios para si, sentindo a suavidade e o calor deles, aprofundando lentamente o beijo, penetrando sua boca com a língua até o fundo, sugando de sua boca tudo o que ela tinha para lhe dar, bebendo seus gemidos e suspiros, enlaçando as respirações já tensas de expectativas. Leonor enlaçou seu pescoço com os braços e se arqueou para ele, sinal silencioso de sua entrega, de sua paixão. Pele contra pele, coração contra coração, um calor febril se espalhando por ambos os corpos como se fossem escaldados deliciosamente, o desejo já se mostrando presente, fazendo-o esfregar sua ereção contra o centro de prazer de sua esposa. Ela suspirou em sua boca.
Duncan sentia um instinto protetor intenso, que nunca sentira por ninguém, uma vontade animal de marca-la, de mostrar a todos que era sua, de impregnar a acetinada pele com seu cheiro, com as marcas de seu amor, até que explodissem de prazer um pelo outro. Estavam ofegantes quando romperam o beijo e ele não conseguia não toca-la. Não conseguia mais se deter. Levou uma mão à perna dela, percorrendo a panturrilha firme em uma carícia provocante, enquanto elevava sua perna para rodear seu quadril, abrindo-a mais para ele, acomodando-se entre suas pernas.
Sabia que ela já estava pronta para ele. E, Deus, queria com desespero entrar nela até o fundo. Estava rígido e dolorido, mas queria saboreá-la, tirar dela o cheiro desprezível de Alasdair McDonald. Deslizou a mão por sua coxa, apertando, enquanto ela percorria suas costas com as mãos, traçando as linhas de cada cicatriz com um amor atribuído a algo que ele sempre desprezou. Ela amava cada parte dele, das feias até as... belas. Mordeu seu maxilar, excitando-o. Ele lhe beijou a garganta e ela expos mais o pescoço, cravando as unhas em suas costas com força.
-- Diga para mim – ele grunhiu, a voz gutural como a de um animal, trilhando um caminho de fogo lento e intenso ao tocar a curva de seu pescoço com a língua, percorrendo a delicada região do ombro, até morder a pele sensível, sugando, lambendo, roubando-lhe um gemido.
-- O quê? – ela ofegou, ondulando o quadril para ele, impaciente.
-- Diga que me ama. Agora.
Leonor sorriu e, segurando o rosto dele entre as mãos, puxou-o para cima, repousando sua testa contra a dele, os olhares fixados como se uma invisível corrente os prendesse e os mantivesse assim.
-- Você não manda em mim – ela respondeu em um sussurro, molhando os lábios apenas para prender o inferior entre os dentes, provocando-o incomensuravelmente.
-- Diga, Leonor. Quero ouvir você dizer isso agora.
Ele se colocou em sua entrada, roçando o eixo de seu sexo no centro do prazer dela, fazendo-a entreabrir os lábios e gemer.
-- Eu... Eu te amo, Duncan...
Lentamente, ele se deslizou dentro dela, a suave fricção levando-os a uma loucura luxuriosa e irrefreável, o corpo dela o recebendo com calor, apertando-o, puxando-o mais a fundo. Quente, macio, enlouquecedor...
... precisava de mais. Não era o suficiente. Quanto mais lento ele se movia, mais intensa era a fricção entre os corpos, elevando o prazer dela a um estado de febre desesperada, onde só haveria alívio se ele se movesse mais, se não a provocasse com expectativas que ela sabia que apenas ele cumpriria como ela gostava. Não conseguiu conter o gemido que saiu por sua garganta. Ele a preenchia completamente e quando deu uma bruta estocada para estar totalmente dentro dela, ela pensou que ia morrer de tanto prazer. Ficaram quietos, suados e cegos para as sensações que ferviam em seu interior.
Leonor queria esquecer aquele dia e se lembrar unicamente do que Duncan a fazia sentir, tanto no corpo como no coração. O cheiro dele, de madeira e couro, a embriagava. O suor de um se mesclando ao do outro, criando uma única fragrância, a que ficaria em seus corpos quando terminassem de fazer amor.
Seu quadril se moveu sozinho, buscando os movimentos que ela tanto ansiava que ele fizesse. No entanto, ele cobriu um seio com a mão, tão grande e quieto dentro dela que a deixava impaciente. Sentia-o pulsar dentro de si, sentia cada pedaço dele e isso apenas a excitava ainda mais. Duncan mordeu seu pescoço se a delicadeza de antes, como se sentisse desespero por marca-la, do jeito que ela queria que ele fizesse.
Se antes via Alasdair McDonald quando fechava os olhos, agora não via nada mais que os olhos mais escuros que já vira na vida. Olhos negros como azeviche, profundos e intensos, que a olhavam com amor e selvageria. Lentamente, ele foi se retirando dela, deslizando, aquecendo, enquanto uma mão acariciava o seio, provocando o mamilo já túrgido e a outra lhe abria ainda mais as pernas. Ela ergueu o quadril e gemeu quando ele voltou a preenchê-la. Lembraria de que aquela posição fornecia um ângulo ainda mais prazeroso para ambos quando... Oh, Deus, danem-se os ângulos, queria que ele movesse ainda mais, era... pouco... Sim, pouco... Mais um pouquinho...
Ofegou quando ele começou a se retirar outra vez. Ele grunhiu em seu ouvido, lambendo o lóbulo da orelha, descendo a língua por seu queixo, mordendo e sugando a pele em chamas. A saudade de tantos dias longe um do outro parecia consumi-los, tomando forma e expressão a cada movimento, a cada beijo, a cada carícia trocada, substituindo as palavras que não seriam capazes de descrever com suficiente precisão o que sentiam. Os corpos careciam daquele encaixe, as almas necessitavam ser completadas, os corações suplicando pelos toques, pela presença, pela proximidade... Exigindo o tudo. Ele a apertou contra si e ela o abraçou, entregando-se à perfeição do momento, baixando qualquer barreira que poderia ter existo entre eles.
-- Mo chroí – ela o beijou nos lábios, entre gemidos e ofegos, aferrando-se a ele com as unhas, movendo-se no mesmo ritmo lento e provocante, enlouquecedor, viciante, apaixonado – Eu te amo.
-- De novo – a voz dele era baixa e profunda, arrepiando-a com o timbre incrivelmente grave – Diga de novo. Agora.
-- Eu te amo.
-- De novo.
Ela sorriu. Incapaz de se conter, ele aumentou a velocidade e a força, penetrando, retirando, penetrando, retirando, deixando-a sem fôlego, desnorteada, exigindo reações selvagens de um lado dela que ela nem conhecia. Ele a segurou pelas nádegas, guiando-a para um clímax violento... prolongando o momento tão ansiado, postergando, aproveitando...
-- Eu te amo.
-- Outra vez.
-- Eu te amo, mo chroí.
Ela nunca se cansaria de dizer aquilo, fosse em gaélico, francês, inglês ou grego, não importava. E ele parecia desesperado para ouvir. Ela queria saber o que lhe tinham feito para que se tornasse tão duro e frio com as pessoas, mas aquele não era o momento. Se todos os problemas giravam em torno de Lachlan McGregor, com certeza não seria na cama que falariam dele. Oh, não. Lachlan devia estar se retorcendo em sua tumba agora, urrando pragas pela união dos clãs, e não haveria vingança melhor para ela. A filha de Hugh Knightley de Westminster e o filho de Lachlan McGregor de Trotternish estavam irrevogavelmente unidos.
Quando os primeiros estremecimentos chegaram, abraçaram-se com força, movendo-se com paixão incontida, buscando um ao outro. Ele a beijou com uma ternura que contrastava com seus movimentos, pressionando os lábios nos dela, até tomar sua língua na dele quando ela suspirou de prazer e paixão. Com uma última estocada, enterrou-se nela até o mais profundo, derramando-se completamente em seu interior como uma onda de calor, preenchendo-a em todos os sentidos imagináveis. Mesmo quando desabou sobre ela, ainda a estava beijando.
-- Você é minha – ele disse em um tom baixo e gutural rente aos seus lábios, a testa apoiada na dela, olhos nos olhos. Ela esperou muito para ouvir palavras cruas tão possessivas e isso a fez sorrir de felicidade.
-- Sim – respondeu, passando as mãos pelos cabelos dele. Duncan lhe afagou a bochecha enrubescida – E você é meu, mo chroí.
-- Já disse que gosto quando fala em gaélico, moça?
-- Não.
-- Fale meu nome em gaélico, Leonor.
-- Não – ela provocou. Ele arqueou uma sobrancelha, aceitando seu desafio, antes de morder seu lábio inferior e suga-lo entre os lábios. – E se eu não quiser falar?
-- Você vai.
-- É mesmo, Donnchadh?
Ele voltou a se mexer dentro dela e ela quase ronronou.
-- Sim. Fale em gaélico.
-- O que quer ouvir?
-- O que eu sei que você está muito disposta a me dizer.
Leonor riu.
-- Eu te amo, Donnchadh McGregor. Satisfeito?
-- Sim, mo gra.
Para sua consternação, ele se retirou dela. Segurou-a entre os braços carinhosamente e a levou para o meio da cama, onde a cobriu com as peles e a puxou para si, abraçando-a. Ela deitou a cabeça em seu peito e passou uma perna sobre as dele, aninhada ao corpo que parecia feito de aço e revestido em veludo. O calor dele a envolveu e, cansada por fazer amor, relaxou, ouvindo as batidas aceleradas do coração dele como a música mais reconfortante que poderia existir. A mão dele acariciava seu ombro, os dedos brincando com algumas mechas de seu cabelo úmido, fazendo maravilhas em sua pele ainda quente de paixão.
-- Boa noite – ela ronronou. Ele beijou o alto de sua cabeça, entrelaçando os dedos com a mão dela que estava sobre seu peito.
☺
Leonor pegou no sono sem perceber e só soube que estava tendo o melhor dos sonhos quando uma batida a despertou no meio da noite. Depois de tantos dias de pura tensão, era a primeira vez que relaxava de verdade e as batidas na porta a despertaram subitamente, deixando-a sobressaltada e pronta para brigar. Duncan também acordou. Levantou-se primeiro que ela e lhe passou a regata com a qual dormia quando não estava nua nos braços dele – o que estava se tornando um forte costume, principalmente por estarem ainda sitiados pelos McDonald. Mesmo após a morte de Alasdair, o exército permanecia lá fora, lutando para entrar, esperando a oportunidade de conseguir realizar a destruição em massa.
Duncan treinava com ela pelas manhãs enquanto Erik cuidava de liderar o exército e Iain ainda não tinha retornado, para a preocupação de Mary e da própria Leonor. Duncan garantira que estava tudo bem, que o mandara cumprir uma tarefa muito importante pouco longe dali. De todo modo, lutar com seu marido parecia ser mais excitante do que as provocações na cama e sempre que terminavam um confronto, escapuliam para qualquer lugar onde tivessem privacidade e faziam amor outra vez. E outra vez. Até ficarem exauridos e saciados.
Os McDonald recuperavam suas forças e os McGregor também, preparando-se para a guerra que explodiria sobre eles de novo, sempre esperando o momento da batalha. Àquela manhã tentaram incendiar os estábulos com uma chuva de flechas em chamas, mas Mary e Leonor conseguiram detê-los ao comandar os arqueiros, detendo-os muito antes.
Duncan dizia que estava orgulhoso dela, não com palavras, mas com sorrisos e olhares que deixavam seus homens boquiabertos e as criadas sempre falando sobre como Leonor conquistara o coração do chefe quando todos acreditavam que nem alma ele tinha. Seu povo já o via com novos olhos, principalmente quando o viam com ela. Principalmente quando estavam juntos. E todos já estavam acostumados com as brigas deles, com os gritos e maldiçoes que ecoavam pelas muralhas de Dragon Seafront Castle. Quando as discussões começavam, os criados continuavam trabalhando, mas evitando passar pela linha de fogo cruzado. Sabiam que ele jamais a machucaria e que depois de tantos urros enraivecidos, ou ele a levava como um selvagem neandertal – jogando-a por sobre o ombro e ignorando seus protestos – para fazer sexo reconciliatório no quarto – ou em qualquer lugar disponível com privacidade – ou se separavam soltando fogo pelas narinas. E logo faziam as pazes para brigar outra vez.
Cada vez mais, ela estava apaixonada por ele. Cada beijo sempre parecia ser o primeiro e Bessie lhe dava certos conselhos para agrada-lo que a deixaram pálida de choque. Bom, ele também não parecia muito atrás, porque sempre lhe mostrava algo novo. E repetiam milhares de vezes o que gostavam.
Vestiu a regata, esticando o braço para pegar a espada que ele lhe dera. Oh, sim, ela chorou quando a ganhou na manhã passada. Por coincidência, ele tinha mandado fazer uma para ela e ela, duas para ele. Espadas gêmeas com a frase bàs roimh gèill cravada nas lâminas de aço. E a dela, feita de um aço mais leve e de tamanho menor, perfeita para ela empunhar sem cansar e obter a mesma voracidade letal que estava acostumada a desempenhar com seu mestre, continha as palavras mais lindas que ela já vira em uma lâmina tão perigosa: mo shíorghrá. Meu amor eterno. Ela leu cinco vezes para ter certeza de que não estava se enganando. E por isso chorou e se jogou nos braços dele, beijando-o na frente de quem quisesse ver.
Ou seja, do castelo inteiro. Os homens assobiaram e bateram palmas, o que a fez corar demasiadamente.
Depois do retorno de Duncan, estava mais fácil suportar o sítio imposto pelos McDonald. Reunindo ela, ele, Mary e Erik para discutir estratégias, não havia como perderem. E Erik mandara uma missiva a seu segundo em comando nas terras Ferguson, ordenando que preparasse uma frota para confronto em terra e na água para agora. Em poucos dias os reforços chegariam. Duncan era muito bom no que fazia e conseguia suprimir os ataques sempre que estes ocorriam, mas Leonor não sabia quanto tempo mais poderiam suportar. A comida estava acabando, precisavam voltar para suas atividades o quanto antes.
Segurou a espada com firmeza, pronta para desembainha-la com o mínimo sinal de perigo. Pouco se importando com sua deliciosa nudez, seu marido caminhou até a porta e a abriu. Leonor ouviu a vozinha chorosa de Drustan e relaxou, deixando o presente mais lindo que recebera na vida recostado à parede, a seu alcance. Então se apoiou nos travesseiros e lambeu os lábios, comendo com os olhos as nádegas firmes de Duncan McGregor. Bom, havia algumas marcas de unhas nelas, mas... Deus caprichou no corpo daquele homem. Mesmo com tantas cicatrizes, era mais belo que Davi de Michelangelo, ou Julian, ou Thomas... E ela não se cansava nunca de babar por ele. Pela forma como os músculos ondulavam quando se movia, pela graciosidade felina com a qual empunhava suas espadas.
Drustan disparou por debaixo do braço de Duncan, correndo pelo quarto e se jogando na cama, rodeando a cintura dela com os braços, enterrando o rosto em seu estômago. Sem saber o que fazer, abraçou-o, afagando suas costas, o cabelo de ébano rebelde, tentando acalma-lo.
-- O que foi, carinho? – ela perguntou amavelmente. Duncan fechou a porta e veio caminhando para ela. Leonor o olhou, a interrogação em seu olhar quase palpável. Ele se limitou a dar de ombros e a voltar a deitar ao seu lado. O pequeno a apertou, tremendo de medo. – Ei, calma... O que aconteceu?
Drustan fungou, sem nada dizer. Ela estava ficando preocupada. Tinham feito algo com ele? Ela mataria quem o machucasse.
Duncan se aproximou, vendo seu pequeno irmão sem saber o que fazer, tão impotente quanto Leonor. Ela beijou os cabelos do menino, afagando suas costas, embalando-o nos braços como sua mãe fazia quando ela tinha medo. Ele tremeu outra vez. Certo. Inspirando fundo, Leonor começou a cantar, a voz saindo baixa e suave, em uma cadenciada letra que transformou em gaélico para acalmar seu pequeno travesso. Duncan a olhou com admiração, enquanto ela cantava baixinho, fazendo Drustan relaxar pouco a pouco. Pensou que o menino estava dormindo, ficara quieto, apenas ouvindo a melodia que Isabel de Aquitânia lhe ensinara, os medos amenizando, tornando-se sombras. Leonor raras vezes cantava, mas desde seu casamento, encontrara muitas ocasiões que a fizeram cantar para ajudar pessoas amadas, como Duncan a se recuperar das feridas e Drustan para lhe dar força de superar seus temores, fossem quais fossem. Quando parou, o pequeno ergueu a cabeça para ela, os olhos cheios de lágrimas que ele não queria derramar. Ela lhe sorriu.
-- Você não vai ser menos homem se chorar, carinho.
Ele olhou temerosamente para Duncan, como se temesse reprovação, mas seu marido apenas assentiu com a cabeça. E Drustan se desmanchou em lágrimas, escondendo o rosto em seu estômago outra vez, envergonhado pelo choro, os ombros tremendo. Ela apenas o abraçou e voltou a cantar para acalma-lo, o que parecia surtir um grande efeito.
-- O que te ocorre, Drustan? – perguntou Duncan. Ele não demonstrava, mas ela sabia que estava preocupado com o pequeno.
-- Eu... eu... estou com medo – ele balbuciou contra a barriga dela.
-- Não tenha vergonha de ter medo, todos temos – Leonor lhe disse. Ele negou com a cabeça.
-- Meu irmão não tem medo de nada.
Leonor arqueou uma sobrancelha a Duncan, que suspirou.
-- Eu também tenho medo – ele confessou. Drustan ergueu a cabeça para olha-lo.
-- Tem?
-- Sim.
-- Do quê?
Essa ela queria saber a resposta. Leonor o olhou e ele desviou o olhar, igualmente desconfortável e envergonhado como Drustan. Meneou o cabelo, demorou a responder, até que limpou a garganta.
-- De perder Leonor.
Aquilo fez o coração dela dar um solavanco no peito. Não esperava ouvir aquelas palavras, mas a emocionaram muito. Ultimamente, seu humor era instável e sensível, emocionava-se com facilidade e agradecia pelos enjoos terem amenizados. Teve dias que mal conseguia pensar em comer e corria para vomitar. Duncan ou Mary lhe segurava os cabelos enquanto punha para fora até o que não tinha no estômago. Ou, simplesmente tinha tanta fome que pedia para Bessie lhe preparar banquetes. Se não estava doente, estava... Não. Duvidava bastante.
Drustan parecia incrédulo.
-- Sério, maninho? – perguntou hesitante.
Ela queria dizer a Duncan que ele nunca iria perdê-la, mas deixaria seu recado para quando estivessem sozinhos. No momento, a prioridade era Drustan. Leonor lhe tirou os cabelos do rosto.
-- O que te assusta?
Ele pareceu ponderar se dizia ou não.
-- Eu vi... o que Alasdair tentou fazer contigo – ele sussurrou, voltando a tremer tanto quanto sua voz – Ele te machucou?
Duncan ficou tenso como uma corda ao seu lado, os punhos cerrados, o maxilar tão rígido que não seria surpreendente se seus dentes quebrassem. Uma ova que ele se culparia! Ela ainda tinha pesadelos com aquilo e Duncan sempre fazia amor com ela, tanto para ama-la como para fazê-la esquecer, para tirar as marcas do McDonald de seu corpo e colocar as dele em total sinal de posse. Não era culpa dele. Demônios, a culpa era do pai dele, que fez inimizade com metade do mundo. Quando ele entenderia?
-- Não – Leonor forçou um sorriso – Duncan me protegeu. Você sonha com isso?
Drustan anuiu com a cabeça.
-- Todas as noites – admitiu – Tenho medo de que ele volte e te pegue, Leonor.
-- Eu não vou deixar vocês, carinho. Alasdair está morto e mesmo se ele voltasse, ou Duncan ou eu o mataríamos outra vez.
-- Por que Arian fez aquilo? – ele choramingou.
Como dizer?
-- Ela... não estava bem.
-- Arian estava doente?
Louca.
-- Sim. A mente dela já não funcionava como a sua – talvez nunca houvesse funcionado – e Fergus, bom, ele gostava dela, queria agrada-la. Está tudo bem agora.
-- Por que os McDonald ainda estão lá fora?
Ótima pergunta. Leonor mordeu o lábio inferior.
-- Não ficarão por muito tempo – grunhiu Duncan, as sobrancelhas profundamente franzidas.
Drustan ficou cabisbaixo e corou.
-- Posso dormir aqui? – pediu timidamente.
Leonor o afastou para poder abrir espaço, indo mais para a beira da enorme cama. Ergueu as peles em um silencioso convite e Drustan pulou naquele abrigo, abraçando-a e descansando a cabeça em seu peito, como ela costumava fazer com Duncan. Passou as mãos pelas costas dele, acomodando-os para voltarem a dormir. Duncan deitou, mas não relaxou. Permanecia petrificado em seu lugar, como uma representação marmórea da fúria, quieto e ensimesmado, o que a deixou irritada, porque não queria que ele ficasse se culpando. Ou remoendo ódio. Deixando um braço como suporte para a cabeça do pequeno e o rodeando com o outro, esticou as mãos para cutucar o ombro de Duncan. Ele virou o rosto para ela, sem esconder o que sentia: raiva crua e em seu estado puro. Acomodado como estava, não tardou para Drustan cair no sono, tão profundo quanto o de Leonor.
Leonor lhe mostrou os dentes em uma infantil amostra de sorriso. Tia Elizabeth costumava dizer que sorriso só é sorriso quando se mostra os dentes. No entanto, ele não respondeu sua brincadeira e apenas a encarou. Ela voltou a cutuca-lo, agora com mais força.
-- Pare com isso – sussurrou.
-- Com o quê? – ele grunhiu.
Paciência.
-- Com isso... – ela repetiu – Ficar se martirizando por algo que não foi sua culpa. Alasdair morreu. Chega.
-- Como sabia o que estava pensando?
-- Eu te conheço.
Ele segurou sua mão e a levou aos lábios com ternura.
-- Descanse, Leonor, teremos um dia cansativo amanhã.
-- Só se você me prometer que vai parar com isso. De coração.
Ele hesitou. Era incapaz de mentir para ela e ela sabia.
-- Prometo que tentarei.
-- Falo sério.
Ele suspirou, derrotado.
-- Eu sei.
-- Eu te amo, Donnchadh.
E nunca cansaria de dizê-lo.
☺
Quando amanheceu, Leonor correu para a terrina que já ficava aos pés da cama e colocou para fora tudo o que não tinha no estômago, a bílis subindo por sua garganta como farpas de tão ácida. Estava sozinha no quarto e tudo o que podia fazer era vomitar até ficar exaurida pelo esforço involuntário. Seu corpo se convulsionava a cada enjoo, a mente letárgica e zonza. Terminaria vomitando o próprio estômago se continuasse assim. Ajoelhada no chão, teve a última convulsão. Fez uma careta para o cheiro terrível que empestara o quarto, já ficando enjoada outra vez. Céus, estava morrendo. Só podia ser isso. Tremendo, fraca, respirou fundo para recuperar as forças, mas o odor do vômito a fazia querer repetir o penoso processo.
-- Bom dia – ouviu a voz de Mary. – Oh, Deus, Leonor!
A prima correu em seu socorro, agarrando a terrina e despejando o desprezível conteúdo pela janela. Leonor esperava que não houvesse ninguém para ser atingido por aquilo. Mary se ajoelhou ao seu lado, desamarrando uma fita rosa que costumava amarrar no pulso para prender o cabelo e a usou para recolher as madeixas de Leonor. Mary lhe limpou o suor da testa com a apalma e a ajudou a se sentar na cama, com a terrina esvaziada nos pés. Avaliou sua aparência, como se procurasse ali sinais de enfermidade.
-- Prepararei um chá para você e pedirei a Tess para lhe preparar um banho.
Antes que pudesse responder, Mary saiu do quarto correndo.
Leonor se sentia terrível. Em sua boca ardia o gosto metálico da bílis, estava suada e com o odor do que pusera para fora, os cabelos desgrenhados por ter despertado naquele instante... Estava um bagaço. Um bagaço mastigado, ruminado, cuspido. Suspirou. Não queria engolir em seco por nojo do gosto na boca. Quando Mary retornou com o chá quente, Bessie a seguiu. Tess ajudou as criadas a encher a tina com água quente e água fria e preparou os sais de banho para Leonor. Tess colocou linho limpo para que se secasse no respaldo da cadeira. Quando partiu, Bessie segurou seu queixo entre o polegar e o indicador e lhe ergueu o rosto para visualiza-la melhor. Leonor estava abatida, cansada.
-- Há quanto tempo está assim, querida? – Bessie indagou.
Leonor respirou fundo para reprimir outro enjoo.
-- Há bastante tempo – balbuciou, a voz saindo arranhada – Alguns dias, talvez mais de uma semana, não sei... Estou morrendo, Bessie. É o meu fim, não é?
Bessie riu. Ajoelhou-se diante de Leonor com a ajuda de Mary, pois sua idade avançada lhe impedia de muitas atividades, como a que exercia agora e lhe tocou o ventre com ambas as mãos, pressionando levemente nas costelas, descendo para o umbigo. Seu sorriso se ampliou. Ela estava feliz? Leonor estava morrendo e ela sorria como uma parva? Mary lhe deu a taça com o chá. Leonor segurou com as duas mãos e a aproximou do nariz para inspirar o aroma... que fez seu estômago embrulhar de novo.
-- Não acho que esteja morrendo – riu Mary – Você é curandeira, prima, já deveria saber.
Leonor franziu as sobrancelhas.
-- A moça tem razão – disse Bessie, apalpando seu ventre, como se procurasse alguma coisa. Leonor vomitaria nela se continuasse assim. Fez uma careta para o chá e o empurrou para Mary, que lhe lançou um olhar do tipo beba tudo agora. – Não está morrendo coisa nenhuma, minha senhora, a não ser que pretenda partir quando der à luz.
A taça caiu das mãos de Leonor, derramando tudo sobre os pés de Bessie, que fez uma careta. Ficou boquiaberta, sem saber como reagir. Quer dizer, grávida? Sério mesmo que estava esperando um filho do Duncan? Claro, de outro que não pode ser. Bom, eles vinham fazendo amor mais vezes do que as mãos poderiam contar, desenfreadamente, a cada noite, a cada manhã... Não se cansavam. Não deveria estar tão surpresa. Tinha suspeitado da gravidez, mas achou improvável. Nunca parara realmente para pensar se poderia ou não ser fértil, mas... Grávida? Ela estava esperando um filho dele! Oh, Deus! Como ele reagiria? Será que ficaria feliz? Claro que ficaria, era o sangue dele, seu herdeiro, com a mulher que ele amava e... Um filho! No meio da guerra, quando menos esperou, seu bebê se formou. Olhou para o ventre plano... Talvez nem tanto, era quase imperceptível a suave curva da criança que crescia ali. Realmente, muito imperceptível, mas se se esforçasse um pouquinho, dava para perceber. Seu bebê. Grávida.
Estava ruminando a informação, de repente, totalmente desperta. Tinha de contar ao Duncan! Era uma notícia especial. Faria a surpresa a ele à noite. Sim, arrumaria o leito, prepararia tudo para os dois, jantariam juntos no quarto e depois de fazerem amor, diria que esperava o bebê dele. Se fosse uma menina, ensinaria a pequena a lutar como seu mestre fizera com ela. E se fosse um menino, ensinaria certos truques que Duncan nem sonhava que existiam.
-- Leonor? – perguntou Mary, franzindo as douradas sobrancelhas.
Bessie havia se levantado e pedira licença para ir pegar algo com o qual pudesse limpar a sujeira que Leonor fizera no chão. Também levara embora sua terrina do alívio profundo. Sozinha com a prima e melhor amiga, Leonor saltou da cama e a prendeu em um abraço de urso. As duas gritaram de alegria, saltitando como loucas pelo quarto.
-- Parabéns, prima! – cantarolou Mary, beijando-lhe a bochecha – Nem acredito que você será mamãe!
-- Nem eu. – Leonor disse alegremente, tirando a regata por cima da cabeça e a jogando no chão. Quando entrou na tina, Mary ficou ao seu lado, conversando sobre como era bom um pouco de luz naquele mundo caótico que explodira em Dragon Seafront Castle.
Um bebê era algo especial e Leonor estava incrivelmente ansiosa para ver sua barriga crescer e crescer. Para poder pegar seu filho nos braços, para cantar para ele. Para dar a ele a infância que ela não teve. Queria gritar agora mesmo para Duncan que estava grávida, mas morderia a língua até o anoitecer.
Ao terminar o banho e se enxugar, Mary lhe ajudou a selecionar um belíssimo vestido turquesa que chegara com o resto de seus pertences de Ulster e a ajudou a vesti-lo. Seu cabelo estava solto e penteado de forma que seus cachos não se desfizessem. Agora que estava limpa e muito bem arrumada, desceu para o salão com a prima, conversando a sussurros os planos que Leonor tinha para mais tarde. Ainda não conseguia acreditar que estava grávida. Parecia um sonho.
Radiante, desempenhou sua função no castelo, distribuindo os trabalhos para os criados e selecionando a quantidade de comida e o que poderiam fazer para o almoço, uma vez que a comida era escassa. Rogava para que o sítio dos McDonald acabasse o quanto antes ou todos morreriam de fome. Mary tocou alaúde para as crianças do castelo, animando o ambiente.
Duncan estava com os homens no barmkin, coordenando patrulhas e treinamentos, atendendo aos aldeãos quando precisavam, o que lhe dava horas de liberdade para planejar outros detalhes da surpresa. Às vezes, tinha vontade de tocar o ventre, mas resistia com força de vontade férrea, pois não queria que ninguém mais soubesse antes de Duncan. Quando ficou mais livre de suas tarefas, pegou uma cesta na cozinha e se dispôs a caminhar lá fora, a neve já caindo como uma chuva pálida e fria, os flocos rodopiando até cair em suas bochechas rosadas.
Seria um inverno intenso e não tinham mais as provisões, já que Alasdair McDonald viera lhe estragar a vida. O frio a atingiu com um sopro arrepiante e ela estremeceu. Colheria algumas ervas que cresciam nos limites da muralha para Bessie temperar o almoço, que seria sopa, para fazer o guisado de carneiro durar mais que o de costume. A situação deles era desesperadora. Ela pedira milhares de vezes a Duncan que a deixasse sair pela passagem secreta de Dragon Seafront Castle para cavalgar ininterruptamente até as terras McLeod e negociar uma aliança, mas ele resmungava deixe estar. Ela se irritava, eles discutiam... Era sempre um ciclo.
Não tardaria para Trotternish ter sua região montanhosa tão fria como o inferno e o único calor que teriam talvez fosse na praia. Por falar em praia, quando a guerra acabasse, poderia pedir ao marido para leva-la em um passeio de birlinn. Afinal, pedira-o tempos atrás para ensina-la a dirigir a coisa monstruosa e ele desconversara. Desta vez não haveria fuga para ele.
A guerra tem de acabar.
Ajoelhou-se perto de ervas e daninhas, estreitando os olhos em busca do que procurava. Puxou algumas folhas, colocando-as na cesta, vendo quais eram as que precisava e se estavam, de fato, boas para cozer. Os homens precisavam de uma alimentação reforçada para terem força para lutar. Na verdade, todos ali precisavam. Com um suspiro cansado, levantou-se e seguiu mais adiante, varrendo visualmente o terreno, às vezes, acocorando-se para ver que erva era aquela. Se não fosse venenosa, poderia levar. As venenosas eram trabalho de Mary, que fazia uma cremosa substância transparente e molhava as pontas das flechas. Morte imediata ao atingido. Todos os arqueiros já tinham suas novas setas envenenadas.
Uma única folha poderia destruir a vida de um homem, assim como também poderia salva-la. E elas tinham conhecimento para isso.
Seu bebê também saberia as artes dos curandeiros. Seria adequadamente instruído em tudo.
Seu coração se acelerou na expectativa de dizer a Duncan que estava grávida.
Colocou mais ervas na cesta, tirando as hastes e escolhendo apenas as melhores folhas. Sua espada mal pesava na cintura, presa ao cinturão em seu quadril. Grávida ou não, ainda era uma guerreira e nunca andava vulnerável, como uma presa. Estava tão armada quanto qualquer homem.
Preocupou-se por Iain, que ainda não havia retornado.
Estaria ele bem?
Agachou-se para pegar outra planta que não era venenosa. Daria um sabor delicioso à sopa de Bessie se misturasse com outras que capturara àquela manhã. Estava guardando na cesta, quando uma sombra lhe barrou a visão do sol. Inicialmente, viu botas desgastadas e grandes de alguém que vestia calças. A apreensão desceu por sua coluna em forma de medo e, antes que pudesse se erguer, mal tinha posto a mão sobre o cabo da espada, o homem se lançou sobre ela, imobilizando-a com um braço do tamanho de um tronco e lhe cobrindo a boca com uma mão enorme. Leonor se debateu, esperneando e cabeceando, enquanto ele a rebocava para os fundos da capela, que ficava atrás do castelo, perto de algumas poucas árvores. Ela lhe mordeu a palma até sentir gosto de sangue, mas ele apenas amaldiçoou e permaneceu arrastando-a para longe. A cesta foi ao chão durante a briga, mas ele era muito mais forte que ela. Gigantesco. Leonor rosnou sua fúria, dando coices, sem parar de lutar um segundo sequer. O desconhecido a arrastou para as sombras fornecidas pelas árvores. Quando se certificou de que não havia ninguém por perto, soltou-a no chão como se tivesse estado carregando uma saca de grãos. Leonor cuspiu, desfazendo-se do gosto de sangue, sentada sobre a terra fria. Ergueu um furioso olhar para o imbecil.
Qual seria sua intenção? Era muita tolice que a levasse apenas até ali. Poderia sequestra-la, viola-la, arrancar seus órgãos, vendê-la, desova-la... E a jogara no chão, ainda na segurança da muralha de Dragon Seafront Castle.
-- Filho de...
-- Finalmente te achei, Anna Leonor.
Leonor empalideceu instantaneamente, como se todo o sangue de seu corpo evaporasse de repente. Sua cabeça girou como se fosse desmaiar.
-- Oh, Deus...
Hugh Knightley de Westminster estava parado ante ela, com um estranho sorriso paterno no rosto. E a puxou para um forte abraço, erguendo-a em seu aperto. Ela não conseguia reagir. O que seu pai estava fazendo ali? Quer dizer, ele... Não estava morto? Não entendia mais nada. Sabia que era ele porque algo dentro dela reconhecia vagamente sua voz e tia Elizabeth lhe mostrara tapeçarias costuradas com o retrato de seus pais, a maioria feita por sua doente mãe.
-- Te procurei tanto, minha filha.
Ela só foi capaz de arregalar os olhos. Quando ele a soltou, ela cambaleou para trás, os joelhos tremendo, parecendo um cachorro encolhido e com o rabo entre as pernas. Não sabia se ficava feliz, apavorada ou se fugia dali para nunca mais sair do castelo. Seu pai... Oh, Deus, seu pai...
Notas finais
Agora, que comecem os comentários de pré-ano-novo !!! kkkk Caramba, nem acredito que tenho 69 comentários e 4 recomendações Ç...Ç'' Muita emoção pra um coração só, acho que vou botar um marcapasso xDD''
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