Prazeres Sombrios - Indômita
20 Capítulo XIX - A noite mais escura
Notas iniciais
Como vocês me fizeram muito feliz, vou postar esse capítulo como presentinho em agradecimento por tudo, inclusive a Mark Die, que me ofereceu ajuda para publicar Duncan&Leonor e eu quase tive um infarto por síncope emocional.
Como diria Duncan: Por todas as cadelas leprosas do mundo, obrigada *------------*
Peço desculpas por não ter respondido os reviews ainda, mas eu li todos e, de fato, gritei quase na cara da minha mãe de tanta alegria e nem a Miya escapou da minha euforia maléfica hahaha Prometo que vou responder.
Boa leitura!
CAPÍTULO DEZENOVE
→ A Noite mais Escura ←
Leonor não sabia como reagir. Se atacasse, matariam seu marido. Se ficasse quieta, todos morreriam. E pedir clemência estava fora de cogitação; primeiro, porque Alasdair McDonald não teria piedade e segundo, porque um Knightley jamais se rebaixava ante um McGregor – ou um McDonald. Mantida erguida apenas pelo orgulho, ruminou aquela cena que ficaria gravada em sua mente a fogo frio eternamente, vendo as expressões dos criados encolhidos nos cantos das paredes, intimidados pelos soldados inimigos armados, a face conturbada de Mary, a impassibilidade de Duncan e a crueldade de Arian. Ela sorriu como o demônio sorriria ao capturar uma pobre alma atormentada, dando alguns passos na direção de Leonor, mas parando no centro do salão, ao lado da mesa.
Deus, o que te fizeram, mo chroí?
Ela queria chorar pela tortura pela qual ele passara, mas se manteve impassível para não se mostrar fraca. Nunca tivera grandes emoções. Até conhecer aquele bastardo. Oh, não, ele tinha de derreter o gelo forjado em seu coração, o mesmo gelo que ela usava para se proteger, para evitar situações como aquela. Fizera-a ter esperança de construir um futuro com ele para ser capturado pelo inimigo. Ah, maldito seja, Duncan McGregor!
Arian segurou seu queixo entre o polegar e o indicador, cravando as unhas em sua carne até ferir. Leonor não mostrou qualquer sinal de dor. Para alguém que teve de costurar sozinha as próprias feridas estando dolorosamente sóbria, aquilo não era muita coisa. Sustentou seu olhar enlouquecido, desequilibrado.
Ele é seu irmão, Leonor queria gritar, porque não fazia sentido a traição de Arian. Como ela pudera trair o próprio irmão, que cuidava dela como se fosse a coisa mais preciosa do mundo? A indignação e a raiva a banharam lentamente como lava, enchendo-a de uma protetora vontade de matar aquela mulher que infligira tanto mal ao seu marido. A todos eles. Porém, teve de se contentar em respirar lenta e tranquilamente, em cerrar os punhos até as unhas arrancarem sangue, porque se não se controlasse, seria impulsiva e jamais se perdoaria por deixar algum deles morrer.
-- Olhe para você – Arian disse com desdém, erguendo seu rosto para quem quisesse ver. Duncan não mostrava emoção, como se a ele pouco importasse o que fizessem a ela. Mas ele a amava. Certo? Parou de olhar para ele e se concentrou nos cristalinos e doentes olhos de Arian – Vestida de homem, ferida e armada... Acha bonito sua audácia? É ridículo, sabia? Tão masculina e estranha, com esse cabelo escuro desarrumado, revolto... É tão selvagem quanto meu irmão.
Leonor arqueou uma sobrancelha. Não diria nada. Não se rebaixaria. Seu orgulho saxão era superior a qualquer afronta que aquela mulher fizesse. Subitamente, Arian a largou bruscamente e ergueu a mão. Quando a desceu, a bofetada que lhe deu foi forte o suficiente para a cabeça de Leonor chegar perto de dar uma volta. Com a face latejando e queimando, voltou o olhar para confrontar silenciosamente a mulher.
-- Oh, não doeu? – riu Arian – Não faz mal.
-- Não a deforme – disse Alasdair McDonald, sua voz de trovão por muito pouco não fazendo Leonor estremecer. Aquele homem não era humano, não podia ser. Algo nele o rodeava e a deixava enjoada, como se o próprio Mal estivesse abraçando aquele corpo tenebroso, espalhando um terror medonho por onde quer que passasse. – Tenho planos para ela.
-- Faça o que quiser com ela – grunhiu Duncan sem qualquer traço de emoção – Não me importa.
Aquilo a magoou profundamente, mas ela ignorou seus próprios sentimentos. Empinou o queixo e aprumou os ombros, adquirindo a mesma postura de uma rainha ante seus súditos, em um desafio silencioso a qualquer um que contestasse seu sangue nobre. Fraqueza era sinônimo de morte e Leonor não permitiria ser dominada por ela.
-- Não vou deforma-la – disse uma animada Arian – Apenas brincarei com ela para que aprenda seu lugar. Estou cansada de receber ordens de uma maldita inglesinha, quando a senhora daqui sou eu!
Então, era por vingança. Quando Leonor chegara, o lugar de senhora do castelo deixou de ser de Arian e passou a ser incontestavelmente seu. Mas não podia ser apenas isso. O olhar daquela mulher era insano, doente, não apenas ambicioso. Havia mais que isso. Mas o que seria?
Instintivamente, Leonor saltou para longe e em um piscar de olhos, já tinha puxado o arco das costas e encaixara a flecha em seu ponto, mirando a garganta da ruiva. Estreitou os olhos em ameaça. Alasdair pressionou o pescoço de seu marido com a claymore.
-- Jogue as armas ao chão – ordenou Alasdair McDonald, seus estranhos olhos escuros e cinzentos fixos em Leonor com aquele mesmo macabro interesse – Quero que tire cada arma de seu corpo, mulher.
-- Tire você mesmo – ladrou Leonor, olhando fixamente para Arian, mas atenta a qualquer movimento a seu redor – Vou mata-la se não sair de perto desse bastardo.
-- A vida dela não me importa mais – Alasdair riu; um som esganiçado e arranhado, pavoroso para a alma – Faça o que quiser com ela.
Arian não se mostrou ofendida, o que despertou a curiosidade de Leonor.
-- Meu único desejo é a morte dele – ela apontou para Duncan – Mesmo que me mate, ainda o verei no inferno, junto com nosso pai.
Nosso pai... A compreensão a atingiu como um balde de água fria. Desde o começo, não se tratou de Leonor. Não era a ela que queriam matar, mas a ele! Usaram-na como distração, dirigindo o primeiro ataque a ela, quando o objetivo era Duncan. Fizeram com que pensassem que o alvo era ela para que ele não se preocupasse tanto consigo mesmo e então... Capturaram-no. E tudo por causa de uma vingança ridícula. Porque Duncan matou Lachlan McGregor, o que não era um segredo naquele castelo. Era um dos motivos para todos o temerem tanto. Por algum motivo, Arian amava seu pai e provavelmente viu o irmão o matando. Por isso ela era desequilibrada, doente, louca. Queria se vingar de Duncan e compartilhou seu ódio com Leonor por causa da tapeçaria.
Preparou-se para disparar a flecha com o mínimo movimento dela.
-- Jogue as armas ao chão – ordenou outra vez Alasdair, perdendo a paciência – Agora.
Havia uma fina linha escarlate na garganta de Duncan. Ninguém sabia, mas as mãos dela tremiam e suavam. Medo. Muito medo. Engolindo em seco, Leonor largou o arco e flecha a seus pés. Depois ergueu a lança, jogando-a no chão, tirando o escudo e a aljava logo em seguida. Depois tirou as adagas das botas e do cinto. Quando viram que não restava mais nada, um dos soldados McDonald se aproximou e recolheu seus pertences, afastando-se silenciosamente. O sorriso de Arian se fez mais cruel, uma vez que agora tinha total liberdade para brincar consigo. Os joelhos de Leonor tremiam, ameaçando derruba-la. Deus, estava apavorada.
-- Que boa menina – cantarolou Arian.
-- Ele é seu irmão – protestou Leonor, recebendo uma gargalhada de deboche como resposta.
-- E daí? – ela riu – A mãe dele também era a mãe dele quando o surrava todos os dias por existir. O pai dele também era o pai dele quando o deu a Alasdair McDonald para resolver uma batalha por roubo de gado sem pensar duas vezes. E Alasdair era apenas um estranho quando o vendeu aos ingleses como escravo. Então, o que importa? Ele sempre foi um estorvo, fará um bem quando morrer.
Não. Não, não, não! Os olhos dela arderam quando olhou para ele.
-- Você é uma tola – Mary disse rispidamente. O soldado mais próximo a esbofeteou e Bessie precisou segura-la para que não fosse ao chão. Leonor correu para pular em sua garganta por tocar em sua prima, mas braços fortes e másculos rodearam sua cintura. Ela se debateu com todas as forças, cravando as unhas nos antebraços do bastardo, chutando e dando cotoveladas.
-- Largue-me! – vociferou, impulsionando o corpo para cima o suficiente para sua cabeça atingir com força um maxilar. O grunhindo de dor foi alto, mas não a soltaram – Solte-me, filho de cadela!
-- Quem acha que é? – gritou Arian, colocando-se em seu campo de visão – Faça-a calar, sua voz me irrita!
Leonor rosnou e cuspiu no rosto dela. O silêncio que se seguiu foi incômodo, quebrado apenas pelos protestos de Leonor. Arian passou a palma sobre o olho cuspido e fez uma careta para o líquido em seus dedos. Quando seus olhares se encontraram, havia ali uma maldade crua e infindável de gelar o sangue. Arian estreitou os olhos e proferiu obscenidades em gaélico que não passaram despercebidas. Pela primeira vez, a expressão de Duncan pareceu desesperada, como se sofresse de grande agonia, mas permanecia congelado em seu lugar, com a espada de Alasdair na garganta.
-- Solte-me! – ordenava Leonor, chutando seu captor. Ele a ergueu do chão e ela redobrou os esforços por liberdade, cabeceando, esperneando, debatendo-se desesperadamente.
Arian fez um gesto com a mão e o homem coberto de negro que a segurava a largou bruscamente ao chão. Leonor cambaleou e precisou se apoiar na mesa para não cair. Quando se virou, a dor a atingiu com uma força incomensurável, apagando momentaneamente sua visão. Piscou para enxergar melhor, tonta, a cabeça zumbindo e latejando. A visão estava começando a clarear quando a outra bofetada lhe atingiu na lateral da cabeça. Suas pernas tremeram e tudo girou. Não sabia se ainda estava de pé ou se caíra no chão. Por algum motivo, permitiram-lhe alguns segundos para se recuperar e retornar à consciência. O homem de negro era o mesmo que aqueles que tentaram mata-la – e a Duncan na primeira noite que chegaram muito perto de fazer amor no quarto dela. E ela sabia que o que havia por debaixo daquele gorro escuro era mais tenebroso e diabólico do que poderia ter imaginado. Respirando fundo e ignorando o gosto metálico de sangue na boca, aprumou os ombros e empinou o queixo orgulhosamente, mantendo-se régia e inabalável.
Se reagisse, Mary e Duncan sofreriam. Seu tio e o mestre a treinaram para aguentar a dor, para suportar situações como aquela, como se soubessem do que poderia acontecer no futuro. Ela começou a pensar que talvez eles já soubessem da decisão dos reis de casa-la com o inimigo, que eles não tinham simplesmente decidido um dia e posto em prática no outro, que já era algo planejado há bastante tempo. Talvez por isso fora preparada desde sempre para nunca baixar a cabeça, para nunca se deixar esmaecer e se debulhar em lágrimas, como via as criadas fazendo naquele momento. Anna Leonor Knightley de Westminster foi criada para ser uma feroz guerreira, uma lutadora até o fim. Jamais se curvaria a ninguém, não importando quem fosse.
Cerrou os punhos ao lado do corpo, decidida a aguentar a surra de pé e com a cabeça erguida. Uma inglesa dona de um dos sangues mais puros da Inglaterra e da Normandia, quase descendente de reis... Sim, ela jamais permitiria que rebaixassem seu orgulho. Sua honra.
-- Bata nela até que fique de joelhos! – gritou Arian enlouquecidamente – Não quero vê-la com esse olhar superior, quero vê-la ajoelhada e submissa, entendeu?
Ela nunca se ajoelharia. Nunca.
Ouviu o som das correntes sendo puxadas com força e vagamente compreendeu as palavras furiosas de Alasdair. Duncan devia estar tentando se libertar, o que era uma tolice na situação dele. A outra bofetada a deixou momentaneamente cega e surda e quase a fez cair. Mary gritou qualquer coisa e Duncan rugiu, puxando as correntes com mais força. Outra vez, ela ajeitou a postura e permaneceu inabalável, por mais que lhe doesse. Queria chorar e pedir clemência, falaria o que fosse para acabar com aquilo, mas se recusava. Aguentou a próxima bofetada com uma força que achava que não possuía.
-- Ajoelhe-se – ordenou Arian.
Negou com a cabeça.
-- Ajoelhe-se!
Seu rosto já deveria estar inchado e tão roxo quanto o de Duncan. Seu corpo inteiro tremia, fraco, mas não podia cair. Não podia desistir. Sentiu uma lança cravada no peito quando viu que Alasdair puxava seu marido pelos cabelos, tombando a cabeça dele para trás o suficiente para exibir o pescoço alvo e a lâmina que lhe rasgava a pele.
-- Agora, mulher – ele disse calmamente – fique de joelhos, ou a cabeça dele cairá agora.
Um filete de sangue escorreu pela garganta dele. Duncan negou com a cabeça. Para reforçar suas palavras, Alasdair aumentou a pressão no corte. Leonor ficou congelada onde estava. Foi esmurrada para deixar de ser orgulhosa e não resolveu. Mas bastou colocar em risco a vida dele e todos os pensamentos lúcidos se esvaíam de sua mente assustada. Seus olhos deviam estar mostrando terror, porque Arian e Alasdair pareciam extremamente satisfeitos. Pouco a pouco, ela andou arrastando os pés para longe da mesa, onde qualquer um pudesse vê-la e, usando todas as forças para não desabar no soalho, foi se dobrando lentamente, com um cuidado visível para todos, até que os joelhos tocaram o chão.
-- Baixe a cabeça e olhe para o chão – disse Alasdair com contentamento.
Leonor deixou a cabeça pender para frente e fechou os olhos por um momento, respirando fundo para se acalmar, para recuperar suas forças. Odiava estar naquela posição. Odiava com todas as forças. Engoliu seu orgulho ferido. Arian gargalhou a seu lado e a chutou nas costelas.
Os estrondos da batalha lá fora preenchiam seus ouvidos e ela rogou outra vez para que Erik estivesse bem. Arian trouxera os inimigos para Dragon Seafront Castle, prendera os McGregor em uma armadilha ardilosa... Seria um massacre. Provavelmente usara a passagem secreta na ala sul da muralha, uma pesada porta de ferro oculta por trepadeiras e arbustos, que Leonor acreditava que sequer era capaz de abrir outra vez de tão velha. Houve um baque nas portas do castelo, como se alguém tivesse sido arremessado contra elas. Gritos. Espadas contra espadas.
Abriu os olhos.
Por que Fergus estava ajudando também? Qual seria o interesse dele naquilo tudo? Arian queria vingança, Alasdair queria poder... E Fergus, o que ganharia traindo seu primo e senhor? Não fazia sentido. Era a peça que não se encaixava. Olhou para ele através da cortina de seu cabelo. Não parecia se importar com o que acontecia, como se a ele tanto fazia se alguém morresse ou não. Três guerreiros de preto estavam atrás dele, apenas observando o desenrolar da cena.
-- Adoro vê-la assim – disse Arian – De joelhos, submissa a mim.
E a chutou outra vez. Leonor forçou uma risada amarga, que rasgou sua garganta quando saiu.
-- Já vi mulheres com mais força nas pernas – debochou, erguendo apenas um pouco a cabeça para olha-la por baixo – É só isso que pode fazer, Arian? Que decepcionante!
-- Maldita...!
-- Ela a está provocando, tola – grunhiu Alasdair, revirando os olhos com impaciência – Não se deixe manipular tão facilmente.
-- Tarde demais – Leonor provocou – Essa tonta é facilmente coagida. O que ofereceu a ela, um quilo de arroz? Amor eterno? Trazer Lachlan McGregor de volta?
-- Quieta! – gritou Arian.
-- A não ser que ele seja uma fada, seu sonho não vai se realizar.
-- Mas eu vou ter minha vingança!
-- De quem? Se Duncan não o tivesse matado, teria sido eu. Ou, qualquer outro com ódio suficiente para livrar o mundo dele.
Ela segurou a cabeça entre as mãos, os olhos atormentados e transbordando lágrimas. Alasdair bufou.
-- Não foi Duncan quem o matou – ela gemeu, soluçando e tremendo – Fui eu... Eu o amava e Duncan dizia que ia mata-lo, que ele não era humano... Então ele me procurou certa noite... Papai queria dormir comigo... Duncan lutou com ele... Sim, eu me lembro... Lutaram até o amanhecer, mas eu o apunhalei pelas costas. Matei-o. E a culpa é sua, Duncan, sim, é sua, você me voltou contra ele... Merecia ser desprezado pelo o que fez, porque papai morreu por sua culpa e a alma dele só descansará em paz quando tiver a nossa como companhia.
Ela era louca. Doente. A culpa nunca fora de Duncan. Meu Deus. Ele assumiu tudo para proteger aquela praga e ela se voltava contra ele tão covardemente... Ele passou anos recebendo o temor de todos por algo que não cometeu só para que aquela raiva derivada do pavor não caísse sobre ela. Ele sofreu por Arian. Leonor viu nas expressões chocadas dos criados e aldeãos que mal conseguiam engolir o que ouviam. Que ainda ruminavam a revelação. A fúria buliu em seu interior, fazendo-a desejar mais do que nunca matar aquela mulher.
Subitamente, Alasdair gesticulou para que Fergus desembainhasse a espada e a colocasse na garganta de Duncan. O McDonald embainhou sua arma e se dispôs a andar para elas. A expressão dele fervia de luxúria e sanguinolência e isso fez o medo de Leonor ultrapassar seu limite, pois sabia o que viria agora. Movida por seu instinto de sobrevivência, ergueu o kilt até o quadril e puxou a adaga que tinha escondida em sua coxa. Quando a compreensão caiu sobre Arian, Leonor já tinha se jogado sobre ela. As duas rolaram pelo chão, engalfinhadas em uma batalha de morte. Nesse instante, Mary se lançou contra a parede e desembainhou uma maça de ferro, arrastando a bola com espinhos pelo chão e, com um grito de batalha, avançou para o soldado mais próximo. Duncan se abaixou, desviando da espada de Fergus, que se distraíra momentaneamente com o caos que explodira no salão e, plantando firmemente os pés no chão, começou a puxar as correntes para se libertar.
Leonor mordeu a adaga chinesa pelo cabo para deixar as mãos livres. Arian a segurou pelo pescoço com uma mão e usou a outra para agarra-la pelos cabelos. Grunhiram, rolando pelo chão, disparando chutes, contorcendo-se. A ruiva conseguiu ficar sobre ela e desceu o punho em seu rosto. Leonor mordeu a adaga com mais força e, sem pensar em nada mais que sobreviver, socou o peito de Arian. Ela ofegou e gemeu de dor, paralisada pelo golpe em uma região tão sensível. Aproveitando a oportunidade, Leonor impulsionou os quadris para cima e rolou, ficando em cima. Tirou a adaga da boca, segurando-a habilmente pelo punho. Antes que descesse a folha entre os olhos de Arian, algo prendeu seus cabelos com força e a puxaram para cima. Uma mão arrancou a arma de sua posse e a arrastou para longe de Arian.
Ela estava se debatendo, mordendo e chutando desesperadamente. Puxavam seu cabelo e uma única mão gigante imobilizava seus dois pulsos. Cabeceou, pulou, chutou com todas as forças, mas o gigante com odor de morte, de corpos em putrefação, parecia não sentir seus golpes. O pavor a dominou quando se viu arrastada para as escadas. Um grito ecoou pelo salão e ela demorou a perceber que era dela.
Não, não podia ser levada, não agora que podia matar a traidora... Precisava sair dos braços de... Alasdair McDonald. O salão era um caos, a cacofonia de gritos e grunhidos e armas, tudo estourando em seus ouvidos, o sangue banhando o chão. As criadas e os aldeãos se ergueram com suas tolas armas e foram à luta contra os guerreiros de negro e os soldados McDonald, lutando por sua senhora e seu chefe e por eles mesmos. Mary batalhava lado a lado com Bessie, erguendo a maça enquanto a cozinheira erguia uma frigideira de barro e uma faca de cozinha. Duncan arrancara as correntes do chão e lutava como um possesso contra Fergus e os seis soldados que o estiveram prendendo em seu lugar. Até desarmado era letal. Movia-se com uma graça felina, feroz e impiedoso como ela se lembrava. Os olhos se encheram de lágrimas quando foi jogada ao chão e só pode ver suas costas, os músculos tensos ondulando a cada contração por seus movimentos. Arremessou um soldado por sobre a cabeça com um golpe que ela nunca vira ninguém usar. Outro tentou chuta-lo e, agarrando-o pela perna, jogou-o contra a mesa.
Alasdair a deitou no patamar sobre os degraus e sorriu como o diabo. O coração dela parou de bater por um momento e seus olhos se arregalaram, a compreensão a paralisando de medo. Ele usou as mãos monstruosas para lhe abrir as pernas e erguer o kilt até a cintura. Leonor não encontrou a voz para gritar ou a força para se mover. Ficou petrificada, tremendo, vendo aquele sorriso tenebroso, enquanto ele erguia o próprio kilt e se acomodava entre suas coxas. A bílis subiu por sua garganta e sentiu o coração batendo na garganta. Não conseguia respirar. Oh, Deus, estava sufocando de medo...
-- DUNCAN MCGREGOR! – rugiu Alasdair, rindo de cruel deleite, apertando as coxas dela até deixar marcas. Sua voz reverberou pelas paredes e na consciência dela, retumbando, despertando-a para a realidade – VEJA O QUE EU FAÇO À SUA ESPOSA INGLESA DENTRO DE SUA PRÓPRIA CASA!
Leonor gritou com ferocidade, mas o som foi afogado pelo rugido de Duncan. E se ele não a quisesse por ter sido tocada por outro? Desesperada, contorceu-se, tentando se arrastar para longe do alcance daquele homem. Antes que Duncan chegasse a ele, quatro guerreiros de preto avançaram para ele, saídos das sombras do castelo como fantasmas, barrando sua passagem, mas permitindo que assistisse ao show de horrores.
Ela estava sozinha e sua força era subjugada pela do homem. Ele era fisiologicamente mais forte, superior e... Empurrou-se para longe dele, engatinhando para as escadas, para qualquer lugar onde pudesse escapar, mas ele a segurou pelos tornozelos e a puxou de volta para si, sem se importar se ela estava de quatro no chão, gemendo como um cachorro ferido, abrindo-a para ele. Não tinha força contra ele. Não podia lutar e vencer, por mais que tentasse.
-- Duncan! – gritou, encolhendo-se de medo, arranhando o chão com as unhas na tentativa de escapar.
Ele jamais saberia descrever a agonia que sentiu naquele momento. Vê-la tão perto e não poder alcança-la... Suas mãos tremiam. Ele nunca tivera medo pela vida de ninguém, nem pela própria, mas sempre parecia estar temendo pela dela. Cada grito dela parecia atingi-lo como mil lanças trespassando seu peito, despertando aquele incômodo no coração. Sentiu como se fosse a Morte em suas costas quando viu que Alasdair McDonald a segurava pelo quadril, sujeitando-a de quatro sobre o patamar. Tentou abrir caminho, mas seus inimigos eram insistentes e barravam sua passagem. Deus, não. Leonor não.
O desespero por ela quase o enlouqueceu. Mesmo com os pulsos algemados por grilhões, lutou como um possesso, torcendo pescoços, usando técnicas que aprendera com os ingleses quando era escravo para arremessa-los e lhe quebrar os braços. Aqueles homens não pareciam humanos. Caíam e se levantavam, mesmo com os ossos quebrados, arrastando-se obstinadamente para ele. Duncan precisava chegar até ela. Precisava ter sua mulher em seus braços, segura, onde ninguém além dele pudesse toca-la. Agoniado, rugiu para tentar diminuir aquela dor em seu peito, avançando sobre os inimigos.
Eles estavam vencendo a luta no salão, mas de nada adiantaria a Duncan se Leonor não estivesse bem. A dor no peito aumentou quando seus olhares se encontraram. Uma única lágrima escorreu por sua bochecha pálida e ele não estaria lá para enxuga-la.
-- Leonor! – rugiu.
Alasdair ia viola-la ante seus olhos, assim como seu pai fizera com Catarina anos atrás diante do marido dela. Mas a diferença do passado e o presente era que Leonor importava para ele como ninguém jamais importou. Viu com pavor e impotência como ele colocava as mãos no quadril dela. Quanto mais Duncan lutava, mais guerreiros apareciam em seu caminho. Ela lutava, mas não era o suficiente. Não era párea para ele, por mais que se esforçasse.
Alasdair recuou alguns centímetros e se impulsionou para frente.
Notas finais
Para quem não gosta muito do Erik (citar nomes é anti-ético kkkkk) eu não resisto, tenho que dizer... Como eu sei que todo mundo tem problemas (ninguém tem uma vida perfeita, resumindo) o Erik também tem um passado ruim. Não dá nem pra comparar Erik e Duncan, eles sofreram ao modo deles. À diferença do Duncan, que se fechou em si mesmo, o Erik tenta tirar o melhor da vida para não desmoronar, ele gosta de ver as pessoas queridas dele felizes, por isso às vezes ele é muito convencido. Tem coisas nele que parecem comigo, como querer sempre levantar o astral das pessoas que o rodeiam, com um sorriso sempre no rosto, enfim...
Acho que mereço mais comentários né ?? kkkkkk Agora pela vida da Leonor, que tal ?? kkkkkk
Fale com o autor