Notas iniciais
Olá a todos! Boa tarde.
Bom, sem grandes dramas, me desculpo pela imensa ausência nesta história. Passei por um período extenso de problemas e adaptações e tive de fazer algumas escolhas referentes a tempo e como empregá-lo.
Retomo agora a história aproveitando para agradecer algumas pessoas que durante este tempo continuaram interessadas por ela e me deram muita força: Guima (sempre presente em minha vida em todas as histórias; muito obrigada coração), Meiji querida que mandou mp´s carinhosas e cheias de apoio me perguntando sobre a continuação, Nyu_lan (que me fez sentir novamente vontade de trabalhar com esta fic e que anuncio ser agora também minha BETA; obrigada linda!), Sion Neblina, minha mentora que briga comigo quando resolvo achar que não sei escrever e logicamente minha ruiva e amor da minha vida Maru, com seus toques divertidos, culturais e sua inesgotável força para me tirar da lama e me fazer achar que a vida é linda e que tenho tenho um tremendo valor perante ela!
Este capítulo é para vocês, com todo meu amor!
Boa leitura a todos!

— E se eu te dissesse... Que sou bissexual?

Itachi sentiu o coração diminuir o ritmo enquanto processava a informação até parecer que havia parado e então bater violentamente no peito. Não soube dizer por que esta reação tão forte as palavras do tio. Lembrou-se então de suas suspeitas sobre Madara ter terminado algum relacionamento por causa dele e uma dor insuportável tomou conta de si; não se perdoaria se tivesse prejudicado de tal forma a vida dele.

— Madara... Você namorava alguém quando me trouxe para cá? Teve de deixar alguém por minha causa?

— Mas de onde está tirando estas coisas?

— Teve?

— Itachi há muito tempo eu não tenho alguém na minha vida.

— Não?

— Não... Eu nunca tive um relacionamento realmente sério... Tiveram duas pessoas importantes na minha vida, um homem e uma mulher, mas são dois grandes amigos na verdade.

— E eu os conheço?

— Um deles... Ela se casou há quatro anos e ainda trocamos e-mails semanalmente, mas não nos vimos mais porque se mudou quando casou. Ele é um grande amigo, mas não vem ao caso quem é.

Itachi se calou por um momento processando as informações. As mãos de Madara tremiam de leve entre as suas e se é que era possível estavam mais geladas que antes.

— Itachi... Fala alguma coisa? — pediu começando a entrar em pânico embora buscasse não demonstrar.

Itachi analisou seriamente o rosto do tio. Não conseguia entender por que ele estava tão tenso.

— Você vê isso como um problema? — perguntou arqueando as sobrancelhas. — Um problema em nossa vida?

— Não, claro que não! Eu não te contei antes por que... Você veio para cá num momento tão difícil, meu menino. E sempre teve uma imagem tão... Perfeita de mim.

Itachi se levantou dando a volta no balcão. Virou a banqueta onde o tio estava sentado e se encaixou entre as pernas dele lhe abraçando com muito carinho.

— Isso jamais me faria ter outra visão de você! Só me faz crer que você é alguém mais sensível e maravilhoso do que o homem que eu conheci e amei desde sempre, pois amar ao próximo é fácil; amar ao semelhante... É ser único!

Madara abriu a boca perdido. Simplesmente não conseguiu falar nada. Abraçou Itachi com força de olhos fechados, profundamente agradecido por Deus ter dado tanta benevolência e sabedoria ao sobrinho.

— Você é um anjo meu menino!

— Sou sortudo; puxei ao melhor homem da família!

Madara riu do comentário e negou com a cabeça.

Itachi estava com a cabeça fervilhando. Seu cérebro trabalhava num ritmo alucinado. Queria fazer mil perguntas, mas não conseguia dizer absolutamente nada. Estava estranhamente feliz, sentindo como se Madara tivesse lhe dito que era seu pai e não Fugaku. Mas estranhamente, pensar em Madara como seu pai ultimamente lhe tirava um pouco da alegria e naquele momento não foi diferente. Madara percebeu.

— O que há? — perguntou com medo que Itachi tivesse caído em si e agora estivesse chocado.

— Nada de mais. Apenas quero que me prometa que de agora em diante não me esconderá mais nada sobre você, por favor... Você sabe tudo de mim, então é justo que eu saiba sobre você também. Somos amigos tio... Somos a única família um do outro!

Madara mordeu a boca. Queria fazer esta promessa a ele, mas certos... Sentimentos que trazia no peito não deveriam nem existir, quanto mais ser revelados. Sentiu Itachi segurar nas laterais de seu rosto e então olhá-lo profundamente nos olhos.

— Prometa Madara. Por favor... — suplicou.

— Prometo, claro! Apenas... Dê-me tempo para... Conseguir me acostumar com isso. Sempre fui solitário, sempre me virei com meus próprios meios... Não é fácil dividir minhas reminiscências com outra pessoa.

— Tem todo tempo do mundo! Só... Fale comigo.

Madara sorriu e acenou que sim com a cabeça. Ficaram se olhando. Exatamente

da mesma altura na posição em que se encontravam e estavam tão próximos que sentiram as respirações se encontrarem, se acariciarem e irem mescladas em direção aos seus rostos. Madara estava com as mãos na cintura de Itachi e este mantinha as mãos em seu rosto e fazia um suave carinho com as pontas dos dedos.

Madara passou a língua pelos lábios e a boca de Itachi secou, como se sentisse muita sede, mas Itachi não notou, contudo suas pupilas se dilataram e os reflexos vermelhos se fizeram mais presentes. Madara alarmou-se com o que leu nos olhos do sobrinho e baixou a cabeça afastando-o num movimento lento e firme, dissimuladamente calmo, numa tentativa desleal de ocultar seu assombro. Levantou-se e caminhou até a geladeira levando seus copos consigo.

— Quer mais chá? — perguntou como se nada demais tivesse acontecido embora lutasse para manter-se sobre as pernas que naquele momento estavam bambas.

— Não obrigado... — respondeu verdadeiramente triste por ele ter se afastado.

— Melhor irmos nos deitar Itachi. Já, já o dia amanhecerá e nem fomos dormir ainda.

Itachi concordou com a cabeça e respirou fundo olhando para o tio com um sorriso meigo.

— Obrigado por tudo tio. Pelo aniversário maravilhoso e por confiar em mim. Seu segredo está seguro comigo.

— Sei disso. Agora vá descansar.

Itachi saiu de seu campo de visão lentamente. Ainda parou na porta e segurou no batente, olhando para o tio por alguns momentos para então deixar o local.

Quando os passos de Itachi sumiram no final da escada, Madara segurou-se na pia sentindo-se completamente perdido. Não podia ser... Não tinha como... Mas... Lera com muita clareza um voluptuoso desejo nos olhos do sobrinho!

Abriu a geladeira e pegou a jarra de chá servindo-se de outro copo que tomou em um gole só. Enquanto tentava recuperar o fôlego, começou a pensar com calma no que achava ter lido nos olhos do sobrinho e começou também a duvidar daquilo.

A vida o fizera crescer rapidamente para algumas coisas, em função de seu Q.I. Mas para outras era bastante inocente. Na verdade. Itachi fazia questão de crescer como um garoto normal de sua idade, no que não dizia respeito a estudar e trabalhar. Até mais lento se parasse para pensar que ele ainda era virgem e por livre e espontânea vontade!

Não... Não tinha visto desejo nos olhos dele. Estava se deixando influenciar pelos sentimentos que cresciam em seu peito e pela conversa que tiveram e pela primeira vez sentiu-se... Promiscuo por imaginar algo tão sujo e logo com relação a Itachi.

Madara sentou-se novamente ao pensar em outro detalhe... E se nem mesmo Itachi tivesse consciência do que tinha acontecido? Respirou fundo e pegou o celular. Precisava conversar com alguém ou iria enlouquecer... Então olhou para o microondas e viu que horas eram. Fez um bico adorável estreitando os olhos pensativo. O pessoal da Akatsuki deveria ter ido embora bem depois deles e provavelmente estariam dormindo. Deu de ombros conformado. Estava cansado, com sono, dor de cabeça e mexido com a conversa. Deveria fazer o mesmo que todos eles.

Antes de ir para seu quarto passou pelo do sobrinho para ver se ele precisava de alguma coisa. Encontrou somente o pé esquerdo dele perdido para fora de uma bagunça louca de edredons. Sorriu com carinho e entrou no quarto para ajeitá-lo. Achou a cabeça dele graças aos longos cabelos que se espalhavam pelo travesseiro por estarem soltos. Descobriu sua cabeça e quando viu o ar completamente inocente com que ele dormia respirou aliviado; definitivamente tinha se enganado no que deduzira. Encostou a porta e foi para seu quarto. Tomou uma ducha, vestiu um pijama e foi se deitar dormindo imediatamente.

Itachi acordou com o celular do tio tocando. Apesar disso não se levantou; sequer abriu os olhos. Estava tão bom ficar deitado quietinho. Ficou em silêncio pensando em seu aniversário. Fora muito especial! Deus como adorava o pessoal da Akatsuki e como amava seu tio! Abriu os olhos ao pensar nele.

— Bissexual... — falou baixinho bem devagar.

Aquilo definitivamente não era um problema. Madara era uma pessoa tão única e especial que sabê-lo bissexual só o fazia amá-lo ainda mais. E também enchia sua cabeça de perguntas. O problema era: Madara estaria disposto a respondê-las? Riu imaginando o tio completamente embaraçado se lhe perguntasse se perdeu a virgindade com um homem ou uma mulher... Se bem que neste caso imaginava que uma pessoa perdia a virgindade duas vezes, não? Quer dizer isso se seu tio fosse passivo... Arregalou os olhos com a direção de seus pensamentos. Madara passivo? Pouco provável... Não sabia por que, mas não conseguia imaginá-lo neste papel. Seu tio era tão... Másculo e sensual; tão... MACHO vamos por assim dizer.

— Definitivamente bebida alcoólica não é bom para minha saúde... — falou fazendo uma careta pela direção de seus pensamentos.

Notou que a casa continuava em silêncio, mas o celular tinha parado de tocar no segundo toque então, Madara tinha atendido. Será que achava que ainda estava dormindo? Jogou o edredom para o lado e se levantou saindo do quarto. Caminhou até o quarto do tio silencioso como uma pantera, pois caso o tio tivesse voltado a dormir não queria perturbá-lo. Parou na porta quando o ouviu falando com uma voz diferente da usual com alguém no celular.

— É eu sei. Você me disse um milhão de vezes que ele iria entender.

Passou alguns segundos de silêncio e então o tio voltou a falar...

— Não contei nada sobre nós... Não se trata disso! Não é algo que diga respeito só a mim e não quero expô-lo. Se sentir-se confortável dele saber, eu conto sem problema algum.

Novo silêncio e Madara riu um riso baixo e sedutor.

— Não posso... Hoje não. Ainda não sei o que tudo isso vai fazer com a cabeça dele e prefiro ficar por perto. E depois, conheço meu sobrinho; vai surtar de tantas perguntas que surgirão sobre o assunto e que Deus me dê forças, pois pretendo responder a todas... Ou quase todas.

Novo silêncio se fez e Itachi se aproximou mais da porta com medo de não ouvir direito a conversa já que Madara assumira um tom de voz mais íntimo. Sentiu-se feliz por saber que o tio tinha alguém tão importante assim em sua vida; que ele não era completamente só. Mas ao mesmo tempo sentiu como se seu coração tivesse despencado em um abismo. Aquele tom carinhoso de voz do mais velho lhe era completamente desconhecido e desejou que ele usasse consigo também. Voltou a si quando o tio voltou a falar.

— Ok, te ligo sim. E... Bom, acho que nunca lhe agradeci por tudo que já passamos juntos, principalmente pelo que tem feito por mim desde que Itachi veio para casa então... Obrigado.

Madara riu de alguma coisa dita pelo outro e depois de desejar um bom final de semana desligou o celular.

Quando a ligação foi encerrada, Itachi fez o caminho de volta para seu quarto absorto em pensamentos. Sentou-se em sua cama com os pés plantados no chão e as mãos espalmadas no colchão e ficou olhando para o nada por algum tempo. Lentamente deitou-se para trás, mantendo os pés para fora da cama e abriu os braços lateralmente. Suspirou e fechou os olhos tentando conseguir juntamente com a privação da visão a benção de silenciar sua mente, mas estava bem difícil.

Seus pensamentos estavam um turbilhão viciantemente repetitivo: Madara, bissexualidade, aquele “alguém” que nunca esteve ali, mas descobriu estar sempre presente, o riso baixo e intimo demais do tio ao telefone e logicamente Madara outra vez.

E se não bastasse seus pensamentos estarem esta loucura, seus sentimentos não estavam melhores. Não sentia absolutamente nada e ao mesmo tempo tudo. Mas acima de tudo, estava sentindo-se... Só. E Deus isso era completamente ridículo e sem sentido, mas era assim que estava e estava pela primeira vez em três anos com vontade de chorar.

Assustou-se quando sentiu um toque quente e carinhoso em seu rosto. Respirou profunda e lentamente e virou a cabeça sem pressa, abrindo os olhos ao final do movimento.

Madara levantou-se após desligar o celular e foi ao banheiro aliviar-se; excesso de chá sabe? Depois de lavar as mãos resolveu ir ver o sobrinho. Estava tremendamente preocupado com o Uchiha menor e sentindo falta da proximidade segura e suave dele. Aliás, andava sentindo a falta de Itachi em demasia. Isso não era saudável nem para ele e muito menos para o sobrinho e se policiava para não sufocá-lo.

Quando chegou ao quarto e o viu deitado daquela forma, seu coração enlouqueceu. Sem erguer suas barreiras ou pensar muito a respeito, aproximou-se e sentou delicadamente na cama, com uma das pernas dobradas, apoiado no braço esquerdo e os cabelos longos caindo espalhados ao seu redor e sobre o braço direito de Itachi. Tocou o rosto dele de forma doce, reverente. A pele dele era a textura mais suave que já tinha sentido e adorava tocá-lo. Mas até isso perdeu a importância quando o mais novo virou a cabeça e olhou para si.

Perderam-se de tal forma do mundo enquanto se olhavam, repentinamente os sons silenciaram como que em respeito aquela comunhão.

Amor. Desejo. Incerteza. Busca... Tudo isso Refletia naqueles olhos tão marcantemente enraizados em rubro naquele momento.

Madara teve absoluta certeza de que não vira coisas nos olhos do sobrinho mais cedo, mas teve certeza também que ele não fazia a menor idéia do que sentia. E isso doeu. Por dois motivos: um por que era o certo; outro por que deveria continuar assim.

Itachi por sua vez apenas olhava para o homem que amava profundamente tentando controlar sua mente que gritava “quem é você” num volume ensurdecedor em sua cabeça; só não sabia se a pergunta era para Madara ou para si mesmo. E pela primeira vez na vida, Itachi desejou com todas as suas forças que ele não fosse seu tio. E isso doeu. Muito. Insuportavelmente. E o confundiu ao ponto de lhe fazer ter sensação de queda livre e neste momento, virou-se e abraçou forte a cintura de Madara escondendo o rosto.

— O que há? — perguntou baixo, com um tom doce e acolhedor.

— Amo você, tio Madara... — confessou baixinho.

Madara sorriu de leve e mesmo sabendo que Itachi não veria concordou com a cabeça. Sabia disso. Jamais duvidara do amor do sobrinho.

— Quer conversar? — perguntou virando e baixando a cabeça para olhar para o mais novo e seus cabelos caíram encobrindo-lhe o rosto e parte das costas do sobrinho, enquanto ele começava a acariciar-lhe as costas.

— Não.

— Está com dor de cabeça?

Itachi acenou que sim e riu.

— Como sabe?

— Sua testa está latejando. Quer um remédio?

— Não. Quero ficar aqui... Posso?

— Aqui?

Itachi afundou o rosto mais na junção do abdômen com o quadril de Madara, indicando onde queria ficar e o mais velho sentiu o corpo esquentar. Mordeu a boca e fechou os olhos controlando-se.

— Entende por que eu não conversei com você antes?

Itachi franziu a testa e ergueu o rosto olhando com expressão contrariada para o tio.

— Eu realmente entendo seus motivos. E agradeço sua preocupação e respeito a minha situação. Mas às vezes me deixa exasperado esta sua mania de me ver como uma criança. Vai entender algum dia que deixei de ser quando fui expulso de casa?

— Por que tem tanto problema em ter sua idade Itachi? Em ser um menino de dezoito anos e ponto?

— E por que repentinamente tem insistido tanto em afirmar e reafirmar isso?

Madara se calou. Estava mesmo fazendo isso? Bem, se Itachi dizia que sim, era por que estava. E o motivo era bem simples: precisava ver Itachi como um menino. Ainda que soubesse que ele não era; ainda que tivesse acompanhado seu crescimento e amadurecimento. Inferno! Fora isso que o fizera... Amar loucamente o sobrinho. Como homem.

— Por que admitir que você esteja crescendo significa admitir que estou envelhecendo. E isso acaba com minha vaidade. – disse sorrindo, tentando aliviar o clima. Mas só conseguiu se colocar numa situação mais complicada.

— Droga Madara! Qual a parte de que para mim você nunca vai ser velho que você não entende! Eu querocrescer, eu preciso crescer para estar aqui com, para e por você! Eu quero olhar para você de igual pra igual. Quero ser sua segurança como você é a minha! Foda-se se vou precisar abdicar de alguns meses ou anos da minha vida! Não preciso nem minimamente ter dezoito anos por que a pessoa que realmente me interessa não tem essa idade!

Madara perdeu a fala. Simples assim. Esqueceu como utilizava a boca, como fazia a voz sair. Engoliu seco e mordeu os lábios olhando através de Itachi. A mão subitamente travada na cintura do sobrinho.

Itachi ajoelhou na cama, e segurou o rosto do tio pelas laterais. Estava perto. Malditamente perto demais.

— Madara entenda: eu AMO você!

Madara baixou os olhos e segurou os pulsos de Itachi tirando suas mãos de seu rosto. Após um breve carinho neles, soltou-os e levantou-se, saindo do quarto em seguida.

Itachi arregalou os olhos perplexos. As mãos sempre firmes e quentes dele estavam frias, trêmulas e suadas. Seu espanto foi tanto que levou alguns minutos para perceber que estava sozinho.

— O que eu fiz? – perguntou sentindo uma pontada cruel de dor nas têmporas.

Madara caminhou pela casa sem saber o que fazer. Tinha sido covarde saindo daquele jeito do quarto do sobrinho, mas ou saía ou faria uma tremenda besteira. A vontade que sentiu de beijar a boca de Itachi quando ele lhe falou aquilo tudo quase o ensandeceu. Só que embora o timbre de voz e brilho do olhar de Itachi lhe dissesse uma coisa, seu coração dizia outra. E ele havia falado com o coração. E o coração de Itachi era puro como de uma criança, ainda que ele não aceitasse ser.

Acabou indo para o último andar da casa, onde tinha a piscina e a sauna. Sentou-se em frente à primeira e puxou os joelhos, encostando o queixo nos braços.

— O que vou fazer? Deus do Céu, o que vou fazer? – perguntou segurando os cabelos longos para trás com as mãos, olhando para a água. — Ele é meu sobrinho, minha responsabilidade. Ele... Ele confia em mim!

Madara ficou um bom tempo sentado pensando. Estava completamente exausto e tenso e resolveu dar um mergulho na piscina para tentar relaxar. Foi até o armário do banheiro que tinha naquele andar e lá tirou sua roupa vestindo uma sunga preta.

Pensou em Itachi provavelmente deitado sozinho e confuso e se odiou por ter deixado ele daquela forma, mas precisava de um tempo sozinho para se acalmar.

Itachi sentia-se enjoado de tanta dor de cabeça. E pensar só estava piorando a situação. Estava tenso, confuso... Suspirou. Madara o ensinara a ser forte e extravasar suas emoções quando sentia-se a beira de perdê-las; então era isso que precisava fazer.

Foi até o banheiro e tomou um remédio para dor de cabeça. Depois saiu da casa escura e caminhou até o último andar. Nada como um bom mergulho. Enquanto subia, foi tirando a camiseta e quando chegou ao banheiro viu as roupas do tio penduradas. Virou a cabeça para trás e notou que ele nadava vigorosamente na piscina. Desistindo de nadar, caminhou até a beira da piscina e sentou-se ali, admirando os movimentos perfeitos de Madara.

Itachi perdeu as contas de quantas voltas o tio deu na piscina sem parar para tomar fôlego. Definitivamente ele era um excelente nadador! Teve sua atenção chamada quando Madara nadou até o outro extremo e parou apoiado na beira, olhando para o vale e para lago brilhante ao fundo.

Madara amava aquela casa. Tinha gastado uma fortuna para tê-la e nunca levava ninguém lá. Era seu cantinho, seu templo, seu reduto, seu santuário... E todos que o conheciam sabiam disso e respeitavam. A única pessoa que tinha acesso era Itachi. O engraçado é que quando comprara, imaginara o sobrinho exatamente ali com ele, vendo aquela paisagem, num sábado a tarde, quando ele tivesse idade suficiente para falarem abertamente sobre vida, amor, sexo... Mas nunca imaginou que se apaixonaria pelo sobrinho e isso... Poderia por tudo o que haviam construído a perder.

— Deus, não me deixe perdê-lo; não afaste ele de mim... Não posso viver sem ele. Não consigo. – disse baixa a oração, com os olhos cheios de lagrimas.

Só que o silêncio ao redor era tanto e bem, não era como se Madara imaginasse que Itachi o ouviria, então, sim, claro que ele ouviu. E um sorriso doce se formou em seus lábios seguido de um suspiro.

Correu para o banheiro e vestiu a sunga vermelha. Voltou e entrou silenciosamente na água, mergulhando e dando impulso só quando submerso. Emergiu atrás do tio e o abraçou, entrelaçou seus braços aos dele. Descansou a cabeça em seu ombro e ficou em silencio, apenas admirando a paisagem com o tio.

Madara sorriu e fechou os olhos, como que agradecendo por ter sido ouvido por Deus.

— Apenas para você saber: Eu também te amo. Te amo muito. É o único amor da minha vida!

Itachi sorriu.

— E a casa? Seus carros... Como você costuma mesmo chamá-los? Minhas gracinhas?

Madara riu com vontade.

— É são minhas gracinhas...

— Se isso não é amor, não sei o que é!

— É diferente... Adoro o jeito que respondem a mim; o jeito que me acomodam bem por maior que eu seja. São Obedientes, potentes, seguros... Um toque e tenho deles o que eu quiser.

Aconteceu em um milésimo de segundos; tão rápido que Itachi duvidou que realmente tivesse acontecido, mas seu Q.I. elevado lhe alertou que fora real... Suas entranhas se contorceram, seu corpo esquentou e seu coração disparou e sentiu a pele eriçada como se uma brisa fria tivesse soprado. Sentiu-se estranhamente sensível e fora do ar, porém muito consciente da presença do tio ao seu lado e só por isso forçou-se a ignorar o que havia acontecido; não era hora de pensar a respeito. Faria isso mais tarde, sozinho.

— Bom, espero um dia conseguir isso do meu carro também.

— Não vá atrás das asneiras do seu tio. Muito tempo de solidão faz isso com uma pessoa. – disse Madara com um sorriso distante nos lábios.

Itachi soltou-se dos braços do tio e mergulhou, enfiando-se de frente para ele, entre o corpo forte e a borda da piscina, rodeado pelos braços torneados.

— Não está mais sozinho e não voltará a ficar. Nunca mais! – garantiu num tom baixo, extremamente intimo, espalmando as mãos no peito másculo.

Madara mirou os olhos negros tão marcados pelo vermelho por causa da fraca luminosidade do dia que ia embora e sentiu vontade de se abraçar; nunca na vida sentiu-se tão sozinho quanto naquele momento. Segurou as mãos de Itachi em seu peito e suspirou. Queria poder abandonar-se no conforto que o sobrinho tentava lhe transmitir, mas... Será que podia? Que deveria? Depois do que tinha agora absoluta certeza que tinha visto nos olhos dele?

— Obrigado meu menino. Sabe? Sei que sou reservado demais às vezes, mas espero um dia poder fazer você entender o quão importante é para mim e o quão minha vida mudou para melhor desde que veio morar comigo. Seu irmão foi um bastardo inglório com naquela atitude, mas rezo toda noite por ele em agradecimento pela grande asneira que ele fez.

Itachi riu e baixou a cabeça contento uma gargalhada e com o movimento, sua testa recostou-se no tórax do tio e para sua surpresa, Madara o segurou naquela posição, acariciando seus cabelos da nuca.

— Desculpe! É cruel da minha parte falar assim, mas não sei mentir.

— Não perca o sono por isso; penso da mesma forma. – disse dando de ombros fazendo Madara rir suavemente.

Ficaram em silêncio curtindo aquela proximidade tão querida e intimamente desejada por ambos. Foi Itachi quem quebrou o silêncio.

— Posso pedir um presente de aniversário para você?

— Todos que quiser e conseguir imaginar. – respondeu Madara notando o desconforto de Itachi por falar em presentes.

— Passa este final de semana comigo? Deixa-me cuidar um pouco de você? Conhecer-te melhor... O homem e não só o tio, pai, irmão e amigo.

Madara fechou os olhos sentindo a alma romper com a pronúncia da palavra ‘pai’ pelos lábios suavemente cheios e delineados do Uchiha mais novo. Mas respirou fundo repetindo mentalmente como um mantra que era aquilo que era o certo e que precisava aceitar.

— Sempre passamos os finais de semana juntos. A menos que você tenha algum compromisso, mas eu estou sempre aqui para você.

— Aí que está. Quero que seja meu compromisso este final de semana. Mas você sabe como sou, né?

— Perguntas... – disse Madara revirando os olhos como se estivesse sofrendo com a possibilidade e Itachi pisou no seu pé no fundo da piscina – Acredite; desde o momento que entendi que havia chegado a hora de te contar mais sobre mim me preparei para elas.

— Então tudo bem pra você? Em responder algumas?

— Itachi, seria monstruoso da minha parte te contar algo assim e não querer responder seus questionamentos.

— E vai me deixar cuidar de você?

Madara ficou calado analisando o sobrinho por alguns minutos pensando no quanto aquele pedido atendia suas expectativas com relação à saudade que sentia da proximidade dele e quando ele levantou a sobrancelha num questionamento mudo suspirou e respondeu.

— Defina cuidar?

— Não confia em mim?

— Não é sua responsabilidade cuidar de mim criança. É o inverso.

Itachi revirou os olhos esgotado da história de ser visto como uma criança e soltou-se das mãos do tio apoiando-se na beira da piscina logo atrás de si para sair da água. Madara adivinhando o que o amargurara deteve-o quando ele já estava sentado na borda, segurando-o pelas panturrilhas definidas. Itachi olhou para ele com o cenho franzido em clara contrariedade.

— Ok, vou tentar controlar minha língua e não chamá-lo mais de criança está bem? Mas Deus é testemunha que acabou de agir como uma Itachi. Sou seu tio e tenho idade para ser seu pai! É minha obrigação cuidar de você! A situação de ocorrer o contrário me soa bastante esquisita!

— Não é meu pai! Nunca será meu pai Madara! Posso tê-lo como referência para tal já que meu progenitor é demente e fez o favor de me deserdar, mas apenas isso! – desabafou num rompante de ira pouco característico e depois de respirar profundamente e fechar os olhos chocado consigo mesmo retomou seu raciocínio mais brando — E até onde me consta sempre cuidamos um do outro. Apoiar, conversar, fazer companhia, servir um suco... Tudo isso para mim é cuidar! E... Não me diga que sou sua responsabilidade, pois era tudo o que eu era para o Fugaku.

Madara sentiu o coração parar de bater entre uma contração do músculo cardíaco e outra e então bater violentamente. Itachi iria enfartá-lo! Ou causar-lhe um derrame com estas declarações! E pelo amor de Deus como ficava sensual com aquele olhar de fogo e postura de certeza absoluta do que queria e dizia! Recuperou a calma e paciência características e o puxou de volta para água espirrando o conteúdo da piscina para todos os lados. Itachi não era pequeno e nem magro afinal.

— Está certo como sempre meu anjo. Desculpe! Sou totalmente seu este final de semana. Apenas seu. Só não me acostume mal. Posso querer ser seu para sempre.

“Como se eu fosse achar ruim”. – pensaram ao mesmo tempo quando selaram seu acordo com um abraço intenso, mas não apertado.

— Vou começar fazendo nosso jantar pode ser? Que tal um salmão grelhado com ervas finas, arroz e batata sauteé?

— Céus é tudo que preciso nesta sexta-feira além de sua companhia. Podemos acrescentar um vinho tinto? Se sua cabeça estiver melhor, claro... Tudo bem que o cardápio pede um branco, mas você sabe: meu negócio são os tintos e rubros! – disse sem conseguir deixar de referir-se a coloração hipnótica dos olhos do sobrinho.

O comentário fez Itachi sentir-se... Quase rubro! Pelo menos foi como o calor que subiu por seu pescoço o fez imaginar-se e sorriu embevecido.

— Bom, já que tem tanto apreço por esta coloração, podia buscar um manjar branco com calda de frutas vermelhas para sobremesa... – respondeu acenando positivamente sobre a dor de cabeça.

— Fechado! – disse Madara arregalando os olhos leve e momentaneamente enquanto pensava na refeição completa.

Madara saiu da piscina em direção ao armário de toalhas e após prender uma toalha na cintura voltou para perto de onde Itachi estava segurando outra aberta. Itachi mergulhou uma última vez e saiu da água e enquanto tirava o excesso de água dos cabelos, sentiu Madara prendendo a peça na sua cintura.

Quando Madara notou a imobilidade dele, buscou seus olhos e perderam-se mais uma vez olhando-se profundamente, mas o momento foi bruscamente interrompido pelo clarão de um raio seguido pelo estrondo de um poderoso trovão.

— Preciso ir logo se queremos mesmo sobremesa. — disse Madara soltando com muito custo a cintura de Itachi que só conseguiu acenar que sim com a cabeça. O beijo especial deles selou a breve despedida e Madara entrou e desceu para seu quarto.

Itachi olhou para céu e pela primeira vez na vida não sentiu medo de tempestade. Agora entendia porque era tão atemorizante; era a manifestação de duas potências naturais se chocando: calor intenso e massa polar, por exemplo. Assim como acabara de acontecer com ele e com Madara. E o que sentira naquele momento assustava mais que qualquer tempestade.

Notas finais
É isso pessoal... Atualizarei dentro do meu novo e estranho tempo, mas não vou mais deixar esta fic que adoro escrever e que senti muita falta de lado!
Até o próximo capítulo,
Lothus.