Pra Você Guardei o Amor
3 Capítulo 3
Notas iniciais
Aqui está para vocês um capítulo novinho...
Agradeço como sempre a Sion por betar mais este capítulo para mim e por ter me incentivado a retomar esta história; só agora percebo como senti falta dela.
A minha amora Maru e minha amorzinha Mari por sempre me acompanharem em meus projetos e em minha vida!
A todos uma ótima leitura.
Naquele dia, Itachi e Madara tomaram café juntos e, pouco a pouco, uma enorme e sincera amizade surgiu entre eles. E agora, após três anos, mesmo já sabendo cozinhar tão bem quanto o tio, tomar café naquele Café parisiense, continuava sendo parte da rotina das suas vidas.
— Itachi? — Ouvir Madara o chamando, o tirou dos seus devaneios — Está tudo bem?
— Está. Estava me lembrando da primeira vez que vim aqui tomar café com você!
— Hummm... — Foi à resposta vaga que recebeu. Madara era observador como uma ave de rapina e analisava o sobrinho de forma carinhosa. Itachi faria dezoito anos dali a onze dias e havia se tornado um belo homem. Era inteligente independente do seu Q.I. Conversava sobre tudo; o garoto era encantador — E?
— E...? — Devolveu Itachi. Madara sorriu de lado; ele havia se tornado extremamente parecido consigo, afinal jamais respondia nada sem ter certeza de até onde à pergunta o levaria, mas com o sobrinho agia diferente.
— Era apenas nisso que pensava? — Perguntou voltando a sorver seu café com chantili.
— Sabe que é um tanto impossível não pensar no que me trouxe a esta deliciosa rotina. Mas não se preocupe; por incrível que pareça, nem a parte ruim me traz más sentimentos. Hoje em dia, sinto... Alívio!
— O tempo é amigo das grandes causas; alivia, alimenta, transforma... Mas jamais esquece!
Itachi riu e completou:
— Tece sua teia incompreensível a olhos cegos e insensíveis... Sim eu sei. — Respondeu sorvendo um gole do café preto e suavemente adoçado.
Madara acompanhou o gesto e baixou o olhar para sua xícara, mexendo suavemente a colher dentro dela. Sabia que não tinha a menor possibilidade... Sabia que era bobagem sua, mas tinha certo receio que o sobrinho decidisse um dia voltar para casa, para a antiga vida e sua verdadeira família. Itachi havia dado novo sentido a sua existência, e ele se sentia realmente feliz; o garoto era para si o filho que não tivera.
Riu sem qualquer alegria desse pensamento; realmente o tempo teceu sua teia...
Itachi observava o tio e amigo em cada gesto e percebia certa amargura naquela risada. Seu tio era sua vida. Sua única e verdadeira família. A cada ano que passava, ele se tornava ainda mais fascinante aos seus olhos: culto, inteligente, forte e, tudo isso, sem deixar de ser extremamente agradável e prestativo.
Um líder nato, um grande homem de negócios e um homem único.
Madara voltou de seus devaneios e olhou para Itachi que o observava abertamente. Atravessou a mesa com sua mão e a abriu num convite mudo para que Itachi a segurasse. Como sempre, surtiu efeito.
— Tenho muito orgulho de você. Tornou-se um homem e tanto, meu anjo; logo, logo estará pronto para alçar vôo sozinho.
— Então é isso? É isso que quer?
— Mentiria descarada e descabidamente se dissesse que sim, mas este é o rumo natural da vida. Os filhos devem ser criados para o mundo e não para seus pais.
— E o que acontece quando você não é criado por seu pai? Quando ele te largou no mundo e você sente que encontrou seu lugar nele?
Madara não respondeu; perdeu-se nos olhos negros de Itachi.
Ele e o sobrinho possuíam algo em comum nos olhos; eram negros como a noite, mas havia reflexos avermelhados ao sol. Os de Itachi eram mais pronunciados; dependendo da luminosidade nem de sol precisavam. Naquele momento, ali estava àquela coloração que lembrava labaredas ardentes.
— Às vezes, mesmo quando já determinamos nosso lugar precisamos cair no mundo para depois não nos arrependermos de nossas escolhas.
— Conheço o mundo, conheço pessoas do mundo. Já vi e vivi muita coisa por causa da minha capacidade mental e acredite: tenho dezoito anos apenas na identidade, tio, e não preciso cair no mundo para saber onde é o meu lugar.
— Errado. Nem na identidade você tem dezoito anos ainda. – Falou Madara mordendo sua torrada com Cream Chesee; depois de mastigar completou: – E como pode saber tanto do mundo se nem eu sei?
— Ok, não sei tudo, mas sei que meu lugar é ao seu lado. Descobri que amo o tipo de vida e de trabalho que você construiu e não quero outra coisa. Pra que cair no mundo? O que ele pode ter a me oferecer de tão bom assim?
Madara levantou a sobrancelha de forma um tanto... Surpresa. Itachi era reservado, embora fossem muito unidos.
Tomou outro gole de café enquanto pensava sobre o que ele havia dito. Algum tempo depois voltou a falar:
— Itachi, posso te fazer uma pergunta muito pessoal?
Itachi apenas acenou que sim com a cabeça.
— Você não tem vontade de sair do país, estudar fora, aprimorar seus talentos... Namorar... Transar...
— Você sabe que não tenho pressa, Madara. – Respondeu recostando-se na cadeira – Sei lá... Tenho dezessete anos e já estou terminando a faculdade. Graças a minha inteligência as possibilidades que tenho na vida são maiores que da maioria das pessoas... Mas neste momento está bom assim... Entende?
— Itachi... — falou o nome com carinho. Amava aquele menino e ele nem ao menos conseguia imaginar o quanto. Suspirou e mudou de assunto.
— Nagato está me pressionando sobre seu aniversário. Já decidiu se vai aceitar?
Nagato era o braço direito de Madara na empresa. Era inteligente e firme nos negócios; um bom amigo também, para ambos. Ele, Konan, Sasori, Hidan e Kisame trabalhavam na empresa junto a Madara desde o começo e haviam adotado Itachi como sendo da família também e, devido aos poucos dias que faltavam para o aniversário do Uchiha mais jovem, queriam levá-lo para festejar em uma boate.
Como eram Hidan e Kisame que conheciam as melhores baladas, Itachi estava sinceramente apreensivo com o tipo de lugar que iriam. Mas Nagato com certeza não deixaria que aprontassem nada para cima de si.
— Ainda não consigo entender como conseguiu reunir tantos talentos em uma única empresa, juro! – Falou sorrindo.
— O bom de lidar com software é não precisar de muita gente. Claro que a empresa cresceu e tudo mais, mas, ainda assim, eu não preciso aumentar muito o número de pessoas. Até porque, tenho os melhores profissionais da área e bons assistentes, mas confesso que eles ainda me surpreendem sim.
— Acha que é seguro?
— O que exatamente?
— Ir para uma balada escolhida por Hidan e Kisame?
Madara caiu na gargalhada, e o riso cristalino dele fez Itachi sorrir e relaxar.
— Olha, vou ter que parabenizá-lo pela sua apreensão; ela é mais do que justificada, mas acredite, eles estão querendo levá-lo a um lugar realmente legal.
— E você vai?
— Claro que vou! Por que não iria?
— Nunca vejo você sair, quero dizer, não com alguém além do pessoal pelo menos, aliás... — Itachi se calou dando de ombros.
— Aliás...? — Perguntou o Uchiha mais velho.
— Você não tem vida social desde que me trouxe para morar com você.
— Quem disse? – Espantou-se Madara.
— Madara, não sou criança. Eu sei que você é discreto, mas pelos deuses! Ou você é beato ou eunuco!
— Nem um nem outro sobrinho. Nem um nem outro! — Falou pedindo a conta para um garçom com gestos.
— E então?
— O que?
— Madara...
— Itachi, você era muito menino e estava passando por uma fase difícil pra caramba. Você era e ainda é minha prioridade e eu o respeito muito. Acha realmente que eu ia ou vou esfregar romances na sua cara? E outra, não sou devasso; não preciso de sexo para viver, e pra ter companhias que deixem a desejar, fico sozinho, simples assim!
— Doeu?
Madara, que havia pagado a conta e se levantaria, parou e olhou bem dentro dos olhos do sobrinho.
Engoliu a verdadeira resposta que queria dar antes que fosse tarde demais.
— Não, não doeu, apenas ainda não havia surgido oportunidade de falarmos sobre isso.
— Sobre você na verdade. — Interrompeu Itachi — Você sempre conversou numa boa comigo sobre sexo... Parecia até que estava me ensinando a fritar ovo de tão a vontade que ficava...
— Que seja! – Respondeu Madara um tanto incomodado, e Itachi percebeu.
— Eu adoro você e me preocupo... só isso. – Disse colocando as mãos nos bolsos e parando ao lado do tio.
— Estou ficando velho pra isso... – tornou Madara encostando-se ao lado dele no carro.
— Para que?
— Para lidar com esta cabecinha privilegiada que você tem...
— Nunca ficará velho... Não para mim.
Madara respirou fundo com a afirmação do sobrinho.
— Vamos? — Sugeriu Itachi dando a volta depois de sua declaração e colocando os óculos escuros.
Madara acenou com a cabeça e entrou no carro. Cerca de quinze minutos depois, chegaram à sede da Akatsuki. Era uma casa bonita, branca e muito antiga. Lembrava um chalé da Serra Gaúcha e era o orgulho de Madara.
O mais velho entrou calado e sério e deu um “bom dia” geral, indo direto para sua sala, fazendo Nagato levantar a cabeça e olhar dele para Itachi discretamente. Ainda bem que os demais estavam tão mergulhados no trabalho que não notaram o humor ausente do chefe.
Itachi deixou suas coisas na sala que usavam como armário e voltou com seu Notebook para sentar-se ao lado de Konan e rever o teste de um software que estavam tentando burlar juntos.
Konan era namorada de Nagato e estudava com Itachi. A função dela assim como a de Itachi era descobrir uma forma de se infiltrar nos softwares, descobrindo seus pontos fracos. Como não teriam aula naquele dia, aproveitariam para adiantar e tentar se possível terminar este trabalho.
Nagato esperou que Itachi se envolvesse no trabalho com Konan e foi atrás de seu mentor e grande amigo para descobrir o que havia ferrado com seu humor logo cedo. Abriu a porta e o achou massageando as têmporas, sentado de olhos fechados.
— Sabia que o dia mal amanheceu para você estar com os miolos fritando desse jeito? O que há?
— Estou perdendo minha própria batalha e, acredite, para mim mesmo... – falou num tom cansado.
— Vai continuar com isso até quando?
— Nagato, se veio aqui me perturbar saia!
— Madara, se ao menos você abrisse a real para ele, seria mais fácil não acha?
— E falar o que?
— Comece contando sobre sua vida pessoal. Ele não é criança, vai entender.
— Só pode estar brincando!
— Não estou! Estamos falando do ser humano mais inteligente que já conhecemos em nossas vidas! O homem mais compreensivo e meigo do mundo. O que te faz ter tanto medo de se abrir com ele?
— Não quero influenciá-lo, Nagato! Eu adoro este menino!
— Outro erro! Ele não é mais um menino!
— Que seja...
— Aproveite o aniversário dele e converse. Vai por mim; ele vai ouvir e vai entender.
— Por que no aniversário?
— Por que ao invés de julgá-lo paranóico por passar tanto tempo mentindo para ele ou, o que seria pior, ficar magoado, ele entenderá que você não fez isso antes, porque estava esperando que ele atingisse a maioridade.
Madara levantou a sobrancelha olhando para o nada considerando o conselho de Nagato e este sorriu.
— Ok, vou pensar nisso.
— Tem onze dias pela frente para conversar com ele e não vou cobrar, pois sei que fará a coisa certa.
Nagato saiu, e Madara ficou imerso em seus pensamentos, mas não por muito tempo, pois o trabalho gritava por ele.
À noite, foram para casa cada um perdido em sem divagações novamente. Itachi estava com o olhar vidrado no Note, ainda burlando o tal sistema, e Madara pensava na conversa com Nagato. Quando chegaram, subiram cada qual para seu quarto para tomar banho. Quando Madara desceu, Itachi estava recebendo uma entrega na porta.
— O que houve? — Perguntou.
— Nada. Pedi comida chinesa pra nós dois. Imaginei que o tempo que levaria para chegar seria o mesmo do nosso banho, então era só comer e relaxar, você está precisando. — Falou o mais novo, olhando para o tio analiticamente.
Madara estava com um pijama composto por uma calça comprida de algodão azul marinho e camiseta de manga curta; estava descalço e seus cabelos parcialmente presos. Usava óculos e se mostrava completamente cheiroso.
— Que foi? — Perguntou acompanhando o olhar do sobrinho.
— Parece mais magro, deve ser o pijama. – Disse Itachi indo para a cozinha.
Madara o seguiu.
— Ou é fome mesmo! O que pediu?
—Yakissoba de camarão, para os dois.
— Perfeito! Vamos comer na cozinha?
— Onde você quiser.
Madara deu as costas e começou a subir as escadas. Foram para o quarto dele e comeram assistindo filmes épicos, paixão dos dois.
Dez dias passaram voando. Era noite do dia oito de junho, e Itachi estava em casa estudando. Teria uma prova importante no dia seguinte e queria se sair bem. Se seu tio o pegasse estudando o chamaria de neurótico com certeza.
Sorriu com esse pensamento. Realmente não precisava estudar, estava relendo a matéria por garantia, olhando com mais atenção para uma anotação ou outra. Parou tudo o que estava fazendo, guardando seu material na mochila. Organizou tudo deixando só o Notebook na cama e conectou-o ao carregador, se sentando confortavelmente recostado ao inúmeros travesseiros. Passou a abrir pastas de fotos dele e do tio.
Madara ainda não havia chegado; fora a um jantar para fechar um negócio. Itachi mordeu a boca ao pensar no tio; ultimamente pensava demais nele e estava verdadeiramente preocupado.
Madara era uma pessoa realista e segura de si, mas começava a considerá-lo solitário. Nunca antes pensara tanto a respeito. Sentia-se uma criaturinha egoísta por nunca ter notado a solidão do mais velho.
Será que sua ida para aquela casa fizera o tio terminar algum relacionamento? Franziu a testa com esse pensamento. Jamais se perdoaria se tivesse interferido desta forma na vida dele. Levando-se em consideração que ele nunca havia lhe apresentado alguém, era bem capaz que isso houvesse acontecido.
Abriu uma pasta referente àquele ano, os meses até ali. Era incrível como ele e Madara se davam bem! Lembrava-se do dia em que o tio o pegara assistindo um filme onde havia um beijo incrível, e que fazia questão de voltar dezenas de vezes para aprender. Madara calmamente perguntou o que ele esperava com aquilo, e Itachi lhe contou que a menina mais linda do colégio queria ficar com ele, mas que não sabia beijar. Ao invés de rir, implicar ou reprovar sua falta de prática, o mais velho explicara que não adiantava tentar copiar o beijo de outra pessoa; que cada um beijava de um jeito e que se aperfeiçoar levava tempo. Itachi então lhe pediu que contasse como foi seu primeiro beijo, e Madara contara-lhe, com a maior naturalidade, que havia se apressado e sido rude e que quase engoliu a língua da menina. Itachi riu junto com ele e em seguida, o tio lhe dissera para que, a cima de tudo, não tivesse pressa; que sentisse a textura, o gosto, acompanhasse o ritmo da garota sem medo e se adaptasse a ele. Dissera também que com o tempo, Itachi pegaria o que tinha de melhor em cada beijo que provasse e que, por fim, criaria um que fosse o que lhe agradasse.
Dois dias depois o jovem Uchiha chegava ofegante em casa, feliz da vida ao dar seu primeiro beijo. Correu até o tio e o abraçou com força, extremamente grato. Madara o colocara sentado sobre a pia e ouvira contente e orgulhoso cada pedacinho da aventura do sobrinho. Depois disso, outras grandes confidências vieram como, por exemplo, conversar sobre sexo, embora Itachi ainda não tivesse ido para cama com ninguém.
Os colegas de Faculdade chamavam-no carinhosamente de Príncipe Virgem. Madara dizia que era besteira e que ele deveria se sentir seguro para fazer sexo, pois diferente do que muitos pensavam, aquilo era mais que tesão, era responsabilidade consigo e com quem estava com ele.
Itachi hoje era desencanado e embora fosse ótimo em deixar meninas e mulheres em fogo total somente com beijos e toques, ainda não havia realmente encontrado alguém que lhe deixasse cego de desejo e paixão para em fim se envolver.
Madara sabia disso e respeitava; achava simplesmente um charme o sobrinho não ser um galinha desclassificado, mas tinha medo que uma oportunista fisgasse Itachi, oferecendo a paixão que ele buscava. Estava sempre de olho e pedia a Konan, namorada de Nagato, que zelasse por ele em sua ausência. Konan ria e dizia que Itachi, quando resolvesse começar a praticar sexo, seria o próximo Don Juan de Marco, pois de jovens a homens maduros se jogavam aos seus pés, brigando por um lugar em sua cama.
Além desta cumplicidade fabulosa na vida pessoal, agora também trabalhavam juntos, e Itachi simplesmente amava seu trabalho. Já pensava em outras duas faculdades que gostaria de fazer no ramo tecnológico: Tecnologias e Sistemas de Informação e Engenharia de Software. Sua primeira faculdade, diferente do que seu pai previra, fora voltado para isso também, pois cursava Processamento de Dados. Lembrava-se de que Fugaku queria que cursasse Relações Internacionais; mas o tio entendeu que ele realmente gostava da área de tecnologia e que tinha um imenso talento para esse ramo. Apoiara-o em sua decisão.
Hoje tinha certeza que queria seguir carreira junto a Madara, cuidar da Akatsuki e fazer a empresa uma referência mundial em software.
O barulho de um carro se aproximando chamou sua atenção, mas estranhou um tanto, pois não era o barulho do BMW do tio.
Franziu a testa e desceu as escadas, parando na grande janela da frente da casa. Viu um carro negro estacionar na frente da residência.
Seu celular tocou, Itachi viu que era Madara; atendeu em seguida.
— Madara? É você no carro na frente de casa? — Indagou curioso.
— Sim, sou eu. Pode acender as luzes de fora, por favor?
Itachi pegou o controle remoto e acendeu as luzes. Seu choque foi imediato. Madara saía de um modelo Audi TT Coupe 2011 negro. Maravilhoso!
Itachi era apaixonado por esta série de carros e aquele era especialmente bonito. Ouviu o tio chamando pelo celular enquanto acenava recostado ao carro.
— E aí o que achou? – Perguntou.
— Simplesmente incrível! Fez um ótimo negócio, imagino; afinal você tinha loucura pela BMW.
— Não entendi.
— Deu a BMW como parte do pagamento desta maravilha eu imagino? — Insistiu Itachi.
— Você só pode estar brincando! Jamais venderia minha gracinha!
— Então pra que mais um?
— Não é meu, dois me bastam!
— Cadê o seu carro?
— Na empresa. Não dava para vir dirigindo dois carros.
— Madara, não estou entendendo nada. O que está fazendo com este carro?
— Cadê sua suprema inteligência, criança? – Perguntou sorrindo e completou – Feliz aniversário, Itachi!
Itachi ficou mudo e de boca aberta.
Não podia ser! Só podia estar dormindo e sonhando!
— Não vai descer aqui? – Insistiu Madara meio inquieto pela reação do sobrinho.
Itachi desligou o celular e saiu. Parou na escada da frente ainda com medo de acordar. Olhou para o tio que o mirava em total expectativa; finalmente desceu e se aproximou do carro.
— Se eu tentar tocar, será que vou acordar? – Perguntou estalando os dedos.
Madara sorriu e estendeu a mão para ele. Itachi estendeu a sua e segurou a mão do tio, este o puxou para perto do carro e antes de solta-lo, lhe entregou as chaves.
Itachi ficou olhando dele para a chave e só depois para o carro, até que tomou coragem de tocar a máquina.
O sorriso que abriu fez de Madara o homem mais feliz do universo. Assistiu com carinho o sobrinho dar a volta umas duas vezes ao redor do veículo, dedilhando delicadamente cada pedacinho até parar por fim na porta do motorista.
Itachi abriu a porta, analisou o carro vagarosamente por dentro e, em fim, se sentou ao volante.
Quando ligou o carro, sentiu a vibração do motor e ouviu o som dele, fechou os olhos e mordeu o lábio inferior maravilhado. Madara apareceu ao seu lado encostando-se à porta.
— E então? – Perguntou baixo tocando o ombro do sobrinho.
O mais novo deixou o carro ligado e saiu, colando seu corpo ao do tio num abraço cheio de sentimentos que foi retribuído na mesma intensidade. Ajustaram-se um ao outro, encaixando com perfeição cada curva e músculo. Itachi agora devia ser apenas míseros centímetros mais baixo que Madara e era idêntico em estrutura física, com o quadril um pouco mais largo e ombros levemente mais estreitos que os dos tio. Ele sentiu o tio afundar a cabeça em seu pescoço e respirar fundo, tragando a fragrância dos seus cabelos. Colou mais o corpo ao dele, de uma forma quase impossível, sentindo o coração disparar no peito por ter ele tão pra si naquele momento.
— Não sei como agradecer. Tem certeza de que... tem condição pra tanto? Não vai se prejudicar?
— Não tem que agradecer, criança; e sim, tenho condição para tanto, fique tranqüilo. Não sou milionário como seu pai, mas venho guardando dinheiro para poder te dar este presente. Você fez por merecer, Itachi.
— Meu maior e mais precioso presente sempre será você! – Respondeu o mais novo abrindo o coração e fazendo Madara apertar os olhos com força e comprimir os lábios com mais força ainda. Respirou fundo e deu um beijo na testa do mais jovem afastando-se.
— Quer dar uma volta? Estrear seu carro? – Indagou massageando a nuca com ar cansado e algo mais que Itachi já vinha percebendo que existia, mas que não conseguira fazer o tio falar.
— Podemos?
— Claro que sim. A estrada está vazia, é noite de lua cheia e céu está estrelado. Tudo perfeito para estrear seu carro.
Itachi pensou um pouco e correu para dentro da casa. Madara achou estranho, mas resolveu aguardar. Minutos depois, ele voltou com uma calça preta de tactel, tênis preto, camiseta pólo vermelha, trancou a casa e entrou no carro. Madara se sentou no banco do passageiro, só então notou a disqueteira na mão do sobrinho. Itachi tirou um cd da mesma e colocou determinada música para tocar. Era Wanted Dead ou Alive do Bon Jovi.
Madara sorriu quando reconheceu a música; colocou o sinto e relaxou. Seria um ótimo passeio.
Itachi dirigiu por cerca de duas horas. Cantaram Bon Jovi juntos, riram de tudo e de nada, testaram à velocidade do carro e o passeio foi ótimo para ambos. Há muito o adolescente não se sentia tão feliz e, por mais que tivesse amado o presente, não estava assim por causa do carro.
Era madrugada quando voltaram para casa. Itachi colocou o carro na vaga da garagem com perfeição e antes que saíssem do veículo, virou-se para o tio querendo perguntar algo que estava quebrando a magia do momento.
— Tio?
— Sim? – Perguntou Madara estranhando o ar sério do mais jovem. Eram raras as vezes em que ele o chamava de tio.
— Agora que tenho meu carro, significa que não terei mais carona pra faculdade?
Madara sorriu carinhosamente para ele e balançou a cabeça negando antes de responder. Pensava que Itachi podia ser um gênio e tudo mais, alguém muito maduro em relação ao trabalho, os estudos e tudo que dizia respeito a sua vida desde que fora morar consigo. Mas que, ainda assim, não deixava de ser um menino de dezoito anos.
— Não é isso, criança. — Falou em fim — Acho legal que tenha seu carro, que tenha algo pra chamar de seu. Chegará o dia em que você vai querer sair com seu carro e não com o meu e por isso eu quis dá-lo pra você. Mas nada precisa mudar.
— Ufa! — Exclamou Itachi aliviado — Confesso, amei meu carro, mas amaria um tanto menos se tê-lo consistisse em passar menos tempo com você.
Madara baixou e estreitou os olhos. Iria enlouquecer, tinha certeza disso. Itachi andava dizendo coisas que o levava ao céu e depois o lançava direto no inferno.
Itachi assistia as reações do tio em silêncio. Queria tanto que ele lhe contasse o que o afligia; eram tão unidos, tão íntimos, mas algumas vezes desconfiava de que Madara não se abria como antes.
Tocou-lhe o rosto com carinho e enfiou os dedos pelos cabelos fartos.
— Madara? – Chamou baixo atraindo a atenção do tio.
— Oi? – Respondeu com voz rouca e carregada.
— Por mais que eu saiba que somos amigos, por mais que eu confie cegamente em você, às vezes, sinto que tem algo que me esconde e isso me entristecesse muito... Conversa comigo vai?
Madara pensou um tanto antes de responder e então olhou bem dentro dos olhos do sobrinho.
— Eu realmente tenho algo importante pra contar, criança; mas não agora. Amanhã, depois da sua festa nós conversamos.
— Estamos sozinhos, longe de olhos e ouvidos inconvenientes e tocando no assunto agora... Por que esperar até amanhã?
— Por que não quero que nada estrague seu aniversário. — Devolveu Madara num suspiro pesado — Melhor entrarmos.
Itachi ficou olhando para o nada por alguns instantes. O que pelos deuses seu tio teria de tão grave para lhe contar que pudesse estragar seu aniversário? Sinceramente, não imaginava nada tão absurdo.
— Itachi? – Chamou-o Madara tirando o outro do devaneio.
Entraram em casa e subiram os degraus em silêncio. Pararam ao final da escada e se buscaram com os olhos.
— Espero que saiba que nada do que me disser irá mudar o que sinto por você. É meu tio, meu pai, meu irmão mais velho, meu melhor amigo... Nada nunca será maior do que isso, Madara, nunca!
Madara sorriu aliviado, mas seus olhos estavam tristes. Talvez, apenas talvez, estivesse errado e não deveria ter criado tantos problemas em torno disso. Beijou com carinho a testa de Itachi e sentiu o sobrinho beijar levemente seu queixo; era um gesto automático entre eles. Itachi logo em seguida o abraçou apertado e agradeceu mais uma vez o inusitado presente:
— Obrigado pelo carro, tio. Eu realmente não esperava.
— Que bom que gostou. Agora vá descansar, Itachi. Está tarde e o dia amanhã será longo. Boa noite.
— Boa noite.
Cada um foi para o seu quarto, que eram separados pelo corredor. Itachi ao fechar a porta se recostou na mesma e sorriu. Ainda não acreditava que havia ganhado um carro de presente de aniversário; com certeza, teria ganhado um do pai também, mas jamais teria o mesmo significado. Madara não era pobre, mas aquele carro custava uma fortuna. Saber que seu tio vinha guardando dinheiro para lhe presentear, Saber-se assim tão amado era simplesmente incrível!
Foi-se deitar com um sorriso nos lábios, abraçado a uma foto dos dois juntos que amava. Aliás, seu último pensamento foi o quanto o amava e, por um instante, seu semblante ficou triste, mas foi muito rápido e logo voltou a sorrir.
Madara entrou no quarto, fechou a porta e se trancou no banheiro. Apoiou as mãos na pia e respirou fundo. Seu coração a milhão. Estava cansado daquela situação; deveria realmente abrir o jogo com Itachi e agüentar as conseqüências. Tomou um banho quente e quando se deitou, dormiu instantaneamente
Notas finais
Obrigada a todos que estão acompanhando; os que deixam reviews (que por sinal eu amo muito) e também aos que lêem no anonimato. Saibam que se algum dia sentirem vontade de deixar seus comentários podem ficar a vontade; a casa é de vocês e todos sempre serão muito bem vindos!
Desejo um magnífico final de semana a todos.
Até o próximo capítulo,
Lothus.
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