— Pois bem — falei, de maneira teatral. -, alguém tem algo a dizer antes que eu comece essa nova série de livros?

— Você tem comida? — Rebecca perguntou, previsivelmente.

— Não — respondi, também previsivelmente. — E eu sou pobre e tenho que pagar a passagem do ônibus, então nem me peça dinheiro emprestado.

Ela murmurou um “ah” decepcionado e eu olhei para Gabe, que me encarava com olhos suplicantes por trás dos óculos grossos.

— Você realmente vai trocar minha explicação sobre Skyrim por uma série de livros completamente desconhecida sobre mais um futuro distópico? — Ele perguntou. Suspirei.

— Olha, Gabe, eu sei que Skyrim é legal. Eu joguei, lembra? Mas, para mim, livros são mais importantes do que jogos. Eu sei que existem centenas de obras sobre futuros distópicos, mas também existem dezenas de jogos sobre futuros distópicos, porque futuros utópicos não parecem interessantes e, de acordo com a teoria de Hobbes, são impossíveis, porque o homem é naturalmente mau, o que significa que a Terra está destinada a ser destruída completamente e a humanidade, extinta.

— É um bom argumento — Becca disse e eu ergui as sobrancelhas sugestivamente para Gabe.

— Não nos abandone — ele disse, com a voz suplicante e o drama de um personagem de RPG.

— Não vou — respondi, e abri o livro.

Céus, como minha vida era mais fácil naquela época. Indo à escola, tirando com a cara de pessoas das quais eu não gostava, lendo muito, assistindo séries de TV, rindo de piadas cheias de referências e sarcasmo com meus amigos. Piadas que eu geralmente tirava de livros de ficção fantasiosa com dragões, caçadores de demônios, elfos, fadas, vampiros, lobisomens, bruxos, feiticeiros (sim, existe uma diferença entre bruxos e feiticeiros), anões, hobbits, semideuses, deuses, anjos, demônios, fantasmas, mediadores, guerreiros, cavaleiros, etc. etc. etc.

Me lembro perfeitamente do que aconteceu naquele dia. Eu estava distraida, no ônibus, voltando para casa, lendo o primeiro livro de uma trilogia. Eu estudava no turno da noite e saía da aula às 10h30, o que significava pegar o ônibus das 11h quase completamente vazio.

Eu não estava prestando atenção em nada além da história que se desenvolvia diante de meus olhos. Era um livro muito bom. Quase tão bom quando o primeiro livro da série Trono de Vidro ou As Peças Infernais, embora tivesse um quê de Divergente com inclinação para Reiniciados. Era o tipo de livro que me faria virar a noite acordada só para ler, como tantos outros livros bons que eu já tinha lido.

Me lembro de não notar a figura à minha frente até a sombra dela começar a me incomodar. Eu estava usando fones de ouvido com a música desligada para as pessoas não falarem comigo e ter algum isolamento acústico no ônibus. Quando ergui a cabeça vi aquela pessoa bizarra com um sobretudo preto, chapéu de aba larga e usando uma máscara dourada que me lembrou de Tamlin em Corte de Espinhos e Rosas, ou Ezio Auditore em Renascença, mas que tinha um clima de V de Vingança.

Eu não me surpreendi, nem gritei, nem perguntei quem ele era. Quando se lê ficção demais e se é muito sonhador, você começa a desejar que algo de especial aconteça em sua vida. Quando o vi na minha frente só faltou perguntar se ele estava com minha carta Hogwarts, mas eu lembrei que já tinha quinze anos, então não seria possível. Eu ainda tinha esperanças de ir para Nárnia, por outro lado.

Infelizmente, a única coisa que o cara estranho fez foi jogar uma moeda e um papel dobrado em cima do meu livro, se virar e descer do ônibus. Peguei a moeda e a analisei, me perguntando se ele achava que eu era alguma espécie de Arya Stark que pegaria um navio para Bravos, mas aí eu peguei o papel e vi que estava escrito “Tente o poço dos desejos” com uma caligrafia impecável feita com uma caneta tinteiro.

Foi só então que me toquei que tinha passado do ponto da minha casa e xinguei alto dentro do ônibus vazio, exceto por mim e pelo motorista. Joguei o livro na mochila, guardei a moeda e o papel no bolso do moletom e olhei o letreiro para saber onde estava.

Surpresa: Ponto Poço dos Desejos.

Tudo bem, eu não estava tão surpresa assim. Além do mais, estava bem óbvio o que eu tinha que fazer. Qualquer bom leitor de ficção sabe o que fazer nessas horas.

Desci do ônibus e caminhei a esmo pela calçada. Sinceramente, eu não esperava ter de me esforçar muito. Nos livros, quando algo estranho acontece com o protagonista pela primeira vez, ele não se esforça muito para dar continuidade aos acontecimentos. Tudo se desenvolve espontaneamente porque, na realidade, o personagem principal não sabe o que está acontecendo nem por que. As coisas só começam a depender dele mais tarde, quando ele entende que não faz parte do grupo “seres humanos normais” e se torna uma potência ativa na narrativa.

Como sei disso? Eu leio demais. E escrevo demais também. Gosto de ter a sensação de decidir o que acontece ou deixa de acontecer, de escolher se um personagem vive ou se deve morrer; no papel, o escritor tem o poder de um deus. Afinal de contas, quem não gosta de poder?

Continuei caminhando sem nada especial em mente até ver que estava à beira de um gramado enorme, do tipo que, se você tiver um lado extremamente infantil como eu, vai querer se jogar e rolar por ele enquanto ri igual a um retardado. Era isso que eu fazia antes de a minha vó mandar eu sair do jardim dela, parar de estragar as plantas e sujar minha roupa.

Neste gramado, porém, eu sabia que seria impossível fazer isso porque um poço de pedra se erguia bem no meio dele e eu, com uma noção muito grande de minha falta de sorte, com certeza bateria a cabeça nele, eventualmente. Então me contentei em andar até o poço e olhar dentro dele, na esperança de encontrar uma explicação plausível do que eu deveria fazer porque, pelo amor, eu não conseguiria bancar a Alice e me jogar num buraco desconhecido por causa de um sujeito estranho que, de certa forma, me levou até ali. Mas é claro que o poço poderia ser muito útil se eu tivesse de jogar uma chave, uma pedra e uma mão feita de agulhas lá dentro, como Coraline, para me livrar de uma criatura maligna que finge ser minha mãe.

Peguei a moeda em meu bolso e a observei uma última vez, finalmente percebendo o que a tornava incomum: era uma moeda de um centavo. Moedas de um centavo não são produzidas há anos. Porém percebi outra coisa, em seguida: a moeda estava presa a meu pulso por uma corrente fina, como uma pulseira prateada sem fecho.

— Ah, sério? É assim que me dizem para me jogar num poço com a moeda? Prendendo ela no meu pulso? — Exclamei, revirando os olhos. — Não seria mais fácil escrever isso na droga do papel?

Só para ter certeza de que não estava errada, peguei o papel de novo e conclui que nada havia mudado nele. Nunca se sabe. Quando coisas loucas começam a acontecer, elas acontecem para valer.

Me jogar no poço era simplesmente uma ideia idiota demais para ser aceita já que eu não possuía nenhum dom especial do qual tivesse conhecimento, então puxei a corrente que descia dentro do poço até tirar o balde de lá, coloquei um pé dentro dele e usei a corrente para fazer uma descida lenta e controlada até o fundo, o que não era lá muito fácil considerando meu peso e o peso de minha mochila.

Quando pisei no fundo do poço foi que percebi que estava seco e que tinha algo errado ali. Considerando o gramado extremamente verde acima, o solo deveria ser fértil, o que significa úmido, e, naquela profundidade, deveria haver pelo menos umidade nas pedras e água no fundo, mas poços normais também não tem uma porta curva de madeira de um dos lados, então desisti de questionar.

Naquele instante parei para pensar no que havia feito até o momento. Parecia que a escola, Rebecca, Gabe, o dever de casa e a prova de filosofia estavam há dias de distância. Foi então que eu soube que não tinha volta. Eu não poderia retornar à vida que tinha antes nem se quisesse. Como em Crônicas de Nárnia, quando o sobrinho do mago vê o sino pronto para ser tocado e lê a frase “toque o sino ou passe o resto de sua vida se perguntando o que teria acontecido se o tivesse tocado”. Eu não suportaria a ideia de não saber o que aconteceria, principalmente sendo completamente apaixonada por todo tipo de fantasia e odiando meu mundo por não ser especial.

Eu me mataria se voltasse atrás, porque, se eu voltasse atrás, eu jamais veria aquele lugar de novo. Seria como escolher viver na entediante e infeliz Matrix. Por isso, fiz o que todo protagonista de um livro de fantasia faria em meu lugar: bati na porta.

Tenho segurança em dizer que aquele foi o fim do prólogo de minha história.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!