Povoando Suas Páginas
5 Capítulo 4 - Sonhando uma realidade
Notas iniciais
Melanie PDV
Suspirei, ao acabar de ler a entrevista, feita por uma revista famosíssima. Ela carregava em sua capa, todo o mês, um ícone a quem se inspirar. Uma estrela em seu ápice. Por que comprei? Bem, nesse mês, a estrela era o meu Arthur, que, aos 25 anos, é um dos escritores de romance mais famosos, com livros traduzidos em diversos países, 8 livros maravilhosos, sendo que 5 deles são best-sellers. Bem, eu já sabia de tudo isso que dizia na descrição. Mas me dava orgulho ler isso, ver essa estrela brilhar cada vez mais forte. E, além do mais, a revista poderia ter mais informações não-reveladas sobre a sua vida, informações sobre a misteriosa capa do seu livro, só podia. Mas tinha um pôster, a que, neste momento, eu estava morrendo de amores.
O que eu mais gostei na entrevista, foi o incentivo que ele deu às suas fãs, de correr atrás do seu próprio romance, se não conseguir um como os que ele escreve. Aquele homem era maravilhoso, e se provou extremamente dedicado aos fãs, especialmente em seu agradecimento. Fazia-me encantada.
Colei o pôster na porta do meu armário, e depois de namorá-lo por longos minutos, voltei para a minha cama e puxei o meu notebook da mesinha, o ligando. Enviar e-mails para ele, já havia se tornado uma bela rotina. Não me importei nem um pouco com sua falta de pessoalidade da última resposta. Pelo contrário, tratei de caprichar mais nas palavras. Entrei no meu e-mail, e me assustei ao ver que tinha um novo. Bem, eu acreditava que ele lia, mas, responder novamente num período de tempo tão curto? Quero dizer... Mandei outro ontem de manhã e noite, e já respondera? Será que ele havia gostado à este ponto? Eu mal podia acreditar. Meu coração parecia uma escola de samba, minha respiração ficou descompassada. E a empolgação que me preencheu da outra vez com euforia, foi tomada por um nervoso ao ponto de me fazer travar. Cliquei, tentando não ser trapaceada pelo cursor do mouse, que, operado pela minha mão trêmula, se recusava a me obedecer. Enfim encarei a tela de resposta. Surpreendida com a quantidade de linhas, comecei a ler, entre surpresa e euforia.
“Senhorita Melanie,
Sei que o que fiz não foi certo, rastreei a sua localidade por GPS. Porém, também conseguiu meu e-mail clandestinamente. Então estamos kits, não é? Lamento pela resposta anterior... Mas hoje venho com boas notícias: Estarei dando uma noite de autógrafos em Capeside, na Bookstore em dois dias, e tenho conhecimento de que é uma cidade próxima à Sunset. É relâmpago e exclusivo, então considere a informação valorosa. Imprima o arquivo abaixo.
Venha me conhecer, será um prazer. É só me dizer quem és, me lembrarei de você.
Atenciosamente, Dobrev.”
OH. MEU. DEUS.
xxxxx
Passara o dia anterior inteiro planejando a minha viagem relâmpago para Capeside, tão feliz que até quando ia ao banheiro, ia dando pulinhos. Coloquei quase toda a minha mesada de gasolina, separando, claro, o dinheiro para comprar o meu livro na estreia. Meus pais me censuraram, e estavam próximos de não me permitirem viajar, porque eu dirigiria sozinha por horas e ainda faltaria a escola. Mas eu estava tão extasiada por receber um convite exclusivo do meu ídolo, que prometi fazer tudo o que eles quiserem quando voltasse, isso incluía me esforçar para não repetir de ano mais uma vez. Já a Cece, era pessimista demais para entender que fora ele que me mandou o e-mail. Não compreendia o motivo de mensagens tão distintas em dias tão próximos, mas, por fim, ficou feliz por mim, me desejando boa sorte e pedindo para que eu contasse todos os detalhes.
Capeside, ficava à, aproximadamente, 3 horas de Sunset. Por isso, depois das 10 horas da manhã, eu já estava no meu carro, com um vestido branco um tanto charmoso, e uma sandália rasteira. Tinha usado no rosto umas técnicas de maquiagem que aprendi com o Laurete, e ficou bem suave. Usava um gloss rosa, um delineado que me deu trabalho de fazer, e um tom marrom, semelhante ao que o Laurete usou em mim nos olhos. Meu cabelo estava preso uma pequena mecha encima, enquanto as pontas cacheadas distribuídas no lado direito e esquerdo. Eu cantarolava uma música de rock alternativo que passava na minha radio favorita.
A cidade que estava indo não era uma cidade destaque, que famosos costumam visitar, mas tinha muita gente rica. Chegaria aproximadamente às 13, e esperaria sua chegada por cerca de 5 horas. Pouca coisa.
(...)
Eu, enfim, chegara à livraria depois de uma viagem tranquila. Estacionei o meu carro logo que notei que ainda tinha vaga. Eu realmente havia chegado bem cedo. Se eu estava ansiosa? Muito. Entrei na Bookstore, e, mesmo ele ainda não estando ali, meu coração acelerou a cada estante linda e enorme, com categoria destacável, que eu passava. Uma música ambiente tocava bem calma. As paredes pintadas metade em tom pastel, e metade revestida com madeira eram decoradas com lindos quadros. Observei vários puffs distribuídos pelo local, alguns ocupados por pessoas que liam atentamente. Aconchegante.
Corri até a banca de lançamentos, e observei o quanto o seu livro estava lindo. A sua capa, carregava o seu título numa fonte personalizada que eu jamais vira, e fazia um link com o título, com destaque nas palavras Miocárdio e Catastrófico. Na capa, estampava um coração em seu formato real, faltando pedaços. Em cada pedaço que faltava, refletia a foto de um homem diferente. E, no chão, os pedaços caídos, formavam um novo coração.
Foram os 40 mais bem gastos da minha vida. Paguei à moça, extremamente satisfeita, reprimindo a vontade de abraçar o livro. Corri com ele até o puff, ansiosa para devorá-lo, e o abri, observando sua sinopse.
“Amores inesperados, inacabados. Os mesmos prefixos, mas significados diferentes. O não-esperar deseja, do fundo do peito, não ser trapaceado e transformado pelo tempo em não-acabar. E, o não-acabar, deseja arduamente voltar, muitas vezes em apenas um dos lados. O que faria se todos os amores que um dia deixaram seu coração em pedaços, quisessem voltar, inesperadamente? Se permitiria a viver todos eles até o fim? Ou desejaria que o fim não chegasse para apenas um?”
(...)
Às 16 horas, a livraria foi “fechada”, provavelmente para fazer as mudanças necessárias. Detestei interromper minha empolgada leitura daquele romance perfeito, mas aproveitei para almoçar. Comprei uma batata frita e uma coca, visto que não queria demorar, e que também só tinha restaurante chique. Fiquei esperando na porta, até que ela reabrisse, com o meu convite em mãos. As pessoas começaram a chegar animalescamente à partir das 17.
Entramos às 18, numa organização invejável que só permitia a entrada de um por um. Todos apresentavam os seus convites antes de entrar, e juro que o homem que conferiu o meu, pareceu ligeiramente surpreso, mas nada disse.
Às quase 19 horas, eu mal podia crer no que meus olhos viam. Me belisquei umas três vezes, acreditando que a dor que eu sentia ao fazê-lo era mero devaneio. Eu podia ver um dos acessórios favoritos do homem que agora se chamava Thur, porque respirar era uma coisa que, neste momento, eu não me recordava. Infelizmente, não vi o seu rosto mais familiar e descritível que o meu. Ele estava cercado de seguranças-armários. Comecei a gritar feito uma desesperada, à medida que eles se aproximavam, fazendo um escudo humano na frente do homem da minha vida. Apenas a sensação de ocupar o mesmo cômodo, me fazia ofegar.
Movida pela adrenalina que tomou conta de cada pedaço do meu tremível corpo, eu pulei a cerca que também nos afastava, enquanto o segurança tentava conter outra garota, e corri em direção daquela barreira humana, aspirando me jogar em seus braços por fim. O plano era simples, arquitetado em dois segundos e com uma sanidade questionável; Pularia a cerca: Feito. Empurraria todos aqueles homens que pesavam o triplo do que peso só de músculo e osso: Pera. Tentei empurrar o homem forte que vi à minha frente, e ele nem me notou. Ele me ignorou por que quis, ou eu tenho força inferior ao do vento? Droga, não dava para eu pular pro terceiro passo em que o único obstáculo seriam as nossas roupas. Isso pode parecer pervertido, mas o nível que eu queria aquele homem, naquele momento, era além das quantidades de fãs aqui presentes. Enquanto os acompanhava, tentando ver ao menos um pedaço do rosto do meu ídolo, eles nem me deram importância. Até que dei uns passos pra trás, e me joguei contra eles. Tudo que eu consegui, foi uma tremenda dor no braço, a que fiz questão de ignorar, e um olhar por detrás do óculos de um dos seguranças, que fez um sinal com a mão, como se enxotasse um cachorro. Em seguida, tudo que vi foi um segurança que percebeu meu tumulto silencioso, vindo na minha direção. Apertei o passo, tentando ficar à frente deles, não satisfeita com a mais que aparente derrota.
–Sou eu! Do e-mail! – gritei, na esperança que ele ouvisse. Será que se eu esmurrasse a minha mão quebraria em quantos pedaços? Talvez valesse a pena. Não, talvez não. Talvez eu fosse parar no hospital na noite mais importante da minha vida – Por favor, me deixem vê-lo! – eu pedi, tristonha. Um segurança praticamente me arrastou, mas não para o lugar onde eu estava, mas para o fim da fila.
Observei fãs alucinadas gritando do lado de fora. Era inútil, as portas estavam fechadas. Sem convite não entrava. Foram buscar o que a faziam felizes, e eram separadas dele por uma porta. E eu reclamando das barreiras.
–Garota... Você foi a primeira da fila, e estaria o vendo pessoalmente em uns 20 minutos... Precisava agir assim? – ele falou baixo, me olhando como se eu fosse a pessoa mais burra do mundo. Coloquei a mão na cabeça e senti vontade de puxar todos os meus fios de cabelo ao notar o que ele disse. Sim, eu com certeza era. Eu tinha transformado os meus 20 minutos em horas. Puta merda!
xxxxx
Perdi a conta do quanto esperei, porque fiquei lendo o seu livro. Ele me prendia a ponto de eu conseguir ler naquele barulho infernal. Quando a minha vez chegou, demorei lerdamente a entender que era eu. Fui guiada até ele, e mal pude acreditar no que via. Queria que meus olhos parassem de lubrificar neste exato momento, porque não queria lavá-los, para poder apreciar essa imagem para sempre. O Thur estava sentado, numa cadeira aparentemente confortável. À sua frente, havia uma mesa retangular, com exemplares de livros encima e algumas canetas. Sua mão parecia estar em posição para escrever o próximo autografo, enquanto olhava para baixo. Se eu queria me jogar encima da cadeira dele e sair derrubando tudo? Óbvio. Se eu podia? Não. Então sentei na cadeira a sua frente, sentindo cada parte do meu corpo tremer. E então, enfim, os seus olhos me viram. Questionando o porquê de eu ainda não ter lhe estendido o livro para autografar, e dos meus lábios não professarem a dedicatória que eu desejava. Eu estava congelada, não sabia como explicar. Seus olhos, ao mesmo tempo que pareciam o azul do mar, parecia o verde do rio. O doce e o salgado unidos e convivendo em perfeita harmonia. Não havia olhos mais bonitos no resto desse mundo.
–Nome? – a voz dele era preocupada e ligeira. Mas eu ainda nem havia lhe estendido o livro, por que queria saber o meu nome? Ele... queria me conhecer?
–M..Me..Mel... Mel... Anie. – eu disse, com dificuldade, perdendo o domínio da língua – ele estendeu o braço, e lhe dei a minha mão... Fria, trêmula e suada. Pude sentir a sua, quente, macia, grande e seca. Era uma sensação maravilhosa. Ouvi-o pigarrear, e esquivar rapidamente a sua mão, a deixando no ar desta vez. Ah, ele havia pedido o livro. Tolinha.
Ele parecia um modelo, um ícone da perfeição. E eu estava à sua frente, calada?
–Olha, Arthur, eu sou a sua maior fã deste mundo. Não sou a mais antiga, ou a mais rica. Mas com certeza sou a que mais te admiro e sei sobre você. Eu cheguei a pensar que este dia nunca chegaria, mas conforme dizes em Povoando Estrelas: “Sonhos são como estrelas do céu, mas a diferença é que, se pular forte... Pode alcança-los. E, valha-me Deus, eu alcancei o dedinho do seu pé... E isso foi o suficiente para que voltasse os seus olhos a mim”. – falei, em ritmo acelerado, cada palavra uma emoção diferente. Um trava-língua complicado. Porém, desesperadamente espontâneas, como se elas atravessassem as medidas que nos separavam. Porém, o meu alvo, a quem pensei ter tocado o dedinho do pé, apenas assentiu, e começou a escrever rapidamente uma dedicatória na capa do meu livro. – Cada palavra que escreve, me toca tão profundo... Não imagina a emoção que sinto agora. É o dia mais feliz da minha vida. Quando te mandei os e-mails, nem imaginava que responderia. Esse convite que me ofereceu, me dando uma chance para te conhecer, me faz a mulher mais feliz do mundo. – ele levantou a sobrancelha, e parecia um pouco confuso.
–Foi você... – ele falou bem baixo, como se pensasse alto. Não consegui identificar o que continha na sua voz – Bem, agora já me conhece. – Então me passou o livro, já fechado. Seus olhos me convidavam a ir me embora, pelo o que parecia. Senti uma dorzinha no peito.
–Espera! – pedi, quase em prantos – Pode autografar só mais um lugar? Eu prometo que paro de falar. Lamento que minhas palavras não te agradem. Mas, por favor... Só peço isso. Provavelmente nunca mais terei a chance de te ver na vida. – jurei que ele deu um sorriso rápido quando eu disse isso. Eu adorava aquele sorriso.
–E onde quer o autografo? Um caderno? – ele perguntou, sua voz como uma cantiga na minha mente. Infelizmente do tipo de cantiga em que algumas palavras não são entendidas, devido à pressa. Eu não sabia onde queria o autografo. Aquela era apenas uma desculpa, para que eu pudesse ficar mais, na mesma atmosfera que ele, trocando o ar. Olhando aqueles olhos, aquela boca rosada. Eu não conseguia captar a sintonia que nós tínhamos no sonho, parece que algumas vezes eu simplesmente não o reconhecia. Ele deu um sorriso urgente, e eu decidi inventar.
–Na minha barriga. – eu disse, e ele levantou uma sobrancelha. Foi então que olhei para baixo e lembrei que eu estava usando vestido. Maldição. – Quero dizer... Braço.
Ele deu uma respirada forte, e levantou da sua mesa, enquanto alguns flashes nos atingia. Também levantei, e ele veio direto com a caneta no meu braço, o que havia machucado e doeu ao ser tocado, segurei a dor. Ele começou a rabiscar. Sua caneta deslizando sobre a minha pele, a sua mão quente servindo de apoio para as rabiscadas mais que firmes. Era como se ele se escrevesse em mim, como se guardasse cada palavra nas minhas entranhas. Quando ia se afastar, ergui as mãos, pedindo desesperadamente um abraço. Lágrimas escapavam dos meus olhos. Ele demorou um pouco, mas me abraçou, logo após flashes.
Suas mãos quentes e firmes na minha cintura, enquanto eu, na ponta dos pés, envolvia a minha mão em seu pescoço. Minha cabeça no seu ombro, escorrendo lágrimas. Parecia um sonho. O meu choro se tornou mais forte, as minhas pernas mais fracas, visão embaçada. Passei a não conseguir enxergar mais nada em minha frente, não ouvia, nem sentia. Meu corpo despencou. Será que eu morri? Anjos? Deus? Ah, droga... Será que fui pro inferno?
Continua...
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