Porto Maribel

7 As águas do Porto Maribel


Quando conheci o Vinícius, estava num momento caótico da minha vida. Tudo dando errado, minhas economias acabando, e de repente aquele alfa alto e atlético surgiu como uma saída fácil para todos os meus problemas. Até teve um momento da nossa parceria em que eu imaginava namorá-lo. Infelizmente, meu sonho era um pesadelo que ainda me atormenta.

— Desinibe ômegas? — O rosto de Caio era de pura confusão.

— É...

— Você foi traficante?

Deu para ver o semblante dele mudar radicalmente. Já não parecia mais aquele esperto e compreensivo Caio de antes.

— Fui.

— Eu não sei o que falar. Minha mente não consegue processar essa informação. Talvez... só talvez o fato de isto desinibir o calor ômega, seus clientes foram ômegas recessivos que voluntariamente compravam.

— Não. Meus clientes eram em sua maioria alfas. O nome disso é Afrodite. Uma droga banida em diversos países. Ela não apenas desinibe feromônios mas também manipula a mente do ômega para não parar de transar.

Ele fechou o punho com força e ódio. Caio tinha todo o direito de sentir isso por mim, pois fui um canalha que não se redimiu. Meu amor por ele mudou totalmente o foco da minha vida e dos meus gostos, entretanto nunca me livrei da sombra dos meus erros.

— Eu tava quebrado quando conheci o Vinícius. Ele me ofereceu uma parceria no tráfico de Afrodite. Ganhei bem, mas tive que fugir por conta da perseguição dos milicianos.

— Você nunca se interessou em voltar, não é? Nosso relacionamento foi pura casualidade.

Tentei segurá-lo como antes, mas o beta se desvencilhou rápido. Pegou a minha mão e devolveu o comprimido já despedaçado.

— Caio me perdoa!

— Não posso.

— Eu evitei te contar por medo. Ouvi que você ajuda os ômegas. E saber que o seu crush era envolvido no sofrimento dos ômegas...

— Tá me contando agora por quê?

Não tive a resposta correta para dar. Um porra como eu merece sofrer na vida. Abaixei a cabeça e me mantive calado. Caio se afastou de mim. A cada passo, meu romance ia morrendo. Acabaria assim? Não! Corri e segurei o seu braço. Ele exigiu que o soltasse, mas a cena trágica de um final infeliz foi interrompida quando homens armados surgiram na praia.

— Vocês são da milícia. Deixe-o ir embora — falei numa coragem que eu nem sei de onde tirei.

— Cala a boca! Os dois são importantes para o nosso chefe.

Fomos arrastados para dentro de um sedan preto e tivemos as nossas visões interrompidas com sacos pretos na cabeça.

...

Preto.

Meu romance e a minha visão. Queria estar longe dali em algum lugar. Ver Caio sofrer era a pior coisa nesse mundo.

Nesse ínterim, Caio sequer se mexia. O carro passou por uma lombada, mas o balanço do veículo não fez nossos corpos se esbarrarem. Ele estava me evitando a todo o custo.

Saímos do carro. Andamos pela areia e depois por uma ponte de madeira. Conhecia o lugar. Era o píer. Retiraram os sacos e pude ver Vinícius e a sua cara de cu debochado olhando para mim.

— Já tem o teu dinheiro, cuzão. Devia estar no Rio mamando as picas daqueles velhos do Leblon.

— Ahahahaha! Que boca suja, Júlio. Pensei que havia retornado ao tempo de filhinho da mamãe praiana. Olha esse lugar. Bonito demais para a nossa alma podre. Somos iguais.

Olhei Caio. Ele ficou sério e não parou de encarar Vinícius.

— Você é um traficante, não é? — Caio...

— Até parece que seria diferente. Olha o meu estilo! Pescador que eu não seria. E por falar nisso, soube que você está de casinho com o prostituto do Júlio. Prostituto porque ele era garoto de programa antes de me conhecer.

Puta que pariu. Não havia contado sobre o meu segundo "emprego" antes do tráfico. Jurei para Caio que contaria (mentira, eu nem estava me lembrando), no entanto ele nem me viu nos olhos.

— O casal está brigado?

— Foda-se?!

Senti Vinícius puxar o meu cabelo de repente. Odiava quando alguém mexia nos meus fios loiros que cuidava tanto.

— Melhor entrar naquele barco e ficar pianinho. — Fui empurrado para dentro de um barco pesqueiro. O miliciano foi truculento.

— Deixe-o ir. O que quer com ele?

— Seu namorado é importante também. Vamos para um ilha onde existe um tesouro.

As palavras de Vinícius soaram estranhas. Não havia algo como isso em Porto Maribel. Que eu saiba não.

— Ilha da Pedra do Caranguejo. Esse é o nome da ilha onde existe um tesouro escondido. Pensa que não pesquisei antes?

— Não existe tesouro mais. Os baús foram retirados pelo governo português antes do Dom Pedro I — falou Caio.

— O papo do coronel que esqueceu o tesouro lá? Não mesmo. Falo do naufrágio do navio Santa Clarita em 2010. Uma quantia de 10 milhões de reais afundou junto com o navio; e foi perto da ilha. Você será o nosso guia.

Aquilo me surpreendeu. O merda do Vinícius pisaria na ilha que me trouxe lembranças boas. O local em que pescava com papai e que falei com Caio quando estava verdadeiramente apaixonado. Os pés nojentos do Vinícius pisariam lá.

— Não me olhe com essa cara. Sinto falta daqueles tempos áureos.

— Tempos de merda, né?

— Ui. Que agressividade. Júlio, eu quero ser legal contigo, mas você não ajuda. Então serei a versão vilanesca do Vinícius. Uma que você não conheceu. E a primeira coisa que esse vilão aqui tem pra te dizer é que eu mandei aqueles homens armados para a sua casa no Rio.

— Mentiroso! Você mesmo me ligou para fugir.

— Eu também sou miliciano, idiota. Contratei uns conhecidos para darem uma batida na tua casa porque eu soube que você tinha me roubado uma leva de comprimidos. O fornecedor do Mato Grosso havia caído na sua lábia. Inclusive... eu o matei nesse meio tempo.

— Porra. Isso não explica aquela ligação.

— A ligação foi só para te tirar do apartamento. Senti pena de você. Os milicianos te matariam. Portanto, agradeça a sua vida a mim.

Abaixei a cabeça. Cada palavra daquele desgraçado piorava a situação. Era verdade que estava cheio de comprimidos. Minha ambição me cegou completamente.

— Não faça essa cara. Estamos quase chegando. Quando terminar, pode viver para sempre nesse lugar onde os Judas perdeu as botas.

O barco parou repentinamente. Os milicianos pegaram roupas de mergulho e cilindros de oxigênio. Uns três desceriam até o navio naufragado, enquanto Vinícius e outro cara ficariam na superfície.

— Tome — disse Vinicius para Caio. O verme deu uma roupa de mergulho também para ele.

— Eu?

— Claro. Guiará os meus homens até o naufrágio. Sem brincadeira. Eu te mato sem remorso algum.

Minha raiva por ele aumentou após aquela ameaça. Como podia ameaçar o Caio daquele jeito? Mesmo assim, tava impotente. Esses homens armados me impediam de agir.

...

Vi Caio colocar o cilindro em suas costas e mergulhar para dentro do Oceano Atlântico. A cena me deixou aflito, mas confiei nele. O ruim era que Vinícius manteve a sua indesejável presença atrás de mim igual a um encosto, uma penumbra do mal.

— Por que faz isso? Qual o motivo de ter sequestrado a gente?

— Fiquei muito chocado quando soube que você me roubara lá no Rio. Investi tempo e suor para ser o maior traficante de substâncias hormonais da América do Sul, e de repente um bostinha como você quis me dar um chapéu.

— Julguei que não teria problema pegar os comprimidos de uma maneira extraoficial. Mas você já pegou tudo e até o dinheiro. Deixa a gente em paz.

Ele soltou uma gargalhada verdadeiramente sinistra. Era o narcisismo em pessoa. Negou veementemente libertar a mim e a Caio.

— Quando acabar tudo isso, matarei os dois — Ele pegou a pistola da cintura e apontou para a minha testa. Fiquei parado, mas morrendo de medo por dentro. — Meu ódio não se apagou. Vai acabar quando eu transformá-los em comida de peixe. Acabei de dizer que que poderá morar "para sempre" aqui. Falei de maneira literal.

Engoli a saliva quase seca. Um gosto amargo me veio. Senti que tudo isso era culpa minha. Pela primeira vez abaixei o meu nariz arrebitado. Se eu não tivesse roubado o Vinícius, se eu não tivesse ido ao Rio de Janeiro, se eu não tivesse conhecido o Caio. Meus devaneios pararam com a irrupção do mergulhador no barco. Trazia um mala preta cheia de cracas, revelando o tempo de 11 anos no mar. Vi Caio ainda boiando na água com os outros dois milicianos.

— Abram.

O mergulhador e o outro no barco acataram a ordem de Vinícius e abriram o objeto. Havia muita lama, muita água e papelotes de dinheiro quase estragados. O tempo deixou as notas num estado quase em decomposição. Escutei Vinícius afirmar que havia um jeito para restaurar as notas.

— Só tem 2 milhões aproximadamente. Procurem!!

Eles foram mais uma vez ao fundo do oceano. Senti enjoo com tudo aquilo. Ver o rosto daquele canalha era o pior pesadelo da minha vida. Pensei que morreria velho, feliz e rico. Hoje a minha vida acabaria nesse local, numa situação totalmente adversa. Era para ser um encontro romântico. Passei a noite toda ensaiando um pedido de desculpa a Caio, olhando-me no espelho e decorando falas. Acabou tudo no improviso e no imprevisto.

Um barulho na água me deixou atônito. Talvez ali fosse a conclusão da busca pelo dinheiro e, consequentemente, a nossa morte. Fui até a beira do barco para olhar os mergulhadores, entretanto vi outra coisa. Os corpos dos três boiando!

O barco estava rodeado de mergulhadores com os seus arpões em mãos. Tudo foi muito rápido. O miliciano que fazia companhia para nós foi perfurado e caiu ali mesmo. Vinícius me puxou rapidamente e ameaçou me matar.

— Eu mato esse vagabundo!! Fora do barco — gritou.

Meu pai surgiu com o pai de Caio na água do mar. Eles estavam acompanhados por outros homens, especificamente alguns dos pescadores que vi antes.

De repente, algo empurrou tanto a mim quanto Vinícius. O corpo dela caiu sobre mim; eu bati a cabeça no assoalho do barco. O peso dele estava todo sobre as minhas pernas. Vi Caio puxar a minha mão e me abraçar. Olhei para ele e percebi que havia um pequeno isqueiro metálico em sua mão, contudo era uma arma de choque de bolso. Caio me salvou, eletrocutando o Vinícius na nuca. O pesadelo chegou ao fim.

A polícia chegou com barcos de patrulha. Os mergulhadores, papai e o pai de Caio estavam num barco atracado atrás da ilha.

— Como soube que estávamos aqui? — indaguei a meu pai.

— Um pescador viu a movimentação no píer e me chamou. Bom, eu faço parte do grupo dos Escoteiros do Mar. Somos responsáveis por manter a ordem nessas praias.

Papai falou com tanto orgulho. Nunca imaginei que isso existia.

Por fim, todo mundo voltou a Porto Maribel. Os policiais levaram todos. Os milicianos ainda estavam vivos mesmo perfurados com arpões. Vinícius acordou com um tapa dum PM, entrou por trás da viatura, algemado e olhando para mim como se quisesse me matar. Não tive medo, haja vista toda a minha preocupação era em Caio, que recebia atendimento da sua própria família.

...

Um mês passou. Ainda sou investigado por ter feito parte de uma rede de tráfico de drogas, mas o juiz aceitou a minha delação contra Vinícius. Fiquei aliviado com a decisão da sua prisão preventiva e do fato do Ministério Público solicitar 40 anos de prisão a ele.

Voltei do fórum com a minha família. Na porta de casa estava Caio. A última vez que o vi foi no dia em que ocorreu o nosso sequestro. Pedi aos meus pais para entrarem, Sabrina, porém, fez piadinha comigo.

— Nunca pensei que você acabaria perdoando esse idiota.

— Cala a boca. Desculpe, Caio.

— Hum. "Descupe, Caio". Hahahaha. Mamãe, Papai!! Júlio tá namorando com Caio aqui fora — gritou ela. Sabrina conseguia ser a pessoa mais chata do mundo.

Caio estava sem palavra. Dei a ele todo esse tempo para refletir. Pensei seriamente em desistir dele. O que fiz no passado talvez não tivesse perdão.

— Preciso ouvir seriamente tudo o que você tem para falar sobre isso. Desde o começo.

Convidei Caio para dentro do meu quarto. Sabrina ficou só de deboche e brincadeirinhas, mas não dei atenção. Sentamos em minha cama. A partir daí contei tudo sobre a minha vida desde quando fui para o sudeste para encontrar uma vida melhor até no dia em que regressei ao Maranhão.

— Você roubou ele de verdade?

— Sim. Eu queria ser rico, mano. Roubei muitos daqueles comprimidos. A maioria foi levada no dia que os milicianos invadiram o meu apartamento, mas sobraram alguns. Então resolvi trazê-los para vender aqui. Mas ver o sofrimento daquele ômega me fez mudar de ideia e joguei tudo fora. Juro que desde que pisei aqui, nunca vendi um só comprimido. Acredite em mim.

— Como posso? Você estava fazendo os ômegas sofrerem. Isso foi cruel demais.

O julgamento dele causava nervosismo em minha alma. Senti frio na barriga. Talvez esperando o pior.

— Mas eu te perdoo. Vou acreditar em você. Nunca vendeu mesmo aqui?

— Juro. Tá jurado!! Juro pela alma da Sabrina — e ela que se dane.

O clima ficou romântico outra vez. O ambiente deixou de ser cinzento e voltou a ser rosa. Borboletas voltaram a surgir em meu estômago. Puxei Caio pela gola da camisa e dei um beijo de língua. Ficamos assim por alguns segundos até sair o fôlego.

— Vem cá — Peguei Caio e o puxei para perto da porta. Abri. Papai, mamãe e Sabrina caíram no chão. — Que coisa feia, gente. Não é de bom tom ouvir atrás da porta.

Eles se levantaram e saíram. Fechei a porta e voltei aos beijos com o homem beta da minha vida.

...

Epílogo

6 meses depois...

Vinícius foi condenado a 30 anos de prisão. Seu destino era no cu do mundo lá no meio de Rondônia. Merecido. Era um projeto de Pablo Escobar. Eu fui condenado a 4 anos em regime aberto, proibido de sair de Porto Maribel. A minha delação diminuiu a minha pena. A advogada me parabenizou; minha família agradeceu o trabalho dela.

Voltei para casa. Estava lá Caio e os pescadores. Estavam me chamando para um trabalho. Fiquei receoso, pois não sabia se era permitido ir para o mar. Minha advogada confirmou que podia apenas dentro do território considerado brasileiro. Nada de ir além.

Retirei o paletó e entreguei para mamãe. Passei meu braço ao redor do pescoço do Caio e fomos pescar.

Notas finais
Juro que essa história era para ter sido finalizada 2 anos atrás. Deixei em hiatus. Pelo menos terminei de uma maneira satisfatória, apesar de estar reduzida. Queria ter feito mais detalhes, mas eu havia esquecido muita coisa desse enredo. Provavelmente esse último capítulo excederia as 4 mil palavras, mas acabou com mais de 2 mil. É isso. Obrigado a quem leu.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!