Porto Dos Pássaros.
14 Capítulo 14
Notas iniciais
Acordei com o despertador tocando, hora de ir para a escola. Sai da cama, coloquei o uniforme, tomei meu café da manhã, me despedi do meu baixinho, peguei minha mochila e fui para o inferno de toda a semana.
Cheguei a escola e entrei na sala antes que o sinal tocasse. Quando tocou o professor de matemática entrou na sala, três aulas chatas seguidas, depois um recreio insuportável, e depois duas aulas que eu nem me recordo a matéria.
Depois que o sinal da saída tocou, fui caminhando em direção ao porto, fazia tempo que eu não ia. Encontrei o Frank em uma das ruas que levava ao porto. Era uma rua meio abandonada, meio comercial, tinha uma loja que vendia relógios antigos a um preço bem melhor do que as outras na parte comercial. Na verdade, qualquer loja daquele lugar vende seus produtos mais baratos do que as da área comercial, porque geralmente são lojas abandonadas, no fim da vida, indo a falência, e querem vender os produtos que sobraram.
O caminho para o porto, na verdade, não passava por aquela rua, mas eu podia cortar caminho por trás da loja de relógios. Lá havia um grande quintal capinado, e algumas árvores grandes, o caminho dava direto a rua que ia ao porto.
Entrei naquela rua e encontrei o Frank, ele estava na porta da loja de relógios, talvez comprando, talvez dando algum recado que Elisa pediu para entregar, ou minha mãe. Me aproximei e ele pareceu me ver.
- Hey Gee. — Falou, e me deu um selinho.
- Hey bebê. — Falei. — O que faz aqui?
- Lis pediu para que eu trouxesse esse relógio para cá, ela disse que aqui concerta. — Respondeu, e me mostrou o relógio. — Mas o senhor Jeremy não quer concertar, disse que não faz mais esse tipo de trabalho.
- Onde ele está? — Perguntei.
- Está lá dentro, disse que já voltava. — Respondeu.
Ficamos esperando até que o Jeremy voltasse, mas ele não voltou, na verdade, pediu para que nos entrássemos. Entramos. Era uma loja de paredes alaranjadas, que estavam descascando, os poucos relógios que ali estavam, faziam um tic-tac constante, as prateleiras estavam sujas, e um canto muito, muito empoeirando havia uma foto, era preta e branca, na foto havia um rapaz e uma moça, abraçados, pareciam felizes, a foto parecia ter sido tirada no antigo parque temático da cidade, que se fechou pela falta de estrutura.
Jeremy apareceu, era um velho de oitenta e poucos, magro, com os óculos de lentes um pouco sujas, e suas roupas amassadas. Ele, apesar de ser um antigo morador da cidade, quase não era conhecido, não pelas novas gerações. Mas nossos avôs e avós conheciam ele, era o cara, o cara que concertava relógio, dava vida nova ao tempo. Mas com o tempo ele foi ficando esquecido, ou melhor, a loja dele foi. Enfim. Jeremy se aproximou da gente.
- Acho que posso quebrar esse galho para você, filho. — Falou Jeremy.
- Obrigado senhor. — Falou Frank.
- Sabe? Depois que você fica velho, filho, o tempo já não tem mais sentido para você. — Falou Jeremy. — Eu concerto relógios, mas tenho que me esquecer do tempo.
- Verdade, senhor. — Falou Frank.
- Filho, a situação desse relógio não é das boas, vou demorar um pouco. — Falou Jeremy. — Se importa de vim buscar mais tarde?
- Não senhor. — Respondeu Frank. — Volto ao anoitecer para ver se está pronto.
- Tudo bem. — Falou Jeremy, indo para trás da loja. Jeremy apesar de tudo, apesar de ser só um comerciante, era um bom homem, mas estava esquecido. Pelo jeito dele parecia não receber mais visitas, ou não ter família, ou muitos amigos, parecia solitário.
Saímos da loja e eu pedi para que meu baixinho fosse comigo ao porto, eu estava com saudades de lá. Aquele lugar me inspirava, me dava forças, eu poderia continuar se aquele lugar permanecesse intacto, do jeito que é, do jeito que sempre foi.
Andamos em direção ao porto trocando conversas, beijos, mordidas e xingamentos. Chegamos ao porto e descemos a escadaria que desde aquele tiroteio, tomaria uma cor avermelhada pelo sangue, ou resto de sangue que ali ficavam, nos sentamos no fim dela, estávamos desatentos. Ficamos conversando, até que reparei em uma pequena multidão de pescadores que formavam um circulo, me aproximei para olhar o que era.
- Da licença, da licença. — Falei, empurrando os que ficavam no caminho.
- Licença você. — Falou um dos pescadores.
- Não, licença você. — Falei. Cheguei perto do que o tumulto cercava.
- Você conhece? — Perguntou um dos pescadores.
- Claro, é meu irmão. — Respondi. O que o tumulto tanto cercava era o Mikey, ele estava ferido, com cortes por todo o corpo, e marcas roxas também, ele estava respirando, mas havia um ferimento sangrando, na barriga. — Chamem uma ambulância, por favor, ele está vivo, mas não está bem.
- Chamarei. — Falou um dos pescadores. Ele tirou do bolso um celular meio velho e discou o numero da emergência para vim buscar o Mikey.
- Gee... — Chamou Frank. Se aproximou de mim e viu o Mikey. — Ele está bem?
- Não. — Respondi. — Ele está ferido Frank, e não para de sangrar.
- Vou em casa, eu preciso avisar a Lis e os outros. — Falou Frank. — Volto logo, prometo.
- Tudo bem. — Falei. Frank saiu correndo do porto em direção a casa.
Alguns minutos se passaram até que a ambulância chegou. Os pescadores levaram o Mikey até a ambulância, já que tinha aquela escadaria, que naquele momento, pareceu enorme.
Fui com ele na ambulância para o hospital. Cheguei lá e encontrei Frank com os outros, enquanto a emergência atendia o Mikey. Alguns minutos se passaram e um doutor apareceu.
- Olá, vocês são a família do pequeno Michael? — Perguntou o doutor.
- Sim. — Respondeu minha mãe.
- Pelo que parece do ferimento, o pequeno Michael levou uma facada na barriga, mas se isso é verdade ou não terão que confirmar com a delegacia, não comigo. Enfim, o Michael perdeu muito sangue, não só dessa facada, mas também dos outros cortes que ele tem pelo corpo, e ele terá que ser operado. — Falou o doutor. — O recado está dado.
- Doutor... Doutor. — Chamou Elisa. — A operação é de risco?
- Toda operação tem seu risco. — Falou o doutor.
O doutor se retirou da sala de espera para a sala de operação. Me abracei ao Frank enquanto minha mãe se abraçava a Elisa, Louis estava de pé, apreensivo. A gente só queria que tudo desse certo.
A operação não era de tanto risco assim, mas era perigosa, e demorada. Ele estava perdendo muito sangue, e já havia perdido muito antes, ele com certeza iria precisar de bolsas e bolsas de sangue. Mas estávamos pensando positivo.
Vimos o corpo anestesiado do Mikey indo em direção à sala. Logo apareceu uma enfermeira avisando que a operação havia começado. O pequeno Mikey havia entrado em uma operação que poderia salvar a vida dele.
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