Notas iniciais
Essa história no inicio não era para ser postada, mas resolvi posta-la.
Estava quase perfeito. Quase

O mar, as nuvens... O rosto dela. Os olhos, sempre tão trabalhosos, não haviam causado problema. Nem os cachos dourados, nem o brilho da pele. O que estava errado, a única coisa errada, era o sorriso. Parecia tão tímido. Ela não era tímida, ou melhor, ela não estava tímida.

Era quase meia noite quando o sorriso surgiu no papel. A modelo estava cansada. O artista estava cansado. Mas o retrato estava pronto e perfeito.

A menina não era bonita, mas também não era feia. Excepcionalmente normal. O menino tinha feições gentis e olhos vibrantes. Ele era bonito. Entretanto, aos próprios olhos, ele era tão agradável quanto colírio para ouvidos, enquanto ela era possuidora de uma beleza extraordinária.

— Tem certeza de que não quer passar a noite? perguntou mais uma vez, após entregar o desenho nas mãos dela É perigoso lá fora Ela devolveu o desenho, que ele pôs no bolso da calça.

— Está cansado de saber que moro do outro lado da rua. O que poderia acontecer em três metros de caminhada?

— Poderia machucar os pés!

— E isso mudaria se eu esperasse até amanhã? Retrucou Helena, lançando mais um de seus olhares. Olhares que só ela tinha Novamente, agradeço a sua oferta, senhor disse subindo as escadas mas tenho que recusar.

— Por quê? Ele subira as escadas em um salto e segurara o braço da garota, mantendo-a na proa.

— Meus pais acham que estou em casa! Tenho que voltar logo. Sussurrou, puxando o braço de volta Quando nos veremos de novo?

— Não sei Respondeu ele.

— Arthur! advertiu a garota Diga-me logo para que eu possa voltar para a casa, quando estará novamente em Paraty?

— Responderei sua pergunta amanhã depois da missa, na porta.

— Estarei lá.

Com um último sorriso e uma troca de olhares eles se despediram, e Arthur voltou para seu barco, à tempo de ouvi-la atravessar cuidadosamente a rua, prestando muita atenção onde pisava, pois a maré alta inundara a rua durante a noite. Ela havia chegado em casa.

Agora Arthur poderia dormir, e pensar no que dizer a ela pela manhã.

O sol estava quase no topo quando ele acordou. A missa terminaria meio-dia, e ela estaria no porto, esperando. Era uma manhã bonita: O mar fazia o barco balançar, o sol entrava pela janela de vidro, iluminando todo o cômodo (que servia de quarto, sala e cozinha). Tudo estava perfeito.

Com um sorriso no rosto, Arthur levantou-se e subiu as escadas, até a proa. A primeira paisagem que avistou foi o mar e o sol. Sentiu o vento salgado batendo em seu rosto, balançando seus cabelos...

Tenho tudo que preciso bem aqui pensou enquanto virava-se, para ver a cidade. Mas tudo que viu foi água: A mesma paisagem a bombordo e a estibordo. Não havia cidade, as pedras haviam sumido, não havia nuvens no céu, não havia vento e a bússola não para de girar.

Era mais do que clara a explicação: O barco se soltara durante a noite. Não, alguém soltara o barco! Tudo que Arthur podia fazer era esperar. Quando a noite chegasse, ele olharia as estrelas e saberia onde está... Quanto à Helena, bom, ela teria de entender. Ela iria ficar decepcionada. Iria chorar durante a noite, e, no dia seguinte se sentiria melhor. Iria odiar Arthur. Porém quando ele voltasse, ela o escutaria, mesmo que contra sua vontade. E se arrependeria por tê-lo adiado. E eles viveriam felizes para sempre Era nisso que Arthur acreditava. Ele precisava acreditar.

A noite tardou a chegar. Era como se o sol tivesse resolvido se pôr mais tarde naquele dia, mas, finalmente, o crepúsculo acabava, e os primeiros traços da noite surgiam. Era hora de levantar-se, e olhar para o céu.

Era verão. A noite deveria estar quente. O céu deveria estar estrelado. Deveria.

O céu estava liso. Não havia lua nem estrelas. Um sentimento de solidão e desolação abateu Arthur: Onde ele poderia estar? Como sairia dali?

Seu estado era de mais pura negação. Ele não aceitava o que acontecia. Ele não queria. Ele não podia.

A noite demorou. Arthur não tirou os olhos do céu nem por um segundo: E se elas aparecessem? As estrelas. Ele teria uma chance! Mas elas não apareceram. Porque não estavam ali. O sol voltou, e Arthur foi dormir exausto. Não havia nada que pudesse fazer, em algumas semanas, ele estaria morto.

No décimo terceiro dia, houve uma mudança, algo diferente no céu. Qual era mesmo o nome daquela coisa branca? Ah, sim, uma nuvem. Lá estava ela, movendo-se lentamente, junto com o vento! O vento! As ondas... E uma gaivota! Como era linda, essa gaivota!

Sim, ele havia voltado do seu exílio. Ele descobriria onde estava e voltaria para Helena.

Renovado pela esperança de rever sua amada, Arthur começou a trabalhar. Com o vento a seu favor, ao alvorecer do dia seguinte, terras haviam sido avistadas. Ele poderia pedir informações, comprar munição e voltar a Paraty. Pedir desculpas à Helena, e dizer que a amava, pois percebera que nunca haviam dito isso.

Não demorou a chegada à terra que avistara. A principio, o local parecia normal. O êxtase de rever a sociedade pessoas em geral fez com que Arthur esquecesse os dias que passara no mar. Ele não comia a alguns dias. Estava faminto. Não havia ninguém na praia. Estava frio. Ótimo — pensou ele Estou perdido. De novo.

Pulou do barco e, na praia, começou a montar acampamento. No dia seguinte, ele exploraria a ilha, e descobriria se havia ou não sociedade ali. Arthur fez uma fogueira, e uma cabana com folhas de árvores, e galhos fáceis de arrancar.

Estava anoitecendo, e Arthur estava cansado. Ele havia comido goiabas, bananas e umas acerolas, estava satisfeito. Agora só o que podia fazer era dormir, esperando que nenhum animal o encontrasse.

Arthur acordou na sombra. Havia fogo por perto como todas as manhãs, ele esperava acordar em seu barco, perto do porto de Paraty. É claro que isso não aconteceu. Ele estava numa casa... Algo estava errado... Ele não deveria estar ali. Dormira na praia!

— Onde estou? Perguntou, levantando-se. Suas roupas ainda estava sujas de areia.

Uma mulher surgiu na única porta do cômodo. Ela usava um vestido com muitas anáguas, e uma capa cinza. Tinha olhos negros e os cabelos escondidos pelo capuz cinzento.

— Quem é você? perguntou Arthur, se afastando da mulher devagar.

— Eu me chamo Kyinan, estranho. Você foi encontrado na praia. Como chegou aqui?

— Meu barco, ele se perdeu. Eu cheguei aqui... Vim em paz, não se preocupe. a mulher deu uma risada desdenhosa, o que irritou um pouco Arthur O que é tão engraçado? perguntou.

— Nada respondeu Só me intriga a confiança dos homens. Como se um mugal pudesse machucar-me.

— Um o que?

— Mugal. Ser não dotado de magia. Você. Aliás, um intruso. Preciso saber como chegou aqui, e tenho permissão para te torturar. Recomendo que responda por bem.

— Responder algo que eu não sei?

— Não se faça de estúpido. Como abriu um portal? Quem abriu o portal para você?

— Eu já disse que não abri!

— Alguém tem que ter aberto! Ela estava se irritando. Arthur não acreditava no que via. Nem no que sentia.

Enquanto todo o corpo dele ficava dormente e pesado, os olhos da garota assumiam um tom ameaçadoramente vermelho.

Arthur começou a flutuar e a girar.

— Agora disse Kyinan, com tom sério eu vou te ensinar física básica. Você sabe o que acontece quando um corpo gira em torno de um eixo, que de repente desaparece.

Arthur não respondeu. Ele estava girando muito rápido, e seu corpo estava muito pesado. Era inevitável. Ele morreria.

— Tudo bem disse Kyinan eu mostro o que acontece.

Com um leve movimento de mãos, Kyinan fez com que o corpo de Arthur perdesse o eixo, e batesse diretamente na parede.

— A força centrifuga joga o corpo para longe disse ela Eu posso fazer isso o dia todo. A escola é sua.

— Eu. Não. Sei. respondeu ele ofegante.

Um pedaço de papel dobrado caiu do bolso de Arthur e chamou a atenção de Kyinan. Ela andou até ele e pegou o papel. Era o desenho de Helena. Arthur o havia posto no bolso... De alguma forma, esse desenho simbolizou a esperança para ele. Arthur tinha que voltar... Por Helena.

Kyinan abriu o papel, e encarou o retrato por alguns segundos. Seu rosto se retorceu.

— Quem fez isso perguntou, nervosa.

— Eu fiz, e é meu disse Arthur Devolva!

— Essa é a princesa Karina!

— Não!

— Como você a viu? Quem te permitiu? É proibido olhar para a princesa!

— Eu não... Começou Arthur, que foi imobilizado em seguida.

— Você está preso. Será executado amanhã. Não tem direito de julgamento, você cometeu um filme contra a caroá!

Antes que Arthur pudesse pensar direito, ele estava sendo trancado numa cela apertada, com cheiro de mofo.

Isso não pode estar acontecendo pensava ele enquanto procurava uma maneira de sair dali. Tinha que sair. Helena estava esperando... Parecia que tudo tinha acontecido a tanto tempo... O rosto dela era agora um vulto. A última memória que ele tinha havia sido roubada.

No meio da madrugada, uma sombra se moveu no fundo do corredor. Ela aumentava, na direção de Arthur. A esse ponto, o jovem estava acabado, mental e fisicamente.

— Jovem disse uma voz conhecida Levante-se

Arthur não se mexeu. Ele não acreditava que ela estava ali. Não, Helena.

— Levante-se ordenou mais uma vez Sou a princesa, você tem que me obedecer!

— Então é você! respondeu Arthur energicamente Eu estou aqui por sua culpa!

— Desculpe-me disse ela baixando a cabeça Tenho feito coisas assim desde que nasci. Helena, sua amiga é minha irmã gêmea. Quando éramos crianças, nós acidentalmente abrimos um portal, que a mandou para longe.

A culpa na voz da princesa era visível.

— Todos acham que ela está morta, mas eu sei que não. Sempre que ela sente algo forte, eu sinto também. Ela sentiu algo por você naquela noite no barco, e eu senti. Logo, abri o portal por perto, mas minha magia não funciona direito sem ela, então você veio.

— Você pode me tirar daqui?

— Não. Sem Helena, minha magia é incompleta. Por isso eu a chamei. Ela estava esperando você no porto. Depois de três domingos.

— Ela está aqui?

— Sim. Por favor, entre.

A garota saiu de uma das sombras do corredor, onde esperava. Estava usando seu melhor vestido de domingos.

— Helena!

— Arthur! os olhos dela encheram-se de lágrimas, de felicidade.

Eles se encararam, como se não acreditassem que estavam juntos novamente.

— Desculpe-me disse Arthur.

— Tudo bem, Karina me explicou tudo... Agora vamos tirar você daqui!

— Não tão cedo, mocinhas! o rei, gordo e com uma coroa enorme na cabeça, estava parado no corredor com todos os guardas.

— Papai! Este homem é inocente! Gritou Karina que foi ignorada.

— Coloquem as meninas em seus respectivos quartos disse o rei Uma em cada lado do castelo! Agora!

— Sim, senhor, vossa Alteza Respondeu um dos guardas.

As princesas foram separadas à força, e Arthur perdeu as esperanças. Ele morreria.

O sou demorou para alcançar o topo naquele dia, Arthur queria que tudo fosse mentira. Queria acordar em seu barco e buscar Helena no porto. Pelo menos ficaria viva. E seria feliz com sua irmã.

Lá estava ele no meio de uma praça pública, com uma corda no pescoço. Prestes a morrer. Ele pensou em Helena enquanto sentia a madeira ceder dobre seus pés. Talvez ele a encontrasse no paraíso. Se ele fosse para lá.

O que aconteceu a seguir foi tão rápido que Arthur mal percebeu. As gêmeas entraram na praça,e juntas, afastaram o rei. Por que ele não estava morto? A corda ainda estava em seu pescoço. Pendurada. Cortada.

— Venha, Arthur! disse Karina, puxando o braço dele.

— Nós nos soltamos explicou Helena.

— Graças a velocidade de Helena disse Karina

— Graças a inteligência de Karina.

— Bom nós abrimos um portal disse Karina para que vocês possam voltar para a casa.

— Mas e vocês duas? começou Arthur Não podem se separar!

— Devemos fazer isso. Meu lugar é em Paraty.

— E o meu é aqui.

— Vai ser melhor assim.

— E você vem me visitar disse Karina para Helena.

— Pelo menos uma vez por semana.

Juntos, Helena e Arthur voltaram à Paraty, e continuaram sua vida normalmente, com visitas semanais à Conan, onde Karina passou a reinar.

Notas finais
Meus colegas de turma gostaram.
Espero que gostem.
Review não mata ninguém e me deixa feliz.
Obrigado por ler e beijos.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!