Porta dos pesadelos
1 Pesadelos
Notas iniciais
Eu estava novamente sozinha em meio aquela escuridão, lembro-me de ouvir barulhos, mas não parei de correr, apenas queria fugir. Lembro-me de ver a dama de vermelho parada em meio à mata, apenas observando-me; seu cabelo negro como a própria escuridão voava perfeitamente com o vento. Ela parecia calma e fria.
Eu continuava correndo em meio às sombras sem olhar para trás, todavia aquela sensação de medo continuava, escutei a dama falando em meio aos sussurros dos meus pensamentos, não me recordo o que foi falado, mas sei que fechei os olhos e desejei chegar há algum lugar.
Algum lugar aonde eu pudesse sentar-me e descansar, não me lembro de como fui parar em meio a tanta desgraça e confusão, não recordo como fui deixar-me levar pelo medo, não sei o que eu deveria fazer. Apenas escutei os meus próprios batimentos cardíacos e minha ofegante respiração, e me concentrei em fugir.
Novamente abri meu olhos e notei a dama na minha frente, sua expressão gélida agora estampava um sorriso macabro, não escutei a voz, entretanto entendi o que ela havia falado: “Você precisará descansar em breve.”
Senti meu corpo pesar, e meu coração acelerou, por mais que eu corresse, eu não saia do lugar e senti a dor da fadiga.
A Dama foi em minha direção, em passos calmos, os barulhos que estavam até agora me perseguindo, agora cessavam, e a única quebra do silêncio era os passos da própria Dama e minha respiração.
Foi quando consegui abrir meus olhos e acordar de mais um dos meus pesadelos
. Levantei minha cabeça para ver o relógio, esfreguei meus olhos e tentei colocar os pensamentos no lugar e esquecer o pesadelo.
Levantei-me da cama, por mais que eu tivesse dormido, eu estava exausta. Eu sabia que nada tinha sido real, mas mesmo assim aquele sorriso penetrava nos meus pensamentos.
Em geral, costumava ter pesadelos e ficar apreensiva, mas já era o terceiro com a mulher de vermelho, na qual eu apelidei de Dama de Vermelho, e era sempre a mesma coisa, ela não parecia ser amigável e eu precisava de ajuda.
Coloquei uma blusa azul, uma calça jeans rasgada e um casaquinho, escovei meus cabelos loiros ondulados e comecei a me maquiar.
O pesadelo, aos poucos, foi dando lugar ao fato de que era o último dia do terceiro ano e depois de hoje eu só voltaria a estudar somente na faculdade de direito de Small Villey, uma cidadezinha universitária.
Assim que fiquei pronta, peguei minha bolsa e esperei minha amiga Nicolle. Eu tinha medo de dirigir sozinha, embora já possuísse um carro e a carteira de motorista, Nicki, por outro lado, gostava de dirigir sozinha ou acompanhada, ou seja, eu pegava carona com a mesma.
— Amiga, você ta horrível. – comentou Nicki.
— Eu sei, não consegui dormir bem a noite passada. – respondi apreensiva.
Enquanto conversávamos sobre festas, faculdade, escola, amigos e mais algumas coisas reparei uma estranha sensação de estar sendo observada, todavia, ignorei esse fato e continuei a conversa, afinal era mais interessante conversar do que ficar tentando entender as sensações que meu cérebro costumava me fazer sentir.
Chegamos à escola e o clima de férias rodeava-nos, alegria e energia contagiavam a todos. Na sala de aula, os professores dando as notas dos exames da faculdade de Sun Villey, nossa humilde cidade, e os alunos despedindo-se de seus amigos.
A aula passou rapidamente e logo fomos para casa, havia muitas festas de final de ano, porém no dia seguinte eu teria que acordar cedo para ir ao aeroporto, portanto, para mim, nada de festas.
Cheguei a minha casa, comecei arrumar as minhas malas, minha cabeça já estava lotada de informações sobre o novo aluguel, nova cidade e até sobre o que eu deveria levar ou não da minha casa atual.
Quando percebi minhas malas já estavam completamente cheias antes do previsto, decidi então entrar na internet, dizem que todos os sonhos têm um significado, portanto eu tinha que descobrir o que era a Dama de Vermelho, entretanto, não havia significado para isso.
Desliguei o computador, quase sem respostas para os meus sonhos, foi assim que me conformei que não se passava de um mero pesadelo, provavelmente foi alguém que eu vi vestida assim e meu cérebro criou toda uma situação em cima de uma provável desconhecida. Mesmo conformada com a situação, àquela sensação de medo do meu sonho permanecia em mim.
O tempo voava enquanto eu me perdia em meio a tantos pensamentos, quando vi já estava escurecendo e eu ainda nem tinha ido visitar meus pais; afinal eu iria me mudar, precisava me despedir deles.
A casa de meus pais era apenas duas quadras de distancia da minha, geralmente pego ônibus, mas como meus pais, provavelmente, já estavam em casa, fui a pé. No meio do caminho fui observando o movimento e o entardecer, Sun Villey é uma cidade rodeada por montanhas, então costuma ter um pôr-do-sol espetacular; cheguei a casa de meus pais e fui convidada para jantar, aceitei, já que teria que jantar de todas as formas.
— Meu anjo, para que cidade você vai mesmo? – perguntou minha mãe enquanto cozinhava.
— Small Villey. Vou cursar direito. – respondi aprontando a mesa.
— Small Villey é uma cidade linda para universitários, estudei lá quando criança. Têm bibliotecas gigantescas, além de um sistema de ônibus integrados a escola, é fantástica. – respondeu ela.
— Sim, a cidade não é muito grande, mas é cheia de universitários, por ter a quinta melhor universidade de medicina do país.
— Enfim, você vai se divertir muito, mas você sabe, deve se cuidar.
— Estou ansiosa, na verdade. É a primeira vez que viajo sozinha.
— E a Nicolle irá para Small Villey?
— Não, ela vai pra Oxford.
Logo o jantar foi servido, todos conversavam inclusive meu irmão. Taylor era mais novo que eu, recém tinha completado quinze anos, ele ainda não se preocupava tanto com o fato de precisar se focar em estudos, suas médias eram baixas, portanto, uma faculdade renomada não o aceitaria facilmente.
— Então Ammy, você vai ir morar em outra cidade, não está apreensiva? – perguntou meu irmão Taylor.
— Não, conforme você cria responsabilidade, esse sentimento de apreensão costuma ser superado. – expliquei.
— Tem muita festa lá? – perguntou ele.
— O suficiente para não perdermos o foco nos estudos, a cidade ganha para ser nomeada a mais focada cidade universitária.
— Ou seja, sem festas?
— Com festas, mas poucas e com curto tempo de duração, existem leis que proíbem que as festas se estendam.
Acabamos o jantar e eu voltei para casa, o caminho estava escuro, e me lembrou do sonho, senti uma pontada de medo enquanto apressava meus passos ao longo do percurso, aos poucos, enxerguei minha casa e aquela sensação horrível de medo foi se dissipando, cheguei à porta e a destranquei.
Subi as escadas até meu quarto e comecei a separar a roupa que iria usar amanhã, separei meus documentos, malas, tudo estava em perfeita ordem. Fui dormir cedo nessa noite, já que a viagem iria ser cansativa.
De repente me vi no aeroporto, fui caminhando em meio à multidão quando encontrei outra garota, não me lembro de detalhes muito específicos, mas lembro-me que por alguma razão ela parecia desesperada, a garota de cabelos pretos, curtos e olhos verdes, levava consigo uma pasta azul. Lembro-me de ver a foto da Dama, em meio há vários documentos. Recordo de sentir uma agonia ao ver aquela foto, e logo quis ver o que era aqueles documentos, mas as letras estavam embaralhadas, não conseguia ler.
A garota aos poucos foi se acalmando e eu fui me amedrontando, eu queria perguntar quem era a Dama e como ela a conhecia. A sensação de medo tomou conta do meu corpo, deixei cair todos os meus documentos da faculdade e não conseguia parar de pensar em como a garota conhecia aquela personagem dos meus pesadelos.
Nesse momento, fui acordada pelo despertador, notei que tinha sido mais um sonho, e que provavelmente era o estresse da viagem. Levantei-me da cama e apressadamente me arrumei.
Peguei meu carro e o levei para uma exportadora de carros, aquela empresa que leva seu carro para outro lugar enquanto você viaja para o mesmo, logo depois fui ao aeroporto.
Fui para a área de check-in, e fiquei na fila, enquanto isso eu ficava imaginando o que significava aqueles sonhos, talvez eu estivesse ficando louca ou algo do tipo. Logo fui chamada e despachei minha bagagem, fui para a sala de embarque e fiquei esperando.
Havia muitas pessoas naquela sala, imaginei se alguma delas tinha o mesmo problema que eu, os pesadelos.
Logo, entramos no avião e eu coloquei um filme para assistir durante a viagem, tudo andava em perfeita harmonia quando reparei em uma voz que reconheci:
— Por favor, será que pode me informar, existe algum departamento de arquivos em Small Villey?
— Sim, mas para entrar no local você precisa informar os motivos, e uma atendente irá pegar os arquivos para você.
— Claro, é que eu estou cursando medicina, queria pesquisar sobre uma medica local, nada anormal.
— Espero ter ajudado.
— Ajudou.
Não sei explicar de onde eu conhecia a voz, mas eu apenas conhecia. O vôo foi longo o suficiente para ver meu filme, analisar as contas do aluguel, água, luz e ainda escrever meu primeiro relatório sobre as férias para a faculdade.
Quando pensei que, finalmente, que poderia dormir, o piloto anunciou a chegada ao destino, temperatura, horário e mais algumas informações e então pousamos.
Eu estava no check-out quando vi uma garota desesperada correndo em meio a multidão, ela perguntava a todos se tinham visto sua identidade, até que esbarrou em mim derrubando sua pasta azul.
— Me perdoe pela confusão eu perdi minha identidade... – explicou ela.
— Não foi... – interrompi analisando a situação, a garota era idêntica ao meu sonho, além disso, a pasta também, e a voz era a mesma do avião, resolvi então achar a identidade dela, talvez assim tivesse mais informações.
Comecei a observar o local e reparei em algo caído próximo a área de desembarque, deixei minhas malas na fila e fui pegar. Na identidade que eu supus ser dela anunciava o nome da garota. Entreguei novamente a identidade e perguntei:
— Bianka? Esse é seu nome?
— Sim. E o seu é... –falou ela esperando a resposta.
— Ammy.
— Veio estudar em Small Villey?
— Direito, e você deve estudar medicina.
— Como sabe?
— Intuição... –respondi rindo.
Eu desejava ver se a pasta continha as coisas sobre a Dama, mas esperava um momento melhor para perguntar. Logo fui atendida e retirei minhas malas, Bianka também.
— Bianka, está indo para onde?
— Zona leste, próximo a um shopping.
— Vai se hospedar na casa universitária?
— Sim, você não?
— Aluguei uma casa ao lado da casa universitária, estava mais em conta.
— Chamei um táxi agora, quer dividir? –perguntou a garota.
Concordei e ficamos esperando o táxi, obviamente eu estava sendo simpática, para convencê-la que sou boa pessoa, talvez conseguisse ver a pasta. O táxi chegou e entramos, Bianka falava sobre como era frustrante morar com os pais e discutíamos sobre possíveis planos do governo para a sociedade. Foi quando falei:
— Conhece a Dama de Vermelho?
Naquele momento a expressão da garota mudou, ela ficou pálida e parecia assustada, ela ficou olhando para mim e pensando em alguma resposta, ela desviou o olhar para a janela e depois voltou a olhar para mim.
— Como você sabe quem ela é?
— Não sei. Apenas achei que pudesse saber de algo.
— Você... Já falou com ela?
— Apenas a vi em alguns sonhos, você sabe algo sobre ela?
Ela olhou para a pasta na qual carregava e entregou para mim, abri aquela pasta e meu coração acelerou, eram muitas páginas com pessoas, fotos, nomes, lugares, idades, paradeiros, era difícil imaginar uma estudante de medicina envolvida com uma pasta assim, era quase impossível entender o que cada coisa era. Logo guardei e devolvi a pasta sem muitas informações.
— Quando chegarmos vamos para sua casa, explico tudo para você. – falou Bianka.
Assenti com a cabeça e logo chegamos ao destino, pegamos as malas e fomos em direção a casa, abri a porta e deixamos as coisas no hall, nos dirigindo para algum sofá próximo.
— Eu tinha apenas cinco anos e meu irmão foi levado pela Dama de Vermelho. Eu passei minha vida buscando o paradeiro dela, por isso estou aqui, quero encontrar meu irmão. E como você soube que eu tinha informações sobre ela?
— Ultimamente tenho tido pesadelos com a Dama, então ontem a noite sonhei com você, sonhei com sua pasta, o mais estranho é que meu sonho se realizou.
— Coincidência?
— Talvez.
— Pode me acompanhar até em casa? Tenho trauma de florestas.
— Claro. –respondi.
Sai de casa, e Bianka foi me guiando, tínhamos que passar por uma trilha no meio do mato, para ir até o dormitório em que ela tinha alugado na casa universitária, por fim, deixei-a lá e tomei a direção para volta. Naquele momento, reparei o caminho no qual passará, era semelhante ao meu ambiente do pesadelo, inclusive os sons, a escuridão penetrante e aquele ar pesado de agonia.
Acelerei meus passos e quando percebi estava correndo, não sabia pelo qual motivo eu estava assustada, se era o fato de estar parecendo meu pesadelo, só que dessa vez eu sabia que não era um sonho ou se era o fato das sombras criarem ilusões que me deixavam apreensiva sobre se a Dama realmente iria aparecer.
Foi quando notei que havia dois caminhos, no meu pesadelo eu havia apenas corrido para frente, então decidi pegar o outro caminho, fui andando dessa vez por mais assustada que tivesse o sonho não aconteceria se os fatores mudassem.
Além de estar fazendo o oposto do que eu queria peguei meu celular para iluminar a pálida noite, e comecei a cantarolar músicas para não prestar atenção no ambiente.
Por estranho que pareça eu estava certa que os sonhos com a Dama de vermelho na verdade eram premunições, depois da garota, e do ambiente, para mim já era prova o suficiente.
Cheguei à casa ofegante, quase sem ar. Abri a porta e liguei todas as luzes, eu havia decidido não sonhar mais, entretanto o cansaço me atingiu e acabei apagando.
Eu estava novamente naquela floresta, lembro-me de estar caída no chão, lembro-me da dor e de estar gritando por ajuda. Até que a Dama apareceu, poucos metros de distancia, sua expressão clássica sem humor modificava-se para uma expressão doentia, como loucura. Ela mostrou uma faca em sua mão. Aproximou-se, eu não conseguia me mover, nem ao menos tentar me levantar. Recordo de apenas sentir uma pontada em minhas costas e tudo ficar negro.
Acordei novamente, desesperada. Não podia deixar ela me matar, e não iria. Eu precisava encontrar essa Dama de Vermelho e acabar com isso de uma vez por todas.
E agora eu tinha informações, eu podia ajudar Bianka a encontrar a mesma, e acabaríamos com tudo.
Eu não quero dormir, mas em algum momento terei que descansar.
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