“Já tomou café?” China perguntou, sem olhar para Miles.

A garota estava na sala de jogos, ao lado de Alwyn, enquanto os dois estava focados no jogo à sua frente. Miles não sabia reconhecer que jogo era aquele, muitas vezes, os engenheiros da árvore davam um jeito pra “comprar” uns jogos de lá de fora. Nisso, o ármario de jogos estava sempre cheio.

China, que se encontrava sentada num sofá velho, estava ainda com seu pijama de elefantes, e com o cabelo amassado. Ela tinha uma mania de fazer pouco de roupas apresentáveis aos outros. Na maior parte do dia, ela ficava de pijama.

“Eu acho que eu que devia lhe perguntar isso, mocinha.” Disse Miles, ficando em uma postura reta, fuzilando a pequena asiática. Bastou apenas uma sobrancha erguida de uma garota de 12 anos, que o garoto desistiu de bancar o paizão. “Sim, acabei de tomar meu café com Pandora e Aella.”

A resposta pareceu satisfazer a garota, que deu um sorriso, ainda focando-se no jogo.

Miles então se direcionou à Alek, que ‘consertava’ a mesa de tênis. Alek, sendo filho de Hefesto, estava sempre adicionando e mudando coisas simples, para um pouco não-tão-simples. Apesar de que, ele era um garoto legal. Quando você entendia o que ele falava.

“China, pega leve, caralho!” Alwyn gritou, fazendo poses e exageradas expressões de raiva e indignação para China e a televisão. Estava claramente perdendo, e não parecia muito feliz com isso.

“Eu ‘tô no modo fácil, cabeça grande.” Murmurou, calma, com um pequeno tom de tédio.

Um dos problemas de China é que ela é super inteligente. Você pode vence-la em qualquer conhecimento geral do mundo – mas em lógica, raciocínio e dormir? Impossivel.

“Você deve ter usado trapaça!” O loiro disse, cruzando os braços. “É impossível você ganhar sempre!”

“Sim. Mas é bem mais possível ‘cê perder sempre.”

A resposta foi boa suficiente pra fazer o ‘zumbizinho’ rosnar para a asiática, enquanto se afastava. China, por sua vez, só lhe ofereceu seu dedo mindinho. A garota sempre tinha seus próprios palavrões improvisados.

“Sabe, você deveria pegar leve com Alwyn.” Miles disse, sentando no sofá velho, no lugar que o garoto raivoso estava. “Sabe como é dificíl pra ele de se adaptar!”

A garota deu uma risada abafada, mantendo o olhar na tela, enquanto mudava o jogo para “jogador único”.

“Você só diz isso ‘quê se gostam.”

Miles, por sua vez, ficou vermelho. Fitou China com um olhar reprovador, e lançou um olhar assustado para Alwyn, com medo de que o menor ouvira aquela… besteira. Alwyn e Miles eram, sim, bem próximos. Mas numa relação estritamente NÃO romantica. O mais velho gostava do loiro como gostava de chá.

Miles não gostava de chá.

“Não é verdade!” Sussurrou, quase gritando. “E ele só tem 15 anos, pelo amor dos deuses!”

“Que os deuses tem com isso, homem?” Resmungou, parecendo uma criança mimada. “Idade pra que, se ‘cês dois já ‘tão com o pé na cova?”

Contorcendo o nariz, resolveu não falar mais do assunto. China não admitia, mas sempre ficava irritada quando se falava de idade. Os três eram tipo o “Squad dos pé na cova”, sempre com medo de que seu corpo e alma não se curem. Sempre com medo de que não fossem continuar.

Miles mal fez 21, quando o circo de sua família tinha pegado fogo, e quase morreu queimado, tentando salvar a irmã, a trágedia até hoje lhe trazendo queimaduras. E Alwyn estava quase fazendo 16, quando seu carro bateu em outro.

Ele sabia que a diferença de idade era grande, e sabia ainda mais que Miles não podia prende-lo. Ele ainda tinha muito a fazer, caso… Caso não conseguisse se curar.

Assim como China sabia disso. Sabia que Alwyn mal tinha qualquer chance. Mas, ela parecia ignorar. Ela nunca chegaria a adolescência, então para pedir à ela pensar sobre isso, era, no mínimo, cruel.

A menor nunca compartilhou o que a fez ficar assim. A única coisa que Miles sabia, era que China era da Coreia Do Norte, tinha um medo imenso do mar, e era filha de Poseidon.

Ninguém nunca lhe pediu mais detalhes, e nem os curandeiros da Árvore sabiam mais que ela era filha do deus dos mares.

“Sabe, você não devia hesitar tanto.” Ela disse, focando no jogo. “Não é como se você só morresse uma vez.”

Miles olhou para ela, que se mantia focada no jogo, como se as palavras tivessem lhe saído dos pensamentos, e chegado aos ouvidos do mais velho.

“Sério, você já ‘tá morto.” China disse, agora olhando nos olhos dele. “Viva mais um pouco, ok?”

Os dois trocaram um longo olhar silencioso, que foi cortado por China, se focando no jogo, e xingando baixinho por ter ficado em segundo lugar.

Miles suspirou, se afundando no sofá, com os pensamentos flutuando na cabeça vazia.

•••

Metade do dia se passara, e Alwyn não conseguia acalmar seu coração.

Ficar perto de Miles lhe bagunçava, e o loiro não sabia se gostava daquilo. Ele já aprendera como se comportar: agir como se não ligasse, como se nem tivesse visto que o mais velho estivesse ali.

Mas ele ligava. Só faltava o menor gritar que nem um telefone celular.

Ele notava. Cada célula do seu corpo atenta à sensação de que Miles lhe causava.

E a única coisa que o garoto se perguntava, era o motivo disso. Passava horas anestesiado pelo efeito dele, e passava mais tempo ainda, tentando se acalmar. Tentando não buscar por mais, tentando não pensar.

“Ele não gosta de ti desse jeito.” Alwyn murmurou pra si mesmo, entrando na casa que dividia com China, Alek e Dylan. “Para! Para! Para!” Murmurava, desesperado, enquanto se escondia em seu banheiro.

Finalmente, começou a chorar.

Sua vida lhe passou pela frente, como já era de costume. A dor em seu braço direito aumentando, e não sabia até que ponto era permitido sair água de seus olhos, até ser considerado um mar.

“Lulu?” Uma voz feminina lhe chamou. Se assustou, reconhecendo-a logo. “Eu vou entrar, ok?”

Ele não respondeu, só se encolheu em posição fetal, escondendo o rosto nos joelhos.

Mesmo assim, a garota entrou, se sentando logo ao lado de Alwyn, deixando-o deitar a cabeça no ombro dela.

Ela era uma das pessoas que mais apoiávam o garoto. Quando se conheceram, ele não gostou muito dela, para falar a verdade — a achou mandona, mimada, e chata. Apesar de ser tudo isso, ela na verdade realmente se importou com Alwyn.

Pegando cobertas pra ele, o abraçando, e ficando com ele. Ela não falava nada gentil, isso era fato. Mas, na verdade isso não o incomodava. Na verdade, até o fazia simpatizar mais com a menor.

Os pequenos atos que ela fazia, e a pequena presença dela, se juntavam numa grande bola de gentileza e carinho.

Nisso, ficaram Alwyn, chorando no banheiro, enquanto China o suportava silenciosamente.

•••

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.